Nelson Motta



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”Ferro na boneca” era o carro-chefe do disco, baseado na expressão popularizada pelo radialista futebolístico baiano França Teixeira. Um rock animado, malandro, tropical. Mas não era tropicalista, era já uma outra coisa:

”Não, não é uma estrada, é uma viagem, tão, tão viva quanto a morte, não tem sul nem norte, nem passagem...”

”Ferro na boneca” foi um sucesso no meio musical, entre os pirados, friques (como os baianos chamavam os ”freaks”) e doidões do Rio, São Paulo e Salvador, mas não aconteceu comercialmente, vendeu pouco e a gravadora não quis fazer o segundo. E como seu protetor João Araújo tinha saído da RGE para ir para a recém-fundada Som Livre, ficaram ao relento. Levei-os para a Philips e André Midani aceitou experimentar, mas pediu que antes do Lp fizéssemos um compacto-duplo, com quatro faixas: Os Novos Baianos no final do juízo.

Um desastre completo. Embora as músicas fossem boas (especialmente ”Dê um rolé”) e fossem ótimos os músicos, eles estavam ainda mais roqueiros e pesados do que no primeiro disco, tocando mais alto e mais distorcido, e foi impossível gravar o que eles tocavam com fidelidade. No pequeno estúdio de quatro canais da Philips, em cima do Cineac Trianon, eles tocaram como se estivessem em Londres, e como no Brasil ainda não se sabia gravar rock, especialmente mais pesado, a gravação ficou péssima e a mixagem uma porcaria, os sons empastelados, uma lambança sonora produzida por minha incompetência técnica, só superada pela do engenheiro de som. Mas as gravações foram divertidíssimas, quilos de maconha foram consumidos, houve sempre grande alegria e ótima música. Só que o que a gente ouvia não era o que ficava gravado. O disco fracassou completamente e durante algum tempo eles ficaram chateados comigo. Galvão, paranóico e conspiratório, dizia que eu tinha ”sabotado” o disco, o que era um absurdo: eu podia ser, ou estar, meio louco, mas não era burro. Depois eles compreenderam que foi só incompetência e inexperiência minha, somadas à ansiedade e ignorância técnica deles. Deu no que deu. O Lp nunca aconteceu e eles ficaram novamente no desvio.

Os Novos Baianos moravam em comunidade num amplo apartamento em Botafogo, com suas guitarras, baterias, almas e bagagens.

Nos cômodos eles armaram tendas de panos coloridos e cada um tinha a sua ”casa”, cuidava dela, recebia seus amigos, namorava, ficava sozinho. Elétricos, lisérgicos, canábicos e talentosíssimos, os Novos Baianos faziam música dia e noite, tinham incontáveis amigos e a geladeira sempre cheia — e sempre vazia. Uma noite eles receberam uma visita surpreendente, mas esperadíssima.

Mas antes levaram um susto: o baixista Dadi, de 19 anos, foi abrir a porta e, quando viu aquele senhor de paletó e óculos, muito sério, virou para dentro e avisou:

”Ih, pessoal, sujou: acho que é cana.”

Mas não era: João Gilberto foi recebido como um messias no apartamento-comunidade de Botafogo.

Conterrâneo de Galvão, de Juazeiro, João tinha finalmente aceitado o insistente convite. Naquela noite, de surpresa, ele foi. E se esbaldou.

Quem achava que conhecia João, seu minimalismo e sua sutileza, achou que era mentira ou no mínimo absolutamente improvável que ele tivesse se encontrado, ainda que brevemente, com um bando de roqueiros elétricos e barulhentos: era tudo o que João abominava, pensavam eles. Que os Novos Baianos estivessem interessados em conhecer João Gilberto é compreensível: Galvão era seu fã, ou melhor, devoto, desde Juazeiro, e tinha estado no apartamento de João no Leblon, em êxtase místico. Paulinho Boca de Cantor, Baby Consuelo e Moraes Moreira estavam loucos para conhecê-lo. Mas uma das grandes perguntas não respondidas da música brasileira — e que mudou seus rumos — continua sendo: O que João Gilberto foi fazer no apartamento dos Novos Baianos?

E, no entanto, ele estava lá, cantando alegremente, quemquem, seduzindo os roqueiros rebeldes e elétricos com seu charme sertanejo e sua disciplina libertária, com sua arte rigorosa e acústica, feita de música e de silêncios. O culto a Jimi Hendrix sofreu forte abalo na comunidade de Botafogo naquela noite.

Algumas visitas depois, com todos em volta de João e seu violão, ouvindo fascinados uma história viva da música brasileira, bandolins e cavaquinhos começaram a dividir espaço com as guitarras, discos de Jacob do Bandolim e Waldyr Azevedo dividiam o toca-discos com os de Jimi Hendrix e Janis Joplin. Era uma revolução dentro da revolução, uma síntese pra lá de dialética.

Quando se mudaram para um sonhado sítio (com campo de futebol) em Jacarepaguá, graças a um contrato com a Som Livre, para onde os levou o amigo João Araújo, eles estavam prontos para desenvolver seu novo som. A música dos Novos Baianos integrava os ritmos e as sonoridades acústicas nacionais com as estridências e distorções das guitarras planetárias — um heavy-samba que misturava os mestres brasileiros com os sons internacionais e resultou num dos melhores discos da história do pop nacional: Acabou chorare.

Clássicos instantâneos como ”Preta pretinha” e ”Besta é tu” eram obrigatórios em qualquer roda em que houvesse um violão. Os desbundados, os doidões pós-tropicalistas, viraram estrelas, se tornaram presença constante nos happenings televisivos do Chacrinha, identificados com a atmosfera anárquica e carnavalesca do ”Velho Palhaço”, venderam milhares de discos, mostraram a todo o Brasil sua música e seu estilo de vida.

Mais que uma banda, uma família ou uma tribo, eles eram os ”Novos Baianos Futebol Clube”, virando o jogo da MPB e dando uma goleada musical, um show de bola.

Apesar do fracasso retumbante do festival do ano anterior, quando os principais compositores retiraram suas músicas, a TV Globo insistiu e, junto com as gravadoras, abriu o festival de 1972

para revelar novos talentos. E revelou um, grande.

O Maracanãzinho delirou com aquele magrelo topetudo que tocava sua guitarra e dançava como Elvis Presley e depois xaxava como Luiz Gonzaga e na sua música fazia uma crítica debochada e inteligente do confronto musical entre o rock e a música brasileira.

Na primeira parte, toda em inglês, Raul Seixas cantava rock, na segunda virava baião, e era tudo a mesma coisa:

”Let me sing, let me sing, let me sing my blues and go.

Tenho quarenta e oito quilos certos \ quarenta e oito quilos de baião não vou cantar como a cigarra canta mas desse meu canto eu não abro mão: Let me sing, let me sing...”

Raul era baiano, mas fazia questão de dizer que não era nem dos novos nem dos velhos — no caso, Caetano e Gil, que tinham 30 anos. Fundador e carteira número um do Elvis Presley Fã-Clube de Salvador, Raul detestava João Gilberto e achava uma chatice o que faziam Gil e Caetano. Claro: ele era o líder e crooner da banda Raulzito e os Panteras, que animava os bailes jovens de Salvador no fim dos anos 60. Mas a Bahia não era muito roqueira e ele veio para o Rio e começou a fazer músicas e a produzir discos de estrelas da jovem guarda como Jerry Adriani e Renato e seus Blue Caps na CBS.

Sempre como ”Raulzito”. Só virou Raul Seixas no Festival da Canção, quando o conheci nos camarins e logo gostei dele, de seu humor e seu jeito irreverente.

Inteligente e irônico, Raul era atrevido e desconfiado, anárquico e articulado, e engraçadíssimo. Com sua experiência com artistas populares e seu espírito rebelde e inovador, Raul, pós-tropicalista, somava a tradição ao futuro e quando gravou seu terceiro Lp, com músicas sensacionais como ”Al Capone” e ”Mosca na sopa”, lançou também um talentoso letrista, de alma roqueira e língua afiada: Paulo Coelho.

”Ei, Al Capone, vê se te emenda Já sabem do seu furo, nego No Imposto de Renda.

Ei, Al Capone, vê se te orienta Assim desta maneira, nego Chicago não agüenta Ei, Júlio Cesar, vê se não vai ao Senado Já sabem do teu plano para controlar o Estado.

Ei, Lampião, dá no pé, desapareça Pois eles vão à feira exibir tua cabeça...”

Paulo conheceu Raul quando editava com um amigo uma revista hippie underground, a 2001, e num fim de tarde recebeu a visita de um de seus raros leitores. De cabelos curtos, terno e gravata, óculos de grau, Raul se apresentou como um produtor da gravadora CBS, apaixonado por discos voadores. O artigo que o tinha interessado e levado à ”redação” em busca de mais informações era assinado por Augusto Figueiredo, que não existia, era um dos inúmeros pseudônimos que Paulo e seu amigo usavam para a infinidade de ”colaboradores” da revista. Em seu augusto nome, Paulo deu novas informações a um tímido e interessado Raul, que se entusiasmou e acabou convidando-o para jantar em sua casa para continuar a conversa. Com fome, Paulo aceitou. Mas estava menos interessado em discos voadores do que nos discos da CBS, de quem esperava conseguir um anúncio para a sua revista, por intermédio de Raul.

Raul tinha 25 anos e morava num apartamento pequeno e bem arrumadinho em Copacabana, que para os padrões hippies de Paulo era luxuoso. Era casado com Edith, uma americana filha de um pastor protestante, seu professor de inglês na Bahia. Na CBS, Raul produzia discos de artistas populares, trabalhava duro, ganhava dinheiro, tinha carteira assinada. Depois do jantar, Raul levou Paulo ao seu ”estúdio”, o quarto de empregada, e cantou com o violão algumas de suas músicas, entre elas ”Mosca na sopa” e ”Let Me Sing”. Completamente alheio ao mundo da música, Paulo não se impressionou. Só uma delas chamou sua atenção, uma balada romântica que dizia ”o teu sorriso me acordou mais do que mil manhãs”. Paulo adorou, pediu para Raul repetir várias vezes. Mas Raul, que via Paulo como um intelectual e um místico, dizia que não sabia fazer letras e convidou-o para ser seu parceiro.

Paulo, que via Raul como um próspero profissional, ficou animado mas não aceitou, porque também não sabia. Raul insistiu, Paulo ficou de tentar. Alguns dias depois, Raul recebeu uma ”letra” de Paulo para musicar: um longo e assimétrico bestialógico hippie, absolutamente imprestável. Mas Raul insistiu, pediu outra, mais curta e mais ritmada, mais sonora. Sugeriu que se encontrassem e fizessem juntos, música e letra. E fizeram ”Al Capone”. E depois ”Rockixe”, uma tentativa de misturar rock com maxixe, na seqüência do que Raul já tinha feito com o candomblé em ”Mosca na sopa”. Com Paulo, Raul se iniciava no mundo esotérico e no misticismo; com Raul, Paulo aprendia a fazer letra de música e entrava de cabeça no show business. Uma dupla do barulho.

Separado da filha do pastor, Raul casou-se com outra americana, Gloria Vaquer, irmã de seu guitarrista, deixou crescer a barba e o cabelo e mudou-se para um apartamento no Jardim de Alah, onde nasceu sua filha Scarlet. Lá fui visitá-lo muitas vezes, me diverti muito com suas histórias, suas mentiras, sua maledicência, sua megalomania, cheias de humor e auto-ironia. Com alma de farsante e fervilhante criatividade, Raul fazia músicas e planos a granel, teorizava com Paulo as bases de uma ”Sociedade Alternativa”, uma radicalização hippie, mais politizada e mais libertária, que em plena e feroz ditadura tinha como lema ”Faze o que tu queres, há de ser tudo da Lei”. No apartamento do Jardim de Alah, muitas vezes eu ficava tão fascinado pelo talento e as performances de Raul que o elogiava com entusiasmo de corpo presente. Ele encabulava e parecia se sentir meio incomodado, meio constrangido por ser levado a sério, e aí gostava de repetir:

”Olha aqui, Nelsówsky, eu não sou um cantor nem um compositor, eu sou um ator fazendo esses papéis.”

Dava uma pausa e completava, com sotaque baiano:

”Eu sou é um magro abusado.”

Além disso, era uma metamorfose ambulante, como cantava em uma de suas primeiras e melhores músicas:

”Quero dizer agora o oposto do que eu disse antes prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo...” No final de 1972, a Philips era a TV Globo (ou a velha Record dos musicais) das gravadoras. Nosso anúncio de fim de ano, imenso nos jornais e revistas, foi afrontoso à concorrência: todos os nossos artistas reunidos numa foto e a frase provocativa:

”Só nos falta o Roberto.”

Era (quase) verdade: todos os grandes, menos ”Ele”, que era da CBS (e Milton Nascimento, que era da Odeon, e que André fingiu desprezar), eram da Philips: Elis, Nara, Caetano, Gil, Gal, Os Mutantes, Chico, Vinícius, Erasmo, Jorge Ben, Tim Maia, Raul Seixas, Maria Bethânia, Ivan Lins e outros que formavam a ”seleção brasileira da música” (no caso, desfalcada de Pelé). Embora Pelé, o próprio, até ele, tivesse gravado na Philips um compacto duplo com Elis Regina, que passou longe do gol.

Em dois anos André Midani e seus, como ele chamava, com seu sotaque francês, ”mininos” fizeram da Philips a maior gravadora do Brasil.

Mas André queria mais, além do Roberto: queria descobrir a fórmula do sucesso, como um alquimista do disco, queria descobrir os mecanismos e fatores que determinam o sucesso e fracasso de um artista e de suas músicas. Ele, que tinha contratado todos os melhores, queria descobrir o que todos eles tinham em comum, o que os fazia queridos do público, por que eles faziam tanto sucesso.

Em conversas com o amigo Paulo Alberto Monteiro de Barros, que tinha voltado do exílio no Chile e assinava como Arthur da Távola uma coluna sobre televisão na Última Hora, André ficou interessadíssimo nas leituras semióticas e teorias junguianas do ”inconsciente coletivo”, que Paulo Alberto estava estudando apaixonadamente. Era a peça que faltava: André começava a montar seu laboratório de pesquisa alquímica-musical, para descobrir como se transformava vinil em ouro.

Em grande sigilo, além de Paulo Alberto, convidou os jornalistas Zuenir Ventura e João Luiz Albuquerque, o escritor Rubem Fonseca, a jornalista Dorrit Harazin e o analista e pesquisador de mercado Homero Icaza Sanchez, conhecido como o ”brujo” das pesquisas de audiência e da estratégia de programação vitoriosa da TV Globo, que não ”entendiam” nada de música — mas de gente — e juntou-os comigo e com o principal produtor da Philips, Armando Pittigliani, descobridor de Elis Regina e Jorge Ben, num eclético ”Grupo de Trabalho”.

O assunto, por todos os motivos, era top secret: as reuniões seriam fora da Philips, na calada da tarde, numa suíte de hotel no Leme e durariam três horas: cada semana um artista da Philips seria entrevistado por nós, contaria ”tudo” da sua vida, e na reunião seguinte nós analisaríamos e debateríamos as informações, procurando identificar as relações entre a personalidade, o caráter, as forças e as fragilidades do artista — e as músicas que fazia, os assuntos que escolhia — e o gosto popular. A idéia era encontrar os pontos em comum entre todos aqueles artistas — tão diferentes, com origens e histórias pessoais tão diversas — e o sucesso que faziam: a pedra filosofal da indústria do disco.

Claro que não se encontrou nenhuma ”fórmula do sucesso”, mas foram tempos divertidíssimos, em ótima companhia. Ouvindo em ”confissões” exclusivas os maiores artistas da música brasileira, batendo papo com gente inteligente e informada, trocando idéias e aprendendo: sobre a música, o mercado e a natureza humana. E sua imprevisibilidade. Mesmo com toda a ajuda da legendária Dra.

Nise da Silveira, grande autoridade junguiana, especialista em ”inconsciente coletivo”, com quem nos reunimos algumas vezes, não se chegou a nenhuma conclusão. Parecia coisa de maluco, mas como o futuro alquimista de Paulo Coelho, André encontrou um tesouro durante a sua própria procura. Como nenhum outro homem de disco no Brasil, ele passou a dispor de tantas informações e análises sobre os artistas e suas músicas e o mercado musical, que tornou ainda mais eficiente o seu já avassalador marketing, consolidando a Philips como a nº 1 do país.

Numa das reuniões do ”Grupo de Trabalho”, Raul Seixas e seu parceiro Paulo Coelho, os dois de barba e óculos escuros, vestindo uma espécie de farda militar caqui, com botas até os joelhos, deram um inesquecível show de talento e farsa, de audácia e competência.

A entrevista deles seria diferente, porque antes de começarem a falar sobre suas vidas, Paulo e Raul queriam fazer uma apresentação de suas idéias e planos. Diante do quadro-negro, como um professor, com absoluta fluência e segurança, aparentando total familiaridade com o tema e até com uma certa nonchalance, Paulo explicou em alguns minutos, através de mitos egípcios e persas (que ia escrevendo no quadro-negro), a origem do mundo e da humanidade. E a existência de Deus, naturalmente. Era só o começo.

O grupo ficou besta, diante de uma farsa tão divertida e competente, de uma dupla de tanto talento, tão rock’n’roll.

”Eu sou astrólogo, eu sou astrólogo, vocês precisam acreditar em mim, eu sou astrólogo, e conheço história do princípio ao fim.”

Era como eles cantavam com sinceridade em ”Al Capone”.

Raul e Paulo, estourando um sucesso atrás do outro, atingindo o Brasil de A a Z, ídolos de pirados, friques e doidões do Oiapoque ao Chuí, estavam mergulhados em seu maior projeto: a ”Sociedade Alternativa”. Fizeram até um hino, um hino-rock, um grito de guerra, que o público cantava com entusiasmo nos shows. Era um manifesto anárquico e libertário, alegre e divertido, absolutamente subversivo por qualquer critério. Nos shows, o público gritava de punhos cerrados:

”Viva! Viva! Viva a Sociedade Alternativa!”

E Raul respondia:

”Faze o que tu queres, pois é tudo da lei.”

O problema era que Raul e Paulo queriam materializar a ”Sociedade Alternativa”, comprar um grande terreno no interior, construir a ”Cidade das Estrelas”, organizar uma comunidade com regras e estatutos baseados na doutrina satânica de Aliester Crowley, fazer um jornalzinho, promover shows e reuniões: a sociedade, de alternativa, virava civil, com CGC e tudo. E colocava a dupla no radar da paranóia militar.

As tardes na Philips continuavam animadas. No estúdio, recebemos uma visita especial: diversos executivos da matriz holandesa que faziam uma visita à filial brasileira, para ver de perto o que eles estavam considerando um fenômeno de sucesso e lucratividade.

Tim Maia, que estava gravando, saiu discretamente para fumar um baseado no seu ”garrastazu”, que era como ele chamava um esconderijo, um mocó, um lugar secreto, dizendo com grande lógica que era a palavra mais ”limpeza” que existia, a que menos despertava suspeitas. Claro: era o nome do ditador-presidente, general Emílio Garrastazu Médici. O ”garrastazu” de Tim era uma salinha escura, úmida e de difícil acesso, cheia de canos e bombas, onde ele fumou tranqüilamente seu baseado, sem nem desconfiar que estava na central do ar condicionado: não só o estúdio como o andar inteiro foram invadidos por um cheiro de maconha como nem nas ruas de Amsterdam se sentia. Meio constrangidos, os diretores brasileiros explicaram aos holandeses que Tim, além de muito peculiar, era o maior vendedor de discos da companhia — e eles acharam tudo muito divertido.

Mas Tim estava preocupado: tinha comprado um terreno no alto do Sacopã, com uma bela vista para a Lagoa, e construído uma casa destinada a ser a sede de sua gravadora Seroma (Sebastião Rodrigues Maia). Deu tudo certo. O único problema é que Tim tinha construído a casa não no seu terreno, mas no do vizinho, que entrou imediatamente com uma inédita ação de despejo. Acabou comprando o terreno do vizinho por um preço absurdo e vendendo o seu baratíssimo.

Em Ipanema, no final do ano, o poeta Torquato Neto, uma das forças criativas do tropicalismo, autor de algumas de suas melhores letras e companheiro de Gil e Caetano no exílio em Londres, fechou as portas e janelas de seu apartamento e abriu o gás. Não foram só musicais as grandes transformações de Elis depois da separação de Ronaldo e do início do namoro com César Mariano. Pessoalmente, ela começou a sofrer as conseqüências da radicalização política quando foi convidada — junto com outros artistas — para cantar nas Olimpíadas do Exército.

Um convite como esse era virtualmente indeclinável. O coronel encarregado do evento ligava para o empresário do artista e convocava, amavelmente. No caso do artista ”já ter compromisso”, se dispunha a ”interceder” com o clube que já tinha contratado um show no mesmo dia, convencê-lo a mudar a data, num tempo em que qualquer patente militar ao telefone já fazia tremer o interlocutor.

Pagava o cachê normal do artista. Mandava buscar e levar em casa. Para recusar, só mesmo dizendo que não cantava para o inimigo. E Elis cantou.

Foi chamada de traidora, amaldiçoada no meio musical, colocada no temido ”cemitério dos mortosvivos” que o cartunista Henfil mantinha no Pasquim. Ficou furiosa, mudou drasticamente de atitude e passou a acrescentar uma nova prioridade a seu repertório: músicas com letras políticas, mesmo que metafóricas. Mudou-se para São Paulo e saiu da TV Globo. Caiu na estrada, de ônibus, com músicos, técnicos, produtores e assistentes, se apresentando em 36 cidades do interior de São Paulo, no que imaginava ser um circuito alternativo, de estudantes. Como Bob Dylan e Joan Baez, ela queria cruzar o país com seu pessoal, como uma família, cantando para os jovens e rebeldes, conversando com eles, cantando pela liberdade e pela resistência democrática.

Mas não foi nada disto: a turnê, organizada a seu pedido pelo empresário Marcos Lázaro, não tinha shows em clubes — que Elis detestava, achava caretas e comerciais —, só em ginásios e grandes auditórios.

Mas o público não era de estudantes, como ela esperava: os ingressos eram caros e era o mesmo pessoal que a assistiria nos clubes que ela desprezava, que gritava para que ela cantasse ”Upa neguinho”, ”Madalena” e ”Quaquaraquaquá”, tudo o que ela não queria. No final da turnê, rompeu seu contrato de dez anos com Marcos Lázaro, não queria mais ser uma cantora ”comercial”, queria prestígio e independência — e redenção política. No novo disco gravou quatro músicas da nova sensação de compositor, o mineiro João Bosco, sofisticadíssimas, com letras de alto nível artístico e político de Aldyr Blanc, mais quatro de Gilberto Gil, reflexões existenciais como ”Oriente” (”Se oriente, rapaz...”), que abria o disco.

Para completar, dois velhos sambas, talvez as melhores faixas do Lp. ”Folhas secas”, uma obraprima, das últimas, do veterano Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, e um samba de velhos carnavais, um clássico popular de Pedro Caetano: ”É com esse que eu vou”. Com essas duas gravações perfeitas, Elis cristalizava um estilo de cantar samba, oposto à estridência jazzística de Samba eu canto — assim e à exuberância rítmica dos sambões de Baden Powell e Paulo César Pinheiro. Mínima, discreta, sintética, Elis escondia as sílabas com dicção perfeita, dava menos volume à voz, sofisticava as divisões rítmicas, valorizava os silêncios, não desperdiçava nada. Epa! Parece que ela — finalmente — também se rendeu à magia de João Gilberto. Uma parte do seu público sentiu como ”frieza” e ”distanciamento” esse novo jeito de Elis cantar samba; outra encantou-se com seu refinamento e sutileza, combinados com uma soberba base musical, liderada pelo piano de César, valorizando as harmonias elegantes num ritmo irresistível.

Mas, cinco anos antes, por causa de um samba, Elis provocou a ira — certamente silenciosa — de João Gilberto.

João tinha criado um arranjo — vocal e instrumental — absolutamente inovador e magistral para o velho e esquecido samba ”Nega do cabelo duro”, de Rubens Soares e David Nasser. Suas divisões rítmicas, suas seqüências de acordes surpreendentes transformavam a música completamente.

João tinha criado uma pequena obra-prima, mais uma. Empolgado, cantava-a para amigos, em casa, pelo telefone. Até que um deles, provavelmente uma, com bom ouvido e memória musical, de tanto ver João tocar e cantar, aprendeu tudo tintim por tintim. E, empolgada, mostrou ao amigo Roberto Menescal, que, mais empolgado ainda, mostrou para César e Elis, que, empolgadíssima, aprendeu e gravou, tal e qual o original. João se sentiu roubado, passou a ter um cuidado quase paranóico com o que mostrar e a quem, se aperfeiçoando na arte de jamais tocar duas vezes a mesma música com os mesmos acordes. Mas era tarde demais: o bem já estava feito.




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