Nelson Motta



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”Father Cícer! Fa-ther Cí-cer! Father Cícer!” Foi um dos grandes sucessos da novela. Assim como o seu primeiro Lp, que se tornou um dos mais tocados, vendidos e elogiados do ano. Roqueiros e emepebistas, baianos e sambistas tinham que aturar: o homem era um monstro, público e crítica concordavam.

Ninguém cantava melhor do que ele ou tinha aquela voz e aquele suingue, poucos tinham como ele a capacidade de montar todo um arranjo de orquestra, com riffs de metais e quebradas de ritmo, sem saber uma nota de música, dizendo ”de boca” o que o maestro tinha que escrever. Poucas fusões musicais foram tão naturais e eficientes como a sua Motown do sertão, poucos tinham como ele a capacidade de fazer dançar e de inspirar romances.

Entre outros talentos, Tim parecia saber os segredos do sucesso, como agradar à alma popular, como fazer uma música brasileira internacional, unindo o seu fraseado e seus arranjos muito sofisticados a suas músicas e letras muito populares.

Tim foi a Londres e se esbaldou. Fumou, cheirou, bebeu, viajou de ácido, ouviu música, brigou com a mulher — tudo muito — e voltou para o Brasil com 200 doses de LSD para distribuir aos amigos.

Assim que chegou foi à Philips, que ele chamava de ”Flips”, onde visitou diversos departamentos, começando pelos que considerava mais caretas, como a contabilidade e o jurídico, onde cumprimentava o titular e repetia o mesmo discurso, com voz pausada e amistosa:

”Isto aqui é um LSD, que vai abrir sua cabeça, melhorar a sua vida, fazer de você uma pessoa feliz.

É muito simples: não tem contra-indicações, não provoca dependência e só faz bem.

Toma-se assim.”

Jogava um ácido na boca e deixava um outro na mesa do funcionário atônito. Como era um dos maiores vendedores de discos da companhia, todo mundo achou graça. No departamento de produção e de imprensa, os presentes fizeram sucesso. Até André Midani, o presidente da companhia, recebeu o seu. E Tim voltou para casa viajandão, dirigindo seu jipe e certo de que tinha salvado a alma da ”Flips”. Depois de oito anos nos Estados Unidos e no México, João Gilberto voltou ao Rio de Janeiro, contratado por Ricardo Amaral para fazer um show numa cervejaria recém-inaugurada em Botafogo, o Canecão. E daria, pela primeira vez na vida, uma entrevista para a televisão. Como repórter da TV Globo e com o melhor cinegrafista da casa, Roberto Padula, cheguei à cobertura de Amaral, no Leblon, no meio da tarde. João já estava lá, animado e sorridente, feliz em reencontrar a beleza do Rio.

No terraço, na linda luz da tarde carioca, conversamos por dez minutos diante da câmera de Padula e dos sorrisos de Amaral. Sobre música, naturalmente. João respondia com simpatia, mas com pouco mais que monossílabos, mas não importava: era o suficiente para mostrar ao Brasil que o mito falava.

Com o coração aos pulos, voltei correndo para a TV Globo para revelar e editar o material na moviola, a tempo de entrar no ”Jornal nacional”. Roendo as unhas, esperei na porta do laboratório, ansioso para ver o filme ainda úmido da revelação.

Quando o laboratorista me entregou a lata e disse pesaroso que, por um defeito na câmera, o material estava inutilizado, pensei que era brincadeira. Mas era verdade: no filme inteiro não havia nenhuma imagem impressa e nenhum som gravado.

João se divertiu muito quando lhe contei a história e, no dia seguinte, passou a tarde e a noite no Canecão, testando o som. A cervejaria era pouco mais que um galpão de concreto e zinco, com péssima acústica e um sistema de som precário que reverberava por toda a casa. De madrugada, João desistiu. Cancelou o show e voou de volta para Nova York. O trabalho com Elis na produção do disco, surpreendentemente, transcorreu na mais absoluta paz e harmonia. E mais: ela se entregou com entusiasmo e confiança, com prazer e alegria. Em nenhum momento, nenhuma vez, respondeu a qualquer sugestão com rispidez, com palavrões e gritos — como era seu estilo com Ronaldo e com quase todo mundo com quem trabalhava. Aceitava muitas idéias, recusava outras, com delicadeza e tranqüilidade. Perguntava muito, queria saber as novidades, o que estavam fazendo os jovens americanos e ingleses, o que havia de novo no Brasil. Desde o primeiro momento deixei claro que meu objetivo não era dirigi-la mas ajudá-la a escolher o que fosse melhor para ela, naquele momento, oferecer-lhe opções e alternativas. Ela queria mudar, precisava mudar, mas não faria — como nunca fez — uma mudança radical, mas um avanço calculado, um disco de transição. Com sambas de Baden Powell e Jorge Ben, como sempre, e com Roberto, Erasmo, Gil, Caetano e Tim Maia como novidade.

Deu certo: o samba de Baden estourou nas rádios populares e as novidades reaproximaram Elis do público mais jovem e inquieto — que começava a migrar em massa para Gal Costa, a nova musa do underground, com uma postura roqueira e sensual, cantando um repertório mais jovem e audacioso.

Com Gil e Caetano no exílio, era Gal quem carregava a chama do tropicalismo. Começava-se até a discutir quem era melhor, mas decididamente Gal era considerada mais moderna do que Elis.

Elis tinha 24 anos, uma exuberância e uma potência vocais, um estilo explosivo de cantar para fora muito mais adequados aos rocks e blues e às outras modernidades que Gal cantava, com sua voz suave e intimista, sua origem gilbertiana, suas sutilezas minimalistas.

Mas era Gal quem gritava, quem botava para fora, quem cantava mais alto para os ouvidos mais jovens. Elis estava preocupada.

Uma tarde na Philips encontrei Ivan Lins, perguntei as novidades, ele sentou ao piano e tocou um samba sensacional, balançado e percussivo. Gravei e levei correndo para Elis, que imediatamente percebeu o tamanho da encrenca, chamamos os músicos e marcamos o estúdio. Lançado em compacto, ”Madalena” foi um dos maiores sucessos populares do ano, um dos maiores de sua carreira. Elis se sentia jovem e moderna, podia — e queria — ir adiante.

Ronaldo não estava gostando muito das mudanças, fazia piadas com a ânsia de modernidade de Elis, mas o sucesso dos discos contrariava seus argumentos.

Quando os advogados da Philips mandaram aquela música para a aprovação da Censura Federal, mesmo se tivessem tomado os ácidos de Tim, não tinham a menor expectativa de liberação.

Mas o censor cochilou, ou era muito burro, ou não notou que a música era de Chico Buarque. E ”Apesar de você” foi liberada e gravada imediatamente. Assim que as rádios começaram a tocar, tornou-se um sucesso instantâneo, o disco começou a vender como A banda. Ninguém acreditava no que ouvia: um samba extrovertido, guerreiro, alegre, dizendo o que tanta gente queria dizer e ouvir: era um recado à ditadura, corajoso, abusado, contundente, num grande samba que lavou a nossa alma:

”Apesar de você amanhã há de ser outro dia e eu pergunto a você onde vai se esconder da enorme euforia, como vai proibir quando o galo insistir em cantar...

... você vai pagar e é dobrado cada lágrima rolada nesse meu penar.” Em poucos dias o Brasil inteiro estava cantando ”Apesar de você”, como um hino da resistência, como um desafio e uma esperança, a primeira que experimentávamos desde 1969. Mas a alegria durou pouco: os militares não eram burros como o censor e logo perceberam o tamanho da encrenca e tomaram providências: a música foi sumariamente interditada e os discos confiscados.

Mas já era tarde: mais de 100 mil discos já tinham sido vendidos e mesmo que a música não tocasse mais no rádio todo mundo já tinha aprendido e cantava, cada vez mais, com mais força, em qualquer lugar, a qualquer pretexto.

Pela segunda vez André Midani viu a fábrica de discos da Philips, no Alto da Boa Vista, cercada por tropas do Exército. A primeira tinha sido quando ”Je t’aime moi non plus”, um dueto erótico de Serge Gainsburg e Jane Birkin, foi proibida pela Censura e André, recém-chegado ao Brasil, achou que podia empurrar com a barriga e ir enrolando enquanto o disco vendia. Os discos foram recolhidos, ele levou uma descompostura de um coronel furibundo e quase foi preso. Com ”Apesar de você” não foi muito diferente: com a habitual truculência, a fábrica foi invadida e todos os discos com a música de Chico foram apreendidos e destruídos. Menos a matriz...

”Apesar de você” era a proibição mais pública do Brasil, o que a fazia ainda mais popular.

Chico, mais uma vez, foi chamado a dar explicações e, cínica e deslavadamente, disse a seu interrogador que o samba era para uma mulher muito mandona e muito autoritária. E era impossível provar que não fosse. Gol de placa da guerrilha cultural.

Com a vitória brasileira na Copa do Mundo e o boom econômico, que beneficiava a classe média, o governo militar promoveu uma agressiva campanha nacionalista — ”Brasil, ame-o ou deixe-o” — e apertou a repressão. As rádios tocavam o dia inteiro ”Pra frente, Brasil” e ”Eu te amo, meu Brasil”, uma marchinha ufanista e oportunista dos jovem-guardistas Dom e Ravel, que foram execrados e banidos pelo mundo musical brasileiro por alta traição. ”Apesar de você” era a nossa resposta. Dois meses depois da Copa, nasceu minha primeira filha, Joana. Assim que ela e Mônica voltaram para casa, fui para São Paulo para trabalhar para a TV Globo numa eliminatória do festival. No dia seguinte fui chamado de volta às pressas e encontrei um quadro sinistro: Mônica estava internada em estado gravíssimo — tinha tétano, contraído na sala de parto da Beneficência Portuguesa, e poucas esperanças de se salvar.

O caso era desesperador: o tétano é uma infecção muito agressiva que ataca o sistema nervoso, provocando contrações musculares violentíssimas, capazes de quebrar ossos e provocar paradas respiratórias e cardíacas. Praticamente extinta nos Estados Unidos e na Europa, a doença não teve progressos nos seus tratamentos: além de doses maciças de antibióticos, manter o paciente sedado em uma espécie de coma induzido, em total imobilidade, silêncio e escuridão absolutos — o mais leve estímulo sonoro ou luminoso pode desencadear uma onda de contrações musculares e todas as suas terríveis conseqüências.

Os médicos que mais entendiam do assunto trabalhavam num pequeno e modestíssimo hospital de doenças tropicais, na vizinhança da zona de meretrício do Mangue, onde Mônica poderia ser melhor tratada.

Durante dois meses, eu, minha família e a dela e muitos amigos nos revezamos dia e noite, na porta do hospital. Não havia quartos para acompanhantes e nem salas de espera, as tênues chances de Mônica se salvar dependiam de seu completo isolamento e da dedicação e competência dos médicos. Da vontade de Deus.

Minha vida virou pelo avesso. Passava as noites no carro, na porta do hospital, várias vezes fui chamado por meu pai e pelos médicos para me dizerem que me preparasse para o pior. Mônica enfrentou paradas cardíacas e respiratórias, quase morreu várias vezes, mas sobreviveu. Quase três meses depois voltou para casa, onde foi recebida com uma grande festa-surpresa por seus incontáveis amigos, entre eles Vinícius, Otto Lara Rezende, Walter Clark, Ronaldo e Elis.

Nem bem Mônica tinha voltado para casa, no início da noite de um sábado, fui surpreendido por visitantes ríspidos e mal-encarados.

Quatro policiais, à paisana e fortemente armados, me dizendo que eu estava preso, à disposição do Exército. nada mais foi dito, por mais que eu tentasse perguntar. Falei que não tinha nada a esconder, que não fazia parte de nenhum grupo, que as minhas opiniões eram as que eu dava no jornal e na televisão — e que isso não era crime. Que minha mulher estava recém-saída do hospital e que tínhamos uma filha recém-nascida. Nada. Pedi para dar um telefonema. Meu pai advogado estava fora da cidade e liguei para meu avô, que não só era ministro do Supremo Tribunal Federal como por graça divina morava no mesmo prédio, quatro andares acima: se morasse um pouco mais longe, ninguém saberia sequer para onde eu tinha sido levado. Foi a minha sorte: o velho Motta pegou um táxi e seguiu os carros que me levaram até o DOPS, na Rua da Relação. Lá, fiquei trancado em uma sala por horas, enquanto meu avô parlamentava com o general França, que era o secretário de Segurança. No meio da madrugada, ele entrou na sala com um policial que disse que podíamos ir para casa, que devido à situação de minha mulher e minha filha eu estava liberado e que seria chamado num outro dia para prestar depoimento, mas que não poderia sair da cidade.

Nos dias seguintes, o pessoal do Pasquim começou a ser preso, entre eles vários amigos próximos como Ziraldo, Sérgio Cabral e Paulo Francis. Embora só colaborasse no Pasquim muito de vez em quando, comecei a achar que minha prisão tinha alguma coisa a ver com eles, talvez eu fizesse parte do mesmo ”arrastão”. Foram todos presos, menos Tarso de Castro, que era o diretor. Caçado pela polícia, onde Tarso foi se esconder? Num dos lugares menos recomendáveis: na minha casa.

Lá ficou por dois dias — com meu pai furioso com a nossa irresponsabilidade. Mas o cerco apertou e quando a polícia prendeu sua mulher, Bárbara Oppenheimer, Tarso achou melhor se entregar.

Apavorado, não saí da cidade por um bom tempo e aguardava a qualquer momento o temido telefonema me chamando para depor — que acabou nunca acontecendo. Nunca fiquei sabendo por que fui preso. Elis e eu começamos a trabalhar com grande entusiasmo no novo disco. Estimulados pelo sucesso do Lp Em pleno verãoe do compacto de ”Madalena”, mergulhamos num mar de músicas e de idéias. Cada vez mais próximos, nos entendíamos cada vez melhor, estávamos juntos tentando fazer o mais bonito, procurando os novos compositores, ouvindo as novidades internacionais, nos sintonizando com a juventude e os sonhos de nossa geração. O ”Véio”, cada vez mais distante, rabugento e conservador, passava a maior parte do tempo em São Paulo, trabalhando na TV Record e no Blow Up, uma boate que tinha aberto com Miele na Rua Augusta. Mesmo assim, nunca ele e Elis brigaram tanto.

Numa noite quente de início de verão, fui visitar Elis na sua casa branca da Avenida Niemeyer, com Joyce e seu namorado.

Convidei-a a mostrar suas novas músicas para Elis, que tinha gravado ”Copacabana velha de guerra” (dela e de Sérgio Flaksman) no disco anterior e estava procurando novidades para o próximo.

Novidade mesmo era a mescalina que Tim Maia tinha me dado. Segundo ele, era a mesma coisa que um LSD, só que orgânico, natural, mais leve. Ronaldo estava em São Paulo e nós no terraço marroquino que ocupava todo o teto da casa da Niemeyer, de frente para o mar. Dividimos a mescalina em quatro, tomamos e ficamos nas espreguiçadeiras ouvindo música e olhando as estrelas da noite carioca. De repente tudo ficou diferente, a música, as vozes, o vento, os cheiros e ruídos da noite, nossos rostos e corpos. Tudo parecia mais leve, mais claro, mais sensível. Falamos bobagens, fizemos planos absurdos e rimos durante muito tempo, dentro de um tempo que parecia suspenso, envolvidos por uma sensação de segurança e aconchego, de amor e de fraternidade, como era esperado nas viagens lisérgicas em busca de uma ”nova consciência”. No fim da madrugada começou a esfriar, nos juntamos todos em duas espreguiçadeiras e nos cobrimos com uma manta.Pouco antes do dia nascer, Joyce e o namorado foram embora. Ficamos abraçados debaixo da manta e começamos a nos beijar.

Na manhã ensolarada, voltando para casa, minha cabeça e meu coração pareciam que iam explodir, simultaneamente. De alegria e de pavor. Completamente apaixonado por Elis e carregando uma culpa monstruosa, dirigi pelas curvas da Avenida Niemeyer sem saber se ria ou chorava, pensando em Ronaldo e em Mônica, nos nossos filhos João e Joana, no turbilhão pecaminoso em que tínhamos nos envolvido, e me perguntava se tudo tinha mesmo acontecido ou seria só um sonho ou um pesadelo. Ou uma viagem de mescalina que ainda não tinha acabado. Fiquei horas vagando sozinho pela casa. Mônica e Joana estavam em Cabo Frio e eu não conseguia parar de pensar em Elis e em todas as conseqüências de tudo aquilo. E o pior: não sabia sequer o que ela pensava e queria. E se tudo para ela não tivesse passado de uma explosão de carências numa viagem lisérgica, que tinha terminado ali? Ou se era mesmo para valer, se alguma coisa verdadeira tinha mesmo começado, por mais surpreendente e apavorante que fosse. Só quando Elis telefonou, à tarde, fiquei sabendo que, sim, minha vida não seria mais a mesma, sim. Como eu queria — e temia —, tudo o que tínhamos dito e feito estava valendo, sim.

Passei a viver entre o céu e o inferno, às vezes simultaneamente, fazendo o possível para não encontrar Ronaldo e o impossível para que Mônica não desconfiasse de nada. Sem despertar muitas suspeitas, podia estar sempre com Elis porque estava produzindo seu novo disco e porque também seria um dos produtores do novo musical da Globo, ”Som Livre exportação”, que ela apresentaria junto com Ivan Lins. Eu me sentia um canalha vocacional de Nelson Rodrigues. E o homem mais feliz do mundo.

O ”Som Livre” tinha participação fixa de Os Mutantes e das revelações do MAU — Movimento Artístico Universitário — Gonzaguinha, César Costa Filho, Aldyr Blanc e Ivan Lins, além de convidados especiais. Alguns especialíssimos, como Caetano Veloso, que recebeu uma autorização especial do governo para participar do programa e passar uns poucos dias na Bahia, onde fui entrevistá-lo para a TV Globo e matar saudades. A entrevista foi meio frustrante: quase tudo o que eu gostaria de perguntar ele não poderia responder.

Mas na gravação do programa, no Rio, ele surpreendeu o auditório jovem e roqueiro, que esperava dele algo elétrico, pesado, mais próximo de Os Mutantes do que de Elis e Ivan Lins. Ao contrário, sem gritos e nem guitarras, apenas se acompanhando ao violão, Caetano cantou, radicalmente gilbertiano, um antigo e belíssimo samba de Synval Silva, gravado por Carmen Miranda. Um clássico da música brasileira, uma obra-prima popular que quase ninguém naquele auditório conhecia. Foi um espanto:

”Adeus, adeus, meu pandeiro de samba, tamborim de bamba já é de madrugada vou me embora chorando com meu coração sorrindo...”

E voltou para o exílio.

Eu estava sempre com Elis, nos ensaios, gravações e viagens com o ”Som Livre exportação” para Belo Horizonte, Brasília e outras capitais. No Rio, de manhã cedo, nos encontrávamos secretamente no apartamento de um casal amigo, André Midani e Márcia Mendes, a mais bonita e popular apresentadora da TV Globo, minha colega no telejornal ”Hoje”. Ou então à tarde, na casa de Rogério, irmão de Elis, que detestava Ronaldo e nos protegia e dava cobertura.

Mas resisti muito pouco tempo à vida dupla e, soterrado de culpa, achei que resolveria metade do problema me separando de Mônica e saindo de casa, que deixei para ela e Joana com tudo o que tinha dentro. Fui morar na Lagoa, na cobertura do amigo Tato Taborda, um dos editores da Última Hora, onde já moravam duas outras amigas, Sônia Dias e Marta Costa Ribeiro, também recémseparadas.

O apartamento era um imenso duplex de cinco quartos, onde Tato vivia com a mulher, a jornalista Elizabeth Carvalho, e um filho adolescente, e se transformou em uma espécie de comunidade de divorciados. Nos fins de semana, o apartamento se enchia de amigos, e as viagens de ácido coletivas eram freqüentes, baseados rolavam permanentemente, Cat Stevens cantava horas seguidas no toca-discos, garças revoavam na Lagoa.

Elis começou a fazer análise com Hélio Pellegrino, se queixava cada vez mais de Ronaldo, dizia que ia se separar e, embora eu não perguntasse, várias vezes me disse que já tinha falado com o advogado Haroldo Lins e Silva para tratar do divórcio. Mas nada mudava, tudo continuava secreto e cada vez mais perigoso. Cada vez mais envolvido, eu sofria, não só de culpa, mas de ciúmes de Ronaldo.

Em abril foi lançado o Lp Ela, que gravamos durante o verão. Além da bela e sombria canção de César Costa Filho e Aldyr Blanc que dava título ao disco e de uma música nova e agressiva de Erasmo e Roberto, ”Mundo deserto”, Elis gravou os Beatles pela primeira vez — ”Golden Slumbers” —, numa de suas grandes performances em disco. E duas de Caetano, o fado ”Argonautas”, e uma regravação audaciosa, ”Cinema Olympia”, já gravada por Gal Costa espetacularmente e aclamada por crítica e público. Elis demorou bastante até aceitar o desafio e quando entrou no estúdio produziu uma interpretação vibrante, rasgada, roqueira. Pena que o arranjo de Erlon Chaves, gravado depois sobre a base, fosse totalmente equivocado (tinha até violinos em pizzicatto!) e nem ela nem seu produtor, talvez ocupados em namorar, se deram conta.

Os timbres e frases musicais eram antigos, jazzísticos, em total desconexão com a modernidade roqueira da música e, sem querer, ou por querer demais, Elis acabou fazendo apenas um ”cover” pobre do sucesso de Gal. Dois sambas de Baden Powell e Paulo César Pinheiro, ainda na linha ”trator na margarida”, adequadíssimos ao atual momento de guerra conjugal de Elis, garantiram o sucesso no rádio: ”Aviso aos navegantes” e ”Falei e disse”. Mas a música mais polêmica era dos louríssimos irmãos Valle, ”Black Is Beautiful”, uma estupenda balada soul de Marcos com uma letra provocativa e talvez um pouco excessiva de Paulo Sérgio. Elis soltava a voz em vibrato, como uma negona americana:

”Eu quero um homem de cor, um rei negro do Congo ou daqui. Que se integre com meu sangue europeu. Black is beautiful, black is beautiful, 1 black beauty is so peaceful, I wanna a black, a beautiful.”

No seu conceito básico e na abertura de seu repertório, o disco era muito parecido com o anterior e, mesmo bem-sucedido, não teve tanto sucesso, embora fosse tão bom quanto. Elis sabia disso e estava feliz. Eu também. Mas por pouco tempo. Durante esses poucos meses em que estivemos tão juntos nunca houve qualquer briga ou bate-boca entre nós, por qualquer motivo, pessoal ou artístico.

Conhecendo Elis e seu estilo, eu pensava às vezes em um milagre de amor. E em um encontro de interesses: eu estava mergulhado e ligado no movimento jovem internacional, nas profundas transformações por que passava a música no mundo, ansiava obsessivamente ir adiante, quebrar barreiras, abrir portas e janelas na cabeça e no coração oprimidos pela repressão política. Ela queria aprender, queria ir junto com sua geração para um lugar que não conhecia, queria ampliar seus limites, abrir seus horizontes, seu coração e sua voz.

Estava ficando cada vez mais difícil manter o romance em segredo. Eu tinha certeza que Ronaldo já sabia. E mais ainda quando me falaram da reação dele, ao saber dos boatos sobre o meu namoro com Elis. O ”Véio” fuzilou de bate-pronto, no seu melhor estilo:

”Finalmente Elis encontrou alguém à sua altura.”

Touché. Mesmo incendiado de raiva e de ciúmes dele, do alto de meus 1,67m explodi numa gargalhada. Mas a alegria durou pouco. Numa manhã cinzenta de outubro, depois de passar a noite com Elis, deixei-a em casa e fui trabalhar. Tínhamos planejado uma viagem ”secreta” para Londres, o paraíso de liberdade e modernidade de nossa geração. Na hora do almoço, Elis telefonou. Dura, seca, formal, com a voz mais grave do que nunca, estranhíssima. Disse que Ronaldo estava internado em uma clínica com depressão nervosa, que ela estava ao lado dele e, indignada, me responsabilizou pelos boatos absurdos de que estaríamos tendo um caso e me passou uma descompostura pelo atrevimento, reiterando de todas as formas e com todas as letras que não havia nem nunca houve nada entre nós. E desligou.

Perplexo, imaginei que poderia ser uma cena teatral, recitada sob pressão. Mas não: era verdade, era a sua escolha. Desesperado, tentei de todas as formas falar com ela, mandei recados por Rogério, pela mãe dela, dona Ercy, por amigos comuns, cheguei até a devolver por Rogério todas as muitas cartas que ela tinha me escrito, numa patética manobra para tentar sensibilizar sua memória afetiva. Em vão. Duas semanas depois, lendo e relendo as cópias xerox das cartas de Elis, fui para Londres sozinho e passei meu aniversário viajando de ácido com uma turma de doidões em Portobello Road. Desde Woodstock os jovens brasileiros passaram a ter um sonho obsessivo: seu próprio Woodstock, a fantasia de uma república independente de música e liberdade, a céu aberto, sem polícia e sem ladrões, sem pais e professores, em total harmonia e comunhão, todo mundo doidão.




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