Nelson Motta



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Nelson Motta

Noites Tropicais

solos, improvisos e memórias musicais

Para minha mãe, que me ensinou a amar a música, e meu pai, as letras.

Para Joana, Esperança e Nina Morena, filhas queridas, com amor e alegria.

Para Costanza, por tudo, sempre.

Mais grave!

Mais eco!

Mais retorno!

Mais tudo!

(Tim Maia)


Rio de Janeiro, 1957

Eu não gostava de música.

Só as de carnaval, nas chanchadas da Atlântida. O rádio era para futebol e programas humorísticos.

Com 13 anos, meus maiores interesses eram literários, esportivos e sexuais. A música, pelo menos a que se ouvia no rádio e nos discos, era insuportável para um adolescente de Copacabana no final dos anos 50. Boleros e sambas-canções falavam de encontros e desencontros amorosos infinitamente distantes de nossas vidas de praia e cinema, de livros e quadrinhos, de início da televisão e da ânsia de modernização.

Para nós, garotos de classe média de Copacabana, aqueles cantores da Rádio Nacional e suas grandes vozes, dizendo coisas que não nos interessavam em uma linguagem que não entendíamos, eram abomináveis. Gostávamos mesmo era de praia e futebol, de ver Pelé e Garrincha no Maracanã, dos folhetins de Nelson Rodrigues na Última Hora, das gostosonas da coluna de Stanislaw Ponte Preta, das crônicas de Antonio Maria sobre as noites cariocas, de pegar onda de peito no Arpoador, de romances de aventura e de comédias italianas. E de corridas de cavalos: meu grande ídolo era o jóquei Luiz Rigoni. Apostava - e perdia - no Jockey Club e nos bookmakers até o dinheiro que minha mãe me dava para o lanche no Colégio Santo Inácio. Com 14 anos comecei a nadar todos os dias de manhã nos infanto-juvenis do Fluminense e abandonei meu primeiro vício.

Mas naquelas férias de 1958, em São Paulo, não só comecei a fumar como ouvi num rádio de pilha Spica - a nova sensação tecnológica, novidade absoluta recém-chegada ao Brasil : - João Gilberto cantando, ”Chega de saudade”. Foi como um raio. Aquilo era diferente de tudo que eu já tinha ouvido, fiquei chocado, sem saber se tinha adorado ou detestado. Mas quanto mais ouvia, mais gostava. Na volta ao Rio comprei o disco, comi a cozinheira e abandonei a natação.

Além de sexo e futebol, só queria saber de João Gilberto e a bossa nova, que ninguém sabia bem o que era. Minha mãe também. Ela adorava música, compunha e tocava foxes e blues no piano, e estava fascinada com João e a nova música. Com ela e meu pai fui a um show no auditório da Escola Naval, a ”Operação bossa nova”, produzido e apresentado por Ronaldo Bôscoli, que vi pela primeira vez no palco, de terno e gravata, e achei charmosíssimo, explicando entre um número e outro que bossa nova era o moderno, o novo, o diferente, que era ”um estado de espírito”. Foi também onde vi e ouvi pela primeira vez Nara Leão, timidíssima, cantando de uma maneira que fiquei sem saber se gostava ou não. Mas sem dúvida queria ver de novo: ela era de uma beleza estranha, tinha uma bocona, uns olhos meio caídos que lhe davam um ar de musa existencialista, um cabelo muito liso e muito escuro e uma pele muito branca, um fio de voz e um charme discretíssimo, sem dúvida ela era diferente. A cara da bossa nova.

No show, Lúcio Alves, Alayde Costa e Sylvinha Telles (que eu conhecia vagamente) e os desconhecidos Carlinhos Lyra, Oscar Castro Neves e Nara cantavam e tocavam umas músicas muito diferentes de tudo que se ouvia no rádio e na televisão, parecidas com as que João cantava. Eles se apresentavam de uma maneira mais informal e intimista, as músicas pareciam mais leves e melodiosas e as letras falavam de situações e pessoas parecidas com a vida que se levava nos apartamentos, nas praias e nas ruas de Copacabana naqueles anos bacanas.

A bossa nova era a trilha sonora que nos faltava, que nos diferenciaria dos ”quadrados” e dos antigos, dos românticos e melodramáticos, dos grandiloqüentes e dos primitivos, dos nacionalistas e regionalistas, dos americanos. Tínhamos uma música que imaginávamos só para nós. João Gilberto era nosso pastor e nada nos faltaria.

Em 1959, João Gilberto era um sucesso nacional, era adorado e detestado, acusado de desafinado e de afeminado, celebrado como o inventor de um novo gênero musical. Eu o ouvia apaixonadamente como o criador de uma maneira nova de cantar e tocar, com um mínimo de voz e um máximo de precisão, com harmonias e ritmos que refinavam e sofisticavam qualquer canção.

Com ele conheci a música de Tom e Vinícius, de Newton Mendonça e Carlos Lyra, de Caymmi e Ary Barroso e dos grandes mestres brasileiros, que entraram em meus ouvidos, cabeça e coração, em minha vida para sempre.

Porque antes eu não sabia nada de música, não ligava, não prestava atenção. Música não estava nos meus sonhos nem em minhas memórias. Gostava mesmo era de ler e de escrever, de ouvir e de contar histórias.

Aquela noite.

Outono carioca de 1960. Um show marcou para sem’pre a história da música brasileira. E a minha vida. Numa noite quente, no anfiteatro ao ar livre da Faculdade de Arquitetura, na Praia Vermelha, as luzes se apagaram e ouviuse a gravação de Sylvinha Telles e grande orquestra de ”Eu preciso de você (Tom Jobim e Aloysio de Oliveira). Uma abertura festiva e empolgante, não em ritmo de bossa nova mas de overture da Broadway. Uma a uma se iluminaram as janelas do segundo andar atrás do palco e de cada uma delas foi desfraldada uma bandeira, com as palavras ”a noite”, ”do amor”, ”do sorriso” e ”da flor”. No meio do público que superlotava os dois mil lugares do anfiteatro, aplaudi delirantemente.

Muita gente estava ali para ver João Gilberto, lançando o seu segundo Lp, O amor, o sorriso e a flor, que estourava nas rádios com clássicos instantâneos como ”Samba de uma nota só”, ”Corcovado”, ”O pato” e ”Meditação”, de Tom Jobim e Newton Mendonça, cujos versos deram nome ao disco e ao show e um slogan para o novo movimento musical:

”Quem acreditou no amor, no sorriso e na flor, então sonhou, sonhou, e perdeu a paz, o amor, o sorriso e a flor se transformam depressa demais...”

Muitos estavam ali para ver Norma Bengell, que era uma das mulheres mais bonitas e desejadas do Brasil, vedete das revistas de Carlos Machado, estrela da coluna de Stanislaw Ponte Preta, sonho erótico nacional. Ela tinha lançado um disco pela Odeon, Oooooh Norma, onde cantava com voz sexy e cool standards americanos, canções de Tom Jobim e o ”Obala-

lá” de João Gilberto.

Alguns poucos como eu estavam ali também para ouvir a bossa dos novos cariocas Nara Leão, Nana e Dory Caymmi, Luiz Carlos Vinhas, Roberto Menescal e Chico Feitosa e de paulistas desconhecidos como Sérgio Ricardo, Johnny Alf, Pedrinho Mattar e Caetano Zama.

Ronaldo Bôscoli era o apresentador e um dos produtores do show, numa bem-sucedida manobra em conjunto com o marketing da Odeon: Ronaldo lançava a sua turma de amigos, e a gravadora, o disco de João. Mas a Odeon exagerou: escalou para a ”Noite do amor, do sorriso e da flor” alguns de seus artistas mais populares, como o nordestino e bolerístico Trio Iraquitã e a explosiva sambista carioca Elza Soares, que não tinham nada a ver com a bossa nova. Muito pelo contrário.

Norma entrou esfuziante, com cabelos louros e curtos e pernas enormes, ovacionada pelo público.

Lindíssima, cantou com voz felina uma música de Oscar Castro Neves e Luvercy Fiorini dedicada às feiosas:

"Vem menina feia, amor bonito você vai encontrar, há um pequeno príncipe esperando por você, que vai de amor te encantar..."

E depois, todo mundo, bossa ou não, cantou.

Cantou até Normando Santos, um pernambucano muito alto e muito magro, com uma voz grave e sotaque carregado e um estilo meio antigo de cantar. Cheio de sorrisos e simpatia, ele abriu o vozeirão em "Jura de pombo", primeira parceria de Roberto Menescal com Ronaldo Bôscoli, sobre uma briga de amor entre um casal de pombos, com final feliz. Começava com a pombinha toda de branco indo se encontrar com um pombo moreno.

A letra não era de duplo sentido, mesmo num tempo em que "pombinha" era uma lírica gíria para as partes femininas, era para ser romântica e divertida, na linha do sucesso "Lobo bobo", o público riu e aplaudiu. Depois, surpresa: o paulista Caetano Zama apresentou um ousado "samba concreto", em parceria com Roberto Freire, experimentalismo paulistano que já pretendia ir além da bossa nova, que mal estava começando. "O menino e a rosa" era um jogo de palavras e repetições em uns poucos acordes de violão e o público não entendeu mas aplaudiu.

João Gilberto não tinha nada a ver com tudo isso. João foi a grande estrela da noite, fechando o show. Abriu com os hits de seu novo disco, "Samba de uma nota só" e "O pato", depois cantou "Brigas nunca mais" em dueto com sua mulher Astrud e fechou com "Meditação", diante da platéia hipnotizada pela qualidade e novidade das músicas e pelo ritmo e a harmonia em perfeita sincronia com sua voz e seu violão. Como o amor, o sorriso e a flor da canção, o show de João terminou depressa demais.

Nessa noite inesquecível, além da presença suave e carismática de João, me impressionaram a beleza e gostosura de Norma e o charme carioca de Ronaldo e Nara. Nessa noite vi pela primeira vez o poeta Vinícius de Moraes e ouvi as vozes do quarteto Os Cariocas, com suas harmonizações dissonantes inspiradas nos grandes conjuntos vocais americanos, ouvi o espantoso estilo serpenteante de Johnny Alf, um negro de voz rouca e fraseado jazzístico. Adorei o ambiente jovem e animado, a sensação de estar testemunhando o nascimento de alguma coisa grande e bonita.

Durante todo o show fiquei especialmente fascinado com os músicos do conjunto, Luiz Carlos Vinhas no piano, Roberto Menescal com uma incrível guitarra elétrica vermelha, o baterista Helcio Milito e suas tambas, Bebeto no sax e Luiz Paulo no contrabaixo, um ritmo sensacional, umas sonoridades diferentes, uns acordes estranhos, umas músicas maravilhosas.

Desejei ardentemente ser um deles.

Meu primo Gugu, Augusto Mello Pinto, trabalhava na televisão e era amigo de Ronaldo Bôscoli e das moças e rapazes da ”Turma da bossa nova”. Foi ele que me levou às primeiras festinhas musicais, que trouxe a bossa nova para reuniões em nossa casa. Eu tinha 16 anos, uma mãe bonita e musical e um pai simpático e inteligente e os dois adoravam música e arte moderna, como a bossa nova. Minha vida ganhou novo ritmo. Começou a virar uma festa, como as que se repetiam em nosso apartamento na Rua Paissandu, onde eram presenças habituais Ronaldo e Nara, que namoravam, Johnny Alf, que sempre levava um sobrinho” ou ”afilhado”, Roberto Menescal, que era bonito, discreto e cobiçado pelas garotas, a doce Alayde Costa, os elétricos Luiz Carlos Vinhas e Luizinho Eça, as belas irmãs Toledo, a loura Rosana e a morena Maria Helena, disputadas pela rapaziada, Chico Fim-de-noite e seus óculos escuros. E o barbudo Miele, que não cantava nem tocava mas era simpático e engraçado, o pintor José Henrique Bello, que não era cantor mas fazia uma sempre aplaudida imitação de João Gilberto cantando ”Rapaz de bem”, de Johnny Alf (que João jamais cantou), André Midani, um francês louro e animado que trabalhava na Odeon com Aloysio de Oliveira, o designer Aloysio Magalhães, com seus bigodões, que divertia o pessoal ao violão com suas emboladas e desafios nordestinos. E até mesmo, algumas poucas vezes, quando tinha menos gente, João Gilberto.

Uma noite, no apartamento de meu avô, no Posto Seis, levado por Dory Caymmi e diante de poucas testemunhas, João nos visitou. Cantou, tocou e conversou muito com meu pai, que o admirava tanto quanto eu e minha mãe e dizia que as palavras que saíam da boca de João eram como seixos que vinham rolando e rolando por um rio até se tornarem redondos e lisos, até virarem música.

Naquela noite, naquele terraço sobre Copacabana, hipnotizado, vi e ouvi João Gilberto de perto pela primeira vez.

A bossa nova para mim havia se tornado mais que um estado de espírito, era uma causa, um modo de vida. À medida que crescia a paixão avassaladora por João Gilberto e por tudo que se ligasse à bossa nova, tornou-se absolutamente indispensável aprender a tocar violão, falar aquela língua.

Além de tudo, era um caminho certeiro para ser ouvido pelas meninas. Pelo menos para os baixinhos, não-atléticos e tímidos.

Recomendado por Ronaldo, Normando Santos, o pernambucano dos pombos, foi um professor paciente, me ensinando semanal e penosamente os primeiros acordes e as músicas de João Gilberto e da bossa nova. Assim que aprendi um básico — que com a complexidade harmônica da bossa já era muito —, fui ser aluno da academia de Roberto Menescal.

Sem qualquer vocação profissional definida e contra todas as evidências, comecei a pensar secretamente em ser músico, queria viver aquela vida, tocando na noite, conhecendo aquelas mulheres, viajando, ganhando dinheiro com aquele supremo prazer.

Sem qualquer talento natural para o ritmo e com um ouvido assim-assim, tentava compensar a falta de dons com horas e horas gastando os dedos no violão. A paixão pela música ocupava quase todo o meu tempo e naturalmente me levou a bombar a primeira série do segundo grau no Colégio Santo Inácio. Mas não sem antes ajudar Ronaldo Bôscoli a produzir um show de bossa nova no nosso auditório, quando conheci um maravilhoso pianista, que substituía Luiz Carlos Vinhas no conjunto de Menescal: Eumir Deodato.

Quando dei a notícia da bomba, meu pai falou, cool:

”Quer estudar, estuda. Não quer, não estuda: eu não pago mais.”

Foi ótimo. Fui trabalhar numa corretora de imóveis de dia, mostrava casas e apartamentos, e embora nunca tenha conseguido vender sequer uma vaga de garagem, ganhava o suficiente para pagar um curso noturno no Centro da cidade, apropriadamente chamado Curso Severo, que preparava para o duríssimo exame supletivo do Colégio Pedro II, que dava um diploma de 2º grau, tipo 3 em 1.

No fim do ano fiz o exame e passei. Enquanto meus colegas de Santo Inácio estavam terminando a segunda série, eu já estava fazendo o vestibular da Faculdade Nacional de Direito, passando e freqüentando algumas poucas aulas sem nunca ter me imaginado um advogado.

Estudava um pouco de Filosofia e História, lia Hemingway e Camus, via filmes franceses e italianos, ouvia cool jazz e bossa nova maciçamente e pensava em música e mulheres o dia inteiro.

Com 16 anos, me aventurei pela primeira vez no Beco do Joga-a-chave-meu-amor, uma ruazinha cheia de bares e inferninhos que ia da Rodolfo Dantas à Duvivier, assim chamada porque, diz a lenda, alguém uma noite gritou ”Joga a chave meu amor!” — e morreu soterrado por toneladas de chaves. Era o lugar certo para ouvir a melhor música da cidade em 1960, se o porteiro e o Juizado de Menores deixassem.

Antes, já era habitue das jam-sessions dos fins de tarde de domingo, no Little Club, no Beco das Garrafas, onde podiam entrar menores, que bebiam à vontade, para ouvir os maiores talentos do jovem jazz carioca, como os pianistas Tenório Junior e Sérgio Mendes, o trompetista Cláudio Roditi, o trombonista Raul de Souza, o contrabaixista Otávio Bailly e o baterista Victor Manga.

Mas à noite era diferente. Graças à boa vontade do garçom Alberico, um italiano simpático que ficou meu amigo, entrei pela primeira vez no Manhattan, um barzinho escuro com um pequeno balcão, alguns tamboretes, meia dúzia de mesas, muita fumaça e um espetacular jazz-trio com uma cantora sensacional fazendo scats vertiginosos em ”Old Devil Moon”, ”But Not For Me” e outros standards americanos.

Encolhido num canto, extasiado, vi pela primeira vez Leny Andrade cantando, acompanhada por Luiz Eça, Otávio Bailly e Helcio Milito, a base do futuro Tamba Trio.

Os bossa-novistas cariocas adoravam jazz, cool jazz, Chet Baker, Stan Getz, Dave Brubeck e Paul Desmond, Miles Davis, Bill Evans, Stan Kenton, tinham ótima formação jazzística, gostavam de improvisar e de harmonizações complexas, seus ídolos eram jazzistas, agiam como jazzmen, não tocavam música brasileira.

Pelo menos até a descoberta da bossa nova.

Mas João Gilberto, que tinha começado tudo, tinha muito pouco a ver com tudo aquilo.

João era baiano, sua música era brasileiríssima e nela não havia espaço para improvisações. Pelo contrário, exigia uma constante elaboração e lapidação, extremo rigor e precisão na busca da simplicidade absoluta. As harmonias complexas do jazz encontravam no violão de João dissonâncias e seqüências semelhantes, seus acordes pareciam ser os mesmos. Só que em lugares diferentes. Estavam onde não deveriam estar e por isso soavam tão bonitos e surpreendentes — e tão naturais. Seu domínio do ritmo e das divisões, seu suingue sincopado, seu fraseado seco e preciso, a sincronicidade entre voz e violão, tudo em João levava ao rigor e à disciplina, ao fundo do Brasil. E ao gênio.

Os jazzmen gostavam muito de João, mas ele não ligava muito para jazz. Preferia Dorival Caymmi e Ary Barroso. E adorava Cole Porter. Os jazzistas também adoravam Tom Jobim, porque era moderno, dissonante e sofisticado. As mulheres também, porque ele era bonito, educado e charmoso. Todo mundo gostava de Tom Jobim, de seu piano e de seu violão, da elegância econômica de seu fraseado e de seus acordes, da sofisticada leveza de suas melodias.

De seu colossal talento em flor.

Mas Tom Jobim não fazia parte da ”Turma da bossa nova”.

Ele era a bossa nova. Ele e João.

A turma era mais animada. Era mais jovem, bebia mais, ria mais, tocava e cantava mais — embora não necessariamente melhor —, e em mais lugares.

Praticamente em qualquer lugar. Onde houvesse um cantinho, um violão e alguém disposto a ouvir, haveria um bossa-novista militante de violão na mão em missão de catequese. Se houvesse um uisquezinho, melhor ainda.

No início da bossa nova, com exceção de João Gilberto, o rádio não tocava nada do gênero. Mesmo porque não havia ainda muito para tocar, um primeiro Lp de Carlinhos Lyra, outro de Sylvinha Telles, alguma coisa de intérpretes já conhecidos que aderiam à bossa, como Agostinho dos Santos — que tinha gravado ”Felicidade” para a trilha de Orfeu negro, em 1959.

Mas Agostinho, um negro paulista simpaticíssimo e com forte sotaque, não era um cantor de bossa nova. Pelo contrário, orgulhava-se de ter uma grande voz, fazia questão de mostrar como cantava forte e grave e agudo e afinado, cheio de recursos e filigranas.

Era um grande cantor — pelos padrões tradicionais —, mas grande demais para a ambientação cool e minimalista da bossa.

Cantor de bossa nova era João, o máximo com o mínimo.

E João não ia a festinhas, não dava entrevistas, raramente aparecia na televisão, não gostava de tirar fotografias e jamais ia à praia, que era onde todo mundo se encontrava. O seu mistério e suas lendas, seu humor e sua inteligência tornavam sua música ainda mais fascinante.

Além dos shows em colégios e faculdades, as festas em apartamentos de Copacabana foram o principal veículo de divulgação no início da bossa nova, quando o movimento ainda não tinha discos, não tocava em rádio, não aparecia na televisão e não tinha espaço na imprensa. Samuel Wainer, casado com Danuza, cunhado de Nara Leão, dava generosa cobertura na sua vibrante Última Hora, na sua linha de entusiasmo pelos jovens e audazes. Ronaldo Bôscoli trabalhava na Manchete e sempre que podia colocava alguma matéria na revista, seus discípulos Moisés Fucks e João Luiz Albuquerque faziam o que podiam na Última Hora e Radiolândia. E era quase só isto. Eu vasculhava as páginas do Diário Carioca, do Correio da Manhã, da Última Hora, da revista O Cruzeiro, em busca de escassas novidades sobre a bossa nova, lia todos os dias a coluna de jazz de Sylvio Tullio Cardoso em O Globo, que era um dos poucos espaços que de vez em quando davam alguma coisa sobre a nova onda. O mais era festa.

Numa delas, num apartamento da Avenida Atlântica, os anfitriões eram o jovem cônsul argentino Oscar Camillion e sua bela e louríssima Suzana, simpáticos, educados e animados — e loucos por bossa nova. Vinte anos depois, Oscar seria embaixador em Brasília e em seguida ministro das Relações Exteriores da Argentina.

Mas naquela noite roubaram o seu peru.

Enquanto um grupo cantava numa sala para uma platéia deleitada que se espalhava pelo chão — em festas de bossa nova ninguém sentava em cadeiras —, agindo rápida e sorrateiramente, um comando gastronômico seqüestrava o peru assado que dominava a mesa na sala de jantar e sumia na noite.

Havia muita gente na festa e o mistério nunca foi esclarecido. Embora quase todos os presentes tivessem um primeiro e óbvio suspeito: o gordo Carlos Imperial.

O que fazia Carlos Imperial, cafajeste profissional da temida ”Turma da Miguel Lemos” e animador de programas de rock and roll no rádio e na TV, numa festa de bossa nova em Copacabana?

A ”Turma da bossa nova” detestava o capixaba Imperial, desprezava seus roqueiros de araque, debochava de seus programas de auditório na TV e de suas platéias suburbanas. Mas o gordo não parava de agitar, promovendo shows, lançando cantores, ganhando dinheiro e comendo menininhas.

”Meu jovem, belo e querido amigo!” era como Imperial saudava efusiva e invariavelmente amigos e desconhecidos e até inimigos, como uma caricatura de um político profissional, como um vilão de chanchadas da Atlântida.

Imperial se defendeu: estava na festa para apresentar seu novo lançamento, um futuro príncipe da bossa nova. E alegando que seu lançamento ainda não havia sido lançado quando o peru foi roubado, o gordo se inocentou. Embora, tratando-se do cínico e debochado Imperial, tudo fosse possível.

O cônsul levou na esportiva e diplomaticamente levantou um brinde ao ”grande ausente” enquanto os convidados e penetras devoravam os acompanhamentos restantes.

Depois do jantar, muita gente saiu, talvez para jantar, e os remanescentes voltaram à sala e se refestelaram no chão com o máximo de informalidade exigida, para uma segunda rodada musical.

A turma de Ronaldo Bôscoli, as estrelas aspirantes da bossa nova como Nara e Menescal, já tinham tocado e cantado antes do jantar e todo mundo cantara junto com eles, baixinho, como era de bomtom.

Muitas músicas que ainda nem tinham sido gravadas já eram sucesso no circuito das festas, com muita gente cantando a letra junto. Bem baixinho.

Para o segundo tempo, apesar do caso do peru e da subseqüente debandada, Carlos Imperial iria encontrar um ambiente propício para seu lançamento: um bom público de jovens senhoras e fartura do que no futuro se chamaria de ”formadores de opinião”.

Todos espalhados pelo chão, entre almofadas, copos e cigarros.

Alguns sem sapato, como recomendava a informalidade da bossa.

Olhos e ouvidos descrentes aguardavam a surpresa imperial.

Que pilantragem seria aquela? Imperial nunca teve nada a ver com a bossa nova, sacaneava a bossa nova, era do rock and roll. Mas o rock estava demorando a pegar no Rio, parecia não combinar muito com o ambiente de sol e praia, e o gordo, sentindo o potencial comercial da bossa, estava diversificando.

Seu pupilo era magro e tímido, com cabelos crespos e escuros e pele muito pálida, tinha olhos profundos e tristes e sorria nervosamente.

Quando Imperial, de chinelos e camisa havaiana, bateu palmas e empostou a voz:

”Meus jovens, belos e queridos amigos, bossa nova é silêncio.

Si-lên-ci-o. E eu peço o silêncio de vocês para apresentar o futuro príncipe da bossa nova.”

Acompanhado por Durval Ferreira, o ”Gato”, no violão, o jovem conterrâneo de Imperial cantou, com seus lábios finos e um fio de voz, bem afinadinho e até com certo charme, duas músicas de seu mentor, que ele tinha acabado de gravar. O rapaz imitava escancaradamente João Gilberto e a música era uma sub-bossa imperialesca.

”Brotinho toma juízo, ouve o meu conselho, abotoa este decote, vê se cobre este joelho, pára de me chamar de meu amor, senão eu perco a razão e esqueço até quem eu sou...”

As jovens senhoras adoraram. Foi a primeira vez que ouvi Roberto Carlos.




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