Índia: Aspectos Econômicos e Tecnológicos Comparativamente ao Brasil



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Índia: Aspectos Econômicos e Tecnológicos

Comparativamente ao Brasil

Luiz Pinguelli Rosa

I – Introdução: aspectos geográficos, sociais e geopolíticos


Por muito tempo, na época do chamado milagre brasileiro na década de 1970, quando a economia nacional crescia a taxas anuais superiores a 7%, aliás como já ocorrera no país no período pós-Segunda Guerra Mundial, costumava-se usar o epíteto de “Belíndia” para o Brasil, que conteria no seu território uma pequena Bélgica desenvolvida e uma grande Índia por se desenvolver.

A Índia se tornou agora, após a China, o segundo mais importante dos grandes países emergentes, entre os quais se inclui o Brasil. Uma razão é a elevada taxa de crescimento econômico indiana logo abaixo da chinesa.

Tal como o Brasil tem como uma característica geográfica marcante a maior floresta tropical do mundo, a floresta Amazônica, o Himalaia destaca-se, na região da fronteira indiana com o Nepal, pois é a cadeia de montanhas mais elevada do planeta. Faz uma separação entre o restante da Ásia e a Índia, que se estende por uma planície com solos férteis e rios caudalosos, sendo o Ganges o mais simbólico, como o Amazonas no Brasil, embora socialmente tenha um papel que se assemelhe mais ao do São Francisco.

Desde logo devemos destacar diferenças também no campo da geografia humana. Enquanto a população brasileira é cerca de 180 milhões, a Índia tem 1,04 bilhões (2004) de habitantes e é, depois da China, o segundo país mais populoso do mundo, cerca de 6 vezes maior que o Brasil. Ao contrário do Brasil, onde, excluídas as línguas indígenas, o idioma é o português, a Índia tem 16 idiomas oficiais, cada um deles falado por pelo menos milhão de pessoas, destacando-se o hindi e o inglês. Este último é muito difundido, o que dá uma vantagem comparativa à Índia na competição dentro do que se denomina economia globalizada, em particular nos serviços internacionalizados.

Outra comparação importante é que enquanto no Brasil a violência urbana é em parte associada à pobreza ou ao tráfico de drogas e a violência rural à concentração da posse da terra, situação herdada de muitas décadas, a Índia enfrenta a herança de conflitos étnicos e religiosos seculares. No Brasil, existem dois tipos de conflitos étnicos: com os remanescentes das populações indígenas, em especial na Amazônia, e com os numerosos descendentes afro-brasileiros, embora fiquem subjacentes aos conflitos sociais intensos. Já os conflitos religiosos, que são muito sérios na Índia, inexistem no Brasil.

A grande maioria da população indiana (80%) tem religião hindu. É interessante notar que o cristianismo (2,5%) vem em terceiro lugar, depois do islamismo (11%) e um pouco na frente da religião sikhi (2%), apesar da forte presença desta pelo uso de turbantes, de barbas e de cabelos longos por seus praticantes. O budismo fica em um modesto quinto lugar. No Brasil, apesar da hegemonia católica, cresce muito o protestantismo, em particular nas camadas urbanas de renda menor, e há forte sincretismo com religiões afro-brasileiras.

A religião hindu, majoritária, divide seus adeptos em castas, o que colide com as profundas transformações políticas democráticas, desde a generosa campanha de Mahatma Gandhi na luta para libertar a Índia do domínio britânico, o que só se completou após a Segunda Guerra Mundial. Logo, em contraste com o Brasil, a independência política da Índia é muito recente.

Portanto as dificuldades da Índia na promoção do crescimento econômico e da equidade social são grandes, mas o Estado tem mantido um papel ativo e equilibrado com o mercado capitalista. A despeito das diferentes correntes políticas, é forte a tradição política deixada por Nerhu na India, que, no auge da Guerra Fria, compôs com Tito na Iuguslávia e Nasser no Egito a Terceira Força, opondo-se à bipolaridade entre EUA e URSS. Modernamente, a Índia manteve o equilíbrio e não caiu no canto de sereia do neoliberalismo cujos duros efeitos se fizeram sentir na década de 1990 particularmente na América Latina, que hoje reage elegendo vários governos com conotações nacionalistas, resgatando uma tradição que, no Brasil, vem historicamente, com diferentes ideologias, dos presidentes Getúlio Vargas, Juscelino Kubistchek e João Goulart.

Com o crescimento da economia da Índia, a pobreza, a desnutrição e o analfabetismo no país, estão diminuindo, embora sejam ainda muito altos. A estimativa é que na Índia e na China um total de cerca de 400 milhões de pessoas saíram da pobreza e ingressaram no consumo nos últimos anos. O mesmo processo está ocorrendo no Brasil, onde estatísticas recentes mostram que cerca de 20 milhões de cidadãos saíram da pobreza nos últimos anos. Os dois números são significativos, dadas as proporções entre as respectivas populações. Em um mundo assustado com a alta exponencial do preço do petróleo e dos alimentos, com as ameaças de mudança climática e com a poluição ambiental, com as guerras crônicas, como ocorre no Iraque, no Afagnistão e na Palestina, estes números soam como um mantra indiano.

A Índia é uma potência regional asiática tal como ocorre com o Brasil na América do Sul. E ambos os países juntamente com a China são vistos como capazes de se tornarem grandes potências mundiais no século XXI.


II – Aspectos econômicos comparativos

A despeito de todas as dificuldades enfrentadas, a economia indiana é hoje a décima do mundo, o PIB de 2007 ultrapassou US$ 800 bilhões e cresce 8% ao ano, a segunda taxa de crescimento do mundo, mantendo-se elevada há alguns anos. Neste ponto fica bem à frente do Brasil, onde, apesar do expressivo crescimento de 5% em 2007, sustentado no primeiro semestre de 2008, a taxa média de crescimento anual foi modesta há mais de uma década, com poucas exceções como foi o ano de 2005.

Apesar de seus extensos recursos, dada sua grande população, a Índia ainda é um país pobre, quanto à renda per capita. A desigualdade social é muito grande. O PIB per capita indiano em 2007 foi U$ 2,700.

O setor agrícola é o responsável por 60% dos empregos, contudo o índice de desemprego na Índia foi de 7,2% em 2007.A maioria dos seus habitantes vive da agricultura de subsistência. Os produtos agrícolas mais importantes são: arroz, trigo, algodão, chá, cana-de-açúcar, juta, sementes oleaginosas, especiarias, legumes e verduras. A Índia está entre as primeiras nações na produção de frutas e verduras, apesar de mas a produtividade ser ainda baixa. São importantes as criações de aves, cabras, ovelhas e búfalos. Semelhantemente ao Brasil, o principal produto de mineração é o ferro. São explorados também: carvão, diamante, cromo e outros.

A Índia produz da ordem de US$ 10 bilhões em software por ano, metade para exportação, com mais de 5000 firmas nessa atividade. No crescimento econômico da Índia o setor de serviços tem um papel dinâmico, inclusive na exportação de softwares, enquanto no Brasil as exportações de produtos primários pesam muito, sejam agrícolas como a soja ou minerais como o ferro. Por isso, enquanto a China teria vocação segundo alguns analistas de exportar mais produtos industriais a preços baixos, fala-se em ser a Índia a grande exportadora mundial de serviços e o Brasil o celeiro do mundo. Mas, em ambos os países a produção industrial é diversificada e importante, inclusive na pauta de exportações. No setor industrial da Índia as áreas que mais se desenvolvem são: siderurgia, equipamentos e máquinas, cimento, alumínio, fertilizantes e têxteis.

.Ainda nos serviços, incluindo lazer, destaca-se a indústria cinematográfica indiana, pois a Índia é o país é o que mais produz filmes atualmente, superando os EUA. O Brasil destaca-se na produção para TV, exportada ainda que em pequena escala, sendo sua indústria cinematográfica, apesar da boa qualidade, quantitativamente pequena mesmo para o mercado interno, devido à maciça penetração cultural de filmes norte americanos.

A produção associada à tecnologia, com alto valor agregado, é muito importante na Índia, envolvendo biotecnologia, produtos químicos, softwares e medicamentos. Destaca-se na tecnologia aeroespacial, de lançamento de satélites. Neste aspecto supera o Brasil, cujas mais importantes realizações tecnológicas estão na indústria aeronáutica, em que a Embraer disputa com a Bombardier canadense a hegemonia do mercado de aviões de porte médio e pequeno, na produção de petróleo no mar em águas profundas, em que a Petrobrás é líder mundial consolidada com a descoberta do Pré-sal, e na tecnologia agrícola, desenvolvida pela Embrapa, e dos biocombustíveis, em especial do etanol de cana de açúcar. Esta última oferece um potencial de cooperação tecnológica entre Brasil e Índia, que tem importante produção de cana de açúcar e tem o problema do crescimento do consumo de combustíveis fósseis com grande emissão de gases do efeito estufa.

. Vamos tratar separadamente da tecnologia ligada à energia nuclear, bastante importante na Índia, enquanto o Brasil desenvolveu o enriquecimento de urânio vencendo uma barreira tecnológica.


III – A Indústria de Automóveis como Caso Exemplar
A montagem de automóveis merece atenção na comparação da Índia com o Brasil, como exemplo de indústria de transformação para produzir equipamentos duráveis para uso individual ou familiar. É hoje uma industria globalizada onde as partes componentes - motor, caixa de mudança, transmissão, equipamentos auxiliares, injetor de combustível, chips para eletrônica embarcada e por aí vai - são fabricadas em países diferentes, que ofereçam mão de obra mais barata e custos menores. Resta, às vezes, para o país hospedeiro da montadora juntar as partes e aparafusar tudo ou fazer partes brutas mais pesadas, mas de menor valor agregado. Associada às facilidades computacionais e de telecomunicação - eficazes para a gerência administrativa e financeira e para o projeto de engenharia e controle operacional da produção - esta decomposição de tarefas facilita a chamada “deslocalização” das fábricas. Este eufemismo significa que - se os operários reivindicam melhores salários e pressionam muito ou se os governos locais cobram mais impostos para cobrir os custos ambientais e sociais, ou seja, as “externalidades” com que a sociedade arca para a empresa internalizar os lucros – a fábrica pode ir embora para outra local. Levanta acampamento como uma tropa militar móvel, como se evaporasse de um dia para outro, deixando desempregados, galpões industriais vazios, abandonados para se tornarem ruínas, e o meio ambiente degradado. O Brasil já sofre este processo, que se revela na competição pela localização de indústrias através de isenções fiscais ou frouxidão nas regras ambientais e nos direitos dos trabalhadores.

Embora o Brasil tenha uma indústria automotiva bem mais desenvolvida que a Índia - implantada por uma política industrial do governo Kubistchek ainda na virada da década de 1950 para a de 1960, atraindo para o país fábricas norte americanas e européias - é interessante o exemplo indiano. Há sete milhões de carros para uma população de mais de um bilhão de indianos, ou seja, 0,007 carro por habitante, enquanto chega a um carro por dois habitantes nos países desenvolvidos. Foram vendidos mais de um milhão de carros em 2005 na Índia e espera-se dobrar este número antes de 2010.

Entretanto, ao contrário da China que produz carros grandes em geral, a Índia procura tirar proveito do quadro de alta do preço do petróleo, que já torna visível a volta dos carros menores na paisagem das ruas de capitais européias. Como exemplos há reedições modernizadas, embora saudosistas, do velho Fiat Cinquecento ou do Mini, além de novos modelos de várias marcas, com baixa cilindrada, pequenos e econômicos. Mesmo nos EUA fabricantes como a Ford anunciam redução na produção das enormes camionetes para uso individual urbano, pesadas e até com tração nas quatro rodas, que estão entrando pesadamente no Brasil.

Seguindo esta maré montante, fabricantes de carros planejam produzir na Índia um automóvel que pode custar apenas US$ 3 mil, como anunciou em 2007 o grupo Renault - Nissan franco- japonês. A Índia leva vantagem sobre a China por aliar baixos custos de produção a uma ótima engenharia. A Renault vem registrando queda nas vendas no mercado mundial e promove a fabricação na Índia do Logan, com a empresa indiana Mahindra and Mahindra perto de Mumbai, planejando 50.000 unidades por ano. A mesma parceria fábricará em Madras 400.000 carros por ano em um projeto de 686 milhões de euros. A Volkswagen fabricará em Pune 110.000 carros por ano, enquanto a Toyota, a General Motors e a Hyundai, esta sul-coreana, já estão na Índia e pretendem produzir carros a preços baixos.

Entretanto, o melhor exemplo que está influindo nestes fabricantes estrangeiros é do grupo indiano Tata. A Tata Motors está ultimando em 2008 a fabricação de um carro popular de 100 mil rúpias, ou seja, US$ 2.500, de fato o mais barato do mundo, de apenas 630 cm3 de cilindrada, compatível com um pequeno motor de uma moto.

Outra empresa indiana, a Xenitis, em parceria com o chinês Guangzhou Motors, também deve produzir no fim de 2008 um outro carro popular de US$ 2.500. O indo-japonês Maruti-Suzuki, há 25 anos produz para o mercado indiano o Maruti 800, de US$ 5 mil, maior apenas que um Fiat 500.

Por tudo isso a Índia, com seu recente ingresso na produção de automóveis, se diferencia da situação do Brasil, cuja indústria automotiva é madura e maciçamente estrangeira, apesar de ter na sua origem a Fábrica Nacional de Motores. Pensada para produzir aviões, por iniciativa estatal inundou as estradas brasileiras nas décadas de 1950 e 1960 com os caminhões FNM, fabricados sob licença da Alfa Romeo italiana, cujo automóvel também veio a ser fabricado no Rio de Janeiro, onde se localizava a fábrica. Podemos contar poucos exemplos a mais, como a associação para fabricar no país o carro DKW – Vemag (Veículos e Máquinas Agrícolas) cujo motor de dois tempos marcava sonoramente sua presença no mercado brasileiro, e, finalmente, a Gurgel que resistiu enquanto pode.
IV – Energia e Emissões de Gases do Efeito Estufa
A Índia é um dos maiores consumidores de energia mundialmente, embora o índice per capita seja muito baixo, dado sua grande população. 50% de seu consumo é de carvão, do qual é o 3º produtor mundial. Situa-se também entre os grandes consumidores de petróleo, após EUA, China e Japão, tendo crescido de 2,13 milhões de barris por dia em 2003 para 2,45 milhões de barris por dia em 2007, enquanto sua produção interna variou de 732 mil barris por dia em 2003 para 785 mil barris por dia em 2007, devendo atingir 834 mil barris por dia em 2008.

O conflito com o Paquistão cria obstáculo para construir dutos para transporte de petróleo e gás do Irã. A Petrobrás assinou em 2007 acordo com a Oil and Gás Corporation da Índia para explorar três blocos de petróleo.

A Índia, a China e o Brasil são pressionados nos debates da Convenção da ONU sobre Mudança Climática devido ao crescimento de suas emissões de gases do efeito estufa. Na Índia, como na China, o consumo de combustíveis fósseis, inclusive de carvão é muito alta em especial na geração elétrica. Em contraste a matriz energética brasileira tem percentual de fontes renováveis (45%) muito maior que no mundo (10%), sendo a grande contribuição do país para o aquecimento global originada, não do setor energético, mas do desmatamento.

Na Índia, como no Brasil a população rural usa lenha como combustível para cozinhar. Lá isto contribui para o desmatamento, enquanto no Brasil este se dá em grande escala pela expansão da criação de gado e da fronteira agrícola, além da exploração industrial da madeira, hoje despertando a atenção mundial devido à emissão de gases do efeito estufa pelo desmatamento ocorrido nas últimas décadas


V – Tecnologia Nuclear
A linha tecnológica seguida pela India na tecnologia nuclear difere muito da brasileira, embora os dois países tenham tido pontos de partida similares. A India adotou a tecnologia de reatores a urânio natural, tal como o Brasil tivera intenção com o chamado Projeto do Tório, anterior ao golpe militar de 1964, que o abortou. O Brasil optou em 1967 por comprar Angra I da Westinghouse, um reator a urânio enriquecido e água leve pressurizada (PWR), ficando dependente de fazer o enriquecimento nos EUA.

Embora possua também reator de urânio enriquecido e água fervente (BWR), a Índia preferiu a geração nuclear com reatores de água pesada e urânio natural (PHWR), e desenvolve um sistema de reprocessamento dos rejeitos nucleares. A escolha do urânio natural visou evitar a dependência da tecnologia do enriquecimento do urânio, então controlada pelos EUA, pela URSS e por dois consórcios europeus. O Brasil buscou transferir para o país a tecnologia do enriquecimento com o Acordo com a Alemanha de 1975, que previa 8 reatores PWR em 1990. Entretanto, o enriquecimento foi desenvolvido fora do Acordo, posteriormente, pela Marinha no projeto do submarino nuclear, ainda em andamento. O Brasil domina hoje a tecnologia de ultra centrifugação para enriquecimento do urânio.

Tabela 1 - Reatores de geração elétrica na India


Central Nuclear

Tipo de reator

Potência

Mil MW


Ano

Tarapur

BWR

BWR


160

160


1969

1969


Rajasthan

PHWR

PHWR


100

200


1973

1981


Terminadu

PHWR

PHWR


220

220


1984

1986


Nanora

PHWR

PHWR


220

220


1991

1992


Kakrapar

PHWR

PHWR


220

220


1993

1996


Kaiga

PHWR

PHWR


220

220


2000

2000


Rajasthan

PHWR

PHWR


220

220


2000

2000


Terapur

PHWR

PHWR


540

540


2005

2006


Karnataka

PHWR

220

2007

TOTAL




4129



A Índia tem 17 reatores nucleares que produziram 2,6% da energia elétrica do país em 2006. A capacidade instalada em geração nuclear elétrica atingiu 4120 MW em 2007 (tabela 1). Para comparação, o Brasil possui hoje dois reatores em operação, Angra I (620 MW) e Angra II (1300 MW), totalizando 1900 MW de potência, cerca de 2% da capacidade instalada de geração elétrica brasileira, de 100000 MW. Enquanto no Brasil se decide agora fazer Angra III, na India há 6 reatores em construção e se planeja mais 4. Há previsões de analistas de que até 2020 sejam decididos 25 novos reatores, para reduzir a enorme necessidade de carvão para geração elétrica na India.

Pela tabela 1 se observa a sistemática da India ininterrupta, passando do BWR para o PHWR e ganhando experiência com reatore de potência menor para muito depois aumentá-la. O Brasil adotou reatores maiores com importação de tecnologia.

Segundo Julien Bouissou ( Le Monde, outubro de 2007), a Índia, que possui grandes reservas de tório, pretende iniciar a construção de um reator-protótipo, que funcionará com água pesada e tório como um novo caminho para a energia nuclear. O primeiro reator desse tipo para uso comercial poderia entrar em uso em 2020. A Índia já construiu um reator de teste pequeno de 30 MW capaz de converter tório em urânio 233, um material físsil que não existe na natureza. Essa tecnologia permitiria que a Índia, no futuro, planejasse a construção de reatores que utilizariam como combustível o urânio 233 e plutônio.

A idéia consiste em aumentar autonomia da Índia com os reatores a tório, segundo Abdul Kalam, ex-presidente da Índia e considerado como um dos pais do programa nuclear militar indiano. A utilização do tório gera rejeitos radioativos 50% inferior em volume aos do urânio. No ritmo de consumo atual, as reservas mundiais de urânio podem estar esgotadas em 50 anos, se não for adotada tecnologia de reatores rápidos regeneradores, que permitem aproveitar melhor o urânio juntamente com o plutônio produzido no funcionamento dos reatores. A França foi nesta direção com os reatores Fênix e Superfenix, mas o projeto não deu os resultados esperados.

Cabe aqui esclarecer que o Brasil iniciou na década de 1960 o Programa do Tório com este mesmo objetivo, depois abandonado.

Os EUA fizeram acordo com a Índia na área nuclear, o que causou espanto por causa do programa de armas nucleares indiano fora do Tratado de Não-Proliferação Nuclear. Por seu lado a Rússia propôs construir reatores nucleares na Índia.

A Índia realizou teste de uma bomba nuclear em 1974. Uma diferença é que o Brasil abdicou formalmente de armar-se nuclearmente, embora disponha de tecnologia de enriquecimento do urânio. Devemos registrar a grande diferença entre as situações geopolíticas. Na América Latina - onde os conflitos entre as nações são menores, apesar do antagonismo norte americano com Cuba e, agora, com a Venezuela - vigora o Tratado de Tlatelolco de desnuclearização. Na Ásia, além da Rússia, cujo território se estende até a região asiática, e da China, que possuem arsenais nucleares consideráveis, também a Índia e o Paquistão desenvolveram artefatos nucleares de menor porte. A Índia em 1962 sofreu uma derrota militar em uma disputa de fronteira com a China e tem tido conflitos militares com o Paquistão.

VI - Desenvolvimento Tecnológico em Outras Áreas
VI.1 – Aspectos Gerais

Ciência e tecnologia ocupam lugar especial nas prioridades para o desenvolvimento da Índia não só na indústria mais sofisticada, mas em questões como a agricultura sustentável. Os avanços tecnológicos e científicos na informática e na telecomunicação produziram efeitos em todas as áreas, mas as tecnologias não estão sob controle dos países, pois são propriedade de empresas e só podem ser usadas sob licença e a custo considerável.

. Na Índia um exemplo interessante é o Tata Energy Research Institute (TERI) em Nova Déli, um órgão de pesquisa sem fins lucrativos com mais de 300 pesquisadores. Sua diretora Vibha Dhawan expressou opiniões interessantes. Globalização implica em oportunidades, mas também em alguns riscos. Os países industrializados ricos em tecnologia têm equipamentos sofisticados e verbas para pesquisa, em parte financiada pelo setor privado. Estas tecnologias são muito caras. Os países em desenvolvimento usam tecnologias ineficientes, encarecendo os custos de produção.

A comunidade científica indiana é importante em nível mundial, com grande número de PhD’s e tem feito enormes progressos principalmente em tecnologias de ponta como a espacial e a biotecnologia


VI.2 - Tecnologia Espacial

A Índia tem um importante programa de lançamento de satélite que inclui o Chandrayan 1 e pretende colocar uma nave espacial tripulada em órbita terrestre baixa em 2014. Há um acordo com os EUA para utilização de tecnologia americana. Por este acordo, a NASA oferece instrumentação à sonda lunar indiana. Por outro lado, a India fez negociações com a Russia cujos satélites poerão ser em parte lançados por foguetes indianos.

A Índia procura reduzir um pouco sua distância tecnológica em relação à China, que em 2005 lançou seu segundo foguete tripulado, Shenzhou 6. Há intensa atividade nesta área na Ásia, destacando-se o Japão. A Coréia do Sul também tem enviado satélites de comunicação e de múltiplas tarefas no espaço e tem o objetivo de se tornar completamente independente na construção e lançamento espacial de seus próprios satélites e foguetes.

Nesta área o Brasil se encontra completamente defasado, apesar das importantes atividades do CTA, do INPE e da Agência Aeroespacial Brasileira.

VI.3 – Agricultura e Biotecnologia
Na Índia desde 1991 funciona o Parque de Micro-Divulgação Tecnológica do Departamento de Biotecnologia do TERI. Algumas ações são exemplares, como ocorre no Brasil no caso da Embrapa.

Como no Brasil houve um debate sobre vegetais geneticamente modificadas (GM) e as implicações de longo prazo, estando a questão da biotecnologia na Índia mudando rapidamente. O financiamento para a pesquisa em biotecnologia está aumentando e se promove a sua aplicação em parques e incubadoras. Por outro lado, o uso de biofertilizantes e biopesticidas mais seguros torna-se uma necessidade urgente. O TERI realiza pesquisa buscando espécies de plantas com propriedades pesticidas e medicinais.


VI.4 – Cooperação e Intercâmbio

Há um convênio entre o CNPq e o Conselho de Pesquisa Científica e Industrial (CSIR) da Índia, renovado em 2004 para bolsas e intercâmbio de cientistas e pesquisadores. Foi assinado em 2004 o Acordo-Quadro sobre Cooperação nos Usos Pacíficos do Espaço Exterior.  O acordo de cooperação espacial tem extrema importância no relacionamento dos dois países. Na visita do presidente Lula à Índia foi assinado um Programa de Trabalho, com prazos e metas de implementação.

O Fórum de Diálogo entre Índia, Brasil e África do Sul – IBAS foi criado em 2003 com a finalidade estratégica de cooperação entre países em desenvolvimento. É uma inovação por ser uma aliança trilateral com ênfase no aumento do diálogo político entre os três países na promoção do desenvolvimento via cooperação Sul-Sul.

Desde 2003 a C&T foi considerada como um setor de interesse estratégico. A cooperação trilateral em C&T no contexto do IBAS se coaduna com a política externa do Governo Lula, oferecendo a cooperação científica e tecnológica entre países em níveis de desenvolvimento semelhantes, como expressou em 2005 a Reunião dos Ministros de C&T do IBAS realizada no Rio de Janeiro, quando foi assinada a “Declaração do Rio de Janeiro sobre Ciência e Tecnologia do IBAS”.




 




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