Na esfera física, matéria e energia interagem entre si de muitas formas e níveis



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Estudos Longitudinais
Os dois únicos estudos de coortes finalizados até o presente foram de natureza retrospectiva e tiveram lugar nos EUA e na Dinamarca.
O primeiro grande estudo baseado em coortes (Rothman et al 1996 e Dreyer et al, 1999) analisou o seguimento de um ano da mortalidade em uma coorte de 285.561 usuários não-corporativos de telefones móveis no EUA, sem que tivesse sido demonstrado qualquer efeito diferencial sobre a mortalidade em relação aos não usuários. O estudo demonstrou um aparente ligeiro “efeito protetor” para os usuários de telefones celulares, uma vez que a taxa geral de risco relativo foi de 0,86 para a taxa de mortalidade geral. Este estudo não é mais considerado atualmente como representando uma contribuição significativa ao conhecimento, pois a latência foi muito pequena para um desfecho relativo à mortalidade. No entanto, foi o primeiro estudo a demonstrar que a mortalidade global na coorte que utilizou celulares foi menor do que na população em geral, uma descoberta que foi confirmada por outros estudos com causas específicas de mortalidade, como o câncer.
Se este achado de RRs significativamente menores do que a unidade fosse ser interpretado à luz do que significa o risco relativo, seria necessário atribuir uma característica "protetora" ou "diminuidora de risco" ao fato de se estar usando um telefone celular. Como isso é algo difícil de se acreditar, muito provavelmente ele seria devido a variáveis não controladas dos estudos, tais como aquelas que o estudo de coorte dinamarquês, que analisou latências mais longas, foi capaz de demonstrar, como um maior nível de renda e melhor saúde geral correspondentes a um nível melhor de escolaridade, uma maior consciência sobre a saúde individual, uma melhor atitude de prevenção, etc., ocorrendo entre os usuários de celulares do que entre os não usuários.
Essa descoberta deveria servir de lição para os epidemiologistas que aceitam esta explicação para taxas de risco relativo ou razões de chance menores do que a unidade, mas que tendem a atribuir um “alto” risco de celulares quando o RR está acima da unidade, no mesmo nível da variação.
O segundo grande estudo de coortes, publicado por Johansen et al. (2001), foi o primeiro estudo nacional de incidência de câncer de assinantes de telefonia celular que examinou registros acima de 15 anos de uso. Este importante e bem realizada pesquisa epidemiológica baseada em coortes relatou uma Taxa de Incidência Padronizada (SIR – Standard Incidence Ratio) geral de 0,89 (dentro de um estreito intervalo de confiança de 95% que variou entre 0,86-0,92 ) para todos os tipos de câncer. O SIR é calculado dividindo-se o número de casos de câncer observados na coorte pelo número esperado na população. No total, 3.391 tumores foram observados, sendo que 3.825 seriam esperados pelo acaso. Este aparente efeito protetor (menor incidência de tumores entre usuários de celulares do que não usuários) do uso de telefones celulares foi interpretado pelos autores, com base em análises mais detalhadas, como sendo devido a uma diminuição da incidência de câncer do pulmão, possivelmente associado a uma maior redução do tabagismo entre os idosos.
O mesmo grupo (Johansen et al, 2002b) publicou uma amostra consideravelmente ampliada do mesmo estudo, incluindo 420.095 de assinantes da rede de celular privada (80% do total de assinantes no país). Eles compararam as taxas de incidência de câncer em usuários de telefones com as taxas nacionais, de acordo com sexo, idade e período. Dos 15.000 casos de câncer esperados por acaso, cerca de 14.250 foram observados, resultando, portanto, em uma SIR de 0,95, ligeiramente maior do que o primeiro estudo dinamarquês. Ficou evidente, dessa forma que não existiria qualquer relação entre ter câncer de cérebro ou sistema nervoso e o uso prolongado de celulares, tanto em relação à idade, duração da exposição, primeira assinatura de telefone, ou local do tumor.
Este estudo dinamarquês foi recentemente atualizado com acompanhamentos de assinantes de telefone celular que remontam até 21 anos (Schüz et al., 2007), com a assinatura do primeiro telefone celular que remontava entre 1982 e 1995 e que foram seguidos até 2002 para a incidência de todos os tipos de tumores do SNC. Resultados muito similares foram obtidos, ou seja o uso do telefone celular não foi estatisticamente associado ao aumento do risco de tumores cerebrais (SIR = 0,97), incluindo os gliomas (SIR = 1,01), meningiomas (SIR = 0,86), neuroma do nervo acústico (SIR = 0,73), tumores de glândulas salivares (SIR = 0,77), tumores oculares (SIR = 0,96) ou leucemia (SIR = 1,00).
Entre os assinantes de longo prazo, contando 10 anos ou mais de uso documentado (foram mais de 56.000 usuários na amostra), o uso de telefone celular não foi associado com o aumento do risco de tumores cerebrais (SIR = 0,66, mostrando um forte efeito de proteção), e não houve nenhuma tendência ao longo do tempo desde a primeira assinatura de uma linha de celular. Como uma relação causa-efeito neste caso, é altamente improvável, ou seja, que usar telefones celulares traria um efeito benéfico sobre a saúde, a obtenção de taxas de risco relativo inferiores a 1 pode ser atribuída ainda a outras variáveis confundentes não pareadas, tais como os usuários de longo prazo começaram a usar celulares quando eles ainda eram muito caros, por isso uma maior renda era exigida (Rothman et al, 1996). As pessoas com rendimentos mais elevados são conhecidas por terem uma melhor saúde geral, por tomar cuidados preventivos e ir mais vezes aos médicos e hospitais que os mais jovens e pessoas menos abastadas. Os autores relataram que:
"nenhuma prova foi encontrada de uma associação significativa entre o risco de tumores e o uso do telefones celulares, tanto para usuários de curto prazo, quanto para os de longo prazo. Além disso, os intervalos de confiança estreitos fornecem evidência de que pode ser excluída qualquer associação significativa entre risco de câncer e uso de telefones celulares ".

O estudo dinamarquês teve algumas peculiaridades. Foi realizado inteiramente através da vinculação dos registros de cidadãos (record linkage), utilizando um número de identificação nacional, que só foi possível devido à excelência e à integridade dos registros populacionais de saúde e de assinantes de telefones celulares do país (obtidos da Secretaria Nacional de População e da Secretaria Nacional de Câncer),. Somente indivíduos saudáveis foram incluídos na coorte. Em segundo lugar, a coorte era muito grande e extensa no tempo, bem como global (80% de todos os assinantes de telefonia celular dinamarquês). Não houve avaliação do grau de exposição, frequência de uso, o uso de viva voz, etc, e não houve uma maneira de determinar com certeza se realmente os assinantes registrados correspondiam aos usuários das linhas (apesar de uma investigação anterior por Punch et al, 1996, ter demonstrado que esta correlação é relativamente alta, de 75%). As assinaturas de usuários corporativos (um número grande, mais de 200.000 linhas) não foram incluídas no estudo, pela impossibilidade de investigar quem utilizava realmente os celulares, o que pode ser uma fonte potencial de viés de seleção.


Curiosamente, Kundi et al. (2005), revendo quase que exatamente os 9 a 10 estudos de caso/controle revisados por Ahlbom et al. (2004) e Lakhola et al. (2005), chegaram à conclusão oposta, isto é, que


"todos os estudos abordando latências razoáveis encontraram um risco aumentado de câncer associado ao uso do telefone móvel. Estimativas do risco relativo nesses estudos variaram entre 1,3 e 4,6 com o maior risco global para o neuroma acústico (3,5) e melanoma uveal (4,2), e não há evidência de risco de câncer avançado, com aumento de latência e duração do uso do telefone móvel.".
Os resultados foram obtidos exclusivamente por um único grupo de investigação, liderado por Hardell na Suécia, o mesmo grupo que realizou essa revisão, e que não são coerentes com os demais 6 estudos de outros grupos.
Outra análise da literatura publicada por Valberg et al. (2007), sobre a evidência científica quanto aos riscos e consequências para a saúde das estações rádio-base e redes de dados sem fio, chegou às mesmas conclusões que Ahlbom et al (2004).

O mais importante e recente conjunto de estudos epidemiológicos, entretanto, foi o Projeto INTERPHONE, que merece uma discussão em separado, como segue.




Uma revisão dos estudos INTERPHONE

A partir de 2001, foi iniciada uma série de grandes estudos epidemiológicos de caso/controle, ambiciosos e bem planejados. Esses estudos multicêntricos cooperativos foram coordenados e financiados em parte pela Agência Internacional para Pesquisa sobre o Câncer (IARC), envolvendo grupos de pesquisa em 13 países (Austrália, Canadá, Dinamarca, Finlândia, França, Alemanha, Israel, Itália, Japão, Nova Zelândia, Noruega, Suécia e Reino Unido), e utilizaram um protocolo de pesquisa comum a todos os grupos, de modo a permitir a sua analise conjunta. Denominado INTERPHONE, este esforço internacional começou a publicar dados preliminares, em 2004, e em 2007 o primeiro trabalho descrevendo métodos apareceu em versão impressa (Cardis et al, 2007). A primeira publicação conjunta de todos os grupos analisando conjuntamente os dados para dois tipos de tumores cerebrais, meningiomas e gliomas, foram publicados em maio de 2010, após um prolongado período de espera (The INTERPHONE Research Group, 2010). A publicação final sobre os outros dois tipos de tumores analisados, neuromas do nervo acústico e tumores da glândula salivar, ainda não tinha sido realizada quando o presente trabalho foi finalizado.


O estudo INTERPHONE focou em tumores que ocorrem em locais com maior probabilidade de serem afetados pela maior exposição a campos de RF durante a utilização de telefones celulares, e incluiu 2.765 casos de gliomas, 2.425 casos de meningiomas, 1.121 casos de neuromas acústicos, 109 casos de tumores malignos da glândula parótida e 7.658 controles. Foram coletadas Informações detalhadas sobre a história do uso do telefone móvel pelos usuários, bem como alguns fatores de risco conhecidos e potenciais foram coletados por meio de uma entrevista pessoal conduzida através de um questionário por computador, sob o comando de entrevistadores bem treinados. Mais significativo é o fato de que pela primeira vez, vários estudos de validação e refinadas técnicas de preparação epidemiológicas e estatísticas foram utilizadas a fim de compreender melhor e diminuir a influência de variáveis confundentes e vieses que haviam sido um problema em estudos caso/controle prévios. Os resultados do INTERPHONE foram aguardados com grande expectativa tanto pela comunidade científica quanto pelas autoridades de saúde e meios de comunicação de massa, devido às suas características ímpares de projeto e tamanho das amostras, e o ICNIRP, a OMS e outras agências adiaram por várias vezes suas declarações oficiais sobre RF e saúde na expectativa dos resultados. Revisamos resumidamente estes resultados a seguir.


Um dos primeiros estudos do INTERPHONE que examinou a incidência de neuromas do acústico (Shoemaker et al, 2005) utilizou um conjunto de seis estudos de caso/controle separados, realizados de acordo com o protocolo comum em países escandinavos e no Reino Unido. Constatou-se que o risco deste tipo de tumor em relação ao uso regular de telefones celulares não aumentou no conjunto de dados obtidos (razão de chances, OR = 0,9), e que não houve associação entre a magnitude do risco e o tempo de uso, horas cumulativas de uso ou número de chamadas realizadas, tendo sido calculadas separadamente para telefones celulares analógicos ou digitais. Eles encontraram no entanto, um aumento moderado de risco para tumores no mesmo lado da cabeça do uso preferido do celular, em usuários com 10 anos de uso ou mais (OR = 1,8). O estudo sugere que não há risco substancial de aumento da incidência de neuromas do acústico, pelo menos na primeira década após o início do uso do telefone móvel.


O ramo do INTERPHONE no Japão, por outro lado, relatou essencialmente os mesmos resultados (Takebayashi et al, 2006).
O estudo INTERPHONE francês (Hours et al, 2007) também não relatou nenhum risco aumentado significativo para gliomas, meningiomas e neuromas, embora os pacientes tivessem uma incidência de gliomas ligeiramente acima, ou sem significância entre os usuários que utilizavam celulares de forma mais intensa ou prolongada.
A contribuição britânica ao estudo de gliomas teve resultados completamente negativos, atribuindo um risco aparentemente mais elevado, mas não significativo, a um viés de recordação (Hepworth et al., 2007). Esses resultados confirmaram que não parece haver nenhuma associação entre o risco de aparecimento de de gliomas e o uso de telefones celulares para todos os usuários há 10 anos ou menos, corroborando o que foi publicado pelo estudo INTERPHONE em 5 países do norte da Europa (Lakhola et al, 2007).
Lönn et al (2005), na Suécia, fizeram um estudo epidemiológico caso/controle com 644 casos de glioma cerebral e meningioma e 674 controles, e concluíram que a utilização regular de telefone celular indicava razões de chances entre 0,7 e 0,8 para gliomas e meningiomas, com resultados semelhantes para usuários com mais de 10 anos de uso de telefones móveis. Da mesma forma, nenhum aumento de risco foi encontrado para o uso ipsilateral do telefone para tumores localizados no lobo temporal e parietal, o tipo de histologia do tumor, tipo de telefone e intensidade de uso. Este estudo incluiu um grande número de usuários do telefones móveis de longo prazo, e os autores concluíram que os dados não suportam a hipótese de que o uso do telefone celular esteja relacionado a um aumento do risco de glioma ou meningioma, sendo que este estudo foi o primeiro a contradizer diretamente as publicações de seu compatriota L. Hardell.

Outro estudo INTERPHONE, concluído e publicado em 2008, analisou o risco de tumores da glândula parótida em usuários de telefone celular em Israel (Sadetzki et al, 2007). Lonn et al (2006) já haviam analisado anteriormente os dados epidemiológicos sobre câncer das glândulas salivares e o uso de telefone celular na Dinamarca e concluíram que os dados não suportavam uma associação quanto ao uso regular de telefones móveis. Independentemente da sua duração, as estimativas de risco para o tumores malignos e benignos foi de 0,7 (intervalo de confiança de 95%: 0,4 a 1,3) e 0,9 (intervalo de confiança de 95%: 0,5 a 1,5), respectivamente. Resultados semelhantes foram encontrados para usuários com até 10 anos de uso do telefone celular. O estudo de Sadetzki e colaboradores, entretanto, encontrou um risco um pouco elevado, mas não significativo, para tumores benignos e malignos, ipsilaterais ao lado preferido de uso do telefone celular. As razões de chance (OR) referentes à maior categoria de número cumulativo de chamadas e de duração de chamadas sem o uso de dispositivos de viva-voz foram de 1,58 (intervalo de confiança de 95%: 1,11 a 2,24) e de 1,49 (intervalo de confiança de 95%: 1,05 a 2,13), respectivamente, Este estudo, quando foi publicado, provocou muita polêmica e reportagens alarmantes na imprensa. O câncer de parótida é muito raro (2-3 casos por milhão), o que torna muito difícil realizar análises estatísticas confiáveis. A carcinogênese induzida pelo tabagismo a longo prazo tem sido sugerida como um fator de risco para alguns tumores de cabeça e pescoço (Marur & Forastiere, 2008).


A publicação final dos resultados agrupados dos estudos multicêntricos caso/controle sobre gliomas e meningiomas em 13 países (The INTERPHONE Research Group, 2010), chegou à conclusão de uma razão de chances (OR) abaixo da unidade para gliomas (OR de 0,81; intervalo de confiança (IC) de 95% de 0,70 a 0,94], bem como para meningiomas (OR de 0,79; IC de 95% de 0,68 a 0,91), para usuários contínuos de telefones celulares. Os autores interpretaram este OR como possivelmente refletindo um viés de participação ou de outras limitações metodológicas e não como sendo um efeito protetor real. Nenhum efeito ou um aumento foi observado 10 anos após a primeira utilização de um telefone (gliomas: OR de 0,98; IC de 95% entre 0,76 e 1,26 meningiomas;: OR de 0,83; IC de 95% de 0,61 a 1,14).As razões de chances foram inferiores a um para todos os decis quanto ao número de telefonemas dados e, para os nove decis inferiores quanto ao tempo de chamada cumulativo. Entretanto, o decil mais elevado para tempo cumulativo de chamada, o OR foi de 1,40 (IC de 95% de 1,03 a 1,89) para casos de glioma, e de 1,15 (IC de 95% de 0,81-1,62) para casos de meningioma. Possivelmente esses resultados, no entanto, foram causados por alguns valores altamente implausíveis de utilização de telefones relatados neste grupo, tais como 12 horas de uso por dia, o que influenciou os resultados, tornando-os artificialmente elevados.


Quanto à localização dos tumores, o OR para gliomas tendeu a ser maior no lobo temporal do que em outros lobos do cérebro, o que corresponde à parte do cérebro mais exposta à radiação RF do telefone celular, porém os intervalos de confiança para a sede do tumor eram largos demais, o que dificulta a interpretação. Quanto ao lado da cabeça, o estudo INTERPHONE agrupado para gliomas evidenciou OR maiores para tumores ipsilaterais ao lado da cabeça de uso preferencial do celular. Todavia, com base nos estudos metodológicos já citados acima, esse resultado poderia ser explicado por um viés de recordação, uma vez que os indivíduos doentes tenderam a atribuir o seu lado preferido de usar telefone celular ao mesmo lado da cabeça em que ocorreu o tumor.
Outra das principais conclusões do estudo INTERPHONE foi que não importava se a pessoa fosse um usuário de telefones móveis analógicos ou digitais quanto à ausência de risco aumentado de tumores cerebrais.
A OMS publicou logo após o estudo INTERPHONE final ter saído à luz uma Fact Sheet oficial do Grupo EMF e Saúde (OMS, 2010), declarando sobre o mesmo:
'Um estudo caso-controle retrospectivo de adultos, INTERPHONE, coordenado pela Agência Internacional de Pesquisa sobre Câncer (IARC), foi concebido para determinar se existem ligações entre o uso de telefones celulares e o câncer de cabeça e pescoço em adultos. A análise internacional conjunta dos dados coletados em 13 países participantes não encontrou nenhum aumento do risco de glioma ou meningioma com o uso do telefone celular por mais de 10 anos. Há algumas indicações de um aumento do risco de glioma para aqueles que relataram as 10% maiores horas acumuladas de uso de telefones celulares, porém não houve tendência consistente de aumento de risco com maior tempo de uso. Os pesquisadores concluíram que vieses e erros limitaram a força destas conclusões e dificultam uma interpretação de causalidade.”
Os resultados do INTERPHONE têm sido criticados por alguns grupos científicos militantes, tais como o BioInitiative Group, e por alguns epidemiologistas, como tendo um número significativo de falhas metodológicas (Sarrachi & Samet, 2010), incluindo vieses de seleção e de recordação, a exclusão de jovens e crianças e dos casos de tumor cerebral quando houve morte, o que pode ter levado a níveis estimados de razões de chance (OR) artificialmente baixos nesse tipo de estudo. Os críticos também têm chamado a atenção para a definição que o protocolo INTERPHONE fez de usuários regulares (um usuário regular foi definido como o que fizesse pelo menos uma chamada por semana ao longo de seis meses, uma exposição tão baixa que o risco da população exposta teria sido seriamente subestimado).
Apesar de muitos comentários sobre a publicação de 18 de maio de 2010 terem destacado a inconclusão do estudo, nossa opinião é que, ao contrário, suas conclusões são inteiramente justificadas. Na verdade, o INTERPHONE é o maior e mais cuidadosamente controlado estudo epidemiológico realizado até o presente, com o maior número de usuários de celulares a longo prazo, e analisando a relação dos tumores mais importantes do cérebro e cabeça e pescoço com o uso de telefones celulares de forma contínua por mais de 10 anos. Notavelmente, todas as medidas de risco relativo foram universalmente baixas, oscilando em torno de unidade. Além disso, os resultados do INTERPHONE estão de acordo com a maioria das pesquisas experimentais (in vitro e in vivo, bem como com a maioria dos outros grandes estudos epidemiológicos caso-controle e de coorte, muitos com com base em registros populacionais com mais de 400.000 participantes.
Portanto, as conclusões gerais emitidas por instituições altamente respeitadas, como o ICNIRP refletem esse posicionamento da comunidade científica:
ICNIRP (http://www.icnirp.de/documents/ICNIRPnote.pdf):
"Em geral, o estudo não encontrou um aumento do risco de gliomas ou meningiomas em relação ao uso do telefone celular. (…) O ICNIRP concorda que os vieses e os erros do estudo excluíram uma interpretação causal dos resultados. "
OMS (http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs193/en/index.html), em suas publicações oficiais em 2009 e 2010: São amplamente justificadas a falta de evidências para efeitos prejudiciais à saúde de seres humanos dos dispositivos de radiofrequência de baixa energia usados para comunicações móveis, apesar das posições contrárias de alguns grupos e indivíduos.
Além disso, a Food and Drug Administration (FDA), nos Estados Unidos (http://www.fda.gov/downloads/ForConsumers/ConsumerUpdates/UCM212306.pdf ) declarou que:
"As recentes descobertas do Grupo INTERPHONE, publicadas on-line em Junho de 2010 no International Journal of Epidemiology, não mostraram um risco aumentado de câncer cerebral pelo uso de telefones celulares. Apesar de alguns dados sugerirem um risco aumentado para pessoas que fazem uso mais pesado de telefones celulares, os autores do estudo determinaram que vieses e erros limitaram a força de conclusões que podem ser tiradas. Segundo a OMS, o uso do telefone celular se tornou muito mais frequente e não é raro acontecer de jovens de usar telefones celulares durante uma hora ou mais por dia. Este crescente uso é moderado, no entanto, pela redução das emissões, em média, a partir de telefones da mais recente tecnologia, e o uso crescente de mensagens de texto e de dispositivos de viva-voz que manter o telefone longe da cabeça. "


É importante ressaltar, no entanto, que nenhum estudo epidemiológico com exposições de longo prazo superiores a 15 anos foi publicado até o momento. Considerando que até mesmo agentes ambientais muito agressivos, tais como a radiação ultravioleta dura devida à exposição solar prolongada e desprotegida, apresentam neoplasias apenas após latências comprovadas de 20 anos ou mais, o status dos conhecimentos a respeito desse parâmetro da exposição à RF apresenta uma grande carência neste sentido.
É possível que as latências efetivas para a causação do câncer devido à exposição à RF possam exceder o tempo de vida média das pessoas que atualmente são adultas, mas podem ser relevantes para os usuários que são crianças ou jovens hoje. Infelizmente, ainda não há um grande estudo epidemiológico para essa faixa etária, apesar das crianças adolescentes e adultos jovens constituírem uma parte cada vez maior de usuários de telefones celulares, PDAs e computadores portáteis com acesso de dados sem fio.


Revisões sistemáticas com base em meta-análises


Uma técnica importante para a revisão sistemática da literatura é a meta-análise, que utiliza métodos estatísticos especiais para combinar e comparar os diferentes estudos com resultados do mesmo tipo e delineamentos de pesquisa semelhantes. Os critérios de seleção para os estudos que compõem a meta-análise são uma consideração importante, porque vários vieses de análise estatística podem ser introduzidos por esta seleção e influenciar os resultados. Além disso, às vezes é difícil tirar conclusões a partir da meta-análise, devido à heterogeneidade dos estudos que foram incluídos (Croft et al, 2008).



No período de 2006 à 2009, foram publicadas quatro meta-análises sobre estudos epidemiológicos de tumores cerebrais em relação à exposição a radiação a que são expostos usuários de telefones celulares: Lahkola et al. (2006), Hardell et al. (2007), Kan et al. (2007) e Khurana et al (2009).


Esta última, que focou separadamente os artigos que analisaram a utilização de telefones celulares a longo prazo (igual ou superior a 10 anos) e no lado da cabeça com uso preferencial do telefone (tumores ipsilaterais), relatou uma razão de chances combinada de 1,9 (intervalo de confiança de 95% entre 1.4 e 2.4) para gliomas, de 1,6 (IC de 95% = 1.1-2.4) para neuromas do acústico, e de 1,3 (IC de 95% = 0.9-1.8) para meningiomas. Os autores concluíram que "ao usar-se um telefone celular por mais de 10 anos, aproximadamente dobra-se o risco de ser diagnosticado com um tumor cerebral no mesmo lado da cabeça (ipsilateral) de preferência para o uso do telefone celular. Os dados atingiram significado estatístico para gliomas e neuromas do acústico, mas não para meningiomas.". No entanto, embora os autores afirmem que “esta é uma meta-análise que incorpora todos os 11 estudos epidemiológicos de longo prazo a respeito desta área ", apenas cinco dos estudos foram incluídos na análise quantitativa acima, sendo dois deles realizados pelos grupo de Hardell e três pelo INTERPHONE, pois os outros trabalhos não tinham casos com mais de 10 anos de uso de telefones celulares.

A meta-análise de Lakhola et al (2006) para estudos com mais de 5 anos de seguimento, por outro lado, relatou uma razão de chances de 0,98 para todos os tumores intracranianos relacionados ao uso de telefone celular, ou seja, não há nenhuma evidência para existência de risco nessa duração de exposição. Para gliomas, a taxa agrupada foi de 0,96, para meningiomas, de 0,87, e para neuroma do nervo acústico foi de 1,07, sendo que todos os valores estavam dentro do intervalo de confiança de 95%.




Dados epidemiológicos sobre a exposição de crianças

O fato de que mais e mais crianças e adolescentes se tornam usuários de telefones celulares (a predominância já é de mais de 40% em crianças menores de 15 anos, e mais de 90% entre os adolescentes, em alguns países) e computadores sem fio tem levantado preocupações quanto a sua saúde, de forma que as autoridades públicas em alguns países já aprovaram legislação que proíbe as estações rádio-base perto de escolas, embora isso não tenha nenhuma base científica (a densidade de potência dos campos distantes da antena são demasiado pequenas; além disso, a exposição de crianças fora da escola não é controlada por essa legislação). Ironicamente, a proibição do uso de telefones celulares por crianças, no entanto, não foi objeto de legislação até agora.

Tem sido argumentado por alguns investigadores que as crianças poderiam ser mais vulneráveis à RF, pois seu organismo está em desenvolvimento, e que sua estrutura encefálica poderia ser penetrada mais profundamente por campos de RF (veja a análise de Otto & von Mühlen, 2007). No entanto, a diferença mais importante em relação ao uso de telefones celulares entre as crianças de hoje e adultos é a uma exposição mais longa à RF, devido ao fato de começarem a usar os telefones em idade precoce (Schüz, 2005).

Embora não existam dados científicos que os organismos em desenvolvimento sejam mais vulneráveis do que os adultos aos campos de RF (Kheifets et al., 2005), não existem atualmente estudos epidemiológicos abordando crianças e adolescentes dos riscos de câncer por exposição a RF. Uma das razões é que este é um fenômeno muito recente. A outra razão é que a maioria dos cânceres que são causados por fatores ambientais são extremamente raros em jovens. O terceiro fator é que as investigações epidemiológicas que exigem a coleta de informação por entrevistas com usuários não são fáceis de fazer com as crianças, principalmente as de menor idade. Dois estudos internacionais de tumores cerebrais em crianças e adolescentes estão presentemente em andamento, CEFALO (Feychting, 2006) e MOBI-KIDS (Parrish, 2010, veja também http://www.mbkds.com/ ).


Em conclusão, segundo Martens (2005), "tudo isso faz com que seja impossível uma resposta definitiva à pergunta se as crianças são mais sensíveis aos campos eletromagnéticos que os adultos. Pesquisas mais consistentes serão necessárias”. Uma abordagem de precaução, especialmente com crianças pequenas, pode ser a opção mais barata e eficaz, por enquanto.


Embora não haja dados suficientes para concluir algo sobre a utilização de celulares por crianças e seus efeitos sobre a saúde, alguns estudos indicaram um aumento no risco de leucemia em crianças que vivem perto de antenas de rádio ou televisão, que emitem campos eletromagnéticos muito potentes para a radiodifusão (Ahlbom et al. 2004, Schüz & Ahlbom, 2008). Esta é tipicamente uma neoplasia da infância, e estão disponíveis muitos dados epidemiológicos de longo prazo sobre a exposição em função do local de residência. Em um estudo de controle de caso realizado na Coréia do Sul envolvendo 1.928 casos de leucemia (Ha et al. 2007) não foi observada associação entre o risco de leucemia e as intensidades de campo previstas (OR = 0,83, IC de 95%: 0.63-1.08). Um segundo estudo caso/controle realizado em 16 municípios alemães em áreas ao redor de oito antenas de rádio AM, FM to e TV (Merzenich et al. 2008) envolveu 1.959 casos de leucemia e 5.848 controles de base populacional. Não foram observados aumentos gerais no risco de leucemia durante a primeira década (OR de 0,86, IC de 95%: 0.67-1.11), e também nenhum efeito da distância das antenas (OR = 1,04 (95% CI: 0.65-1.67) entre crianças que vivem no perímetro de até 2 km do transmissor mais próximo em comparação com aqueles que viviam a uma distância de 10-15 km.






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