Na esfera física, matéria e energia interagem entre si de muitas formas e níveis



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Viés de relato: dois problemas podem ocorrer em estudos retrospectivos de casos vistos há muitos anos, especialmente com doenças de alta letalidade, como algumas neoplasias. Em primeiro lugar, uma quantidade considerável de dados sobre a exposição de pessoas falecidas é baseado em informações de segunda mão por parentes e cuidadores que tinham contato mais íntimo e prolongado com os mesmos. Isso é chamado de relato por procuração (“reporting by proxy”, em inglês(. Certamente, isso reduz consideravelmente a precisão dos dados e deve ser evitado, embora isso seja impossível em alguns casos. É um dilema, porque manter a entrevista por procuração introduz outros vieses, pois elas são mais comuns em casos do que nos controles, devido à morte ou desabilitação pela própria doença), enquanto que a sua eliminação poderia introduzir um outro tipo de viés (melhor qualidade de dados nos controles, exclusão de pacientes que não estão disponíveis no momento da coleta de dados retrospectivos). Em segundo lugar (e mais grave, porque é difícil de detectar e corrigir), o cérebro, a memória e a cognição podem ser afetados pela doença em si, principalmente se for no cérebro, e introduzir imprecisões ou informações falsas por pacientes afetados (Ahlbom et al. 2004).
Coleta não-cega de dados e viés de relato: Em um estudo realizado na Alemanha, os moradores de um bairro foram efetivamente comunicados pelos investigadores que estavam sendo recrutados para a avaliação de má saúde causada por uma antena situada perto de suas casas, um fato que muitos ignoraram até então! Erros metodológicos e elementares como estes são realmente muito comuns, assim como estudos cegos ou duplo cegos nem sempre são totalmente impossíveis. Segundo Valberg et al (2007), a maioria desses estudos epidemiológicos seriam descartados como inaceitáveis, se tivessem que seguir os padrões de qualidade dos ensaios clínicos de medicamentos.
Conclusões quando aos problemas metodológicos
Em conclusão, há muitas dificuldades metodológicas que parecem afetar os estudos epidemiológicos nesta área, particularmente aqueles com desenho do tipo caso/controle. Os problemas mais comuns que devem ser considerados são:
• Estimativa inadequada da exposição

• Ação diferencial do viés de recordação

• Viés de seleção
Os pontos mais importantes e dificultosos no planejamento do protocolo de um estudo caso-controle são: a obtenção dos casos, a seleção de controles, e a qualidade da medida da exposição ao agente ambiental (Wacholder, 1995).
O que pode ser feito para melhorar a qualidade e a resolutividade dos estudos epidemiológicos sobre os efeitos dos CEM sobre a saúde?
Em primeiro lugar, são necessários melhores métodos de relatório. Grupos de pesquisadores epidemiológicos preocupados com esse aspecto, têm dedicado seu tempo a desenvolver diretrizes práticas melhores (por exemplo, Stroup et al, 2000; Blettner et al., 2001. Pocock et al., 2004). A transparência e a abordagem sistemática são os objetivos atuais de muitas revisões da literatura nesse sentido.
Segundo Auvinen et al (2006). "A maior oportunidade de melhorar a qualidade da evidência é através de estudos prospectivos. A principal limitação dos estudos epidemiológicos que abordam efeitos do uso de telefones celulares sobre a saúde está relacionada à avaliação da exposição. Estas limitações são inerentes aos estudos de caso/controle. A qualidade das evidências pode ser melhorada através da realização de estudos prospectivos de coorte ".
SCENIHR (Scientific Committee on Emerging and Newly Identified Health Risks), um corpo consultivo estabelecido pela Comunidade Européia identificou a melhor maneira de preencher as lacunas de pesquisa em estudos epidemiológicos humanos o seguinte:
Um estudo prospectivo de coortes é o próximo passo lógico na hierarquia de evidências, seguindo-se aos estudos inconclusivos caso/controle prévios. Um estudo baseado em coortes supera as limitações dos estudos caso/controle, tais como os vieses de recordação e de seleção, assim como a incerteza devida à avaliação retrospectiva auto-relatada da exposição. Tal estudo expandiria significativamente a gama estreita de desfechos analisadas em estudos anteriores, que foi limitada principalmente a tumores intracranianos. Desfechos adicionais, tais como doenças neurológicas e cerebrais e outros tipos de câncer, poderiam ser incluídos. Os estudos prospectivos podem levar em consideração não somente os efeitos da exposição atual, mas também o histórico de exposição incorrido antes do início do seguimento, assim como a exposição a novas tecnologias, desenvolvidas ao longo do estudo” (SCENIHR, julho de 2009)
A este respeito, uma série de estudos de coorte prospectivos de longa duração (20 a 30 anos) estão se iniciando em 2010, tais como COSMOS (International COhort Study of MObile Phone Use and Health, veja Schüz, 2006), realizado pelo Departamento de Epidemiologia e Saúde Pública do Imperial College de Londres, Reino Unido e vários outros países (Suécia, Dinamarca, etc.) Os custos deste tipo de estudo são grandes, e o seu financiamento a longo prazo geralmente não é totalmente garantido, mas certamente são necessários para fornecer uma garantia final para a ciência e para o público da segurança a longo prazo dos telefones celulares.
Em relação às crianças, SCENIHR (2009) também propõe em seu relatório quais são as lacunas da pesquisa em curso sobre campos electromagnéticos e saúde:
As crianças estão expostas mais cedo a campos de RF provenientes de equipamentos de telecomunicações móveis e assim terão um tempo maior de exposição ao longo da vida do que os adultos dos dias de hoje. Elas também podem ser mais suscetíveis do que os adultos a esses campos, devido às diferenças anatômicas e morfológicas, e de que modo elas são expostos durante o desenvolvimento. As investigações finalizadas e em curso são sobretudo estudos de caso/controle sobre os tumores cerebrais na infância. Dificilmente foram realizadas pesquisas sobre os efeitos da exposição a campos electromagnéticos sobre o desenvolvimento do sistema nervoso central, e sobre a função cognitiva e comportamento de crianças. Mais dados também são necessários em crianças menores do que aqueles que foram estudadas até agora. Experiências com animais quanto ao desenvolvimento precoce do cérebro e comportamento poderão responder a algumas das questões relacionadas aos efeitos sobre as crianças.
A eliminação dos erros de avaliação da exposição só serão conseguidos utilizando dosímetros pessoais, que serão capazes de gravar continuamente a intensidade do espectro de frequências eletromagnéticas de rádio e micro-ondas, que sejam livres de manutenção e que permitam gravações confiáveis. Esta é a mais importante inovação tecnológica com poder para mudar o cenário atual, porém a sua implantação com grande número de participantes é muito cara (considere a comparação, por exemplo, com a radiodosimetria, que utiliza crachás com filme fotográfico para determinar a exposição à radiação ionizante de milhões de profissionais a cada ano em todo o mundo, e que é muito barata, é facilmente quantificável e razoavelmente confiável). Em um encontro realizado em janeiro de 2008, intitulado "A Dosimetria Encontra a Epidemiologia", foi afirmado que "o monitoramento é uma condição sine qua non para avaliar a situação da saúde pública e um paralelo deve ser traçado na pesquisa de RF, onde a questão deve focar não só nos mecanismos, mas também na saúde pública. Além disso, o conhecimento sobre o grau de exposição pública será obrigatório se evidências consistentes de efeitos adversos não-térmicos de exposições ELF e RF forem estabelecidos".
Os primeiros estudos estão começando a aparecer ao longo destas linhas. Na Alemanha, foi realizada um levantamento preliminar com usuários carregando um dosímetro pessoal por 24 horas, com medições a cada segundo, Kühnlein et al. (2008) determinaram que a exposição total a campos de RF de todos os indivíduos avaliados foi significativamente abaixo do nível de referência da ICNIRP.
Outra melhoria técnica que possibilitaria uma melhor avaliação do grau de exposição em base contínuas para as pesquisas epidemiológicos sobre usuários de telefones celulares, são aparelhos telefônicos especiais que foram modificados por software (SMP: Software Modified Phones) para efetuarem o registro da potência de saída de cada chamada feita. Embora ainda não seja uma verdadeira medição do SAR, a correlação com ele pode ser boa o suficiente. Foi realizada uma investigação utilizando SMPs com mais de 60.000 chamadas, por Vrijheid et al (2009a). Eles concluíram que a potência média usada foi de 50% da máxima possível, que ela variava por um fator de 2 a 3 entre centros de estudo e operadoras de telefonia celular, e que, em cerca de. 40% do tempo as conversas foram realizadas na potência máxima. Além disso, determinou-se que esta aumentava muito quando os telefonemas eram feitos em localidades rurais, devido a uma maior distância da estação rádio-base Os autores concluíram que existe pouco valor na coleta de informações sobre as circunstância de uso dos telefones.
Um bom exemplo de que tipo de contribuições decisivas um estudo epidemiológico bem conduzido pode trazer à medicina é a investigação, longitudinal prospectiva de exposição ao tabaco, e desfechos de saúde em 34.439 médicos do Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido ao longo de cinco décadas (Doll et al, 2004). O grau de exposição foi registrado com razoável precisão, sem um grande viés de recordação, houve uma relação confiável entre a exposição, medida em número diário de cigarros e a concentração sanguínea de produtos químicos, como a nicotina, a avaliação de riscos e o registro de desfechos de saúde com latências muito longas foram próximos do ideal (98,9% das causas de morte foram identificadas), um grande número de participantes manteve a adesão ao estudo (94%), e várias outras características exemplares do gênero. Deste modo, uma relação causa-efeito pode ser claramente estabelecida em um campo cheio de incertezas, até então, o que mudou para sempre as atitudes da ciência médica e do público em relação ao tabaco (ao mostrar, por exemplo, que os fumantes tinham um risco 300% mais alto de morrer mais cedo em relação aos não-fumantes).
Se nos referirmos aos famosos nove pontos de Bradford Hill (1969) que foram propostos como os critérios a serem satisfeitos quando se tenta atribuir uma relação de causa-efeito a partir de estudos epidemiológicos, podemos facilmente verificar que o corpo de evidências até agora não os satisfaz integralmente, no que diz respeito à exposição à campos RF e os possíveis efeitos na saúde humana:


  1. Força das medidas de associação, tais como RRs, ORs e SIRs tem sido geralmente fraca, quase todos próximas ou próximas à unidade;

  2. Consistência intra e inter- estudos: neste campo há uma grande controvérsia científica, alimentada por uma inconsistência notável entre os estudos relativos a vários desfechos de saúde, a reprodutibilidade dos resultados positivos é baixa, e a comparação entre eles é difícil, devido às grandes diferenças na qualidade da metodologia;

  3. Especificidade da associação: embora os estudos epidemiológicos tenham buscado associações específicas, eles ainda são controversos uma vez que muitos estudos se contradizem, a variável independente (exposição à RF) é medida com uma grande margem de inacurácia, e existe um grande número de variáveis não controladas;

  4. Temporalidade: a maioria dos estudos analisou a exposição antes da doença, mas como o início da doença não é a mesma que a primeira detecção da doença, sobretudo nos cânceres com longos períodos de desenvolvimento, a sequência temporal causa-doença é ainda um pouco nebulosa.

  5. Relação dose-resposta: poucos estudos examinaram esse parâmetro, em parte devido às dificuldades metodológicas. Na maioria dos estudos de exposição comunitária, tal relação, avaliada indiretamente pela distância da antena rádio-base, não pode ser comprovada por dados confiáveis que poderiam explicar melhor as pequenas variações observadas. Nos estudos com usuários de telefones celulares, o número e a duração dos telefonemas foram usados comumente como um parâmetro de dose, porém o viés de recordação influenciou a acurácia dos resultados.

  6. Plausibilidade biológica, física e química: os níveis muito baixos dos campos de RF emitidos pelas estações rádio-base não suportam uma plausibilidade nesse sentido. Os telefones celulares, por outro lado produzem exposições relativamente elevadas, de modo que este se torna mais plausível. No entanto, a maioria das pesquisas publicadas não forneceram uma base firme de evidências para a existência desses efeitos, mesmo quando existem altos níveis de exposição;

  7. Coerência biológica: Ao contrário da radiação ionizante, a radiofrequência por ser não-ionizante raramente apresenta efeitos biológicos e moleculares comprovados e que expliquem danos à maquinaria celular, e assim são improváveis na determinação dos mecanismos da doença em níveis baixos de potência. Quanto aos efeitos não-térmicos, e ainda duvidosa sua existência, e que eles representariam um fenômeno importante para a promoção da doença.

  8. Não há nenhuma sustentação consistente de estudos com células vivas, animais e seres humanos aos estudos epidemiológicos positivos

  9. Uma analogia com outras relações causais similares descobertas, tal como com radiação ionizante, não foi assegurada até agora, e seria várias ordens de magnitude menos intensas, se eventualmente for provado que elas existam (sendo uma das razões o fato de que a RF não tem efeitos biológicos cumulativos). Uma analogia possível poderia eventualmente ser demonstrada em relação a campos eletromagnéticos de frequência muito baixa (ELF, emitida por linhas de transmissão elétrica de alta potência), os quais obtiveram do IARC uma classificação como agente carcinogênico possível, mas não provável. No entanto, os mecanismos biofísicos parecem ser bastante diferentes para RF e ELF.

1 http://www.ead.edumed.org.br/course/view.php?id=130

2 http://www.edumed.org.br/lasr2008/







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