Na esfera física, matéria e energia interagem entre si de muitas formas e níveis


Variações de potência de transmissão



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Variações de potência de transmissão: a potência emitida pelo telefone celular pode variar substancialmente de chamada para chamada, dependendo da distância da estação rádio-base no momento da chamada, do ambiente onde se está utilizando o celular (dentro de um carro, por exemplo), entre outros fatores. Por exemplo, Lönn et al (2004) mediram a potência de saída de um telefone celular em áreas de diferentes graus de urbanização. Nas áreas rurais, onde as torres são maiores e mais distantes uma das outras, o nível de potência de saída utilizada por telefones móveis é, em média, consideravelmente mais elevado do que nas áreas mais densamente povoadas. O mesmo se aplica para os estudos de exposição à radiação de ERBs: diversos levantamentos em se mediu a variação do campo eletromagnético mostrou que dentro de uma mesma edificação, como uma casa ou apartamento, as pessoas são expostas a níveis amplamente flutuantes de densidade de potência do campo, à medida que se movimentam pelos seus aposentos, ou até mesmo dentro de um mesmo aposento. A consequência disso, é que não se pode assumir de forma nenhuma que só pelo fato das pessoas viverem a uma mesma distância de uma ERB estarão sujeitas ao mesmo SAR médio.
Inadequação de medidas substitutivas ou indiretas: Várias investigações metodológicas têm desafiado a adequação do chamado “proxy” ou medidas substitutivas da exposição, tais como tempo de uso do aparelho celular, número médio de chamadas, e até mesmo de duração da chamada. Morrissey (2007) , por exemplo, descobriu que elas se relacionam bastante mal com a exposição real à RF, porque há uma grande variabilidade durante uma única chamada, entre chamadas, entre os indivíduos, diferentes faixas etárias, localizações geográficas, etc., sem falar das variações de potência entre distintos modelos de aparelhos celulares.. Já discutimos também que estimativas subjetivas de tempo cumulativo de falar ao telefone são altamente inacuradas, com erros de até 60%. Para os estudos de exposição comunitária, a determinação das densidades reais de potência dos campos de RF também é essencial, porque, como foi comentado anteriormente, o uso de medidas indiretas de exposição, como distância, campos calculados por simulação, e outras, são tão inacurados e variáveis que não têm utilidade como medidas substitutivas ou indiretas. (por exemplo Neitzke et al, 2007).
Outras formas de comunicação móvel: Telefone celular é um termo genérico que não implica automaticamente em uma exposição uniforme à RF ao empregá-lo em contato com um dos lados da cabeça várias vezes por dia, como se infere normalmente. Não somente é impossível aferir de modo objetivo e acurado, tanto através de registros de chamadas fornecidos pelas operadoras, quanto pelo auto-relato dos usuários quantas vezes as pessoas fizeram ou receberam chamadas por viva-voz ou por fones de ouvido (diminuindo, desta forma, a exposição da região da cabeça e do cérebro à RF), mas também qual é o uso que fazem de recursos cada vez mais comuns, tais como mensagens SMS e email, correio de voz, navegação pela Internet, ouvir músicas, etc;), desta forma gerando novas fontes de imprecisão das medidas indiretas de exposição. Pior ainda, existem muitas diferenças quanto a essas novas formas de uso entre faixas etárias, sexo, nível sócio-econômico e educacional, custos operacionais, etc. Com isso tudo, fica extremamente trabalhoso e difícil o pareamento de grupos caso e controle, e a aleatorização nem sempre pode representar uma garantia para a qualidade do estudo epidemiológico.
Múltiplas fontes de exposição: Outra tendência de grande impacto que está ocorrendo progressivamente quanto aos padrões de utilização das comunicações móveis, e que é difícil de controlar, em especial em estudos epidemiológicos retrospectivos de coortes baseados em registros de base populacional, é a de que muitos usuários possuem hoje mais de um telefone celular em seus nomes ou em nome de empresas, de tal forma que é impossível controlar o grau de uso e exposição à RF nesses casos. Em muitos países, os telefones celulares pré-pagos, os quais normalmente não têm o usuário identificado, representam mais de 80% de todas as linhas, e uma parte grande da população de usuários opera de formas altamente variáveis uma mistura de telefones pós-pagos e pré-pagos, do mesmo ou de distintos provedores, ou até mesmo com vários chips SIM de celulares, que são intercambiados livremente e sem aviso. Procedimentos para a ligação de registros (record linkage) não funcionarão em todos estes casos, levando uma subestimativa sistemática da exposição à RF de muitos usuários.
Mudanças temporais de longo prazo nos níveis de exposição: Um fator adicional que leva á erros de estimativa da exposição dos usuários à RF tem sido muitas vezes ignorado pelos epidemiologistas: a rápida evolução das tecnologias de telecomunicação móvel. Uma pessoa que usou um telefone celular por 10 anos ou mais, foi provavelmente o proprietário de vários modelos de aparelhos com parâmetros de emissão de RF muito diferentes ao longo deste tempo, tanto do ponto de vista do SAR, quando da modulação do sinal. Dados recentes mostram que dois terços dos usuários americanos substituem seus telefones após uma média de menos de dois anos de uso, e que este ritmo tem se acelerado ultimamente, sendo maior para a geração mais jovem (International Communication Research, 2010). Por exemplo, no Brasil, 70% dos usuários em uma pesquisa nacional dissera, que queriam comprar um novo telefone em 2010. Em 2008 esse percentual era de 32%. (Gilsogamo, 2010).
A primeira geração (analógica) de celulares estiveram em uso até o final dos anos noventa e expunham os usuários a campos de radiofrequência, que eram de 5 a 20 vezes mais intenso do que nos aparelhos digitais atuais, além de empregarem antenas monopolo externas. Como a tecnologia evoluí constantemente nesta área tecnológica, a tendência é na direção de níveis de exposição ainda menores . Em alguns lugares os telefones analógicos ainda são utilizados, ou este modo é ativado automaticamente quando o aparelho entra em modo de visitante (roaming) em certos lugares onde não há cobertura digital ainda, porém a mudança completa, em grande parte global, para GSM, CDMA, TDMA e outras tecnologias de transmissão digital ocorreu em menos de dez anos. Nos Estados Unidos, a tecnologia analógica AMPS foi introduzida comercialmente em 1983, iDEN e CDMA, as primeiras tecnologias digitais, em 1994, e 1996, respectivamente, as de telefones segunda geração (2G) em 1997. O padrão GSM de telefonia móvel digital, iniciado em 1992 em vários países europeus, no prazo de apenas dois anos tinha conseguido um alcance global, tendo chegado aos E.U.A. em 1997. A terceira e quarta gerações de tecnologias móveis foram lançados em todo o mundo em 2003 e 2009, respectivamente. Note-se ainda que a intensidade de campos de saída de RF nas suas estações rádio-base são cada vez menos intensos e as antenas menos espaçados entre si. Micro- nano- e femtocélulas, com radiação muito baixa, agora estão se tornando a norma nas redes celulares, mudando totalmente os padrões de exposição.
Somando-se a todas essas complicações inerentes à medida do grau da exposição em telefonia celular, observamos também que os usuários têm aumentado muito o tempo total de uso do telefone nos últimos 20 anos. Por exemplo, em 1998 o consumidor médio usava o seu telefone 122 minutos por mês. Dois anos mais tarde, isso tinha quase triplicado, para 320 minutos por mês, e atualmente é provavelmente superior a 600 minutos por mês para alguns usuários pesados, como a nova categoria de "viciados em celular".
Conclui-se. ´portanto, que a imprecisão elevada na medição do valor real da variável independente com uma margem tão ampla de erro de fazer a maioria dos estudos de difícil interpretação e para alcançar a verdade, Além disso, o quadro de avaliação da exposição é muito complexo e se tornará mais assim no futuro. Como a taxa de adoção e as diferenças culturais são largas, reunindo os resultados de vários países, usando apenas a autoestima de tempo e frequência de uso, ou mesmo registros da empresa, como no INTERPHONE estudos, não pode fornecer uma estimativa adequada do uso do telefone.
Grupos de controle incomparáveis: Realizar estudos epidemiológicos que comparam um desfecho de saúde entre usuários e não usuário de telefones celulares tenderá a ser uma tarefa impossível no futuro, pois está já ocorrendo uma dificuldade crescente em encontrar pessoas que não sejam suários dessa tecnologia de comunicação tão ubíqua, especialmente entre os jovens. Sabbatini (2010), em um estudo recente sobre os usuários de celulares em três cidades de tamanhos diferentes no Brasil, descobriu que a taxa de penetração dos mesmos é mais baixa entre os mais pobres, os de menor escolaridade, e os muito velhos, ao passo que ela supera agora mais de 100% na faixa etária de 18 a 30 anos. Neste caso, está ficando extremamente difícil, se não impossível evitar vieses de seleção capazes de introduzir grandes erros, uma vez que os grupos de controle serão diferente em muitos pontos dos grupos de casos, independentemente dos esforços para pareá-los de acordo com variáveis importantes.
Pequeno número de casos: com exceção de dois grandes estudos de coorte, a maioria das investigações epidemiológicas foi realizada com desenhos observacionais do tipo caso/, que utilizam um menor número de casos (indivíduos com a doença). Embora os métodos possam ser posteriormente suficientemente sensíveis para detectar associações significativas, mesmo com um número relativamente pequeno de indivíduos, há vários vieses e anomalias estatísticas possíveis quando os pesquisadores não são capazes de coletar dados suficientes de casos, como quando a incidência de cânceres investigados é muito rara (alguns estudos foram baseados em 1 à 3 casos apenas, o que é positivamente uma aberração, ao se considerar a extrema instabilidade dos métodos de inferência estatística com números tão baixos. As taxas de risco relativo próximas a 1 podem ser significativas por puro acaso, ou mais provavelmente, efeitos de maior magnitude pode ser indetectados. Simulações de Monte Carlo têm demonstrado que os testes de associação não paramétrica que partem de tabelas altamente assimétricas e com números muito pequenos em uma das suas células são altamente sensíveis a pequenas variações nos números de pacientes que apresentaram a doença.
Pequeno número de amostras espaciais: os poucos estudos sobre exposição comunitária a antenas de ERBs usaram a distância da mesma às residências das pessoas expostas, ou uma área de tamanho fixo delimitada em torno da ERB (a chamada amostra espacial), para delimitar uma região na qual serão coletados os dados dos sujeitos a serem alocados os casos e os controles. Esta é uma suposição bastante arriscada e injustificada se o número de amostras espaciais for pequena, porque outros fatores de risco podem estar operando na região, tais como: herança genética comum (a existência de grupos familiares ou étnicos de forma diferenciada nas áreas de caso e de controle), a presença de fontes de radiações ionizantes, como radônio, a contaminação química do solo, etc e que não podem ser devidamente ajustados para que o estudo seja bem realizado e não apresente fatores confundentes. Alguns dos estudos de exposição comunitária que foram publicados, não foram incluídos na presente análise de literatura, devido ao fato de que eles investigaram aglomerados de casos de câncer em apenas uma amostra espacial, enquanto os controles foram coletados de forma dispersa em uma área muito maior. Em um dos artigos publicados recentemente por um pesquisador austríaco anunciou com alarde a descoberta de uma associação entre a incidência de vários tipos de câncer e a proximidade prolongada dos indivíduos afetados a uma estação base em um pequeno povoado, Infelizmente para o pesquisador, foi anunciado que a antena em questão estava desconectada há vários anos, o que levou a um pedido de retração do artigo publicado! Este caso exemplifica os perigos de investigações epidemiológica descuidadas.
Investigação seletiva em resposta ao surgimento de aglomerados de câncer. Aglomerados (“clusters”) de câncer são conhecidos por ocorrerem com frequência, como resultado aleatório de fenômenos espaciais temporais. Assim, reagir com a realização apressadas de estudos retrospectivos forçados pela reação da comunidade a esses aglomerados, que é uma resposta muito frequente das autoridades, é uma prática de pesquisa ruim, porque é muito difícil chegar a um nexo epidemiológico-causal nesses casos. Sem mencionar que muitas vezes eles não têm uma causa subjacente real.
Pequeno número de desfechos de saúde: A maioria dos estudos publicados enfocam um pequeno número de desfechos de saúde, tais como tumores da cabeça, pescoço e sistema nervoso central. A seleção desses resultados pode deixar de fora outros desfechos ou parâmetros que possam ser significativos. Na verdade, os tumores mais raros podem ter sido deixados de fora dos estudos epidemiológicos, embora sua incidência poderia ser melhor correlacionada com a distribuição da densidade de potência no cérebro. De acordo com o resumo de outubro do 2008 do Projeto INTERPHONE pela IARC, "como a exposição à RF de telefones é localizada, se existir um risco é provável que seja maior para tumores em regiões com maior absorção de energia. A distribuição espacial da energia de radiofrequência no cérebro foi caracterizada a partir dos resultados das medições efetuadas em mais de 100 telefones usados em diferentes países. A maioria (97-99%, dependendo da frequência) parece ser absorvida no hemisfério cerebral no lado onde o celular é usado, principalmente no lobo temporal. A SAR média relativa é maior no lobo temporal e cerebelo e diminui muito rapidamente com a profundidade crescente, principalmente nas frequências mais elevadas. As análises de risco relativas à localização do tumor são, portanto, essenciais para a interpretação dos resultados de estudos de tumores cerebrais em relação ao uso do telefone móvel (Cardis et al, 2008). Portanto, devem ser realizados mais estudos para caracterizar melhor a localização tridimensional de tumores cerebrais em relação à exposição a RF.
Teste de hipóteses múltiplas: é uma coisa feita comumente em estudos epidemiológicos relacionados à exposição a campos eletromagnéticos, ou seja, um grande número de desfechos associados a várias combinações de variáveis de corte costumam ser testados simultaneamente. Do ponto de vista da estatística, isso tem o efeito de aumentar a probabilidade de obter associações falso-positivas, e deve ser evitado. Outro viés é criado quando os pesquisadores enfocam as associações mais significativas estatisticamente, o que gera vieses adicionais. Particularmente em estudos de tamanho pequeno, associações fortes podem ser espúrias e não suportadas por estudos posteriores (Pocock et al, 2004)>
Efeitos diferenciais de variáveis confundentes: Este fator pode ser, em alguma medida, uma consequência de outros, como o pequeno tamanho das amostras, porque a grande diversidade de potenciais variáveis confundentes torna a estratificação, pareamento ou seleção, os recursos estatísticos clássicos para reduzir a variabilidade, uma tarefa impossível. Pior ainda é o fato de que os investigadores são frequentemente incapazes de determinar se os grupos de caso e controle diferem uns dos outros em termos da influência das variáveis confundentes. Um exemplo de como essas variáveis podem distorcer e mascarar os resultados, foi o estudo de validação do INTERPHONE na Alemanha (Schlehofer et al, 2007), que descobriu que a exposição a sons intensos, ao tabagismo e à febre do feno foram fatores de risco significativo para neuromas do nervo acústico, mas não a exposição a radiações ionizantes e radiações não-ionizantes (exceto para as pessoas que foram irradiadas para fins médicos na cabeça e no pescoço, com uma OR de 6,05 (Blettner et al, 2007). Um estudo caso/controle por Edwards (2006) confirmou também que um risco mais elevado (OR de 2.12) do neuroma do acústico ocorre em pessoas que ouvem música em alto volume por 13 anos ou mais. Esse resultado talvez seja a explicação para alguns dos riscos mais elevados de neuroma do acústico ipsilateral achados em vários estudos epidemiológicos, inclusive os do projeto INTERPHONE, e do grupo de Hardell, uma vez que o dano provocado pelo som do telefone celular ao ouvido em usuários pesados não pode ser separado da irradiação RNI emitida pela antena do aparelho.
Viés de latência: Além da latência que decorre entre o início da exposição a um fator etiológico e a manifestação da doença, e que é inerente à maioria das doenças, incluindo o câncer; outra dificuldade metodológica em estudos epidemiológicos é a criada pela latência entre a primeira manifestação e a primeira detecção da doença. Esse período “silencioso” pode ser muito grande em cânceres causado por exposição a agentes ambientais deletérios (por exemplo, Gofman, 1990). Em alguns tipos de câncer essa latência pode realmente ser maior do que o tempo de vida restante para os indivíduos que fazem parte do estudo, dependendo de sua idade no início do estudo. Devido às dificuldades na determinação do período real dessa latência, geralmente é utilizado o período composto pela soma das duas citadas, ou seja, o tempo decorrido desde o inicio da exposição até o diagnóstico. O problema é que essa soma cria um novo viés nos estudos observacionais sobre o desenvolvimento de doenças, chamado de viés de latência (Gail & Bénichou, 2001), que pode introduzir grandes erros sistemáticos diferenciais e afetar os resultados de várias maneiras. Por exemplo, em estudos de coortes, o período de observação é muitas vezes limitado arbitrariamente e pode terminar antes que sejam diagnosticados casos novos de câncer no grupo exposto, diminuindo assim a magnitude aferida do efeito (risco relativo), particularmente para os subgrupos de menor ou nenhuma exposição, uma vez que nesses grupos a incidência de tumores pode ser menor, caso haja uma relação causa-efeito. Além disso, os tumores no grupo exposto podem ter começado a crescer antes de ter se iniciado a exposição ao agente ambiental estudado, sem ter nexo causal com o mesmo. Isso tem a propriedade de aumentar a magnitude do risco relativo, principalmente para períodos de latência muito longos. Os estudos de caso-controle são menos sensíveis ao viés de latência por causa da aleatorização e do pareamento de casos com controles, mas outros efeitos diferenciais causados pela latência podem estar presentes. Isso pode ocorrer, por exemplo, quando dados de casos ou de controles que foram submetidos a períodos curtos de exposição aos campos electromagnéticos forem analisados em conjunto com dados de casos e controles que tiveram exposições por períodos mais longos de tempo.
Um modelo em várias fases de causação do câncer, como o proposto por Armitage & Doll (1961), deveria ser utilizado na concepção de estudos epidemiológicos de câncer em relação a agentes ambientais. Os investigadores devem introduzir retardos entre o inicio da exposição e a realização das observações, com base nas latência médias, conhecidas ou calculadas, para o tipo particular de câncer em estudo (Gail & Bénichou, 2001), um valor que, infelizmente, muitas vezes é desconhecido ou que não foi observado.
Estudos epidemiológicos durante longos períodos de tempo são difíceis de realizar e a maioria dos usuários de telefone celular no mundo têm menos de 5 anos de uso, por isso esta dificuldade não é fácil de resolver. Além disso, os períodos de retardo relevantes para os potenciais efeitos da exposição de RF de baixa intensidade sobre a saúde são presentemente desconhecidos, mas provavelmte são bastante longos e, portanto foram negligenciados pelos estudos realizados até agora.
Viés de seleção é muito comum em estudos caso/controle retrospectivos e pode agir quando são realizadas inclusões ou exclusões de participantes de acordo com tendências diferenciais conscientes ou inconscientes (por exemplo, selecionar pacientes com aparência mais saudável para o grupo de controle). Esse tipo de viés é facilmente afastado com a aleatorização, porém outras formas de seleção podem ser mais difíceis quanto à prevenção do viés de seleção. Um exemplo muito comum ocorre quando o desenho do estudo prevê deixar de fora os dados de pessoas que se recusaram a participar do estudo, ou que desistiram de participar antes que ele terminasse, porque eles podem ter feito isso por alguma razão que irá introduzir um erro sistemático na amostragem. O potencial desse tipo de viés de seleção foi avaliado em um dos estudos metodológicos preliminares do Projeto INTERPHONE (Vrijheid et al, 2009B) usando informações provenientes de questionários especiais que foram preenchidos por um subconjunto de sujeitos que não participaram por algum motivo do estudo. O uso regular do telefones móveis foi relatado como sendo menos frequente no grupo de controles (56%) e casos (50%) nos não participantes do que por aqueles que participaram (controles, 69% e casos, 66%). Os resultados, que sugerem que a recusa de participação está relacionada a uma menor frequência de uso de celulares, poderia levar a uma diminuição da razão de chances (OR) em torno de 10%. Além disso, uma taxa mais reduzida de respostas a questionários introduz um viés, particularmente entre os controles, se a causa da participação é de algum modo relacionado ao uso de telefones móveis (Cardis et al., 2007). Esta poderia ser uma explicação parcial para o fato de que muitos das razões de chances (OR) calculadas nos estudos INTERPHONE foram menores do que 1 (SCENIHR, 2009). Outros exemplos de viés de seleção são deixar de fora usuários corporativos de telefones celulares (devido à dificuldade de identificar efetivamente qual era a pessoa que o utiliza), excluir pessoas com outros tipos de doenças, ou que já morreram (para evitar questionamento retroativos de parentes ou amigos, chamados de “questionários por procuração” (proxy, em inglês), geralmente mais inacurados, etc.
Viés de recordação: Para estudos retrospectivos baseados em questionários, esta pode ser uma fonte importante e bastante comum de viés, devido ao fato que a intensidade de utilização auto-relatada de telefones celulares é notoriamente uma medida pouco confiável, particularmente em estudos de longo prazo. Timotijevic et al. (2008) examinaram os fatores que influenciam o auto-relato nessas condições, tais como a indução inconsciente de determinadas respostas, as referências temporais e outras. Um estudo de correlação por Parslow et al (2003) indicou que o auto-relato de indicadores da intensidade de uso de telefones celulares no passado tende a ser mais comum para estimativas a mais desses números do que relatar a menos (70% a mais quanto ao número de chamadas realizados e 180% a mais quanto à duração das chamadas). A maioria dos estudos de validação de auto-relatos superestima a duração por um fator de 1.4 e subestima o número de chamadas por um fator de 0,81 (Vrijheid et al. 2008, 2009). Essa magnitude de erro seria intolerável em qualquer estudo cientifico, porém o uso de aleatorização e de cálculos de risco relativo tem o efeito de tornar menos importante esse viés, a não ser que ele ocorra de forma diferencial nos grupos de casos e de controles, ou nos dois braços de um estudo longitudinal.
O grupo de estudo INTERPHONE fez um grande esforço de investigar, pela primeira vez, quão prevalente e grave é o viés de recordação (Vrijheid et al, 2006a, Samkange-Zeebe et al, 2004). Como se esperava, eles concluíram que durante 6 meses apenas, “os voluntários recordaram sua recente utilização de um telefone com erros sistemáticos e erros aleatórios bastante moderados. Pode ser esperado que este grande erro aleatório diminua o poder estatístico do estudo INTERPHONE no sentido de detectar um aumento do risco para os tumores do cérebro, neuroma do nervo acústico e tumores da glândula parótida com o uso crescente de telefone móvel, se eles existirem”, e relataram ainda que, embora o número de chamadas era bem correlacionado com o padrão-ouro fornecido pelos registros de número chamadas de telecomunicações, ao longo de um período de 3 meses, isto não ocorreu com a duração relatada para as chamadas.
Estes resultados foram ampliados em uma publicação do mesmo grupo em 2009, onde verificou-se que "para os casos, mas não para os controles, as taxas de correlação (entre auto-relatado e medido) aumentaram com o tempo decorrido entre a exposição e a entrevista (...). As correlações também foram maiores em proporção ao nível de utilização de celulares. Os erros de rememoração foram grandes (...) Ocorreu uma aparente superestimação do número e duração de chamadas pelos participantes do grupo de casos para períodos remotos de tempo. Deste modo isso poderia causar um viés positivo da estimativa do risco de doença associada ao uso de telefones celulares.".
Em um outro estudo de validação (Berg et al, 2005), a potência de energia emitida pelos telefones móveis foi correlacionada com os auto-relatos dos usuários quanto à intensidade de uso (número e duração das chamadas efetuadas). A correlação foi significativa, porém baixa, para chamadas de celular de até 3 meses atrás (0,5 e 0,48 para o número e duração das chamadas, respectivamente). A acurácia de rememoração para períodos de tempo maiores não foram investigadas, mas certamente seriam muito menos correlacionadas. O impacto do viés de seleção e viés de recordação em estudos epidemiológicos de RF e saúde foram também estudados quantitativamente por meio de simulações por Vrijheid et al (2006b), que chegaram às mesmas conclusões dos estudos experimentais. Como as estimativas dos riscos relativos que tem sido obtidos na maioria dos estudos epidemiológicos de efeitos da RF sobre a saúde são relativamente modestos, (ou seja, abaixo de 2), presume-se que tais vieses de recordação poderiam estar afetando a significância dos resultados.
Viés diferencial da recordação: as pessoas que têm um tumor ou doença, por exemplo, e que acreditam ou são levadas a acreditar pelos próprios investigadores ou pela mídia de massa que eles foram causados pela RF, tendem a recordar coias com um forte viés a favor dessa causalidade. Esse tipo de viés diferencial pode ser particularmente forte para o lado da cabeça preferido para uso do celular (lateralidade de efeito), uma vez que as pessoas que ficaram doentes têm a tendência a indicar o lado em que o tumor ocorreu como sendo o lado em que eles mais usaram o aparelho. Este viés, por exemplo, foi identificado pelos próprios autores do estudo final para alguns tumores cerebrais do Projeto INTERPHONE (The INTERPHONE Research Group, 2010) como sendo um dos erros sistemáticos que explicariam um maior OR para tumores ipsilaterais.


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