Mutantes resistentes à trapaça



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Encontro14.08.2019
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Mutantes resistentes à trapaça
A cooperação entre membros de uma mesma espécie é comum entre mamíferos, aves, insetos e organismos muito simples, como bactérias e organismos unicelulares. É tanta a diversidade destas “organizações sociais” que fica difícil definir os requisitos mínimos para classificar um ser vivo como “social”. O que caracteriza grande parte destas “sociedades” é o fato de cada indivíduo se beneficiar por participar do grupo e ao mesmo tempo contribuir para sua manutenção. Nas sociedades humanas os impostos são um caso típico, cada indivíduo contribui e o arrecadado é usado em benefício de todos. O mesmo ocorre quando um membro do grupo deixa de se alimentar e fica atento à presença de predadores enquanto os outros se alimentam beneficiados pela segurança proporcionada pelo vigia. Em cada caso o indivíduo se sacrifica momentaneamente em prol dos benefícios de viver em grupo.
Uma das conseqüências deste tipo de “acordo social” é que ele possibilita o aparecimento dos trapaceiros, indivíduos que contribuem pouco ou nada e mas se beneficiam das vantagens da vida em grupo. Por contribuir menos os trapaceiros levam vantagem sobre os outros membros da sociedade e tendem a aumentar de número. O problema é entender os mecanismos usados pelo grupo para controlar os trapaceiros, não deixando que sua presença acabe por destruir as vantagens de se viver em grupo. Nas sociedades humanas surgiram as normas, leis, e a polícia. Em outras espécies foram descritos diversos mecanismos que controlam o efeito nocivo do aumento dos trapaceiros. Mas somente agora foi demonstrado um efeito que havia sido postulado faz anos: a presença de um trapaceiro contribui para a seleção de mutantes resistentes aos artifícios do trapaceiro.
O estudo foi feito em um organismo unicelular chamado de Dictyostelium discoideum. Dictios (para os íntimos) vivem isoladas até o momento em que falta alimento. Então elas se aglutinam formando um pedúnculo que se fixa no substrato e permite a formação dos esporos. Uma parte das Dictios sacrifica sua capacidade reprodutiva para construir o pedúnculo (que morre), enquanto outras, que ficam na parte superior, formam os esporos. Estes garantem a sobrevivência da espécie e voltam a germinar quando encontram um ambiente propicio. Entre as Dictios existem muitos tipos de trapaceiros, linhagens que não formam o pedúnculo mas se instalam nos pedúnculos de outras linhagens. Os trapaceiros, mesmo sem contribuir para a estrutura que garante sua sobrevivência, conseguem obter as vantagens do pedúnculo coletivo.
O que os cientistas fizeram foi obter uma Dictio trapaceira que fosse sensível a um antibiótico e misturaram esta cepa de trapaceiros com Dictios normais. O resultado é que a maioria dos esporos formados era de trapaceiros. A mistura de esporos era colocada em antibiótico o que permitia que somente os descendentes da linhagem normal sobrevivesse. Estes sobreviventes eram novamente misturados com uma população padrão de trapaceiros e o ciclo era repetido. Ao fim de diversos ciclos de seleção foi possível observar que a porcentagem de esporos dos trapaceiros começou a diminuir, o que indicava que haviam surgidos mutantes capazes de resistir à linhagem de trapaceiros. Estes mutantes foram isolados e foi demonstrado que eles realmente eram resistentes aos trapaceiros.
Esta é a primeira vez que se demonstra a seleção de mutantes resistentes aos trapaceiros, o que sugere que nas populações naturais existe um equilíbrio entre o aparecimento de trapaceiros e de mutantes resistentes a eles. É um fenômeno semelhante ao que ocorre na cobrança de imposto nas sociedades humanas. Feita uma lei logo surgem trapaceiros que burlam a lei. A presença dos trapaceiros induz os legisladores a aprimorar a lei o que só faz com que surjam novos trapaceiros. Enquanto nas sociedades humanas esta briga de gato e rato ocorre via poder legislativo, na sociedade das Dictio a briga ocorre no campo genético. Esta descoberta abre a possibilidade de se identificar os genes que permitiram às diversas espécies sociais controlar a presença excessiva de trapaceiros.
Mais informações: Cheater-resistance is not futile. Nature vol. 461 pag. 980 2009
Fernando Reinach (fernando@reinach.com)




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