Moi, un Indien



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Moi, un Indien

VINCENT CARELLI


Indigenista, documentarista e fundador do Vídeo nas Aldeias

PRIMEIROS CONTATOS


Quando, aos dezesseis anos, aterrissei pela primeira vez na aldeia Xikrin, no sul do Pará, descobri que o mundo era muito mais diverso e fascinante do que eu tinha suspeitado até aquele momento. A partir do instante em que avistei, ao longo da pista, aquelas silhuetas escuras de jenipapo e em seguida senti aquele cheiro de resina perfumada e de urucum, passei a ter uma nova percepção da humanidade. A fotografia se tornou para mim uma necessidade de compartilhar esse novo mundo que eu descobria.
 

Aos vinte anos eu já morava na aldeia Xikrin, e meu envolvimento com os índios passou a ser total. Eu simplesmente queria ser índio, mas os índios queriam um amigo que lhes desse as chaves de compreensão do que se passava ao redor deles, os ajudasse a se defender das doenças que maltratavam a aldeia. Quanto maior era o meu envolvimento, menos tempo me sobrava para fotografar.Eu aprendi desde então que arte e militância dificilmente andam juntas. Aqueles povos com os quais eu mais convivi e trabalhei foram aqueles que eu menos fotografei. Naquela época acontecia na região a guerrilha do Araguaia.



A MILITÂNCIA INDIGENISTA

Do livre convívio na aldeia resolvi entrar para a Funai, na ilusão de poder ajudar melhor. Mas, rapidamente, ficou claro o quanto o paternalismo autoritário do governo, a famosa tutela do índio, era altamente pernicioso para os índios, politicamente desmobilizador. Não seria o Estado que iria mudar a situação dos índios, mas eles é que teriam que retomar o seu destino em mãos. Do indigenismo de Estado, migrei para o indigenismo Film-maker and founder of Video in the Villages alternativo, ou para a subversão, como se dizia naquele tempo de ditadura.


 

 Fundamos, com mais alguns colegas da faculdade, o Centro de Trabalho Indigenista (CTI), que foi inovador na sua contestação do poder abusivo da tutela do Estado sobre o Índio. Lutamos por direitos básicos, como a possibilidade dos índios constituírem advogados independentes nas disputas com o Estado, direitos que anos depois foram incorporados na Constituição de 1988. Participávamos do movimento geral da sociedade civil brasileira em busca de alternativas.


Trabalhei também dez anos na construção de um banco de imagens para as publicações “Povos indígenas no Brasil“ do CEDI. Me fascinava o trabalho de coletar estes fragmentos de história de povos que estavam sofrendo processos de transformação tão violentos e tão rápidos e a possibilidade de devolver às novas gerações estes registros da sua história. Naquela época, o cineasta Andréa Tonacci tinha procurado o CTI, com a proposta da “Inter Povos”, um projeto de comunicação intertribal através do vídeo. Naquele tempo, o vídeo era ainda uma novidade. A idéia não vingou. Quando surgiu o VHS camcorder, resolvi retomar aquela idéia, e assim começou o Vídeo nas Aldeias.

 Ele surge no bojo de uma relação acumulada ao longo de anos, uma relação de vida, centrada em torno de uma cooperação entre índios e não índios para tentar enfrentar problemas vitais como demarcação ou invasão de reservas, encontrar meios de subsistência e integração na economia nacional, ou formas de negociação com o governo para ter acesso à saúde e educação. A proposta era oferecer instrumentos que lhes permitissem ter acesso às suas imagens, elaborar e recriar a sua própria imagem. O procedimento adotado, em que a totalidade das imagens produzidas era imediatamente exibida em público, permitia que a câmera passasse a ser um objeto apropriável por eles. A presença da câmera criava ou instigava o fato que ela estava documentando. E é por esta razão que não somente as pessoas não tinham uma relação incômoda com a câmera, como também interagiam com ela, muitas vezes se dirigindo explicitamente e diretamente a ela. A câmera não era um objeto transparente, ela era um dos atores em cena.




A MINHA APRENDIZAGEM

1987. Eu comecei a fazer vídeo aos 36 anos, e concebi este projeto dentro desta perspectiva de intervenção e militância que orientava a minha vida. Eu nunca teria imaginado naquela época que chegaríamos a formar realizadores indígenas. A minha aprendizagem da linguagem cinematográfica se deu ao mesmo tempo em que oferecia a possibilidade de registro e de acesso às imagens de outros povos para lideranças que eu admirava por sua visão de futuro, pelo seu discurso de resistência. As lideranças mais tradicionais foram, desde o início, as mais entusiastas desta novidade tecnológica e eu realmente colocava a minha câmera a serviço de seus discursos. Logo na primeira experiência, realizada entre os Nambiquara, tivemos uma receptividade enorme por parte dos índios: a rotina registro/exibição, foi gerando um feedback imediato. Os índios assumiram rapidamente a direção do processo e a única coisa que eu tive que fazer foi me deixar conduzir por eles, que passaram a se produzir tal como eles gostariam de se ver e de serem vistos na tela. O resultado foi o vídeo “A festa da moça”. Foi assim que o trabalho com os índios, que começou com um caráter experimental e que foi desenvolvido com recursos técnicos totalmente amadores, foi tendo a sua continuidade assegurada através da sua autodocumentação, realizada com recursos cada vez mais profissionais e para um público cada vez mais amplo.


O curta intitulado “Vídeo nas aldeias” (o terceiro da série), por exemplo, foi editado às pressas em fins de 1989, às vésperas da minha primeira viagem aos Estados Unidos em busca de apoio financeiro para o projeto. Mas uma vez pronto, ele acabou extrapolando sua finalidade imediata e se tornou um autêntico portfolio do projeto, ganhando uma enorme divulgação nos meios interessados em projetos alternativos de comunicação.


As fundações americanas (Guggenheim, MacArthur, Rockefeller, Ford) foram as primeiras a apoiarem o projeto. A partir de 1995, a Cooperação Internacional da Noruega se interessou em apoiar financeiramente o trabalho, o que nos deu mais estabilidade para começarmos a traçar uma estratégia a longo prazo. Nesta caminhada, a Virginia Valadão, antropóloga e coordenadora do Centro de Trabalho Indigenista, foi a grande articuladora da sobrevida do projeto, além de ter nos deixado aquele lindo vídeo que é “O banquete dos espíritos”, que custou quatro anos de trabalho.


Aprendi fazendo, intuitivamente. Nos dez anos de parceria com o editor Tutu Nunes, também aprendi muito. Ele deu uma embalagem moderna às minhas filmagens, editando a maioria dos vídeos de minha autoria, e fez com que eles alcançassem a divulgação que alcançaram.


DE APRENDIZ A REALIZADOR : AMPLIANDO A DISTRIBUIÇÃO

Com o apoio das fundações americanas, decidi produzir uma descrição mais consistente sobre o projeto e, em 1990, comecei a trabalhar com os índios Waiãpi. Na parceria que estabeleci com a antropóloga Dominique Gallois, que conhecia bem a língua dos Waiãpi, surgiu a possibilidade de trazer para os vídeos a efusão de discussões e comentários provocada pelas projeções. A Dominique estabelecera um diálogo filosófico com o seu principal informante Waiwai, um autêntico intelectual Waiãpi, e este diálogo foi transposto para o vídeo. Este trabalho resultou no vídeo intitulado “O espírito da TV” (o quarto da série), que trouxe para a tela o entusiasmo dos índios com a nova descoberta e toda a gama de reflexões que os vídeos traziam à tona.


 

Editado numa linguagem muito mais moderna, abolindo a locução e deixando os índios se expressarem espontaneamente em sua própria língua, o vídeo mostra como as projeções induzem discussões que envolvem, entre outros temas, uma redefinição da sua própria identidade em relação aos outros e, ao mesmo tempo, o crescimento de uma consciência pan-indígena nacional a partir da semelhança dos processos históricos que cada grupo atravessou desde o contato e dos problemas que todos compartilham no momento. E como não poderia faltar, toda a questão política da manipulação da imagem: quem vai nos ver e como eles deveriam nos ver, etc.


  

 Este vídeo abriu espaços muito mais amplos de distribuição, saindo do “gueto” dos festivais indígenas e etnográficos, dos departamentos deantropologia e comunicação. O boca a boca, a difusão nas universidades, o efeito multiplicador de festivais mais tradicionais, as mostras especiais e as retrospectivas foram ampliando progressivamente o espectro de difusão dos vídeos. O trabalho com os índios foi se expandindo para novos grupos e, ao mesmo tempo, ganhando novas formas. Cada grupo foi identificando, através dos vídeos, aqueles com os quais eles tinham mais afinidade, pela proximidade lingüística e cultural.


   

Nós então produzimos alguns encontros entre eles, o que resultou nos vídeos “A arca dos Zo’é” e “Eu já fui seu irmão”, que, como “O espírito da TV”, são construídos exclusivamente a partir das falas dos índios. “A arca dos Zo’é”, talvez pela sua estrutura narrativa, mas sobretudo pelos flagrantes que ele consegue trazer para a tela, dando ao público um insight de uma relação entre índios, obteve um grande sucesso. Isso gerou um renovado interesse por parte de festivais internacionais e redes públicas de televisão de diversos países em exibir a trilogia, como passou a ser chamado o conjunto destes vídeos.



O FEEDBACK DO PÚBLICO

Ao submeter os vídeos à apreciação de um público que eu desconhecia quando os elaborava, percebi claramente como o conjunto de imagens contidas nestes documentários mexia com um espectro de sentimentos, de valores éticos e morais, de conceitos e idéias que extrapolam o “conteúdo objetivo”, a mensagem explícita dos vídeos.


Enquanto o público parece esperar que os índios se comportem como vítimas, podendo assim expressar sua compaixão e sua solidariedade por eles, descobrimos que, ao contrário, os índios pensam a sua estratégia de representação parecendo fortes, até agressivos, em relação aos colonizadores, ou invasores. A maioria dos documentários ou reportagens de TV produzidos no Brasil sobre índios tende, por um lado, à mistificação do “bom selvagem” e, por outro, a este tom fatalista: eles estão perdendo suas terras, sua cultura, sua língua, etc.


Sempre me pareceu fundamental mostrar justamente o oposto: primeiro, os índios não vivem chorando pelas tabelas, muito pelo contrário, a alegria, a brincadeira, o humor, são marcas do convívio entre eles – uma característica que já foi taxada de “ingenuidade, inocência do selvagem”. Em segundo lugar, eles não são vítimas passivas neste processo, mas têm plena consciência da mudança pelo qual estão passando. Há toda uma discussão e uma dinâmica interna em andamento entre as gerações, incorporando algumas coisas de fora, rejeitando outras, preservando a memória de tradições e abandonando outras.


 

Quando tentamos desfazer o mito do “bom selvagem” e a retórica da vítima, mostrando as coisas de uma forma diferente, fatalmente atingimos aspectos muito sensíveis como alcoolismo, sexualidade, violência...em torno dos quais se cristalizaram os estereótipos negativos em relação aos índios. A questão de aparecer bêbado, por exemplo, é discutida pelos próprios índios no vídeo “O espírito da TV”. Um distribuidor canadense recusou o vídeo dizendo que eu havia desrespeitado os índios ao incluir a cena e que o público canadense condenaria o vídeo como politicamente incorreto. Discordo. No primeiro vídeo feito pelos próprios Waiãpi para mostrar para o público não índio, eles aparecem completamente bêbados do começo ao fim. Simplesmente porque o vídeo é sobre festas, e conforme o próprio autor explica, para os Waiãpi, estar bêbado numa celebração é uma atitude socialmente e culturalmente valorizada. O que me pareceu interessante foi justamente mostrar como há uma discussão consciente se desenvolvendo em relação a auto-representação.


Alguém ficou chocado com a violência da “matança gratuita” dos garimpeiros contido no pequeno segmento de dramatização interpretado pelos Enauênê Nauê no vídeo “Antropofagia visual”. Acho engraçado que tenhamos incorporado, como a coisa mais natural do mundo, centenas de filmes onde se matam índios a três por quatro e nos sentirmos chocados com a matança de dois garimpeiros invadindo uma reserva indígena. O público parece não se dar conta da intensidade e da violência dos conflitosna Amazônia de hoje. O choque pode ser às vezes uma boa maneira de cair na real.

Para uma grande maioria das pessoas, os índios são uma ficção na qual ela projeta os ideais de sabedoria e equilíbrio, harmonia com a natureza, de coletividade, etc.Estas pessoas gostariam que este sonho permanecesse intocado, os índios preservados numa espécie de zoológico humano ou, pelo menos, que as mudanças nestas sociedades fossem retardadas ao máximo. Infelizmente esta ideologia permeia toda a nossa sociedade e pode ter implicações concretas graves em diversas circunstâncias. Toda a política indigenista oficial no Brasil compactua com este tipo de concepção e por isso o governo está sempre tentando distinguir os índios “autênticos”, “puros”, dos índios ”civilizados”. E, através desta distinção, excluir os ditos “aculturados” da legislação de proteção ao índio para enquadrá- los numa cidadania básica. Mas quem são os autênticos?Os pelados. Se tiver carteira de identidade não é mais índio, se morar na cidade não é mais índio!


 

As comunidades indígenas estão submetidas a processos brutais de mudança. E não é somente uma pressão por mudanças vinda de fora mas, a cada geração que se sucede, há um movimento interno renovado por mudanças. Creio que o verdadeiro dilema está em saber em que


direção pode acontecer esta mudança. Os índios vão se transformar em mendigos ou vão se integrar economicamente de alguma forma? Vão ser integrados um a um, como quer o modelo capitalista, ou vão se integrar enquanto grupo, mantendo a sua organização interna? Vão explorar seus recursos naturais segundo o modelo predatório que está em volta deles ou vão experimentar soluções ambientalmente sustentáveis? Estes são os desafios que estão colocados.
 

No caso específico do vídeo, algumas aldeias já tinham acesso às grandes redes de televisão quando o projeto vídeo chegou. Mas a maioria não. Hoje quase todas têm. O problema não é incorporar novos objetos, novo costumes e sim como assimilá-los. Se uma nova tecnologia como o vídeo pode ser incorporada e ser usada para se autovalorizar, qual é o problema? Isto torna os jovens muito orgulhosos de si: eles também sabem usar o instrumento do branco para filmar suas coisas,invertendo o processo de invasão da televisão.




PROGRAMA DE ÍNDIO

O reconhecimento internacional alcançado por alguns vídeos nos levou a muitos festivais, e neles descobrimos que o desenvolvimento da mídia indígena era um movimento emergente no planeta, desde experiências como a nossa e outras na América Latina até as de cineastas indígenas do primeiro mundo, formados em faculdades de cinema.


Com a abertura na legislação das TVs públicas regionais, fomos convidados pela Universidade Federal de Mato Grosso a fazer um programa “sobre” os índios. Até aquele momento, não nos tinha ocorrido tal possibilidade, mas imediatamente propusemos fazer um programa “com” os índios. Assim, entre 1995 e 1996, produzimos o “Programade Índio”.


Todas as vezes que projetamos o programa nas aldeias, os olhos da audiência brilharam de satisfação. O professor indígena Leonardo Tukano, do Rio Negro, me disse a este respeito: “De todos os filmes de índio que nós passamos para os alunos, foi o Programa de Índio que gerou o


maior interesse. Meus alunos não querem nem ouvir falar em tradição, para eles isto é a encarnação do atraso. Nem os pais dos alunos querem que seus filhos “andem para trás”. Mas um índio apresentador de televisão, repórter, cinegrafista, despertou neles um súbito interesse:
então era possível ser “moderno”, “civilizado”, e ser “índio” ao mesmo tempo!

Olhando à nossa volta, pelo mundo, percebemos o quanto é viável e necessário termos um programa feito por índios na TV brasileira. Os Sami na Noruega, os Inuit e os índios no Canadá, os aborígines da Austrália, da Nova Zelândia, têm seus canais de televisão. O desenvolvimento de uma mídia indígena é um processo mundial, um movimento da história. Dar visibilidade às minorias étnicas através dos meios de comunicação de massa tem um caráter estratégico para estes povos, para que sejam reconhecidos e respeitados.




UMA NOVA PERSPECTIVA

A avaliação que os próprios índios fizeram da experiência do Programa de Índio e o movimento geral que eu vinha acompanhando nos outros países, como Bolívia e México, que já investiam em oficinas de capacitação, nos colocavam diante de um novo desafio. Em 1997, reunimos no Xingu mais de trinta índios de diversas partes do Brasil, com os quais já trabalhávamos e que se conheciam através da rede de videotecas que instalamos em suas aldeias. O encontro permitiu um intercâmbio direto entre eles, mas ainda nos faltava um método de ensino.


 

Convidamos a realizadora Mari Corrêa, que trazia uma longa bagagem em processos de formação em cinema, para assumir a coordenação das oficinas de capacitação. As oficinas surtiram resultados imediatos e surpreendentes. Mari fez com que o projeto desse uma guinada radical


e definitiva, com uma nova proposta de linguagem e o timing da sua edição, em sintonia fina com o tempo indígena. Em 2000, a criação da ONG Vídeo nas Aldeias expressa esta nova perspectiva do trabalho e se torna uma escola de cinema para índios, ampliando sua rede de alianças e parcerias com o movimento indígenae com ONGs que cooperam com ele.

Para mim, a passagem de realizador para professor foi extremamente estimulante. Hoje temos o privilégio de compartilhar a intimidade das cenas que eles filmam e nos mostram e podemos observar como cada povo responde de uma maneira particular aos exercícios propostos.


O processo de tradução das falas e dos depoimentos que eles recolhem nas suas línguas nos revela todo uma nova compreensão de suas respectivas culturas. Nunca aprendi tanto sobre cinema e sobre os povos


com os quais trabalhamos. É gratificante ver que as sementes que plantamos germinaram e passaram a dar seus próprios frutos. É gratificante ver que o projeto finalmente encontrou a sua vocação.


UMA POLÍTICA CULTURAL PARA OS ÍNDIOS

O Vídeo nas Aldeias tem sido, até hoje, financiado Exclusivamente por agências estrangeiras. É sintomático e condizente com a realidade em que vivemos um projeto como este nunca ter recebido nenhum apoio do governo brasileiro.


É necessário que o Estado e a iniciativa privada acreditem no potencial criativo dos povos indígenas, invistam na divulgação destas culturas e estimulem o diálogo intercultural. Para tanto, é preciso investir em formação de novos talentos, em produção de novos trabalhos. Os índios, munidos destas novas linguagens e tecnologias, produzem obras absolutamente originais nos campos das artes plásticas, da literatura e do cinema. É preciso usufruir, vivenciar a riqueza cultural indígena deste país e deixar de vê-la como coisa do passado.


 Desde a época em que fizemos o “Programa de índio”, temos esta perspectiva em mente mas, para que isso aconteça, é necessário que o movimento indígena se articule em torno deste tema e exija que o governo estabeleça uma política e aloque recursos para tal.


 

Olhando retrospectivamente para os trinta e tantos anos que se passaram, constatamos com satisfação uma certa evolução na relação do Estado com os índios. O modelo centralizador da FUNAI, herança da ditadura militar, alimentou a cultura de um certo apartheid indígena, em que o todo o país lavava as mãos. ”Índio? Isso é problema da FUNAI!” Nos anos oitenta e noventa, quando as associações indígenas começaram a surgir, encontraram uma enorme resistência dos poderes públicos. Os cartórios diziam: “Registro de associação indígena, só com autorização da Funai”.

O movimento indígena se articulou, sobretudo localmente e regionalmente. Novas categorias profissionais se formaram, especialmente a dos professores e agentes de saúde indígenas, e agora toda uma geração começa a ter acesso à universidade. O Brasil como um todo se democratizou. Em 1988, a Constituição brasileira veio sacramentar algumas conquistas importantes, embora boa parte do país ainda não as tenha digerido. Pouco a pouco, saímos do modelo centralizador de um único órgão com o monopólio da questão indígena, para um modelo plural, onde novas possibilidades de interlocução se apresentam para os índios, dependendo do tema especifico que eles queiram tratar: educação, saúde, meio ambiente.
 

O Ministério da Educação tomou para si a questão da educação indígena e o Ministério da Saúde fez o mesmo, permitindo com que as organizações indígenas passassem a ser interlocutoras de políticas públicas. O Ministério do Meio Ambiente criou uma linha de crédito especial para que as populações indígenas possam propor e financiar seus programas de proteção ambiental.


 

 Falta o Ministério da Cultura assumir a sua parte e Estabelecer com os índios um diálogo para definir uma política cultural. O Ministério da Cultura ainda se comporta hoje como os cartórios de dez anos atrás: “projeto cultural de índio, só com autorização da Funai”. O maior patrimônio dos índios é cultural, cultura viva, não só para eles mas para milhões de brasileiros que não fazem idéia do que se passa neste país.




O SIGNIFICADO DESTA MOSTRA E A ABERTURA DE UM NOVO CICLO

A idéia desta mostra é apresentar para o público estes novos autores que estão dando uma contribuição original e renovadora, real expressão da diversidade cultural deste país. Concluímos o ciclo do Vídeo nas Aldeias e abrimos um novo, o Vídeo das Aldeias. A idéia de intercâmbio de informação entre as aldeias persiste no projeto, mas agora os índios têm a possibilidade de realizar e assistir seus próprios trabalhos.


Nossa postura ainda é militante, pois continuamos colocando o projeto a serviço do movimento indígena.Nosso trabalho é convencer as lideranças do movimento indígena que a arte é uma poderosa arma de transformação, ela reflete sua identidade e traduz uma emoção estética que pode ser compartilhada por pessoas de outras culturas. Neste sentido, é mais eficaz do que o vídeo panfletário, vídeo relatório ou vídeo assembléia. O vídeo pode ser um instrumento poderoso de conscientização, se não for usado de forma utilitária e com uma linguagem burocrática.


 

 Precisamos de muito mais diálogo intercultural, para o Índio deixar de ser um corpo estranho, um estrangeiro em sua própria terra. A ausência da temática indígena no sistema educacional brasileiro e a reprodução dos eternos clichês e preconceitos na mídia, perpetuam este estranhamento, esta ignorância.




Os índios podem participar da modernidade, querem ser incluídos neste país e gozar de cidadania plena, desde que sua identidade e diferença sejam respeitadas. É preciso apoiar a produção indígena contemporânea e difundi-lá no sistema educacional de uma maneira efetiva. Por ser uma ínfima minoria, o acesso aos meios de comunicação é estratégico para eles. A temática indígena precisa estar nas nossas escolas, precisa estar na mídia, mas representada por eles mesmos, com este olhar próprio que faz toda a diferença.




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