Michel Löwy procura explicar o zapatismo



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Resenha da Internet – Quinta, 16/10/97

Michel Löwy procura

explicar o zapatismo
Pesquisador marxista aposta: “é movimento portador de magia, mitos e utopia; de poesia, romantismo e esperanças loucas”
O que é uma coisa bela?

Uma flor? Uma telenovela?

Um alaúde? Um trem?

Caetano Veloso, em “O Estrangeiro”



Por que os guerrilheiros liderados pelo subcomandante Marcos multiplicam apoios e entusiasmo em todo o mundo? E mais ainda: o que é o zapatismo? Um estado de espírito – como dizem, em tom de pilhéria, os próprios zapatistas? Os velhos dinossauros num novo modelito? Um subdesenvolvimento do marxismo, segundo a voz do dono da “Folha de São Paulo”?
Filósofo e sociólogo, pesquisador do Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS) de Paris, o brasileiro Michel Löwy atreveu-se a decifrar o enigma. Sua resposta está no artigo abaixo. Nele transparece, com certeza, o militante partidário. Ao realçar a presença do trotsquismo entre os zapatistas, Löwy omite, por exemplo, que virtualmente todas as correntes (os “muitos outros istas”) que compõem a esquerda mexicana participaram, no início de setembro, do congresso convocado pelo exército rebelde para formar, no México, uma “força política de novo tipo”.

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Como quebrar, sem o martelo encantado do romantismo revolucionário,



as barras da jaula de aço onde nos fechou a modernidade capitalista?”

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Mas o que emerge com força incomum, no texto, é o Löwy romântico, cada vez mais vivo e provocador. “Como quebrar a jaula de aço em que nos fechou a modernidade capitalista – pergunta ele – sem o martelo encantado do romantismo revolucionário”? O próprio autor responde: o Exército Zapatista “é o herdeiro de cinco séculos de resistência à conquista, à ‘civilização’ e à ‘modernidade’ (...) Neste fim de século moroso, de cinismo galopante, eles [os guerrilheiros] são os reencantadores do mundo”.
Fique com Löwy, e boa leitura. O texto abaixo foi escrito para a edição do jornal “Em Tempo” (emtempo@ax.apc.org).

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Vivemos em uma época de desencantamento do mundo. O capitalismo, sob sua forma neoliberal, reduziu, mais do que nunca, todas as relações sociais, todos os valores, todas as qualidades à condição de mercadoria. É o reino da quantificação, mercantilização, monetarização universal. É a época onde todos os sentimentos humanos são afogadas no que o velho Marx chamava “as águas geladas do cálculos egoistas”.
Movimento em dissidência contra o neoliberalismo, o zapatismo almeja, em sua modesta escala, um reencantamento do mundo (retomo esta idéia do livro de Yvon Le Bot, mas dou-lhe uma interpretação um pouco diferente). É um movimento portador de magia, de mitos, de utopias, de poesia, de romantismo, de entusiasmos, de esperanças loucas, de “mística” - no sentido que lhe dava Charles Peguy, opondo-o à “política” --, de fé. Ele é também cheio de insolência, de humor, de ironia e de auto-ironia. Não há contradição: como dizia Lukács, em A teoria do romance, a ironia é a mística de épocas sem deus... Esta capacidade de reinventar o reencantamento do mundo é sem dúvida uma das razões da fascinação que exerce o zapatismo, para bem além das montanhas de Chiapas.
De que é feito o zapatismo? É uma mistura sutil, uma fusão alquímica, um coquetel explosivo com vários ingredientes, várias tradições, cada uma indispensável e presente no produto final. Ou melhor, é um tapete tecido com fios de diferentes cores, antigos e novos, que se entrecruzam em um desenho maravilhoso, cujo segredo apenas os índios maias conhecem.

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O primeiro núcleo do EZLN era guevarista. Estamos longe da aventura boliviana, mas perto da ética revolucionária tal como o Che a encarnava”



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O primeiro fio, a primeira tradição é o guevarismo, o marxismo na sua forma revolucionária latino-americana. O primeiro núcleo do EZLN era guevarista. É claro, a evolução do movimento o conduziu para muito longe desta origem, mas a insurreição de janeiro de 1994, bem como o próprio espírito do Exército Zapatista guarda alguma coisa desta herança: a importância da luta armada, a ligação orgânica entre os combatentes e o campesinato, o fuzil como expressão material da desconfiança dos explorados frente a seus opressores, a disposição a arriscar sua vida pela emancipação de seus irmãos. Estamos longe da aventura boliviana de 1967, mas perto da ética revolucionária tal como o Che a encarnava.
O segundo fio, o mais direto sem dúvida, é evidentemente a herança de Emiliano Zapata. É simultaneamente a sublevação dos camponeses e índios, o Exército do Sul como exército de massas, a luta intransigente contra os poderosos que não pretende se apoderar do poder, o programa agrário de redistribuição das terras, a organização comunitária da vida camponesa (aquilo de Adolfo Gilly chamou “a comuna de Morelos”). Mas é também Zapata o internacionalista, que saldou, numa célebre carta de fevereiro de 1918, a Revolução Russa, insistindo sobre “a visível analogia, o paralelismo evidente, a absoluta paridade” entre aquela e a revolução agrária no México: “uma e outra são dirigidas contra o que Tolstoi chamava ‘o grande crime’, contra a infame usurpação da terra, que, sendo propriedade de todos, como o fogo e o ar, foi monopolizada por alguns poderosos, sustentados pela força dos exércitos e pela iniquidades das leis”.
“Terra e liberdade” continua a palavra-de-ordem central dos novos zapatistas, que são os continuadores de uma revolução interrompida (para retomar o título do belo livro de Gilly) em 1919, com o assassinato de Zapata em Chinameca.
A teologia da libertação é um fio do qual os zapatistas não falam muito. Entretanto, sem o trabalho de conscientização das comunidades indígenas, e a auto-organização visando lutar por seus direitos, promovido por Monselhor Ruiz e seus meios catequistas, depois dos anos 70, é difícil imaginar que o movimento zapatista teria tido um tal impacto em Chiapas. Claro, este trabalho não tinha vocação revolucionária e recusava toda ação violenta. A dinâmica do EZLN seria bem diferente. Mas isso não impede que, na base, nas comunidades indígenas, muitos zapatistas -- e não os menores – tenham sido formados pela teologia da libertação, por uma fé religiosa que escolheu o engajamento pela auto-emancipação dos pobres.
Pode ser que o fio mais importante seja a cultura maia dos indígenas de Chiapas, com sua relação mágica com a natureza, sua solidariedade comunitária, sua resistência à modernização neoliberal. O zapatismo faz referência à esta tradição comunitária do passado, pré-capitalista, pré-moderna, pré-colombiana. Mariategui falava, não sem exagero, de “comunismo inca”. Pode-se falar, no mesmo espírito, de “comunismo maia”. Isso é romantismo? Pode ser. Mas como quebrar, sem o martelo encantado do romantismo revolucionário, as barras da jaula de aço -- para retomar a expressão de Max Weber -- onde nos fechou a modernidade capitalista?

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Neste fim de século moroso, de cinismo galopante, de política politiqueira, eles conseguiram fazer as pessoas sonharem -- em Chiapas e no mundo”



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O EZLN é o herdeiro de cinco séculos de resistência indígena à conquista, à “civilização” e à “modernidade”. Não é por acaso que a insurreição zapatista tenha sido originalmente planejada para 1992, a data do Quinto Centenário da Conquista, e se, neste momento, uma multidão de indígenas ocupou San Cristóbal de las Casas, derrubando a estátua do conquistador Diego de Mazariegos, símbolo odioso da espoliação dos índios e de sua sujeição.
O último fio, o mais recente, que se juntou aos outros após janeiro de 1994, é o das exigências democráticas da sociedade civil mexicana, desta imensa rede de sindicatos, associações de bairros, de mulheres, de estudantes, de ecologistas, de partidos de esquerda -- cardenistas, trotsquistas, anarquistas e muitos outros istas -- de associações de pessoas endividadas, de camponeses, de comunidades indígenas, que se ergueram, por todas as partes do México, para apoiar as demandas dos zapatistas: democracia, dignidade, justiça.
Pode-se criticar muitas coisas nos zapatistas (eu não compreendo, apenas para dar um exemplo, porque eles não chamaram o voto em Cárdenas nas últimas eleições) mas deve-se reconhecer-lhes este mérito enorme: neste fim de século moroso, de neoliberalismo triunfante, de cinismo galopante, de política politiqueira, de mercantilismo rasteiro, eles conseguiram fazer as pessoas sonharem, em Chiapas, no México, e um pouco em todo o mundo. Eles são os reencantadores do mundo.




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