Menina do Anel de Lua e Estrela



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(Menina do Anel de Lua e Estrela)

(Texto 1)

Personagens:
Menina (Marina)

Lua

Estrela

Peixe (Apeixonaldo)

Peixe (Peixolinda)

Tartaruga (Efigênia)

Tartaruga (Nastácia)

Tubarão (Tuborildo)

Sereia (Hagata)

Pai

Músico
Cena I
A cena passa-se no mar, é noite, a menina está num barco perdida a procura de seu pai. No plano superior está à estrela e a lua, dois rostos com forma adormecidos, acordam assustados com os gritos da menina que chama pelo seu pai.

Menina:


Pai... Pai! E agora? Maldita hora em que entrei neste barco. Creio que estou perdida. Pai! Faz tanto frio aqui... Deve ser o vento gelado do ártico "acho". Sabia que não devia ter faltado a aula de história, ou é geografia? O que vou fazer... Perdi meus remos e ainda por cima estou com medo. Pai... Pai!
(Lua e Estrela acordam. Sonolentas)
Lua:

(Pedido de silêncio)

Psiu!
Menina:

Quem está aí? Ou melhor, quem está aqui?
Estrela:

Menina?
Lua e Estrela:

Menina!
Menina:

Eu não acredito, estou ficando louca, Le le da cuca. Ah! Tão jovem sou ainda para enlouquecer. São vozes, estou louca!


Lua:

Você não está louca querida.


Menina:
Ainda bem. Por um momento pensei ter escutado vozes, mas espera aí, eu estou mesmo escutando vozes. Com quem estou falando?
Estrela:

Comigo e com ela, ora bolas.


Menina:

(Dúvida)

Com quem?


Lua:

Olhe para cima.


(Ela olha)
Estrela:

Viu, Não está louca. Ah! Eu odeio quando não me notam.


Menina:

Como pode? Lua e Estrelas não falam.


Lua:

Na verdade não falamos mesmo, porque estamos sempre dormindo...


Estrela:

Mais você com esse "Deus nos acuda" todo acabou nos acordando. E eu que estava sonhando com o Senhor Cometa... Um sono tão maravilhoso... Acho que não voltarei mais a dormir. Menina se eu perder o meu brilho você vai se ver...


Menina

Oh! Perdão, não queria tê-las incomodado.


Lua:

Não ligue para o mau humor dessa estrela, pequena. Ela ira brilhar sempre, com ou sem sono, mas, me diga... Por que grita tanto?


Menina:

Estou perdida, vim procurar meu pai que saiu para pescar e não voltou mais, fiquei com medo de perdê-lo, imaginando se não foi devorado por um tubarão ou uma lula gigante... Peguei esse barco e vim. Fui corajosa não acha?


Estrela:

Não! Para mim não foi.


Lua:

Sim, foi muito corajosa, mais perceba que também foi um erro procurar seu pai assim sozinha, agora está perdida.


Estrela:

E com tantos tubarões a solta, ficará não só perdida (Risos)


Lua:

(Repreendendo)

Estrela!
Menina:

Ajudem-me a encontrar meu pai. Prometo me comportar.
Estrela:
Não!
Lua:

Abra bem as mãos, assim, agora feche os olhos e também as mãos...


Estrela:

Eu não acredito que você vai dar para ela...


Lua:

Não me interrompa Estrela.

Agora feche as mãos. Pense em coisas boas.
Menina:

Algodão doce... Doce de leite... Goiabada... Maçã...


Estrela:

Ela disse coisas boas, não coisas doces, menina!


Lua:

Estrela!
Estrela:

Foi ela quem começou. Eu estava bem quieta no meu sono de beleza.
Menina:

Perdão, acho que confundi tudo, tenho essa mania de trocar as coisas.


Lua:

Então vamos tentar de novo. Pense em coisas boas.


(Música) Amor de Índio

Composição: Beto Guedes


Tudo que move é sagrado
E remove as montanhas
Com todo cuidado, meu amor
Enquanto a chama arder
Todo dia te ver passar
Tudo viver a teu lado
Com o arco da promessa
Do azul pintado pra durar
Abelha fazendo mel
Vale o tempo que não voou
A estrela caiu do céu
O pedido que se pensou
O destino que se cumpriu
De sentir seu calor e ser todo
Todo dia é de viver
Para ser o que for e ser tudo
Sim, todo amor é sagrado
E o fruto do trabalho
É mais que sagrado, meu amor
A massa que faz o pão
Vale a luz do teu suor
Lembra que o sono é sagrado
E alimenta de horizontes
O tempo acordado de viver
No inverno te proteger
No verão sair pra pescar
No outono te conhecer
Primavera poder gostar
No estio me derreter
Pra na chuva dançar e andar junto
O destino que se cumpriu
De sentir seu calor e ser tudo

Menina:


Que lindo anel, estou grata, mas, o que poderei fazer com um simples anel?
Estrela:

Esse não é um simples anel, menina.


Menina:

Não?
Lua:

Esse é um anel mágico.
Lua e estrela:

O anel de "LUA E ESTRELA!"


Estrela:

Eu que o criei, lindo não? E a lua deu para você...


Lua:

Após aprender algo muito importante, ele lhe concedera um desejo, deve usá-lo com sabedoria. Não o desperdice com doces, sim?


Menina:

Que lindo. Como estou feliz, agora poderei achar meu pai!



(Rema com as mãos)
Estrela:

Mais antes, menina...


Lua:

O nosso pedido.


Menina:

Pedido?
Estrela:

Mais é claro, uma mão lava as outras. (Risos)
Lua:

Nós te demos o anel de Lua e Estrela, e você nos ajudará a encontrar nosso reflexo. Não sei se percebeu mais não estamos refletindo no mar.


Menina:

Sim, é verdade. Não havia percebido. O que houve?


Estrela:

Suspeitamos que foi a Sereia. Com inveja da nossa beleza roubou nosso reflexo para si, deve ter escondido em seus cabelos, aquela escamosa!


Menina:

E como posso ajudar?


Lua:

Vá até o fundo do mar, encontre a Sereia...


Estrela:

Resumindo... Terá que pentear seus cabelos antes que amanheça. Uma missão "quase" que impossível.


Menina:

Pentear os cabelos da Sereia antes que amanheça me parece bem fácil. O difícil vai ser prender a respiração por tanto tempo no fundo do mar.


Lua:

Com isso não se preocupe, o anel cuidará de tudo. Poderá nos ajudar também, pequena?


Menina:

Mais é claro. Posso ajudar vocês e ainda encontrar meu pai.


Estrela:

Quero só vê.


Lua:

Estrela!
Menina:


(Música) Estrelas

Composição: Sergio Britto - Arnaldo Antunes


Estrelas
Para mim
Para mim
Estrelas
São para mim
Estrelas para mim
Estrelas
Estrelas
Para quê?
Para quê?
Para quê?
Estrelas para mim
Só para mim (...)

Cena II
Ao termino da música. Uma grande cortina transparente cheia de representações marítimas se levanta no procênio, dando a impressão de que a menina está realmente entrando no mar. A luz deverá ficar um pouco azulada. De inicio ela sentira falta de ar até se habituar.

Apeixonaldo:

Atchimmm! Não é por nada não, mas acho que deveria se agasalhar melhor, se não... Atchimmm! Vai ficar resfriada.
Menina:

Resfriada eu? Acho muito difícil. Sou forte como um Leão.


Apeixonaldo:

Leão? Você não é peixe? Ola senhor Leão, muito prazer em conhecê-lo, eu me chamo Apeixonaldo. Atchimmm!


Menina:

Eu não sou Leão...


Apeixonaldo:

Logo suspeitei... Leões não vivem no fundo do mar, não é mesmo? Então que tipo de peixe é você? Para que eu cumprimente como se deve.


Menina:

Eu me chamo Marina e não sou peixe não...


Apeixonaldo:

Não?


(Gritos)

Tubarão! Tubarão! Escondam seus peixinhos! Escondam! Tubarão!


Menina:

Eu não sou tubarão!


Apeixonaldo:

Logo suspeite... Não vejo dentes grandes em você. Você falou que não é peixe e Tubarão é peixe. (Risos sem graça)


Menina:

Eu sou uma... Humana. Isso! Humana Marina.


Apeixonaldo:

Prazer, Humana Marina.


Menina:

Muito prazer Apeixonaldo. Mas me responda. Você nunca viu um Humano?


Apeixonaldo:

Nunca! Nunca fui à superfície, tenho muito medo de ser pescado, só peixes bobo vão a superfície, mas sempre tive curiosidade. Responda-me também... Por um acaso, Humanos comem peixes?


Menina:

Sim... Alguns... Comem até cru.


Apeixonaldo:

Tubarão! Tubarão!


Menina:

Eu já disse que não sou Tubarão! E também não como meus amigos.


Apeixonaldo:

(Choroso)

Eu sou seu amigo? Eu nunca tive um amigo!



(Chora escandalosamente)
Menina:

Sim, de hoje em diante seremos amigos, e amigos ajudam uns aos outros.

Apeixonaldo:

Em que posso ser util. ami... Atchimmm!


(Neste mesmo momento passa Peixolinda)
Apeixonaldo:

Ela é a mais linda desses mares.


Menina:

Ah! Então é por isso que você está gripado. Gripe de paixão... Meu pai sempre fala que a paixão é uma doença...


Apeixonaldo:

Seu pai deve estar errado, por que quando ela chega perto de mim eu até melhoro. Atchimmm!


Menina:

Você quer que eu fale com ela?


Apeixonaldo:

Não! Isso seria o fim para mim.


Menina:

Então fale com ela.


Apeixonaldo:

Eu não sou corajoso o suficiente.


Menina:

É só confiar em você.


Apeixonaldo:

É melhor confiar em outra ocasião não é mesmo?


Menina:

Respire fundo e diga tudo que está sentindo. Eu acho que é assim que os apaixonados fazem.


Apeixonaldo:

Você também não sabe ao exato como é?


Menina:

Olhe para mim, sou muito nova para me apaixonar, tenho que estudar, e estudar já estão sendo um bocado difícil para minha cabecinha.


Apeixonaldo:

Entendo... Atchimmm!


(A menina o empurra na direção de Peixolinda)
Apeixonaldo:

Eu... Eu... É... Você vem sempre aqui?


Peixolinda:

Não sei se percebeu, mas eu moro aqui.


Apeixonaldo:

Sim... (Breve silêncio) Gosta de corais?


Peixolinda:

(Interessada)

Sim... Prefiro os corais rosa, são os meus preferidos.


Apeixonaldo:

Incrível!!! (Contendo-se) São os meus também!


(Suspiram)
(Música) Todo Azul do Mar

Composição: Ronaldo Bastos - Flávio Venturini


Foi assim como ver o mar
A primeira vez que meus olhos
Se viram no seu olhar

Não tive a intenção


De me apaixonar
Mera distração
E já era o momento de se gostar (...)
Peixolinda:

E quem é aquele peixe?


Apeixonaldo:

Quem? Ela? Ela não é peixe.


Peixolinda:

Não?! É Tubarão então?!


Apeixonaldo:

Muito menos Tubarão. Ela é uma Humana.


(Peixolinda ri)
Peixolinda:

Que tolo... Humanos não vivem no fundo do mar.


Menina:

Desculpe interrompê-los, mais estou com pressa. A história é muito longa para que eu conte agora. Preciso de ajuda, se poderem me ajudar...


Peixolinda:

E que tipo de ajuda precisa pequena Humana?


Menina:

Preciso saber onde mora uma Sereia escamosa.


Apeixonaldo:

Há só uma Sereia e princesa por esse mar, é a Seria Hagata. Mais se eu fosse você não arriscaria encontrá-la, ela é uma Sereia muito feia e malvada. Geralmente as Sereias são muito bonitas, mas está é horrenda.


Peixolinda:

Sem contar que o Tuborildo está sempre com ela.


Menina:

Quem é Tuborildo? Quanta gente... Quero dizer, quanto peixe nesse mar.


Apeixonaldo:

Tuborildo é um tubarão, escravo da Sereia Hagata.


Menina:

Onde ela mora?


Peixolinda:

No Reino das Águas Escuras. Não é muito longe daqui. Podemos dizer onde fica, mas não podemos ir até lá. Se o Tuborildo nos ver... Você já sabe o que vai acontecer.


Menina:

Então é só dizer onde fica.


Apeixonaldo:

Siga pelo mar atlântico, vire a esquerda, lá terá umas tartarugas velhas e muito falantes, não seja mal educada, mas também não dê muito ouvidos, elas tomarão muito seu tempo, contando histórias da juventude...


Apeixonaldo e Peixolinda:

(Como se já tivesse ouvido muito)

E de quando o mar era calmo e limpo.


Apeixonaldo:

Continuando... É só desviar-se das tartarugas e seguir reto, então é lá. O Reino das Águas Escuras.


Menina:

Muito obrigado!



(Sai correndo)
Apeixonaldo:

Ei! Por que tanta pressa? Eu nem tive tempo de agradecer.


Peixolinda:

Vai entender os Humanos, não é?


(Música) Peixe Vivo

Composição: Folclore

Como pode um peixe vivo
Viver fora d'água fria
Como pode um peixe vivo
Viver fora d'água fria
Como poderei viver
Como poderei viver
Sem a tua sem a tua
Sem a tua companhia
Sem a tua sem a tua
Sem a tua companhia


Cena III
(No palco está duas tartarugas idosas e lentas sentadas cada uma em cadeiras de balanço a tecer cachecóis)
Menina:

Olá!
(As tartarugas não dão muito “ouvidos”, pois são quase surdas)


Menina:

Oi... Boa noite senhoras tartarugas.


Tartaruga Efigênia:

Olá... Isso não são horas de passear no fundo do mar, menina.


Tartaruga Nastácia:

Realmente, esses mares nãos estão bons, nem de noite, nem de dia.


Tartaruga Efigênia:

É o que eu sempre digo para os meus netinhos.

Tartaruga Nastácia:

Quem é você?


Menina:

Chamo-me Marina, e vou logo avisando que sou Humana.


Tartaruga Nastácia:

Quem?
Menina:

Marina, Humana.
Tartaruga Efigênia:

Não me causa nenhum espanto, alguns Humanos são tão amáveis conosco.


Tartaruga Nastácia:

Ah...! Essa velha já vai começar...


Tartaruga Efigênia:

Não gostaria de sentar-se para ouvir umas histórias, pequena Marina?


Menina:

Desculpem-me senhoras tartarugas, mas estou com muita presa, tenho tantas histórias nesse pouco tempo que estou no mar quanto às senhoras...


Tartaruga Nastácia:

Fique um pouco, tome um chá de algas marinhas.


(A menina senta-se, toma o chá)
Tartaruga Efigênia:

Não faz muito tempo pequena, a quase 100 anos atrás esse mar era calmo, apenas algumas caravelas nos assustava, os peixes bailavam numa dança de dar gosto...


Tartaruga Nastácia:

Mas como tudo está evoluindo depressa, já não temos mais o sossego de antes... Mares sujos, muita poluição... Sem contar esses tubarões famintos que tiram nossa paz.


Menina:

Nossa! (Breve silêncio) É... Vejo que estão tecendo, não é normal tecer ao anoitecer.


Tartaruga Efigênia:

(risos) Que menina esperta! Estamos tecendo a noite, por que é nesse horário que os tubarões estão dormindo. Tecer pela manhã é muito perigoso.
Menina:

Entendi.
Tartaruga Efigênia:



(Cochicha)

Deixe eu te contar menina, sabia que ela canta ópera muito bem!


Menina:

Incrível! Nunca vi nenhuma tartaruga “cantante”.


Tartaruga Efigênia:

Não me faça vergonha, cante uma ópera para nós velha rabugenta.


Tartaruga Nastácia:

Ciranda da Bailarina

(Música) Composição: Edu Lobo / Chico Buarque


Procurando bem
Todo mundo tem pereba
Marca de bexiga ou vacina
E tem piriri, tem lombriga, tem ameba
Só a bailarina que não tem
E não tem coceira
Verruga nem frieira
Nem falta de maneira
Ela não tem (...)
(Recompondo-se)
Menina:

Bravo!!! Uma estranha canção, mas muito bela.


Tartaruga Nastácia:

Quem é você?


Menina:

Não lembra? Sou eu, Marina.


Tartaruga Nastácia:

Ah! Sim, sim, agora lembro... Linda como uma bailarina.


Menina:

Nossa, não vi o tempo passar, tenho que ir!


Tartaruga Nastácia:

Fique mais um pouco, não temos muita campainha por aqui, nessa região mora apenas eu Nastácia e essa tartaruga tagarela...


Tartaruga Efigênia:

Efigênia. Muito prazer.


Menina:

Como gostaria de ficar, mas tenho que ir, adeus... (Sai correndo)

Obrigada pelo chá!
Tartaruga Efigênia Tartaruga Nastácia:

Quanta pressa! (risos)


Tartaruga Efigênia:

Humanos, sempre apressados, sempre apressados... (risos)


(As tartarugas continuam a tecer até o cenário escurecer)
Cena IV

O cenário continua o mesmo, apenas a luz fica um pouco avermelhada, Mariana entra procurando a Sereia Hagata e da de cara com Tuborildo. Obs.: Peixolinda e Apeixonaldo aparecem como fantoches, cada um de um lado do tablado.

Menina:


(Fala procurando a Sereia)

Huuuhuu...! Huuuhuu...! Tem alguém aqui? Ufa! Como foi difícil livra-me das Tartarugas falantes... Mas o papo estava tão bom, interessante. É inacreditável como esse mar era realmente calmo e limpo. Hoje em dia é sujo, deve ser por isso que as marés estão tão bravas.


Apeixonaldo:

Falando sozinha Marina?


Peixolinda:

Sim, ela estava. Humanos são tão estranhos. (risos)


Menina:

O que estão fazendo aqui? É perigoso! E por que diminuíram?


Apeixonaldo:

Esquecemos de contar. Este reino é mágico, aqui quase tudo pode acontecer.


Peixolinda:

Por exemplo, não percebeu que sua roupa mudou?


Menina:

Nossa! É incrível como eu nunca percebo nada. Ficou mais lindo o meu vestido não acham?


Peixolinda:

Ficou linda mesmo.


Apeixonaldo:

Por que está se arriscando tanto Marina?


Menina:

Preciso encontrar a tal Sereia, para pentear seus cabelos e salvar alguns reflexos, fazer um pedido para este anel de Lua e Estrela e então poderei encontrar meu pai.


Peixolinda:

Xiiiiiiiiiiiiiiiiiii... Não entendi nada.


Menina:

É muito confuso mesmo. E vocês estão se ariscando muito. A qualquer momento o Tuborildo pode aparecer.


Apeixonaldo:

Verdade. Ficaremos escondidinhos aqui, caso precise de ajuda.


Menina:

E por que está fazendo isso Apeixonaldo?


Apeixonaldo:

Por que somos amigos Marina.


Peixolinda:

Ei! Não se esqueçam de mim. Quero ter amigos também.


Menina:

Sim, somos todos amigos. E depois que passar toda essa confusão seremos eternos amigos. Agora se escondam, vem vindo alguém... Quero dizer, algum peixe acho.


(Mariana tenta sair devagarzinho)
Tuborildo:

Onde pensa que vai Humana?


Menina:

Como sabe que sou Humana?


Tuborildo:

Eu gosto de morder alguns surfistas na superfície, mas isso não vem ao caso. O que está fazendo aqui?


Menina:

Nada de mais... É... Vim apenas visitar a minha amiga Sereia, faz tanto tempo que não a vejo, gostaria de parabenizá-la...


Tuborildo:

Então veio para o casamento? Mas a Seria Hagata não me falou de nenhuma

Humana.
Menina:

Casamento? Que casamento?


Tuborildo:

O casamento dela com um pescadorzinho aí. Você acredita que fui trocado por um pescadorzinho?


Menina:

Casamento? Pescador? Papai!


(A menina corre e o Tuborildo a segura pela roupa)
Tuborildo:

Mocinha, não pode entrar!


Menina:

Como não? Fui convidada. A Sereia ficara muito nervosa se não me deixar entrar.


Tuborildo:

Mostre-me o convite.


Menina:

Convite? É... Convite? Cadê o meu convite... (procurando)

Ah... A Sereia não lhe falou? Sou além de sua amiga sua cabeleireira particular, vim especialmente para pentear e enfeitar de estrelas do mar seus lindos cabelos. Não sei se as estrelas do mar ficarão muito felizes, mas é para isso mesmo que vim.
Tuborildo:

Ela não disse nada, mas se é para deixá-la mais bonita, entre. Mas cuidado, não faça muito barulho, a Sereia Hagata está com uma dor de cabeça daquelas.


Menina:

Foi um desprazer... Quero dizer, um prazer conhecê-lo Senhor Tuborildo. Adeusinho.


Tuborildo:

Como ela sabe o meu nome?


(Mariana corre, Tuborildo corre atrás)

Cena V

A Sereia Hagatá está no canto do tablado numa pedra penteando seu horroroso cabelo e cantando desafinada uma canção.

(Música) Lenda Das Sereias, Rainha Do Mar

Composição: Folclore

(…) Mar misterioso mar
Que vem do horizonte
É o berço das sereias
Lendário e fascinante (...)
(Marina entra afobada)
Hagata:

Mais que invasão é está no meu reino?!


Menina:

Desculpe-me Senhora Sereia escamosa, é que...


Hagata:

Quem você chamou de escamosa?!


Menina:

A Senhora... Não é mesmo, a Senhora não tem escamas, muito belas por sinal?


Hagata:

Vendo por este lado, até que tenho mesmo, muitas e belas escamas.


(Menina ri)
Hagata:

Do que ri?


Menina:

Nada não, só lembrei de algo muito importante. Seu casamento Senhora Sereia! Vamos, vamos...


Hagata:

Vamos, vamos... Vamos fazer o quê?


Menina:

Eu vim especialmente para pentear seus cabelos e enfeitá-los, maquiá-la e deixá-la ainda mais... Bela.


Hagata:

Xiiiiiiiiiiiiiiiii... Nem posso mocinha, estou com uma dor de cabeça...


Menina:

Não importa... (contendo-se) O que devo fazer então para melhorar sua dor de cabeça?


Hagata:

Só uma bela canção junto de uma bela voz fará com que eu melhore dessa horrível dor de cabeça, imagine só... Eu tão linda com uma horrível dor de cabeça, é um cumulo!


Menina:

Cumulo? O que é isso?


Hagata:

Eu também não sei, mais deve ser algo muito feio.


Menina:

Então cantarei para que melhore.



(Música) Lua, lua, lua, lua

Composição: Caetano Veloso


Lua, lua, lua, lua
Por um momento meu canto contigo compactuar
E mesmo o vento canta-se
Compacto no tempo
Estanca
Branca, branca, branca, branca
A minha, nossa voz atua sendo silêncio
Meu canto não tem nada a ver com a lua
Hagata:

Não gostei nada dessa canção sobre (Canta desafinada) Lua, lua, lua, lua... Mas sua voz é tão doce que acho que melhorei da minha dor de cabeça. Se você não fosse tão pequena eu roubaria a sua voz. Mais tenho pena de você, imagine só você sem voz, o que seus coleguinhas diriam... (risos)


Menina:

Como a senhora é malvada, quer saber mais, me passa esse pente, eu vou pentear seus cabelos agora!


Hagata:

Socorro! Socorro! Humana louca! Humana? Sim uma Humana pequenina e louca!


Peixolinda:

É isso aí mostra pra essa seria como se faz Marina!


Apeixonaldo:

Um soco de direita, outro de esquerda...! Estamos vendo uma luta incrível! Um combate jamais visto em todo fundo do mar.


Tuborildo:

O que é isso? Hagata?


Peixolinda:

Deixa ele com a gente Marina, continua!


(Tuborildo é puxado pelos peixes, uma grande confusão é formada, passa pela cena amarrado da cabeça aos pés, enfim Marina consegue pentear os cabelos de Hagata que então acaba careca e foge da cena, muitas luzes coloridas formam o efeito mágico da cena junto com luzes supondo o reflexo da Lua e Estrela)
Apeixonaldo:

Huhuuuuuuuuuu! Conseguimos Marina! Não sei bem o que conseguimos, mas conseguimos!


Peixolinda:

Todos juntos conseguimos! Nunca mais essa escamosa volta aqui!


Apeixonaldo:

Além de horrorosa, era careca!


(todos riem)
Pai:

Marina!
Menina:

É o meu pai!
Pai:

Marina!
Menina:

Ele está por aqui, me ajudem encontrá-lo.
(Marina afasta a pedra onde estava Hagata e o encontra muito debilitado preso em uma caixa de grades.)
Menina:

Papai quanto medo tive de perdê-lo, eu pensei que o senhor não voltaria que foi comigo por um tubarão ou...


Pai:

Não se preocupe mais minha filha, agora estamos juntos e nada mais vai nos separar, eu te amo muito filha.


Menina:

Eu também te amo muito papai.


Pai:

Só queria saber como “diabos” chegou aqui, no fundo do mar.


Menina:

Está é uma história muito longa que eu nunca consigo contar papai. (numa rapidez continua) Primeiro me perdi no mar, encontrei uma Lua muito generosa e também uma Estrela birrenta, me deram este anel de presente... Ah! Também conheci peixes muito amáveis e como adorei as tartarugas falantes do mar Atlântico, só não gostei do tubarão escravo e dessa sereia escamosa, que além de feiosa é careca, imagina papai, ainda queria casar com o senhor.


Pai:

Nossa Marina quanta história para contar.


Menina:

(imaginando)

Casar com ela... Ta bom, uma madastra careca... (risos)


Pai:

Eu nunca casaria com ela, estou com uma dor de cabeça... A sereia Hagata deve ter me dado uma pancada daquelas, por que eu nunca dormiria com aquele canto desafinado. (risos)


Apeixonaldo:

Rápido você tem que voltar Marina!


Peixolinda:

Já está amanhecendo! Rápido!


Menina:

Vamos papai!


Pai:

Eu não sei se percebeu ainda Marina, mas eu estou preso.


Menina:

Como sou tola. Desculpe papai.


(Ela o liberta e abraçam-se)
Menina:

Agora eu entendi papai.


Pai:

Entendeu?


Menina:

O amor... O amor que sentimos é muito valioso, mergulhei nesse mar de esperança querendo ajudar amigos e encontrá-lo, acabei encontrando mais amigos e tenho certeza que já nos amamos, o amor que sentimos nos faz muito bem e foi por isso que vencemos a sereia princesa Hagata escamosa!

Como é bom ter amigos.
Apeixonaldo e Peixolinda:

Nos te amamos também Marina.


Peixolinda:

Agora vá.


Apeixonaldo:

E não se esqueça de nos visitar.


(A menina abraça seu pai, então a cortina logo vai se baixando dando a idéia da superfície. Vão diretamente para o barco. De fundo a música tema da peça)
(Música) Lua e Estrela

Composição: Vinicius Cantuária


Menina do anel de lua e estrela
Raios de sol no céu da cidade
Brilho da lua oh oh oh, noite é bem tarde
Penso em você, fico com saudade

Manhã chegando


Luzes morrendo, nesse espelho
Que é nossa cidade
Quem é você, oh oh oh qual o seu nome
Conta pra mim, diz como eu te encontro
Mas deixa o destino, deixe ao acaso
Quem sabe eu te encontro
De noite no Baixo
Brilho da lua oh oh oh, noite é bem tarde
Penso em você, fico com saudade
(Enquanto a música toca, Marina cumprimenta a Lua e a Estrela devolvendo seus reflexos e seu último pedido são remos pra que possa voltar para casa)
Fim.

Arauí Farias

São Paulo, outubro de 2009

*Este texto não pode ser montado sem permissão do autor.

*Este texto faz parte de uma trilogia de textos infantis.

araui_farias@hotmail.com










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