Memórias do Cárcere Vol. I



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VI NA Praça Vermelha um rapaz de cabelos negros, nariz adunco, olhos vivos. Recém-chegado, ainda não se despojara da roupa nova bem feita. Vestia com apuro, e foi o indivíduo mais elegante que me apareceu naquelas viagens subterrâneas, elegância condenada a sumir-se em pouco tempo. Chamava-se Francisco Chermont e era filho do senador Abel Chermont, dias antes arrancado violentamente de casa, entrado em luta física desigual, levado a braços como um fardo resistente, metido no cárcere e agüentado sevícias, por se haver oposto, no Senado, aos desmandos selvagens da ditadura policial reinante. Francisco Chermont assistira à cena vergonhosa, e, antes de recobrar-se do susto, fora preso e encafuado entre nós, por causa dos discursos do pai; iria interromper o seu curso de direito, no último ano. Não chegou a largar o fato de. casimira bem talhado, calçar tamancos, desamarrar a gravata, aclimar-se aos nossos hábitos simples em demasia. Ficou ali talvez uma semana.

De repente veio a degringolada metódica, primeira de uma série que nos iria causar graves inquietações. As mudanças até então se faziam sem alarde, quase sub-reptícias: pareciam atos ilegais, determinados e executados na sombra por malfeitores. Os cubículos enchiam-se, esvaziavam-se moderadamente, e às vezes nem percebíamos a ausência de algum hóspede incolor; em conversas, lembrávamos o sumiço de indeterminadas feições; e com freqüência nos causava espanto o regresso desses fantasmas. A retirada em massa nos surpreendeu, nos mergulhou em presságios escuros. Era noitinha, andávamos à toa depois do jantar, esperando a hora de recolher. A porta da frente se escancarou e um funcionário surgiu com um papel na mão.

– A lista, a lista.

Por toda a parte essa palavra foi cochichada num momento, sem percebermos direito a significação dela. Não sabíamos donde tinha partido, víamos rostos apreensivos e ficávamos suspensos, sem buscar informar-nosEncostado à barra negra da plataforma, observei um fervilhar inquieto lá embaixo, vi o sujeito desdobrar o papel e começar a leitura, num rol de nomes apenas:

– Agrícola Baptista, Newton Freitas, Anastácio Pessoa, José Medina.

A princípio não atinei com o motivo daquela chamada improvisa; notei depois movimento nas células, homens atarantados a preparar bagagens. A leitura prosseguia, lenta, monótona. Sem dúvida transferência, para desafogar a prisão superlotada com a gente do Pedro l. Tínhamos rebentado pratos e caído em grande fuzuê por causa da hemoptise de Benigno. Desarticulando-nos, quereriam evitar que tais cenas se reproduzissem.

– Vão mandá-los para a Colônia Correcional, segredou-me alguém.

Recusei admitir isso, mas era uma recusa ingênua, sem base. Apenas desejava afastar a previsão funesta: sem termos idéia segura da Colônia Correcional, enxergávamos nela a miséria, a degradação completa.

– Francisco Chermont, leu claramente o sujeito da lista. Bem. A conjetura desgraçada esmoreceu e desvaneceu-se: não iriam meter entre vagabundos e malandros aquele moço inofensivo, alheio à política, membro da classe dominante. Se fizessem isso, estariam a destruir-se. Achei também que Anastácio Pessoa, alto funcionário de banco, aparentado com indivíduos fortes, mandões na política, se isentava do mergulho infamante. Um mês atrás, de colarinho, gravata e suspensório, lia o seu inglês, atento, e se lhe falávamos, respondia com monossílabos, para não comprometer-se. Estava ali por equivoco; chamado à polícia, deixara c automóvel à porta; a qualquer momento receberia explicações, voltaria ao trabalho. Despojara-se a custo dessas considerações falsas, largara o romance inglês, o colarinho, a gravata e o suspensório, vestira pijama e calçara tamancos. Mas continuava a julgar-se vítima de um engano.

– Provavelmente serão soltos, opinaram junto de mim. Provavelmente, concordei perplexo e incrédulo, tentando apagar o escuro palpite anterior.

Era um parecer chocho, lançado à toa, apenas para dizer algumas sílabas; esforçava-me por admiti-las.

No rés-do-chão havia um burburinho. Os homens chamados se arranjavam à pressa, vestiam-se lançando ao acaso pedaços de recomendações, entravam e saíam dos cubículos, a despedir-se. Foram em seguida, carregando maletas e embrulhos, postar-se em linha diante da grade larga do vestíbulo. O funcionário consultava a lista, conferia os nomes, verificava a identidade.

A fila se estirava, numa composição heterogênea: operários, elementos do jornal e do banco, tipos de emprego incerto. O poncho vermelho de Tamanduá se agitava, uma grande nódoa inquieta, cor de sangue. França, o padeirinho tuberculoso a quem ofereci durante um mês a garrafa de leite dos doentes, juntou-se ao grupo, tímido, insignificante, imperceptível no movimento e no rumor. Vieram muitos, foram convocados retardatários, e a leva se dispôs a sair: Mediria, Tamanduá, Anastácio Pessoa, Newton Freitas, Desidério, Chermont, o padeiro, outros esquecidos, trinta ou quarenta indivíduos, entre eles Mamede, cafuzo de olhar ardente e cabeleira revolta, marcado àquela hora por uma opinião que logo recebeu contradita enérgica.

Eram necessárias algumas palavras de solidariedade aos companheiros que se retiravam naquele ambiente de perspectivas más. Rodolfo Ghioldi fez um ligeiro discurso. Não lhes insinuou a esperança de serem transferidos para lugar melhor. Encoivarou rápido as tristezas da separação e entrou, como fazia sempre, em matéria política. Aludiu à conveniência de estarmos unidos, em quaisquer circunstâncias, ao rigoroso cumprimento das tarefas, assim por diante. Em seguida falou Sisson. Verboso, desejou boa viagem à turma e expressou a convicção de que ela seria posta em liberdade. Parecia não ter nenhuma dúvida sobre isto: iriam todos ali direitinho para a rua.

Essa arenga produziu efeitos discordantes naquela gente: uns se reanimaram, com certeza, outros devem ter caído em desânimo ou irritação. E as duas respostas divergentes, inesperadas, vieram sacudir-nos. Mamede jogou a primeira, exaltado, uma luz viva a aquecer-lhe o rosto moreno, a grenha a derramar-se na testa e a refluir para a nuca, na agitação afirmativa da cabeça. Tinha-se enganado, vivera a imaginar desacordos essenciais entre as classes, e agora notava que elas se podiam combinar. Todos os atritos esmoreciam, necessidades urgentes de conciliação vibravam na fala untuosa. Era idílico e profético. Os cabelos, agitados por excessivos ímpetos, rijas ventanias interiores, vinham adiante, iam atrás, naquela terrível mansidão quase furiosa. O trabalhador rude convertia-se em missionário. A paz reinaria sobre a terra, um novo reino de Deus nos envolveria, e os lobos, perdido o instinto, abraçariam, as ovelhas. Terminou e Desidério ergueu o braço. Foi breve e incisivo, tão incisivo e breve que me aventuro a copiar-lhe as palavras sem receio de engano!

– Ah! an!

Um risinho sarcástico e azedo, um brilho mau no bugalho torto.

– Esse negócio de liberdade é conversa. Vamos deixar de tapeação.

Lembrei-me da aspereza dele, no Coletivo: – “Isso não vale nada. Besteira. A mesma raiva fria e demolidora, o mesmo horror aos intrusos no seu mundo.

– Eu sei para onde vou, sim senhores. Vou para a Colônia, que é o meu lugar. Estive aqui por descuido, não é possível viver muito tempo com os senhores.

E rematou, cheio de fel e veneno, um fulgor de ódio no olho que se ausentava de nós:

– Estes braços estão cansados, estão magros de carregar farinha para burguês comer.

A réplica brutal à harmonia fervorosa de Mamede produziu um silêncio de constrangimento. Depois de tal clareza, as tentativas de acomodação eram inúteis. Desidério nos julgava parasitas, os nossos trabalhos demorados e complexos não tinham para ele nenhuma significação. Arrepiei-me ante aquela antipatia, agressiva, a desviar possíveis entendimentos, a excluir habilidades proveitosasJogava-nos a todos o labéu. Exploradores e inimigos Na verdade a maioria não era burguesaPertencíamos a essa camada fronteiriça. incongruente e vacilante, a inclinar-se para um lado, para outro, sem raízes. Isso determinava opiniões inconsistentes e movediças, fervores súbitos, entusiasmos exagerados, e logo afrouxamentos, dúvidas, bocejos. Naquele momento a revolução monopolizava os espíritos, e alguns a desejavam com fervor religioso. Mais tarde iriam surgir numerosas apostasias, e é possível que homens ásperos como Desidério tenham influído nelas.

Debruçado ao passadiço, achei-o grosseiro e injusto. Aos votos amáveis de Sisson respondera com quatro pedras na mão, como se nos responsabilizasse por sua desdita. Pensei depois com freqüência naquele rompante, esforcei-me por explicá-lo. Quem sabe se o estivador não tinha alguma razão? Opusera um dique ao otimismo torrencial de Mamede. Contivera as explosivas manifestações da coqueluche vermelha. Tarimbeiro antigo, desdenhava os recrutas. E talvez percebesse ali as falhas em consciências, perfídias, embustes e ciladas. Viviam a cochichar que estávamos cercados de espiões. Desidério se defendia, encaramujava-se no seu grupo social, retraía-se na desconfiança como numa carapuça. Farejava denúncias. E os denunciantes eram burgueses, provavelmente. Em silêncio, constrangidos, vimos o sujeito conferir de novo a listaEm seguida a leva pôs-se em marcha e a grade se fechou.

22

DECORREU uma semanaCerta manhã, à porta do banheiro, aguardando vaga, notei ali perto um desconhecido muito diferente dos moradores do Pavilhão. Chegou-se, falou me. Retribuí a saudação, confuso, perguntando a mim mesmo onde e quando me avistara com semelhante indivíduo. A presença dele me trazia agouros maus: certamente iam degradar-nos. Tínhamos vivido meses entre pessoas de aparência mais ou menos decente, e mandavam-nos agora um vagabundo sórdido. Evidentemente procedia do morro, esfomeara-se, estragara-se a malandrar nas favelas. A roupa imunda e sem cor amarfanhava-se, coberta de placas de lama seca: sem dúvida o homem se deitara no chão molhado e não pensara em recompor-se. Não lhe precisaríamos a idade vinte ou cinqüenta anos. Um ar de fadiga inquieta, a pele baça, o olhar esgazeado, e completo desleixo, indiferença de quem desceu muito e já nem tenta causar boa impressão. A barba atestava ausência regular de navalha e sabão; no crânio rapado a máquina, de lividez cadaverosa, protuberâncias avultavam. A fala abafada entrecortava-se de hiatos. Lembrei-me vagamente de já ter ouvido aquela voz, mas, por muito que esquadrinhasse a memória, não me seria possível

reconhecer a figura lastimosa. Percebendo-me na cara o pasmo e a interrogação, o homem apresentou-se:

– Francisco Chermont.

Não entendi, fiquei um minuto a examiná-lo, sem atinar com o motivo daquela referência ao estudante de cabelos negros e olhos vivos, o fato de casimira a envolvê-lo naturalmente, como se tivesse nascido com ele. Atônito, aguardei esclarecimentos, e quando ele veio, aos pedaços, recusei admiti-lo:

– O senhor?

Impossível distinguir na desgraçada ruína vestígios do moço elegante.

– O senhor?

E atentava na palidez suja, nas órbitas cavadas, nas crostas imundas presas ao tecido ignóbil, semelhante a estopa. Como as pessoas se alteram depressa! Os modos eram outros, diversa a fisionomia. Busquei um traço revelador. Bem. Lá estava o nariz curvo, de papagaio. Novos indícios lentamente surgiram, romperam a custo a máscara vergonhosa; a linguagem polida afastou Chermont dos mocambos.

Em vivo constrangimento, remoí palavras difíceis, baixando a vista, procurando abafar a terrível impressão, morto por desviar-me dali. Falávamos com muitas pausas. Vali-me de uma e interrompi a conversa, fui lavar-me. Em seguida me recolhi, em desassossego, buscando na leitura e na escrita apagar Q caso desagradável, receando minúcias, informações penosas. Vieram à noite.

Arriado no colchão magro, os ferros da cama a raspar-me o espinhaço e as costelas, ouvi sucumbido o relatório de Chermont. Era extenso e medonho. Hora comprida uma voz monótona rolou contando sem rodeios, às vezes descendo a pormenores ignóbeis, fatos vários daquela negra semana de ausência. Havia coisas inconcebíveis nos sucessos largados de supetão dentro das nossas cabeças, nas cenas de realismo nojento, nos diálogos torpes, em gíria. Fumando, as pálpebras caídas, penetrei no mundo confuso da narração lenta e pesada; vi mentalmente a fila transpor o vestíbulo, marchar no pátio, demorar-se na rouparia, dar respostas a perguntas secas e receber pacotes numerados, arrumados nas prateleiras. Saiu, ziguezagueou algum tempo no recinto de muros altos, sem saber para onde o levavam, juntou-se a novos grupos, dissolveu-se neles. Encaixaram-se todos em carros fechados, os tintureiros da polícia, e rodaram longamente na escuridão que manchas de luz perturbavam, pequenas réstias causadas por furos abertos nas paredes de ferro. Desembarcaram entre fuzis e pistolas, foram metidos no porão de um navio.

Não tive dificuldade em imaginar a transferência. Enxerguei-os a descer das tocas ambulantes, pisar no asfalto, indecisos, como ratos encandeados, atravessar alguns metros de cais, um convés, mergulhar numa escadinha estreita, desembocar no espaço vago cheio de trevas leitosas. Era-me inútil a descrição, nem atentei nela: provavelmente calor horrível, beiços gretados, sinais de asfixia, o insuportável cheiro de amoníaco, suor abundante, coisas moles a esmagar-se debaixo dos sapatos, imundícies ocultas na fumaça dos cigarros. A lembrança viva do Manaus assaltou-me; a sede, imagens desconexas, receio de enlouquecer, dispnéia, sitiofobia e um jato de sangue a anunciar morte esperada como libertação chegaram de repente: na cama dura, a escoriar-me no metal, de costas para não esconder uma das orelhas no travesseiro exíguo, não perder sílaba do relatório, achei-me de novo deitado numa costela do cavername, o rosto colado a uma vigia, respirando em haustos curtos ar salino. Essas recordações esmoreceram diante de casos novos, imprevistos e imprevisíveis.

No porão do Manaus, tinha-me visto na companhia de pessoas aviltadas, e o ambiente físico me atormentara a princípio. No entanto conseguira habituar-me. Era possível escapar dali refugiando-me no camarote do padeiro, na rede a balançar embaixo da escotilha. E a convivência de Lauro Lago, Macedo, Mário Paiva, Benon, João Anastácio, Manuel Leal de nenhum modo me desagradava. Ligeiras incompreensões anulavam-se. Ofícios vários, o sertão e o litoral reunidos, ocasionavam certas divergências de prosódia e semântica, mas essas bagatelas não conseguiam separar-nos. O porão do Campos era muito diverso. Justapuseram-se ali duas sociedades inconciliáveis: uma afeita às idéias e aos costumes regulares, mais ou menos confessáveis e permitidos; outra incursa em velhas censuras, em desprezos e temores públicos, dirigindo-se por normas ignoradas cá fora, regras absurdas. A primeira, centena e meia de políticos, aglomerava-se à entrada, em silencioso assombro, a atividade morta; a segunda, quatrocentos ou quinhentos malandros, vagabundos, ladrões, refugo tumultuoso, fervilhava e zumbia naquele esgoto social como um formigueiro assanhado. O número superior e adaptação completa ao meio tinham suprimido nos últimos qualquer vestígio de constrangimento ou pejo: mexiam-se à vontade, expondo os seus costumes, horríveis mazelas, não parecendo sentir a abjeçãoCoisas duvidosas, vagamente suspeitadas, surgiram nuas à luz das lâmpadas, patenteavam-se em voz alta, com a mais perfeita naturalidade. Haviam organizado uma espécie de governo. A polícia, lá de cima, incumbira disso Moleque Quatro, indivíduo reimoso, forte na capoeira e no samba, presumível autor de mágoas em verso dedicadas a um ingrato: Implorar só a Deus... Esse poder se exercia discricionário, simultaneamente justiça e execução, regido por leis próprias, reconhecidas e inapeláveis No movimento e na balbúrdia realizou-se um processo. Moleque Quatro nomeara alguns assessores: mantinham, com ameaças e rasteiras, a ordem singular das cloacas humanas e, em caso de necessidade, incorporavam-se em tribunal. Essa guarda temerosa reconheceu um alcagüete a dissimular-se na multidão, pegou-o, levou-o rápida ao chefe e logo se transformou em júri. O alcagüete é um delator e para ele os criminosos são inexoráveis. O descoberto naquela noite veio trêmulo e mudo, com duras contas a agravar-se em depoimentos medonhos de testemunhas furiosas, num instante convertidos num libelo coletivo. Nenhuma defesa. Ouvidas ias culpas, Moleque Quatro refletiu, coçou a carapinha e decidiu: Vai morrer.

No estranho julgamento o carro andava diante dos bois: proferia-se a sentença e depois os jurados se manifestariam; confirmavam-na ou recusavam-na, mas não seria fácil absolverem um sujeito sumariamente condenado, esmagado por acusações tremendas. Aceitaram a decisão, unânimes.

– Vai morrer

Nesse ponto o infeliz, aturdido, pareceu despertar. Caiu de joelhos, balbuciando súplicas abjetas:

– Seu Quatro, pelo amor de DeusEu sou casado, sustento família. Tenha pena de meus filhos, seu Quatro

O negro ouvia impassível:

– Não tem jeito não. Vai morrer.

Causava assombro a idéia de que fosse possível realizar-se ali, perto de homens fardados e armados, uma execução. Provavelmente queriam apenas intimidar o desgraçado. A firmeza dos juízes, a curiosidade ansiosa da assistência, as covardes lamúrias do réu desviavam essa conjetura. A gente da superfície via a máquina subterrânea a funcionar e arrepiava-se. Imaginara a existência dela, uma existência vaga, apanhada em jornais e em livros. A realidade não tinha verossimilhança. Estava, porém, a entrar pelos olhos e pelos ouvidos. Mãos a torcer-se no desespero e o rogo choroso: Tenha pena de meus filhos, seu Quatro.

Esboçou-se uma horrível piedade na cara do negro. E veio comutação da pena:

– Está bem. Não vai morrer. Vai sofrer trinta enrabações.

É medonho escrever isso, ofender pudicícias visuais, mas realmente não acho meio de transmitir com decência a terrível passagem do relatório de Chermont. A nova sentença foi aprovada com alvoroço. Desfez-se a assembléia. E a um canto, cercado por exigências numerosas, trinta vezes o paciente serviu de mulher. Não era o único: outros já se estavam dedicando a esse exercício. Um político esbarrou num casal, não conteve exclamações de surpresa.

– É besta? exclamou o passivo entortando o pescoço, erguendo a cabeça, indignadoNunca viu um homem tomar... As incursões naqueles domínios tinham perigo, sujeitavam pessoas incautas a ofensas graves e equívocos vergonhosos. Notando isso, alguns imprudentes recuaram num sobressalto, foram agrupar-se junto à escada, na luz que vinha da escotilha. Mas não se acharam em segurança; rondas agoureiras mostravam claro o intuito de subordiná-los à regra ordinária; com certeza seriam forçados a defender-se em luta física. Não chegaram às vias de fato. Percebendo a situação, Moleque Quatro exibiu prestígio e força, amorteceu os intentos agressivos com diversos rabos-de-arraia:

– Em comuna aqui ninguém toca.

Alongou o braço, indicou uma linha indecisa, a limitar os dois campos:

– Este pedaço é dos comunas, o resto é nosso. Aqui ninguém bole com eles. Agora se algum passar para lá, não garanto nada.

A imaginária fronteira impediu atritos; o esboço de rixa extinguiu-se, e durante a viagem as duas facções detiveram-se ali, a alguns centímetros uma da outra, como se um muro as separasse. As mais altas autoridades lá de cima não teriam meio de fazer-se respeitar assim. Capoeiragem sábia, um gesto e a resolução clara. Não se falava mais nisso. Castigos horríveis e obediência. Provavelmente se achavam longe da costa quando um sujeito daqueles foi morto. Agora, apinhados em alguns metros de soalho, operários e burgueses viam de longe a efervescência de cortiço e não souberam se se tratava de um novo julgamento. Rebuliço, desordem, correria, gritos, e um pedaço de tábua feriu uma cabeça, esmigalhando ossos, descobrindo miolos. Movimento de recuo, e na clareira aberta no rolo a vítima apareceu a estrebuchar nas últimas convulsõesEm minutos ficou em sossego. Uma corda baixou da coberta; amarrado, o cadáver se levantou, subiu, sumiu-se na boca da escotilha. Nenhum inquérito. Indiferença, esquecimento. Na verdade Moleque Quatro não bazofiara ao condenar friamente o delator: se o tivesse liquidado, não lhe viriam pedir contas, pois a eliminação de uma vida pouco influiria no cadastro policial: uma ficha a menos. E as sindicâncias não teriam resultado: o crânio partido e o cérebro exposto serviam de exemplo, atavam as línguas, a indicar as represálias em caso de traição. Ninguém se arriscaria a depor. Insignificância. Iriam remeter o corpo ao necrotério ou jogá-lo na água?

Na comprida noite, alcançaram afinal o destino. Manobras, falas e gestos equívocos; perceberam a custo que haviam chegado, iam sair da gaiola movediça e recolher-se noutra,

fixa. Ordens ríspidas a conjugar-se, anular-se, barulho; não sabiam onde se achavam. Iam e vinham, maquinais. Pegaram as bagagens, subiram, como sonâmbulos, a escada e mergulharam na treva, rodeados de polícias. Demora, formalidades incompreensíveis, depois a marcha vagarosa em caminhos ásperos, a galgar e a descer morros. Criaturas invisíveis, coléricas, desferiam golpes e insultos, e era absurdo que a sombra e o silêncio provocassem tais brutalidades. A ausência de reação, embotamento, pancadas em falso aumentavam a sanha dos agressores.

Nessa altura a narração embrulhou-se, perdi a seqüência dos acontecimentosDois ou três se haviam alargado, crescido muito e inclinava-me a julgá-los produto de imaginação doente. A aparência estranha de Chermont fazia-me supor que ele estava a devanear. Contudo esse desarranjo possível no juízo, a metamorfose realizada tão depressa, a coisa interna e a externa a conjugar-se deviam ser conseqüência da vida anormal descrita. As marcas horríveis não eram fantasia. Tinham-se originado no porão, ganho relevo nos padecimentos físicos e morais consecutivos. As causas deles chegavam-me aos ouvidos, fora do tempo, desconexas. Riachos a gemer no escuro. Os guardas ocupavam as pontes estreitas e forçavam a multidão cansada a meter-se na corrente fria. Enorme galpão coberto de zinco, um milheiro de criaturas famintas a dormir em esteiras podres, monturo de chagas e vícios, a mucurama a roer carnes, os ladrões a apossar-se de objetos miúdos. Essa piolheira esvaziava-se pela manhã. Seguiam turmas para trabalhos diversos, e num cercado próximo os inválidos arriavam, no desânimo e no silêncio, entre panos imundos a secar ao sol. Duas vezes por dia extensa fila transpunha o portão, movia-se devagar num pátio branco, dirigia-se ao refeitório, que tinha um cheiro de carniça. Os braços cruzavam-se na obediência humilhante, as cabeças rapadas curvavam-se diante de um polícia bêbedo. Fome. A horrível comida insuficiente arruinava estômagos e intestinos. Nenhuma relação com o exterior, ausência do mundo, abandono completo. Além das grades, o destacamento policial, a direção percebida na figura nanica de um anspeçada irascível e mau; no alojamento ignóbil, a predominância dos vagabundos e malandros, os sequazes de Moleque Quatro a vigiar. Era terrível e burlesco. Homens aniquilados, na dependência arbitrária de um anão irresponsável, de um criminoso boçal. Essas duas potências harmonizavam-se. Na imensa porcaria, duzentos indivíduos postos fora da sociedade achatavam-se numa prensa, ódio em cima e embaixo.

A voz lenta e grave calou-se. E o Pavilhão caiu num sossego lúgubre. O resto da noite os farrapos sujos de notícias loucas me perseguiram, picaram e moeram, associando-se aos percevejos e às traves duras da cama.



23

A APARÊNCIA de Enzmann Cavalcante me surpreendeu. Os olhos baços, frios, a boca entreaberta, o rosto longo, inerte, como se os músculos se houvessem distendido, bambos e sem força. Caminhava devagar, arrastando as pernas com dificuldade. Tentei puxar conversa, examinar as causas da murchidão; resmungou monossílabos difíceis, contrafeito: era evidente que não se achava de nenhum modo propenso a falar. Respeitei-lhe a depressão e a reserva, julgando inútil qualquer interesse: os dois Campos da Paz, Valério Konder e outros médicos iriam com certeza dar-lhe remédio.

Passeando na Praça Vermelha, entre relações de graus diversos, dos companheiros nordestinos à gente do Pedro I, meio desconhecida, parei diante de um cubículo, vi lá dentro uma pessoa encolhida na cama, a tiritar debaixo da coberta. Avizinhei-me, distingui Gikovate, o doutor judeu recém-chegado:

– O senhor está doente?

A minha curiosidade solícita e indiscreta foi recebida com um gesto de agradecimento pesado, um sorriso dúbio, um lento volver das pálpebras caídas. A mesma frouxidão observada pouco antes, o desânimo esquisito e impossíveis as explicações. Fugia ao polonês a maneira razoável de acolher me e despedir-me logo; embaraçava-me nas conveniências que me diziam ser estúpido ir perturbá-lo e estávamos como dois brutos. Não devia ter-me insinuado ali. Queria reduzir a impertinência, oferecer os meus préstimos e sair, mas o esforço do Gikovate em deter-me, fingir compreensão, aumentava-me o desassossego. Necessário retirar-me, e não me ocorria a despedida trivial.

Fiquei minutos compridos a observar a devastação na fisionomia do homem, a procurar em vão idéia ou fórmula, sentindo vagamente que principiava a contagiar-me. Pensava na máscara de Cavalcante, vi-a pregada no rosto de Gikovate, e a coincidência me agravava a disposição mórbida. O receio de tornar-me assim jogou-me fora da célula.

O pavimento inferior estava quase deserto. Outras figuras pálidas encolhiam-se, esgueiravam-se, deram-me a impressão de moscas envenenadas a debater-se a custo, a esmorecer num sussurro. Faltavam-me a palavra e o desejo de comunicar; provavelmente aquelas pessoas também se desviavam de mim, precisavam isolar-se.

Recolhi-me atenazado pelas recordações que me haviam feito deixar a cama cedo, procurar distrair-me aderindo aos grupos, aperuando o jogo de xadrez. Mas a gente se dissociava, os tabuleiros dormiam. Um logro. Fora desanuviar-me e regressava pior. As caras de palmo e os vultos piongos levaram-me a supor-me também desfigurado. Talvez já me houvesse levantado a exibir os mesmos sinais. Apenas não tinha consciência disto. Agora me revia nos outros, como em verídicos espelhos, e assaltava-me o desânimo, a quebreira. Era possível que o meu desarranjo se refletisse neles e reciprocamente nos desconchavávamos.

Cansaço, gastura, a carne e os nervos a embotar-se. Conseqüência da noite horrível, sem dúvida, a trave a roçar-me as costelas, os dentes dos percevejos, as cenas do porão e da Colônia Correcional. O relatório de Chermont nos demolia. No sono inquieto ou na vigília da noite extensa não calculávamos o estrago, buscaríamos em nós mesmos força bastante para restaurar-nos. O dia, abertas as grades, nos revelava de chofre o desmantelo e nos desarmava. Estávamos fracos e incapazes.

O abafamento. Esta palavra circulou, batizando a morrinha coletiva e pensei no banzo dos negros, no mal-triste do gado. Era um nome apenas, mas com ele nos vinha um começo de explicação. A história desgraçada nos contaminava. Abafamento. Não me haviam falado nisso, a moléstia me pegava de surpresa. Conhecia-lhe os primeiros efeitos, via de longe viventes combalidos tentando livrar-se do singular enjôo. Lembrei-me do porão do Manaus, das trouxas vivas a arfar, a vomitar, na porcaria extrema. Não me abatera: uma semana de jejum me deixara lúcido, a mover-me aos solavancos entre as redes oscilantes, a redigir notas a lápis no camarote do padeiro. Agora não me seria possível andar ou escrever. Reminiscências da estúpida viagem me perseguiam: o cachimbo e a placidez de Macedo, o estrabismo de Lauro Lago, as mangas curtas de Van der Linden, a cicatriz de Epifânio Guilhermino, a careta medonha de Gastão, Leonila e Maria Joana a torrar num beliche improvisado. Evidentemente isso eram correlações a que pretendia segurar-me. Um novo porão anexava-se ao primeiro, sobrepunha-se a ele, enchia-se de minúcias temerosas, horríveis por não terem sido vistas por mim: Se aquelas misérias me passassem diante dos olhos, decerto não me impressionariam tanto; observadas por outro, lançadas no papel, não queriam fixar-se, prestavam-se a exageros e interpolações. O abafamento progredia, rápido; agora o conhecíamos e nos tornávamos por isso mais vulneráveis. A idéia de moscas tontas a desfalecer no inseticida, batendo as asas lânguidas, vinha-me com insistência. Algumas procuravam resistir à sonolência mortal. Em cima, no terraço, os militares excediam-se na ginástica.

– Pelo amor de Deus, seu Quatro. Tenha pena de meus filhos.

Nem todos se impressionariam com a súplica nojenta babada por um infeliz cheio de pavor: o quartel amortece demasias de sensibilidade.

– Vai morrer. Não tem jeito não. Vai morrer.

Walter Pompeu se eximiria facilmente da prostração. Homem sólido, a divagar pelos assuntos com intemperança e leviandade, sem deter-se em nenhum, aceitava o homicídio e ria-se dos nossos escrúpulos, bobagens, teias de aranha. Na verdade a morte do vagabundo não me preocuparia. Com freqüência, eles por aí se acabam, em rolos sangrentos. Os jornais tentam comover-nos espichando brigas, e viramos a folha, impassíveis. As facadas e os tiros não nos abalam. Mas o acessório brutal, as formalidades esquisitas, as frases absurdas e insubstituíveis desarrumavam-me conceitos mais ou menos estabelecidos. Isso e a troca infame da pena. Torturavam-me aqueles fatos imprevistos e inverossímeis. Ou não seriam eles que me torturavam: era talvez o reconhecimento da minha insuficiência mental, da incapacidade manifesta de enxergar um pouco além da rotina. Acomodava-me a ambientes novos e quando neles surgia uma brecha, alarmava-me. Articuladas as peças da narrativa, via-me forçado a achá-la natural. Porque não fizera isso antes, não admitira sem auxílio os casos vergonhosos e medonhos? Evidentemente não podiam ser de outro modo. Afirmava que não podiam ser de outro modo, mas na véspera estivera longe de supor tal coisa. Notava a deficiência e perguntava como diabo me atrevia, a fazer obra de ficção. Nada me interessava fora dos acontecimentos observados Insignificâncias do ramerrão. Umas se reduziam, quase se anulavam, outras avultavam, miudezas ampliadas. Restava saber se era exeqüível uma aparência de realidade isenta da matéria que nos cai debaixo dos sentidos. Essa questão me perseguia, muitas vezes me desviava do trabalho maçador, das conversas ociosas na Praça Vermelha. Conseguiria um sujeito livre, em casa, diante de uma folha de papel, adivinhar como nos comportávamos entre aquelas paredes escuras? Tipos iguais a mim seriam incapazes disso. Não se tratava, porém, da minha incapacidade; outros dispensariam exames e sondagens, criariam mentiras de vulto, superiores ao que me caía na pena, mentiras também, povoadas de minúcias rigorosas, exatas.

– Seu Quatro, pelo amor de Deus, tenha pena de meus filhos.

Meses atrás, se me houvessem repetido esse miserável rogo, exposto as conseqüências dele, afastar-me-ia incrédulo A existência anormal obrigava-me a considerar verdadeiro o relato singular, a princípio com relutância, depois a dizer comigo mesmo que as coisas não se poderiam passar de maneira diferente. O jejum, a sede, a asfixia no porão do Manaus, e uma noite a julgar-me vizinho da loucura, davam-me perfeita idéia do meio estranho. As personagens mencionadas não difeririam muito dos faxinas, do rapaz amável que tinha uma lúgubre tatuagem no antebraço, do rufião da galeria, vaidoso e besta, a descobrir, num sorriso fixo, o dente de ouro. Uma voz martelara-me os ouvidos. Se eu tivesse visto a cara do leitor, divisaria nela a sombra de passagens fugidias, inexistentes na exposição. Uma voz apenas e era o bastante. A violação do garoto, o assassínio involuntário cometido por alguém que desejava permanecer na cadeia aproximavam-me daquele mundo. Os rumores enfraqueciam, em redor numerosos indivíduos se alquebravam parafusando o relatório. Convencia-me disso, mas nada me provava que o abafamento fosse geral. Estaria possivelmente a equivocar-me atribuindo aos vizinhos cogitações, divagações, produtos do meu desassossego. Percebera fadiga em diversos rostos, alguns traços deformados e apressava-me a estender ao grupo mudanças individuais, emprestava-lhes caráter epidêmico. E teria realmente observado aqueles sinais? A vista perdia a segurança, efeito com certeza da luz escassa; difícil ler à noite; quando me soltassem, ver-me-ia obrigado a usar óculos. Os objetos surgiam trêmulos. Sulcos, hiatos. Quem sabia lá se isso não me levara a conclusões falsas? O resto do Pavilhão não se impressionava com o relatório. Ou estaria a impressionar-se de maneira diversa. Um grito me perturbou a inércia. Virando-me a custo, vi no outro lado, à porta de um cubículo, Dinarte Silveira, sacudindo os braços, a esgoelar-se:

– Queremos ir para a Colônia Correcional. Queremos. Um instante fiquei apalermado, mal acreditando na exigência idiota. Um riso satisfeito, a barba ruiva a agitar-se confirmando a energia do verbo repetido:

– Queremos ir para a Colônia Correcional. Queremos. Donde provinha semelhante explosão? Conjeturei que Dinarte se abalava em excesso, queria eliminar do pensamento aqueles horrores entrando neles. Era meio de apagá-los, meio desgraçado. Pelo menos adquiririam proporções razoáveis, não continuariam a desenvolver-se, alterando-nos a vida trivial, empeçonhando as conversas e o jogo de xadrez. Anulei essa possibilidade. Nenhum indício de abatimento em Dinarte. Alegria; confiança, todas as sílabas da pretensão doida articulando-se com firmeza. Tínhamos então ali bazófia em demasia, supus. Estranha fanfarronice. Aquilo me fazia temor e raiva. Deviam obrigá-lo a calar-se, avisá-lo de que não tinha o direito de falar no plural, como se nos representasse: Queremos.

Prosápia estulta. Claro que nos faltavam recursos para desafiar a polícia. Ninguém reclamou: evitavam revelar fraqueza. Nesse dia e noutros Dinarte vociferou o desconchavo, estragando-nos a leitura, o jogo e a comida. Capacitei-me enfim de que ele não receava a Colônia Correcional. Capitão do exército, firmava-se em prerrogativas: não iriam misturá-lo com vagabundos, ladrões e pederastas. Abusava, assim, do privilégio de casta para exceder-se numa provocação inútil. Seria apenas inútil?

– Queremos ir para a Colônia Correcional. Queremos. Evidentemente ele não queria ir. Mas aparentava desejar que os outros fossem. Não podia esquivar-me de atribuir-lhe esse desejo. Calava-se e era um sujeito amável em excesso: delicadeza fria, sacudida, cheia de pausas, ângulos, sorrisos. Lançava de novo o brado irritante. Essa necessidade ostensiva de se tornar desagradável não parecia vir de homem tão cortês. De alguma forma distinguíamos ali uma espécie de compensação. Que interesse tinha o oficial em prejudicar-nos? Em alguns meses quatro levas foram mandadas para a Colônia. É possível que o pedido insistente não haja contribuído para isso; as listas viriam de qualquer jeito, as filas atravessariam em silêncio a grade larga. Mas Dinarte manifestava prazer.

– Queremos.

As levas sucessivas ainda não o contentavam. O grito nos perseguia, cascava-se ao canto de galo do português.



24

DESCI a escada, alinhei-me na fila, à hora do almoço. Os militares do Pedro I haviam modificado um pouco os nossos hábitos. Agora um oficial recebia os caixões da comida à porta, examinava tudo com rigor e fazia a distribuição, os faxinas de parte, reduzidos a simples carregadores ou ocupados em trabalhos auxiliares.. Qualquer reclamação seria efetuada na ordem, já não precisávamos rebentar louça em protestos furiosos.

Encarregava-se do serviço naquele dia um rapaz alto e encorpado, terrivelmente sério, cuidadoso em minúcias; parecia executar uma tarefa na caserna. Movimentos regulares, precisos, a fila a mover-se com exatidão, como uma corda de relógio. Dois passos à frente e um indivíduo se despachava: recebia o talher, a refeição; dava mais dois passos e cedia o lugar ao companheiro subseqüente. Aquilo durava um minuto. E para o moço grave e meticuloso significaríamos talvez, nessa pontualidade, minutos apenas. Sucedeu-me não ter consciência de que me resumia a uma fração de tempo e, sem querer, determinei ligeiro atraso no mecanismo. Quando a minha vez chegou, avancei os dois passos necessários, tomei o prato, a faca, o garfo, a colher, a banana e a laranja.

– Faz o obséquio...

Desviei-me para não incomodar o sujeito que vinha atrás de mim.

– Faz o obséquio de trocar esta sobremesa? Pode arranjar-me duas bananas?

O rapaz assentiu: Está bem.

Devolvi as frutas e aguardei a substituição. Demorei-me ao pé da grade, junto aos caixões, estorvando a passagem. O oficial dedicou-se ao trabalho, quis depois com um gesto despedir-me:

– Que é que há?

– Estou esperando a sobremesa. Já dei.

– Perfeitamente. Deu, mas concordou em trocá-la. Eu restituí, não se lembra?

– Já dei.

– O senhor está equivocado. Ora essa!

Faltaram-me as palavras. E ouvindo a reafirmação de que me haviam atendido, enchi-me de vergonha e cólera, perdi os estribos:

– O senhor julga que lhe venho furtar duas bananas? Que é isso?

Lembro-me de haver feito essa pergunta, mas não me lembro do resto. Devo ter falado muito. Ignoro o que disse, o que me responderam. Sentia-me duramente ofendido e ar reliava-me em despropósitos cegos. Esforçara-me longos anos por vencer esses impulsos; conseguira abafar a voz estridente e coibir o pestanejar excessivo; a obrigação de escrever levara-me a expressar-me com atenção, analisar as frases antes de largá-las. Os efeitos custosos da paciência demorada num instante se perdiam.

Retirei-me, subi os degraus de ferro, entrei no cubículo, joguei o prato ao chão, sentei-me na cama, atordoado, buscando relacionar pedaços do infeliz acontecimento. O essencial era uma injúria sem motivo. O resto não tinha grande valor. Certamente o rapaz, de músculo rijo afeito ao exercício, me replicara com violência, mas isto não me deixara vestígio na memória. O que me indignava era alguém supor-me capaz de uma ridícula safadeza e, em conseqüência, obrigar-me a desatinar, esquecer disfarces penosamente adquiridos. Afligiam-me as irreflexões escapadas, logo desfeitas, a aspereza, o gesto desabrido. Julgava-me livre disso. Que estupidez! Curtia amarguras quando vi chegar Walter Pompeu, cheio de reservas, uma admoestação engatilhada:

– Você foi muito grosseiro com Euclides lá embaixo. Que Euclides?

Soube então que o rapaz se chamava Euclides de Oliveira. Vejam só. Despropositara com uma pessoa e nem lhe sabia o nome.

– Não é verdade. Ele é que foi grosseiro comigo. Entrei a explicar-me, tentando espalhar o ressentimento. Walter não se convenceu. Mastigando um sorriso manhoso, negava-me as razões, deturpando o caso. Tinha prazer em atormentar-me.

– E depois ele é um capitão do exército. Você devia pensar nisso.

Ergui-me entalado, a respiração presa, cólera doida a fechar-me a garganta. Invadia-me de novo a fúria de besta. Walter Pompeu me examinava com ar malandro. Contive-me, tomei fôlego, rosnei mais ou menos este discurso, rouco e em fragmentos:

– Não pensei. Realmente não pensei. Um capitão do exército, sim senhor. Devia ter pensado. Você também é capitão. Na sua presença ficamos de pé, firmes, em posição de sentido, fazendo a continência. Somos cabos. Pronto, seu capitão! É o que vocês desejam. Capitães. Gente horrorosa. Vocês são todos umas pestes.

Foi esse desgraçado momento que Euclides de Oliveira escolheu para entrar:

– Fulano, venho pedir-lhe desculpa. Fui injusto com você há pouco.

Digno e frio, de vista baixa, ofereceu-me duas bananas. Demorou-se um instante em silêncio; vendo-me incapaz de falar, deu meia-volta e sumiu-se na plataforma.

Não me fugia apenas a voz: aniquilava-se o entendimento: era como se me houvessem golpeado a cabeça, desarranjado os miolos. Veio-me depois a horrível impressão de ter sido humilhado por alguém muito forte, que me impedia todos os meios de defesa. Se Walter Pompeu continuasse a provocar-me, não me viria à boca a mais ligeira réplica. Doía-me reconhecer-lhe o direito de aconselhar-me, importunar-me: revelara sensatez, e eu me excedera em despropósitos. O meu juízo a respeito dos militares desmoronava-se, um sujeito de farda aplicara-me lição bem rude.

A princípio não enxerguei a súbita generosidade: impressionaram-me a solidez, o modo correto do homem, a presteza com que avaliara a situação, reconhecera o próprio erro e decidira eliminá-lo confessando-o e desprezando os meus excessivos melindres. O espinhaço erguido, surgira mecânico e rijo, marcial; parecia executar uma ordem, obedecer à voz do comando; isto suprimia da confissão qualquer vestígio de rebaixamento. A fala breve, sacudida, ríspida; os olhos permaneciam baixos. Viera liquidar uma dívida. Ajustara as contas, pagara, saíra sem levar o troco, deixando-me estarrecido e imóvel, na situação miserável de quem se resigna, a embolsar uma gorjeta. Havia crueldade na excepcional retratação; o procedimento sincero, improviso, contundia-me.

– Desculpe. Fui injusto com você.

Rápido e seco, libertara-se de um dever, como se aquilo se determinasse no regulamento. Não me ocorrera ver um homem reconhecer-se em culpa de semelhante maneira. No caso dele, eu me embrulharia em divagações, inutilmente buscaria a forma razoável de vencer a dificuldade. Não, não me sucederia tal coisa. Nem sequer chegava a imaginar-me nesse apuro, alheando-me em avanços e recuos infelizes: recearia mostrar-me covarde, esforçar-me-ia por justificar-me só, engenhando motivos, dando-lhes consistência. Se esses pretextos falhassem, o mais certo era afastar-me do contendor, empregar todos os meios para esquecê-lo. Não seria a ausência de bons propósitos, mas a impossibilidade física de realizá-los. A fraqueza me inibir expor uma falta, livrar-me dela como Euclides, leal e aprumado, a voz áspera, uma ruga na testa. Findo o assunto, voltara-se, dera alguns passos, volvera à esquerda e sumira-se na plataforma.

Restava-me o consolo chinfrim de asseverar a mim mesmo que não me podia comportar como soldado. Habituara-me às perfídias e às maranhas, e era preciso a gente afastá-las com mão de gato, não mostrar as garras sem a certeza de usá-las bem. Gestos oblíquos, sorrisos falsos, dentadas de morcego educação de criaturas débeis. Nunca ninguém se acusara na minha presença. Necessário ambientar-me, não cair em novas indiscrições.

Sentei-me, olhando o prato cheio entregue às moscas, no chão. Vendo-me arrasado, Walter Pompeu quis prender-me o interesse noutra coisa. Mas não me achava em condições de entendê-lo.



25

A SEGUNDA leva que partiu para a Colônia Correcional não nos impressionou tanto como a primeira. Em seguida foram outras, mas agora não havia surpresa: sabíamos pouco mais ou menos o que nos podia acontecer, e quando a porta da frente se escancarava e o funcionário desdobrava a lista, começava a chamada, ficávamos de orelha em pé, cheios de apreensões. Aquilo realmente não alcançaria todos: a lembrança de posições anteriores, antigos privilégios de classe ainda não se haviam extinguido: alguns sujeitos conservariam restos de influência. Ignorávamos, porém, até que ponto essas vantagens permaneciam e quais os indivíduos alcançados por ela. Tínhamos de contentar-nos com suposições, não raro desmentidas pelos fatos. Certas figuras de algum prestígio eram levadas, enquanto miudezas sociais escorregavam no meio superior, mantinham-se dias e meses boiando na superfície, como se fossem leves demais. De repente afundavam. Outras subiam. Quanto a mim, refugava ilusões: a qualquer momento viriam buscar-me, jogar-me entre vagabundos e malandros. Não havia motivo para isso, mas era bom evitarmos apurar motivos. Por acaso me achava ali, por acaso me afastariam, firmava-me neste pensamento. Já me haviam feito andar em três Estados e conhecer cinco prisões. Novas mudanças arbitrárias, inexplicáveis, chegariam. Via-me submetido a cegos caprichos de inimigos ferozes, irresponsáveis, causadores de males inúteis. Essas trapalhadas obedeciam certamente a um plano; em vão me esforçava por entendê-las e propendia a julgá-las estúpidas. Sem dúvida tencionavam provar-nos que eram fortes, podiam fazer conosco um jogo de gato com rato. Ao mesmo tempo, em notas oficiais e em discursos badalados no Congresso, tentavam abafar tênues rumores, notícias vagas de maus tratos. A liberdade de imprensa funcionava contra nós, achava o governo excessivamente generoso, e essas mentiras me davam a certeza de que a reação ainda precisava enganar o público e não dispunha de muita força, como nos queria fazer supor. O interesse dela, pensei, estava em conservar-nos longe dos porões e da Colônia Correcional. Pretendia decerto causar-nos medo, oferecer-nos duro escarmento. Se não agüentássemos a prova, se rebentássemos, para que lhe serviria isso? E, se resistíssemos, iríamos divulgar lá em cima fatos ocultos aos contribuintes do imposto, da missa, do carnaval e do cinema.

As idas e vindas entravam pouco a pouco na rotina. Quando a lista aparecia, chegava-me à grade, atento à leitura, esperando que me chamassem. Isso não se dava e despedia-me dos homens postos em fila, a bagagem no chão, de banda, recolhia-me, isento das incertezas da primeira noite. Não me aventurava a oferecer-lhes prognósticos de liberdade: ninguém me acreditaria. Bem. Dentro de algumas semanas bateria a minha hora, firmava-me nesta convicção e eximia-me ao abafamento. Não me agarrariam de surpresa. Até lá, seria bom atordoar-me, varrer da lembrança os pormenores ignóbeis do relatório. Aquilo estava previsto. Para que chocar probabilidades agoureiras?

Outros se achavam também nas minhas disposições, e em conseqüência organizamos um jogo de poker no cubículo 35, a ficha a quatrocentos réis. Ignoro donde veio o baralho.

Chegou numa sexta-feira, oculto numa bolsa de senhora, ou foi contrabandeado pelo faxina. Eram cartas novas. E com elas vários sujeitos, Sebastião Hora, Macedo, José Brasil, Ventura, eu, arriscamos as nossas fortunas cautelosamente, no full-hand e no four. Na opinião dos jogadores os gentlemen são homens que sabem perder como se sentissem prazer nisto, indiferentes ao dinheiro, entregando-o com um sorriso aos adversários felizes. Sendo assim, o mais perfeito gentleman que vi foi Álvaro Ventura, homem lento e gordo, estivador em Santa Catarina, o primeiro comunista eleito para a Câmara federal. Tinham-lhe suprimido o mandato, e vivia conosco, aguardando lugar na Colônia Correcional. Aproximávamos duas camas, entre elas colocávamos a mala de Sebastião Hora, e essa ponte nos servia de mesa. Sentávamo-nos aos cantos, buscávamos anestesiar-nos violando o regulamento da prisão. O diretor estava longe, os guardas fingiam ignorar que os miseráveis quadrinhos de papel, disputados com avidez, representassem valor. Para nós eram preciosos. Em dias infelizes perdíamos dez, vinte mil-réis. Ociosos ou entregues a ocupações infrutíferas, víamos de repente naquilo perda sensível. Éramos parasitas do Estado, e para os gastos miúdos com cigarros, fósforo, lavagem de roupa, outras insignificâncias, dependíamos do exterior. Alguns tinham recursos lá fora, outros se endividavam; na hora de visita havia longas prestações de contas, chegava moeda, que necessariamente seria repartida.

Um dos meios de distribuição era o Coletivo: sangrava-nos em quotas regulares para evitar desigualdades excessivas lá dentro. Mas certas pessoas envergonhavam-se de recorrer a ele, não queriam revelar penúria e aventuravam no jogo as últimas cédulas. Não me achava nesse extremo. As minguadas tiragens de dois livros pouco mais ou menos desconhecidos tinham rendido o suficiente às fracas exigências de minha mulher, e no porta-moedas ainda havia uns restos da pequena soma trazida do nordeste. Além disso a publicação de um novo romance incutia-me vagas esperanças, de algum modo me afastava o pessimismo teimoso. Possibilidades tênues despontavam, cresciam, reduziam-se, embaralhavam-se. Vinha-me o receio de cultivá-las: podiam enganar-me. Via-me em segurança provisória, calçando tamancos, fumando cigarros ordinários, contribuindo regularmente para o Coletivo. Se isso me faltasse, chegar-me-ia o desespero.

Foi o que se deu com Sebastião Hora. Tinha-se alargado no porão do Manaus, espalhara gorjetas, recebera alimentação de primeira classe, na certeza de sair logo. A ilusão se dissipava, morriam as prodigalidades, e o meu imprevidente amigo, cortadas as relações com o mundo, envolvia-se em duras sombras. Esforçava-se por extingui-Ias, na conversa afetava delicadeza excessiva, alegria descuidosa. Mas isso era postiço e findava no jogo. Qualquer prejuízo o irritava, e não conseguia disfarçar a avidez. Alarmava-me ver aquele moço generoso abandonar a pele civilizada, entregar-se a excessos de azedume e cobiça. Era preciso conhecer-lhe o desarranjo econômico, a ausência de negócios, emprego, ofício, um corte na vida por tempo indeterminado, para compreender-lhe o desassossego, a febre, a ânsia de possuir ninharias. As dificuldades dele superavam as nossas, por enquanto não via saída. Punha-me a recusar a precariedade manifesta da educação. Apêndices adquiridos em largos anos num instante se soltavam, e o rapaz amável tornava-se rude e seco.

Espantava-me de perceber em Ventura, um estivador, as maneiras corretas e a afabilidade que me habituara a distinguir no médico. Esquisito. A prisão nos sujeitava a duros abalos e surpresas constantes. Observadas nos outros, certas mudanças me assustavam; depois descobria em mim mesmo sinais de anormalidade e tornava-me apreensivo. O enxurro de palavras insensatas numa rixa imprevista, à hora do almoço, vinha-me ao pensamento. Walter Pompeu me dissera o que não me atrevia a dizer a Sebastião Hora.

O ambiente novo nos transformava, éramos grosseiros. Queda enorme, o instinto nos dominava. Comparando-nos ao militar e ao estivador, certamente nos despojaríamos de qualquer vaidade. As marchas regulares e o transporte de fardos lhes haviam fortalecido os nervos. Afaziam-se à comida ruim, às camas ásperas, tinham poucas exigências e a ginástica diária os forçava a manter ali o equilíbrio anterior. Assim refletindo, esforçava-me por averiguar se também não me excedia em rompantes e queixas absurdas no jogo. Involuntariamente. As vezes cometemos uma falta, e é necessário que nos venham apontá-la com a franqueza tarimbeira de Walter Pompeu. É raro acharmos essas indiscrições salutares: em geral nos recebem os defeitos com muda censura, reserva fria, olhares de esguelha, sorrisos franzidos, e não temos consciência da reprovação. Se notamos isso nos outros, perdemos a naturalidade, entramos a fiscalizar os nossos atos, receando igual procedimento.

O certo é que o poker não nos deu nenhuma tranqüilidade. Além desses inconvenientes, a ameaça não queria desfazer-se. Cochilava, adormecia um instante, e Dinarte vinha despertá-la, piando a exigência lúgubre: – “Queremos ir para a Colônia. O pior de tudo era a repetição do extravagante desafio, lançado com pimponice alvar: – “Queremos. A arrelia continuava, impossível fixar a atenção murcha no passatempo; voltávamos a pensar na viagem provável, éramos obrigados a pensar nela: aos poucos deixava de ser probabilidade, ia-se transformando em certeza. Um apelo constante nos alvoroçava, estávamos sempre a esperá-lo. A noitinha, depois do jantar, uma voz se erguia na plataforma: Companheiros...

E vinha a notícia: num cárcere próximo definhavam alguns homens sujos e famintos, de volta da Colônia. Surgiam caixões no pavimento inferior, num instante se organizava um serviço de assistência. Pressuroso movimento nos cubículos, gente a entrar e a sair, depois a jogar coisas dos lados, de cima, de todos os cantos, a dois ou três sujeitos zelosos na arrecadação. Esse apedrejamento, esse curioso bombardeio de ofertas, logo pejava os caixões. Eram frutas, conservas, latas de goiabada, biscoitos, guloseimas várias em pacotes, abundância recebida na secretaria em dias de visita. As reservas de alimento esgotavam-se, estômagos delicados e paladares exigentes iam cair em rigorosa frugalidade, contentar-se com a bóia da prisão. Até sexta-feira. Chegariam então novas remessas, nos guarda-ventos e nas camas apareceriam caixas de figo, vidros de compota, maçãs, peras, abacates. No consumo disso haveria parcimônia, e quando outra exigência viesse, choveriam provisões.

A minha contribuição era insignificante. Aquela rixa idiota suprimira-me o desejo de alterar a sobremesa. Agora recebia o que me davam, e depois de cada refeição punha de parte uma laranja. No fundo escuro do quarto, junto à pia, formava-se aos poucos um monte delas. Quando o aviso chegava, e o auxílio era preciso, rolavam para o rés-do-chão, verdes, amarelas, fanadas. A noção do tempo ia-se apagando. Se não me caísse nas mãos um número de jornal entrado clandestinamente, desorientar-me-ia, perdido no calendário. Em que mês nos achávamos? Esquecia-me às vezes. Mas contando as laranjas era-me possível saber quantos dias mediavam entre duas turmas que vinham da Colônia Correcional.



26

PEGUEI os maços de cigarros ordinários, entreguei uns níqueis ao faxina, quando ouvi rumor de tamancos, anunciando o almoço. Corria a agregar-me ao rebanho que descia a escada, avizinhei-me da fila, mas antes de entrar nela percebi a falta do porta-moedas no bolso do pijama, embaixo do lenço. Diabo. Devia tê-lo deixado em cima da cama, ao pegar os cigarros. Recuei cheio de susto. Se um dos homens encarregados da limpeza me visitasse o cubículo nos minutos de ausência? Para não perder o lugar, pedi a Sebastião Hora que recebesse o meu prato. O pobre amigo estava mal disposto, a cara fechada. Sem olhar-me, resmungou:

– Não recebo prato de ninguém não.

Afastei-me engasgado, atordoado, subi os degraus de ferro, mergulhei no quarto. Bem. Sobre as cobertas achei o porta-moedas. Abri-o, examinei o compartimento das cédulas, retirei-as, desdobrei-as, contei-as. Bem. Tudo certo, era pouco mais ou menos o que eu imaginava possuir. Recolhi o dinheiro, guardei-o no bolso, por baixo do lenço. Uma parte das inquietações se desvanecia; a outra aumentava.

Regressei ao pavimento inferior, meti-me na fila ruidosa. Mas não me achava propenso a falar: se me disseram qualquer coisa, provavelmente não respondi. Sem querer, tinha ofendido um companheiro. Desastrado. Para não me atrasar um pouco fora susceptibilizá-lo, dar-lhe incumbência por desgraça mal interpretada. Se lhe houvesse exposto o caso, a urgência de voltar ao quarto, ele me compreenderia, varreria do pensamento o intuito mesquinho que me atribuíra: supunha-me capaz de pretender rebaixá-lo. Infelizmente não me detivera nas explicações necessárias: o tempo era curto, a lembrança do faxina a descobrir a pequena bolsa, arrecadá-la, deixar-me fraco e desarmado, estorvara civilidades. Na pressa, não me ocorrera formular o pedido em regra, e o ligeiro favor tomara feição de exigência brutal. Quis avizinhar-me de Hora, desculpai-me, afirmar-lhe que não tinha pretendido incomodá-lo. Acanhei-me, porém, de mexer novamente naquilo, e temi não atinar com as palavras convenientes, dar por paus e por pedras e acabar fortalecendo aquela disposição malévola. Era melhor calar-me, tentar esquecer o desgraçado equívoco. Mas não podia esquecer. Esforçava-me por anular a incompreensão e zangava-me.

Uma pergunta me vinha com insistência: qual seria o meu comportamento se alguém ali me solicitasse um minúsculo obséquio? Eriçar-me-ia, coberto de melindres? Não, decerto, nem indagaria motivos. Excluía-se a hipótese de qualquer indivíduo tencionar reduzir-me confiando-me um serviço. Meus Deus! Como era possível cultivarmos tais vaidades? Seria ridículo. Miseráveis bagatelas sociais a flutuar no enxurro, aproximando-nos, separando-nos, buscávamos amparar-nos uns aos outros. Difícil viver sem isso. De repente uma decepção, barreira a erguer-se na familiaridade obrigatória. Dirigia-me crédulo a uma pessoa, julgava encontrar solidariedade e batia num muro de gelo. Convenções exteriores, preconceitos, nos separavam. Na verdade nunca me havia ocupado em atentar nessas tolices; ali não existiam, era insensato imaginar que existissem. Inútil inchar, engrossar o papo, tentar crescer alguns centímetros estirando-nos, pisando nas pontas dos pés. Uns pobres-diabos, nada mais. O terreno se aplainava, nenhuma saliência onde nos trepássemos e nos desse a impressão de nos tornarmos salientes. Pobres-diabos. Não tínhamos viajado no porão do Manaus, dormido uma noite na galeria molhada? Estávamos ali de passagem. Mandar-nos-iam sem formalidades para a Colônia Correcional, apodreceríamos na esteira, cabeças rapadas, sujos, doentes, famintos. Nessa perspectiva, era demência pensar

em vantagens ocasionais, evaporadas. Certo não nos iríamos acanalhar; em qualquer meio faríamos o possível para conservar a dignidade. Magoava-me notar que me supunham capaz de atentar contra a dignidade alheia. Acusei-me, tinha andado mal, devia ter feito o pedido a Sérgio: ele não se arrepiaria comigo. Em seguida reagi. Para o diabo. Nunca me viera o intuito de reduzir ninguém. Se um homem via em mim desígnios tão bestas, era ele que se reduzia. E transferi a acusação. Prosápia, fumaça.

O dinheiro escasso, dobrado, desdobrado, contado, recontado, para bem dizer não me pertencia: esbagaçava-se no Coletivo, nos empréstimos, no jogo. Resignava-me a fumar cigarros ordinários, mas os dez mil-réis necessários à caixa comum pingavam todas as semanas. Essa contribuição me desorganizava as finanças. Hora não desconhecia os meus deveres pesados. Entrei a censurá-lo, como se ele soubesse o desaparecimento do porta-moedas. Seria bom narrar-lhe o caso, expor tudo com franqueza, dissipar nuvens. Desgraçadamente isso era impossível. Ardiam-me as orelhas, envergonhava-me de mexer no assunto desagradável. Não conseguiria justificar-me: embrulharia razões atrapalhadas com jeito de evasivas. Cheguei-me à grade, peguei a comida, subi. E findava o almoço quando Sebastião Hora entrou no cubículo e ofereceu-me um prato. Depois de um longo silêncio confuso, murmurei à toa:

– Obrigado. Já almocei.

Não me inteirava da situação, a reviravolta me deixava perplexo, sem atinar com as palavras. Notei apenas que o rapaz vinha de ânimo acerbo, propenso a discutir por eu lhe haver dado um encargo inútil. Meu Deus! Coisas chatas, mesquinhas. Aludi à recusa, livre de ressentimento: não era ela que me desgostava, mas a minha impertinência. Hora impugnou a recusa. Não tinha havido recusa. Assombrei-me, olhei-o esbugalhadamente. Não tinha havido? Lembrava-me das palavras: – “Não recebo prato de ninguém não. O desconchavo inteiro vinha dali; arrependera-me da inconveniência: molestara-o sem querer. Súbito a declaração estapafúrdia: não me dera aquela resposta. Examinei-me por dentro. Parecia-me ter distinguido bem todas as sílabas. E reproduzi-as. Vascolejei a memória, firmei-me na convicção. Apesar de rosnada, a negativa permanecia com muita clareza. E o moço queria suprimi-Ia, anular o testemunho dos meus ouvidos.

O constrangimento me impedia a fala. Com esforço, tentei recompor-me, fingir serenidade, conter os dedos trêmulos. Não valia a pena altercar. Havia-me enganado, era possível que me houvesse enganado. Lamentava a ocorrência, pretendia encerrá-la confessando um erro inexistente. Hora não contemporizava; de humor insuportável, revolvia a triste insignificância, e conjeturei de chofre que ele tinha vindo com o fim exclusivo de afligir-me e provocar-me. Julguei-o inconseqüente e malicioso. Vira-me lá embaixo receber o almoço e resolvera desdizer-se, questionar sem necessidade. Imaginei isso e calei-me. Receava manifestar esse juízo temerário. Não estaria sendo injusto? A resolução pacífica baldou-se. O solilóquio irritava-me, pouco a pouco me deixei arrastar, lancei apartes secos, desorientei-me, e resvalamos num bate-boca estúpido. Fomos duros, arrebatamo-nos lançando ao acaso objurgatórias amargas.

Retirei-me desesperado. Não conservava na memória nenhuma daquelas frases ásperas. Que idiotice! Indignava-me contra Sebastião Hora, increpava-lhe a má fé, e repreendia-me furioso. Imbecil. O culpado era eu. Se não lhe tivesse bulido os melindres, nenhuma contenda nos desuniria. Agora não podíamos recuar, suprimir os doestos, embora eles nada significassem. O tempo se encarregaria de amortecê-los. Por desgraça, logo no dia seguinte, um caso miúdo, uma ninharia, cortou as possibilidades de reconciliação. Finda a lavagem do rosto na pia, enxugava-me. Desazado, bati no guarda-vento; um objeto caiu de lá, espatifou-se no chão. Baixei-me, vi junto aos meus tamancos o pincel de barba de Sebastião Hora; o cabo de louça branca estava partido em vários pedaços. Com um estremecimento, agarrei aqueles destroços, fiquei a virá-los, revirá-los, achando-me pouco mais ou menos vítima de um destino safado, inteligência maligna que se aprazia atormentando-me. Projetos em chusma fervilhavam-me na cabeça, misturados e incompletos. Ainda não alcançava a importância do caso, e sentia-me impelido a uma decisão. Afligia-me a idéia de não se haver quebrado apenas um minúsculo utensílio, mas qualquer coisa imponderável, de muito valor. Evidentemente era impossível consertá-la, reduzida a cacos, esfarelada. Pensei na substituição. Embalei-me durante algum tempo na esperança de obter um pincel como aquele, do mesmo tamanho, o cabo de louça branca. Daria a encomenda a um guarda, pedir-lhe-ia exatidão rigorosa na forma, na cor.

Cheguei-me ao passadiço; nenhum sinal de farda pela vizinhança. Desci à Praça Vermelha, investiguei as celas, fiquei meia hora junto à grade, olhando o vestíbulo. Porque não aparecia um dos malditos carcereiros? Devagar o desânimo surgiu. Quando não eram precisos, os miseráveis andavam por ali; de repente se sumiam, canalha imprestável. A indiferença à minha terrível necessidade causava-me tremuras. Acossava-me a urgência de pôr um traste igual ao outro em cima do guarda-vento, colocá-lo depressa, antes que o meu companheiro notasse a falta. O guarda não vinha. E se viesse, recusar-se-ia talvez a satisfazer-me a exigência, espantar-se-ia dos excessivos pormenores, faria a compra desatento. Assombrava-me ver uma desgraçada miudeza assumir tais proporções, inquietar-me assim, varrer-me do espírito os cuidados normais. Tinha dez centímetros, menos de dez centímetros: pus-me a afirmar e repetir isto. Como era possível semelhante exigüidade transtornar uma pessoa? O guarda não aparecia. O caminho certo era avizinhar-me de Sebastião Hora, levá-lo para junto da pia e dizer-lhe tudo: reproduzir os movimentos, a esfregação da toalha, a pancada no móvel, a conseqüência, o prejuízo. Era o que eu devia fazer. E não achava força para isso. Atrapalhar-me-ia, embaralharia a exposição e enxergando uns olhos suspeitosos, um sorriso franzino e irônico, baixaria a cabeça, em silêncio, mostrando culpa. Este horrível encolhimento vedava a franqueza.

Afastei-me da grade, caminhei sem rumo, apertando nas mãos úmidas o feixe de pêlos, atado por um cordel, e os fragmentos de louça. Porque não me decidia a jogar fora aquilo, desembaraçar-me do vexame desarrazoado? Os faxinas entregavam-se à baldeação. Tinham removido a cobertura do esgoto, varriam, lavavam, atiravam jatos escuros para dentro do canal estreito. Demorei-me a vê-los trabalhar, em pé, junto às pranchas amontoadas à borda. Porcarias rolavam no enxurro. O meu intuito era jogar nele as outras porcarias que estavam a sujar-me os dedos. E não me aventurava a isso. Talvez os faxinas me observassem a furto, me adivinhassem o propósito nos modos esquivos. Outras pessoas estariam a examinar-me, a contar-me os passos, medir-me os gestos. Achavam-me com certeza esquisito, ali parado, o braço pendente sobre o riacho negro. Se me resolvesse a abrir a mão, livrar-me-ia daquele peso.

Retirei-me, subi a escada, meio disposto a encarar Sebastião Hora, explicar-lhe o incidente. Minguava-me a coragem. Na véspera isso não teria sido muito difícil, mas agora, depois da nossa contenda absurda, como narrar-lhe o fato, convencê-lo de que se tratava de um acaso estúpido? Conservava-se arredio, espinhoso e agreste. Não me daria crédito; em vão se esforçaria por ocultar os espinhos e a dureza; a máscara cortês mal disfarçaria a contrariedade. Para o diabo. Entrei no cubículo. Era idiota mortificar-me naquela horrível indecisão. Estava claro que não havia recurso, nenhum recurso. Livrei-me do calçado, equilibrei-me em cima da pia, atingi a grade que dava para o exterior, arremessei por ali os restos do pincel. Quando Sebastião Hora notasse a ausência dele, iria acusar-me intimamente. Desci, fui sentar-me na cama. Num instante essa conjetura desagradável se mudou em certeza. Ia responsabilizar-me, imputar-me ação canalha, vingança mesquinha. Paciência. Antes isso que a dolorosa justificação, as palavras mastigadas, o esforço para varrer-lhe da alma tendências hostis. Não compreenderia a minha longa aflição. E de nenhum modo me aventuraria a mencioná-la. Estávamos separados. Os desejos de conciliação esfriavam.

Nesse mesmo dia Adolfo Barbosa veio dizer-me que existia uma vaga no cubículo 50, junto à prisão das mulheres. Convidou-me. Aceitei o convite, levei para a nova morada a cama, os percevejos e os trastes. Despedi-me de Sérgio. Mas não me foi possível despedir-me de Sebastião Hora.



27

O CUBÍCULO 50 de algum modo se afastava da prisão. Como era o último do renque, não tínhamos ali o trânsito forçado na plataforma, conversas à porta, a invasão dos intrusos. Essas inconveniências repetidas ocasionavam desacordos e atritos; para evitá-las, Valério Konder amarrara um lençol nos ferros da grade e pendurara nela um cartaz expondo o seu direito mínimo: precisava dormir e exigia que não fossem acordá-lo. Agora me distanciava um pouco das familiaridades indiscretas: já não seria obrigado a conter a língua para não me perceberem nas palavras o avesso das intenções.

O barulho dos tamancos nos chegava surdo. Não era só a posição do quarto que originava relativo sossego. Também as idéias políticas de Adolfo Barbosa influíam nisso: discrepantes, punham de quarentena o moço pálido, feio e prognato; raro um sujeito vacinado, livre do contágio, se decidia a entrar naquela espécie de lazareto, na verdade próspero, cheio de superfluidades, até cadeiras e uma escandalosa mesinha redonda. Provavelmente esse luxo vinha de gorjetas liberalizadas para amortecer a vigilância. Os objetos miúdos e caros eram trazidos pelo avô de Adolfo, um velho senador pernambucano, respeitável em demasia. Na segregação e no conforto, o meu novo companheiro esfalfava-se em leituras, rabiscava notas; em seguida precisava discutir a matéria: desviava a cama e, protegido pelo guarda-vento, agachava-se nos travesseiros, alcançava o buraco da parede e caía num largo debate com Valentina. Achando obstáculos às suas idéias irritava-se e surgia uma estranha desavença conjugal motivada pela economia política. No outro lado a mulher se afligia docemente, sem querer convencer-se, e as razões chocavam-se através do muro, prolongavam-se. Finda a controvérsia, o homem se desanuviava, ia aos poucos readquirindo a excessiva delicadeza fria, policiando os gestos, as palavras, os sorrisos. Inclinei-me a supor, baseado em rápida observação, que a vida comum não tinha para ele grande interesse; mergulhando nas teorias, nas hipóteses, aquecia-se, mostrava uma vivacidade curiosa em pessoa de aparência tão débil e enfermiça; a mais ligeira impugnação, nesse terreno, originava-lhe zanga de avarento espoliado. Estivemos juntos um mês, e só o vi expandir-se com Valentina, mergulhar nas profundezas onde se guardavam coisas de valor; para usar outra linguagem: apenas ela teve o direito de amolar-se. Dois bichos de pensamento não se deviam casar, refleti mais de uma vez notando pedaços da conversa longa.

O terceiro habitante da cela era Américo Dias Leite, primo de Valentina, um moço esgrouviado, gênio excelente, cuidadoso em arrumar ações, idéias e os numerosos trastes que se espalhavam pelos cantos.

– Precisamos ordem nessa tralha, dizia sempre.

Nas matanças de percevejos não descansava. A noite jogávamos poker, surdos à Voz da Liberdade. Agora os sambas, o Hino do Brasileiro Pobre, as notícias resumidas por Malta abafavam-se a distância; só havia clareza nas canções das vizinhas da sala 4. A linguagem gutural de Elisa Berger e Olga Prestes adoçava-se nas estrofes da Bandeira Vermelha. As cartas chiavam de leve na mesinha redonda, as fichas de papelão circulavam; quase sem palavras, o jogo prosseguia, lento e mecânico. Junto a dois homens aparentemente insensíveis ao prejuízo e ao ganho, esforçava-me por fazê-los julgar que isto não tinha para mim nenhuma importância, mas com certeza não cheguei a simular aquela sagaz indiferença.

Na verdade estava bastante apreensivo. Não era apenas o súbito valor adquirido pelos tentos miúdos; perseguia-me a lembrança dos estorvos ordinários a acumular-se, a estender se, estragando-me a vida. Em certos momentos essas dificuldades me produziam verdadeira angústia. Anos atrás, numa cama de hospital, com a barriga aberta, achara-me próximo ao desespero, sem saber como pagar a operação e o tratamento longo; necessário endividar-me, e esta idéia fixa agravava as dores atrozes da ferida. Minúcias dessa época voltavam-me com insistência, talvez por me ver em dificuldade semelhante: desemprego, inércia obrigatória, longínquos deveres a perturbar-me o sono. As visitas do médico uniam-se a visões de pesadelos; gemidos e choros próximos avivavam-me a recordação de uma horrível figura sem olhos, coberta de esparadrapos, vista à porta da enfermaria dos indigentes; o tique-taque de um relógio crescia, abafando o rumor de ferros na autoclave. Se não fosse a preguiça, resolver-me-ia a jogar no papel essa impertinência, livrar-me dela; mas havia a redação das notas guardadas na valise, perras e a desviar-me de outros assuntos. Desde a prisão que o hospital me apoquentava, mas só agora me vinha consciência disto. Naquele tempo duas obsessões persistiam no delírio teimoso: as pancadas do relógio tomavam forma, ganhavam nitidez e mudavam-se em bichos; supunha-me dois, um são e outro doente, e desejava que o cirurgião me dividisse, aproveitasse o lado esquerdo, bom, e enviasse o direito, corrompido, para o necrotério. Essa parte direita, infeccionada, era um hóspede sem-vergonha e chamava-se Paulo. Se Clemente Silveira quisesse, poderia facilmente operar-me de novo e desembaraçar-me do intruso. Bem. Se essa maluqueira insistisse em aperrear-me, decidir-me-ia a narrá-la de qualquer jeito: daria dois contos, ruins com certeza, como os deixados na gaveta e remetidos a Buenos Aires, sem correções.

O poker não me servia de refúgio: associavam-se nele os obstáculos presentes e os passados. As felicitações de Adolfo ao parceiro feliz, calorosos em excesso, animavam-lhe a face pálida, e quase me inclinei a supor que ele realmente se despojava com alegria. Esses requintes de educação aliavam-se rigorosos na fala, no gesto, forçando-me a rasurar os limites entre falsidades e sentimentos nobres. Enfim nada me provava que o moço fosse hipócrita. A ligeira perda nenhuma significação tinha para ele.

A delicadeza obsequiosa e o desinteresse ostensivo do homem rico marcavam-me a inferioridade social. Sentia-me deslocado na sela estreita, os modos corteses feriam-me, atenciosas manifestações de condescendência. Aliás não me sentiria à vontade em nenhum lugar, foi o pensamento que me ocorreu naqueles dias. Usava roupa e linguagem de burguês, à primeira vista não nos distinguíamos; o mais simples exame, porém, revelaria entre nós diferença enorme. Também me distanciava dos operários; se tentasse negar isto, cairia na parlapatice demagógica. Achava-me fora das classes, num grupo vacilante e sem caráter, sempre a subir e a descer degraus, a topar obstáculos. Impossível fixar-me no declive longo da vida estreita. Repelido em cima e embaixo: aqui os modos afáveis e protetores de Adolfo; ali a brutalidade rija do estivador Desidério. Isso me excitava a desconfiança, levava-me a examinar as pessoas com frieza, e qualquer mostra de solidariedade me surpreendia. Causava-me espanto ver aquela gente despojar-se por gosto, guardar comida para os famintos em retorno da Colônia Correcional. Certamente, pensei, as numerosas dádivas eram conseqüência da organização do Coletivo; nenhuma simpatia as ocasionara; os conjuntos humanos continuavam fechados e impenetráveis.

Mais tarde, em condições diversas, notei o engano, e arrependi-me de haver julgado mal as criaturas. Descendo muito, fraco e inútil, recebi favores que não poderia retribuir. Necessitamos conhecer a miséria para descobrir ações desinteressadas. Provavelmente elas existem na vida comum. Faltanos, porém, meio de percebê-las.



28

POUCO a pouco a isolar-me no fim da plataforma, via de longe as constantes mudanças, figuras a surgir e a desaparecer, como se estivéssemos num hotel. Alguns hóspedes iam ficando: impossível sabermos porque Rodolfo Ghioldi, Sérgio, Adolfo, Benjamin Snaider, Valdemar Birinyi se estabilizavam naquela sociedade incongruente e movediça. O Pavilhão se enchia, desafogava-se, tornava a encher-se.

Ultimamente as celas regurgitavam. Demorando-me à porta do cubículo 35 para falar com Sérgio, percebi ao fundo três rapazes de cócoras junto a colchões estendidos no pavimento. Eram da marinha e dois vestiam farda. O terceiro, quase criança, tinha o busto nu, escoriado e contuso; manchas alargavam-se, lanhos cruzavam-se no peito, no dorso, nas costelas, sinais vermelhos, com certeza novos, outros violáceos, azuis, negros, a revelar que o garoto havia sido maltratados várias vezes. Discutiam em voz baixa, rabiscando a lápis anotações em pedaços de papel. Devia tratar-se de alguma questão obscura, mastigada, pois se manifestavam devagar, cuidadosos na escrita, embebidos no assunto, parecendo não enxergar as pessoas que transitavam no passadiço. Um grito lá embaixo nomeou alguém e o moço das feridas estremeceu, muito pálido. Suspendeu-se o debate, houve um momento de ansiosa expectativa, e a voz do guarda se repetiu no andar inferior:

– Fulano de Tal. Polícia.

Entre o chamado e a última palavra uma pausa se alargara, talvez com o intuito perverso de dar ao infeliz uma esperança tênue. Pata macia de gato acariciando um rato. Em horas assim este se encolhe cheio de pavor, agarra-se a ilusões fugitivas, busca imaginar ocorrências vulgares: ida à secretaria, visita inesperada, uma carta improvável. Engana-se voluntariamente, esforça-se por afastar a lembrança das torturas, ali visíveis na pele, desalenta-se ouvindo as sílabas fatais, e a significação delas surge clara: perguntas invariáveis multiplicadas, a exigir denúncias, a teimosia silenciosa do paciente punida com sevícias: golpes de borracha, alicate nas unhas, o fogo do maçarico destruindo carnes. Quando a horrível ordem soou, o rapaz se ergueu aflito, o rosto lívido crispado:

– Ah! Meu Deus! Não agüento mais. Vão matar-me. A custo, auxiliado pelos outros, conseguiu ocultar as pisaduras sangrentas na camisa grosseira. Vestiu a blusa, despediu-se, agarrou a bagagem, saiu.

Entre os novatos do Pavilhão notei uns indivíduos robustos e corados, de fala curiosa, metidos em grandes capotes. Certamente vinham de clima frio. Diversos tinham nomes exóticos, e na verdade imaginei-os estrangeiros quando um deles seu Eusébio, um velho astuto, murmurou lento e fanhoso.

-Nós disseram...

Supus ter ouvido mal, não chegava a capacitar-me a estranha combinação. Tornou a empregá-la, e convenci-me de que não me equivocava. Nós fizeram. Que diabo pretendia ele com esse disparate? Vendo-o na companhia de latagões membrudos e louros, julguei-o europeu do norte, a enganchar-se no português. Eram brasileiros, do Paraná, umas duas dezenas. Explicava-se a singularidade pela articulação do pronome oblíquo, de vogal aberta, a confundir-se com sujeito. A prosódia justificava o esquisito discurso, mas sempre que me aparecia aquele verbo na terceira pessoa, vinha.ne o desejo de corrigir a frase. A linguagem do nordeste habituara-me a essa sintaxe, usada apenas no singular, não prejudicando o sentido; no plural surgia-me pela primeira vez, e a confusão pronominal me abalava.

Os meus companheiros do Manaus, em geral miúdos e escuros, muito diferiam dessa gente de outra raça e de outra latitude; vários circulavam no Pavilhão, esquivos, silenciosos, a aparentar desconfiança, vendo provocadores em toda a parte. Fora as discrepâncias no físico, na expressão nas maneiras, persistia nos dois grupos a utilização de objetos aparentemente desnecessários. Intrigavam-me os capotes, verdadeiros suadouros em dias quentes, as redes inúteis entre aquelas paredes lisas. Pouco depois chegou o inverno e esses trastes, na ausência de camas, estiraram-se no chão, serviram de cobertores.

Herculano se distinguia dos outros paranaenses, um estudante enfermiço, pequenino, amarelo como enxofre; provavelmente não tinha mescla de sangue polaco ou alemão. Essa criatura amável, tímida, cheia de sorrisos, veio instalar-se no cubículo 50, onde algum tempo escondeu notável disposição para as cantigas revolucionárias e grande falta de pecúnia. Logo entrou no poker, e esteve mais de uma semana a equilibrar-se, ganhando ou perdendo insignificâncias, exibindo sempre a mesma cédula de vinte mil-réis. Comprava as fichas e aventurava-se com prudência, que me parecia avareza. No fim do jogo, feitas as contas, recebia ou entregava alguns níqueis e pratas e guardava a cédula. Um dia o caiporismo chegou e venceu todas as cautelas: no frigir dos ovos o homenzinho recolheu duas ou três moedas e deixou a nota no cacifro. Daí em diante não tornou a arriscar-se. Olhava as cartas de longe e, enquanto ali vivemos, eximiu-se a qualquer despesa.

Embaixo, no último cubículo à esquerda, ao pé da grade, surgiu um tipo gordo, tranqüilo, silencioso, de calça cáqui e suspensório. Ganhou a alcunha de Farroupilha, por ter sido preso no aniversário da revolução gaúcha de 1835. Dois ou três dias depois da sua chegada, boatos fervilharam, cresceram e se transformaram em verdades: Farroupilha era ladrão, pederasta e delator. Além de tudo, covarde. Citavam-se fatos horríveis, apareciam testemunhas e ninguém tinha dúvida. Farroupilha era o maior patife do mundo. José Gay, ótimo rapaz, queria enforcá-lo na viga do passadiço e quando expunha esta idéia horrível, os outros faziam enorme berreiro, exigindo a cabeça de Farroupilha. E o infeliz, em pé, junto à grade do cubículo, os braços cruzados, olhava as coisas e as pessoas, impudente e alheio, como se aquilo não fosse com ele. Não parecia covarde. Talvez tivesse defeitos medonhos, mas é certo que os aceitaram sem exame. Esforçava-me por vencer a credulidade infantil.

Tinham dali saído quatro levas de presos. Iam para a Colônia Correcional, sabíamos isto perfeitamente, mas quando uma lista surgia falávamos em liberdade. Buscávamos razões bem frágeis para justificar esperanças, caíamos num otimismo exagerado. A frente popular francesa, Largo Caballero e Assava foram o nosso grande recurso. E quando chegava o desânimo, procurávamos Rodolfo Ghioldi, que tinha obrigação de ser forte, não podia fraquejar nunca. Certas situações, invejáveis na aparência, são de fato coisas duras e pesadas. Meses antes, com saúde, risonho e de cuecas, aquele moço baixinho empoleirava-se num degrau da escada, o tronco nu, as canelas nuas, um lenço no cós da tanga que lhe cobria alguns centímetros da barriga. Um discurso em tais condições facilmente se podia tornar ridículo. Quarenta pessoas em redor sobressaltavam-se, um olho no orador, outro na porta, e quando a grade larga se abria, esperavam novidades funestas. Com certeza Rodolfo se inquietava também, mas não queria deter-se, continuava a falar seguro e frio. A frieza e a segurança davam-lhe enorme prestígio. Nas conversas embrulhava uma algaravia meio espanhola, meio portuguesa, ia usando pouco a pouco o nosso vocabulário. Ultimamente andava mal, silencioso, magro, sem apetite. Caíam-lhe os dentes. Era Rodolfo que nos amparava no desânimo. Os telegramas dos jornais transformavam-se, lidos por ele. Traduzia as notícias, ligava-se a casos anteriores, num instante fazia uma síntese e era como se na barra escura da parede surgisse de repente um mapa. Enquanto ele discorria, eu lhe examinava as gengivas pálidas, banguelas, os dentes escassos. E zangava-me. Estupidez invalidar uma criatura assim, matar uma inteligência. Fraco e doente, Rodolfo nos animava. O abafamento decrescia, chegava o otimismo. Tudo lá fora estava bem. E relacionávamos com essas coisas, que estavam bem lá fora, as nossas pessoas insignificantes.

29

DEPOIS do café, entretinha-me a ler uma brochura, desatento, ouvindo o burburinho distante de conversas na Praça Vermelha, vozes mais próximas, som de tamancos no passadiço. Gente a entrar no banheiro, a sair, ruído seco de grade a chocar nos batentes, a doida exigência do capitão Dinarte:

– Queremos ir para a Colônia. Queremos ir para a Colônia de Dois Rios. Queremos.

Evidentemente ele zombava dos operários e dos outros que nos tinham deixado, zombava do português, incluído numa das levas. Emudecera o desagradável canto de galo, e às vezes me vinha o desejo de que a estridência viesse irritar-nos de novo, abafar o desafio insensato do oficial. Quinze minutos naquela horrível brincadeira. Se ao menos Dinarte variasse um pouco, usasse palavras diferentes, não me abalaria tanto. O modo como ele gritava queremos pela terceira vez era desacato e ordem. Eu tapava os ouvidos, a provocação chegava-me abafada; a cadência arrasava-me os nervos. Vinha o silêncio, e não nos tranqüilizávamos, à espera do brado agoureiro. Preferível o canto de galo. Pobre do português, enviado para a Colônia, sem amigos, aborrecido por toda a gente. Surpreendia-me a lamentar a ausência daquela estupidez enorme. – “Por causa de uma aventura garantida . Não se cansava de repetir isso. Tentara aprender francês com Tavares Bastos, mas enganchara-se nas regras, não houvera meio de entrar na conjugação. E desabafara comigo – “Non. Gramática non. Ne pas. Je deseje faler. Faler français. Não é assim que se diz? Pouco antes de o transferirem, vivera algum tempo em companhia de um espanhol careca, de olho vivo, uma daquelas aves de arribação que nos apareciam e desapareciam constantemente. Por assemelhar-se ao último rei de Espanha, demos a esse tipo o nome de Afonso XIII. E o apelido pegou. A noite, na Voz da Liberdade, o locutor enxertava pilhérias no programa, achava que os dois vizinhos peninsulares ficavam bem no mesmo cubículo. E Afonso XIII indignava-se, aos berros, por o haverem posto junto àquele animal.

Dessas figuras sumidas restavam lembranças vagas, gestos, frases, a esmorecer, a confundir-se com gestos e frases de outras pessoas. Os caracteres diluíam-se. Naquela manhã, depois do café, sentado na cama, um volume entre os dedos buscava distrair-me e espalhava a atenção por várias coisas: a prosa lida, os rumores externos, recordações instáveis. Próximo, além do guarda-vento, agachado nos travesseiros, Adolfo segredava com Valentina pelo buraco aberto na parede. Lá embaixo a porta do banheiro se fechou. Em seguida houve um tropel surdo, choque de madeira nos degraus de ferro: a gente válida ia fazer exercício no terraço. Nas celas ficavam apenas homens enfermiços, caídos em ócio obrigatório, e alguns que se isolavam, prudentes, envolvendo-se no silêncio como numa carapaça. As divergências políticas iam-se acirrando, ódios cresciam, estalavam. Com certeza Rodolfo estava dispondo, meticuloso, o esboço de uma conferência; Sérgio lançava no caderno um estudo que, principiando em alemão, se alargava num português bastante razoável; Apporelly, hemiplégico, arrastava na sombra a perna trôpega. Doía-me o pé da barriga, a dormência na coxa direita anulava o desejo de mexer-me, agüentar-me ao sólida ver lá de cima o formigar dos veículos, árvores e prédios, a massa rija da Favela, o gasômetro enorme. Tilintar de chave na sala 4. O sussurro das mulheres passou a pequena distância, elevou-se no patamar, desceu a escada e sumiu-se.

O cochicho de Adolfo e Valentina prosseguia. Não era discussão. Em geral os dois se embrenhavam na política, divergiam, falavam alto, e as discrepâncias perdiam-se no barulho do Pavilhão. Alarmava-me a esquisitice do rapaz. Como diabo se desperdiçavam momentos preciosos debatendo a questão social com uma pessoa tão bonita? Se ele tivesse bom senso, limitar-se-ia a admirar pedaços da moça: um olho brilhante, uma nesga de bochecha corada, os beiços muito vermelhos. Agora a conversa tornava-se indistinta, era um murmúrio.

Levantei-me para não ser indiscreto, saí, encostei-me à barra do passadiço, vi no rés-do-chão, junto à grade aberta, o chefe dos guardas, um faxina a varrer o cimento. Na aparência os quartos se haviam despovoado. Criaturas doentes invisíveis. Valdemar Birinyi cada vez mais se isolava; punham-no de parte, não esqueciam a sinceridade infeliz que manifestara ao chegar ali: – “Querem fazer revolução com essas bestas? Aquela hora o antigo oficial de Bela Kun, alheio à versão, folheava o seu tesouro, os grossos volumes da coleção de selos. Faltavam diversos espécimes abafados na polícia, mas isto não tinha importância. – “Ainda é a terceira coleção do mundo. A terceira, pois não, elogiada pelo rei da Inglaterra. E Valdemar Birinyi devia sentir-se feliz. Já não havia motivo para tentar suicidar-se. Os cortes dos pulsos, na tentativa falha de abrir as artérias, quase se apagavam, e provavelmente não tinham deixado cicatrizes no interior.

Fiquei debruçado na viga da plataforma, pensando em coisas assim, vendo o guarda fiscalizar o serviço do faxina, ouvindo o chiar da vassoura no cimento. Afinal o homem zebrado terminou as varredelas e sumiu-se. Agora só se percebia um zumbido, qualquer ajuste do casal. Procurei fixar a atenção noutro rumor. Nenhum me veio distrair, no Pavilhão deserto aquele avultava em demasia. Súbito Adolfo calou-se, abandonou o refúgio, saiu, ficou um instante perto de mim, observando o pavimento inferior. Em grande alvoroço, estranhava sem dúvida que as circunstâncias lhe favorecessem a realização de um projeto absurdo. E agarrando a ocasião, provavelmente sem refletir, pediu-me auxílio, o olho brilhante, a voz trêmula. Queria que eu lhe facilitasse meio de sair dali, visitar a mulher. Necessário ir falar ao carcereiro lá embaixo, entretê-lo, impedir-lhe o exame das coisas em redor.

– Você está maluco. Eu sou lá capaz disso?

A gaiola vizinha estava aberta, e as companheiras de Valentina esvoaçavam todas no pátio, desenferrujando os músculos no jogo da bola. A combinação feliz de acasos induzia o moço a executar o plano temerário. Indispensável e urgente a minha interferência. Recusei-me, tonto, receando que um som de lingüeta viesse frustrar a comunicação. Na verdade lamentava não me ocorrer um expediente, ver aquele enorme desejo baldar-se.

– É uma loucura.

E resistia, fazendo tenção de recolher-me, pegar o livro abandonado. Mas, em vez de proceder assim, afastava-me da cela, pouco a pouco me acercava da escada. Nenhum desígnio; evidentemente não me abalançaria a colaborar na aventura doida. Contudo os movimentos se opunham à decisão e às palavras. Alguma idéia imprecisa devia andar-me no interior; mexia-me talvez guiado por ela.

Nesse automatismo desci os degraus, alcancei a Praça Vermelha. Aí me veio a certeza de que ia tratar com o sujeito de farda, armar uma conversa longa, embora não houvesse nenhum assunto para ela. Não me espantava desse comportamento, julgava-o razoável, apesar de tudo; na hora precisa um diálogo se arrumaria, natural, réplicas e tréplicas a alargar-se com muitos circunlóquios, enchendo tempo, acirrando o homem, impedindo-lhe observar os arredores. Em condições normais balanceamos as nossas possibilidades, e não vemos além delas; a sociedade nos determina com rigor os atos possíveis, e às vezes, para nos movermos, necessitamos um papel selado, assinado, carimbado; sem isso, encrencamos, certamente. Ali dentro essas limitações desaparecem, anulam-se as fronteiras, vemos que nos podemos mover para um lado e para outro, indiferentes às restrições, alheios às conveniências. Movemo-nos até bater com o nariz numa porta de ferro. Mas esse obstáculo é transitório. Descerra-se a porta, queremos transpô-la, sem perguntar se havia para isso uma proibição. Os deveres incutidos lá fora não existem: vamos até onde podemos ir. Há uma porta aberta e Adolfo precisa atravessá-la, passar o vestíbulo, trepar alguns degraus, meter-se na sala 4 e abraçar Valentina, roxa. Os lábios rubros, as maçãs do rosto, cor-de-rosa, mãos, braços, pernas, estariam roxos. Moésia Rolim, alto e rouco, afirmava que ali tínhamos liberdade; era o único lugar no Brasil onde havia liberdade. Perfeitamente. Agarrava-me a esse paradoxo. Gritávamos, cobríamos de baldões a polícia assassina de Filinto Müller. Tínhamos essa liberdade. E havia outra. Andar nus, não escovar os dentes, falar à toa, admitindo ou recusando farrapos de noções obrigatórias noutra parte. íamos e vínhamos, perfeitos animais. – “Abaixo a polícia assassina. Esquisito não nos havermos apavorado, não estarmos ali como bichos passivos e medrosos.

Cheguei-me ao guarda como se tivesse uma reclamação na ponta da língua. Ainda não tinha, mas isto de nenhum modo me embaraçava: com certeza ia surgir e desenrolar-se no momento oportuno. Foi o que sucedeu. Essa confiança no imprevisto é talvez a base dos pequenos talentos ali desenvolvidos. Quando entrei a falar, notei que nos faltavam diversas coisas. Peguei-me a uma, exagerando a importância dela, os olhos na cara do tipo, com gestos e loquacidade contrários ao meu temperamento. Enquanto me expandia, Adolfo saltou os degraus com passos de gato, colou-se à parede, escorregou até a grade, meteu-se no vestíbulo, subiu a escada. No decurso dessa manobra, executada num momento, ia-me virando, forçando meu interlocutor a dar as costas ao fugitivo. Bem. O meu companheiro tinha realizado uma façanha. Estava na sala 4, beijando Valentina, e provavelmente ia demorar pouco. Sem dúvida. Um rápido encontro de galo. Isso mesmo. Reclusão demorada, sonhos, necessidades permanentes, a imaginação criando cenas vivas. Regressaria logo, certamente. O pior é que o diabo do guarda me atendera sem discutir: achara justo o pedido, e isto me desconcertava. Sumia-se o pretexto, e um instante fiquei a vasculhar o íntimo, repisando a solicitação, pouco a pouco transformada em exigência, com pormenores redundantes, avanços e recuos, forcejando por torná-la inaceitável. O funcionário não me havia compreendido bem, mortificava-me para explicar isto, e, durante a lengalenga, estirava os olhos por cima de um ombro dele, via um lanço da escada. Afligia-me a ausência longa de Adolfo. Porque se demorava tanto? Na verdade não se demorava. Dois minutos ou três. Na minha horrível situação, porém, isso parecia tempo excessivo. Certamente a empresa ia falhar. Estupidez meter-me nela. Tudo se descobriria de repente e haveria um escândalo medonho. Perguntei a mim mesmo se o guarda já não tinha percebido a maranha, não estava ali a enganar-me, pronto a divulgar a falta na hora conveniente. Fez um gesto, e alarmei-me, supondo que ia trancar a porta, deixar lá fora o rapaz em situação injustificável. Precipitei a parolagem, lançando-me a novas instâncias, em desordem, perfeitamente embrulhado. Representava muito mal o papel difícil. Uma criança me enxergaria o transtorno, a desesperada busca de motivos. Pensando assim, admirava-me de não distinguir no indivíduo qualquer indício de suspeita. Bem. Possivelmente meu desempenho não era tão mau como eu julgava; a conversa mastigada, os rodeios fatigantes, não revelavam desarranjo; achava-me ali a reclamar sem astúcia creolina e sabão para liquidar os percevejos. Ou então o homem se fingia cego, pactuava conosco: farejara uma necessidade urgente e levaria a condescendência até o fim. E se uma das mulheres regressasse do pátio, fosse testemunhar o caso estranho? Aborrecia-me conjeturar isso. Porque me entretinha a imaginar dificuldades, interessar-me em negócios alheios?

Afinal o desertor ressurgiu, desviando-se do corrimão, agachando-se, colando-se ao muro. Desceu, executou uma curva larga, alcançou a grade, insinuou-se como um rato na Praça Vermelha. Findei a exposição capenga, lancei um agradecimento chocho e recolhi-me, surpreso do êxito. Nunca me supusera tão hábil. No cubículo achei Adolfo a restabelecer-se, pálido em excesso, grandes manchas de suor no pijama. Felicitei-o:

– Muito bem.

Resvalou na confidência:

– Foi um sacrifício para ela, coitada. Assim de chofre! Estava fria como uma defunta.

Veio-me o capricho malicioso de chamar Valentina. Pusme a conversar com ela, observando, através da parede, migalhas de beleza: dentes magníficos, um olho vivo, alguns centímetros de bochecha, os lábios sangrentos, uma sobrancelha. Admirava-lhe a vivacidade. Nenhum vestígio do susto horrível que tivera pouco antes. O marido, perto, mordia as cobertas, numa crise de riso.

30

DE VOLTA do banho, fui à barbearia, confiar-me à perícia do homem de zebra que nos cortava os cabelos e pelava o rosto com tesouras e navalhas bastante cegas. Melhorado o frontispício, recolhi-me, despendurei do guarda-vento a roupa envolta em jornais, por causa da poeira, abri a valise, entrei a arrumar-me devagar.

Faltavam ainda algumas horas para a visita. Findos os arranjos, desci. Os pés haviam crescido e os sapatos magoavam-me os dedos.

No pavimento de baixo, Valério Konder, sério, pilheriou comigo, deu-me um título cerimonioso, referiu-se aos trabalhos na repartição. Livres dos tamancos e dos pijamas, apertados em colarinhos e gravatas, éramos pouco mais ou menos irreconhecíveis.

Achei aberta a grade, passei ao vestíbulo, entrei na enfermaria, à esquerda. A mesa de Sisson, ostentando enorme tabuleiro de casas vermelhas e negras, convidou-me. Para encher tempo, sentei-me a ela, dispus as peças, busquei parceiro, embrenhei-me numa partida, insensível aos xeques, esperando que me viessem chamar à secretaria.

Demorei-me longamente, as idéias a afastar-se dali, em busca de possíveis casos de interesses ocorridos na semana. Como andariam lá fora os meus negócios? A imaginação capengava, tentando vencer obstáculos. Em redor, sentados nas camas, outros indivíduos se entretinham a jogar, e os comentários dos lances chegavam-me remotos e confusos. Os vestuários civilizados, a discrepar do ambiente, com certeza me desviavam para o exterior, levavam-me a forjar notícias prováveis. Agildo Barata avizinhou-se, entregou-me um envelope, recomendando-me que o fizesse chegar ao destino. Li o endereço de um político e meti o papel no bolso, regressei aos cavalos e aos peões.

A voz de um guarda, abandonei as combinações desatentas, ergui-me, passei ao vestíbulo, fui agregar-me no pátio a uma dúzia de companheiros bem vestidos. Pusemo-nos em marcha. Em vez de nos dirigirem à secretaria, encaminharam-nos ao pavilhão fronteiro a ela. Aí surgiram fardas e alguém anunciou:

– Revista.

Achava-me à frente do bando. Com todos os diabos. Iam examinar-me em primeiro lugar, descobrir a infeliz correspondência, prejudicar Agildo, talvez embrulhar o destinatário. Nenhum meio consciente de fugir ao embaraço. Estava fora dos meus recursos conceber uma defesa, tentar embair a polícia, que, a dois passos, ali na calçada, pretendia vasculhar-nos as algibeiras. A minha reação foi maquinal. Desviei-me, recuei, distingui Euclides de Oliveira e empurrei-o, escondi-me por detrás dele. Retirei o contrabando e mergulhei-o debaixo da camisa. Seria descoberto, sem dúvida: escorregou-me na pele, fez um chumaço volumoso na barriga, preso no cinto.

Azaranzado, abotoando-me, vi Euclides próximo, submetido à busca; notei-lhe as rugas da testa quando ligeiramente o despojaram de uma fraude como aquela. Afastou-se indignado, chegou a minha vez. Não me ocorria a suposição de que o miserável trambolho ficasse em meu poder. Eximiram-me de cautelas; ingenuidade querer burlar os sentidos espertos da fiscalização. Avancei. Num minuto iam desmascarar-me, devolver-me ao grupo, as orelhas em brasa. Mas não me indignaria como Euclides, não teria no rosto as pregas duras, coléricas. Tudo previsto. Subi um degrau, afastei as abas do paletó. Dedos ágeis correram no pano, investigaram esconderijos e dobras, fizeram-me cócegas, deram-me a impressão de que pernas de baratas me andavam sobre o peito, num fervilhar muito desagradável Estancaram, recolheram-se.

Desorientado, imobilizei-me: com certeza os gadanhos hábeis iam de novo esquadrinhar-me os sovacos, arrepiar-me, tateando culpas. Lentamente percebi que a operação estava finda, o assombro me tolheu a fala e o gesto; recompus-me e desci, grato ao acaso e desdenhando um pouco os farejadores ineptos. Malucos. Essa opinião fortalecia-se enquanto me desanuviava, procurando orientar-me. Enxerguei à direita a sala aberta e dirigi-me para lá. Esboçaram-se as fisionomias de pessoas vagamente conhecidas, distingui o rumor das conversas e o rápido exame dos pacotes familiares nas sextas-feiras. Num banco, junto à porta, minha mulher sorria, segredou quando me sentei:

– Que é da carta?

Em silêncio mudo, interroguei-a com os olhos; referiu-se ao objeto pouco antes escondido, no momento de aperto Com os diabos! E modifiquei o juízo desfavorável aos pesquisadores. Certamente não eram cegos nem idiotas. Simplicidade julgar-me capaz de enganá-los, visto de perto, se à distância de dez metros alguém me observara os movimentos e tirara a conclusão razoável. Possível não haverem tencionado ir além de certos atos formais, necessários à rotina. Cumpridas as exigências mínimas, à pressa, como se executassem um ritual enfadonho, evitavam complicações estranhas ao serviço. Ausência de curiosidade, nenhum propósito de exceder os limites de uma função maquinal e burocrática. Devia ser isso. E voltou-me a suposição de que o guarda, a escutar com pachorra a minha conversa fatidiosa, percebera a fuga de Adolfo e aguardara, paciente e humano, o regresso dele. Essas dúvidas nos suavizam a prisão, levam-nos à certeza de não haver no aparelho policial o rigor suposto lá fora. Notamos quebra de uniformidade, e isto nos satisfaz. Em qualquer parte achamos indivíduos propensos a simular inadvertência, cochilar no momento preciso, se tais escorregos não lesam o texto do regulamento. A princípio nos admiramos da nossa perícia. Hesitamos depois em admiti-Ia, mas fingimo-nos sagazes para não causar prejuízo à vigilância que relaxou, desviar a suspeita de conivência. Bem. Examinei os arredores. Só divisei casais mergulhados em seus negócios particulares. Sem respeito aos circunstantes, mal-educado, entrei a coçar-me. Abri a camisa, estive a mexer lá por dentro; afinal consegui introduzir o envelope na manga.

– Deixa cair o lenço.

Novo reparo na vizinhança e o pedaço do pano chegou-me aos pés. Baixei-me, fiquei um instante procurando levantá-lo. Na verdade sou um infeliz prestidigitador. Operação difícil retirar os papéis da manga, escondê-los no lenço, metê-los na bolsa da visitante. Mas ninguém testemunhou essa burla, e aproveitamos a meia hora disponível.

Recebi as últimas notícias, enxerguei a liberdade muito longe, cada vez mais a distanciar-se de mim. Conservar-me-iam fora do mundo, sem processo; não me vexariam com interrogatórios nem ouviriam testemunhas. Segregação isenta de formalidades. Tínhamos chegado a isso, eliminavam-se as praxes, o simulacro de justiça, como se fôssemos selvagens. Facilmente me ajustariam, considerando indícios e razões, em artigos e parágrafos. Se quisessem, legalizariam a situação; não tentavam esconder violências e arbítrio e algumas pessoas inquietas por minha causa batiam em portas fechadas. Como de outras vezes, devo ter pedido a minha mulher que não importunasse esses homens de bons propósitos. Afinal o meu caso era semelhante a dezenas de outros; parecia-me estulto desviar para ele a atenção de viventes ocupados nos seus negócios. Capitão Mata e Manuel Leal tinham-me aborrecido em demasia a alegar inocência, a falar em perseguições, iniqüidades. Essas lamúrias egoístas enraiveciam-me.

Agarrava-me impaciente a assuntos vários, temia perder os últimos vestígios de solidariedade àquelas vítimas indiscretas. Esquivara-me sempre a mencionar particularidades: não desejavam conhecê-las, iriam bocejar ouvindo-me. Agora José Lins procurava militares e políticos, mandava cartas a figurões, empenhava-se em favorecer-me com simpatias várias indeterminadas. Essa interferência podia causar desgosto, originar suspeitas e afligia-me a idéia de prejudicar alguém. Bom que os amigos inesperados se aquietassem: era-me suficiente saber os intuitos deles. José Olímpio mandara o romance para a composição. Temeridade igual à de José Lins. Afinal o editor nunca me vira, nada o aconselhava a expor um livro de autor excomungado pelas normas vigentes. Perigo, impossível adivinhar as conseqüências. Iam talvez chamá-lo à delegacia para esclarecimentos, depois enviá-lo à Casa de Detenção. Em segredo, com certeza: os jornais guardariam silêncio. Os originais estavam salvos, na oficina. Difícil escaparem os volumes: seriam apreendidos, julgados nocivos, queimados. Perdiam-se os gastos de impressão, o negociante de escritos metia o rabo na ratoeira. Asilava-me uma esperança débil: a narrativa era medíocre, tão vagabunda que passaria facilmente despercebida. Os sujeitos da ordem não esbanjariam tempo com ela. Desgraçado alívio. E apoquentava-me outra vez não poder corrigir a história, suprimir as repetições e os desconchavos. Alguns pedaços não eram ruins de todo. Se me deixassem trabalhar uns meses, livrar-metia dos receios, das tremuras que a publicação me dava.

31

NAQUELA noite, depois de fecharem os cubículos, Nise bateu na parede e ofereceu-nos, através do buraco, uma notícia: iam ser postas em liberdade cerca de vinte pessoas.

Isso não me interessou: havia-me habituado às listas, e a idéia da Colônia deixara de apavorar-me. Mas quando o guarda surgiu à porta e gritou o meu nome, estremeci, quis ver o papel datilografado que ele trazia na mão. Satisfeita a exigência, vesti-me à pressa, atarantado, arrumei os troços da bagagem leve.

Os preparativos consumiram tempo enorme porque os objetos desapareciam, a cada instante era preciso abrir e fechar a maleta. Impossível achar a escova de dentes, jaguar dada, entre cuecas e lenços. Herculano preparava-se também para saí. Américo e Adolfo auxiliavam-me na arrumação. Eu perguntava a mim mesmo:

– Estarei muito confuso? Terei as mãos frias e úmidas? Pouco tempo antes Adolfo tinha sido mandado a um hospital, ficara lá vários dias. Ao receber o chamado, ignorava para onde iam levá-lo. Aparentava grande calma e ria cochichando com Valentina, que falava tremendo, numa agonia, além da parede. O sossego dele espantava-me. Ao despedir-se, tinha as mãos úmidas e frias. Com certeza as minhas deviam estai assim agora.

Nise chamou-me da sala 4. Encostei o ouvido ao buraco, percebi um recado para alguém lá de fora. impacientei-me: não se tratava de liberdade; mas Nise insistiu, disse coisas ininteligíveis, deu-me um endereço. Confessei não entender nada e busquei um lápis para escrever o que ela dizia. Difícil encontrar o lápis. Aborrecia-me o trabalho inútil. O homem da lista já me chamara duas vezes. Receei que ele viesse de novo apressar-me, visse a cama afastada, o guarda-vento fora do lugar, e me surpreendesse a conversar com uma vizinha, infringindo o regulamento. Encontrei o lápis, mas a linguagem de Nise era confusa e extensa: impossível agarrar o sentido, resumir aquilo em duas ou três linhas. Depois de numerosas repetições., garatujei zonzo letras e algarismos na carteira de cigarros, pois o bloco de papel se ausentara. Esforço enorme escrever; irritava-me, na desgraçada situação, o desperdício de energias necessárias na viagem à Colônia. Nise estava sendo ingênua: habituada por ofício aos desarranjos mentais, ignorava-me o alheamento, a fuga das idéias: com certeza não me diferençava muito dos clientes dela, imbecis ou idiotas. Seria tão difícil verificar isto? A insistência da moça fez-me supor que não me descomedia, não revelava nenhum distúrbio. Se ela continuava a falar sem dar mostra de conhecer a minha estupidez excessiva, os outros se enganariam também, evidentemente. Enfadava-me o longo zumbido misterioso, procurei interrompê-lo: mudança de prisão, somente. Nise não se convencia: ouvira referência a liberdade e acreditava nisto, apesar de terem as liberdades anteriores acabado na ilha Grande.

Américo e Adolfo estendiam-me esperanças débeis cordas ao náufrago. Fingiam-se crédulos, julguei, e irritava-me a piedosa hipocrisia. Notavam-me no rosto e nas ma neiras atrapalhação e medo, sem dúvida. Estaria realmente com medo? Transtorno, perplexidade, lentos arrepios, e os beiços a contrair-se num riso convulso. Na verdade aquilo tinha graça. Ir para a Colônia! Absurdo mandarem-me para semelhante lugar Vinham-me à cabeça o relatório de Chermont e pedaços da minha vida anterior. Mas porque diabo me mandavam para aquele inferno? Pergunta néscia. Dispensavam-se razões: ia, como numerosas insignificâncias da minha laia, fátuas e vazias, tinham ido. Assim pensava, e tinha vergonha de falar, desejava que me enganassem, mentissem. Uma pequena adulação me agradaria Burrice misturar com vagabundos e malandros um sujeito razoável, mais ou menos digno, absolutamente alheio a essas criaturas. Tencionariam corrigir-me na Colônia? Havia lá uma escola. Iriam meter-me nessa escola, coagir-me a freqüentar as aulas dos vagabundos e malandros? O pensamento burlesco afastou-me para longe: imaginei-me vestido em zebra, folheando um caderno sujo, decorando a lição, cantando rezas e negócios patrióticos. As minhas mãos deviam estar frias como as de Adolfo naquela noite, ao despedir-se de mim. Não estavam, prendia-me com desespero à negação. Tinha escrito seguro o recado de Nise. As letras com efeito eram rabiscos ilegíveis, a ponta do lápis rasgara o cartão fino. Mas tinha escrito. Não me lembrava do que tinha escrito. Desejava ser animado e queria livrar-me das esperanças ridículas. Era alguma criança?

Afastara-me da parede e estava em pé no meio do cubículo, a valise fechada, pronto, ouvindo frases amáveis. Herculano, junto a mim, sobraçava a bagagem; o corpo mirra do engrossara um pouco, envolto no largo sobretudo espesso. Para onde nos iam levar? Em voz alta referia-me à Colônia, mas interiormente esforçava-me por desviá-la e a interrogação me atenazava. Se nos deixassem quietos, percevejos a sugar-nos, camas de ferro a escoriar-nos, tudo ficaria bem. Mas sempre nos removem, sem explicações, mostrando que não temos direito ao sossego e tanto podemos ir para a Sala da Capela, reclusão de burgueses e professores da universidade, como para a Colônia Correcional, onde guardam a canalha, o enxurro, vidas sórdidas.

O molho de chaves tilintou, o guarda apareceu pela terceira vez, a porta se abriu. Ainda me retardei um instante, examinando os objetos em redor. Teria guardado na maleta a escova de dentes, os lenços todos? Abracei os companheiros e saí. Atravessei o passadiço, demorando-me em frente aos cubículos, apertando mãos que se estendiam; fui em seguida fazer novas estações apressadas na ala fronteira. Os mesmos gestos e as mesmas frases mecanizaram-me no pavimento inferior. A entrada, cerca de vinte pessoas em fila carregavam-se de malas e embrulhos. Na friagem da noite, longos capotes indicaram-me a gente do Paraná. E redes a tiracolo, dobradas em rolos, como enormes serpentes grávidas, chamaram-me a atenção para algumas figuras do Rio Grande do Norte. Enfileirando-me à pressa, distingui Macedo, João Rocha, Van der Linden, José Gomes, o pequeno dentista Guerra.

Pusemo-nos em marcha, alcançamos o vestíbulo. Deixei a fila, dei um rápido adeus ao pessoal da enfermaria. Depois virei à direita, galguei a escada, achei uma exposição de mulheres a enfeitar a grade da sala 4, umas embaixo, outras empoleiradas nas travessas. Com os pés metidos em tamancos, podiam equilibrar-se nas barras estreitas, seguras aos varões, as saias entaladas entre as coxas. Um minuto papaguearam. Naquela arrumação de corpos, notei apenas os beiços vermelhos de Valentina, a brancura de Olga Prestes, os olhos arregalados de Nise. Voltei.

Deixamos o Pavilhão, dirigimo-nos à rouparia, onde recebi o meu chapéu. Tornei a ver a horrível tatuagem no antebraço do rapaz que lá trabalhava: um esqueleto sem pernas.

– O senhor aqui? murmurou descobrindo-me. Ainda não saiu?

O espanto dele certamente não foi igual ao meu. Estranha memória. Achara-me ali uma noite. E no dia seguinte pela manhã tínhamos conversado meia hora. Decorridos quatro meses, de novo nos encontrávamos, e súbito o moço me identificava num grupo numeroso. Essa possibilidade esquisita de gravar fisionomias talvez houvesse influído na escolha do perigoso ofício que o levara à cadeia. Era simpático: a vergonhosa profissão de nenhum modo nos afastava dele. Avivaram-se lembranças daquele domingo já velho. Tinham-me chamado, retirara-me da galeria sem saber o destino, sentara-me num banco, à espera dos acontecimentos. O rapaz se chegara, amável, e fizera uma observação risonha: – “Ontem o senhor estava inquieto. Aludira à minha calma aparente e aos cuidados excessivos com a valise: mexera nela mais de vinte vezes, não achava lugar para colocá-la. Surpreendera-me ver alguém reparar em tais minúcias e tirar conseqüências justas. A tatuagem meio desfeita era medonha. Esforçara-me em vão por desviar dela a vista, o homem delicado aventurara uma confidência assombrosa: acabava de cumprir sentença e temia ser solto. Para onde havia de ir? Acostumara-se ao serviço leve na rouparia. Dentro de dois anos mandá-lo-iam embora. E perguntava aflito: – “Para onde? Essas palavras tinham-me impressionado e não me cansava de repeti-Ias. Ao deixar a sala, fazia a mim mesmo a pergunta do rapaz do esqueleto:

– Para onde?

Para onde me enviavam com aquela gente desconhecida? Pensei no gracejo de Walter Pompeu: – “Liberdade? Nunca mais. Quando houver uma greve de barbeiros, agarram você.A Colônia Correcional, uma desgraça. Mas se por acaso me lançassem na rua, seria desgraça também. Em que me iria ocupar? Sentia-me incapaz de trabalho, a vida se estragara. Camaradas antigos voltariam a cara, dobrariam esquinas ao ver-me, receosos de comprometer-se. Havia em mim pedaços mortos, ia-me, aos poucos, habituando à sepultura; difícil ressurgir, vagar na multidão, à toa, como alma penada.

Algum tempo ziguezagueando entre as árvores, viramos becos, subimos e descemos calçadas, mas não transpusemos os muros da prisão. Diante de um cárcere fumarento e sujo retardei o passo, vi mulheres de cócoras. Uma preta velha encarou-me, fingiu desapontar-se, exclamou com simpatia burlesca:

– Meu filho, que foi que você fez?

O bom humor da negra, caricatura de afeição, desviou tristezas, sacudiu-me numa ruidosa gargalhada. Pouco adiante estacamos, abriu-se uma porta. Dormiríamos ali, disse um guarda, sairíamos no dia seguinte.

– Para onde?

Respondeu que não sabia.

FIM DO VOLUME I



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Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I





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