Memórias do Cárcere Vol. I



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10

CAPITÃO Mata relacionou-se com a sentinela, um rapazinho. quase garoto, que gesticulava como um macaco e fazia caretas engraçadas. Chamava-se Leite. Resistiu uns dois dias, ouvindo, porém, a gíria da caserna, viu que não estava diante de um paisano, abrandou a desconfiança e entregou os pontos. A passagem de um oficial, entesava-se em demasia, com seriedade cômica. Em seguida examinava os arredores e, afastado o perigo, derreava-se, punha-se a conversar baixinho, como se monologasse. Atirava olhadelas maliciosas ao interlocutor e largava a informação, indiretamente, sem comprometer-se. Ao ser rendido, pilheriava com o substituto: – “Já sabe as ordens. pegar no sono e deixar que estes moços vão para casa; são inocentes, coitados. Num arrependimento burlesco, emendava-se: – “Estou brincando. Tolice. Daqui não sai nem rato. Afastava o médio e o indicador da mão esquerda, juntava a eles, em sentido contrário, o médio e o indicador da mão direita, formava uma grade, levava-a à altura dos olhos, para significar que estávamos isolados e era indispensável muito rigor na vigilância. – “Nem rato. Num instante se militarizava, emproado. No dia seguinte escorregava de novo nos sussurros, familiar, fazendo momices e engolindo o riso. Aparentemente as nossas relações com o exterior findavam na soleira do porta. – “Daqui não saí nem rato. As vezes, porém, transpúnhamos essa linha divisória, e a sentinela não se mexia.

Foi o que sucedeu quando Sebastião Hora surgiu numa esquina próxima, de toalha ao ombro, em companhia de um soldado, subiu alguns degraus de cimento, obliquou num pátio miúdo, passou junto a nós. Saltamos a fronteira, pisamos no alpendre, desejosos de comunicar, mas Hora negou-nos a palavra, afastou-se em silêncio, grave, caminho do banheiro. Voltamos à gaiola, apreensivos. Que diabo seria aquilo? Discutimos, procuramos achar qualquer falta nossa que motivasse tal frieza, recusa a um cumprimento. Nada percebendo, entregamo-nos às pequenas distrações que se iam tornando hábitos e suavizavam a monotonia das horas longas. Embrenhei-me na leitura maquinal dos três volumes difíceis.

O faxina trouxe-me as encomendas, entre elas cuecas ordinárias, provavelmente iguais às usadas na caserna, duras como pau. Como vestir aquele suplício? Resignei-me. E decidi compor uma narrativa dos casos diários, contar a viagem a trem, a luz escassa do Recife, as noites de insônia, descrever a figura do capitão Lobo, que ia crescendo em demasia. Além das cuecas, agora havia papel, havia lápis. Mas a composição saía chocha, pingada, insignificante: as pontas dos lápis se quebravam a cada instante e era preciso recorrer aos canivetes do meu companheiro providencial. Bem. Os lápis diminuíam, pontudos e inúteis. daquelas notas arrumadas com esforço grande não sairia uma história. Desinteresse: a inteligência baixava, era uma inteligência distraída, vagabunda, indolente. Valeria a pena excitá-la? Como? Se me fosse possível conseguir um pouco de álcool, talvez desse verossimilhança a Benon Maia Gomes, a Baptista, ao sujeito que mastigava torradas e comia os beiços.

O cigarro era insuficiente. Vivia a encher-me de fumaça e arrancava a custo algumas linhas por dia, em letrinhas acavaladas, economizando papel, utilizando o espaço todo, para que o manuscrito fizesse um volume pequeno e pudesse esconder-se em momento de busca. A atenção se desviava do trabalho moroso, buscava o abscesso que se desenvolvia debaixo da unha do indicador.

Largando a literatura, ocupava-me horas num curativo desastrado com a tesourinha; o dedo, amarelo de nicotina, avermelhava-se de iodo, enrolava-se em esparadrapo. A se cura da boca e a dormência do estômago desapareciam, o aspecto desagradável da comida já não me provocava náuseas. Tentei alimentar-me, venci a tontura, a memória ressurgiu, o nevoeiro mental se adelgaçou e as figuras em redor se destacaram. Mas a deficiência interior persistia, desânimo, indecisão e a certeza de que os papéis laboriosamente rabiscados não teriam préstimo. Além disso capitão Mata parecia multiplicar-se, não tinha um minuto de sossego e em companhia dele era impossível concentrar-me. Ria, cantava, resolveu fazer também exercícios de composição literária. Como eu lhe censurasse um período cacofônico pelo excesso de quês, resolveu suprimir esta palavra. Com habilidade escreveu à mulher uma carta onde não havia um quê. Contava anedotas, declamava sonetos. Dizia a significação dos toques de corneta, explicava-me que, para fixá-los, os recrutas decoravam versos grotescos. Estes correspondiam à meia-volta:



Quantos dentes tem sagüi

Na boca?

E também estes:



Nunca vi mulher parir

Sem homem.

Havia alguns obscenos. Interrompia às vezes as facécias e ensombrava-se; afinal percebi que a corneta lhe produzia verdadeira inquietação. Estremecia ouvindo-a, traduzia-me a linguagem dela, depois serenava, escorregava na palestra, numa cantiga sem pé nem cabeça, repetida sempre. Justificava-se:

– A letra é idiota, mas gosto da música. Bonitinha. Perturbava-se de novo, enrugava a cara, apreensivo:

– Chegou o major fiscal. Chegou o comandante da companhia.

Difícil imaginar porque o agitava a chegada do major fiscal ou do comandante da companhia. Não se tratava, porém, disso. E arrancando palavra aqui, palavra ali, notei a causa da ansiedade: Mata receava o aparecimento de um general no quartel. Apenas. Estranhei ver homem tão loquaz, tão alegre, amofinar-se à toa. Não havia razão, supus. Em seguida modifiquei o juízo. Para um capitão de polícia a vista de um general, em carne e osso, deve ser caso importante demais. As esferas, o regulamento, a ordem do dia esmagam o pequeno oficial deformado pela disciplina, e se este indivíduo se ataranta numa cela, tentando adivinhar os rumores externos e decifrai as gatimônias de uma sentinela condescendente, a imagem do superior enorme torna-se obsessão dolorosa. Essa autoridade invisível, remota, com um rápido mandado nos cortara a vida social, nos trancara, a nós e a Sebastião Hora, que a alguns passos mofava numa prisão de sargentos, com vários outros. Começávamos a perceber que dependíamos exclusivamente da vontade desse cavalheiro. O interrogatório, as testemunhas, as formalidades comuns em processos não apareciam. Nem uma palavra de acusação. Permaneceríamos talvez assim. Com certeza havia motivo para nos segregarem, mas aquele silêncio nos espantava. Porque não figuramos em autos, não arranjavam depoimentos, embora falsos, num simulacro de justiça? Farsas, evidentemente, mas nelas ainda nos deixariam a possibilidade vaga de mexer-nos, enlear o promotor. Um tribunal safado sempre vale qualquer coisa, um juiz canalha hesita ao lançar uma sentença pulha: teme a opinião pública, em última análise o júri razoável. É esse medo que às vezes anula as perseguições. Não davam mostra de querer submeter-nos a julgamento. E era possível que já nos tivessem julgado e cumpríssemos pena, sem saber. Suprimiam-nos assim todos os direitos, os últimos vestígios deles. Desconhecíamos até o foro que nos sentenciava. Possivelmente operava nisso uma cabeça apenas: a do general. E capitão Mata, ouvindo a corneta, se alvoroçava.

Tentei convencê-lo e convencer-me de que não havia razão para sustos. A presença desse homem não nos poderia causar dano: dar-nos-ia algum esclarecimento. Falaríamos a uma pessoa educada, sem dúvida. No desembarque fôramos recebidos por um subalterno e eu o tomara por oficial, tão cortês se revelara. Todas as manhãs recebíamos a visita do comandante e escutávamos, com ligeiras alterações, as mesmas palavras de amabilidade fria. Capitão Lobo continuava a divergia das minhas idéias, que nunca cheguei a mencionar. Também não consegui, entender bem as dele. Agradava-me, porém, vê-lo, sentir-lhe a franqueza meio rude, a voz clara, o gesto rápido e incisivo, no olhar agudo uma faísca a indicar tendência para descarrilamentos e doidices necessárias. Sob o alpendre passavam figuras rijas e automáticas. Mas as que tinham estado em contato conosco eram compreensivas e humanas. Até a sentinela, a criança galhofeira e estouvada que simulava uma grade com os dedos e resmungava: – “Daqui não sai nem rato. Até o faxina. Ao desembrulhar as encomendas, eu lhe pedira que aceitasse o troco. O rapaz recusara essa gorjeta sem se formalizar, sem me ofender. Se esses viventes se comportavam assim, porque recearíamos a presença de um general? Certamente o meu companheiro devaneava. Às vezes estava cantarolando:

Onde vais tu, infante (falta um adjetivo), Com teu fuzil a pelejar?

Uma estridência de corneta perturbava-o. E durante minutos, apreensivo, de cara amarrada, abandonava a canção, o almoço, o corte das unhas, os exercícios de estilo em que se esmerava em não usar partículas motivadoras de cacofonias. Eu buscava distraí-lo:

Quantos dentes tem sagüi na boca?

A verdade é que também principiava a inquietar-me. Tenho em geral uma espécie de indiferença auditiva, mas aquele desassossego me apanhava.

– Quem foi que chegou?

Não tinha sido ninguém. Era o rancho, o silêncio, a alvorada. Esses sons não tinham para mim nenhuma significação. E todos eles entravam a anunciar inimigos invisíveis.



11

UM dia capitão Lobo entrou carrancudo e falou-me:

– O senhor ontem cometeu uma falta muito grave. Uma falta grave, capitão, respondi aturdido. Não entendo.

– Muito grave. Na sua chegada eu lhe disse que usasse o banheiro dos oficiais. O senhor ontem tomou banho no banheiro dos sargentos.

Era verdade, mas achei graça na repreensão e sosseguei: Ora, capitão! Foi essa a falta grave? Julguei que se tratasse de coisa séria, assustei-me.

O oficial acolheu minha resposta com indignação muda, repetiu depois o que havia dito, enérgico. Tentei justificar-me Encontrei um banheiro ocupado e entrei noutro.

– O senhor não podia fazer isso.

Esforcei-me por manifestar que, no meu parecer, culpa seria utilizar um banheiro de categoria superior ao permitido a mim, um banheiro de generais, por exemplo; contentando me com um de sargentos, não praticava nenhum ato censurável. Mas o meu parecer nada valia: responsabilizavam-me por uma infração, desenvolviam-na, e era inútil querer defender-me. Quanto mais me desculpava mais o capitão se arreliava evidentemente a minha resistência ofendia as normas Em certo ponto, finda a paciência, bradou:

– Se o senhor fosse militar, seria punido e compreenderia o que fez.

– É possível.

– Dificuldade meter qualquer coisa na cabeça desses paisanos, rosnou.

Em seguida propôs:

– Se não está satisfeito aqui, posso arranjar-lhe transferência para uma prisão de sargentos.

– Obrigado, não se incomode.

Surpreendente nesse diálogo foi que de modo nenhum me susceptibilizei. Em geral me envergonhava por objeções vagas, qualquer dito que revelasse a mais leve censura me tocava melindres bestas. Talvez isso fosse conseqüência de brutalidades e castigos suportados na infância: encabulava sem motivo e andava a procurar intenções ocultas em gestos e palavras. O certo é que em tempo de adulto não me lembrava de ter ouvido semelhante linguagem. Pois o que ela me produziu foi um desejo enorme de rir. Achava-me em situação realmente singular, advertido como uma criança, e isto não me vexava, talvez por julgar aquilo estapafúrdio, talvez por estimar a franqueza nua. Se me falassem lá fora de tal maneira, provavelmente me zangaria, mas não sentiria o acanhamento que avermelha o rosto e esmorece o coração. De fato o que mais nos choca não é a sinceridade, às vezes impertinente: é a arranhadela feita com mão de gato, a perfídia embrulhada num sorriso, a faca de dois gumes, alfinetes espalhados numa conversa. Agra não podia molestar-me.

Finda a surpresa, contida a explosão de riso motivada pela extravagância aparente, aceitei a reprimenda, considerei que devia existir uma razão para ela. Haveria bazófia nisso, vaidade por me alojarem perto da gente de cima? Creio que não: tinha ido misturar-me involuntariamente aos outros, arriscando-me a degradar-me. Essa degradação era convencional. De nenhum modo me supunha diminuído na companhia de sargentos. Numa prisão deles, a alguns passos de distância, agasalhavam-se um médico e um advogado e seria tolice imaginar-me com mais direitos que esses_ homens. Ofereciam-me na verdade uma cela confortável, mas isto era casual e, para ser franco, nunca desejei conforto: suponho até que ele nos prejudica. Possivelmente eu devia essa vantagem, esse acidente, à influência de alguém desejoso de beneficiar-me: capitão Lobo, neste caso: o despropósito dele era uma indicação. E também era presumível que, deixando-me na superfície algum tempo, quisessem dar-me um súbito mergulho nas profundidades, submeter-me a variações dolorosas. Mais tarde esta segunda hipótese pareceu confirmar-se, embora eu hesite em afirmar que na modificação operada tenha havido um desígnio. Provavelmente não houve: a nossa presunção é que nos leva a enxergar nos casos intuitos referentes a nós. Numa perseguição generalizada, éramos insignificâncias, miudezas supressas do organismo social, e podíamos ser arrastados para cima e para baixo, sem que isto representasse inconveniência. Informações vagas e distantes, aleivosias, o rancor de um inimigo, deturpações de fatos de repente nos causariam choques e mudanças. Dependíamos disso. E também dependíamos do humor dos nossos carcereiros. Aquele que me falava, irritado, era um homem justo:

– O senhor não podia fazer isso. Dificuldade meter qualquer coisa na cabeça desses paisanos.

Evidentemente eu me comportara mal: introduzira-me num lugar reservado a outros indivíduos, comprometera a ordem. Inútil argumentar que me reduzia por gosto: aquilo não me pertencia. E estava acabado era como se eu tivesse agarrado o quepe ou o cinturão de um sargento. Com certeza foram essas considerações que me induziram a suportar resignado a objurgatória. Realmente ela viria de qualquer modo: a minha resignação tinha pouco valor, mas evitou-me constrangimento, idéias de revolta, ingratidão. Um homem justo.

– Se o senhor fosse militar, seria punido e compreenderia o que fez.

Esta frase, porém, se referia à justiça da tarimba, que prende um sujeito para convencê-lo. Garantiria eu que, fora daí, capitão Lobo era um homem justo? Não garantiria. Tanto quanto posso julgar, a justiça dele se assemelhava à de Benon Maia Gomes, à do bacharel José da Rocha, deputado e usineiro. Sem investigação, o primeiro desses cavalheiros me reprovara os intentos desordeiros; o segundo se afastara resmungando o fastio: – “Comunista! Desconhecendo-me o interior, capitão Lobo dissera: – “Não concordo com as suas idéias, mas respeito-as. E mandara buscar em casa, para nós, roupa de cama e toalhas. Porque se capacitava ele de que eu merecia tanta condescendência? Juízo precipitado, como o do agrônomo e o do bacharel, embora as atitudes se dessemelhassem. Se eu fosse um elemento pernicioso, haveria grande erro naquela generosidade Na semana anterior ali se ignorava completamente a minha existência. Quem dizia que eu não me dedicava então a perigosos exercícios conspirativos? Nem eu próprio dizia isso: guardava silêncio, evitava defender-me de acusações imprecisas. Fora do regulamento, pois capitão Lobo se desviava da justiça. E era isso talvez que me prendia a ele. me fazia baixar a cabeça, sem me considerar humilhado, ouvindo-lhe os propósitos rabugentos. Desejo de ir além das aparências, tentar descobrir nas pessoas qualquer coisa imperceptível aos sentidos comuns. Compreensão de que as diferenças não constituem razão para nos afastarmos, nos odiarmos. Certeza de que não estamos certos, aptidão para enxergarmos pedaços de verdades nos absurdos mais claros. Necessidade de compreender, e se isto é impossível, a pura aceitação do pensamento alheio.

– Não concordo com as suas idéias, mas respeito-as. Irreflexão discordar do que não foi expresso? Em todo o caso tolerância, uma admirável tolerância imprudente que, sem exame, tudo chega a admitir. Era o que me levava a admirar capitão Lobo. Isso e a suspeita de me achar diante de uma criatura singular. Observava-lhe a máscara expressiva, esforçava-me também por ultrapassá-la, divisar lá no íntimo embriões de atos generosos.

12

PELA manhã, de volta do banheiro, atravessando um corredor, avistamos o comandante em companhia de um homem alto, magro, sério. Enviamos-lhe um cumprimento, e ele nos deteve, nos apresentou:

– General, estes senhores...

Finda a apresentação, o homem alto pregou-me um olho irritado:

– Comunista, hem? Atrapalhei-me e respondi: Não.

– Não? Comunista confesso.

– De forma nenhuma. Não confessei nada. Espiou-me um instante, carrancudo, manifestou-se:

– Eu queria que o governo me desse permissão para mandar fuzilá-lo.

– Oh! General! murmurei. Pois não estou preso?

E calei-me prudente: o diabo da frase podia ser interpretada como um desafio, que eu não estava em condições de lançar. Felizmente o homem não ligou importância a ela, deu-me as costas, voltou-se para o meu companheiro e interrogou-o com dureza. Capitão Mata aprumou-se, declarou-se vítima de calúnias e perseguições, como tinha por hábito fazer.

De pijama e com a toalha ao ombro, a posição de sentido se tornava cômica.

– Ainda hei de provar a v. ex.ª que sou um bom patriota.

Estava ali um período conveniente, dos que devemos emitir num quartel. Não me aventuraria a semelhante declaração. Poderia julgar-me um bom patriota? Realmente nem me considerava patriota, seria desonestidade falar daquela maneira. Mas determinadas palavras acalmam determinados espíritos, sem que seja necessário demonstrar a veracidade delas. Capitão Mata nada referia como indício da virtude que se imputava: oferecia exibir provas no futuro. E isso bastou. O general, sem desenrugar a sobrancelha, apreciou devidamente a fala e a postura do acusado. Gastou mais algumas energias e afastou-se, digno, seguido pelo comandante. Foi pouco mais ou menos o que se deu, suponho. Tiramo-nos dali, entramos na gaiola, vagarosos e encabulados. Eu, por mim, ia com as orelhas pegando fogo.

– Puxa!


Capitão Mata, abalado, afirmava que me havia comportado lastimosamente. Ora essa! E porquê? Não era aquele o modo próprio de me dirigir a um general. De fato eu ignorava tudo nessa matéria, mas convencia-me de não haver praticado nenhuma inconsideração. Afirmara não ser comunista e dissera a verdade estava fora do Partido. Se estivesse dentro, não iria confessar atividades ilegais, claro, mas não estava Quanto ao mais, apenas aquela referência a um fuzilamento improvável. Ninguém tinha intenção de fuzilar-me, pois isto não representava nenhuma vantagem. Eu era bem insignificante e a minha morte passaria despercebida, não serviria de exemplo. E se me quisessem elevar depois de finado, isto seria talvez prejudicial à reação: dar-me-iam papel de mártir, emprestar-me-iam qualidades que nunca tive, úteis à propaganda, embrulhar-me-iam em folhetos clandestinos, mudar-me-iam em figura notável. Não, ninguém tinha interesse em fuzilar-me. Além disso quando um vivente quer extinguir outro, não lhe vai revelar este desejo: extingue-o, se pode. Recurso ingênuo ameaçar as pessoas à toa, sem saber se elas se apavoram. No Brasil não havíamos atingido a sangueira pública. Até nos países inteiramente fascistas ela exigia aparência de legalidade, ainda se receava a opinião pública. Entre nós execuções de aparato eram inexeqüíveis: a covardia oficiai restringia-se a espancar, torturar prisioneiros, e de quando em quando se anunciavam suicídios misteriosos. Isso se aplicava a sujeitos mais ou menos comprometidos no barulho de 1935. Mas que diabo tinha eu com ele? Certamente não me pregariam agulhas nas unhas nem me fariam saltar de uma janela de andar alto. Quanto a mim achava-me tranqüilo. E não me recordava de haver piado uma sílaba que ofendesse a autoridade.

O meu companheiro julgava a minha observação a respeito do fuzilamento uma leviandade. Imaginativo, adicionava-lhe vocábulos não proferidos, dava-lhe inflexões que lhe proporcionavam sentido temerário. Divagava: seguramente aquilo teria conseqüências desagradáveis. Tolice. Decerto eu desconhecia a maneira de tratar com a farda: não deviam esperar que me apresentasse de mão na testa, espinhaço vertical, as pernas tesas. E se a minha última resposta encerrava alguma impertinência, isto pouco significava: o cidadão importante não lhe dera atenção: desviara-se, voltara-me as costas, fora ocupar-se em negócio diferente. Naquele jogo infantil de se mostrar papão, enferrujando a cara, engrossando a voz, talvez me considerasse mais ou menos fuzilado. Provavelmente se contentaria com isso. Tinha casos de vulto para resolver, e naquele momento as nossas fisionomias lhe desbotavam na memória. Não corríamos risco, era o que eu supunha. E não corremos, durante alguns dias tudo andou sem novidade.

Voltamos à rotina, comemos a bóia de tabuleiro, recebemos as visitas do comandante, ouvimos as longas falas do capitão Lobo, tentamos encher as enfadonhas horas ocas amolando-nos reciprocamente. Lá embaixo, junto aos dois canhões, uma fila de soldados, de roupas leves, marchava; um tenente risonho, de apito, desenvolvia-se em gestos largos. No outro lado, no pátio interno, rapazes se esforçavam por jogar uma bola no cesto preso ao muro. E defronte dos banheiros, longe, esfumadas, abriam-se as goelas escuras das baias. A corneta soava, queria saber quantos dentes tem sagüi na boca, e o amigo capitão Mata já não se alvoroçava com a pergunta. Findaram os sustos: agora não havia razão para temer que, entre coisas dessa espécie, ela anunciasse a presença de um general. A sentinela nos observava de esguelha, soltava remoques engraçados e, na ausência de testemunhas, cavaqueava num sussurro. 0 faxina vinha pedir-nos a lista de encomendas A mala do capitão se abria, a agulha e o carretel de linha vinham à luz, um minuto se consumia na tarefa de repregar o botão solto de uma cueca. O meu indicador esquerdo supurava, coberto de iodo, pouco a pouco a unha se desprendia. Os três volumes. lidos a custo, diluíam-se no ramerrão do serviço, nas vozes de comando, nas estridências da meia-volta, do rancho, do silêncio.

Escrevi a lápis uma carta a minha mulher. renovando o pedido que lhe havia feito de enviar um conto a Buenos Aires. Permitiria o correio, obediente à censura. a exportação dessas letras? Era uma história repisada, com voltas infinitas em redor do mesmo ponto, literatura de peru. Como arte e como política valia bem pouco, mas talvez enxergassem nela dinamite. A crítica policial era tão estúpida que julgava a produção artística não pelo conteúdo, mas pelo nome do autor. Eu vivera numa sombra razoável, quase anônimo: dois livros de fôlego curto haviam despertado fraco interesse e alguma condescendência desdenhosa. Era um rabiscador provinciano detestado na província, ignorado na metrópole. Iriam analisar-me os romances, condená-los, queimá-los, chamar para eles a atenção da massa? Ou lançar-me-iam, tacitamente culpado, no meio de criminosos, indivíduos que sempre desejei conhecer de perto? O mais provável era jogarem-me entre rebeldes de Natal, do 3.° Regimento, da Escola de Aviação De qualquer jeito me apresentariam sociedade nova, me proporcionariam elementos para redigir qualquer coisa menos inútil que os dois volumes chochos encalhados nas prateleiras dos editores. Essa afirmação presunçosa esbarrava com as dificuldades imensas que me surgiam quando buscava utilizar o papel trazido pelo faxina. Sempre compusera lentamente: sucedia-me ficar diante da folha muitas horas, sem conseguir desvanecer a treva mental, buscando em vão agarrar algumas idéias, limpá-las, vesti-las; agora tudo piorava, findara até esse desejo de torturar-me para arrancar do interior nebuloso meia dúzia de linhas. sentia-me indiferente e murcho, incapaz de vencer uma preguiça enorme subitamente aparecida, a considerar baldos todos os esforços.

A minha decisão de traçar um diário encolhia-se, bambeava, sem nenhum estímulo fora ou dentro. Os fatos, repisados, banalizavam-se. Apenas quatro ou cinco sobressaíam, mas, ao dar-lhes forma, vi-os reduzidos, insignificantes. Difícil enxertar neles alguma circunstância que lhes desse relevo e brilho: saíam naturalmente apagados, chatos e irremediáveis. Prosa de noticiarista vagabundo. Tropeços horríveis para alinhavar um simples comentário. Ora comentário! Se até a narração e o diálogo emperravam, certo não me iria meter em funduras. Havia chumbo na minha cabeça. E eu imaginara fabricar uma novela na cadeia, devagar, com método, página hoje, página amanhã. Lembrava-me da opinião lida anos antes sobre a arte dos criminosos, arte ruim. E vinham-me dúvidas. Seriam essas criaturas naturalmente insensíveis, brutas, lerdas? Talvez o cárcere lhes roubasse as energias, embotasse a inteligência e a sensibilidade.

13

DEBRUÇADO à janela interna, vi Sebastião Hora e o advogado Nunes Leite deixarem a sala, atravessarem o pátio, entrarem numa espécie de secretaria, à esquerda. O primeiro ia bastante preocupado e não me avistou; o segundo chorava. Estranhei novamente a frieza de Hora, a indiferença ao aceno que lhe fiz, mas logo desviei a atenção para o homem que o acompanhava. Passou a um metro de distância e pude observá-lo. Eu nunca havia notado coisa assim, nem imaginava que alguém chorasse daquela maneira. Para bem dizer não havia lágrimas: era um borbotão a rolar no rosto, a cair na roupa, como se torneiras íntimas se houvessem relaxado, quisessem derramar todo o líquido do corpo. A luz forte do sol, o jato brilhava. Nenhum pudor, nem o gesto maquinal de pôr as mãos na cara, tentar esconder a imensa fraqueza. Um soluço, único soluço, uivo rouco; não subia nem descia; enquanto durou a passagem ressoou monótono, invariável: parecia que o homem não tomava fôlego.

Essa imagem de completo desespero me causou sombrio mal-estar. Desapareceu e algum tempo o desgraçado queixume ainda me feriu os ouvidos, e diante dos olhos me ficou a máscara luminosa, que semelhava tênue camada de parafina. Não evitei uma sensação de repugnância e desprezo: difícil supor uma criatura humana a acovardar-se de semelhante jeito. Em seguida modifiquei e venci a reação molesta e acusei-me de precipitação: Nunes Leite devia estar doente, devia ser doente. Não era senão isso. O lençol de água a correr como fonte e o brado lamentoso indicavam desequilíbrio, pois não havia razão para tais excessos. Obrigavam-nos ao repouso, impossibilitavam-nos qualquer ação considerada prejudicial à ditadura. Só. Injustiça dizer que procediam duramente conosco. Tratavam-nos até muito bem. Excetuando-se a ameaça de fuzilamento, reduzível, com esforço e boa vontade, a um conselho enérgico, fórmula viva para nos reeducar, tudo corria numa chateação razoável. As caretas da sentinela, o serviço do faxina, o alimento desenxabido na hora certa, idas e vindas de oficiais no alpendre, os toques da corneta, as vozes de comando. Tudo se mexia como impulsionado por um aparelho de relógio, de algum modo nos mecanizava, tornava inconcebível aquela manifestação de dor furiosa. Anulando a sensaboria da caserna, as visitas de capitão Lobo nos mergulhavam numa onda de calor humano. Da janela do pátio, muitas vezes o víamos descer os degraus de cimento, entrar no cárcere vizinho. Com certeza aí gastaria meia hora nas suas viagens de cinco passos, desdobraria monólogos sisudos, agitaria a piteira, firme e condescendente.

– Não concordo com as suas idéias, mas respeito-as. Vinha-me ao espírito a figura inquieta de Sebastião Hora, a desenvolver, loquaz, as suas convicções moderadas de presidente da Aliança Nacional Libertadora em Alagoas. A um canto, o advogado Nunes Leite se encolhia, isento de pensar, surdo à bondade áspera do capitão. Nem percebera a roupa de cama e as toalhas que ele mandara trazer. Um pobre vivente cheio de pavor. Ouvira falar decerto em fuzilamento, sentira as balas penetrarem-lhe a carne trêmula, o desmaiado coração. Agora, envolto em fria mortalha de medo, perdera a consciência, era um fantasma choroso e automático, sem dignidade.

Tive pena. Porque martirizavam aquele homem, santo Deus? Realmente não martirizavam, mas se o olhassem de perto, conhecer-lhe-iam o pavor, a morte na alma. Duas ou três palavras rápidas, a baldeação, o cheiro da caserna, a cor das paredes, ordens rápidas, sinais imperceptíveis, tinham ocasionado um desmoronamento. Isso pouco influía em tipos ordinários, mas desconchavava nervos demasiado sensíveis. Enfim deviam perceber que estavam praticando uma iniqüidade: o bacharel Nunes Leite não suportava a cadeia. Horrível sujeitar-se ao mesmo regime naturezas diversas. Capitão Mata nada sofria. Findos os sobressaltos produzidos pela corneta, manifestava alegria, dedicava-se a exercícios de composição literária, referia-se, ligeiramente vaidoso, aos meses de estágio no Rio, recitava-me sonetos e nenhuma preocupação lhe diminuía o apetite voraz. Diante do tabuleiro, expandia-se à vontade, como se estivesse em casa, e o tique nervoso dava-lhe aparência estranha. O riso lhe aprofundava uma ruga, e vinha-me a impressão de que ele se achava ao mesmo tempo zangado e satisfeito. Riso severo, enérgico. Em contraste, ali perto, um pobre ser esmagado, avizinhando-se da loucura. Um longo terror, um longo pranto, um longo gemido. Arrepiava-me comparando os dois, notando a ligeira punição de um e o tremendo castigo do outro. A administração pública não atenta nessas ninharias, tende a uniformizar as pessoas. Somos grãos que um moinho tritura e ninguém quer saber se resistimos à mó ou se nos pulverizamos logo.

Finda a repulsão causada por aquele desabamento, pus-me a refletir sério na origem dele. Covardia apenas, doença? Talvez houvesse ali coisa mais grave: a repentina supressão de uma certeza, mergulho na treva, impossibilidade de achar qualquer luz. O advogado Nunes Leite impetrara hábeas corpus a favor de alguns presos políticos. Vistas as razões, etc., o juiz lançara no requerimento uma penada benigna. Em conseqüência, fugira, os suplicantes mofavam à sombra e Nunes Leite, embrulhado, necessitava habeas-corpus. Recurso inútil, evidentemente: agora a toga não se arriscaria, considerando isto ou aquilo, a assinar um mandado de soltura. Seria irrisório pretender ela mandar qualquer coisa, mas essa reviravolta desorientava uma alma serena, habituada à petição, à audiência, ao despacho. Certo as ordens sempre tinham sido aparentes: a judicatura servia de espantalho, e na farda havia muque bastante para desobediência. Apenas isto não convinha. E os atores representavam seus papéis, às vezes se identificavam com eles. A repetição de minúcias, a sisudez, a lentidão, a redundância, a língua arcaica davam àquilo um ar de velhice e estabilidade. E Nunes Leite se sentia bem requerendo ao poder competente, ao colendo tribunal, ao meritíssimo juiz. Se essas coisas se houvessem dissolvido aos poucos, ele se acomodaria a novas formalidades legais, dirigir-se-ia a forças diversas, meritíssimas e colendas. Isto não se dera. Nunes Leite se movera entre firmes pedregulhos, julgara-os eternos; esses blocos não se haviam liquefeito: tinham-se evaporado e ele se achava num deserto. A estampilha, a fórmula, as razões, necessidades venerandas, sumiam-se. Isto o desvairava. Uma prepotência desabusada surgira e aluíam muralhas de papel. Como seria possível viver se se afastavam da vida o embargo, a diligência, a precatória? Como admitir o desrespeito a uma sentença? Quebra dos valores mais altos, cataclismo. Todos os caminhos fechados. E o infeliz soluçava, no desabamento da sua profissão. Impossível defender o direito de alguém. Propriamente, já não havia direito. A lei fora transgredida, a lei velha e sonolenta, imóvel carrancismo exposto em duros volumes redigidos em língua morta. Em substituição a isso, impunha-se uma lei verbal e móvel, indiferente aos textos, caprichosa, sujeita a erros, interesses e paixões. E depois? Que viria depois? O caos, provavelmente. Se os defensores da ordem a violavam, que devíamos esperar? Confusão e ruína. Desejando atacar a revolução, na verdade trabalhavam por ela. Era por isso talvez que o bacharel Nunes Leite chorava.



14

MANDARAM-ME comparecer na sala à esquerda, situada em frente ao cárcere de Sebastião Hora e Nunes Leite. Vesti-me à pressa, num minuto me achei no pátio, amarrando a gravata, dirigi-me ao lugar que, por falta de termo próprio, batizei como uma espécie de secretaria. Entrei atarantadamente e divisei, no topo de uma mesa coberta de papéis, um moço de farda. Já me ia habituando aos distintivos: apesar de confuso, examinei as estrelas e percebi um capitão. Ofereceu-me uma cadeira, estendeu-me um envelope. Para que sentar-me, se apenas viera ali receber a correspondência? Desejei agradecer e conservar-me de pé, mas a semana de permanência naquele meio já me havia feito compreender que tais recusas significavam indisciplina. Executei o movimento exigido, recebi a carta, ia metê-la no bolso e levantar-me quando o rapaz me deteve com um gesto:

– Sou forçado a pedir-lhe que abra o envelope na minha presença.

– Perdão, perdão, murmurei atrapalhado, recebendo a espátula que ele me entregou. Sem dúvida.

Obedeci, apresentei-lhe a folha de papel Tomou-a, virou rapidamente para cima o lado branco, escondendo as letras. Volveu igualmente para o dorso algumas fotografias que se espalharam na mesa e desviou discretamente os olhos:

– Estou satisfeito. Desculpe. É uma formalidade. Ergui-me, retirei-me com agradecido espanto, a duvidar um pouco dos olhos e dos ouvidos. Esquisito. Era realmente levar muito longe o ramerrão obrigar um sujeito a fazer qualquer coisa e logo afirmar que aquilo não tinha valor, era uma exigência à-toa. Desperdício de tempo. Com semelhante proceder, chegaríamos a supor que ali não havia ocupação e se desmandavam inutilmente. Quereriam apenas dar-me a entender que me poderiam obrigar a comportar-me desta ou daquela maneira, sentar-me ou levantar-me. romper ou deixar intacto um sobrescrito? Não, seria um jogo tolo de gato com rato. Um gesto blandicioso de pata macia me indicava uma cadeira; de repente uma garra cor-de-rosa surgia na flacidez amável: – “Sou forçado a pedir-lhe .. Desculpe É uma formalidade. Aquilo não me entrava no entendimento. Poderiam julgar que no quadrilátero de vinte centímetros, de espessura insignificante, houvesse armas, dinamite ou veneno, disfarçados numa escrita e em pedaços de cartão? Se o bilhete e os retratos não despertavam curiosidade, parecia-me desnecessário exibi-los. Com tais exigências burocráticas desarrazoadas, a censura degenerava. Depois de tudo, ficava-me a certeza de que o funcionário dela incumbido era pessoa muito amável. Isto e nada mais.

– Faça o favor de sentar-se. Bem. Estou satisfeito. Desculpe. Formalidade.

Boa educação, perfeitamente, mas seria mais compreensível que ela se aplicasse em cargo produtivo. Daquele jeito, podiam fazer-me supor que lhe davam função parasitária. Embora o meu juízo não tivesse ali nenhum valor, o fato permanecia, e quem o observasse concordaria comigo. Quase me agastava por não ter o homem visto o recado de minha mulher, olhado as caras distantes que ela me enviava pelo correio. Nenhum dano me causaria tomarem conhecimento de algumas páginas destinadas a jornal ou revista de Buenos Aires. Talvez houvesse uma inconfessável e besta vaidade nisso, talvez o desejo pusilânime de mostrar que ali nada havia de comprometedor. Não tive, porém, consciência de semelhantes baixezas e menciono-as como possibilidades. Sei lá o que se passava no meu interior? Difícil sermos imparciais em casos desse gênero; naturalmente propendemos a justificar-nos, e é o exame do procedimento alheio que às vezes revela as nossas misérias íntimas, nos faz querer afastar-nos de nós mesmos, desgostosos, nos incita à correção aparente. Na verdade, vigiando-me sem cessar, livrava-me de exibir sentimentos indignos. Afirmaria, porém, que eles não existiam? Tudo lá dentro é confuso, ambíguo, contraditório, só os atos nos evidenciam, e surpreendemo-nos, quando menos esperamos, fazendo coisas e dizendo palavras que nos horrorizam. De fato ainda não me assaltara o medo, faltava razão para isto; vinha-me, porém, às vezes o receio de experimentá-lo. Sensação angustiosa e absurda: medo de sentir medo. Aparentemente nada nos ameaça, estamos calmos; súbito nos chega uma inquietação que nos domina, cresce e nos dá suores frios: – “Se um perigo surgir, de que modo me comportarei? Reagirei como um sujeito decente ou sucumbirei, trêmulo e acanalhado? Resistimos a essa dolorosa incerteza fingindo segurança, que realmente conseguimos obter, falamos à toa, largamos opiniões temerárias. Bazófias. Pouco importa que nos julguem nocivos e nos conservem no isolamento. As nossas cogitações afastam-se daí, têm sentido muito diverso: – “Revelei acaso fraqueza, conformismo? Pensarão que me quero vender? Essa prostituição nos aterroriza e o terror nos força a proceder de maneira razoável. Capitão Lobo é homem direito. Bem. Ficaríamos com ele se as nossas idéias não brigassem com as dele. Mas quais são as idéias de capitão Lobo? Temos certo número de idéias, firmes, e recusamos fórmulas desacreditadas. Boas há um século, hoje nada valem. Vendo-o, escutando-o, precisamos saber que ele está do outro lado e é conseqüentemente um inimigo. Percebendo-lhe a retidão, ficamos em guarda.

Certo não refleti nisso ao voltar da secretaria, vendo nos cartões as figuras de pessoas de minha família e inteirando-me de notícias rápidas. O conto, vagabundo e mal escrito, havia sido enviado a Benjamin Garay, que, francamente, eu nem sabia quem era. Um indivíduo que se oferecera para lançar na Argentina negócios do Brasil. Quem diabo seria Benjamin Garay? Amolava-me em cartas amáveis, mas agora, se me visse a olhar a sentinela, as duas peças de artilharia que adornavam o portão, deixaria de escrever-me. prudente e encolhido. Referia-se a tradutores qualificados, supondo-me talvez bicho razoável, propenso à glória, à Academia. Certamente a prisão suprimiria Garay, os tipos qualificados, etc. Isso passara despercebido ao capitão que me afastara minutos antes com um gesto amável: – “Formalidade. Porque era que ele havia procedido assim? Julgar-me-ia uma natureza plástica, moldável por qualquer político, qualquer general? Devia ser isso. Provavelmente não houvera ali somente a repetição enfadonha de gestos convencionais e palavras burocráticas. Percebera em mim um sujeito da sua classe, desviado, facilmente conversível, e resolvera ser cortês. A promessa de fuzilamento não era aplicável à situação: nem podia simular autoridade para semelhante exagero. Assim, enquanto eu me confundia, manejando a espátula, ele me observava, considerava-me inofensivo, provavelmente complicado por engano, indigno de fiscalização. Se houvesse notado um gesto suspeito, não afetaria condescendência: leria o papel, atento, rigoroso, buscando propósitos reservados nas mais simples notícias. Nada. Afastara os olhos, num desinteresse quase humilhante. Eu não era capaz de jogar bombas, sublevar quartéis. Estava ali apenas para dar ao burguês a impressão de que havia muitos elementos perniciosos e o capital corria perigo.

15

CERTO dia capitão Lobo me comunicou: O senhor viaja amanhã.

– Para onde?

Hesitou um instante e respondeu: Não sei.

Depois corrigiu:

– Não posso responder.

– Diga ao menos se é para o norte ou para o sul. Recusou-me a informação e logo sugeriu:

– Veja a lista dos navios e o destino, homem. Abra um jornal.

– Muito obrigado. Enfim para qualquer parte vou bem. O que desejo é ir-me embora.

O oficial encarou-me ressentido:

– Não devia falar desse jeito. O senhor aqui.tem amigos. Desculpe, capitão. Ofendi-o sem querer. Mas esse plural vem fora de propósito.

Ao cabo de alguns minutos, a conversa findou com uma proposta que me assombrou, ainda me enche de espanto. Não a mencionaria se, anos atrás, num encontro inesperado, o homem estranho, já coronel grisalho, não a confirmasse, vago e indiferente, enquanto me censurava por me haverem fugido da memória as roupas de cama e as toalhas Sem esse depoimento, não me abalançaria a narrar o caso singular. Difícil acreditarem nele, e talvez eu próprio chegasse a convencer-me de que tinha sido vítima de uma ilusão. Tento reproduzi-lo, ainda receoso, perguntando a mim mesmo se se deu aquela inverossimilhança. Cumpridas algumas formalidades, capitão Lobo despediu-se. Ao sair, estacou junto à mesa:

– Ia-me esquecendo: quero fazer-lhe um pedido. Estranhei: não me achava em condições de ser-lhe útil em coisa nenhuma. Hesitou um instante e jogou-me de chofre este discurso:

– Bem. O tempo é curto para explicações e cerimônias. Trata-se disto: eu pus aí num banco algumas economias que não me fazem falta por enquanto. Ignoro as suas posses, mas sei que foi demitido inesperadamente. Caso as suas condições não sejam boas, eu lhe mostro daqui a pouco uma caderneta, o senhor põe num cheque a importância que necessita, eu assino e à tarde venho trazer-lhe o dinheiro. Convém?

Pedido realmente curioso: nunca me passara pela cabeça que alguém pudesse fazê-lo. Perturbei-me em excesso e no primeiro momento nem pude responder: tive a impressão de que me estavam a mistificar, julguei-me objeto de uma pilhéria cruel. Pouco a pouco me desengasguei, consegui enfim murmurar uma recusa chocha e um agradecimento rápido e sumido:

– Não preciso. Estou bem. Muito obrigado.

Ainda não me convencia de que o rapaz falara sério, a mesquinha idéia do logro continuava a perseguir-me.

– Não lhe estou oferecendo dinheiro, bradou capitão Lobo, adivinhando-me talvez o sentimento infeliz. Não se oferece dinheiro a homem. Estou facilitando-lhe um empréstimo. E não é lá grande coisa, as minhas reservas são pequenas. Se aceita, o senhor mesmo determina, vê quanto lhe posso emprestar. Naturalmente não há prazo: paga-me lá fora quando se libertar. Sai logo, isso não há de ser nada. Também já estive preso e vivi no exílio: viajei num porão de São Paulo à Europa.

Foi pouco mais ou menos o que ele me disse. Tornei a agradecer e a recusar, as orelhas em fogo, na tremenda confusão que me causava a enorme surpresa. Teria realmente ouvido bem aquelas palavras? Apesar de se haverem prolongado longos instantes, entre pausas e gestos enérgicos, não me decidia a admiti-las; de fato eram claras, irrecusáveis, mas nos últimos dias ia-me habituando a perceber coisas aparentemente destituídas de senso Achava-me atordoado, como se tivesse recebido um murro na cabeça, e só sabia repetir as mesmas frases curtas e insossas:

– Estou bem, não falta nada. Ora essa! Muito obrigado. Não é necessário.

Horrível mal-estar, o desejo inútil de arrancar do interior qualquer coisa, evitar ao homem a deplorável impressão que naturalmente lhe causava. Pedia a Deus que ele se retirasse logo, pusesse termo à situação embaraçosa. Deixar-lhe-ia recordação infeliz, sem dúvida. Grosseiro, descortês. Nem me ocorria um lugar-comum besta, recurso entorpecedor. Freqüentemente me surgiam na alma sulcos negros, hiatos, e as idéias se embaralhavam, a fala esmorecia, trôpega; havia agora, porém, espessa névoa e, através dela, muito longe, uma figura confusa a apertar-me rijo a mão, a desaparecer no alpendre, com certeza julgando-me estúpido e ingrato. E achei-me só: a presença do meu companheiro não diminuiu a solidão; algum comentário dele acaso feito sobre aquela derradeira visita passou despercebido. Das afirmações do oficial uma, exposta dias consecutivos, verrumava-me o espírito, fora do assunto principal:

– Não há de ser nada,

Isto se repetira muitas vezes, tornara-se um refrão, intercalava-se. entre dois períodos afastados, e, habituando-me às palestras, era-me possível adivinhar, pelo movimento da pitei ra, interrupção da marcha no soalho, simples mover de beiças, que um silêncio iria quebrar-se deste jeito:

– Não há de ser nada.

Pouco me importava realmente o futuro, mas a alegre confiança, a amável insinuação de coragem, fazia-me sentir uma firmeza absurda. Mais absurda era aquela oferta largada ali de chofre, da mesa para a janela, da janela para a mesa, sem aviso, sem preparação. Considerei-a devagar, tentando recompor-me. Bem. Surgira como fato ordinário, entre gestos vulgares, no mesmo tom de voz com que, ainda na véspera, se emitiam conceitos mais ou menos agrestes sobre a questão social. Aparentemente não diferia dos sucessos normais: um ligeiro parêntese, logo encerrado, e regressamos à vida comum. Vinte e quatro horas depois me enviariam para lugar distante, e o meu interlocutor pensaria no regulamento, no ofício, na ordem do dia. Esquecer-nos-íamos, era como se nunca nos houvéssemos visto. Cada qual para o seu lado. tratando de negócios diferentes, alimentando esperanças diferentes. Uma proposição insensata encaixada em diálogo curto Apenas. Conseguiria, porém, desembaraçar-me dela, misturá-la às amofinações da cadeia, aos toques de corneta e à vigília da sentinela, recuperar, depois de solto, os pequenos tédios e as pequenas alegrias, completamente livre? Não. Decerto não me libertaria de todo. Já ali começava a sentir uma nova prisão, mais séria que a outra, a confundir-me terrivelmente as idéias. Não imaginara poder testemunhar semelhante ação. Pessimismo? De forma nenhuma. Não supunha os homens bons nem maus: julgava-os sofríveis, pouco mais ou menos razoáveis, naturalmente escravos dos seus interesses. Sem dúvida: uma razão miúda, variável com as circunstâncias e o egoísmo natural: dormir, comer, amar, reproduzir-se; um pouco acima disto, avaliar quadros e livros, inspirar respeito, mandar.

Ora, a minha observação daquela manhã era desarrazoada e prejudicial ao seu agente. Isto me causava dolorosa surpresa: chocava exames anteriores, contradizia opiniões firmes e experimentei uma sensação molesta, devo ter involuntariamente malsinado a criatura que me abalava. Era possível então alguém proceder de tal maneira? Porquê? Não conseguia orientar-me, agarrar um móvel qualquer, justificar o disparate. Sem dúvida um homem que resolvia prejudicar-se em benefício de um estranho não estava no seu juízo perfeito. Razoável, normal, não me comportaria nunca de tal modo. Não me comportaria? Nem sequer imaginava que alguém pudesse ter aquele procedimento. E chocava-me em demasia ver a insensatez realizada por um cavalheiro grave afeito à regra, de aspereza firme e autoritária. Realmente nem me dera a impressão de oferecer: parecera determinar, comandar: a proposta louca tinha feição de ordem. Resguardara-me, é claro. Estava certo de que me seria impossível readaptar-me lá fora, achar trabalho, eximir-me da terrível dívida. Não me sobrecarregaria com tal peso, ainda que me privasse de cigarros. De forma nenhuma, porém, me considerava livre: uma idéia nova me verrumava, brigava com outras idéias, e isto era intolerável. A quanto subiria o empréstimo? Pouco importava saber. Pequeno ou grande, consumado ou não, abalava-me noções que pareciam seguras. Porque se tinha dado aquilo? Se eu vestisse farda, pensasse em conformidade com o regulamento, andasse olhando vinte passos em frente, vertical, na cadência um, dois, um, dois, o caso teria explicação, duvidosa, mas enfim poderia ter explicação. As conveniências de um grupo social conduzem às vezes um indivíduo a sacrifícios. Eu não. vestia farda, esquecera a exígua disciplina formal e desatenta adquirida em alguns meses, varrera da memória alguns conceitos mal entrevistos, já não saberia desmontar as peças de um fuzil, ensurdecera ao mais simples toque de corneta e, enquanto o oficial rigoroso, de vinco na testa e olho fixo, media com pernadas iguais metade da sala, arriava-me bambo junto à mesa, firmava-me ora numa perna, ora noutra, o espinhaço curvo.

Capitão Lobo usava uma língua diferente da minha e enquanto repisava o discurso, martelando a expressão, limitava-me a atiçar o monólogo com alguma frase desfavorável, sorrir, contrariá-lo com movimentos de cabeça. Não me ocorrera apoiá-lo. Aceitava-lhe um reparo e negava a conclusão. Natural que ele me odiasse. Estávamos em pólos opostos, era como se pertencêssemos a espécies diversas. Espécies diversas? Isto não é uma razão. Gostamos de um gato, de um cachorro, de um papagaio, mas não suportaríamos esses bichos se eles pensassem de maneira diferente da nossa. Sei bem que sou ilógico, pois o pensamento é conseqüência; a conseqüência tornou-se causa, leva-me a proceder desta ou daquela maneira, desejar mortandades. Se o capitalista fosse um bruto, eu o toleraria. Aflige-me é perceber nele uma inteligência, uma inteligência safada que aluga outras inteligências canalhas. Esforço-me por alinhavar esta prosa lenta, sairá daí um lucro, embora escasso e este lucro fortalecerá pessoas que tentam oprimir-me. É o que me atormenta. Não é o fato de ser oprimido: é saber que a opressão se erigiu em sistema. O general manifestara desgosto por não poder fuzilar-me: revelara fraqueza. Se ele embirrasse comigo e quisesse matar-me, comportar-se-ia animalmente, honestamente. Não embirrara, deixara-se levar por informações, obedecera às conveniências da classe detestada. Tinha uma consciência, e isto nos incompatibilizava. Era inegável, porém, que ele procedia conseqüentemente e não devia espantar-me. Numa explosão de franqueza, expusera um intuito irrealizável certamente escondido em numerosos espíritos.

Não acharíamos em capitão Lobo semelhante candura. Pessoa educada, embora vivendo a aspereza da caserna, abafaria propósitos violentos: queria talvez ver-me fuzilado sem espalhafato. Improvável achar disposições diversas num militar, esteio da ordem. Generais e capitães com certeza julgariam indispensáveis a rápida sentença obscura, o pelotão fúnebre, um corpo a cair junto a um muro. Iniqüidade? Não se trata disso. O exemplo é necessário, a prisão serve de prova, pelo menos é indício forte, e a opinião pública se contenta com as aparências. Infelizmente não havia a pena de morte e o general se lastimava por não conseguir usá-la a torto e a direito. Aquela derradeira entrevista me desconcertava. Contentar-me-ia se percebesse no capitão Lobo indiferença. As vezes ela nos chega como um favor. Se um indivíduo está em condições de nos causar dano e passa distraído, finge não nos enxergar, revela boa índole e agradecemos a desatenção. Esforçamo-nos por tornar-nos imperceptíveis: só assim temos probabilidade de evitar perigos. Não me havia esquivado. Ouvira os solilóquios do capitão e discordara; censuras imprecisas tinham ficado sem resposta. Como não se formulava acusação regular, era impossível defender-me; pusilanimidade inútil viver a declarar-me vítima; em conseqüência encorpavam suspeitas vagas, talvez me responsabilizassem pelos motins do ano anterior.

Pois no momento de se despedir o homem seco me lançava a proposta alarmante. Não me cansava de examiná-la, revirá-la por todos os lados, sem alcançar entrever nela vestígio de senso comum. Um cidadão aparentemente normal decidia ferir os seus interesses e, coisa mais grave, os interesses da sua classe, envoltos em mantos sagrados. Obrigara-se a defender isso, por meios pacíficos ou com armas. Em tempo ordinário bastavam as paradas, tanques a rolar, discursos patrióticos, exibição de força; se, apesar de tudo, surgiam descontentamentos, alguns sacrifícios se tornavam indispensáveis. O general estava certo. Para isso nós lhe pagávamos. Sem dúvida, arruinando os músculos ou espremendo o cérebro, largávamos a contribuição, dávamos sangue ao Estado, à tropa. E não devíamos esperar procedimento diverso.

Capitão Lobo, portanto, fugia ao preceito. De certo modo havia no caso uma espécie de deserção. Impossível explicá-la. Se ele condenava as minhas idéias, sem conhecê-las direito, porque me trazia aquele apoio incoerente? Insolência e brutalidade com certeza me atiçariam ódio, mas seriam compreensíveis, e nada pior que nos encontrarmos diante de uma situação inexplicável. Admitimos certo número de princípios, julgamo-los firmes, notamos de repente uma falha neles e as coisas não se passam como havíamos previsto: passam-se de modo contrário. A exceção nos atrapalha, temos de reformar julgamentos. Qual seria a razão daquilo? Afinal aceitamos as defecções. Conflitos internos, zangas, ressentimentos levam muitas vezes um indivíduo a combater os amigos da véspera. Difícil era conceber que alguém se despojasse voluntariamente, em benefício de um adversário. Essa renúncia da propriedade me entontecia. Metemo-nos em briga política, afrontamos a polícia, berramos nos meetings e, se uma bala nos alcança, arriamos na padiola, entramos no hospital, aos solavancos, possivelmente no cemitério. Está certo. A nossa vida não tem muito valor, às vezes se encrenca e desejamos a morte; faltando-nos coragem para o suicídio, exibimos outra forma de coragem; queremos desaparecer: é uma perda individual. Mas ninguém, de senso perfeito, joga fora os seus bens, pois nisto repousa o organismo social e o sacrifício constitui prejuízo coletivo. Afinal capitão Lobo devia ser muito mais revolucionário que eu. Tinha-me alargado em conversas no café, dissera cobras e lagartos do fascismo, escrevera algumas histórias. Apenas. Conservara-me na superfície, nunca fizera à ordem ataque sério, realmente era um diletante.

O oferecimento do oficial tinha sentido mais profundo: revelava talvez que a classe dominante começava a desagregar-se, queria findar. Não me chegavam, porém, tais considerações. Achava-me diante de uma incrível apostasia, não me cansava de admirá-la, arrumava no interior palavras de agradecimento que não tinha sabido expressar. Realmente a desgraça nos ensina muito: sem ela, eu continuaria a julgar a humanidade incapaz de verdadeira nobreza. Eu passara a vida a considerar todos os bichos egoístas e ali me surgia uma sensibilidade curiosa, diferente das outras, pelo menos uma nova aplicação do egoísmo, vista na fábula, mas nunca percebida na realidade. Para descobri-la não era muito agüentar algumas semanas de cadeia. Seriam apenas algumas semanas?

O tempo corria; a sentinela continuava firme, encostada ao fuzil; agora me comunicavam de supetão uma viagem. De qualquer forma valia a pena a experiência. O diabo é que, se me decidisse a narrar por miúdo a conversa do capitão, tachar-me-iam de fantasista. Ou dar-me-iam crédito indivíduos que andassem no mundo da lua, idiotas Ou românticos.



16

CAPITÃO Mata consultou o jornal, estudou o movimento do porto e decidiu que viajaríamos para o sul. Insensatez. Tinham-nos jogado para o norte; de repente, sem razão concebível, atiravam-nos em sentido contrário. Corridas de automóvel, doze horas a rolar num trem, quinze dias de repouso forçado para ouvir as ameaças de um general. E meia-volta: andar para o sul, depois de ter andado para o norte. Ausência de interrogatório, nenhum vestígio de processos. Porque se comportavam daquele jeito? Pareciam querer apenas demonstrar-nos que podiam deixar-nos em repouso, em seguida enviar-nos para um lado ou para outro. Exatamente como se estacássemos no exercício militar, depois volvêssemos à direita ou à esquerda, em obediência à voz do instrutor. Porque a direita? Porque à esquerda? O sargento não sabe: indicou uma direção por ser preciso variar: fazia dois minutos que marchávamos em linha reta e não devíamos continuar assim, indefinidamente. Haverá proceder mais estúpido? Estúpido, na verdade. Mas não tencionam apenas revelar-nos a própria estupidez: querem possivelmente forçar-nos a entender que nos podem tornar estúpidos, executar ações inúteis, divagar como loucos, ir andando certo e sem mais nem mais torcer caminho, mergulhar os pés num atoleiro. Um, dois, um, dois. Se as nossas cabeças funcionavam, é bom que deixem de funcionar e nos transformemos em autômatos: um, dois, um, dois. Dentro em pouco o sargento exigirá meia-volta e tornaremos um, dois, um, dois a meter os sapatos na lama. Ou reclamará marcha acelerada. Não perceberemos o sentido dela, naturalmente, mas teremos de executá-la, pois isto é a nossa obrigação. Claro. Não estamos aqui para discutir. Temos superiores, eles pensarão por nós. Talvez não pensem, mas é como se pensassem: as estrelas, a voz grossa, de papo, bobagens ditas a repórteres em doidas entrevistas, emprestam-lhes autoridade.

Afinal íamos ser transferidos para o sul. Que lugar nos destinavam? Rio de Janeiro, Bahia, São Paulo? Ou qualquer cidadezinha do interior? Quando lhes desse na veneta, mandar-nos-iam fazer meia-volta, desembarcar-nos-iam no Amazonas, obrigar-nos-iam à convivência dos jacarés. Nenhuma lógica nessas reviravoltas, nenhum senso. Arranha-céus ou seringueiras e tartarugas. Estúpido. Nada nos chamava ali ou acolá. Os nossos interesses se fixavam no nordeste, o sangue e as observações os filhos, a terra plana, poeirenta e infecunda. Tudo pobre. Não seria mais conveniente obrigarem-nos a cavar açudes ou ensinar bê-a-bá aos meninos empalamados? Os nossos músculos renderiam pouco, os nossos cérebros entorpecidos eram como limões secos; com esforço espremeríamos da carne e dos nervos alguma coisa e enfim teríamos a certeza de não sermos uns miseráveis parasitas imóveis. Onde estava a nossa utilidade? Para que servíamos? Saltar da cama pela manhã, escovar os dentes, pentear os cabelos, ouvir dois minutos, em pé, o interrogatório do comandante, dar as respostas adequadas; em seguida papaguear meia hora com o excelente capitão Lobo, contrariá-lo. Que proveito achavam nisso? Lá fora tínhamos funções, representávamos de qualquer modo certo valor. Pelo menos julgávamos representar. Agora nos faltava o mínimo préstimo, e o pior é que sabíamos isto. Arrastávamos as pernas ociosas; uma vez por dia deixávamos a gaiola, um, dois, um, dois alcançávamos o banheiro, o limite do mundo; regressávamos à sonolência e à imobilidade. Conversas repetidas, graças e anedotas repetidas, o abandono de hábitos sociais indispensáveis. Permaneceremos civilizados vestindo pijama, calçando chinelos, deixando a barba crescer, palitando os dentes com fósforo? Pouco a pouco vamos caindo no relaxamento. Erguemos a voz, embrutecemos, involuntariamente expomos a rudeza natural. Ignoramos que isto acontece, suprimem-nos meios de comparação e quando voltarmos estaremos transformados. Afinal a transferência não era ruim: quebrava a monotonia.

Uma viagem ao sul por conta do governo. Quando me soltassem, agüentar-me-ia na cidade grande, readaptar-me-ia, mudaria de ofício no fim da vida. Afirmava isto a mim mesmo sem muita convicção, tentando inocular-me gotas de confiança. Um governador de Alagoas me dissera anos atrás: – “Você. escrevendo literatura de ficção, morre de fome. Os romances lhe renderão duzentos mil-réis por mês. Faça artigos sobre economia e ganhará contos. É verdade que esse amigo se dedicara à mamona, ao algodão, às galinhas, enchera com estatística diversas resmas e isto lhe trouxera escassa vantagem. Não me capacitava de que as letras dele fossem bem pagas, na livraria ou no jornal, mas as minhas deviam ser mais baratas. Duzentos mil-réis por mês, bela perspectiva. Dois romances quase desconhecidos, o terceiro inédito, um conto, vários produtos inferiores de fato isso me daria duzentos mil-réis mensais. E não me sentia capaz de progresso; talvez nem chegasse a fazer coisa igual. Esforçava-me por julgar que a mudança me desentorpeceria, me sacudiria. Ao cabo de vinte e quatro horas achar-me-ia alojado na segunda classe. Haviam-nos tratado bem até aquele momento: o vagão-restaurante da Great Western, automóveis, uma prisão de oficiais, gestos e palavras corteses. Era como se fôssemos sujeitos importantes. Mas certamente havia equívoco na classificação: perceberiam que não estávamos no lugar próprio e mandar-nos-iam descer um degrau. Pensava assim e resistia em convencer-me de qualquer rebaixamento: nenhum motivo para não nos darem um camarote de primeira classe.



As minhas reflexões sobre esse ponto foram interrompidas por uma bola de papel que, arremessada por cima do tabique, veio cair no meio do quarto. Apanhamo-la, abrimo-la, desamarrotamo-la: uma carta enviada pelo oficial preso na saleta vizinha. Poderíamos dar resposta? Vieram-me escrúpulos: tínhamos combinado, logo ao amanhecer da vida nova, não falar ao homem detido além da parede baixa, certamente cumprindo pena disciplinar. Nenhuma relação haveria entre nós, claro: a promessa nada me custava. Ignorava o nome dele, a figura, o sentimento e o pensamento. Porque infringiria o convênio? Tínhamos ficado em silêncio duas semanas, indiferentes ao que sucedia ali perto, a alguns passos. Súbito nos chegava um apelo: alguém sentia o peso da solidão e, pressentindo a nossa partida, esvaziava o espírito numa folha de papel, desordenadamente. Numerosos lugares-comuns a respeito da liberdade. A que liberdade aludia Xavier? Era tenente do exército e chamava-se Xavier. Referir-se-ia à liberdade, em geral, ou pensaria na dele próprio, encolhida em alguns metros de soalho, olhos vigiando portas e janelas? A comunicação era bastante vaga. Relendo-a, julguei perceber que estávamos embrulhados pelas mesmas razões. Desumanidade e grosseria deixar de enviar algumas linhas ao rapaz. Refletindo, lembrei-me de que não nos tínhamos obrigado. Capitão Lobo apenas afirmara que nos comprometíamos. Uma ordem, somente. Se decidíssemos transgredi-la? De qualquer modo havia acordo tácito e aí notei pela primeira vez um dos horrores sutis em que é fértil a cadeia: pretendem forçar-nos, sob palavra, a ser covardes. A princípio não distinguimos a cilada. – “Está ali um sujeito com quem o senhor não se pode entender. – “Perfeitamente.„ Aceitamos a imposição sem divisar nenhuma inconveniência. Mais tarde um infeliz nos abre a alma e hesitamos em solidarizar-nos com ele. Haverá maior covardia? Obedeceremos à frase a que não demos a necessária atenção ou escutaremos a voz interior? Naquele caso, para ser franco, não existiu em mim voz interior. E, além da primeira interdição, duas outras me vieram impossibilitar a correspondência com Xavier. Que espécie de resposta lhe daria? A literatura dele, confusa, estendia-se em conceitos banais, polvilhados de patriotismo. Naturalmente essa verbiagem não achava ressonância cá dentro, pois tenho horror aos patriotas, aos hinos e aos toques de corneta. Sem dúvida essas coisas são indispensáveis, por enquanto, mas isto não me levava a gostar delas. Horríveis. Enorme preguiça me endurecia a munheca; a burrice persistia; desânimo, longos bocejos; a leitura emperrava, entre cochilos; as observações das notas chochas pingavam a custo, pareciam mijadinhas blenorrágicas. Ora, nesse estado, não me seria fácil garatujar chavões em bilhetes. O derradeiro impedimento se ligava à prudência. Quem seria Xavier? Segundo o escrito, um indivíduo atrapalhado por ideais semelhantes aos meus. Mas esses ideais não se especificavam e talvez nem existissem nele.

Existiriam em mim? Não sou de ideais, aborreço empolas. O que eu desejava era a morte do capitalismo, o fim da exploração. Ideal? De forma nenhuma. Coisa inevitável e presente: o caruncho roia esteios e vigas da propriedade, de pouco serviam os meus livros e as divagações de Xavier. De qualquer maneira rebentaria uma revolução de todos os demônios, seríamos engolidos por ela. Haveria, porém, a certeza de que o vizinho pensava nisso, esperava o cataclismo? Não havia: tratava-se de um patriota, e essa gente me inspira desconfiança. Se o tenente estivesse ali para fiscalizar-me, apanhar-me em falta? Se lhe houvessem ditado a carta e aguardassem o nosso comportamento, além do tabique? Por esses motivos ou por outros ignorados, achava-me indisposto a confabular.

Em capitão Mata não havia os mesmos receios, as mesmas inibições. Pessoa de caserna, devia saber que a ordem se contenta com as aparências. Se ele fosse apanhado em flagrante, certo não conseguiria eximir-se da culpa; operando à socapa, com mão de gato, era como se a culpa não existisse. As obrigações não passavam de formalidades: tolice exagerá-las, transformá-las em casos de consciência. Além disso capitão Mata escrevia com rapidez notável, admitia sem aversão a prosa de Xavier e, usando linguagem mais ou menos correta, disfarçava perfeitamente a vacuidade dos períodos sonoros. Afinal conhecia o rapaz, se não me engano, e o temor de perfídia se eliminava. O certo é que abriu a mala, apanhou o bloco de papel e forjou uma regular mensagem, com boa dose de entusiasmo e civismo. Direitinho um orador de comício.

Introduziu a lengalenga por baixo da porta. Minutos depois recebemos uma réplica sem pé nem cabeça. E assim decorreu o dia: bilhetes de um lado para o outro. A sentinela se distraía observando a inofensiva brincadeira. Se um intruso surgisse no alpendre, ela daria aviso. Evidentemente a proibição só se fizera para ser violada.



17

CHAMARAM-NOS, ingressamos na confusão dos corredores, subimos, descemos, viramos esquinas, chegamos ao portão do quartel, juntamo-nos aos nossos vizinhos da prisão dos sargentos. Apenas reconheci dois: Sebastião Hora, bastante apreensivo, e Manuel Leal, empregado no balcão de d. Maroca Prado no meu tempo de colégio, depois caixeiro-viajante, um rapaz moreno, de olhos vivos, arrasado em poucos anos. Essa criatura tivera negócio comigo em época de prosperidade; sumira-se e, ao cabo de longa ausência, reaparecia, com rugas e cabelos brancos, em medonha decadência, transportando a bagagem pesada. Examinei o resto do grupo, notei a falta do advogado Nunes Leite. Bem, certamente haviam percebido que a dureza do regime carcerária não convinha a natureza tão sensível. Chamou-me a atenção um negro coberto de calombos, que se espalhavam nas mãos, no rosto luzidio, davam ao sujeito a aparência de um pé de jabuticaba As outras figuras passaram despercebidas: com certeza me achava preocupado, incapaz de observar direito.

A saída fizeram-nos entrar num caminhão, onde se arrumavam caixotes, as nossas maletas, numerosos troços miúdos. Os oficiais, os automóveis de luxo, as conversas amáveis tinham-se evaporado Dávamos um salto para baixo, sem dúvida, mas por muito que sondasse o terreno, não me era possível adivinhar onde iríamos cair. A nossa escolta se compunha de tipos silenciosos, mal-encarados. Não vi as divisas do comandante; devia ser cabo: naquela mistura de homens, trouxas e caixões, aos solavancos, espremidos como galinhas em jacás, não seríamos confiados a sargento. Alguns presos bazofiavam, riam, procurando ambientar-se; os risos e as bazófias esmoreciam, sem ressonância, dominados pelo barulho do motor. as pilhérias tinham estridências lúgubres.

Partimos. Ignoro se chegamos logo ao destino, se nos demoramos a rolar nas ruas estreitas, que não nos despertavam curiosidade. Certamente ninguém se lembrava de observar o trajeto e consultar relógio. Tínhamos vivido num quartel do exército, separados: talvez nos houvessem oferecido tratamento diverso para semear discórdia. Reuniam-nos agora, transferiam-nos à polícia e os ressentimentos iam explodir. Devia ser essa a razão do afastamento, embora só a tenhamos percebido muito depois. Naquela hora, sacolejados no carro de molas duras, entre fuzis ameaçadores e carrancas, éramos um pequeno rebanho apático. A vontade e o entendimento murchavam; ditos espaçados, vestígios da ruidosa despreocupação do começo. soavam falso como rachar de vidros.

Alcançamos o porto, descemos, segurando maletas e pacotes, alinhamo-nos e, entre filas de guardas, invadimos um navio atracado, percorremos o convés, chegamos ao escotilhão da popa, mergulhamos numa escadinha. Tinha-me atarantado e era o último da fila. Ao pisar o primeiro degrau, senti um objeto roçar-me as costas: voltei-me, dei de cara com um negro fornido que me dirigia uma pistola para-bellum. Busquei evitar o contato, desviei-me; o tipo avançou a arma, encostou-me ao peito o cano longo, o dedo no gatilho. Certamente não dispararia à toa: a exposição besta de força tinha por fim causar medo, radicalmente não diferia das ameaças do general. Ridículo e vergonhoso. Um instante duvidei dos meus olhos, julguei-me vítima de alucinação. O ferro tocava-me as costelas, impelia-me, os bugalhos vermelhos do miserável endureciam-se, estúpidos. Em casos semelhantes a surpresa nem nos deixa conhecer o perigo: experimentamos raiva fria e impotente, desejamos fugir à humilhação e nenhuma saída nos aparece. Temos de morder os beiços e baixar a cabeça, engolir a afronta. Nunca nos vimos assim entalados, ainda na véspera estávamos longe de supor que tal fato ocorresse. O absurdo se realiza e não vamos discuti-lo. Irrisório, na verdade. No atordoamento, no assombro imenso, temos a impressão de que não nos toca a roupa um tubo de aço, mas um pouco de lama. Exatamente: lama. Aquilo decorreu num ápice: o tempo necessário para voltar-me, enxergar o instrumento, a cara tisnada e obtusa, procurar afugentar a intimidação, verificar a inutilidade do gesto, virar-me de novo. Alguns segundos.

Avancei, um bolo na garganta, o coração a estalar, venci a pequena distância que me separava dos companheiros. Chegamos ao fim da escada, paramos à entrada de um porão, mas durante minutos não compreendi onde me achava. Espaço vago, de limites imprecisos, envolto em sombra leitosa. Lá fora anoitecera; ali duvidaríamos se era dia ou noite. Havia luzes toldadas por espesso nevoeiro: uma escuridão branca. Detive-me, piscando os olhos, tentando habituar a vista. Erguendo a cabeça, via-me no fundo de um poço, enxergava estrelas altas, rostos curiosos, um plano inclinado, próximo, onde se aglomeravam polícias e um negro continuava a dirigir-me a pistola. Era como se fôssemos gado e nos empurrassem para dentro de um banheiro carrapaticida. Resvaláramos até ali, não podíamos recuar, obrigavam-nos ao mergulho. Simples rebanho, apenas, rebanho gafento, na opinião dos nossos proprietários, necessitando creolina. Os vaqueiros, armados e fardados, se impacientavam.

Desviando-me deles, tentei sondar a bruma cheia de trevas luminosas. Idéia absurda, que ainda hoje persiste e me parece razoável: trevas luminosas. Havia muitas lâmpadas penduradas no teto baixo, ali ao alcance da mão, aparentemente, mas eram como luas de inverno, boiando na grossa neblina.

Arrisquei alguns passos, maquinalmente, parei meio sufocado por um cheiro acre, forte, desagradável, começando a perceber em redor um indeciso fervilhar. Antes que isto se precisasse, confuso burburinho anunciou a multidão que ali se achava. Agora já não éramos pequeno rebanho a escorregar num declive: constituíamos boiada numerosa; à idéia do banheiro carrapaticida sucedeu a de um vasto curral. Certa-mente a perturbação visual durou um instante, mas ali de pé, sobraçando a valise, a abanar-me com o chapéu de palha, tentando reduzir o calor, afastar o cheiro horrível, mistura de suor e amoníaco, um pensamento me assaltou, fez-me perder a noção do tempo. Que homens eram aqueles que se arrumavam encaixados, tábuas em cima, embaixo, à frente, à retaguarda, à esquerda, à direita? Imaginei-os criminosos e vagabundos. Os contornos das pessoas e das coisas lentamente se precisavam. Aglomeração incalculável, aglomeração desordeira Uma figura amável vista de relance não abalou esta certeza O homem louro, tranqüilo, gordinho, se levantou da rede, acolhedor, fumando cachimbo, disse-nos palavras que não entendi. Impossível fixar a atenção em qualquer ponto, a memória se embotava, observações imperfeitas se atabalhoavam desconexas, deixando largos espaços obscuros. Outras pessoas me falaram, inutilmente. O cachimbo do homem louro trouxe-me ao espírito uma relação e contentou-me verificar que não me havia tornado completamente imbecil. A fumaça dos cachimbos e dos cigarros enchia o ar, produzia a garoa em que os focos luminosos nadavam. De repente ouvi gritos. Um rapaz veio lá do fundo, acercou-se dos policiais, gesticulando, esgoelando-se:

– Companheiros, vão separar-nos. Desembarco. Se não nos tornarmos a ver, ficam vocês sabendo o lugar da minha morte. Adeus.

– Adeus, Valadares, responderam algumas vozes.

O rapaz subiu a escada e sumiu-se. No calor horrível, senti um arrepio. Apesar da firmeza espetacular daquela despedida fúnebre, continuei a julgar que me haviam reunido a criminosos e instintivamente me achegava ao grupo escasso de alagoanos. Só havia ali duas pessoas conhecidas, as outras se diluíam no fumaceiro, mas o transporte no caminhão e o arremesso à furna medonha ligavam-nos em destino comum. Vivêramos uma quinzena próximos e impossibilitados de comunicar; até a saudação à passagem deles no alpendre ficava sem resposta. Impossível identificá-los. Talvez me houvessem deixado no espírito sinais fisionômicos. Não me capacitava disto, e apenas as jabuticabas esquisitas, as excrescências vistas uma hora antes tornavam reconhecível a cara inexpressiva do negro. Avançamos à toa, evitando corpos úmidos. No zunzum de feira nenhuma frase perceptível; os meus pés machucavam coisas moles, davam-me a impressão de pisar em lesmas. O terrível fedor sufocava-me, a quentura de fornalha punha-me brasas na pele, e a certeza de encontrar-me cercado de imundícies levava-me a proteger a valise, resguardá-la debaixo do braço. Agüentar-me-ia em semelhante lugar? Conseguiria resistir?

– Já se viu numa situação como esta? Nunca, respondeu Mata furioso.

Sempre manifestara despreocupação, afirmara que estávamos bem e era tolice esperar coisa melhor, referira-se com minúcias a prisões anteriores: nenhuma lhe havia deixado mossa. Vira-se em dificuldades sérias, nada ignorava; nos momentos de aperto sabia tirar vantagem de insignificâncias, mudava os obstáculos em . utilidades. Consultando-o, desejava certificar-me de que não havia motivo para alarme e o porão ignóbil estava previsto. A negativa indignada acabava de aniquilar-me. Evidentemente eu não suportaria a temperatura de caldeira; sentia-me num banho a vapor, o colarinho empapava-se, a camisa aderia ao peito e às costelas, as meias afundavam num charco ardente, do rosto caíam gotas sem descontinuar. Abanava-me com o chapéu e arfava. Não era a degradação moral que me oprimia. Tinha capitão Mata alcançado bem a minha pergunta? A cólera dele desalentava-me a nova interrogação. Nem me sentia humilhado, no atordoamento; não buscava saber se me restariam forças na alma dentro da realidade inconcebível. A alma fugia-me, na verdade, e inquietava-me adivinhar que a resistência física ia abandonar-me também, de um momento para outro: jogar-me-ia sobre as tábuas sujas, acabar-me-ia aos poucos, respirando amoníaco, envolto em pestilências. Algumas horas depois atirar-me-iam na água o cadáver. Inquirindo o oficial, pretendia insinuar-me coragem, supor, baseando-me na experiência alheia, que a vida ali era possível. Experimentei com a resposta verdadeira decepção, realmente insensata. Pois não via muitos indivíduos, talvez centenas de indivíduos, no curral flutuante? Escapou-me a observação e lá fui ziguezagueando num labirinto de redes, altas, baixas, do solo ao teto, a emaranhar-se, a balançar com o movimento do navio.

Alguém cochichou-me, atraiu-me a um canto; ouvi o nome de Miguel Bezerra, um moço de casquete, moreno e magro, que se pôs a falar com abundância. No começo não entendi o que ele dizia, recordo somente uma declaração repetida:

– Não somos comunistas.

Bem, eu os supunha vagabundos; surgiam-me dúvidas agora.

– Donde vêm os senhores?

Tinham embarcado no Rio Grande do Norte. Mas não somos comunistas.

– Perfeitamente.

Porque a insistência? Entrei a conversar e logo duas surpresas me assaltaram Miguel parecia alegre, as minhas palavras soavam-me aos ouvidos como se fossem pronuncia das por outra pessoa. Doidice rir em semelhante inferno. Ou então me sensibilizara em demasia, os horrores que estivera a desenvolver tinham existência fictícia. Possivelmente o meu enjôo e a raiva do capitão Mata provinham da mudança repentina: se nos houvessem feito percorrer escalas, não nos abalaríamos tanto. Lembro-me de ter afirmado isto mentalmente. De qualquer modo nos arranjaríamos, chegaríamos a um porto. Assim falava no interior e dizia coisas diferentes,: pausadas, maquinais; pareciam gravadas num disco de vitrola. Deviam ter significação, pois o diálogo se prolongou, mas não me seria possível reproduzi-lo. A declaração inicial voltava com freqüência:

– Não somos comunistas.

Porque inocentar-se? A certeza de que estavam ali os revoltosos de Natal acirrou-me a curiosidade, embora não me arriscasse a pedir informações ao desconhecido cauteloso.

Duas mulheres achegaram-se, uma branca, nova, bonita, uma pequena cafuza de olhos espertos. Fiquei sabendo que a primeira se chamava Leonila e era casada com Epifânio Guilhermino.

– Esta é a nossa amiga Maria Joana. Se o senhor tiver negócio com ela, pode procurá-la no camarote lá do fim. Maria Joana desdenhou a pilhéria, sem se escandalizar, mostrou os dentes alvos, contraiu num sorriso infantil as pálpebras oblíquas E afastaram-se em silencio. Em frente a uns beliches toscos haviam estendido cobertas, e ali as infelizes criaturas se torravam, no mormaço invariável. Coitadas. Envergonhei-me do desânimo que me invadira Notaria alguém vestígios dele?

Uma dualidade, talvez efeito da cadeia, principiava a assustar-me: a voz e os gestos a divergir de sentimentos e idéias cá dentro, uma confusão, borbulhar de água a ferver Por fora, um sossego involuntário, frieza, quase indiferença. A fala estranha me saía da garganta seca.

18

NÃO me ocorreu descansar: entregue a mim mesmo, teria passado a noite a vagar entre as redes como um sonâmbulo, arriaria em qualquer parte, dormiria sentado.

Ignoro quem me conseguiu alojamento numa espécie de jirau onde havia prateleiras. A minha ficava em cima. Ausência de colchão, naturalmente. Subi, alonguei-me na tábua suja, vestido e calçado, fiz da valise travesseiro, deixei ao alcance da mão o chapéu de palha, que me servira de leque. E entrei a fumar, ou antes continuei a fumar, pois desde a chegada não tirara o cigarro da boca. Por isso os beiços estavam gretados e a língua ardia. Não, não era por isso: era por causa da sede, que provavelmente durava horas e passara despercebida.

Conveniente descer, andar à toa no porão até descobrir água, beber muito, mas a iniciativa fugira, nenhum estímulo seria capaz de vencer a prostração. Em caso de incêndio a bordo, nem sei se me decidiria a levantar os ossos bambos. A camisa e a cueca molhadas grudavam-se ao corpo, e a calça e o paletó molhados colavam-se à madeira, dissolviam espessa crosta de imundície; despegando-me, afastando-me um pouco, deixava ao lado uma grande mancha escura. As gotinhas perversas animavam-me, corriam, fervilhavam-me como bichos miúdos nas virilhas e no pescoço. Liquefazia-me, evaporava-me, reduzia-me a bagaço, limão espremido. Enquanto estivera a mexer-me, de algum modo me integrara na turba, operações confusas se realizavam no meu cérebro; agora as reduzidas associações mentais deixavam de produzir-se. E em redor tudo se paralisava.

Nos cantos figuras indecisas se abatiam, como trouxas, e do ponto em que me achava não me era possível distinguir o movimento leve das redes. Centenas de pulmões opressos, ressonar difícil, perturbado por constante rumor de tosse. Punha-me a tossir também, erguia-me sufocado, em busca de ar, levantava os braços e quase alcançava o teto baixo, a tampa da nossa catacumba. Provavelmente o fumo agravava a dispnéia; não me resolvia a deixá-lo, e como os fósforos escasseassem, adotei o recurso de fumar sem intervalo, acendendo um cigarro no outro que se acabava.

O sono fugia. Estirava-me, às vezes me alheava em modorra agoniada: as coisas em redor sumiam-se, e apenas restava, aborrecedora, uma torpe visão. Aquilo era repugnante e descarado. Fechava os olhos, tornava a abri-los, cheio de raiva e nojo. Nessas rápidas fugas o cigarro se apagava. Mais um fósforo perdido; inquietava-me vendo a caixa esvaziar-se. Impossível dormir e não conseguia despertar de todo e economizar o fogo. As comichões seriam picadas de pulgas? Ou seriam efeito de ar que entrava pelas vigias e me salgava a pele queimada?

A imagem repulsiva me atormentava: num estrado vizinho, inteiramente nu, um negro moço arranhava os escrotos em sossego. Indignava-me; pragas interiores vinham à tona e eram engolidas; lampejos de bom-senso impediam-me gritar, pedir ao tipo que tomasse vergonha. Efetivamente eu não tinha o direito de reclamar: se estivesse dormindo, o caso, para bem dizer, não existiria. Que me importava a coceira do homem? Talvez ele padecesse dartros. São medonhos: em horas de aperto desejamos triturar, rasgar a carne, suprimir de qualquer jeito a coisa insuportável, transformá-la num farrapo ensangüentado. Não, não era isso. O negro se coçava tranqüilamente, como se ali não estivesse ninguém, e obrigava-me a espiá-lo. Quando me determinava a fechar os olhos, os restos de personalidade se atropelavam, fugiam, no fervedouro interno se agitavam confusões, a brasa do cigarro esmorecia, findava. Um sobressalto: necessário riscar outro fósforo. Alarmava-me o desaparecimento deles. Seis, cinco, quatro, um somente. Conseguiria poupá-lo até o amanhecer? Não conseguiria. Ligeiras pausas, cochilos, nenhum meio de avaliar em que ponto da noite me achava. Os relógios me desagradam: em geral a marcha dos ponteiros, o tique-taque, a indicar a urgência de concluir um capítulo, me desarranjam o trabalho; assando, porém, no horrível forno, em vão tentava adivinhar, explorando os arredores, abrindo os ouvidos, o pingar lento dos minutos. Queimou-se o último fósforo.

Rumores vagos na coberta, diluídos nos tormentos da tosse, dos roncos agoniados. O pesadelo obsceno continuava a perseguir-me. O saco escuro, repuxado a unha, alongava-se; os testículos grossos davam à porcaria o jeito de uma cabaça de gargalo fino. Cachorro. Indignava-me como quando ouço garotos a assobiar num bonde, mas naquele momento experimentava indignação multiplicada. As minúcias ignóbeis a cor, a forma, a transudação enfureciam-me contra mim mesmo. Quem me obrigava a fixar a atenção nelas? Se me decidisse a virar a cabeça para os pés da miserável cama, a coisa indigna e afrontosa se dissiparia, o embalo vagaroso das redes me ofereceria talvez algum sossego. Provavelmente não pensei nisso. E a fadiga terrível me segurava. O patife jazia a dois passos de mim, quase me tocava, e procedia como se estivesse inteiramente só: a cara imóvel, a tromba caída, as pálpebras meio cerradas, as pernas abertas e curvas, na posição de uma parturiente. Não se notava ali desprezo à opinião pública: notava-se indiferença perfeita. O animal nem tinha consciência de que nos ofendia. E os dedos esticavam sem cessar a pelanca tisnada. No clima de inferno tudo se evaporava e sentia-me sujo: certamente partículas da imundície me alcançavam. O meu desejo era gritar injúrias pesadas, finalizar por qualquer meio a sórdida exposição. Não me atrevia a desabafar: o hábito de coibir-me, a fraqueza, o cansaço amarravam-me e sobre o monturo oscilante o que de mim restava era um morno fastio, desejo de acabar-me.

O cigarro apagou-se, levei ao bolso a mão, inutilmente, alarguei a vista pelos beliches próximos. Haveria ali náuseas também, repugnâncias invencíveis embrulhando estômagos?

Distingui confusamente rostos esmorecidos, prostrações dolorosas. A visão que me atenazava nenhuma influência exercia nos arredores; possivelmente cada um se reservava o direito de exibir sem pejo as suas mais secretas particularidades. Natural. Não me resignava a isso, um ódio surdo me crescia na alma. Ao resfôlego penoso, ao ruído cavo da tosse, uniam-se gemidos, falas desconexas, arquejar de vômitos. Outras cenas descaradas estariam revolvendo vísceras, manchando o soalho. Busquei em redor uma cara desperta, curvei-me, dirigi-me ao andar inferior do jirau

– Faz o obséquio, de me emprestar uma caixa de fósforos?

Respondeu-me um grunhido, instantes depois um braço curto se levantou, escuro, peludo. misericordioso: a rápida trégua no vício ia-me alucinando. Restituí os fósforos:

– Muito obrigado

O pensamento se obliterou, supondo que delirei, uni a minha voz às divagações estertorosas dos prisioneiros. As sensações amorteceram e na aspereza de tábua ficou um feixe de fibras secas. A língua dura, língua de papagaio, não mais se agitou, procurando umidade, os dentes deixaram de catar películas nos beiços ardentes. E as figuras em roda aumentavam, diminuíam, aproximavam-se, afastavam-se, fundiam-se, desagregavam-se, numa dança de fogos-fátuos, isentas de significação. Somente os quibas do negro permaneciam inalteráveis, mas por fim deixaram de impressionar-me: vi-os como se visse um pouco de matéria inorgânica. Susceptibilidades, retalhos de moral, delicadezas, pudores, se diluíam; esfrangalhava-se a educação: impossível manter-se ali.

– Faz o obséquio de me dar fósforos?

Novamente se levantava o braço curto, robusto, cabeçudo em excesso.

– Muito obrigado.

Seria razoável pedir ao sujeito invisível que me deixasse conservar a caixa de fósforos. Não me lembrei disto: devolvia-a, certo de que, acendendo um cigarro no outro, poderia dispensá-la. Ao cabo de meia hora lá estava a incomodar o vizinho. Não reparei no egoísmo, na incivilidade que o procedimento revelava. Acordar alguém várias vezes por uma bagatela, que estupidez! Sem dúvida eu me comportava pior que o negro: este apenas exibia o pelame nojento, não amolava as pessoas com exigências. Enfim naquele infame lugar todos nos importunávamos. Os roncos, a tosse, borborigmos, vozes indistintas, vômitos eram incessantes. Acavalavam-se no espaço exíguo camas e redes. E como o ar escasseava, a nossa respiração constituía dano recíproco. Está aí o máximo requinte de perversidade, enquanto os verdugos repousam, as vítimas são forçadas a afligir-se mutuamente.

Por volta da madrugada uma idéia me surpreendeu: imaginei-me louco. Chegar-me-iam realmente aos ouvidos os sons estranhos? Seriam verdadeiros os rostos brancos, em desalento, vermelhos, nas convulsões da tosse, os vultos esmorecidos pelos cantos, cabeças erguendo-se à toa, desgovernadas, bocas escancarando-se no horror da sufocação? Talvez me achasse de novo no hospital, com o ventre rasgado, a queimar de febre. Talvez me visse num manicômio, a criar fantasmas. A incerteza pouco a pouco esmoreceu convenci-me de que estava doido. Um doido manso, arriado numa tábua, a confundir imagens e ruídos. Provavelmente não me vestiriam camisa-de-força. Recordei-me dos meus velhos amigos Chico de Beca e Argentina. Argentina desenvolvia histórias sisudas e explicava-me no fim: – “Isto se deu quando eu tinha juízo. Chico de Beca, em horas de maluquice aguda, considerava-se apóstolo e dava-me o título de Jesus Cristo. Libertava-se da religião e voltávamos a ser viventes ordinários. Reminiscências da juventude alarmavam-me. As cordiais relações com dementes agora me pareciam significativas: era possível que houvesse entre nós alguma semelhança. Um doido lúcido.

A preocupação encheu a madrugada longa. Que horas seriam? Faziam-me falta as pancadas de um relógio, os cantos de galos que me abrandavam as insônias na minha casa de arrabalde. Esquisita insensatez. Achava-me a bordo, a vacilar numa tábua estreita, e não queria persuadir-me disto. Como iria comportar-me? Extravagaria sem perder a memória, diria ao concluir um disparate: – “Quando eu tinha juízo... Recusa dos fatos evidentes, sombras, lacunas, o espírito a divagar à toa; e o exame disto, a análise do desarranjo, a convicção de que nos vamos achegando, passo a passo, da treva completa. O enjôo me livraria da angústia, desejei experimentá-lo, desamparar-me como um saco vazio, eximir-me da consciência e ignorar que a perdia. Nada disso. Os olhos arregalados, sempre a fumar, serenamente. Absurdo. Havia uma queda, vertigem, torvelinho, que nenhum gesto revelava. Parecia-me observar o interior de outra pessoa. Julgo na verdade que estive doido. Nessa loucura fria indivíduos e objetos diluíram-se, inconsistentes. E afinal apenas distingui um braço escuro, cabeludo, grosso, um negro bestial, de focinho dormente, a coçar os escrotos.



19

SOMOS animais bem esquisitos. Depois daquela noite, o primeiro contato com a vida me provocou uma gargalhada. Não o riso lúgubre dos doidos, manifestação ruído sa e divertida, que me causava espanto e era impossível conter. Foi este o caso. Logo ao clarear o dia, saltei do estrado, busquei o vizinho do compartimento inferior, para agradecer-lhe os fósforos, e percebi um caboclo baixo, membrudo, hirsuto, a camisa de algodão aberta, deixando ver um rosário de contas brancas e azuis misturadas à grenha que ornava o peito largo. Esse instrumento devoto me produziu a hilaridade:

– O senhor usa isso, companheiro?

O sujeito endureceu a cara, deitou-me o rabo do olho, formalizou-se e grunhiu:

– Quando a nossa revolução triunfar, ateus assim como o senhor serão fuzilados.

Esqueci os agradecimentos e afastei-me a rir, dirigi-me ao ponto onde, na véspera, tinha ouvido o rapaz de casquete: esperava tornar a vê-lo, pedir informações a respeito do estranho revolucionário. Logo soube que se chamava José Inácio e era beato. Homem de religião, homem de fanatismo, desejando eliminar ateus, preso como inimigo da ordem. Contra-senso. Como diabo tinha ido ele parar ali? Vingança mesquinha de político da roça, denúncia absurda, provavelmente e ali estava embrulhado um eleitor recalcitrante, devoto bisonho do padre Cícero. Com certeza havia outros inocentes na multidão, de algumas centenas de pessoas.

A luz do dia, várias figuras começavam a delinear-se, nomes próprios chegavam-me aos ouvidos, mas tudo se confundia e era-me impossível distinguir João Anastácio de Miguel Bezerra, duas criaturas muito diferentes. Miguel Bezerra, o moço de casquete, exibia inquietação constante no rosto fino como um focinho de rato; João Anastácio tinha a cara imóvel, de múmia cabocla: sério, os olhos miúdos, parecia muito novo ou muito velho, não tinha idade. O primeiro se mexia demais e falava com exuberância, desdizendo-se: falava como se quisesse inutilizar o efeito de palavras largadas inconsideradamente; o segundo me examinava em silêncio, desconfiado uma coruja. Essas coisas só foram percebidas muito depois. Naquela manhã tudo se atrapalhava, a luz que vinha de cima e entrava pelas vigias era escassa. E perturbado, no meio novo, esforçava-me por achar um canto onde pudesse respirar.

Cheguei-me ao escotilhão. O homem louro, de cachimbo, acolhedor e risonho, sentado numa rede, conversava com Sebastião Hora. Fiquei sabendo que a personagem se chamava José Macedo e fora, durante dois dias, secretário da Fazenda, na rebelião de Natal. Também fui apresentado ao secretário do Interior, Lauro Lago, rapaz grave, simpático, um ligeiro estrabismo disfarçado por óculos escuros. De fato nem se haviam empossado e os cargos decorativos apenas lhes serviram para agravar as torturas na cadeia. Estive a ouvi-los meia hora. Tinham-se agüentado quarenta e oito horas, esperando em vão que o resto do país se revoltasse. Depois viera o pânico.

Afastei-me, marchando nos calcanhares, tentando evitar as coisas moles pisadas na véspera e percebendo claramente donde vinha o cheiro forte de amoníaco. Aquelas pessoas urinavam no chão, a um canto; o mijo corria, alagava tudo, arrastando cascas de frutas, vômitos, outras imundícies. Com as oscilações da infame arapuca, a onda suja não descansava, dificilmente se acharia um lugar enxuto. Necessário arregaçar as calças e fazer malabarismos de toda a espécie para evitar a ressaca nojenta.

Viajávamos no Mansas, um calhambeque muito vagabundo. Naquela manhã chegamos a Maceió. Examinei atentamente, por uma vigia, a praia de Pajuçara, tentei localizar a casa onde morei. Que estariam fazendo as crianças? A mais nova ainda não falava direito. Arriado numa caverna, o rosto na abertura, não desviava os olhos daquele ponto. Estava ali a minha gente. O resto da cidade não me despertava o mínimo interesse. Voluntariamente nunca mais poria os pés naquela terra. O navio fundeou, mas não atentei nisto; não percebi a azáfama dos botes rente ao costado, o burburinho dos passageiros novos, carregadores e visitantes. Ter-me-ia conservado ali, imóvel. se não me chamassem lá de cima.

Larguei a observação demorada, transpus o labirinto das redes, subi a escadinha, achei-me no convés, meio encandeado, revi os policiais, a cara facinorosa do negro que me havia apontado a pistola. Um conhecido, a quem dávamos a alcunha de Passarinho, chegou-se à pressa, muito pálido, entregou-me um pacote, sussurrou que minha mulher estava a bordo, mas não lhe tinham permitido ver-me. Despediu-se e afastaram-me, desci novamente à cova, atordoado, o embrulho na mão. Desatei o barbante, achei no papel alguma roupa, meti-a na valise, que se empanzinou.

Defendi os meus trastes contra a inundação de mijo e regressei à vigia, mas agora não olhava a praia distante; a atenção se fixava nas canoas e escaleres que se arredavam do navio. Capitão Mata, mais feliz, conseguira descobrir algumas senhoras de sua família, trocara algumas palavras com elas. Não me desesperançava de avistar uma figura amiga, receber notícias, um gesto ao menos. O excelente padre José Leite, que só aparece quando é necessário e tem habilidade notável para comprometer-se, bordejava talvez por ali, buscando oportunidade. Anos atrás acompanhara-me ao hospital, amolara-se quarenta noites horríveis; fugia-me a vida terrena, e de nenhum jeito me dispunha a acomodar-me à vida eterna; corpo e alma se comprometiam lastimosamente. Em ocorrência tão difícil a santa criatura abandonava os seus negócios e ficava tempo sem fim tentando, com histórias de papas, minorar-me as dores: quando me supunha tranqüilo, visitava as enfermarias dos indigentes. Com certeza andava ali perto. Não distingui nenhuma pessoa conhecida. Tilintaram correntes, anunciando o levantamento da escada; os rumores da coberta esmoreceram; as velas das pequenas embarcações escassearam, dispersaram-se.

O Manaus desancorou, sumiram-se pouco a pouco as dunas, os coqueiros, os tetos de armazéns acaçapados. Longamente me conservei ali, trepado na costela do cavername, evitando o abafamento e o calor da furna lôbrega, vendo a água bater na madeira velha recebendo salpicos na cara. Experimentava uma vaga mistura de alívio e decepção. As pessoas lá de fora pareceram-me indiferentes e covardes. Medo de comprometer-se, julguei severo e injusto, esquecendo que muitos esforços deviam ter sido feitos inutilmente e nenhuma visita chegara aos outros alagoanos. Um pacote de roupa branca, meia dúzia de palavras sumidas. Afinal que valíamos nós? Estávamos ali mortos, em decomposição, e era razoável evitarem o contágio. Bom que se conservassem longe. Ninguém nos poderia oferecer uma dessas mesquinhas lisonjas indispensáveis na vida social; estávamos diante de uma verdade muito nua e muito suja, e qualquer aproximação nos originaria vergonha e constrangimento. O resto da humanidade se afastava; no marasmo e no assombro, sentíamos que se afastava em excesso. Impossíveis os entendimentos: muros intransponíveis nos separavam. Se amigos conseguissem aproximar-se de nós, ficariam em silêncio, de vista baixa, confusos e vazios, receando molestar-nos. Uma palavra à-toa, largada com bom propósito, avivaria suspeitas, provocaria situações intoleráveis: enxergaríamos nela remoque, alusão velada. Certamente nos atribuíam culpas graves; na melhor das hipóteses, éramos levianos e desastrados. E o pior é que nos sentíamos infratores, éramos levados a admitir isto. Sinais intempestivos de compaixão, simples referência ao ambiente sórdido, à horrível miséria, mais nos reforçariam a certeza. Tínhamos delinqüido, sem dúvida. Muitas daquelas criaturas ignoravam que delito lhes imputavam. Na verdade não imputavam: mantinham-nas em segregação, e isto devia bastar para convencê-las. Com o andar do tempo, chegariam a dar razão à justiça nova. Ninguém iria prendê-las e maltratá-las sem motivo. Algumas, como capitão Mata, recalcitrariam exibindo-se vítimas de um equívoco. Outras se deixariam arrastar, fugindo às explicações. E José Inácio desfiaria as contas brancas e azuis do seu rosário, peloso e carrancudo, sonhando com uma revolução que liquidasse todos os ateus.

20

IGNORO onde me escondi para mudar a roupa. Na véspera, dentro da escuridão leitosa, ter-me-ia podido arranjar facilmente. Fugindo às luzes do centro, buscando as margens obscuras onde fervilhavam sombras vivas, teria conseguido meio de arrancar do corpo os medonhos constrangimentos de lã, insuportáveis naquela temperatura. Com o dia, a vista habituando-se na indecisa claridade que vinha das aberturas superiores e laterais, todos os recantos se devassavam. Pouco a pouco me livrei das peças incômodas, tirei a gravata, o colarinho, o paletó, enquanto prosseguia a conversa com Miguel Bezerra, iniciada à noite, interrompida muitas vezes. Certamente pude expressar-me direito, pois o moço não pareceu descobrir nas minhas palavras nenhum desconchavo; de fato não me inteirava do assunto, as idéias baralhavam-se de maneira lastimosa. O que retive bem naquela manhã foi a causa do desassossego do meu novo camarada ao avistar-me: supusera-me funcionário da polícia. Piquei-me. Ora essa! Nunca me passara pela cabeça que tal confusão fosse possível, a franqueza do rapaz me aborrecia. Sim senhor, um tira. Bem vestido, com valise, chapéu de palha, originara desconfiança, e daí a frase repetida sem propósito: Não somos comunistas.

Agora a suspeita se desfazia. Sebastião Hora parolava com José Macedo e Lauro Lago a respeito da Aliança Nacional Libertadora, a princípio sufocada, afinal posta no xadrez; os meus companheiros de Alagoas, apenas entrevistos no quartel, mal examinados nos sacolejos do caminhão, desconhecidos quase todos, começavam a entender-se com a gente do Rio Grande; e, sem chapéu, sem valise, exibindo-me em camisa, despojava-me da feição policial. Naquele momento o meu desejo era evitar a presença de Leonila e Maria Joana, livrar-me dos restos do vestuário pesado. Em tal situação, o recurso melhor seria pedir aos passageiros machos que formassem diante de mim uma espécie de cerca humana e, protegido por ela, despir-me, arranjar-me convenientemente. Devo ter feito isso, não me lembro. Sei que me achei metido no pijama. Dobrei cuidadosamente a calça e o paletó, arrumei-os sobre a maleta e conservei os meus troços à vista, pois eram tudo quanto eu possuía e ali dentro começavam a representar enorme valor.

Alguém me preveniu de que viajavam conosco vagabundos e ladrões. Retirei da carteira as cédulas, dobrei-as, ocultei-as num compartimento do porta-moedas, guardei a pequena fortuna no bolso do pijama, debaixo do lenço. Ali estava em segurança. Mas não queria desviar-me dos outros bens: de quando em quando precisava certificar-me de que existiam os blocos de papel, os lápis, as cuecas, as meias, as camisas. Tentava-me o desejo de recomeçar as notas interrompidas no quartel, jogar na folha as últimas impressões, atabalhoadas, continuamente dissolvidas. Como era impossível o trabalho, servia-me desses instantes para tirar o frasco e a tesourinha, curar o dedo ferido, pôr no abscesso uma gota de iodo.



Afastava-me, acercava-me dos grupos, imiscuía-me neles: esforçava-me por decifrar certas particularidades de linguagem e em vão buscara reter as fisionomias, sempre renovadas. Não havia jeito de casar às figuras incompletas os nomes que me chegavam aos ouvidos. João Anastácio. Bem. Esse conseguiu fixar-se. Anteriormente fundia-se com Miguel Bezerra, mas agora se distanciava, e não sei como baralhei pessoas tão diversas. Julgo que me surgiram simultaneamente na atrapalhação da chegada, falaram as duas ao mesmo tempo, quando não. me era possível estabelecer a distinção: olhos vivos, modos inquietos, rosto fino como um focinho de rato; pele macerada, feições imóveis de múmia cabocla. Tipos inconfundíveis, caracteres diferentes. Miguel Bezerra tinha um modo escorregadio de negar, de justificar-se; o outro afirmava, lento e seguro, como se batesse em pregos: nunca vi homem tão afirmativo.

Essas duas figuras me ficaram gravadas profundamente na lembrança, não por haverem exercido qualquer influência na minha esquisita aventura, mas porque avultaram no rebanho indistinto, durante algumas horas. Depois se afastaram, se diluíram: os hábitos de classe me aproximaram do sujeito gordo e louro que fumava cachimbo, sentado na rede, a sorrir, do rapaz estrábico, de óculos. Importantes, um secretário da Fazenda, outro secretário do Interior, no governo revolucionário de Natal. Propriamente não fora governo, fora doidice: nisto, embrulhados, concordavam todos. Estavam ali dois figurões, dois responsáveis, dois criminosos, porque tinham sido pegados com o rabo na ratoeira. Não me arriscaria a dizer como se chamavam. Macedo e Lauro Lago. Isso, repetido com freqüência, me permanecia na memória, mas, se me dirigisse a qualquer deles, trocaria as designações. Falavam-me também num terceiro chefe da sedição, o mais importante, conservado em Natal por não se poder ainda locomover: seviciado em demasia, agüentara pancadas no rim e, meses depois da prisão, mijava sangue. Arrepiava-me pensando nisso. Achava-me ali diante de criaturas supliciadas e, conseqüentemente, envilecidas. A minha educação estúpida não admitia que um ser humano fosse batido e pudesse conservar qualquer vestígio de dignidade. Tiros, punhaladas, bem: se a vítima conseguia restabelecer-se, era razoável andar de cabeça erguida e até afetar certo orgulho: o perigo vencido, o médico, a farmácia, as vigílias de algum modo a nobilitavam. Mas surra santo Deus! era a degradação irremediável. Lembrava o eito, a senzala, o tronco, o feitor, o capitão-de-mato. O relho, a palmatória, sibilando, estalando no silêncio da meia-noite, chumaço de pano sujo na boca de um infeliz, cortando-lhe a respiração. E nenhuma defesa: um infortúnio sucumbido, de músculos relaxados, a vontade suspensa, miserável trapo. Em seguida o aviltamento. É assim na minha terra, especialmente no sertão. Vivente espancado resiste: em falta de armas, utiliza unhas e dentes, abrevia o suplício e morre logo, pois, se sobreviver, estará perdido. Nunca mais o tomarão a sério. É possível que ele esqueça o chicote, precisa esquecer: cá fora tenta reaver os seus insignificantes direitos de cidadão comum. Os outros não esquecem. Aquilo é estigma indelével, tatuagem na alma. Quando estiver desprecatado, julgando-se normal e medíocre, um riso, um gesto, um olhar venenoso o chamarão à realidade, avivarão a lembrança do pelourinho, do rosto cuspido, das costas retalhadas. Afinal aquele tratamento não foi infligido senão para isso. Indispensável aniquilar um inimigo da sociedade. Quem é ele? O assassino? Evidentemente não. Na minha terra uma vida representa escasso valor. A população cresce demais, a agricultura definha na terra magra. Eliminar um cristão significa afastar um concorrente aos produtos minguados, em duros casos serve para restabelecer o equilíbrio necessário. Enfim, cedo ou tarde, a morte se daria; em última análise o matador foi instrumento da Providência. Por isso ela é tabu. Na cadeia da roça não o maltratam, e o júri sem dificuldade o absolve. O que passou passou, a condenação não ressuscita ninguém. O delito máximo é o que lesa a propriedade. Nesse ponto o fatalismo caboclo desaparece: não foi certamente Deus que mandou furtar, o ladrão é responsável. Está visto que não se punem os grandes atentados, mais ou menos legais, origem das fortunas indispensáveis à ordem, mas os pequenos delinqüentes sangram nos interrogatórios bárbaros e nunca mais se reabilitam. Não me ocorrera a idéia de que prisioneiros políticos fossem tratados da mesma forma: a palavra oficial dizia o contrário, referia-se a doçura, e não me achava longe de admitir pelo menos parte disso. Um jornalista famoso asseverava que os homens detidos no Pedro 1 bebiam champanhe. Com certeza na doçura e no champanhe havia exagero; não me viera, contudo, a suspeita de que a imprensa e o governo mentissem descaradamente quando isto não era preciso. Provavelmente existia nas prisões certa humanidade, relativa humanidade. Capacitara-me disso, por não me parecer que os atos ferozes fossem úteis. Talvez não estivesse aí o motivo da minha credulidade. Habituara-me de fato, desde a infância, a presenciar violências, mas invariavelmente elas recaíam em sujeitos da classe baixa. Não se concebia que negociantes e funcionários recebessem os tratos dispensados antigamente aos escravos e agora aos patifes miúdos. E estávamos ali, encurralados naquela imundície, tipos da pequena burguesia, operários, de mistura com vagabundos e escroques. E um dos chefes da sedição apanhara tanto que lá ficara em Natal, desconjuntado, urinando sangue.

Não me abalancei a indiscrições relativamente aos outrosevitei melindrá-los. Teriam pudor, certamente, calar-se-iam se possuíssem as terríveis chagas incuráveis. Meias-palavras, referências vagas, ambigüidades trouxeram-me a convicção de que todos ali, ou quase todos, haviam sido torturados e não conservavam disso nenhuma vergonha. Espantei-me no começo, depois busquei uma explicação. Provavelmente a autoridade considerava os meus novos companheiros pouco mais ou menos iguais aos ladrões. Queriam eliminar os ricos, suprimir a exploração do homem na lavoura e na fábrica. Certo não alcançariam esse objetivo, por enquanto desejavam apenas a distribuição razoável da terra, melhores condições de vida para o trabalhador. Um roubo. E, pegados com armas na mão, nivelavam-se aos bandidos e recebiam suplícios infamantes. Não se julgavam, contudo, humilhados. Porquê? Talvez não supusessem completamente desarrazoada essa justiça bruta e sumária. Eles, como os escravos indolentes e os salteadores, minavam a fortuna, pelo menos pretendiam miná-la. Natural que os proprietários, senhores do Estado, os estigmatizassem, cobrissem de ignomínia. Não lhes feriam somente o corpo tentavam, encharcando-os na lama, no opróbrio, embotar-lhes os espíritos, paralisar-lhes a vontade. Conhecida, porém, essa intenção, muito se reduzia o efeito dela. Realmente havia as dores físicas. E findas as torturas, os corações se desoprimiam

Os meus amigos do porão falavam dessas coisas como de fatos normais, distantes, relativos a outras pessoas: de nenhum modo pareciam atingidos por elas. Na verdade, para que o rebaixamento moral se realizasse, deveriam aplicar os castigos a um número pequeno de indivíduos. Alcançando a maioria ou a totalidade, o labéu se atenuava, perdia enfim a consistência Reportavam-se àquilo como se narrassem um desastre de automóvel, uma operação cirúrgica, sucessos que não poderiam desonrá-los

21

ARRIADO numa costela do cavername, o rosto colado à vigia, ausentava-me do porão olhando o mar. Algumas pessoas, ali perto, conversavam comigo, arejavam-se um pouco, fugindo ao calor da fornalha, mas não me apercebia direito da conversa. As palavras me chegavam quase destituídas de significação, às vezes me surpreendia lançando respostas a perguntas indefinidas. Sem querer, me insinuava aos poucos no ambiente novo, na sociedade esquisita. Fumava sem descontinuar. Ainda possuía cigarros; os fósforos tinham-se esgotado à noite, e não sei como pude obter uma caixa. Perceber-me-iam em redor a desatenção? Talvez não me achasse desatento: ocupava-me de muitas coisas, misturava-as, confundia-as, desorientava-me em avanços e recuos no tempo e não me era possível fixar nada no espírito.

Dava mostra de examinar a água escura, as algas, filamentos estranhos; alongando a vista, percebia uma praia distante, verde e branca, povoada de coqueiros. Para distinguir essa faixa de terra, precisava curvar-me, esperar que o navio se inclinasse para o outro lado. Fatigava-me da posição forçada, voltava a recostar-me e o horizonte se reduzia, alguns metros mais largo ou mais estreito, conforme as oscilações do calhambeque. Nenhum objeto, asa ou vela, perturbava a monotonia. Filandras, apenas, a confusão das tripas vivas, fosforescências pálidas, revérberos do sol no marulho, uma tira de espuma rente ao costado. Brisas ásperas batiam-me na cara, ali a temperatura baixava, era suportável. O pesadelo noturno se distanciava, parecia-me acontecimento velho; o braço peludo e a visão obscena esmoreciam-me no espírito. A língua Já não estava seca; os beiços rachados ardiam, era-me preciso umedecê-los a cada instante, livrá-los de películas incômodas. Salgados, a ponta do cigarro também tinha sal, os dedos, presos à borda da abertura, cobriam-se de suor pegajoso.

Cansava-me, aborrecia-me dos filamentos invariáveis, dos reflexos na onda, tirava-me dali, passeava aos tombos, as pernas entorpecidas, reacostumando os olhos piscos a magotes agachados na sombra. Voltava o calor medonho. Não era, com precisão, calor: era abafamento. Insuficiência de ar para tantos pulmões. Os grupos arquejavam, tossiam, engrossavam debaixo da escotilha. Metido na roupa leve, mexia-se devagar, cautelosamente. Não me arriscaria a calçar chinelos: conservava os sapatos, e, embora tivesse os pés resguardados, repugnava-me em certos pontos encostar as solas na tábua: andava sobre os calcanhares, banzeiro como um papagaio, receoso de pisar nas imundícies, cada vez mais abundantes. As cascas de frutas, restos de comida, detritos de toda espécie, aumentavam. Aquela gente escarrava no chão, vomitava no chão; a um canto, perto da escada, havia sempre alguns indivíduos de costas, molhando a parede; corria desse mictório improvisado um filete que desaguava no charco movediço. A vaga se avolumava, prometia varrer o soalho inteiro, a evaporação nos afligia com o horrível fartum, sem descontinuar Nenhum escoadouro.



Movendo-me a custo, examinando, ouvindo, perguntando, consegui diferençar e nomear várias peças da carga viva, contrabando humano. Com Sebastião Hora, vizinho ao porta ló, estabelecera-se o preto encaroçado, semelhante a um pé de jabuticaba. Fora contínuo da Aliança Nacional em Alagoas e davam-lhe a alcunha de Doutor. Em atitude canina, mastigando qualquer coisa, parecia continuar no exercício do seu cargo, esperando ordens do Presidente, que discutia com José Macedo e Lauro Lago, todos eles muito consideráveis. Havia mais, além do capitão Mata e de Manuel Leal, três figuras alagoanas: Vicente Ribeiro, rapaz franzino, cabo do 20.° Batalhão de Caçadores; Benon, negro esgalgado, risonho, de voz estridente; Ezequiel Fonseca, louro, míope, de óculos. Parece que este último tivera a idéia infeliz de se meter numa cooperativa e isto o marcara aos agentes da ordem como elemento pernicioso. Também conheci diversos rio-grandenses. O estivador João Francisco Gregório, robusto em demasia, construção de torre, deslocava-se devagar; pachorra imensa na voz, nos gestos, longa desconfiança nos olhos astutos. Concordava facilmente com as coisas mais absurdas: – “An! Bem! Na cidade o julgariam tolo. Quem tivesse observado as manhas dos mestiços nordestinos logo lhe perceberia a dissimulação. Paulo Pinto, ex-cabo de polícia, cafuzo sifilítico, era especialista em sambas. Epifânio Guilhermino, terrivelmente sério, falava baixo e rápido, sublinhando com movimentos de cabeça afirmações categóricas, sem pestanejar. Ferido em combate, ficara meses entre a vida e a morte; uma bala o atravessara, deixando-lhe duas cicatrizes medonhas, uma na barriga, outra nas costas. Livrara-se por isso do espancamento. E restabelecido, até gordo, ali se achava, em companhia da mulher, apanhada a mexer num fuzil-metralhadora. Havia um cabra de Lampião entre nós. Chamava-se Euclides e não tinha nada de cabra: um sertanejo vivo, alourado, notável desempeno em todo o corpo, olho de gavião. Depois do beato José Inácio, apareceu-me um espírita, Sebastião Félix, pessoa incolor. Guardo a vaga lembrança de que era baixo, moreno e usava óculos escuros, mas não estou bem certo disso: sei apenas que se exercitava nas preces e na invocação das almas do outro mundo. Nem ali, no infecto desvão, essas criaturas de sonho o abandonavam. A queimadura de Gastão, horrível, destruíra a peie numa parte do rosto e no pescoço, talvez houvesse lesado músculos. Por isso a boca se repuxava num riso constante e inexpressivo. Havia um estudantezinho de preparatórios, João Rocha, mulato, franzino, inconseqüente, falador; um chauffeur doente, Domício Fernandes, que não agüentaria aquela vida; um pequeno dentista, Guerra, petulante, de bigodinho. Ramiro Magalhães era uma criança estouvada e ruidosa, a quem tinham conferido insensatamente o cargo de prefeito de Natal. Esse disparate indicava bem que a sedição não representava de fato nenhum perigo. Vencida a força pública facilmente, conquistado o poder precário, os rebeldes se haviam julgado seguros: divertiam-se fazendo a tiros desenhos nas fachadas, queriam voar em aeroplanos, entregavam negócios públicos a meninos. Ao primeiro ataque rijo fuga precipitada, rendição. E o prefeito de Natal se embrulhara também. Com desembaraço de colegial afoito, não se inteirava da situação, presumo, via nela uma espécie de brincadeira. Chamou-me a atenção um sujeito silencioso, Carlindo Revoredo, que tinha aparência de estátua. Alto, robusto, mexia-se devagar, os traços fisionômicos inalteráveis. Naquele desarranjo, tudo se acavalando e agitando, não lhe percebi os movimentos: dava-me impressão de imobilidade perfeita. E não me lembro de o ter ouvido falar. Os cabelos de Mário Paiva começavam a escassear, o rosto cansado alegrava-se num sorriso amável, permanente. Dizia-se ator, mas nunca vi pessoa tão sem jeito para representações. Engajara-se talvez nessas companhias vagabundas que circulam raro pelas cidadezinhas do interior, a exibir dramalhões ingênuos quase suprimidos pelo cinema. Passava meia hora a chatear-nos:

Lobato tinha uma flauta. A flauta era de Lobato. Minha avó sempre dizia: Toca flauta, seu...

Lobato tinha uma flauta. A flauta era de Lobato.

Uma lengalenga infindável. Nunca nos revelou outra habilidade, e suponho que o talento cômico de Mário Paiva não ia além disso. O indivíduo que mais me impressionou ali foi Carlos Van der Linden, não porque manifestasse qualquer particularidade vultosa, mas por me haver começado a expor uma das coisas mais dolorosas engendradas pela cadeia. Era um rapaz magro, de rosto fino e pálido, a exprimir resignação, a irradiar simpatia. Uma dor profunda e serena. Estou a vê-lo sentado na bagagem, os braços cruzados, os lábios entreabertos, a arfar. Cobria-lhe o peito débil uma blusa fina, azul-marinho, de mangas curtas, à altura dos cotovelos. Chegaram-me, em pedaços de conversa, em frases incompletas, insinuações malignas a respeito dessa personagem. Não inspirava confiança. Porquê? Afirmaram-me vagamente que Van der Linden de certo modo se ligava à polícia, pelo menos se ligara. Acusação de tal monta, lançada sem prova, alarmou-me. Considerei que eu próprio ainda na véspera fora tomado como espião. E agora me faziam confidência de tanta gravidade. Qual o motivo da reviravolta? Despropósito na suspeita e na segurança com que me falavam, especialmente na segunda. Afinal os receios se justificavam, defesa natural. A mudança repentina me sobressaltou: nenhuma razão para me virem contar segredos. Busquei evitá-los, contrafeito. Como as informações se multiplicassem, tentei saber em que se baseavam. Nada de concreto: sugestões malévolas apenas. Indícios confusos encorpavam ali dentro, ganhavam relevo, mudavam-se em provas. Fora do mundo, aqueles espíritos caíam em forte impressionabilidade, gastavam as horas longas criando fantasmas ou admitindo, ingênuos, inventos alheios, as informações mais disparatadas. Só mais tarde percebi como embustes grosseiros nos enleiam no cárcere e esforcei-me com desespero por vencer o rebaixamento mental, a credulidade estúpida.

Ouvindo pela primeira vez semelhantes acusações, procurei reagir, mas talvez já houvesse em mim um esboço de alma selvagem. Escorregava pouco a pouco, involuntariamente dava crédito aos boatos. Seria injustiça? Faltavam-me elementos para julgar; no meio novo, a repetição da crueldade verrumava-me na cabeça. Talvez houvesse alguma verdade nos rumores. Enfim que me importava que houvesse ou não? Era ali um estranho, e buscava refugiar-me nos meus pensamentos, olhar pela vigia o litoral branco, as pequenas ondas luminosas; os pensamentos embrulhavam-se, partiam-se, voltavam às murmurações insidiosas, levianas, e a vista se desviava da paisagem uniforme, ia fixar-se na criatura serena, melancólica, de braços cruzados, a um canto, respirando mal. Preocupava-me notar o isolamento de uma pessoa na multidão. De fato não era bem isso. Dirigiam-se a Van der Linden, aparentemente ele não se distinguia dos outros; mas observavam-no, alguns remoques deviam chegar-lhe aos ouvidos. Se se inteirava da vigilância e das picuinhas, o nosso inferno era insignificante comparado ao dele. É uma desgraça necessitarmos esses pontos de referência para agüentarmos uma situação difícil: vemos que alguém sofre mais que nós e deixamos de julgar-nos muito infelizes. E quem sabe se torturamos os outros simplesmente com o fim de experimentar-lhes a resistência? Em última análise estamos experimentando a nossa Ainda não suportamos aquilo, mas vemos que é suportável.

Bem: não chegamos a posição desesperadora. Idéias assim, fragmentos de idéias embrulhadas, machucadas, cortadas ferviam-me no interior. E vinha-me também a recordação de Horácio Valadares a despedir-se fúnebre, agoureiro:

– Se não nos tornarmos a ver, ficam vocês sabendo o lugar da minha morte.

22

POR volta de meio-dia trouxeram-nos caixões com marmitas e o almoço foi distribuído. Olhei de longe a comida feia, mas não foi o aspecto desagradável que me fez evitá-la. Reaparecera-me a inapetência, e só a vista do alimento me provocava náuseas. Voltei-me para o exterior, fui embeber-me na monotonia das ondas, até que a refeição terminasse. Espantava-me conseguir uma pessoa mastigar qualquer coisa diante das imundícies que se agitavam e decompunham na vaga de mijo. O fedor horrível, confusão de cheiros com predominância de amoníaco, já não me afligia: habituara-me a ele e envenenava-me sem perceber isto. Fumava sem descanso, e temia que me chegasse o momento de abandonar o vício.

No escotilhão estabelecera-se um pequeno comércio. Foi ali com certeza que achei meio de renovar a minha provisão de fósforos e cigarros. Não me recordo. Também não sei como nos forneciam água. Lembro-me de que ela se achava à entrada, perto do camarote do padeiro, mas esqueci completamente se estava em balde ou ancoreta, se vinha de encanamento. Afasto a última suposição, estou quase certo de que não existia nenhuma torneira. Esta lacuna me revela o desarranjo interno, pois a sede era grande., estávamos sempre a beber. Findo o rumor das colheres nas vasilhas de lata, arrastados os caixões, reingressei na vida escura da furna, um espinho na consciência.

Inútil, ocioso, a vagar à toa, ouvindo a parolagem dos grupos, tentando familiarizar-me e o trabalho abandonado. Nunca me vira sem ocupação: enxergava na preguiça uma espécie de furto. Necessário escrever, narrar os acontecimentos em que me embaraçava. Certo não os conseguiria desenvolver: faltava-me calma, tudo em redor me parecia insensato. Evidentemente a insensatez era minha: absurdo pretender relatar coisas indefinidas, o fumo e as sombras que me cercavam. Não refleti nisso. Havia-me imposto uma tarefa e de qualquer modo era-me preciso realizá-la. Ou não seria imposição minha esse dever: as circunstâncias é que o determinavam. Indispensável fatigar-me, disciplinar o pensamento rebelde, descrever o balanço das redes, fardos humanos abatidos pelos cantos, a arquejar no enjôo, a vomitar, as feições dos meus novos amigos a acentuar-se pouco a pouco. Não nos encontramos todos os dias em tal situação; de alguma forma devia considerar-me favorecido. Ao chegar, sentira-me atordoado, mas nem uma vez me viera a idéia de estar sendo vítima de injustiça. Lá fora comportava-me automaticamente. A repartição, o despacho, o bonde, o horário, conversas bestas com indivíduos que se mexiam como se fossem puxados a cordões. Ali me exibiam aspectos inéditos da sociedade. Avizinhei-me dos meus troços, afastei a calça e o paletó, dobrados cuidadosamente, abri a valise, retirei o bloco de papel e um lápis, arrumei tudo de novo, sentei-me num caixão, pus-me a escrever à luz que vinha da escotilha. Provavelmente fiquei horas a trabalhar, desordenadamente. Queria atordoar-me, sem dúvida. As letras se acavalavam, miúdas, para economizar espaço, e as entrelinhas eram tão exíguas que as emendas se tornavam difíceis. Realmente nem me lembrava de corrigir a prosa capenga. Faltava-me a certeza de poder um dia aproveitá-la. Os guardas viam-me entregue a ela; quando mal me precatasse, viriam examiná-la, destruí-la; ou talvez eu mesmo a inutilizasse. A hora do jantar não me foi preciso levantar-me, vencer a náusea a olhar as ondas: continuei sentado, jogando na folha os desarranjos que me fervilhavam no espírito. Convidaram-me com insistência, quiseram levar-me para junto dos caixões e das marmitas. Algumas pessoas estranharam a recusa. Um dia inteiro em jejum.

Escrevi até à noite. Se houvesse guardado aquelas páginas, com certeza acharia nelas incongruências, erros, hiatos, repetições. O meu desejo era retratar os circunstantes, mas, além dos nomes, escassamente haverei gravado fragmentos deles: os olhos azuis de José Macedo, a contração facial de Lauro Lago, a queimadura horrível de Gastão, as duas cicatrizes de Epifânio Guilhermino, o peito cabeludo e o rosário do beato José Inácio, a calva de Mário Paiva, os braços magros de Carlos Van der Linden, o rosto negro de Maria Joana iluminado por um sorriso muito branco.

Escureceu, acenderam-se as lâmpadas. Afizera-me ao ambiente e já não me impressionavam o cheiro de amoníaco e o burburinho de feira. Também a sombra leitosa em que boiavam luzes tinha desaparecido. Agora se destacavam os focos elétricos pendentes do teto. No centro o lago de urina estava bem iluminado; as margens se envolviam em penumbra, e no ponto em que me achava as figuras desmaiaram, as letras pouco a pouco se sumiram. Levantei-me, os beiços rachados, a língua ardente, com sede. Fumava o dia todo e assaltavam-me às vezes ligeiras vertigens. Encaminhei-me ao lugar onde bebíamos e não achei água, fiz demoradas buscas inutilmente. A lembrança da noite, do pesadelo extenso, do calor, do negro a coçar as pelancas nojentas, afligiu-me. Naquele estado, o estômago vazio, a garganta seca, ia estirar-me novamente na tábua suja, asfixiar-me, ouvir gemidos, roncos, pragas, borborigmos, delirar, avizinhar-me outra vez da loucura. À medida que o tempo se passava os meus receios cresciam. Tentava iludir-me: ambientado, não experimentaria as ânsias da véspera; na verdade as causas do tormento haviam sido o colarinho, a gravata, a roupa grossa de lã; metido no pijama leve, ser-me-ia possível talvez dormir.



Adiava a hora de recolher-me. Muitos prisioneiros já se haviam entrouxado pelos cantos, e não me decidia a aproximar-me da valise posta em cima do estrado onde me deitara. De repente um mulato de cara enferrujada apareceu, querendo vender-me uma rede por quinze mil-réis. Aceitei-a sem regatear, mas surgiu uma dificuldade: não havia lugar para armá-la, e assim ela não representava nenhum valor. O negociante, engenhoso, cortou o embaraço: milagrosamente se guindou com agilidade de macaco, e em dez minutos o objeto salvador se estendia, amarrado firme a duas colunas, a grande altura, na boca da escotilha. Admirei a perícia do homem e entreguei-lhe uma cédula de vinte mil-réis. Foi buscar o troco. Num momento estaria de volta. Fiquei a esperá-lo, conversando com João Anastácio e Miguel, os dois passageiros que se haviam relacionado comigo. Os outros ainda estavam nebulosos e distantes. Como se chamava aquele sujeito? Não souberam informar-me, e, como o tipo não regressasse, desisti da espera, despedi-me aborrecido por me haver deixado lograr, tentei alcançar o ninho que se agitava muito acima das nossas cabeças. Era uma difícil escalada. Sem tirar os sapatos, utilizando como degraus os punhos das outras redes, consegui chegar à minha, afastei as varandas, operação complicada, e mergulhei no seio de pano com um suspiro de consolo. Não havia travesseiro nem cobertas. Arranjar-me-ia sem eles. O calor diminuíra bastante: findava o receio de congestionar-me, sufocar-me; o ar, porém, ainda era espesso, e voluntariamente me privaria de cobertura. Conseguiria dormir, apesar da sede; esta idéia afugentava as preocupações e dava-me paz. Ligeiras picadas no estômago faziam-me pensar nos caixões e nas marmitas, enojado. Nenhuma fome: com certeza não me seria possível engolir nada. As goelas queimavam, os beiços rachados ardiam, e achava-me tranqüilo. Realmente não era tranqüilidade perfeita. Inclinando-me um pouco, via lá embaixo, numa ponta do estrado, a valise, a calça, o paletó, o chapéu; de quando em quando me voltava para vigiar estes bens. Algumas cédulas, níqueis e pratas estavam em segurança, no porta-moedas, escondido no bolso do pijama, por baixo do lenço. Achava-me bem e adormeceria logo se uma insignificância não me perturbasse: a recordação do mulato enfarruscado que me abafara cinco mil-réis. Eu lhe teria dado cinqüenta sem hesitar. Aperreava-me a safadeza estúpida. Porque não me havia o idiota pedido mais, em negócio? Porque se contentava com um furto pequeno, descoberto em minutos? Ladrão indecente. Enfim aquilo era juízo temerário: possivelmente o homem andava a procurar-me para restituir a diferença No dia seguinte regularizaríamos a transação. Zangava-me por estar perdendo tempo com semelhante niquice, buscava livrar-me dela, considerar friamente os absurdos que me rodeavam. Impossível: diluíam-se, atrapalhavam-se, figuravam retalhos de sonhos. Nesse estado, meio inconsciente, de costas as mãos cruzadas no peito, distingui a pouca distância um polícia negro junto à amurada. Despertei num instante, pensei na criatura bestial que me fizera descer a escada fixando-me uma pistola às costelas. A suspeita e o calafrio de repugnância num momento cessaram. O indivíduo ali próximo não se assemelhava ao bruto corpulento: era um rapaz alto, magro, de feições humanas; debruçado, parecia examinar o interior do porão. Encarei-o, pedi:

– Faz o obséquio de me dar um copo de água? Balançou a cabeça, hesitou:

– Difícil. Será que o senhor pode subir até aqui?

Sem esperar resposta, saiu, voltou com um copo de água, curvou-se para dentro; engatinhei, segurando-me ao punho da rede, à corda, ergui-me no suporte oscilante, cheguei aos varões da amurada, agarrei-me, alcancei o braço estendido, bebi sôfrego. Mas aquilo não bastava: repetimos a operação quatro ou cinco vezes. Não sei como agradeci: murmurei com certeza algumas palavras convencionais e vazias. E escorreguei no fundo da cova movediça, abriguei-me nela arquejante, de barriga para o ar, os olhos presos no soldado.

Estranho, estranho demais. A fadiga alquebrava-me, impedia-me esboçar um sorriso de reconhecimento. Precisamos viver no inferno, mergulhar nos subterrâneos sociais, para avaliar ações que não poderíamos entender aqui em cima. Dar de beber a quem tem sede. Bem. Mas como exercer na vida comum essa obra de misericórdia? Há carência de oportunidade, as boas intenções embotam-se, perdem-se. Ali me havia surgido uma alma na verdade misericordiosa. Ato gratuito, nenhuma esperança de paga; qualquer frase conveniente, resposta de gente educada, morreria isenta de significação. Na véspera outro desconhecido, negro também, me havia encostado um cano de arma à espinha e à ilharga; e qualquer gesto de revolta ou defesa passaria despercebido. Esquisito. Os acontecimentos me apareciam desprovidos de razão, as coisas não se relacionavam. A violência fora determinada apenas pela grosseria existente no primeiro negro; o ato caridoso pela bondade que havia no coração do segundo. Ausência de motivo fora isso, eu não merecia nenhum dos dois tratamentos. Era razoável observá-los com frieza, alheio e distante. Impossível. Insensibilizava-me à brutalidade, encolhera os ombros indiferente, como se não fosse comigo; tinha-me habituado a ela na existência anterior, dirigida a mim e a outros. Não podia esquivar-me àquela piedade que ali espreitava o fundo do porão, em busca de sofrimentos remediáveis. Nunca percebera, em longos anos, casos semelhantes. As idéias desmaiaram, fugiram, e, aos embalos doces da rede, caí num sono de pedra.

23

NO DIA seguinte descobri em Sebastião Hora uma extravagância: expôs, quando nos avizinhávamos da Bahia, o projeto de comunicar-se com o governador, que certamente iria visitá-lo a bordo. A princípio julguei que se tratasse de brincadeira e resolvi colaborar nela. Perfeitamente: um chefe de governo entrando no porão, com ajudante-de-ordem coberto de alamares e troços dourados, para entender-se com um prisioneiro muito bem, nada mais natural. Em seguida alarmei-me. O homem falava sério. Conhecera anos atrás Juraci Magalhães, que certamente iria vê-lo, prestar-lhe auxílio. Lauro Lago sorriu e murmurou:

– Ilusão pequeno-burguesa.

Esse reparo foi insuficiente para chamar o nosso amigo à realidade: forjara uma convicção oposta aos fatos, queria firmar-se nela, cegar voluntariamente, confessar aos outros a cegueira e receber confirmação, pelo menos apoio tácito que lhe preservasse o engano. Tencionei divergir, indicar a degradação, a miséria em que nos achávamos. O desacordo seria inútil: ninguém ali precisava que lhe avivassem os sentidos. Loucura imaginar um político influente descendo àquela profundeza; antes de cair a noite Sebastião Hora se decepcionaria. Claro, intuitivo. Mas não desejava convencer-se e tinha fome de consideração. Quando a miragem se dissipasse e o estado lastimoso novamente lhe surgisse, maquinaria outros fantasmas, embalar-se-ia noutros sonhos. Fora isso, revelava-se perfeitamente lúcido examinando, com José Macedo e Lauro Lago, as causas do insucesso do movimento de Natal. Refugiava-se no passado ou entretinha-se a adornar um futuro improvável; não queria ver o presente. Acomodara-se junto à escada, a mala ao alcance da mão, parecia aguardar um esclarecimento, o fim do equívoco, mudança para um camarote de primeira classe. Repugnando a triste bóia das marmitas, entendera-se com a despensa e recebia numa bandeja alimento de passageiro decente. Desfazia-se em prodigalidades as gorjetas lhe minavam certamente os recursos. Convidou-me para tomar parte nessa ostentação e nesses banquetes. Sempre recusei: se me fosse possível mastigar qualquer coisa, resignar-me-ia à comida ordinária. Qualquer modificação no tratamento de um de nós significava, no meu entender, ofensa aos outros. O nosso pobre amigo isolava-se deles, conservava-se arredio, e isto devia ser-lhe particularmente doloroso; a impossibilidade clara de amoldar-se à vida suja, admitir a convivência fortuita com pessoas humildes, infelizes, até ladrões, perturbava-o. Entendia-se com os dois chefes e acolhia a submissão do ex-contínuo Doutor, encalombado e retinto, que ali, de cócoras, recebia do presidente ordens e pedaços de carne.

Os outros alagoanos, capitão Mata, Benon, Ezequiel Fonseca, Vicente Ribeiro, Manuel Leal, se haviam dissolvido na multidão rio-grandense. Os lineamentos dos homens pouco a pouco se iam definindo; às vezes se misturavam, e em roda surgiam figuras desconexas, uma balbúrdia. Fiz uma lista de nomes; para dirigir-me a alguém, precisava consultá-la, e atrapalhavam-me, confundia os indivíduos. Eram duzentos ou trezentos, vários abatidos pelo enjôo. Não haveria lugar para tantos se as redes não se superpusessem, umas quase tocando o chão, outras alcançando o teto. Dia e noite encerravam corpos: enervadas, ociosas, muitas pessoas viviam deitadas, só se levantando à hora da comida. Tínhamos de andar em ziguezagues e curvaturas, evitando os choques dos balanços, passando por baixo dos punhos. A porcaria aumentava consideravelmente. Se não viessem fazer baldeação, dentro em pouco não teríamos um pedaço de tábua limpa. Mexia-me cauteloso, as calças arregaçadas, examinando cuidadosamente o chão. O sujeito que me ficara a dever cinco mil-réis desapareceu, não sei como achou meio de ocultar-se. As vezes eu o enxergava de longe. Aproximava-me, e o focinho escuro, carrancudo, se desviava, baixava, tinha jeito de farejar-me para dissimular-se nos grupos. Não consegui perguntar como se chamava o desgraçado porque nunca me foi possível indicá-lo. Miserável. Em semelhante apuro, ralar-se ainda mais escondendo-se por causa de um furto miúdo.

Em dois dias aquela gente começava a familiarizar-se comigo. No quartel, eu e capitão Mata vivêramos quase duas semanas a tratar-nos cerimoniosamente; guardávamos recordações que eram travancas e nos distanciavam. Agora criaturas anônimas falavam-me como se tivéssemos estado sempre juntos. Nenhum receio de molestar-nos suprimindo cortesias de fato ridículas nas situações em que nos achávamos. Lá fora tínhamos ocupações diversas, usávamos linguagens diferentes e nos distinguíamos pela roupa; ali, no calor, mal vestidos, meio nus, usando vocabulário escasso, fundindo as gírias da caserna e da estiva, parolávamos na inércia forçada e nos íamos depressa nivelando. E nenhum esforço fazíamos para isso: era a autoridade que nos juntava, suprimia de golpe barreiras por ela própria conservadas e reforçadas. Operários e militares sediciosos, pequeno-burgueses detidos por suspeita, socialmente valíamos tanto como o ladrão que me vendera a rede. Entender-me-ia com ele, seríamos talvez amigos, se o animal não preferisse lesar-me da maneira mais estúpida. Enfim, pela primeira vez, pessoas de outra classe manifestavam-se com franqueza diante de mim. Certas discrepâncias faziam-me pensar em nossas vidas anteriores: um vosmicê me chocava, me empurrava para lugar estreito, em demasia preenchido, onde não me era possível caber. Não havia à beira do lago nauseabundo espaço para nenhum senhor. Esquecíamos diferenças sem querer. Se quiséssemos esquecê-las, seríamos falsos, postiços, intrusos, não conseguiríamos entendimento: estaríamos de sobreaviso, aguardando a qualquer momento manifestações desagradáveis. Evitávamos contrafazer-nos, exibíamos honestamente qualidades naturais e qualidades adquiridas, fugíamos a interpenetração impossível. Evidentemente a minha sintaxe divergia da de Miguel e de João Anastácio, mas isto não constituía nenhum óbice: compreendemo-nos e fomos amigos alguns dias. Isso diminuiu o horror daquela infame travessia, enchemos tarde e manhã com palestras hoje perdidas. Estarão realmente perdidas? Guardaram-se no papel afanosamente rabiscado enquanto as colheres rangiam raspando as marmitas. As notas desapareceram. Os dois homens permanecem, vivos, um agitado, contraditório, modos inquietos de rato, outro sereno e fosco, sem idade, a pele curtida, múmia. O beato José Inácio entrou a desviar-se de mim. Nunca mais tive necessidade de lhe pedir nenhum favor. Lembrava-me dos fósforos oferecidos na primeira noite, do braço curto, peludo e escuro, do rosário de contas brancas e azuis a aparecer pela abertura da camisa grossa de algodão. A ameaça que me dirigia transparecia às vezes no olhar torvo, rancoroso. A habilidade cênica de Mário Paiva expunha-nos com freqüência a flauta do Lobato. A tagarelice desenxabida amolava-me. Contudo habituei-me a ela: estranhava os rápidos silêncios do homem e buscava importunar-me novamente:

– De quem era a flauta, Mário Paiva? E a resposta vinha pronta, mal cantarolada. A flauta era de Lobato. Minha avó sempre dizia:

– Toca flauta, seu... Lobato tinha uma flauta. A flauta era de Lobato.

Em certa ocasião a voz estridente de Benon chamou-me longe:

– Fulano.

Avizinhando-me dele, percebi a indignação resmungada e furiosa de Manuel Leal:

– Ah! negro! Isso tem cabimento? E apostrofou-me severo:

– A culpa é sua. Dá ousadia a esse moleque.

Pobre Manuel Leal. Recordava-se de me haver conhecido menino, filho de proprietário da roça, proprietário na verdade bem chinfrim, e espantava-se daquela mudança. De algum modo se sentia alcançado pelo rebaixamento que me atribuía. Caixeiro-viajante, fizera muito negócio com meu pai, gabara-lhe provavelmente as virtudes: a exatidão rigorosa em pagar contas, vintém por vintém, e a avareza excessiva, a ambição de arrancar exorbitâncias do freguês. Considerando-se pouco mais ou menos igual a mim, afligia-se por me ver aceitar a camaradagem de raça impura e classe inferior, temia ser induzido a nivelamentos perigosos. Desejava talvez formar ali um pequeno grupo diverso da canalha suja e mal vestida, sem banho. De fato não nos lavávamos nem mudávamos a roupa, estávamos imundos, sem dúvida; mas não tínhamos vivido sempre assim. Víamos a porcaria nos corpos dos outros, iríamos percebê-la nas almas dos outros, e seria horrível supor que também estivéssemos imundos. Essa impossibilidade de auto-observação levaria com certeza vários de nós a buscar um isolamento impossível, avivaria susceptibilidades, provocaria desavenças, choques, rixas, motivaria ódio ou desprezo, faria de companheiros inimigos ferozes. Logo no começo me surgiam aquelas incompatibilidades de mau agouro. Se pudesse abrir-me com Manuel Leal, dir-lhe-ia que as nossas pequeninas importâncias antigas não valiam nada. Viagens, mostruários, lábias de cometa, vendas, recibos, tudo se diluía nas sombras de um passado morto. Não conseguiria explicar-me e isto me causava surpresa. Entendia-me com João Anastácio, Miguel, Epifânio Guilhermino, gente estranha, e deixava a um canto o meu velho conhecido de basta cabeleira negra e olhos vivos. Agora os olhos esmoreciam cansados e os cabelos estavam completamente brancos.



24

A TARDE chegamos à Bahia. Vi a cidade emergir pouco a pouco do nevoeiro, ganhar contornos, crescer, avizinhar-se. O calhambeque passou a barra, cortou as águas calmas do porto e atracou. Agora não me achava como na manhã da véspera, enxergando coqueiros, dunas, telhados de armazéns longe, procurando localizar na praia a minha casa de arrabalde: com o rosto encaixilhado na vigia, em atenção forçada, cheia de fugas, observava o trabalho dos carregadores, o movimento dos carros a rodar nos trilhos, as funções de um guindaste, a lingada a balançar, a descer, ondas pequenas lambendo o molhe verde. Faziam-me falta as veias da minha terra, botes e canoas a jogar desesperados, sumindo-se aqui, surgindo além, galgando a crista da vaga. Perto, a azáfama, o cruzar de passageiros e visitantes, risos, abraços, despedidas, lágrimas. Recordei-me de haver pisado aquelas pedras vinte anos atrás, em viagem para o sul, buscando cavar a vida. A noite embrenhara-me em diversas ruas, sem conseguir chegar ao telégrafo. Um desconhecido solícito se propusera a ensinar-me o caminho. Dobrava esquinas, avançava, recuava, oferecia-me esta informação desconsoladora:

– Acho que devia ser por estes lados.

De volta a bordo, achara-me no salão repleto. Uma estrangeira velha se acamaradara comigo: dizia-me casos do Rio, dava-me conselhos, e eu lhe respondia num francês que ela se esforçava terrivelmente por entender. Havia dança e o piano desafinava. Um viajante besta queria recitar. Despertara-me a curiosidade uma família de mulatos, cinco irmãos de cores variadas: havia um sujeito mascavo, de carapinha, beiçudo, e uma louraça bonita, perfeitamente branca. Essas coisas chegavam-me à lembrança enquanto me detinha observando a agitação do cais. Mudança completa em vinte anos.

Ociosos, basbaques interrompiam o trânsito, e um moleque dava mostras de examinar cuidadoso o interior do porão: mais de uma hora em pé, indo e vindo sem se afastar muito do mesmo lugar, esticando o pescoço magro, a vista fixa nas caras estranhas, nas cabeças que se metiam pelos buracos e pareciam guilhotinadas. O interesse manifestado pelo negrinho originou-me a idéia de que ele desejava comunicação: talvez um amigo de qualquer de nós o enviasse ali para colher notícia, dar-nos esperanças. Espigado na roupa nova, o sujeitinho inspirou-me confiança: fiz-lhe sinais, pedi-lhe que se aproximasse. Naquele apuro, esforçando-nos embora por conservar o juízo, a reflexão, tornamo-nos crédulos em demasia: tudo em redor de nós se altera, os sentidos nos dão impressões esquisitas, o pensamento se embrulha, pára, ou se atira em cabriolas insensatas. Poucos objetos, fatos escassos, nos arrastam a conclusões pasmosas. E às vezes, na carência dos objetos e dos fatos, criam-se fantasmas. Sebastião Hora, pela manhã, não tivera nenhum indício de que Juraci Magalhães iria visitá-lo: admitira uma hipótese gratuita e logo a mudara em certeza. O meu caso era menos grave: estava ali um negrinho bem vestido a espiar-nos, curioso, a beiçorra contraindo-se num sorriso infantil. Não nos trazia nenhum aviso, claro: afastei a possibilidade remota e vacilante. Certifiquei-me, porém, de que ele poderia mostrar lá fora pedaços da nossa existência no sepulcro. Aferrei-me à convicção e, não sei por que extravagância, imaginei-o próximo de Edison Carneiro, capaz de se avistar no mesmo dia com este amigo, com quem me correspondia. Depois de muitos acenos, gritei com toda a força dos pulmões débeis:

– Conhece Edison Carneiro?

A interrogação abafada perdeu-se; repeti-a diversas vezes, até julgá-la compreendida. O tipinho balançou a cabeça afirmativamente. Considerei absurdo jogar semelhante frase numa cidade populosa e sobrestive; passados minutos, inquiri novamente:

– Sabe onde fica a Rua dos Barris?

Outra afirmação, o risinho inexpressivo colado nos beiços grossos. Bem. Nenhum disparate: pisávamos o terreno firme das probabilidades: andar nas vias públicas, olhar as placas, era exercício de qualquer transeunte. Do navio para a terra estabeleceu-se um diálogo que supus bastante claro: berros de um lado, gestos, aprovações silenciosas do outro. Perguntei ao sujeito se ele queria ser portador de uma carta. Consentiu. Sem dúvida: agitava o crânio mirim com doçura a tudo quanto ouvia, e nem me vinha a suspeita de não me fazer entender. Fui abrir a valise, retirei o bloco de papel, escrevi a lápis um bilhete narrando o miserável estado em que nos achávamos. Evitava pensar que o escrito não chegaria ao destino; e caso chegasse, o meu distante camarada nenhum recurso tinha para auxiliar-nos; contudo afligia-me a necessidade urgente de enviar-lhe aquela exposição. Rabisquei à pressa, interrompendo-me a cada instante para examinar o negrinho, receando que ele se ausentasse. Falava-lhe nesses intervalos, embaralhava explicações. Descasquei em seguida uma laranja, cuidadosamente. Lancei na água o fruto, e a casca. uma longa fita em espiral, foi enrolada com jeito, afinal se tornou uma esfera oca. No interior pus a folha dobrada. Fiz algumas recomendações ao negro, medi atento a distância que nos separava, meti o braço pela vigia, arremessei a bola com vigor desesperado. Atingiu o cais, rolou, estacou a dois metros da borda. Apesar de haver traçado o endereço bem nítido, em caracteres graúdos, comecei a esgoelar-me, repetindo com insistência:

– Edison Carneiro. Rua dos Barris 68

O rapaz olhava-me perplexo e interrogava-me sacudindo a cara chata. Só então me veio a certeza de que ele não havia percebido as minhas falas. Expliquei-lhe aos berros que ali havia um papel e continuei a dar-lhe as indicações precisas: o nome e a residência do escritor baiano. Mas já não tinha nenhuma confiança no resultado: ou a minha voz fraca desfalecia no burburinho, nos rumores da carga e da descarga, ou me achava diante de uma estupidez maciça.

Trabalho perdido. Inúteis os brados e os acenos. Calei-me zangado comigo, por me haver iludido à toa, furioso com o animal, que não me entendera e, alheio ao guindaste, aos visitantes, aos passageiros, aos carregadores, continuava a farejar o porão, como um rato, erguendo o focinho, dirigindo-nos os bugalhos claros. O risinho insignificante, a hesitação, os modos oblíquos, tinham-se esvaído. Evidentemente não me ligava importância: espalhava a atenção pelos outros rostos, pelas aberturas desertas. Estivera imóvel uns minutos, fingindo escutar-me, a face obtusa contraída numa careta. Recomeçara o passeio. Alguns passos para um lado, alguns passos para outro, demora curta, e novamente se deslocava, sem despregar a vista do costado da embarcação. Nessas idas e vindas passava perto da laranja e persuadia-me quase de que ia baixar-se e apanhá-la. Tudo se sumiu. Numa das viagens encontrou no caminho o objeto dos meus cuidados. Parou, deu-lhe um pontapé, jogou-o na água. Durante algum tempo o bilhete e o invólucro meio desfeito boiaram na onda, sacudiram-se, bateram no muro esverdeado. E desapareceram.



25

RECOLHI-ME, fui entregar-me à redação das minhas notas, mas não consegui fixar-me nelas: a atenção se desviava, fugia para uma figura negra que da coberta nos examinava com insistência. Era um eclesiástico moreno e robusto, de expressão enérgica. Ficava tempo esquecido a pesquisar o fundo do porão, como se procurasse pessoas conhecidas; metia a mão direita na manga esquerda da batina, parecia indicar ter ali qualquer coisa para enviar-nos. Nunca o tendo visto antes, conservei-me arredio, mas fiquei sabendo o nome do homem. Padre Falcão embarcara na véspera, em Maceió; provavelmente estava ali buscando meio de ser útil aos viajantes de Alagoas. A autoridade experimentaria dura surpresa se conhecesse aqueles manejos. Excelente padre Falcão. Durante o resto da viagem notei-o mais de uma vez em ronda ao nosso curral. O olhar grave se adoçava, os lábios firmes se entreabriam num sorriso bom, exibindo enormes dentes. Era pouco mais ou menos o que poderíamos desejar, ver alguém interessar-se por nós, demonstrar-nos uma solidariedade comprometedora. Isso lá fora passaria despercebido; ali tinha valor imenso: é de coisas semelhantes que fazemos as nossas construções subterrâneas.

A verdade é que não consegui escrever. Deitei-me cedo, sem tirar os sapatos, como no dia anterior. Realmente não havia lugar onde colocá-los: se os largasse no chão, amanheceriam com certeza molhados de mijo; ou talvez o gatuno de cara enferrujada os levasse. Necessário vigiar a maleta, a calça e o paletó bem visíveis na ponta do estrado. A chavezinha estava comigo, dentro do porta-moedas; nos bolsos da roupa não havia nada suscetível de furto. Apesar disso, a bagagem não me parecia segura. Se não fosse o receio de molestar os companheiros, tê-la-ia levado para dentro da rede. Ser-me-ia então possível dormir livre de cuidados. A vigilância pouco a pouco se tornava maquinal: embrenhandome em pensamentos confusos, às vezes despertava erguendome sobre o cotovelo, curvando-me sobre a varanda para examinar os troços, a esquina da tábua suja. Esforçava-me por distinguir nos rumores o som de um piano. As redes imóveis: o calhambeque permanecia atracado, provavelmente. Aquela hora visitantes e passageiros estariam dançando no salão; um cretino desejava recitar; diversos irmãos mulatos exibiam coloração muito variada; uma francesa velha, experiente, dava conselhos a um provinciano ingênuo, interrompia-se para resmungar a frase percebida vinte anos atrás: – “Quel pays, mon Dieu! Haveria um piano a bordo? Talvez não. Viajávamos num traste horrível, caduco, ótimo para naufrágio. Contudo a recordação da antiga viagem me perseguia. A qualquer momento me chegariam compassos de valsa aos ouvidos. Três ou quatro indivíduos, no bar, se distraíam bebendo e jogando poker. Um casal novo se encostava à amurada, em ponto obscuro. Algumas mulheres alegres, em cadeiras de vime e espreguiçadeiras, se expandiam com sujeitos ruidosos, numa grulhada internacional. Bem. Essas observações de vinte anos não tinham significação. Tolice imaginar ali perto o imbecil do recitativo, a família mulata, a francesa idosa, os jogadores do poker, o enlevo de um par jovem; provavelmente argentinas e polacas airadas já não vinham cavar a vida no Brasil.

Fumei o último cigarro, lembrei-me de haver esgotado o sortimento da valise. Calculara mal as exigências do vício e achava-me em dificuldade. Passaria o resto da noite sem fu mar, não me chegaria o sono. Levava a mão ao bolso, mecanicamente, irritava-me, quando vi, por cima da minha cabeça, o negro que me havia matado a sede. Sem refletir, fiz o pedido:

– O senhor me arranja, por obséquio, três maços de cigarros e fósforos?

– Que marca? perguntou o soldado. Qualquer uma.

Pareceu-me que indicar a marca era demasiada exigência. Quis designar a que habitualmente usava; talvez não fosse achada, e acanhar-me-ia ver o rapaz ir duas vezes ao bar por encargo tão insignificante. Julgava-me sem direito de escolher, temia que o homem se impacientasse. Era um acaso feliz encontrar quem me valesse em tal dificuldade. Retirei uma cédula da carteira, segurei-me à corda, alcancei os varões de ferro, como na véspera, entreguei o dinheiro ao polícia, jurando no íntimo não tornar a incomodá-lo, voltei a estirar-me, cansado. Em conseqüência da inércia obrigatória, ou por falta de alimentação, qualquer esforço me abatia. Ao cabo dez minutos o misericordioso preto ressurgiu:

– Abra a rede.

Afastei as varandas, recebi em cima do peito os objetos da encomenda, as pratas e os níqueis do troco.

– Muito obrigado.

Pus-me a fumar, embalado por uma doce tontura. Com o navio atracado, as oscilações que experimentávamos eram quase insensíveis. Sentia-me realmente bem. As pessoas e as coisas em redor esmoreciam na fumaça do cigarro, as idéias escassas decompunham-se, volatizavam-se, e afinal eu já nem sabia se aquela tênue neblina estava dentro ou fora de mim. Adormecia, acordava, a brasa do cigarro cobria-se de cinza e avivava-se. As pálpebras uniam-se, descerravam-se penosamente, nos vaivéns dos cochilos a figura do negro desaparecia, reaparecia, e isto me reconciliava com a humanidade. Uma grande paz me envolvia, ausência completa das complicações que me aperreavam. A dorzinha aguda que o abscesso da unha me causava extinguia-se, era apenas um leve torpor Nem picadas no estômago nem contrações nos intestinos: era como se estes órgãos não existissem. Nada havia ingerido ultimamente, impossível até pensar em comer. Ia com certeza prolongar-se a medonha sitiofobia, mas a perspectiva de nenhum modo me assustava. Indiferença. Tanto rendia estar ali como acolá, viver de uma forma como de outra, ou não viver. Não me desgostava acabar suavemente, escorregar aos poucos na eternidade, envolto em sentimentos generosos. levar comigo a recordação do negro que velava a minha fraqueza. firme e sério, de braços cruzados. A visão benigna desmaiou e sumiu-se, as trevas do sono cobriram-me, foram-se adensando.

Ligeiras pancadas no corpo despertaram-me súbito Estremeci, depois me revoltei: da coberta jogavam no porão cascas de tangerina, que me vinham cair dentro da rede. Pro cediam exatamente como se as lançassem num chiqueiro. Protestei furioso, mas o protesto e a fúria desanimaram, a voz fraca deve ter morrido a poucos metros. Resignei-me em seguida. Inútil gritar. Um chiqueiro, evidentemente. Era como se fôssemos animais.

– Covardes.

Não xingava, não desabafava: reconhecia somente um fato. Aliás dependia de nós enxergar naquilo um vilipêndio Não me supunha aviltado. Por instantes imaginei que ignoravam na tolda a nossa existência de tatus. Impossível. Os ruídos, o falatório de algumas centenas de pessoas, o fedor que se exalava da infame cloaca facilmente nos revelavam. As cascas de tangerina caíam-me sem cessar na rede Tencionei apanhá-las, atirá-las no charco de urina. Contive-medesprendiam cheiro agradável, e isto obliterou os últimos resíduos da cólera, fez-me esquecer o intuito ruim que as tinha enviado. Esmaguei-as entre os dedos, aspirei o odor acre e espesso; o sumo embebia-se nas mãos, impregnava-se na roupa. Não queria julgar-me tão desgraçado como as aparências indicavam. Um negro boçal me dirigira a pistola à espinha, à ilharga, ao peito. Um negro compassivo me exibira cantos secretos da alma, belezas nunca suspeitadas. Agora indivíduos ocultos, inacessíveis, tentavam ofender-me, insultar-me. As ofensas e os insultos esfumavam-se no ar, convertiam-se em presente amável. Aqueles fatos não encerravam, possivelmente, a significação que eu lhes atribuía. O selvagem de bugalho vermelho me encostara sem raiva a arma ao corpo: ação repetida, profissional, movimento de bruto impassível. Entregando-se ao comportamento bestial, conservava longe o espírito, numa cama de meretriz vagabunda, num botequim sujo de arrabalde. E a criatura solícita que me favorecera duas vezes comportara-se levada pelo hábito, nem avaliava a grandeza do benefício. Proceder mecânico de funcionário. Arreliava-me essa conjetura, confessava-me ingrato. Para justificar o primeiro soldado, reduzia a benevolência do segundo. O infeliz jogo mental nos despoja, nos rouba os impulsos mais sãos. Contingência miserável. Nessa tentativa de nivelamento, precisava esquivar-me às injúrias que vinham da coberta, me batiam nos braços e no rosto, me coloriam de uma camada amarela verdoenga. Loucura ressentir-me. Aquilo era bom. A fadiga crescia, atava-me os membros. E resvalei na escuridão, tranqüilo, absorvendo as emanações das cascas de tangerina, que me vieram perfumar os sonhos



26

VENDO-ME a redigir as notas difíceis, sentado no caixão. enxergando mal na sombra densa, o nariz junto à folha, a valise sobre os joelhos servindo-me de escrivaninha, o padeiro ofereceu-me o seu camarote, perto do escotilhão e do mictório improvisado. Não me lembro do oferecimento e isto revela a minha perturbação. Nem consigo reconstituir a figura do padeiro. Sei que era um homem baixo, moreno, de mangas arregaçadas. O resto perdeu-se. O indivíduo que me livrou daquele inferno e me facultou algumas horas de silêncio e repouso sumiu-se e poucos traços me deixou no espírito. Esqueci as conversas que tive com ele. Provavelmente não houve conversa. Algumas palavras apenas.



E achei-me num cubículo onde havia um beliche, mesa estreita e cadeira. Havia-me em dois ou três dias esquecido completamente desses confortos. Agora podia utilizar móveis, arriar no assento gasto, alongar o braço em cima de uma tábua, escrever dir@ito; a luz que entrava pela vigia, às minhas costas, iluminava parte do papel. Fechava-me, aturdia-me na composição. O espírito estava lúcido, mas era lucidez esquisita: percebia tipos, ocorrências, em fragmentos; quando se tratava de estabelecer relação, surgiam cortes, hiatos, falhas alarmantes. Um inseto a zumbir-me nos ouvidos. Seria efeito do ar denso ou do longo jejum? Fatigava-me, saía, andava a escutar pedaços de conversas. Notariam a minha confusão? Pouco provável. Exteriormente devia ser um sujeito de senso; não me capacitava disto e media cuidadoso palavras e gestos. Precaução desnecessária: nenhum desejo de falar, preguiça de juntar as idéias mais singelas, impossibilidade total de meter-me em qualquer discussão: largariam na minha presença os maiores absurdos, e calar-me-ia, aprova-los-ia tacitamente. Aborrecia-me, contendo bocejos, até ouvir o arrastar dos caixões, o tinir das colheres nas marmitas; recolhia-me, cerrava a porta. Insuportável o cheiro da comida. Se me fosse possível mastigar um bocado, a zoeira deixaria de perseguir-me. No calor, despojava-me do casaco, punha-me a arquejar, expondo-me ao vento morno e salgado que entrava pela vigia. Tinha licença para estirar-me na cama e não hesitava em servir-me dela. Ausência de susceptibilidades: não me importava encostar-me em lençóis alheios, umedecê-los de suor, manchá-los, manchar-me. Agora os meus trastes se arrumavam num canto: ali estavam resguardados, longe do sujeito que me furtara cinco mil-réis. Não me fora possível reencontrar esse canalha: tinha um jeito de escapulir-se, agachar-se, mergulhar, por causa de uma insignificância. Fizera-me enorme favor e esgueirava-se com medo. Eu pretendia dizer-lhe que estava muito agradecido; o miserável fugia e culpava-se. Tais desencontros amargam em demasia, enchem-nos de fel: queremos expressar agradecimento sincero e verificamos que o nosso salvador é um patife. Somos forçados a reconhecer que os valores estabelecidos se modificam. Precisamos viver, embora não seja certo que a nossa vida represente qualquer utilidade. Procuramos agüentar-nos de uma ou de outra maneira, adquirimos hábitos novos, juízo diverso do que nos orientava lá fora.

Antes de me entocar naquele abrigo, desculpava-me da inércia alegando a mim mesmo ser difícil combinarmos frases com decência entre duas ou três centenas de pessoas, ouvindo pragas, gemidos, roncos, vômitos. Falavam-me a cada instante, perturbavam-me. A feição misteriosa e inquieta de Miguel, a pachorra, a frieza, os olhos agudos de Anastácio, a parolagem frívola do estudantezinho João Rocha afastavam-me do trabalho. Esses estavam perto de mim. Mas não me era possível deixar de atentar noutros mais distantes. A cicatriz medonha de Gastão repuxava-lhe os músculos do rosto, estampava-lhe um sorriso sarcástico, invariável, e isto me dava a impressão de que o rapaz zombava dos meus desesperados esforços para agarrar-me a um assunto. Paulo Pinto, sifilítico, exibia umas canelas pretas finas demais. Era ele que tinha uma bala na perna? Várias vezes busquei examinar esse ponto; as informações perdiam-se. Bem. Se não era ele, seria talvez o chauffeur Domício Fernandes. Um dos dois. A verdade é que não cheguei a distinguir Domício Fernandes de Paulo Pinto. Confusão desarrazoada: juntos, notava-se que diferiam bastante; vendo um deles, sempre me aconteceu trocar-lhe o nome. Os olhos vermelhos do cabra de Lampião indicavam malvadez. Bicho sarará, arrepiado, os fogachos duros brilhando na alvura sardenta, Euclides era feroz, sem dúvida. Impossível fixar a atenção no período riscado, emendado, incompleto. No camarote do padeiro a insuficiência permanecia e já não tinha recurso para justificar-me. Vergado no caixão, quase de cócoras, o braço encolhido, limitar-me-ia a reproduzir sem comentários cenas próximas: seria uma espécie de fotógrafo ou repórter; agora, isolado, necessitava arrumar pensamentos, e eles recalcitravam. Defendia-me dizendo a mim mesmo não me achar inteiramente só: aqueles berros, ali próximo, rebentavam-me os tímpanos. Quem estaria a vociferar com tanta violência? Ramiro, com certeza. Ia-me acostumando aos seus furores. Tinham-lhe causado lá de cima algum incômodo, batera-lhe talvez no corpo uma casca de tangerina, e o garoto se danava em gritos roucos a inimigos invisíveis, parecia que o estavam estrangulando. A coragem doida do menino encantava-me. Com certeza não tinha consciência do nosso estado. Enquanto os outros se moviam cautelosos, falando baixo, ele pisava firme, dirigia-se aos soldados em destampatórios, excedia-se em exigências ásperas, verdadeiras ordens. Depois ria num estouvamento feliz, alheio à imundície, corria por todos os cantos, exibindo as bochechas coradas, e à noite repousava calmo, como se o protegesse o sorriso doce da mamãe. A bulha de Ramiro não me deixava escrever. Levantava-me, satisfeito por achar explicação para o meu desarranjo interior, abria a porta. Mário Paiva se avizinhava, remoia uma verbosidade insípida, cantavam pela centésima vez a flauta do Lobato. Nunca vi pessoa mais pau. Contudo eu gostava dele. Uma caceteação original, caceteação amável. Víamos daquele ponto o grupo que se estabelecera à entrada e quase nunca se afastava dali. José Macedo fumava placidamente o cachimbo, vermelho e gordinho, entendia-se com os companheiros de Natal, dava-lhes conselhos, fazia contas, sentado na rede. Suponho que era o caixa, andava sempre cochichando negócios de dinheiro. Ex-diretor do tesouro, dois dias ministro da Fazenda revolucionário, habituara-se ao ofício e prolongava-o. Sebastião Félix, amigo dos espíritos, ia adquirindo uns modos fúnebres de espírito; desdenhava a existência terrena e acolhia-se no outro ,mundo. Operação lastimosa, com luz fraca, tentou ali realizar o pequeno dentista Guerra no queixo do estivador João Francisco Gregório, que estava feroz, de cara túmida, aperreado com um molar. Guerra manejou o paciente conforme as regras e meteu-lhe o boticão na boca; desprezou o dente cariado e, com destreza, segurou um perfeito; como a vítima reclamasse, agitou o instrumento, fez fincapé, bradando enérgico:

– Doente comigo não tem conversa.

Houve um rugido. Uma garra prendeu-lhe a mão, tomou-lhe o ferro. E o largo pé do estivador plantou-se no peito magro do dentista, que foi cair longe. Sebastião Hora continuava junto à escada, a mala ao alcance da mão. Lugar inconveniente. A latrina ficava lá em cima e havia sempre gente a subir e a descer. As duas mulheres passavam, depois desapareciam além das cortinas estendidas ao fundo. Nenhuma comunicação conosco. O riso acolhedor de Maria Joana banhava-lhe o rosto negro, mas Leonila tinha uma sisudez fria de metal. Sertaneja, provavelmente, educara-se e vivera no horror ao homem. Ausência de palestras, de familiaridade. Escondia-se, levava a outra para a fornalha, iam assar, frigir-se, derreter-se na temperatura medonha. Coitadas. Entre nós distrair-se-iam, respirariam por baixo da escotilha, abreviariam as horas, esqueceriam as misérias e as privações; refrearíamos as nossas línguas, os operários deixariam de contar anedotas obscenas e insulsas. Penalizavam-me em excesso as pobres mulheres, atormentava-me ver Maria Joana, tão viva e tão fresca, estiolar-se no retiro e no mormaço. Comparado à furna delas, o camarote do padeiro significava luxo e ostentação. Afligia-me ocupá-lo, sentar-me em cadeira, firmar os cotovelos em mesa, quando a alguns passos homens acabrunhados vergavam sobre malotes e trouxas. Envergonhava-me. Talvez essa vergonha fosse um pretexto para esquivar-me, abandonar o lápis e o papel.

A verdade é que não me trancava muitas horas. Ordinariamente deixava a porta aberta, em minutos o cubículo se enchia. Como prosseguir na tarefa diante daqueles indiscretos que me vinham examinar a escrita por cima do ombro? Além de tudo era-me indispensável observar as pessoas, exibi-las com relativa fidelidade. Outra razão para vadiagem. Os meus desesperados esforços rendiam menos que nos primeiros dias. Tinham-me servido para alhear-me, esquecer as fisionomias decompostas no enjôo e na febre, a imundície, o calor. Representavam de fato um refúgio. Agora podia ocultar-me, dispensar aquele recurso. E não sossegava, tinha remorso por achar-me inútil. Erguia-me, chegava-me aos novos camaradas. Necessário conhecê-los bem. A sinceridade patenteava-se no rosto de Lauro Lago, na voz breve, sacudida, incisiva. Capitão Mata, furioso na chegada, ambientara-se rapidamente conservara o apetite, animava-se, ria satisfeito, como se tivesse vivido sempre num porão; abandonara os toques da corneta, os dentes de sagüi, usava palavras subversivas e ia-se tornando um revolucionário perigoso. Van der Linden arfava penosamente, a resignação no rosto pálido. Carlindo Revoredo, nome esquisito. Tudo nele era esquisito. Porque não falava, não se mexia? Intrigava-me aquele gigante imóvel e silencioso.



27

MANDARAM-NOS subir à coberta, apinhamo-nos em magote ao pé de um mastro. Que diabo estaríamos fazendo ali? Desejava informar-me, apesar de saber que a pergunta seria inútil. Nenhum dos companheiros estava em condição de satisfazer-me a curiosidade, e evidentemente os sujeitos que nos davam ordens não iriam explicar-se. Esse automatismo, renovado com freqüência nas cadeias, é uma tortura; as pessoas livres não imaginam a extensão do tormento. Certo há uma razão para nos mexermos desta ou daquela maneira, mas, desconhecendo o móvel dos nossos atos, andamos à toa, desarvorados. Roubam-nos completamente a iniciativa, os nossos desejos, os intuitos mais reservados estão sujeitos a verificação; e forçam-nos a procedimento desarrazoado. Perdemo-nos em conjeturas. Será que, trazendo-nos para aqui, tiveram a intenção de melhorar-nos a saúde, fazer-nos respirar um pouco de ar puro, mostrar-nos o sol? Porque não pensaram nisso antes? Não, com certeza estamos em erro: ninguém vai inquietar-se com os nossos miseráveis pulmões. Porque nos trouxeram, pois? Talvez tenham querido mostrar-nos aos passageiros virtuosos, expressar-lhes indiretamente que é possível coagi-los, equipará-los a réprobos como nós, se não se comportarem bem. As suposições nos atordoam, falhas todas, enxergamos enfim uma causa imprevisível ou permanece,nos na ignorância.

Naquela manhã ficamos duas horas entre fardos e caixas. meio encandeados à luz. Formávamos juntos um acervo de trastes, valíamos tanto como as bagagens trazidas lá de baixo e as mercadorias a que nos misturávamos. Em redor de nós uma cerca invisível se erguia: não nos aventurávamos a afastar-nos dali, ignorávamos se nos restava o direito de chegar à amurada O mar tinha-se tornado vermelho, um vermelho carregado tirante a negro. Longe surgia a coloração natural, perturbada por manchas escuras, indecisas; perto uma dessas nódoas se alargava e definia, viajávamos nela, curiosa esteira de algas cor de ferrugem. Durante algum tempo aquilo nos interessou e prendeu; como nada se alterava, depressa nos cansamos, ali permanecemos indiferentes, ao desabrigo, buscando em vão pelos arredores uma nesga de sombra Um sujeito acocorado a alguns metros, oferecia mangas. Achei-lhes boa aparência, comprei uma, descasquei-a com o instrumento que o vendedor tinha no cesto: canivete ou faca. Nenhum apetite, as entranhas sempre inertes; o que me tentou foi a beleza amarela. Cortei um pedaço da polpa, tentei mastigá-la. Súbita contração paralisou-me o queixo, arrepiou-meteria cuspido se a boca não estivesse inteiramente seca. Azedume incrível. Repeli com ódio o amaldiçoado fruto. O arremesso violento jogou-o na água, serviu-me para medir a distância que me separava da amurada. Não me abalançava a transpô-la, andar cinco ou seis passos, ir debruçar-me, examinar a ferrugem viva que o navio sulcava. Nenhum sinal de terra, nada alterava a monotonia. Em vão pesquisávamos o horizonte, buscando jangada de pescador ou asa de gaivota. Enervado, sentei-me num caixão, estúpido, em duro silêncio, os olhos e os ouvidos inúteis. Suponho que ninguém me dirigiu a palavra, e se isto sucedeu, mostrei-me surdo: o assunto mais interessante não dissiparia o longo marasmo Enojava-me ter as mãos sujas e não poder lavá-las: o suco da manga colava-me os dedos, a umidade pegajosa me desagradava em excesso. Impossível obter um caneco de água. O meu desejo era descer livrar-me da viscosidade, entrar no camarote do padeiro ia-me habituando àquela existência de bicho em furna, as desgraças, repetindo-se, deixam de impressionar-nos, mudam-se em fatos normais. Excetuando-se a figura do excelente padre Falcão, um soldado a aparecer na escotilha, os portadores do almoço e do jantar, não víamos lá dentro pessoa que nos recordasse a liberdade. Ganhávamos calos na alma, atenuavam-se as misérias por falta de comparação. Realmente infeliz era o pobre Manuel Leal, que resistia, se esforçava por estabelecer entre nós diferenças impossíveis. Em geral nos acomodávamos, de qualquer jeito.

A mudança daquele dia nos agravou o desassossego. A gente da primeira classe matava o tempo rondando no convés, agrupava-se, estacionava; enchia-me de vergonha, imaginava estarmos a servir de motivo a pasmaceira; com certeza olhares oblíquos, gestos de rancor e desprezo, se dirigiam a nós. Achavam-me objeto de análise e cotejos humilhantes: viam-me nos olhos baços, na cara pálida, na magreza, no encolhimento, sinais de criminosos. O desespero de Manuel Leal por não se poder manifestar, declarar-se vítima, dizer aos passageiros bem vestidos que gostava deles e abominava revoluções devia ser tremendo. A luz crua feria-me a vista, engelhava-me as pálpebras, molhadas como se por baixo delas corressem argueiros; ofuscava-me e não poderia afirmar se realmente excitávamos curiosidade: suposição e nada mais. Sobre as costas fervilhavam brasas. Nenhuma cobertura. Se andássemos alguns metros, acharíamos teto. Impossível retirar-nos: havia em torno de nós um muro invisível. Necessário ficarmos ali em pé, sentados, deitados, imóveis, expostos àquele terrível sinapismo luminoso. E não avistávamos faixa de praia, ave ou barco. A imensidão vazia, o alto céu azul, as plantas invariáveis, vermelhas, ferrugentas, espalhando na água o estranho lençol cheio de rasgões.

Duas horas de compridos bocejos. E obrigaram-nos a descer. Recebemos então uma agradável surpresa: durante a nossa ausência haviam feito baldeação na cafua, as porca rias tinham desaparecido, esgotara-se o poço de mijo, nas tábuas úmidas espalhava-se uma camada fina de areia. Bem. Alargava-se o espaço transitável, conseguíamos agora mexer-nos sem receio da onda pútrida. Acomodaram-se as bagagens, corpos fatigados estenderam-se com desafogo no chão limpo. E destravaram-se as línguas. Já não nos sufocávamos respirando amoníaco, estávamos quase alegres. Um operário de Rio Grande pôs-se a cantar uma lengalenga chatíssima que findava neste pavoroso estribilho:

Chenhenhen, chenhenhen, chenhenhen, chenhenhen.

Risos, anedotas. Naquele ambiente desmanchar-se-ia talvez o bolo que me subia à garganta, voltar-me-ia a saliva à boca ardente. Mas foi um breve intervalo. A hora do almoço novos resíduos se acumularam no chão. E como havia sempre alguns homens de costas junto ao camarote do padeiro, o líquido marejou, filetes engrossaram na areia.



28

TINHA-ME recolhido ao anoitecer. E olhava lá de cima o balanço vagaroso das redes, ouvia o burburinho confuso da multidão vaga. Pensava em muitas coisas indefinidas ou não pensava. Queria segurar-me a casos pessoais, remotos e inconsistentes: filandras, tolice pensar neles. Partiam-se a cada instante, deixavam-me diante dos olhos a realidade chinfrim: homens exaustos, uns tentando erguer-se, outros sonolentos e febris.

Algumas dúzias de criaturas vivas agitavam-se, falavam, davam-me a impressão de passear num cemitério. Eram as que me interessavam. As trouxas humanas abatidas pelos cantos, a arquejar, nada significavam Felizmente a visão obscena o preto sem-vergonha a coçar, a repuxar as pelancas nojentas dos quibas, desaparecera. A tromba safada e lorpa sumira-se; às vezes me aborrecia voluntariamente a procurá-la em vão José Inácio, o caboclo do rosário, me evitava sempre, continuava a ameaçar-me de longe com olhares maus, sintomas da revolução beata que lhe fervia no interior O mulato enfarruscado, ladrão de cinco mil-réis, agachava-se pelos cantos, exibia furtivo um pedaço de focinho Desviava-me dessas chateações próximas, refugiava-me noutras distantes. O mundo se tornava fascista. Num mundo assim, que futuro nos reserva riam? Provavelmente não havia lugar para nós, éramos fantasmas, rolaríamos de cárcere em cárcere, findaríamos num campo de concentração. Nenhuma utilidade representávamos na ordem nova. Se nos largassem, vagaríamos tristes, inofensivos e desocupados, farrapos vivos, velhos prematuros; desejaríamos enlouquecer, recolher-nos ao hospício ou ter coragem de amarrar uma corda ao pescoço e dar o mergulho decisivo. Essas idéias, repetidas, vexavam-me; tanto me embrenhara nelas que me sentia inteiramente perdido. Afligia-me especialmente supor que não me seria possível nunca mais trabalhar; arrastando-me em ociosidade obrigatória, dependeria dos outros, indigno e servil. Naquela noite devo ter remoído essas coisas, a agitar-me levemente, as varandas servindo-me de cobertas.

Do lugar em que me achava distinguia-se metade do alojamento; o sorriso e a barriguinha de Macedo, os óculos de Lauro Lago, as listas do pijama vistoso de Sebastião Hora e o acaçapamento do negro Doutor, estavam invisíveis. Não me seria possível ouvir a flauta de seu Lobato. De repente me feriu um som lento e queixoso, semelhante a um longo gemido. Curvei-me, observei os arredores. Estaria alguém a morrer? Ausência de anormalidade; figuras esquivas pelos cantos, bagagens, sombras, vultos caídos, o ramerrão de todos os dias; apenas o lago do centro, esgotado e varrido pela manhã, ainda não se refizera. O lamento chegou-me de novo, mais próximo, arrastado e nasal. Que seria? A voz dorida saía da treva e arrepiava-me a carne. Tentei discernir alguma palavra, inutilmente; só aquilo, o extenso brado lastimoso a avizinhar-se. Esboçaram-se pouco a pouco as modulações de um canto, na verdade bem estranho. Quem se abalançaria a executá-lo em semelhante lugar? Apurei os olhos e os ouvidos, percebi lá embaixo Paulo Pinto a iniciar um samba. Estava de pé e gesticulava, fingindo mover um ganzá inexistente; aproximava-se devagar, curvava-se, passava sob os punhos das redes. A princípio aquilo se engrolava num resmungo confuso; prudência e receio com certeza: não fossem passageiros e soldados achar que o porão se desarranjava e descomedia. As precauções desapareceram, as notas elevaram-se, ainda vacilantes, ganharam nitidez, o queixume pareceu transformar-se em dura exigência. Por mais que tentasse, não me era possível distinguir a letra da composição, e isto a valorizava. Sem dúvida versos insignificantes e errados. Não os discriminando, apenas me interessava pelo clamor que subia da escuridão. Algumas vozes se uniam à do sambista, formava-se um áspero conjunto, e a torrente sonora engrossava, transbordava, novos afluentes vinham juntar-se a ela, mudar-lhe o curso. Nada se combinara. Um murmúrio plangente, em seguida o rumor de cólera surda, e logo as adesões imprevistas, corpos a levantar-se nas redes, figuras aniquiladas a surgir da noite, espectros ganhando carne e sangue, pisando o solo com firmeza. Tinham estado em perfeita indiferença, numa resignação covarde e apática; a disciplina dos encarcerados, implícita e fria, ordenara as conversas zumbidas, o gesto vago, o passo discreto, respeito a autoridades invisíveis, general atrabiliário ou soldado preto boçal. Em minutos isso desaparecera. As espinhas curvas aprumavam-se; as expectorações e a tosse haviam cessado: os pulmões opressos lançavam gritos roucos, a animar a toada monótona do coro. Já não eram contribuições esparsas: dezenas de trastes humanos se erguiam, marchavam, os braços para cima, florestas de membros nus, magros e sujos, e o canto ressoava como profunda ameaça.

Ergui-me, sentei-me na rede. Um frêmito nos sacudia; agitavam-se todos em redor do grupo, cada vez mais numeroso; curvando-me um pouco, via-o perto, a alguns passos, e ainda se avizinhava, numa decisão imprevista. Perguntava a mim mesmo as conseqüências da rebeldia. A polícia iria descer e restabelecer a ordem, sem dúvida; o preto volumoso encostaria a pistola ao débil arcabouço de Paulo Pinto; algum indivíduo resistente agüentaria safanões e logo se acomodaria. Dormiríamos em paz, como bichos. Evidentemente aqueles homens não pensavam nisso: a música os enfurecia e cegava; com certeza haviam esquecido o perigo e o lugar onde vivíamos.

Súbito percebi movimento desusado no exterior. Desviei do bando ruidoso a atenção e fixei-a na coberta. Várias pessoas ali se achavam, curvadas sobre o parapeito que limitava a abertura; passageiros de primeira classe investigavam a nossa furna, curiosos; provavelmente iam reclamar contra o barulho, que chegara ao salão e os aborrecia. Agora Paulo Pinto e os companheiros estavam parados, exatamente por baixo da escotilha. Assistíamos a uma singular representação, arranjada sem ensaios, de improviso. A platéia comprimia-se num círculo, entusiasmava-se; lá no alto um público superior afluía àquela espécie de camarote que semelhava a boca de um poço. Aguardei os protestos algum tempo, em vão. Novas figuras surgiam na tolda, vivo interesse nas fisionomias: começavam certamente a contagiar-se. Os soldados da escolta vieram engrossar o número de espectadores e nenhum se lembrou de conter a manifestação prejudicial: o negro da pistola não incomodaria Paulo Pinto. As vozes se espalhavam e cresciam, expunham raiva e desespero, as mãos se levantavam, os dedos se moviam, tinham jeito de garras, queriam despedaçar, rasgar, quebrar. Em resposta, difundiam-se lá em cima sorrisos de aprovação. Aquilo era absurdo, incoerente. Como vinham pessoas medianas, razoáveis, tranqüilas, animar semelhante desconchavo? Tinham admitido a segregação, ninguém a considerava injusta: havia qualquer motivo para estarmos ali como bichos em toca. Pela manhã formáramos um rolo confuso, entre caixas, malotes, engradados; não nos podíamos afastar; espreitavam-nos e não se avizinhavam, temiam inficionar-se com a lepra moral que nos consumia.

De repente soaram palmas. Que se havia passado? Hesitava em persuadir-me, desconfiava dos ouvidos e dos olhos: os indivíduos suspeitosos e hostis vinham aplaudir a violência e o ódio que ferviam no porão. E o tumulto se desenrolava, sob uma chuva quente de louvores. Um sussurro a princípio, lamento quase inaudível, mudara-se em vociferação exaltada. No dia seguinte deslizaríamos, taciturnos e oblíquos, falaríamos baixo, alarmar-nos-íamos com o estouvamento infantil de Ramiro; naquela noite, porém, largávamos as cautelas, desabafávamos, livres de receios. A arte de Paulo Pinto nos dava força às almas tristes, aos corpos fatigados. E comovia espíritos indiferentes, arrancava deles a aclamação que estrugia por cima das nossas cabeças.

29

FUMANDO em excesso, resolvi, por economia, usar cigarros ordinários: três, quatro maços por dia abalavam-me as finanças curtas. Quase todos ali nos inquietávamos com essas pequenas despesas: se esgotássemos a reserva mesquinha, estaríamos desarmados e a vida se tornaria insuportável. Nada produzíamos e gastos insignificantes nos causavam apreensão; o dinheiro adquiria um valor que lá fora estranhariam. Assim pensando, chegaríamos a desculpar o mulato que se escondia nos lugares piores, longe da luz e do ar: os cinco mil-réis lhe eram talvez indispensáveis.

Apenas dois homens, suponho, se mostravam alheios ao assunto que nos preocupava: capitão Mata e Sebastião Hora, o primeiro por ser criatura parcimoniosa em demasia, o segundo por desejar manter no porão os seus hábitos ordinários. As relações de Hora com a despensa deviam sair-lhe caras. Não atentava nisso e abria-se em oferecimentos com liberalidade extrema. Depois de sucessivas recusas, aceitei dele um biscoito, que mastiguei e não pude engolir: tive de cuspi-lo pela vigia, nada me entrava na garganta. Fascinou-me, porém, uma garrafa de aguardente que o despenseiro trouxe às escondidas. O destinatário .recusou-a, abstêmio. Examinei o papel colorido, a cor do líquido: era exatamente aquilo que eu bebia enquanto laborava no romance difícil, interrompido

várias vezes, entregue à datilógrafa ainda bastante sapecado Informei-me do preço. Como o vendedor se negasse a indicá-lo, esperando com certeza paga generosa, dei-lhe o triplo da quantia exigida em minha terra. De nenhum modo o homem pareceu comover-se: o negócio de álcool nas prisões, clandestino e perigoso, requer lucro extenso, coisa que me passara despercebida. Desarrolhei o contrabando e em redor percebi numerosos canecos a ameaçá-lo. Fiz uma distribuição avara, contando os pingos, o que não me livrou de uma perda avaliada em trinta por cento. Considerei o dever de solidariedade e o prejuízo, tomei um copo e fui trancar-me no camarote do padeiro. Mas não me achei só: Mário Paiva se sentiu de repente meu amigo íntimo e, julgando imprudência abandonar-me em semelhante situação, acompanhou-me. Sem dúvida essa camaradagem me serviu muito: se me arriscasse, debilitado, com o estômago vazio, a ingerir tudo aquilo, provavelmente me arrasaria. O ator se dispunha a não me deixar a probabilidade mais ligeira de adoecer: pelos modos, queria afrontar sozinho todas as inconveniências; mas aí fiz valer o meu direito de propriedade, decidi efetuar um racionamento enérgico. Media atento as duas porções, enganando-me algumas vezes contra o hóspede. Na cama do padeiro, arriado, Mário Paiva beijava o copo, bebericava chuchurreando, embrenhava-se numa parolagem vaga; pouco a pouco iam surgindo nela hiatos e repetições. Na cadeira, o cotovelo sobre a mesa, distraía-me a ouvi-lo sem perceber nada; via-lhe no rosto as nuvens da embriaguez a acentuar-se; os olhos iam ficando vítreos, as pálpebras cerravam-se, erguiam-se, tornavam a descer. Aparecia-me como um espelho: sentia-me também assim, os bugalhos duros e inexpressivos, gotas de suor a espalhar-se na testa, umedecendo a raiz dos cabelos. Mantinha-me em silêncio; comportar-me-ia daquele jeito se falasse, embrulharia assuntos, divagaria à toa. Não me inclinava a papaguear: a sombra interior obscurecia os fatos e os conhecidos próximos: Mário Paiva, inconsistente, perdia a significação.

O rótulo de tintas vivas, colado ao vidro, forçava-me a um lento recuo no tempo. A sala de jantar da minha casa em Pajuçara reconstituía-se. Era noite Sentado à mesa, entranhava-me na composição de largo capítulo: vinte e sete dias de esforço para matar uma personagem, amarrar-lhe o pescoço, elevá-la a uma árvore, dar-lhe aparência de suicida.

Esse crime extenso enjoava-me. Necessários os excitantes para concluí-lo. O maço de cigarros ao alcance da mão, o café e a aguardente em cima do aparador. Estirava-me às vezes pela madrugada, queria abandonar a tarefa e obstinava-me nela, as idéias a pingar mesquinhas, as mãos trêmulas. Rumor das ondas, do vento. Pela janela aberta entravam folhas secas, um sopro salgado; a enorme folhagem de um sapotizeiro escurecia o quintal.

Perto, a garrafa de aguardente. Duas porções minguadas. Dentro em pouco iria mexer-me de novo, deitar outras nos copos, maquinal. Mário Paiva discorria, com abundância, naturalmente presumia estar sendo agradável. Seria melhor que ele se calasse, mas na verdade a tagarelice não me perturbava a recordação; nem me decidia a fazer a mínima tentativa para compreendê-lo. Se ele me descobrisse a inadvertência, conservar-me-ia distante, indiferente; não me importava o juízo de um estranho loquaz. Conjetura absurda: Mário Paiva não estava em condições de ter juízo e descobrir coisas. A voz dele, um burburinho, desmaiava no som das ondas, do vento; as ondas não quebravam no costado velho da embarcação, o vento não entrava pela vigia: eram ruídos longínquos a embalar-me o trabalho, na minha sala de jantar.

O braço, estendido sobre a tábua nua, movia-se em direção à garrafa, que já não estava no aparador. A toalha e os papéis tinham desaparecido. Bem. Era certo achar-me no camarote do padeiro; algumas horas depois iria estender-me na rede, por baixo da escotilha. Centenas de homens cochichavam além da porta, lembrando minúcias de uma revolução gora. Esquisito. Um mês antes isso não tinha realidade, ou tinha uma realidade confusa vista nos telegramas dos jornais. Agora me ligava a fatos pouco mais ou menos ignorados, esquecia casos a que dera muita importância. Não os esquecia, realmente: jogava-os num desvão, onde se empoeiravam, cobriam de teias de aranha; ressurgiam, sobrepunham-se ou subpunham-se aos outros, afinal se nivelavam, misturavam todos, e já não me era possível saber o que estava dentro ou fora de mim. Paulo Pinto, na véspera, entusiasmara a gente da primeira classe. Dificuldade enorme para assassinar o homem, passar-lhe a corda ao pescoço, deixá-lo pendurado a um galho, na escuridão. Que iriam pensar daquilo? Abrira-me com o editor: afirmara-lhe, em carta, que ele não venderia cem exemplares da história.

As ondas, o vento, os ramos do sapotizeiro, a garrafa de aguardente, o maço de cigarros, o bule de café. Um enterro, sem dúvida, enterro literário. Se me agradassem as confidências, trataria disso, interromperia Mário Paiva, embora ele não me compreendesse. Também não conseguiria explicar-me. As minhas idéias deviam ser tão indecifráveis como as que ele extraía do espírito nublado, fragmentárias. Resignava-me com certeza, levado pelo hábito, a simular interesse: sorria, balançava a cabeça aprovando, balbuciava uma interjeição animadora. Procedi evidentemente assim. Tomava-lhe o copo e aumentava-lhe, consciencioso, a desordem mental. Enfim, a garrafa de aguardente se esvaziou. Emergimos do sonho, erguemo-nos, fomos ver de perto as imundícies do porão, o lago de urina, que se havia reconstituído.

30

TIVE uma forte hemorragia intestinal, coisa rápida, imprevista. Nenhuma dor, nenhum indício de que um vaso fosse rebentar. O estômago e a barriga não funcionavam desde a minha chegada: provavelmente estavam secos, as glândulas preguiçosas recusando-se ao trabalho. Era como se esses órgãos não existissem: admirava-me de achá-los entorpecidos, de não sentir neles um movimento, uma ligeira contração. Insensibilidade completa. Ainda se mexiam no começo, uma picada me fazia pensar no alimento, ocasionava a repulsa invencível; estavam agora em repouso de morte. Havia em mim, do tórax ao abdômen, uma sepultura. A boca estava queimada, as gengivas ardiam, o cigarro colava-se aos beiços, arrancava películas, deixando marcas de sangue; necessário escovar os dentes com muito cuidado: o dentifrício, chegando-me às feridas, semelhava cautério. A falta de salivação produzia-me a necessidade freqüente de molhar a língua e as mucosas: refrescava-as com bochechos de água, depois gargarejava.

Inquietação vaga não me permitia ficar muito tempo num lugar. Entrava no camarote, saía, ouvia com fingido interesse as conversas de Sebastião Hora, Macedo e Lauro Lago. Tinha de cor diversas minúcias da rebelião de Natal; contudo, por mais que me esforçasse, não me era possível entenda-las.

De pé, encostado ao umbral, confundindo pessoas e acontecimentos do Rio Grande, as pernas abertas para evitar alguma cambalhota, distraía-me olhando a escada. as viagens incessantes dos companheiros à latrina. Foi a curiosidade que me fez imitá-los Isso e também a lembrança de viver entre eles cinco ou seis dias, sem ter ido ali uma só vez A imobilidade esquisita das vísceras começava a alarmar-me.

Subi, entrei num quarto imundo. Paredes nojentas, papéis sujos a amontoar-se, a espalhar-se no chão, ausência de água, o ambiente mais sórdido que se possa imaginar. Difícil tratar desse ignóbil assunto, nunca em livro se descerram certas portas. Arrisquei-me a abrir aquela porta por me haver surgido o acidente: quando menos esperava, um jato de sangue. Num minuto estancou; mas o líquido viscoso, os coágulos, provocaram-me a necessidade urgente de banhar-me. Infelizmente era até impossível desejar isso O meu pijama aderia ao corpo, fazia-me cócegas repugnantes; andavam-me pruridos na pele, davam-me a sensação de ser agredido por multidões de pulgas.

Afastei-me perplexo, desci a escada perguntando a mim mesmo se o caso seria grave. Talvez se houvesse quebrado alguma peça valiosa, sentia-me com o interior em cacos. A minha primeira idéia foi consultar Sebastião Hora, mas, e isto é incrível, o acanhamento que hoje não tenho de narrar a porcaria tolheu-me a fala. Melindre estúpido. Justifiquei-me alegando intimamente que Hora não estava em condições de prestar-me auxílio: reduzir-se-ia a fazer o diagnóstico, usaria expressões complicadas, evitaria assustar-me: rompera-se uma veia e logo se fechara, nenhum perigo. Dar-me-ia conselhos inúteis. Se pedisse um remédio à farmácia de bordo, era possível não o atenderem. Não atenderiam, firmava-me nesta convicção e tranqüilizava-me. Acabada a surpresa, ia-me invadindo uma agradável apatia. Era realmente como se aquilo não fosse comigo. Nem uma vez tinha pensado no suicídio; não me inquietava, porém, a conjetura de adoecer, piorar, acabar-me ali ou ser transferido para uma enfermaria de indigentes. Embora não conseguisse alimentar-me, não me iria convencer de que o instinto de conservação desaparecera: tinha-me alvoroçado ao notar o jorro vermelho; refletira um pouco e o sobressalto esmorecera. Continuava a ocupar-me da unha escalavrada, fofa, a despregar-se: cortava-lhe pedaços e aplicava uma gota de iodo na carne; omitia às vezes o tratamento, insignificante, e escrevendo sentia dificuldade em segurar o lápis. Vinha agora uma complicação interna. Desejaria saber se ela iria agravar-se ou findar logo. Curiosidade apenas. Não podendo informar-me, resvalava em morna indiferença. Não me afligia achar-me fisicamente arruinado; desgraça era a certeza de nada significar a prosa lenta, composta com enorme preguiça. Escasseava a matéria, fugia a expressão. Dois volumes publicados e um inédito eram mesquinhos, o primeiro um horror, o último precisando emendas e cortes, o bom-senso me afirmava isto, mas a literatura atual, guardada na valise, era muito pior. Talvez a falta de alimento me enfraquecesse o espírito, queria persuadir-me de que a inapetência era transitória e logo me consertaria. Evasiva. Afastando-a, julgava todas as vísceras definitivamente estragadas, inferiores e superiores. Nunca me restabeleceria. Que diabo iria fazer lá fora quando me soltassem, desgraçado organismo carunchoso? Impossível fixar a atenção em qualquer coisa, a horrível estupidez a enevoar-me, fragmentando os pensamentos. Inércia, necessidade urgente de repouso. Não me contentava o descanso na rede, o sono pesado, livre de sonhos: esperava um sossego completo e sem fim.

Não recorri, pois, às luzes de Sebastião Hora: conservei-me na ignorância e não tentei elucidar o caso. Mas obtive, por intermédio dele, nova garrafa de aguardente com o despenseiro. Arrisquei-me a comprá-la. Tencionava experimentar-me, saber se a máquina combalida suportaria segunda carga de álcool A prova falhou. Distribuí, como da primeira vez, uma parte da aguardente com várias pessoas, tomei porção razoável e escondi a garrafa debaixo do colchão do padeiro. Uma hora depois achei-a vazia: Mário Paiva, aquele ingrato, abusando torpemente da minha hospitalidade, tinha bebido o resto.

31

AO DESPERTAR, ouvi dizer que íamos entrando na baía de Guanabara. Desci da rede, tentei olhar as ilhas e os montes, quase esquecidos na distância longa de vinte anos; como todas as vigias estivessem ocupadas, limitei-me a relacionar as informações dos observadores, imaginar por elas os pontos que tocávamos. Algumas pessoas curiosas pretendiam, com o exame, orientar-se a respeito do nosso destino, largavam palpites desarrazoados. Isso me enfadava. Capitão Mata supunha que desceríamos na Colônia Correcional de Dois Rios, na ilha Grande. A ilha, segundo as minhas lembranças meio apagadas, ficava fora da baía, já devíamos ter passado por ela. Essa reflexão nenhum efeito produziu no espírito do rapaz: mantinha-se no erro, alardeando contentamento absurdo. As notícias da colônia eram indefinidas e agoureiras, talvez mais alarmantes por não se determinarem; a mais simples referência ao desgraçado lugar gelava as conversas e escurecia os rostos. A opinião de Mata cheirava a bazófia: aparentemente ele se manifestava assim por saber que havíamos atravessado a barra e o perigo desaparecera. Mas não devia ser isso, com certeza estava confuso. Apesar de se haver adaptado ao meio, rir, pilheriar, comer sem repugnância a triste bóia dos caixões imaginava decerto que, vivendo como vivíamos, qualquer mudança nos traria vantagem.

Depois de longa espera, consegui apoderar-me de uma vigia. Na terra, próxima, elevavam-se enormes blocos de cimento armado. Alguém, estirando um braço por cima do meu ombro, falou em Copacabana. Havia-me inteirado longe das modificações ali existentes; contudo não reconheci a velha praia, onde agora crescia a dura vegetação dos arranha-céus. Desviamo-nos, surgiram na costa pontos familiares; outros me haviam fugido completamente da memória; além, novos edifícios altos me ocasionavam dúvidas; perturbado, não me seria possível orientar-me.

Embrenhava-me na contemplação vaga quando me puxaram a manga: voltei-me, ouvi um sussurro, distingui na sombra um sujeito desejoso de comprar-me a rede. Em torno havia um burburinho de maribondos assanhados. Preparavam-se todos para o desembarque, arrumavam caixas, entrouxavam roupa, afivelavam as correias dos malotes. O ruído surdo, o movimento e a proposta feita num cochicho levaram-me à realidade: necessário arranjar-me, também, pôr as coisas em ordem. Só então me lembrei de que possuía uma rede; estorvava-me, certamente não iria acompanhar-me. Sem inquirir se ela me seria útil no futuro, larguei-a descuidoso ao freguês inesperado e, embora o dinheiro me preocupasse, recusei pagamento. Não achei que esse prejuízo voluntário significasse um disparate.

Fui recolher-me pela derradeira vez ao camarote, agradeci ao padeiro, vesti-me para sair. Dobrei as folhas do manuscrito, uni-as ao solado, tentei prendê-las ao pé com tiras de esparadrapo. Aquilo formava grande chumaço que ia rebentando a meia. Não podia calçar-me. Se pudesse, amarraria com dificuldade o cordão do sapato, caminharia mal, uma perna mais comprida que a outra. A andadura capenga iria denunciar-me. E repugnava-me esconder literatura daquele modo: o suor a estragaria, sujaria, tornaria ilegível. Descalcei-me pesaroso, desfiz-me do trambolho injurioso, alisei o papel amarfanhado, sepultei-o na valise, sob cuecas e lenços. Se o descobrissem, livrar-me-ia daquela aparência de contrabando. Caso natural redigido sem malícia, por hábito, com longa preguiça e infinitos bocejos. Logo reconsiderei: com certeza a maleta seria varejada, as miseráveis folhas corriam perigo. Retirei-as, tornei a dobrá-las, mergulhei-as no bolso interno do paletó: escapariam ali talvez da busca. Despedi-me do padeiro e, segurando a leve bagagem, fui reunir-me à gente que se comprimia junto ao mictório.

Enquanto haviam durado os preparativos, as idas e vindas no camarote, a troca da roupa, a colagem, a descolagem dos esparadrapos, voara o tempo, o navio atracara. Aguardávamos ordens, apreensivos. Iam sem dúvida separar-nos, e no porão tinham começado a esboçar-se camaradagens, apoiávamos nelas a nossa fraqueza.

Chamaram-nos, subimos a escada, revi o negro boçal da pistola e o que me prestava favores na escotilha; andamos no convés em linha, entre duas filas de polícias, descemos ao cais. Aí nos fizeram entrar em diversos ônibus grandes, as aberturas laterais guarnecidas por longas hastes paralelas de metal branco. Não observei os arredores, impossível dizer em que parte da cidade me achava. Presumivelmente havia numerosos basbaques a espionar-nos; não os vi nem atentei nos companheiros que se instalaram comigo no carro.

Sentado no banco, junto às varas metálicas, apenas distingui, fora, a pequena distância, um rosto conhecido. Conhecimento vago, que um instante me aperreou. Onde me havia aparecido aquela moça morena? Interroguei-me em vão, percebendo nos gestos da mulher o desejo de falar-me. Aproximou-se, disse coisas imperceptíveis, em seguida murmurou que o dr. Esdras ia bem. Dr. Esdras. Quem seria dr. Esdras? Vascolejei o cérebro, enderecei à informante um sorriso chocho, constrangido. Súbito me lembrei de haver conversado com ela, meses atrás, em Alagoas, no consultório de Esdras Gueiros. Bem. Experimentei certo alívio, decifrava-se a notícia; mas como podia alguém supor que tal comunicação, naquele momento, me interessava? Nenhuma palavra me ocorreu; acanhado, as orelhas a arder, evitei o olhar da criatura que, de pé no asfalto, me examinava a degradação. Era como se me vissem nu e sujo. Queria afastar-me depressa, fugir à curiosidade humilhante. Enfim o veículo se moveu. Atrapalhado, joguei um aceno à conterrânea, perdi-a logo de vista. Serenando um pouco, julguei que a frase dela encerrava talvez uma significação até ali oculta ao meu desarranjo mental.

– Dr. Esdras vai bem.

Provavelmente Esdras Gueiros estava sendo perseguido e conseguira escapar. Devia ser isto. Rodamos longo tempo, não sei por onde. Inerte, deixava-me levar. Enorme fadiga cerrava-me as pálpebras, dificilmente erguia o braço para levar à boca o cigarro.

Dobrávamos esquinas, e nem me lembrava de ver as ruas, ler as placas. Em volta zumbiam conversas mutiladas, cochichos pessimistas. Iam conduzir-nos à Polícia Especial, à Polícia Central, capitão Mata afirmava sempre, teimoso, que nos mandariam para a Colônia Correcional da ilha Grande. Essas opiniões aéreas me irritavam; em seguida vinha o sossego, o torpor, o sono Para que debater coisas imprevisíveis?

Estacamos diante de uma prisão, esperamos que nos mandassem descer ao cabo de meia hora partimos: não havia espaço ali para nós. Passado algum tempo, nova estação, igual resultado; não nos podiam alojar. Novamente nos pusemos a caminho. Insensível, nem tentei informar-me a respeito daquelas paragens: em roda as conjeturas diminuíam. Apesar da indiferença, espantava-me ignorarem completamente onde ficaríamos, andarem à toa em busca de cárceres para nós. Essa desordem me causou vago prazer. A tarde paramos em frente à Casa de Detenção, ainda uma vez nos amolamos espiando grades e sentinela. Depois de extensa demora, afinal desembarcamos, transpusemos o portão largo. Nessa altura um caso me despertou a curiosidade: o capitão Mata, que marchava junto a mim, dirigiu-se ao comandante da guarda, apresentou-se, mencionou antiga camaradagem feita no estágio referido no quartel do Recife.

– Não tem receio de falar a um preso?

O oficial arredondava os bugalhos, atordoado, e revolvia a memória. Achou provavelmente uma recordação aceitável: finda a surpresa, chegou-se a Mata, segredou qualquer coisa, rápido, e afastou-se. Aquilo foi breve, passaria despercebido a quem se distanciasse um pouco na fileira. Minutos depois estávamos na secretaria. em pé, de cócoras, sentados em malotes, arriados em bancos; alguns se aproximaram de mesas sujas de poeira, ouviram as perguntas de três funcionários hábeis dispostos a caracterizar-nos, arrumar-nos convenientemente no papel. Bem. Agora nos personalizavam. Tínhamos sido aglomeração confusa de bichos anônimos e pequenos, aparentemente iguais, como ratos. Decidiam, em meia dúzia de quesitos. diferenciar-nos. Trabalho sumário, poucas linhas para indivíduo; como éramos duas ou três centenas e às vezes as indicações se atrapalhavam, minguavam, permanecemos ali até o anoitecer. O sujeito que me interrogou escuro e reforçado, certamente estrangeiro, exprimia-se a custo, numa prosódia de turco ou árabe. Nome. Profissão.

– Qual era o cargo que o senhor tinha lá fora? indagou o tipo.

Sapecou a resposta e acrescentou, à margem, uma cruz a lápis vermelho.

– Que significa isso?

– Quer dizer que o senhor vai para o Pavilhão dos Primários.

– Porquê? Não entendo. É uma prisão diferente.

Aludiu ao meu emprego, realmente bem ordinário, na administração pública:

– Os outros vão para as galerias.

Difícil calcular se a mudança me daria vantagem ou desvantagem. Religião.

– Pode inutilizar esse quesito.

– É necessário responder, engrolou, na sua língua avariada, o homem trigueiro.

– Bem. Então escreva. Nenhuma.

– Não posso fazer isso. Todos se explicam.

De fato muitos companheiros se revelavam católicos, vários se diziam espíritas.

– Isso é lá com eles. Devem ser religiosos. Eu não sou. Ora! Uma palavra. Que mal faz? É conveniente. Para não deixar a linha em branco.

A insistência, a ameaça velada, a malandragem, que utilizariam para conseguir estatística falsa, indignaram-me.

– O senhor não me vai convencer de que eu tenho uma religião qualquer. Faça o favor de escrever. Nenhuma.

A declaração foi redigida com lenta repugnância e concluiu-se o interrogatório. Ao levantar-me, divisei numa folha outro sinal vermelho, junto ao nome de Sebastião Hora. Cheguei-me à porta, onde se juntavam os que haviam cumprido aquela exigência, observei um pátio, o esvoaçar de pardais estrídulos em ramos de árvores, muros altos a cercar numerosos edifícios, já mergulhados em sombras. Surgiram luzes. Findo o arrolamento, levaram-nos à casa fronteira.

– É aqui o Pavilhão dos Primários? informei-me

– Não, respondeu o sujeito de fala turca. O Pavilhão dos Primários a esta hora está fechado. E amanhã, domingo, não se faz transferência O senhor fica, até segunda-feira, com os outros.

– Está bem.

Percebi que haviam pretendido conferir-me uma distinção, balda possivelmente por teimar em considerar-me ateu. Lembrei-me da advertência injuriosa: – “É conveniente. Se me acanalhasse afirmando possuir um Deus, mandar-me-iam para lugar razoável, uma espécie de purgatório. Sebastião Hora, marcado também a lápis vermelho, estava conosco: sem dúvida se prejudicara dando resposta semelhante à minha.

Entramos. Enxerguei prateleiras carregadas de embrulhos, avizinhei-me de um balcão estreito, depus nele a valise. Alguém disse que nos achávamos na rouparia. Busquei em redor um móvel para sentar-me: nada vendo, permaneci de pé, o cotovelo sobre a tábua, ora a firmar-me numa perna, ora noutra. Fadiga, torpor nas coxas, dor aguda no ventre, a recordar-me o hospital, médicos, enfermeiros. Desfizeram-se os malotes, desdobraram-se as redes, retiraram-se as cordas, provavelmente receavam que um de nós quisesse enforcar-se. Tudo se revistou cuidadosamente, salvo as roupas do corpo; certo ninguém admitia que tivéssemos armas, objetos perigosos; as minhas folhas, guardadas no bolso interno do paletó, não seriam descobertas. Os músculos dormentes obrigaram-me a tentar ligeiro exercício.

Afastei-me, dei alguns passos na sala, encostei-me a uma parede, sentei-me na valise: como a posição fosse incômoda, ergui-me, procurei instalar-me noutro lugar Apesar do cansa ço, não me era possível ficar imóvel Uma coisa me chamava a atenção, era talvez que ela me fazia andar para aqui, para ali, a vista fixa, armando suposições. O empregado responsável por aquele serviço tinha como ajudante um moço franzino, risonho, amável, falador, metido em vestimenta. clara, de listas verticais, meio invisíveis, a farpela dos encarcerados Provavelmente a cor desmaiara à força de lavagens, de ácidos e o fato ignominioso tinha aparência vulgar, escapar-me-ia se o antebraço do rapaz não viesse despertar-me o interesse. Aí se percebia, tatuado, um esqueleto, ruína de esqueleto: crânio, costelas braços, espinha; medonha cicatriz, no pulso, havia comido a parte inferior da carcaça. Desejando livrar-se do estigma, o pobre causticara inutilmente a pele; sofrera dores horríveis e apenas eliminara pedaços da lúgubre figura. Não conseguiria iludir-se, voltar a ser pessoa comum. Os restos da infame tatuagem, a marca da ferida, iriam persegui-lo sempre; a fatiota desbotada conservava o sinal da tinta. Era-me impossível desviar os olhos da representação fúnebre. Em vão queria distrair-me. Tinha pena do infeliz e zangava-me. Para que fizera aquilo? A vistoria na minha bagagem durou pouco. Abri a valise, despejei-a sobre o balcão. O varejador sacudiu rapidamente os panos, não ligou importância aos lápis, ao papel, aos troços miúdos, retirou o frasquinho.

– Que é? Iodo.

– Não entra com isto. Porquê?

– Proibido, foi a lacônica explicação.

– O senhor julga que pretendo suicidar-me? Não está vendo que isso não dá para matar um homem?

– Proibido, volveu a criatura impassível. Mostrei o dedo avariado:

– O senhor não vai obrigar-me a recorrer à farmácia da prisão para curar esta insignificância. O frasco de iodo foi comprado num quartel onde estive, no Recife. Lá isso não infringia o regulamento. Acho que o senhor não quer tomar-me também o esparadrapo.

– Bem, murmurou o sujeito.

Largou as miudezas, recebeu-me o chapéu, voltou-me as costas. Enchi a valise e coloquei-a no chão. Respirei. aliviado, esforçando-me por adivinhar a razão da insistência em reter o vidro quase vazio: interessavam-me somente os lápis e o papel. Bocejei meia hora, a passear, zonzo. Findou a investigação, vimo-nos diante de uma porta. As reminiscências da operação picavam-me a barriga. As névoas do meu espírito se diluíam num ponto, deixavam na claridade uma blusa de riscas indecisas, vestígios da queimadura grave, pedaços de esqueleto.

32

SUBIMOS uma escada, penetramos extensa galeria onde cárceres desembocavam. De quando em quando uma grade silenciosa se abria, algumas dezenas de companheiros mergulhavam na sombra, continuávamos a viagem. Na terceira ou quarta parada chegou a minha vez. A chave correu leve na fechadura, a porta de ferro se descerrou, achei-me num quadrângulo nu. Completa ausência de móveis. Tentei desembaraçar-me do chapéu e da valise, mas o chão vermelho estava molhado. Fiquei de pé, conversando com os vizinhos, experimentando pouco mais ou menos uma sensação de embriaguez. Apesar da confusão, devia aparentar calma, pois o carcereiro me indicou, largou uma frase que me feriu como chicotada:

– Este parece um candeeiro velho. Estremeci:

– Hem?


– Entra como se estivesse em sua casa.

Cheio de vergonha, nada respondi, pois me faltavam elementos para refutar a opinião do homem. Se ele, observador profissional dos delinqüentes, me via assim, teria lá as suas razões. Ponderei, extingui melindres. Tinha motivo para escandalizar-me? Não. Em duros casos, a observação podia ser considerada elogiosa. Consigo realmente ambientar-me de pressa, acomodar-me às circunstâncias. Percorrendo o sertão, muitas vezes, quando a noite descia, amarrei o cavalo a uma árvore, envolvi-me na capa, estirei-me na terra e dormi, tranqüilo e só. Não seriam piores que as cobras e outros bichos do mato os habitantes da prisão. Mas que teria eu feito para o indivíduo confundir-me com eles? Muitos ali aparentavam serenidade, riam, falavam naturalmente, e a preferência me tocara. Esquisito. Éramos quarenta pessoas, a maioria aquela gente amorfa que, durante a viagem, se arrumava pelos cantos do porão, no anonimato e no enjôo. Lembro-me apenas de Sebastião Hora, capitão Mata, Lauro Lago e Macedo. Num instante abriram-se os malotes, desdobraram-se e estenderam-se as redes no pavimento úmido. Se não houvessem tomado as cordas, seria possível armar algumas nos varões de grades opostas. Agora serviam de camas. Sobre a de Macedo, muito larga, foi aberto espesso cobertor de lã; em seguida apareceram lençóis e um travesseiro de penas.

Sentado na valise, encostado ao muro, distraía-me seguindo os movimentos vagarosos e o capricho do homenzinho gordo, envolto na fumaça do cachimbo; as mais insignificantes pregas se desfaziam, alisava-se cada peça com rigor. Despojara-me voluntariamente, pela manhã, de um objeto necessário: passaria a noite mal. Onde estaria o sem-vergonha carrancudo que me furtara cinco mil-réis e estivera uma semana a esconder-se? Talvez não nos tornássemos a ver. Éramos ali quarenta desordeiros, quase todos espíritas e católicos, segundo os papéis oficiais escritos à tarde sobra do refugo humano acumulado no porão. Dispersavam-nos, rompiam-se camaradagens alinhavadas à pressa; a inquietação de Miguel e a energia imóvel de João Anastácio iriam morrer-me no espírito. Novas caras surgiriam, novos hábitos e não teríamos tempo de fixar-nos. Se Miguel e João Anastácio reaparecessem, seriam criaturas diferentes, procuraríamos em vão qualquer coisa nas suas fisionomias apagadas. Instintivamente buscávamos associar-nos; a associação precária num momento se desmancharia. E vivíamos a receber choques na alma. Relações impostas, desfeitas, mentes diversas agrupando-se, repelindo-se; ajustamentos difíceis, súbitas explosões de incompatibilidades. Nessa altura o excelente Macedo me fez um gesto, cochichou oferta generosa, imprevista: havia espaço ali para dois corpos.

– Obrigado.

Arriei perto, senti a maciez fofa de panos: aquilo parecia colchão. Ignoro se veio comida, suponho que todos ficaram sem alimento. De cócoras, deitados, zumbiam à luz fraca da lâmpada muito alta. Exposição humilhante era a sórdida latrina, completamente visível. Sobre o vaso imundo havia uma torneira; recorreríamos a ela para lavar as mãos e o rosto, escovar os dentes. As dejeções seriam feitas em público. A ausência de porta, de simples cortina, só se explicava por um intuito claro da ordem: vilipendiar os hóspedes. Nem cadeiras, nem bancos, inteiro desconforto, o aviltamento por fim, a indignidade. Alguém teve idéia feliz: conseguiu prender uma coberta em frente à coisa suja, poupou-nos a visão torpe. Isso nos deu alívio: já não precisávamos fingir o impudor e o sossego de animais. Sebastião Hora resignou-se a pernoitar ao desamparo. Obteve um jornal, desdobrou-o no solo frio, despiu-se e, de cuecas, pôs a roupa cuidadosamente em cima da mala. Depois de longo estudo e experiências infrutíferas, deixou a camisa a secar nos ferros da grade. Um sorriso malicioso vincava o rosto do capitão Mata, aprofundava-lhe a cicatriz.

– Dr. Hora, avisou ele, essa camisa aí corre perigo. Vão levá-la, não tenha dúvida.

Hora, teimoso, desdenhou o conselho e deitou-se no papel. Está bem, murmurou capitão Mata. Eu preveni. Amanhã o senhor arranja outra.

E apontava o corredor sombrio, onde transitavam guardas, a fiscalizar, faxinas entregues a qualquer serviço. Quando viu o médico a dormir, levantou-se, retirou a camisa e guardou-a: Realmente ela não estava em segurança.

Fez os seus meticulosos arranjos noturnos e foi repousar; as astúcias da caserna lhe tinham conseguido lugar cômodo. Sem mudar a roupa, sentado à beira dos panos de Macedo, acompanhei o decrescer das vozes e dos gestos em redor; ao cabo de meia hora havia na sala um estranho calçamento de figuras abatidas. Pareciam numerosas em excesso: difícil mexer-nos entre elas. Era como se me achasse numa vala, único sobrevivente no meio de cadáveres, e nas grades do cemitério surgia de quando em quando um rosto de demônio, a vigiar-nos, talvez o mesmo tipo que me associara aos habitantes da cadeia. A turba imóvel crescia, vultos remotos e confusos vinham juntar-se a ela, povoar-me a insônia.

Havia na parede uma larga barra azul de quase dois metros, e acima curiosa legenda em letras nítidas, muito bem desenhadas: Fulano, Beltrano, Sicrano estiveram aqui presos, em tal data, como comunistas. Eram oito, dez ou doze nomes, guardei somente os de Medina e Bagé. Quem seriam? Impenetráveis, desconhecidos, talvez menos desconhecidos e impenetráveis que a maior parte dos homens ali juntos. A inscrição me insinuou duas idéias. Em primeiro lugar julguei-a fanfarronada, quixotice. Realmente, se o Partido Comunista era ilegal, tais linhas só renderiam desgosto: não encerravam confissão; também não protestavam; davam mostra, sem esboçar defesa, de aceitar o juízo da polícia. Imaginei que, entre os indivíduos arrolados, alguns, de fato responsáveis, tentavam, por aquele meio, nivelar-se a outros, alheios à política. Estes consentiam em figurar na lista, receosos de mostrar-se covardes. Pensei no capitão Mata, em Manuel Leal, em José Inácio. A segunda idéia que me veio foi uma pergunta: como haviam conseguido escrever a tão grande altura, onde o braço não chegava? No compartimento nem vestígio de mobília. A falta de escada, o pintor subira com certeza aos ombros dos amigos e caprichara no desenho da informação. E tinta? Bem. A cor das letras era igual à da faixa. Levantei-me, raspei com a unha a parede, num instante os dedos se cobriram de pó azul. Vinda a explicação, pus-me a indagar como tinham obtido pincel.

Voltei, esgueirando-me em ziguezagues para não despertar os companheiros, sentei-me de novo. Não desviava do muro os olhos, chamava o sono em vão, lembrava-me de trabalhos de paciência feitos por ingênuos artistas da roça: um crucifixo dentro de uma garrafa; à primeira vista achamos impossível o instrumento de suplício e Jesus na posição ruim atravessarem o gargalo. As juntas doíam-me; a barriga, no lugar da operação, devia ter qualquer coisa a rasgar-se; certificava-me da insensibilidade das coxas beliscando-as. Deitei-me, a valise servindo-me de travesseiro. Mas não dormi logo. A noite se prolongava. Venciam-me cochilos perturbados: falas de gente adormecida, passos na galeria, caras juntas à grade, o tilintar de chave em fechaduras.

33

DE MANHÃ pessoas animosas descerraram a cortina improvisada, molharam-se no esguicho da torneira. Desviei-me cauteloso receando salpicos imundos; resignei-me a não lavar o rosto e suportar sede: impossível utilizar aquela água. Distraí-me vendo Sebastião Hora procurar a camisa, largar as esperanças, amuar percebendo em volta olhares e sorrisos maliciosos. Recebeu-a, desanuviou-se. Ao cabo de minutos conversava junto à grade com alguém invisível e divertia-se em excesso. Chamou-me de lá:

– Venha ouvir isto, uma confissão que pode servir para as suas notas.

Acerquei-me, vi no corredor um mulato claro vestido no uniforme de riscas, a zebra dos penitenciários. Tinha um dente de ouro, ar de suficiência e pimponice. Ao ver-me, declarou, a fala branda, mole, viscosa:

Estava aqui dizendo. A princípio dediquei-me ao conto de vigário, mas deixei logo: é arriscado. Ultimamente explorava mulheres.

Nunca me viera a idéia de que um indivíduo se acanalhasse tanto, expondo aquela vaidade besta. Diversas pessoas me revelaram com franqueza vícios e crimes; não se orgulhavam disso, era como se narrassem fatos determinados por uma força qualquer, interior ou exterior. A gabolice descarada me enojava: permaneci frio, aguardando a continuação da torpeza; era só aquilo: evidentemente o malandro não iria fazer-nos a descrição das suas aventuras. Convenci-me de que ele desejava apenas iludir-nos e iludir-se. As mulheres fugiriam à triste carne do pulha, ao canino amarelo, à voz cantada e bamba. Talvez me equivocasse. Alguma velha doente, no fim de todas as quedas, apodrecera um pouco ali, antes de resvalar para a última cova, e isto ocasionara a exibição parva. Refleti, moderei-me. O caso não merecia atenção, o que o realçava era o prazer do tipo ao narrá-lo.

Desviei-me, fui encomendar cigarros a um faxina. Recebi o pacote, larguei a pequena gorjeta, virei-me para dentro da jaula. Agora, à luz do sol, o dístico azul avultava na parede.

Efetivamente era bem feito, devia ter custado longo esforço, muita paciência. Onde estariam as criaturas mencionadas nele? De repente ouvi gritos, logo notei que se dirigiam a nós. Longe, noutro cárcere, tinham recolhido informações, pediam notícias da viagem no porão, queriam saber se precisávamos qualquer coisa. Estudamos as respostas, escolhemos um locutor e estabeleceu-se breve diálogo. Recusamos os obséquios e agradecemos. Bem. Estávamos diante de uma organização. Nada sabendo a respeito dela, fomos cautelosos nas respostas. Obrigados. Viajáramos regularmente no Manaus, e não sentíamos necessidade. O certo é que muitos se imaginavam numa tocaia, longa reserva encolhia os nordestinos suspeitosos. Não nos fiaríamos em gente desconhecida. Veio-me à lembrança a opinião de Miguel Bezerra quando apareci a bordo: vendo a roupa de casimira e o chapéu de palha, julgara-me instrumento da polícia. As esfregações ao pé da torneira haviam findado; a cortina improvisada baixara, ocultando o vaso imundo; as redes estavam dobradas e as figuras encostavam-se às paredes, sentavam-se em trouxas; zumbiam conversas. Nesse ponto chamaram-me do corredor. Aproximei-me, vi junto às vergas de ferro o tipo que me supusera habituado à prisão. Sair.

– Para onde? perguntei confuso.

O homem ficou em silêncio, notei que a interrogação era idiota. Não me concediam, certo, o direito de informar-me. Esperei um instante: outros nomes, pensei, viriam juntar-se ao meu. Prolongando-se a mudez do sujeito, fui buscar a valise, despedi-me dos companheiros, voltei. A chave gemeu na fechadura, a porta se abriu, tornou a fechar-se, mergulhamos na galeria. A nossa passagem, vultos surgiam à direita, à esquerda, além das grades, falavam-me. Percebi-os vagamente e não lhes entendi as palavras. Descemos a escada, chegamos à rouparia, sentei-me num banco, exausto: o mais ligeiro exercício me consumia o resto das forças. Lá estava o rapaz amável, decente, limpo, as linhas verticais da blusa infamante quase invisíveis.

– O senhor estava muito nervoso ontem.

A afirmação e a data me surpreenderam. Ontem? Parecia-me reconhecer o moço risonho, mas achava absurdo havê-lo encontrado no dia anterior. Arrepiei-me vendo-lhe a cicatriz do pulso, a horrível tatuagem meio decomposta. Bem. Estavam ali os pedaços do esqueleto, o homem delicado que surgira na véspera, sem dúvida.

– Porque diz isso? estranhei. Fiz algum disparate?

– Não. O senhor fingia calma, falava, ria, pilheriava com os seus amigos. Notei a agitação porque mexeu na valise mais de vinte vezes. Não achava lugar para ela.

Admirado, felicitei o astuto observador. Nenhuma consciência daqueles movimentos houvera em mim. Julgava-me tranqüilo explicando-me ao funcionário a respeito do frasco de iodo. E o guarda me supusera à vontade, em casa, afeito à cadeia. Todos se enganavam, só a criatura estigmatizada me via por dentro; o hábito de examinar minúcias, em permanência longa na prisão, certamente lhe desenvolvera a sagacidade. Vencida a surpresa, perguntava a mim mesmo porque me demorava tanto ali na sala, quando Lauro Lago desceu a escada, vestindo a calça por cima do pijama, o paletó no braço. Acabou de arrumar-se cá embaixo. Em seguida vieram Sebastião Hora, Macedo, capitão Mata, vários outros. Avizinhei-me de um guarda velho, que se dispunha a conduzir-nós:

– Faz favor de me dizer para onde vamos? Pavilhão dos Primários, informou o sujeito. Melhor ou pior que isto aqui?

– Melhor, melhor. Vivem lá cantando e berrando como uns doidos.

SEGUNDA PARTE

Pavilhão dos Primários

1

SAÍMOS andamos um pedaço do pátio, alcança. mos o nosso destino, alto edifício de fachada nova. Entramos. Salas à esquerda e à direita do vestíbulo espaçoso. Uma grade ocupava toda a largura do prédio. No meio dela escancarou-se enorme porta. Introduzimo-nos por aí, desembocamos num vasto recinto para onde se abriam células, aparentemente desertas: era provável terem todos os inquilinos vindo receber-nos. Avançamos entre duas filas de homens que, de punhos erguidos, se puseram a cantar, na música do Hino Nacional:

Do norte, das florestas amazônicas, Ao sul, onde a coxilha a vista encanta, A terra brasileira, d luz dos trópicos...

Ri-me interiormente, pensando no que me havia dito o guarda pouco antes: – “Vivem cantando e berrando como uns doidos. Fora da manifestação ruidosa, alguns indivíduos nos observavam, entre eles um moço pálido, ligeiramente curvo, e um gigante sério, trigueiro, de calça escura, sapatos lustrosos, camisa de seda, colarinho, gravata e suspensório. Esse esmero contrastava com a simplicidade excessiva dos vestuários em redor: quase todos ali vestiam pijamas ou ape-

nas traziam cuecas; usavam tamancos. Eram trinta ou quarenta pessoas. Notei um rapaz franzino, quase nu, muito simpático; um vigoroso, de blusa russa, cachimbo, dentes maus; um negro reforçado e lento, de grande barriga. Um sujeito moreno, de cabeleira anelada, perguntou:

– Qual é deles?

Outro, peludo, baixo, indicou-me erguendo o braço. Findo o canto, dispersamo-nos e informações incompletas zumbiram nos grupos. Enquanto faxinas de roupa zebrada nos arranjavam cômodos, procurei o banheiro. Fui achá-lo ao fundo, à esquerda, junto à escada que levava ao andar superior. Não consegui abri-lo: pelos ferros da grade, vi com desânimo os chuveiros inúteis. Mais um dia de sujeira e comichões. Notei uma singularidade: a casa tinha dois pavimentos, mas entre eles não havia soalho; rente ao segundo corna uma plataforma acanhada, passadiço com um metro de largura; lá em cima outros cárceres, perfeitamente visíveis, nos pareciam muito elevados. Cheguei-me a um atleta vestido em calção:

– Faz favor de me dizer onde posso arranjar um banho? Difícil, respondeu. Só amanhã. A esta hora o banheiro não se abre.

Convidou-me a entrar no seu cubículo, apresentou-se, Renato do Rego Barros, e apresentou o companheiro, Adolfo Barbosa, de ar doentio, feio, amável em excesso, o rosto de formado por terrível prognatismo. Pus a valise no chão, sentei-me à beira de uma cama:

– Será realmente impossível achar água? Estou imundo. Faz uma semana que não me lavo.

Renato cortou a dificuldade. A um canto, disfarçando a latrina, havia um guarda-vento. Colocou-o diante da pia, agarrou um caneco:

– Dispa-se.

Nem me deu tempo de recusar. Minutos depois achava-me coberto de espuma a receber açoites líquidos em todo o corpo. Enxuguei-me com a toalhinha de rosto, encabulado por incomodar o solícito homem, que passava a borracha no chão molhado. Restava-me um pijama limpo. Vesti-o, sentei-me de novo, procurando ambientar-me. Dispunha-me a observar e escutar as duas pessoas quando o moço pálido e curvo, de relance percebido, entrou no quarto. Deram-lhe o nome de Sérgio, anunciaram a lição de matemática. Encolhido e jovem, o visitante devia ser o aluno. Enganei-me: era o professor. Acomodou-se em frente de Adolfo Barbosa, pôs-se a falar vagaroso e, abundante, a voz áspera, baixa, pronúncia exótica cheia de fortes aspirações. Usando língua estranha, não se detinha: deturpava as palavras mas achava-as com singular facilidade. Aquilo não tinha jeito de lição: assistíamos a uma conferência inacessível a mim. Enquanto ela durou, Adolfo permaneceu mudo. Anulei-me, experimentando pouco mais ou menos o vexame dos analfabetos diante de papel escrito. Quem seria o monstro familiar à teoria da relatividade, aos horrores onde a minha escassa inteligência naufraga?

Despedi-me, carregando a bagagem crescida: a maleta, a calça e o paletó, os livros; busquei refúgio noutro cubículo, onde um sujeito de pijama vermelho se ocupava em devorar uma penca de bananas, respirei com alívio nessa companhia. João Romariz. Bem. Conversando com ele, sentia-me à vontade. Era um nacional de fala dormente, alheio às idéias abstratas. E decidir afastar-me cuidadoso de Sérgio, bruxo amigo de Einstein e do infinito: a presença dele seria um alfinete para minha ignorância. Firmava-me nesse propósito, divagava singelamente com Romariz, e ao cabo de minutos surgiu o perigo, inevitável. O matemático deslizou para nós como sombra, sentou-se junto a mim, envolveu-me na sua delicadeza fria. E entorpeceu-me a prevenção. Agora adotava linguagem natural e cristã, a aspereza gutural da prosódia ia-se pouco a pouco adoçando. Veio-me a idéia de pedir-lhe esclarecimentos a respeito dos habitantes daquela prisão. Desmanchei uma carteira de cigarros, tirei de um dos lados o cartão que tenho aqui sobre a mesa, tomei o lápis e escrevi alguns nomes: Romariz, Adolfo, Renato, Sérgio.

– Sérgio de quê? perguntei. Qual é o seu sobrenome? Isto é pseudônimo. Eu me chamo Rafael Kamprad. Alemão? Pelo jeito de falar, parece alemão.

– Russo, do Cáucaso.

Ainda criança, perdera a família na Guerra Civil, conseguira chegar à Alemanha, onde estranhara o silêncio, a falta dos tiros de canhão. Estudante de filosofia e matemática numa universidade, fugira perseguido pelo nazismo, fora terminar o curso na Estônia. Daí o expulsaram. Tinha parentes na China e no Brasil: uma avó no Rio de Janeiro, um tio em Cantão, rico em negócios de petróleo com os americanos.

Optara pelo Brasil. E vivia de ensinar quando rebentara a bagunça de 1935. Previdente, desviara de casa objetos nocivos, confiara a um aluno cartas de Trotski, mas com tanta infelicidade que num instante haviam caído os papéis nas mãos da polícia. No interrogatório quisera defender-se:

– Por essa correspondência, os senhores vêem a minha posição. nada tenho com o barulho daqui.

– Pois sim. Nós gostamos tanto de uma coisa como da outra.

E haviam-lhe deformado os pés na tortura. Rafael Kamprad, ou Sérgio, contava-me isso com um sorriso plácido. Não se alterava, não gesticulava, percebi nele uma natureza glacial. Na brancura doentia de nata, no olho azul cinzento, serenidade completa. Indiquei figuras que divisávamos dali; algumas já me haviam provocado a atenção. O sujeito de blusa russa e cachimbo era José Mediria, com certeza o mencionado na inscrição vista na parede, em cima da barra. O rapaz simpático e franzino, de cueca e tamancos, era Rodolfo Ghioldi.

– Italiano?

– Argentino Secretário do Partido Comunista Argentino. Sim senhor, achava-me entre indivíduos importantes, que me espicaçavam a curiosidade. Percebi um moço alto, magro, de cabeça pequena, vago feitio de pernalta, escrevi o nome dele: Benjamin Schneider. Sérgio corrigiu a grafia: Snaider Achei esquisita a emenda:

– Não é alemão?

– É um judeu romeno.

Capitão Mata veio interromper-nos: escolhera para nós aposento no andar de cima. Agarrei os troços, despedi-me, saímos, percorremos a sala, galgamos os dois lanços da escada negra de ferro, viramos à esquerda, ganhamos o passadiço, entramos no cubículo 35. Exatamente como os outros. o guarda-vento escondendo a latrina, a pia, duas camas junto à porta. Pos uma alta janela gradeada, no muro ao fundo, vinha luz do exterior. Homem prático, o meu excelente companheiro reatava a convivência do Recife: tínhamo-nos dado bem lá, decerto continuaríamos assim Examinou a peça e considerou-se bem alojado. Achou um pedaço de sabão, e o seu primeiro ato foi abrir a mala, encher a pia e mergulhar na água a roupa suja.

– O senhor vai lavar isto?

– E então? Eu sou da caserna. O senhor vai ver que fica muito bem lavado e engomado.

– Engomado? Não pode ser. Eu lhe mostro.

Nunca deixamos de tratar-nos cerimoniosamente. Sérgio, apesar da circunspecção, da algidez, quase se familiarizara comigo em vinte minutos de conversa, e Mata, alegre e buliçoso, ainda era a mesma, criatura distante que declamava poesia num carro da Great Western. Dedicava-se à barrela quando entraram dois tipos: o baixo, piloso, e o trigueiro, de cabelos encaracolados, que pareciam interessar-se por mim, ao chegarmos. Logo resvalamos na intimidade. O primeiro se chamava Enzmann Cavalcante; o segundo, Newton Freitas.

– Em que é que vocês se ocupavam lá fora? indaguei. Eu trabalhava com ele, respondeu Newton designando o outro.

– E ele?


– Ele trabalhava comigo.

– Sim. Mas que é que faziam? Ah! Não fazíamos nada.

E soltou uma gargalhada imensa. Ria sem descontinuar, o vivente mais alegre do mundo.

– Quem diria? exclamou. Que diferença! Eu pensava que você fosse novo e preto.

– Novo e preto? inquiri. Porque julgou isso? Sei lá! Era o que eu imaginava.

E a risada estalou.

– Onde foi que nos vimos? perguntei a Cavalcante. Não me lembro. Acho que me conhece.

– Já nos encontramos em Alagoas. Eu sou de Penedo. Ah! Sim.

E ficamos nisso. Ouvimos o som de numerosos tamancos no pavimento inferior, tropel na escada.

– A bóia.

Descemos, tomamos lugar na fila organizada para o almoço. Junto à grade, mexendo em caixões e sacos, faxinas se atarefavam na distribuição da comida. Examinei-a de longe, considerei-a suportável. O apetite não me vinha, contudo achei-me capaz de engolir qualquer coisa. Afastadas as marmitas de folha e a horrível imundície do porão, o torpor do estômago iria desaparecer. Avizinhei-me, recebi um prato, uma laranja e uma banana, voltei ao cubículo. Ofereceram também aos recém-chegados canecos de alumínio. A falta de mesa me atrapalhava, servi-me com dificuldade, na cama. Não havia faca nem garfo, uma colher apenas. Mas o juízo de capitão Mata, que achava, como sempre, o alimento muito bom, animou-me. Consegui tragar uns bocados. Arroz insípido, carne misturada com peixe. Deixamos a louça na soleira. Na ausência de móveis, arrumei sobre o guarda-vento os livros, a valise, a roupa dobrada. E estendi-me para repousar. Deitava-me afinal como gente, na aparência. O colchão era tão delgado que não me deixava em sossego, um varão do lastro magoava-me o espinhaço. Virei-me para um lado e para outro, avancei, recuei, e sempre a infeliz haste de metal a chocar-me os ossos. Alojei-a por fim entre as últimas costelas e o ilíaco, adormeci ouvindo a esfrega nas camisas do capitão, o esguicho da torneira.

2

DESPERTARAM-ME pancadas de tamancos. Ergui-me, fui ao passadiço, vi aglomeração lá embaixo, desci, agreguei-me ao semicírculo que se formava junto à escada. Rodolfo Ghioldi subiu alguns degraus. Tinha de pano em cima do corpo uma cueca e um lenço. Começou a falar em espanhol, de quando em quando lançando os olhos a um cartão de cinco centímetros, onde fizera o esquema da palestra. Referiu-se à política sul-americana, e logo no princípio tomei-me de verdadeiro espanto: nunca ouvira ninguém expressar-se com tanta facilidade. Enérgico e sereno, dominava perfeitamente o assunto, as palavras fluíam sem descontinuar, singelas e precisas. Admiravam-me a rapidez do pensamento e a elegância da frase. Curvado sobre o papel, a suar na composição, emendando, ampliando, eliminando, não me seria possível construir aquilo.

– Excelente orador, segredei ao vizinho.

Esquisito um homem quase nu causar tal impressão. Afizera-se à tribuna, achava-se à vontade, a governar os nervos dóceis, consultando o papel da sinopse, dobrando-o para ocultar as linhas percorridas, movendo o lenço como se tirasse recursos dele. O gesto de prestidigitador firme no seu ofício. Conservou-nos atentos meia hora, o prazo marcado para a conferência. Tê-la-ia, como depois notei, desenvolvido em sessenta minutos ou resumido em quinze, expondo a matéria toda, sem esquecer um ponto. Capaz de, com destreza, analisar ou sintetizar.

Algumas pessoas se afastavam de nós: Sérgio, Adolfo Barbosa, o gigante sério e trigueiro, de colarinho e gravata no desmazelo geral. Quem era esse tipo que se desviava dos outros, dava mostra de esperar sair logo? Informei-me quando terminou o discurso. Valdemar Birinyi, húngaro, dizia-se ex-oficial de Bela Kun. Tinha propriedades na Inglaterra e na Argentina. Viajava da Europa a Buenos Aires, em companhia de uma bonita mulher, e tivera a infeliz idéia de saltar no Rio de Janeiro. Aqui se hospedara em hotel de luxo, comprara um automóvel e resolvera prosseguir a viagem por terra. Preso no Rio Grande do Sul, fora recambiado à pressa, em avião, e no interrogatório da polícia, mal se explicando numa gíria internacional, deixara sem clareza as razões secretas que o haviam trazido ao Brasil. De nada lhe serviram o passaporte e fotografias de imóveis no Prata. Oito malas e vinte e cinco mil francos suíços tinham desaparecido. O que mais o agoniava era o extravio de uma coleção de selos, a terceira do mundo, orgulhava-se disto. Em momento de desespero tentara cortar os pulsos com uma gilete, ainda conservava pedaços de esparadrapo colados à pele. Enfurecera-o talvez o sumiço daquela preciosidade, ou o isolamento em que vivia. Exprimia-se a custo, embaralhando línguas; entendia-se em alemão com Sérgio, fazia dele intérprete. Chegando ao Pavilhão dos Primários, fora recebido com o Hino do Brasileiro Pobre:

Do norte, das florestas amazônicas,

Ao sul, onde a coxilha a vista encanta... E resmungara chateado:

– Fui oficial de Bela Kun. Iam fazer aqui revolução com estas bestas?

Caíra, pois, em desagrado, embora possivelmente não tivesse querido ofender ninguém: mastigava um português horrível, nunca dizia o que desejava. Pascoal Leme, um professor moço, de fisionomia aberta, contou-me pedaços desse desastre; colhi diversas minúcias aqui e ali, passeando no vasto recinto, chamado Praça Vermelha. Na cadeia sobra-nos tempo, acumulamos as notícias mais insignificantes; às vezes as imaginações trabalham fora da realidade, surgem construções absurdas, e nem sabemos quando nos relacionam fatos verdadeiros ou quando sonham. Visitei Adolfo Barbosa e Renato, busquei aproximar-me de alguns outros. Os meus novos amigos chegados pela manhã rapidamente se ambientavam; a cadência lenta dos nordestinos casava-se a ríspidas vozes estrangeiras. Havia ali pequeno-burgueses e operários, homens cultos e gente simples. De um lado Rodolfo Ghioldi e Sérgio, engenheiros, médicos, bacharéis; do outro lado Bagé, companheiro de Medina, e o negro forte, barrigudo, visto ao chegarmos, o estivador Santana. Na célula de Romariz conheci um tipo curioso, Agrícola Baptista. Furara um lençol cor de sangue e andava metido nesse poncho medonho, que nos feria a vista. Servira na Coluna Prestes, recebera uma bala na perna e por isso claudicava. Davam-lhe a alcunha de Tamanduá, realmente bem aplicada: tinha os olhos pequenos, barba espessa, o rosto se alongava, inquieto, num sorriso frio e doloroso. Outra figura me chamou a atenção, Amadeu Amaral Júnior, arcabouço de torre, olhos profundamente azuis, cabeleira anelada cobrindo-lhe as orelhas, prometendo chegar aos ombros. Vestia uma cueca preta e calçava enormes tamancos ruidosos que pezunhavam como cascos. Jornalista, desenfastiava-se na prisão redigindo novelas. Exibiu-me um conto bem chocho, amostra das suas possibilidades literárias. Devolvi-o constrangido, esforçando-me em vão por indicar nele idéia ou forma razoável, mas o autor eximiu-me da cortesia falsa: indiferente a elogios, asseverava, na palavra e no gesto, o grande valor do seu trabalho. Isso me afligia, embaraçava; o desejo de ser amável findou; descobria uma vaidade espessa e vinha-me a tentação, enérgica e irrealizável, de grosseiramente afirmar que a história não prestava. Necessário afastar-me, livrar-me da situação penosa. Amadeu Amaral Júnior deve ter-me adivinhado recantos do interior: excedeu-se no juízo fátuo, com estridência e aspereza. Vexava-me sobretudo achar-me livre de simpatia, inclinando talvez a ser injusto, não poder de nenhuma forma solidarizar-me com o rapaz, negar fugitivos indícios de beleza acaso existentes na sua literatura. Ao deixá-lo, perguntava a mim mesmo se o havia magoado ou se ele me ofendera. Com certeza eram exatas as duas suposições.

Percebi entre os meus companheiros uma esquisita amabilidadeantes de pedir, ofereciam. Alguém me veio perguntar se necessitava qualquer coisa, dinheiro, cigarros. Nada me faltava, agradeci. A resposta era infalível: os meus escrúpulos me levariam a recusar assistência, ainda que me achasse em penúria. Bem. Tratava-se então de saber se me era possível contribuir para o Coletivo. Sem dúvida, mas que vinha a ser aquilo? Um organismo a funcionar, com excelentes resultados, em prisão política. A oferta e o pedido me revelavam de pronto um dos seus fins: estabelecer o equilíbrio. A testa dele, uma comissão de cinco membros, eleitos por alguns meses, zelava a ordem, a higiene, entendia-se com o mundo lá de fora utilizando as visitas, levava à administração do estabelecimento exigências e protestos. Como o diretor não aparecia, a autoridade próxima era o Coletivo. Fundara cursos de línguas e ambicionava instituir uma Universidade Popular. Benjamin Snaider ensinava russo.

– Contribuição mensal? Não, semanal.

Com minguados recursos, impossível dar mais de dez mil réis. Larguei-os. Dentro em pouco, certamente, nem disso iria dispor. Estremeci ouvindo perto um canto de galo Quem teria metido ali o animal? Procurei-o, guiando-me por outros cocorocós muito agudos e trêmulos. Percebi o engano. Lá em cima, um sujeito de bugalhos imóveis e expressão lorpa estirava o pescoço e esgoelava-se daquele modo

– Idiota! bradaram furiosamente na vizinhança.

O tipo, insensível à ofensa, continuou a descomedir-se exibindo o seu talento galináceo. Era português e anarquista, disseram-me; desde a chegada vinha-se entregando ao exercício irritante: quando menos se esperava, erguia-se nas pontas dos pés, lançava o duro grito rolado. Fora isso, declamava com insistência um período que principiava assim: Por causa de uma aventura galante...

A tardinha surgiram novamente os caixões e organizou-se a fila para o jantar. Devolvidos os pratos, percebi um tilintar de chaves; fui ao passadiço, vi no pavimento inferior um guarda trancando portas; iam-se pouco a pouco dissolvendo os grupos. Os tinidos aproximaram-se, recolhi-me, um instante depois achava-me enclausurado, um livro nas garras, tentando ler à luz escassa da lâmpada. Canitão Mata se acomodava, divagando por assuntos vários. No cubículo à direita haviam-se alojado Macedo e Lauro Lago; à esquerda estavam Benjamin Snaider e Valdemar Bessa, médico, cearense, bicudo. Julguei distinguir a voz de Renato:

– Alô! alô! Fala a Rádio Libertadora.

Não era apenas um divertimento arranjado com o fim de matar tempo e elevar o ânimo dos presos: vieram notícias de jornais, comentários, acerbas críticas ao governo, trechos de livros, o Hino do Brasileiro Pobre, algumas canções bastante patrióticas, sambas.

– A Beatriz não vai querer cantar? disse alguém.

Ir querer, fala estranha, feriu-me o ouvido nordestino. Palmas, aclamações, gritos exigindo o canto de Beatriz Bandeira. Um sussurro doce flutuou longe:

As granadas vêm caindo, Incendiando o meu quartel

Diabo! Havia mulheres ali. Onde se escondiam elas? Finda a queda suave das granadas, morto o agradável incêndio no quartel, vibraram aplausos vários minutos. As vozes se espaçaram, arrefeceu o entusiasmo, afinal a Rádio Libertadora encerrou o seu programa daquele dia.

Agora tínhamos água abundante, recuperávamos as necessidades corriqueiras de limpeza. A roupa de capitão Mata secava, estendida no guarda-vento nos pés e na cabeceira da cama. Sem achar repouso no colchão delgado, estive muitas horas a cochilar um sono cheio de perturbações. A trave de ferro deslocava-se, magoava-me a ilharga, de quando em quando era preciso fixá-la entre as costelas e o osso do quadril; bichos miúdos picavam-me; os passos regulares do guarda soavam na plataforma; um surdo rumor de máquina zumbia monótono. Pelo meio da noite, distingui um chamado próximo, insistente. Ergui-me, cheguei à porta, vi em frente um rapaz que tentava comunicar-se com as outras células num aviso misterioso:

– A metralhadora está comendo, macacada. Surpreendi-me e interroguei-o com a cabeça.

– Revolução, tornou. Não está ouvindo a metralhadora? Voltei à cama, atônito. . Era o ruído enfadonho que o tinha levado a semelhante conclusão. O trabalho de um cata-vento, devia ser isto. E o homem se desvairava, facilmente mudava em realidade o seu desejo, resolvia-se a acordar as pessoas para transmitir-lhes a convicção e a demência.



3

LEVANTEI-ME cedo. E acabava de lavar-me e escovar-me na pia quando ouvi rumor no passadiço e o alimento da manhã chegou à porta. O longo bico de um bule enorme passou entre os ferros da grade. Fomos buscar os canecos de alumínio recebidos na véspera, um homem de roupa zebrada encheu-os, a cada um de nós ofereceu um pão, afastou-se. Sentado na cama, que servia de mesa, de cadeira, substituía outros móveis, mastiguei pedaços de crosta dura, sentido a manteiga rançosa, bebi o café adocicado, enjoativo. Movimento na Praça Vermelha anunciou que estavam abrindo os cubículos. Pisadas, tinir de chaves, a nossa porta se escancarou. Peguei o sabão e a toalhinha, fiquei ainda um instante a negociar com o faxina, comprando-lhe um par de tamancos. Livrei-me dos sapatos, acomodei os pés na madeira tosca, saí devagar e cauteloso. O peitoril que cercava a plataforma estreita não nos defendia. Ausência de balaústres. Um escorrego infeliz no mosaico nos faria passar por baixo da trave e nos lançaria ao rés-do-chão. Desci.

No patamar, em voz baixa, capitão Mata conferenciava com um guarda, recebia notícias do oficial a quem se dirigira ao chegar. Hábil criatura: sem perder tempo, alcançava ligação proveitosa; certamente o largariam depressa. Pude enfim lavar-me direito, receber no corpo o jato forte de chuveiro. Em seguida visitei cubículos, reforçando alguns conhecimentos esboçados. Benjamin Snaider conseguira subir a uma das janelas altas que abriam para o exterior e. seguro às grades, mantinha uma discussão política, dando a alguém invisível o nome de Valentina. Percebi a voz da mulher, mas não lhe distingui as palavras. O diálogo, reduzido à metade, interrompeu-seanunciaram perto o banho de sol e Benjamin Snaider despencou-se lá de cima, num salto perigoso.

Ganhamos a Praça Vermelha. A um canto muitos indivíduos se comprimiam, alguns inteiramente nus, enxugando-se, vestindo-se à pressa. Findos esses arranjos, subimos batendo os cascos nos degraus de ferro, em seguida encaracolamos por uma escadinha espiral, desembocamos lá em cima num grande terraço. Deixando a sombra, recebemos de chofre uma inundação de luz. Montes, arranha-céus, a agitação rumorosa da Central, trechos do Mangue, o enorme gasômetro da Light, a massa dura da Favela, muros altos a rodear-nos, a Casa de Correção, vizinha. Estávamos ali umas sessenta pessoas, várias conhecidas no porão do Manaus: depois de nós, outros haviam chegado, em pequenos grupos bisonhos, e os faxinas andavam numa azáfama, transportando camas e colchões, arrumando células. Afeito à solidão no quartel, à promiscuidade animal na viagem, habituara-me com surpresa à vida nova. Homem rural, desconfiado e silencioso, propenso a estender-me em compridos monólogos, admirava-me do Coletivo, das lições, especialmente da perícia daqueles citadinos na exposição de idéias em conversas simples e claras. Não conseguiria manifestar-me assim De ordinário a expressão me fugia, decompunha-se o pensamento, e era uma tortura vencer a estupidez, procurar dizer qualquer coisa gaguejando um vocabulário escasso, miserável. Na manhã luminosa, olhando postes e fios, prédios cinzentos, arvoredo e morro, ainda uma vez me aniquilei no pasmo que a palavra falada sempre me causa.

Rodolfo Ghioldi fez uma conferência. Meio despido, como no dia anterior, discorreu exuberante, a manejar o lenço, ora consultando o papelzinho do esquema, ora deitando os olhos ao relógio de pulso. Desenvolveu com precisão a matéria, ajustou-a seguro ao tempo, sem se alargar, sem se restringir em nenhuma das partes. Não raro metia no assunto grave minúcias picarescas, até palavrões a evitava o cansaço do auditório. Operários atentos esforçavam-se por entendê-lo, pedindo às vezes a significação de um termo.

– Que quer dizer terrateniente?

Em geral discursos de quinze minutos me dão sono e bocejos Tenho uma espécie de indiferença auditiva, só compreendo bem o que vejo escrito. Ali, porém, estive uma hora a escutar o argentino, remoendo a excelente lição. Em seguida Mediria rezingou um protesto descabido: referiu-se à dureza do regímen carcerário e julgou conveniente fazermos a greve da fome. Houve sussurro e o desagrado estampou-se nos rostos.

– Provocação, murmurou Renato. Acha? perguntei.

– Sem dúvida. Que é que vamos reclamar? Estamos bem E aqui há diversos estrangeiros. Se concordarmos nisso, eles serão mandados para lugar pior.

Muitos opinavam certamente assim; contudo nenhuma objeção pública se articulou. Na surpresa, ficamos a olhar-nos uns aos outros, esperando que alguém se manifestasse: receávamos talvez ser considerados conformistas ou débeis. Quem se expressou foi Bagé, mascando uma intervenção de apoio difícil à proposta de Mediria. Sem debate, levou-se o caso imediatamente a votação e a maioria levantou o braço concordando, numa anuência desanimada e chocha. Os nordestinos, confusos, não alcançavam direito o motivo da exigência, vinham do porão infame, da galeria molhada, nenhum supusera dormir em lençol, comer em prato, e quase todos se deixavam arrastar, carneiros dóceis, temendo ferir o desejo comum. Provavelmente se justificavam alegando no íntimo que uma simples discordância não influiria na decisão. E evitavam comprometer-se Aquilo foi rápido; se alguém quis opor-se, não teve tempo de revelar-se.

– Bem, disse Rodolfo Ghioldi.

Aceitava a resolução, naturalmente, faria a greve como os outros: nenhuma vantagem, porém, ela nos traria. Esses movimentos nada significavam se não repercutiam lá fora, e nós estávamos isolados. Nenhum meio de cheear a massa a interessar-se por nós, e assim buscávamos somente iludir-nos. A observação de Rodolfo causou-me vivo mal-estar. Resolvera-se, para não mostrar covardia. Praticar uma tolice. Pensei na afirmação de Renato, vaga desconfiança mordeu-me. Assistiríamos apenas a uma fanfarronada inconseqüente ou haveria ali inimigos disfarçados? A suspeita iria prolongar-se, confirmar-se às vezes, outras vezes fazer-nos aceitar sem exame duras injustiças. Enleava-se, perplexo, quando Bagé voltou a gaguejar, a explicar-se entre avanços e recuos, mastigando o risinho mole e insignificante: a princípio a idéia lhe parecera boa, mas agora compreendia o erro e atacava-a. Ninguém a defendeu, outra decisão rejeitou-a por unanimidade. Essa reviravolta alarmou-me, de repente considerei o sufrágio coisa débil: afirmativas enérgicas, lançadas por duas ou três pessoas, bastavam para fingir um julgamento coletivo.

Regressamos. Na descida apresentaram-me um rapaz gordo. Campos da Paz Júnior.

– Médico, especialista em blenorragia. Se precisa dos meus serviços, estou às ordens.

– Obrigado.

Recolhi-me, entretive-me admirando a pachorra de capitão Mata no ofício de engomador. A roupa estava seca, exposta no guarda-vento, e o homenzinho recolhia as peças, dobrava-as cuidadoso, Arrumava-as no colchão, desfazendo com perícia todas as pregas. Quando as julgou bastante lisas, pôs a mala em cima delas.

– Acha que isso dá certo? inquiri. O senhor vai ver.

Chamaram-me da porta: uma das mulheres recolhidas à sala 4 desejava falar comigo. Estranhei. Quem seria? E onde ficava a sala 4? Um sujeito conduziu-me ao fim da plataforma, subiu o corrimão e daí, com agilidade forte, galgou uma janela. Esteve alguns minutos conversando, .gesticulando, pulou no chão e convidou-me a substituí-lo. Quê? Trepar-me àquelas alturas, com tamancos? Examinei a distância, receoso, descalcei-me, resolvi tentar a difícil acrobacia. A desconhecida amiga exigia de mim um sacrifício; a perna, estragada na operação, movia-se lenta e pena; se me desequilibrasse, iria esborrachar-me no pavimento inferior. Não houve desastre. Numa passada larga, atingi o vão da janela; agarrei-me aos varões de ferro, olhei o exterior, zonzo, sem perceber direito porque me achava ali. Uma voz chegou-me, fraca, mas no primeiro instante não atinei com a pessoa que falava. Enxerguei o pátio, o vestíbulo, a escada já vista no dia anterior. No patamar, abaixo de meu observatório, uma cortina de lona ocultava a Praça Vermelha. Junto, à direita, além de uma grade larga, distingui afinal uma senhora pálida e magra, de olhos fixos, arregalados. O rosto moço revelava fadiga, aos cabelos negros misturavam-se alguns fios grisalhos. Referiu-se a Maceió, apresentou-se:

– Nise da Silveira.

Noutro lugar o encontro me daria prazer. O que senti foi surpresa, lamentei ver a minha conterrânea fora do mundo, longe da profissão, do hospital, dos seus queridos loucos. Sabia-a culta e boa, Rachel de Queirós me afirmara a grandeza moral daquela pessoinha tímida, sempre a esquivar-se, a reduzir-se, como a escusar-se de tomar espaço. Nunca me havia aparecido criatura mais simpática. O marido, também médico, era o meu velho conhecido Mário Magalhães. Pedi notícias dele: estava em liberdade. E calei-me, num vivo constrangimento.

De pijama, sem sapatos, seguro à verga preta, achei-me ridículo e vazio; certamente causava impressão muito infeliz. Nise, acanhada, tinha um sorriso doce, fitava-me os bugalhos enormes, e isto me agravava a perturbação, magnetizava-me. Balbuciou imprecisões, guardou silêncio, provavelmente se arrependeu de me haver convidado para deixar-me assim confuso. Uma rapariga loura surgiu perto dela e se ausentou logo. Tentei avaliar o tamanho da sala 4, observar o espaço restrito visível obliquamente. Vigorosa conversa política ali se desenvolvia, a pouca distância, dominada por um vozeirão de instrutor. Quem seria aquela mulher de fala dura e enérgica? Um rapaz subiu à janela, arrumou-se junto de mim, chamou Haydée Nicolussi, e a lourinha tornou a aparecer. Travaram conversa loquaz; forçado a comparação desagradável, confessei-me obtuso e chinfrim. Vi no passadiço alguns tipos a aguardar vaga no miradouro improvisado; com certeza adoçavam ali as horas a parolar com as vizinhas.

Despedi-me de Nise e desci, uma pergunta a verrumar-me, insistente, os miolos: quem seria a criatura feminina de pulmões tão rijos e garganta macha? Nenhum interesse me animava a descobrir isso; refugiei-me na questão para fugir à lembrança de me haver conservado inerte e frio diante da psiquiatra. Foi Valdemar Bessa quem me satisfez a curiosidade: a mulher de voz forte era Eneida. E apertava-se uma dúzia delas na sala 4. Olga Prestes, Elisa Berger, Cármen Ghioldi, Maria Werneck, Rosa Meireles, outras.

O dia correu sem novidade apreciável. Capitão Mata desfez a prensa arranjada sobre a cama e exibiu-me a roupa sem dobras, serviço decente que lhe proporcionava economia de dez tostões. Não me ocorreu imitá-lo, as minhas mãos ineptas falhariam naquele trabalho. Recorri ao faxina para a lavagem dos panos imundos empacotados na valise, fui matar o tempo a andar no rés-do-chão. Com um estremecimento de repugnância, vi Sérgio embrenhado na leitura do meu primeiro romance.

– Pelo amor de Deus não leia isso. É uma porcaria. Ingênuo, tentei explicar-me, em grande embaraço. A publicação daquilo fora conseqüência de uma leviandade. Escrita dez anos antes, a miserável história passara às mãos do editor Schmidt e emperrara. Já revistas as provas, tinham surgido obstáculos, demora, cartas, desavenças e a entrega dos originais a amigos meus do Rio. Em 1935 Jorge Amado me visitara em Alagoas, dissera que Schmidt queria editar o livro; mas não me convinha o negócio: julgava-me então capaz de fazer obra menos ruim, meses atrás concluíra uma novela talvez aceitável. Jorge se conformara com a recusa. Deixando-me, apossara-se dos malditos papéis e dera-os ao livreiro. Essa justificação nada valia e era impossível oferecê-la a todos os leitores. Sérgio teve o bom-senso de não me atribuir falsa modéstia. Com um sorriso frio, voltou à leitura; ia chegando ao fim do volume e acolhia tacitamente a minha opinião desalentada. O Coletivo organizara uma pequena biblioteca desordenada, brochuras circulavam nos cubículos, entre elas a narrativa medonha que eu não gostava de mencionar. Almocei, jantei. Sem fome, pude ingerir a desagradável bóia da prisão: o fastio desaparecera. A noite, fechadas as células, capitão Mata alcançou ruidoso triunfo. A Rádio Libertadora anunciou o programa, iniciado com o Hino do Brasileiro Pobre, que já se ia tornando maçador. As florestas amazônicas, a coxilha, o sul, o norte, a luz dos trópicos começavam a bulir-me com os nervos. Findaram as notícias, os comentários, e a hora de arte chegou, como na véspera. Ouvimos os sambas, as canções, as granadas caíram novamente, incendiaram com vigor o quartel, impelidas pela voz poderosa de Eneida. Capitão Mata, num lampejo, muniu-se de lápis e papel, rabiscou algumas linhas sobre a mala, avizinhou-se da grade e lançou, com ligeiras modificações, o princípio do canto guerreiro diversas vezes murmurado no quartel do Recife:

Onde vais tu, infante ousado, Com teu fuzil a pelejar?

Era assim em Pernambuco. Agora, por causa da Aliança Nacional Libertadora, a belicosidade resultava nisto:

Onde vais tu, libertador, Com teu fuzil a pelejar? – Vou para...

Esqueci o resto, já não sei aonde se dirigia o sujeito armado, mas os desígnios funestos dele excitaram vivamente os cubículos. Palmas, gritos:

– Continua.

Ouvindo a exigência da massa, o poeta resolveu terminar a composição, redigindo com extrema velocidade.

– Continua, berrava o auditório.

– Um minuto, pedia o moço interrompendo-se, chegando à porta. Está em preparação.

Concluído o trabalho, passou-me a folha: Veja se está bom.

Apontei um dos versos:



A burguesia, a burguesia...

– Esse ataque não fica direito. Os burgueses progressistas são nossos amigos.

– O imperialismo então?

– Exatamente, concordei rindo. O imperialismo serve. E não ofende a métrica.

– Não, dá oito sílabas. Trauteou:

O imperialismo, o imperialismo...

Voltou-se para a invisível platéia, jogou a produção e recebeu uma chuva de aplausos. Em seguida fomos dormir. A vara de ferro tocou-me de novo os ossos, acomodou-se entre as costelas e o quadril. E outra vez bichos miúdos vieram picar-me. Ergui-me, olhei os panos, descobri uma quantidade razoável de percevejos.



4

CAPITÃO Mata alcançou parabéns ardentes, e várias pessoas vieram pedir-lhe cópia da cantiga. Andou em voga uma semana, depois foi abafado pela numerosa produção de sambas e não tornou a evidenciar os seus talentos. Correspondia-se com o oficial visto à nossa chegada, certamente achou amparo nessa camaradagem, pois, findas algumas lavagens de cuecas e matanças de percevejos, fomos privados da sua amável companhia discreta. Julgo que teve uma cidadezinha do sul por menagem. Senti a ausência do capitão, lembrava-me dele vendo o caneco de alumínio deixado em cima do guarda-vento. Essa vasilha me foi útil. Os doentes recebiam pela manhã, à hora do café, uma garrafinha de leite. Fui incluído entre eles: sem exame, perceberam-me a ruína interior: com certeza a viagem no porão me havia deixado marcas visíveis em demasia. O caneco me serviu para transformar o leite em coalhada.

Novos magotes chegavam, em pouco tempo havia três, quatro camas em cada célula. Dias antes de sair o capitão, Sérgio me procurou. envolveu-me na sua polidez glacial. Que ria saber se me convinha que ele viesse habitar o cubículo 35, mas a consulta simples tinha quase a feição de uma cerimônia diplomática. Na verdade o assunto exigia cautela: a prisão modificava as índoles, em certos indivíduos apareciam fundas alterações, gênios incompatíveis se chocavam sem motivo aparente Indispensável selecionar os companheiros com atenção. Acho que nos daremos bem, opinou o rapaz.

– Sem dúvida.

Essa anuência divergia do meu pensamento: inclinava-me a supor que não nos entenderíamos. A delicadeza fria do russo dificilmente se harmonizaria com os meus hábitos vulgares de sertanejo; a minha ignorância compacta iria experimentar dura humilhação junto ao saber forte daquele homem doutorado em Leipzig, íntimo de Einstein e de Hegel. Enganei-me. As diferenças evidentes não nos afastaram. vivemos alguns meses em concordância perfeita, nunca um palavrão esotérico, dos ouvidos no encontro inicial, nos separou. Sérgio notou-me rápido a insuficiência e acomodou-se a ela. Nenhuma idéia transcendental: conversas fáceis, corriqueiras, acessíveis ao nordestino iletrado. Sempre nos conservamos na superfície e por isso admirei e estimei aquele espírito sagaz. Reduzia-se, confessava-se leigo em história e literatura, embrenhava-se em longas dissertações sobre arte grega e arte egípcia. Desprezando a Europa, detinha-se em louvores minuciosos à sabedoria asiática. Não se julgava europeu. Nascido no Cáucaso, mestiço de eslavo e tártaro, só achava firmeza e vida no Oriente. Quando me falou pela primeira vez nos canados. não o entendi: a pronúncia gutural deformava inteiramente a palavra. Atentando na alvura transparente de louça, no azul cinzento dos olhos, nos cabelos fulvos, divertia-me a pôr em dúvida a origem dele:

– Você, com esse tipo, seria recusado nas hostes de Tamerlão. É branco demais para tártaro.

Outras vezes atacava-lhe a dureza da língua:

– Vamos deixar de egzagero, não existe egzagero, o que há é exagero, e-za-ge-ro.

Sérgio franzia um sorriso, endireitava a prosódia lentamente, para resvalar depois noutro desconchavo. Fora isso, aprendia o português com facilidade incrível. Desdenhando gramáticas e dicionários, entrava na sintaxe e enriquecia o vocabulário por meio de leituras e consultas. O que entrava ali ficava, não repetia perguntas. Fez uma síntese da filosofia de Hegel, num caderno, a lápis, o começo em alemão, o fim em português. Leu-me esse trabalho, emperrando às vezes, buscando a expressão, convencendo-se de que o pensamento era intraduzível e usando circunlóquios. Esforçava-se por trasladar-me versos de Puchkine, desistia:

– É inútil. Só podemos sentir e compreender esta balada em russo.

Não simulava nenhuma espécie de consideração às nossas letras, pouco mais ou menos inexistentes. Falava-me com franqueza e isto não me susceptibilizava, é claro: o meu novo amigo vinha de grandes culturas, não iria fingir apreço às miudezas nacionais. Um dia, como ele desacatasse rijo os sonetos, nada mais enxergando na poesia brasileira, interrompi-o: Vou recitar-lhe um soneto, Sérgio.

E atirei-lhe O Sorriso de Manuel Bandeira. Sérgio ouviu-me atento, murmurou com espanto:

– Oh! Vocês aqui têm disso? E, noutro tom:

– Ainda não conheço o Brasil. Leviandade manifestar-me sobre ele.

A percepção, a compreensão e a memória do rapaz me assombravam. Uma vez encontrei-o agarrado ao meu segundo romance. Virou a folha, avizinhei-me, entrei a rever pedaços da minha terra. Ia chegando ao fim da página esquerda, e o moço voltou a folha de novo.

– Não é possível que você tenha lido essas duas páginas, afirmei.

– Porquê?

– O autor dessas drogas sou eu, e apenas li uma. É absurdo que você, estrangeiro, chegado há pouco, mal conhecendo a nossa fala e as nossas coisas, tenha conseguido pegar as duas.

Sérgio entregou-me, sorrindo, a brochura:

– Vamos ver se me lembro. Não digo as palavras, mas acho que posso mencionar as idéias, como estão colocadas. E reproduziu as duas páginas, com ligeiras alterações.

– Incrível, exclamei atordoado, largando o volume. Sou na verdade uma criatura bem estúpida. Ou então você é um monstro.

Sem despregar dos beiços pálidos o sorriso débil, Sérgio me condenava frouxamente os egzageos. O meu espanto crescia, a delicadeza glacial do russo me exaltava:

– Sem dúvida, somos bichos de espécies diferentes. Faço um livro, gasto meses a espremer os miolos, compondo, eliminando, consertando, fico a remoer cada frase com paciência de boi, e consumo para entender isso o duplo do tempo necessário a você. É inacreditável.

Afirmava-me não ser difícil percorrermos um texto, apreendendo a essência e largando o pormenor. Isso me desagradava. São as minúcias que me prendem, fixo-me nelas, utilizo insignificâncias na demorada construção das minhas histórias. Aquele entendimento rápido, afeito a saltos vertiginosos e complicadas viagens, contrastava com as minhas pequeninas habilidades que pezunhavam longas horas na redação de um período. Julguei Sérgio isento de emoção, e isto me aterrou. Comovo-me em excesso, por natureza, e por ofício, acho medonho alguém viver sem paixões. Imaginei-me diante de um cérebro, cérebro enorme. O resto do corpo minguava, tinha fracas exigências, funcionava para levar um pouco de sangue à poderosa máquina. A voz calma narrava-me cenas de arrepiar e não se elevava, escorria dos beiços finos, banhava o sorriso permanente como um fio de água gelada. Ao deixar a sala de tortura, Sérgio mexia-se a custo: andava nas pontas dos pés feridos, arrastando os sapatos, os calcanhares fora dos tacões: a rigidez do couro magoava-lhe a carne viva, sangrenta. Num corredor enxergava de longe a cabeça da mulher. E enviara-lhe um aceno, tentara apagar no rosto qualquer vestígio de padecimento. Ouvindo isso, falei no ódio que ele devia experimentar. Olhou-me atônito:

– Ódio? A quem?

– Aos indivíduos que o supliciaram, já se vê.

– Mas são instrumentos, sussurrou a criatura singular. Aos que os dirigem. Aos responsáveis por isso. Não há responsáveis, todos são instrumentos.

Na verdade ele tinha razão. Contudo, se me houvessem atormentado, não me livraria da cólera, pediria todas as desgraças para os meus carrascos.

– Se lhe aparecesse meio de vingar-se, não se vingaria? Que lembrança!

Guardei silêncio um instante, depois tornei:

– Sou um bárbaro, Sérgio, vim das brenhas. Você é civilizado, civilizado até demais. Diga-me cá. Admitamos que o fascismo fosse pelos ares, rebentasse aí uma revolução dos diabos e nos convidassem para julgar sujeitos que nos tivessem flagelado ou mandado flagelar. Você estaria nesse júri? Teria serenidade para decidir?

– Porque não? Que tem a justiça com os meus casos particulares?

– Eu me daria por suspeito. Não esqueceria os açoites e a deformação dos pés. Se de nenhum modo pudesse esquivar-me, nem estudaria o processo: votaria talvez pela absolvição, com receio de não ser imparcial.

O russo não agasalhava tais escrúpulos: absolveria ou condenaria, insensível, examinando os autos.

– Se você acaso chegasse ao poder, conservaria os seus inimigos nos cargos, Sérgio?

– Não tenho inimigos. Conservaria os que se revelassem úteis.

– Bem. Essa impassibilidade me assusta. Apesar de sermos antípodas, fizemos boa camaradagem. Mas suponho que você não hesitaria em mandar-me para a forca se considerasse isto indispensável.

– Efectivamente, respondeu Sérgio carregando com força no c. Boa noite. Vou dormir.

Estendeu-se na cama agreste, enfileirada com a minha junto ao muro, cruzou as mãos no peito. Ao cabo de um minuto ressonava leve, a boca descerrada a exibir os longos dentes irregulares. Nunca vi ninguém adormecer daquele jeito. Conversava abundante, sem cochilos nem bocejos; decidia repousar e entrava no sono imediatamente. O domínio sobre o corpo, a vontade rija, a ausência de sentimentos quase me apavoravam. Deixando a Alemanha, Sérgio casara e enviuvara, na Estônia. Não lhe notei saudade, era como se casamento e viuvez se referissem a outra pessoa. Agora a segunda mulher o visitava com regularidade, trazia-lhe pijamas e abacates. O marido falava nela com simpatia, achava Emilie companheira excelente. A moça da Estônia fora colega de universidade, e Emilie, suponho, dera-lhe as primeira lições de português. No começo presumi Sérgio indiferente à beleza física, só interessado nas relações intelectuais, a carecer de sexo. Depois modifiquei o juízo. Também comigo se passava qualquer anormalidade. Surgiu-me de repente anafrodisia completa. Súbita desaparição dos desejos eróticos e um resfriamento geral, espécie de anestesia; órgãos se embotavam, paralisavam; a esquisita impressão de haver em mim pedaços mortos. Porque diabo me vinha aquilo de chofre? Deram-me um princípio de esclarecimento, e não liguei importância a ele Eu abusava do café. Certa manhã, fornecendo-me o segundo caneco, o faxina me proporcionou este aviso:

– Se o senhor soubesse o que há nisto, não bebia tanto. Indaguei, o tipo encolheu os ombros e ficou por aí. Desatento ao conselho, não me abstive do líquido enjoativo, adocicado. E nem de longe suspeitei que o gostinho de formiga tivesse ligação com o prolongado esmorecimento.



5

VOTOS de boa viagem, manifestações de alegria, o Hino do Brasileiro Pobre seguiram capitão Mata, na Praça Vermelha. E, depois de curto abandono, a cama fronteira à minha, junto à porta, foi ocupada por Sebastião Hora. No cubículo à esquerda, além de Benjamin Snaider e Valdemar Bessa, vivia agora Pedro Luís Teixeira, um repórter magro que raro nos falava, não nos cedia lugar ao atravessarmos o passadiço estreito. Míope em excesso, piscava os olhos, encarquilhava as pálpebras e não nos distinguia a três passos. A direita os nossos vizinhos eram Macedo, Lauro Lago, um terceiro, provavelmente do Rio Grande também, pois aquela gente vivia sempre junta. Perdidas as cordas na rouparia, Macedo arranjara outras, muito longas, e conseguiria armar a rede em varões das grades. Ficava sentado nela horas extensas, calmo, risonho, fumando cachimbo. De pé, gordinho, barrigudinho, amável e resoluto, parecia-me deslocado.

Alguns passageiros do Manaus iam ressurgindo. A careta medonha de Gastão, fixa na carne em rugas, na costura vermelha a estender-se da boca ao pescoço, voltou a zombar in voluntariamente de nós. O pequeno dentista Guerra alojou-se no segundo andar, perto da escada. Mário Paiva chegou silencioso, triste, com ar doentio; nunca mais tornamos a ouvir a flauta de seu Lobato. Revi Carlindo Revoredo, imóvel como no porão, o estudantezinho João Rocha, Van der Linden. Remiro Magalhães, estabanado, sempre em correrias e gritos, achou ali companheiros, dois garotos presos quando pintavam muros. Essas crianças nem tinham nomes: para nós eram simplesmente os pichadores. Sebastião Félix encontrou sectários e decidiu realizar à noite sessões de espiritismo, bastante animadas. Esquecia os viventes, estimava a companhia dos mortos. Em semelhante convivência, não sei como se interessou pela rebelião de Natal. É possível que não tivesse entrado nela. Capitão Mata e Manuel Leal estavam alheios à bagunça de 35. E o beato José Inácio desejava uma revolução que fuzilasse todos os ateus.

Leonila e Maria Joana foram recolhidas à sala 4. Do terraço, no banho de sol, vi-as lá embaixo, num pátio, em companhia das outras mulheres. Eram dez ou doze, formavam círculo e faziam exercício atirando uma à outra, a desenferrujar os braços, uma bola de borracha. Todas as manhãs passavam ali uma hora. Na ida e na volta, demoravam-se às vezes no patamar, afastavam a lona que disfarçava a Praça Vermelha, detinham-se alguns minutos a conversar com os homens. Sinais de relance percebidos serviram-me para distinguir várias delas: os lábios vermelhos de Valentina, os cabelos grisalhos de Elisa Berger, os olhos verdes de Eneida. Olga Prestes era branca e serena. Rosa Meireles, forte e enérgica, tinha voz rija, decidida. No rosto ardente de Maria Werneck, no corpo magro, onduloso, adivinhava-se de longe intensa vibração. A figura de Nise entrara-me fundo no espírito. Apesar de havermos ficado momentos difíceis um diante do outro, confusos, aturdidos, em vão buscando uma palavra, aquela fisionomia doce e triste, a revelar inteligência e bondade, impressionava-me. Não me arriscaria a dirigir-me a ela. Se isto acontecesse, emudeceríamos outra vez, permaneceríamos no constrangimento horrível, a catar idéias incompletas e espalhadas. Contentava-me perceber-lhe à distância a palidez, o sossego fatigado, a viveza dos enormes bugalhos. Numa dessas passagens matinais deu-se coisa burlesca. Diversas pessoas no Pavilhão, sem querer, entregavam-se ao nudismo. Saíam do banheiro, iam secar preguiçando nos cubículos, andando na Praça Vermelha, e esqueciam-se de vestir-se. Estava assim Newton Freitas, oferecendo a um magote ocioso conversa loquaz e gargalhadas imensas, quando se entreabriu a cortina de lona e a figura de Eneida apareceu. Com impudência tranqüila, o homem deu um passo e cumprimentou.

-. Você está decente para falar com senhoras, murmurei tocando-lhe no ombro.

– Puxa! Com os diabos!

Recuou, quis envolver-se na toalhinha de rosto, mudá-la em tanga, acocorou-se rapidamente por detrás dos companheiros, morta a alegria num instante, encabulado em excesso.

Depois desse dia os habitantes do Pavilhão foram cautelosos, e Eneida nos trouxe uma exigência: deveríamos pelo menos usar cuecas. Dispensavam-se os pijamas, nem todos os possuíam. Rodolfo Ghioldi, por exemplo, estava desprevenido: ainda não lhe chegara a roupa tomada na polícia, e de manhã, no degrau da escada, fazia a conferência quase em pêlo, tirando efeitos do lenço, como um pelotiqueiro, do relógio de pulso, do cartão pequeno onde arrumara o esquema da palestra. Mais ou menos cobertos havia dois homens: Valdemar Birinyi e um sujeito cabeludo, baixinho, que me apareceu na fila da comida, lendo um romance inglês. Despojara-se do paletó, mas a calça de casimira bem vincada, sapatos, meias, camisa fina, colarinho, gravata, suspensório discordavam muito dos nossos hábitos. Cumprimentei-o, busquei puxar conversa. Evidentemente os meus tamancos e o pijama sovado lhe inspiravam desconfiança. Em poucas palavras, confessou-me que se chamava Anastácio Pessoa, era recém-chegado e estava ali por equívoco. Talvez julgasse comprometer-se falando comigo: encerrou o assunto e mergulhou na leitura do seu inglês. Mais tarde informei-me. Era alto funcionário de um Banco. Chamado à polícia, tomara o automóvel, fora prestar declarações, meio intrigado. Que diabo queriam com ele? Ao chegar, recomendara ao chauffeur que esperasse. As horas se tinham passado, os dias e nenhuma pergunta. Quando supunha esclarecer o negócio e voltar à sua carteira, transferência para a Casa de Detenção. Anastácio Pessoa, atordoado, ainda esperava desfazer o engano, ouvir explicações e gentilezas. A qualquer momento o chamariam. Por isso estava ali metido na calça azul, de meias e gravata, os olhos na página, a afrontar a nudez escura de Newton Freitas. Não se resignava a largar a roupa e acomodar-se. Muito diferente era Isnar Teixeira, médico cearense, franzino e miúdo, que apareceu descalço, com bagagem reduzida: um pijama e uma escova de dentes. Vinha com ele Otávio Malta, jornalista pernambucano, risonho e pequeno, a quem deram logo a alcunha de Cabeça-de-Porco. Imitaram-lhe a pronúncia nordestina e inventaram sobre ele uma anedota absurda. Na Ordem Política e Social o delegado lhe dissera:

– Pode entrar, seu Matoso. E Malta respondera:

– Perdão, doutô. Esse é o meu nome ilegá. O verdadeiro é Otávio Marta.

A pilhéria, repetida, nunca enfadou o rapaz. Divertia-se com ela, depois se fechava, escrevia artigos que à noite eram divulgados na Rádio Libertadora. Outros indivíduos iam surgindo. Um me impressionou, alto, magro, ligeiramente curvo, grave demais, severidade imensa a estampar-se no rosto. Vi-o de longe, à noite, no extremo do passadiço fronteiro, ao pé da cortina. Ofereceram-lhe uma salva de palmas; agradeceu com um gesto, apresentou-se:

– Lourenço Moreira Lima.

Devia ser o coronel que, anos atrás, governara o Ceará, julguei. No dia seguinte, ao cumprimentá-lo, dei-lhe a patente. Recusou-a:

– O senhor está me confundindo com meu irmão Filipe. Eu sou Lourenço.

– Também militar? Não, advogado.

Nascera decerto para usar farda. Rijo, anguloso, afirmativo, grande energia exposta na cara onde se cavavam rugas duras, infundia respeito. Recebeu por isso a alcunha de Bacharel Feroz. Injustiça: conheci-lhe depois o coração de ouro. Foi um dos sujeitos mais dignos que já vi. Com duas hérnias contidas numa funda complicada, viajara longas distâncias pelo interior, a pé, a cavalo, subira e descera rios, como secretário da Coluna Prestes.

A chegada mais rumorosa foi a de Apporelly. Estávamos recolhidos, e a Rádio Libertadora, em meio do programa, comunicou o sucesso

– Fala o Barão, exigiram de vários cubículos.

Sem demora, uma voz pastosa, hesitante, anunciou a teoria das duas hipóteses. Risos contagiosos interromperam com freqüência a exposição. Consegui entendê-la por alto. Otimis ta panglossiano. Apporelly sustentava que tudo ia muito bem. Fundava-se a demonstração no exame de um fato de que surgiam duas alternativas; excluía-se uma, desdobrava-se a segunda em outras duas; uma se eliminava, a outra se bipartia, e assim por diante, numa cadeia comprida. Ali onde vivíamos, Apporelly afirmava, utilizando o seu método, que não havia motivo para receio. Que nos poderia acontecer? Seríamos postos em liberdade ou continuaríamos presos. Se nos soltassem, bem: era o que desejávamos. Se ficássemos na prisão, deixar-nos-iam sem processo ou com processo. Se não nos processassem, bem: à falta de provas, cedo ou tarde nos mandariam embora. Se, nos processassem, seríamos julgados, absolvidos ou condenados. Se nos absolvessem, bem: nada melhor, esperávamos. Se nos condenassem, dar-nos-iam pena leve ou pena grande. Se se contentassem com a pena leve, muito bem: descansaríamos algum tempo sustentados pelo governo, depois iríamos para a rua. Se nos arrumassem pena dura, seríamos anistiados, ou não seríamos. Se fôssemos anistiados, excelente: era como se não houvesse condenação. Se não nos anistiassem, cumpriríamos a sentença ou morreríamos. Se cumpríssemos a sentença, magnífico: voltaríamos para casa. Se morrêssemos, iríamos para o céu ou para o inferno. Se fôssemos para o céu, ótimo: era a suprema aspiração de cada um. E se fôssemos para o inferno? A cadeia findava aí. Realmente ignorávamos o que nos sucederia se fôssemos para o inferno. Mas ainda assim não convinha alarmar-nos, pois essa desgraça poderia chegar a qualquer pessoa, na Casa de Detenção ou fora dela. De manhã, ao lavar-me, notei, que alguém se esgoelava no chuveiro próximo, recitando Os Lusíadas:

As armas e os barões assinalados...

A água jorrava com forte rumor, alagava o chão; diversas torneiras abertas, resfôlegos, gente a esfregar-se, magotes conversando à porta, aguardando vaga. O vozeirão dominava o barulho: E também as memórias gloriosas Daqueles reis que foram dilatando A fé, o império, a uretra...

Dei uma gargalhada, ouvi este comentário:

– Hoje não se dilata império nem fé. Essas dilatações vão desaparecendo. Agora o que se dilata é a uretra.

Saí. E enquanto me enxugava, conheci Apporelly, nu, um sujeito baixo, de longa barba grisalha, o nariz arrebitado, que uma autocaricatura vulgarizou. Vestimo-nos, subimos para o banho de sol. Algumas dezenas de homens faziam ginástica. Fomos sentar-nos longe do exercício, prudentes e capengas, ele hemiplégico, eu com a perna entorpecida, mal me equilibrando, pontadas constantes no lugar da operação. A viagem a bordo me arrasara. Talvez essa coincidência no desarranjo físico nos tenha aproximado. Familiarizamo-nos depressa. Confiou-me Apporelly o plano de um trabalho concebido ultimamente, ia dedicar a ele os ócios da prisão. Tencionava compor a biografia do Barão de Itararé.

– Volume grosso, um calhau no formato dos de Emil Ludwig. No frontispício, a divisa, o escudo, as armas do ilustre fidalgo: uma garrafa, um copo, um talher cruzado, um frango em decúbito dorsal. É a história completa do homem, a ampliação dos ridículos que publiquei na Manha. Veremos os princípios do barão, a vida política, os negócios, a maneira como adquiriu o título. Agraciou-se naturalmente e fez esta confidência aos amigos: Se eu fosse esperar que me reconhecessem o mérito, não arranjava nada. Concedi a mim mesmo carta de nobreza.

Boa idéia, concordei. Vai arranjar uma crítica social oportuna.

– Claro, anuiu o motejador feroz. Você conhece Itararé jornalista. Depois que ele se tornou popular, esmoreceram aqui na imprensa as manifestações de sabujice ao nosso querido diretor. Um dia Itararé descobriu uma volumosa ladroeira oficial e denunciou os responsáveis numa longa campanha moralizadora. Aos íntimos explicou-se: Patifes! Canalhas! Para uma transação como essa não me convidam. Enfim quinhentas páginas grandes. Acho que terei o volume pronto num ano, com certeza não nos largarão antes.

Correram semanas. Repetidamente ouvi Apporelly desenvolver o seu projeto, modificá-lo, narrando minúcias. Não se resolvia, porém, a iniciar a obra, coordenar as ironias abundantes que fervilhavam no interior. Absorvia-se na improvisação, exibia fragmentos já lançados no hebdomadário. Impossível dedicar-se a tarefa longa, julguei. Depois imaginei-o vítima de incapacidade transitória. Na extensa inércia, o pensamento esmorecia, os desígnios murchavam. Raros ali conservavam a lucidez e a firmeza de Sérgio, de Rodolfo Ghioldi. Trabalhos descontínuos, aulas vagas falhando, recomeçando sem programa, tudo me fazia supor que desejávamos atordoar-nos. Tentei aprender russo com Benjamin Snaider: peguei o alfabeto e meia dúzia de palavras. Exigiram de mim uma conferência a respeito do nordeste. Alarmei-me:

– Estão doidos?

Tinha graça aventurar-me a falar na presença de Rodolfo. Com certeza viram inépcia ou má vontade na recusa. As folhas e os lápis dormiam na valise. O abscesso da mão secou e cicatrizou, a unha caiu, veio outra: findava o pretexto com que me iludia para ficar inativo. Decidia-me a custo. Necessário retomar o papel e escrever algumas linhas.



6

VALDEMAR BIRINYI introduziu o jogo de xadrez no Pavilhão dos Primários. Vivia num isolamento profundo, necessitava comunicar-se. Por desgraça menoscabara os hinos e largara a frase inconveniente à chegada: Querem fazer revolução com essas bestas? Em conseqüência o antigo oficial de Bela Kun fora posto de banda. Tentava conversar e ninguém o compreendia direito. Quis dizer-me qualquer coisa um dia. Ouvindo algumas palavras italianas, fixei a atenção, mas a pronúncia horrível, idiomas diversos a misturar-se, em balbúrdia, atrapalhavam desesperadamente o discurso. Mais tarde perguntei ao russo:

– Que diabo de língua fala Birinyi, ó Sérgio? O italiano dele é medonho.

– E o alemão também, respondeu o matemático. Não entendo o que ele diz.

Na falta de intérprete, Valdemar Birinyi necessitou recorrer a um português miserável. Com ele, expressões da sua algaravia internacional e gestos significativos, chegou a manifestar-se. Nessa linguagem, referiu-me que na polícia lhe haviam tomado oito malas, vinte e cinco mil francos suíços e, perda irremediável, uma preciosa coleção de selos, a terceira do mundo. Fora anos atrás à Inglaterra exibir essa maravilha ao rei, também filatelista. Narrou-me a viagem com segurança, a visita, bastante vaidoso. Certo dia traçou numa folha de almaço um tabuleiro de xadrez, fabricou peões, torres, cavalos, bispos, reis e rainhas com miolo de pão, coloriu de azul as peças e as casas pretas. Desde então aquele divertimento nos encheu as horas, venceu as lições, as cantigas da Rádio Libertadora. Ao cabo de algum tempo houve um desastre. Entrando no cubículo de Birinyi, fomos encontrá-lo a mexer-se, agitado:

– Bicho


Levou a mão à boca muito aberta: Bicho.

Mostrou-nos as peças roídas, várias inutilizadas, arreganhou de novo os queixos, moveu os beiços. Percebemos a intenção dele:

– Comeu?

– É, comeu. Bicho comeu xadrez. Que bicho, Birinyi?

O homenzarrão ficou um instante indeciso, revolvendo a memória. Nada achando, estirou-se no chão de barriga para baixo, sacudiu à toa os braços e as pernas, enfim descreveu como pôde os movimentos de uma barata. Concluímos facilmente que as baratas haviam estragado as figuras. Esse contratempo não causou prejuízo sério. Valdemar Birinyi utilizou segunda vez o miolo de pão e o tinteiro. E na manhã seguinte, ao descer do banho de sol, vi junto à escada um rapaz moreno, barrigudo, com feitio de pote, demolindo a canivete um cabo de vassoura. Concentrado e paciente escavacava a madeira rija. Admirei-lhe a pachorra, informei-me: Que é que o senhor está esculpindo?

– Uma torre, explicou o moço em voz gemida, suspendendo o trabalho e fitando-me os olhos mansos.

– Quê? Tenciona arrancar daí as peças todas?

– Claro. Já dividi o cabo da vassoura em trinta e duas partes. Olhe os riscos.

– Esse pau é duro como o diabo. Será difícil arranjar os cavalos.

– Não há pressa, volveu o sujeito. Vou fazê-los inteiriços. É mais fácil, sem tarugo.

Foi assim que travei conhecimento com Vanderlino Nunes, homem útil, de numerosas habilidades, inalterável nas situações mais infelizes. O trabalho dele recebeu elogios, andou em diversos lugares e chegou, suponho, à República Argentina, mas naquele momento quase passou despercebido. Havia por semana uma hora de visitas. As giletes saíam das malas, o barbeiro estabelecido numa saleta, além da grade, tinha serviço, desenrolavam-se as roupas envoltas em jornais, as pessoas surgiam de rosto liso, penteadas, cobertas de pano, em decência escandalosa, transpunham a larga porta, sumiam-se no pátio, como se reconquistassem a liberdade. Pouco depois voltavam, despojavam-se do luxo rápido, entravam na condição anterior. Os faxinas iam e vinham, conduzindo embrulhos; sobre as camas expunham-se objetos numerosos, com predominância de peras e maçãs. Entre essas coisas veio o primeiro tabuleiro de xadrez, aparecido no cubículo de Benjamin Snaider. Em seguida vieram muitos, grandes, pequenos, de papelão, de tábua, afinal uma assustadora mesa rica, o tampo de quadrados vermelhos e negros, duas gavetas onde se arrumavam peças enormes.

Depressa nos acamaradamos no jogo, esmoreceram bastante algumas divergências políticas. Entre um roque e um xeque fiz amizade com Rodolfo Ghioldi. Longamente lhe escutei a exposição clara, sem tentar aproximar-me dele. Mandaram-lhe a roupa tomada na polícia. No degrau de ferro, agora metido num pijama, discorria sobre a América do Sul, explicava os motivos da rebelião de 1935: muitos indivíduos que tinham figurado nela precisavam esclarecimentos. Os guardas passavam, detinham-se. E a voz calma não se alterava, as idéias afluíam rápidas, o contexto me dava a impressão viva de prosa armada laboriosamente, no papel. Outras pessoas se manifestavam: Medina, Pascoal Leme, Valério Konder, médico alto, louro, de olhos enérgicos, Benigno Fernandes, advogado tuberculoso. Lauro Lago narrou o barulho de Natal, Sebastião Hora mostrou pedaços de Alagoas. Quem mais se arriscava, porém, era Rodolfo. Secretário do Partido Comunista Argentino, homem de responsabilidade, certamente o vigiavam de perto. Receávamos que o mandassem para lugar pior: Prestes e Berger estavam no isolamento, e o segundo perdia a razão sob torturas multiplicadas. Rodolfo se dirigiu a mim pela primeira vez, meio descontente. Soubera que eu o considerava bom orador e aborrecia-se:

– Não faço discursos. Apenas converso.

– É o diabo. Certas palavras se acanalham imerecidamente, respondi. Gosto de dar a elas o sentido exato. Não julgo oradores os que declamam solecismos e lugares-comuns. Aqui no Brasil há uma birra como a sua: ninguém quer ser literato, não sei porquê. Eu me confesso literato, literato ordinário.

Findo o equívoco, tornamo-nos amigos jogando xadrez. Pexotes, movíamos as pedras desazadamente, alheios, palestrando.

– Você acha que Birinyi foi realmente oficial de Bela Kun, Rodolfo?

– Talvez. Quem sabe? Os oficiais de Bela Kun não deviam ser muito diferentes daquilo.

Nas conferências Rodolfo continuava a exprimir-se em espanhol, mas intimamente, no cubículo, debulhava um português razoável. Pobre de Birinyi, criatura gigantesca. Uma vez chegou-se a mim, pediu-me o tabuleiro com que me entretinha. Um instante, Birinyi. Estou acabando a partida.

– Eu queria logo. Bem.

Despedi-me do parceiro e contentei o húngaro. No dia seguinte, à hora do almoço, procurou-me na fila, apreensivo: Senhor, está zangado comigo?

– Zangado? Não. Porquê?

– Está sim. Por causa do xadrez.

– Que idéia, Birinyi! Quem lhe falou nisso? Snaider.

– É brincadeira dele.

O colosso ficou um momento indeciso, estendeu-me o braço peludo:

– A mão.


Apertei-lhe os dedos, rindo.

– Agora, exclamou desanuviado. Agora sim. Amigo. Tempo depois convidou-me a visitar-lhe o cárcere, mostrou malas abertas e fotografias das suas propriedades em Buenos Aires e em Londres. Abriu álbuns fornidos onde se pregava a famosa coleção de selos. Faltavam diversos, os maiores, os mais bonitos, mas isso não representava prejuízo sério. Ainda é a terceira coleção do mundo, murmurou com alívio.

A terceira, levada à Inglaterra preciosamente, para o rei ver

– Senhor pensava que era mentira.

– Que lembrança, Birinyi! Eu não disse tal coisa. Não disse, mas pensou. Verdade, senhor, verdade Apresentou-me, risonho, uma revista inglesa. Vi uma ilustração: ele e o príncipe de Gales contemplavam absortos um daqueles grossos volumes que enfeitavam a cama estreita, cheios de papelinhos coloridos. Lá estava a notícia: a chegada a Londres, a audiência custosa, o valor dos símbolos examinados com atenção pelos dois homens.

– A terceira do mundo. Verdade, verdade. Naquele tempo ele não era rei.

– Mas hoje é, respondeu Birinyi orgulhoso, tomando-me a revista.

7

OS PERCEVEJOS da Detenção eram na verdade uma praga, e em vão tentávamos saber onde se escondiam. No prédio novo, de muros lisos, chão encerado, parecia não haver ambiente para a medonha proliferação. Deviam alojar-se nos ferros das grades, nas juntas das camas, nas gretas dos guarda-ventos. Examinávamos pacientemente os lugares suspeitos, esmiuçávamos a roupa, as cobertas, os colchões, os travesseiros. Nenhum sinal dos miseráveis; durante o dia era possível esquecê-los, jogar xadrez, ler, escrever, ouvir discursos, lições, hinos, sambas. A noite deixavam-nos repousar alguns minutos: era como se calculassem o tempo, soubessem a hora de atormentar-nos. Quando íamos adormecendo, uma ferroada nos despertava, sentíamos carreirinhas na pele, cócegas. comichões. A trave de ferro já não me incomodava: habituara-me depressa a arrumar os ossos no colchão. Agora o tormento era aquele, picadas, o teimoso fervilhar. Virava-me, coçava-me, erguia-me afinal desesperado, sacudia os panos, em busca dos terríveis inimigos. Invisíveis, pertenciam com certeza ao organismo policiai, realizavam fiéis a tarefa de importunar-nos da melhor maneira.



Impossível conservar-me deitado. Recorria a um dos três volumes, remoídos inutilmente na viagem, sentava-me, procurava entender um capítulo. Sebastião Hora agitava-se, adormecia e despertava agoniado. Sérgio permanecia imóvel, a boca entreaberta exibindo os largos dentes escuros, as mãos cruzadas no peito magro, a respiração leve, quase imperceptível; indiferença espantosa, calma de morto. Difícil entregar-me ao livro. O pensamento fugia, partia-se, emaranhava-se em lembranças da sociedade nova que me impunham, confusa, heterogênea, sempre a alterar-se, a recompor-se. E a luz era escassa, a lâmpada muito alta iluminava fracamente a página. Sem dúvida a leitura me arruinaria a vista. Assim me conservava, bocejando, fumando, até não resistir ao sono. Acolhia-me na fadiga pesada, insensível às sangraduras, despertava coberto de salpicos vermelhos.

Os médicos do Pavilhão, atentos à higiene muito se preocuparam com o flagelo: Valdemar Bessa, Isnar Teixeira, Sebastião Hora, Campos da Paz novo e Campos da Paz velho, magro e taciturno, que se assinava Campos da Paz M. V. Essas iniciais significavam Manuel Venâncio, e ignoro porque o doutor as colocava no fim. A sabedoria deles, conjugada, nenhuma vantagem nos trouxe. E nesse ponto Valério Konder resolveu, com energia, mover guerra constante e ordenada aos infames insetos. Alcançou, por intermédio do Coletivo, as armas necessárias, forneceu os cubículos de creolina e grandes nacos de sabão. Contrabandearam-se jornais, guardaram-se invólucros. E todos nós, válidos e doentes, fomos convocados para o serviço. Um dia por semana, engolido o café, abertas as grades, iniciávamos a campanha: fazíamos tochas de papel, desocupávamos a reduzida mobília e ficávamos algum tempo a sapecá-la. A chama lambia o metal, a madeira, parava nas juntas, buscava as reentrâncias, asilos possíveis de bichos, ovos e larvas. A tinta azul dos guarda-ventos, o verniz branco das camas velhas, meio descascadas, apresentavam manchas negras; o solo se cobria de carvão, a cinza nos sujava os corpos nus, a fumaça nos sufocava. Depois examinávamos a roupa o direito, o avesso, os mais ocultos esconderijos de pregas e costuras; esvaziávamos caixas e malas; sobre os móveis chamuscados empilhavam-se livros, panos, travesseiros. colchões, minuciosamente revistos. De calção de banho, Valério Konder se encarniçava, feroz e ubíquo, subia e descia a escada, estava na Praça Vermelha e no passadiço, comandando a refrega. Nenhum repouso, os tamancos batiam com o surdo rumor de cascos de bois acossados. Varríamos os detritos. E principiava uma extensa barrela. Abríamos as torneiras, a água se derramava nas pias, transbordava, alagava o chão; utilizando os canecos, atirávamos nas paredes jatos enérgicos. Ensaboávamos tudo com rigor, as vassouras chiavam desesperadamente, agitando espuma escura. Os chuveiros não tinham férias: sem diminuir o trabalho, caíamos num banho ruidoso, violentas esfregações nos livravam do suor e da tisna. O declive do terreno impedia escoamento: ainda o líquido não chegava à porta e a poucos metros, ao fundo, tínhamos os pés mergulhados. Chapinhar confuso, dezenas de canos abertos, vasilhas frenéticas lançando jorros sem descontinuar. Os quartos se enchiam, principiávamos o combate à inundação. As torneiras se fechavam, moviam-se furiosamente as vassouras, a arrojar no exterior espadanas largas. Do passadiço uma cachoeira se derramava no rés-do-chão, espalhava-se, recebia afluentes, dirigia-se ao esgoto descoberto para receber o aguaceiro. Finda a lavagem demorada, esfregávamos com estopa o solo vermelho, jogávamos nele borrifos de creolina, que se alargavam na umidade, formavam nódoas leitosas. Em seguida obturávamos com sabão as gretas dos guarda-ventos, as bases dos pregos metidos nos muros, as articulações das grades e das camas; todos os buracos e ângulos suspeitos eram calafetados.

A arrumação dos troços concluía a dura labuta. E os corpos, afeitos à inércia, estiravam-se cansados, perdiam-se em leve modorra, logo interrompida. Ainda não estavam secos os tamancos deixados a aquecer numa faixa de sol, e uma lancetada rija nos despertava. A indignação nos enchia de raiva. Trabalho perdido. Como se defendiam aqueles miseráveis resistentes ao incêndio, ao dilúvio? Patifes. Zombavam dos nossos desgraçados esforços e vingavam-se. Iriam assanhar-se, não nos deixariam tranqüilos. Canseiras inúteis, aniquilados os desígnios mortíferos de Valério Konder.



8

ISOLADOS ou em pequenos grupos, novos indivíduos surgiam no Pavilhão dos Primários, havia ali um fervedouro de cortiço. Em geral demoravam pouco: sem razão aceitável, desapareciam, os novatos se embebiam na esperança de reconquistar a liberdade. Era como se se evaporassem, não recebíamos a mais leve notícia deles. De repente alguns tornavam e, antes de acomodar-se, retiravam-se de novo, na contradança infindável, incompreensível. Essa mobilidade nos causava receio constante Não nos permitiam conhecer-nos bem; relações imprecisas, camaradagens mal esboçadas, estavam sempre a desfazer-se. As figuras nos apareciam vagas, incompletas; só os caracteres mais fortes conseguiam definir-se. Comunicação difícil, quase impossível: operários e pequeno-burgueses falavam línguas diferentes. Não nos entendíamos, não nos podíamos entender. Além disso corriam boatos com insistência, desagradáveis, e isto nos minava o relativo sossego; cessaram os cochichos do capitão de nariz comprido e germinaram suspeitas numerosas.

Foi quando começaram a chegar os homens de Pedro I. Hercolino Cascardo apresentou-se, lacônico, piscando os olhos furiosamente, metido num roupão escuro. A voz metálica de Agildo Barata nos arrepiou Era um sujeito moreno, miúdo, insignificante, e parecia-me difícil que houvesse conseguido, preso, sublevar um regimento. A força dele se manifestava no olhar vivo e duro, na fala breve, sacudida, fria, cortante como lâmina. Tavares Bastos, nervoso, inquieto, com jeito de pássaro, veio encarregar-se da classe de francês. Ensinava gramática, e pensava em mulher. No banho de sol, desprezava a ginástica, debruçava ao parapeito, olhando o pátio onde as vizinhas mexiam a bola de borracha.

– Quem me dera ter asas, suspirou num dos seus madrigais.

– Desça pendurado nos cabelos do seu companheiro, respondeu Eneida mostrando a cabeleira enorme de Alcântara Tocci.

O professor de inglês, substituto de Sérgio, foi Lacerda, Lacerdão, que vivera na Inglaterra e se orgulhava da sua pronúncia de Cambridge. Vi-o pela primeira vez à noite, seguro aos ferros da grade, a soltar gritos, excedendo-se na execução furiosa de uma cantiga. No dia seguinte, num cubículo do rés-do-chão, novamente lhe admirei os braços musculosos, os dentes de selvagem, a bocarra medonha, o vigor com que martelava sílabas exóticas:

– The tree grows.

Na larga barra escura da parede escrevia a giz as palavras. Baixava-se, ia pouco a pouco subindo enquanto falava, tentando figurar o crescimento da árvore; as mãos se agitavam simulando galhos; os sons, repetidos, gravar-se-iam no espírito dos alunos. Lembrei-me de Valdemar Birinyi deitado no chão de barriga para baixo, imitando barata. Vi de novo Lacerda no exercício de uma rija lição vociferada a Adolfo Barbosa. Abri os ouvidos, atento, e, percebendo-me o interesse, a verbosa criatura dispôs-se logo a prodigalizar-me os seus conhecimentos. Agradeci comovido e segurei a ocasião. Bem. O meu desejo era ler, apenas; a língua pena e a orelha dura me impossibilitavam relação verbal com estrangeiros. Desviando-se da letra, o meu juízo murchava; inútil procurar saber como as árvores se desenvolviam, com os sons perfeitos e os ruídos exatos de Cambridge. Lacerda pegou um livro, indicou a página, pediu leitura e tradução. Mastiguei numerosas barbaridades e ouvi no fim este comentário:

– É. Parece que o senhor já viu uma gramática, um dicionário inglês. Mas essa articulação, francamente, é horrorosa. Ninguém adivinha o que o senhor lê, não sabemos se isso é inglês ou tupi.

Algumas pessoas chegaram juntas, depois de uma aventura infeliz, entre elas Roberto Sisson, desenvolto, brilhante, amigo de polêmicas; Ivan Ribeiro, alegre, espadaúdo, loquaz; um mulato ríspido, estrábico, bilioso, o estivador Desidério. Haviam tentado fugir do Pedro I. Cúmplices no exterior, a luz vermelha de uma barca a indicar asilo. Submetendo o plano a exame rigoroso, eliminando com paciência os obstáculos, julgavam quase certo o êxito. E uma noite, nus, as roupas em rolo preso às costas a silenciosa operação: vultos esquivos rastejando na coberta inferior, salto na água, mergulho, o deslizar de sombras, lenta busca do auxílio prometido. Nem barco, nem sinal vermelho. Desperdício de tempo, cansaço. O ajuste era ninguém deter-se, cada um se agüentaria como pudesse. O embaraço imprevisto desarranjava a combinação. Idas e vindas na baía, longe da terra, procura desesperada, o crescente receio de perseguidores invisíveis, o frio intenso a paralisar membros, afinal um desastre em perspectiva: Sisson, justamente Sisson, oficial de marinha, não resistira às cãibras e ia morrendo afogado. Os outros, dispersos, tinham conseguido abrigar-se numa ilha. Desidério se atrasara, sustentando o companheiro desfalecido; esquecera o ajuste, regressara ao navio, deixara a carga pendurada a um cabo e dirigira-se ao continente. A liberdade precária se extinguira em poucas horas: agarrados na praia, achavam-se no Pavilhão, alguns rapazes do exército, o marinheiro inábil, péssimo padador, o mulato zarolho. Todos exibiam nos ombros riscos sangrentos, vestígio das cordas que tinham segurado as trouxas de roupa. Além dessas marcas, outras, numerosas, grassavam no corpo do estivador, causadas pelo chicote da polícia.

A presença dos novos hóspedes aumentou consideravelmente a oratória da prisão. Sisson estendia-se em afirmações enérgicas, às vezes sustentava paradoxos, detinha-se em minúcias insignificantes, resistindo com unhas e dentes se alguém o contrariava. A linguagem fluente, vigorosa, coloria-se de expressões cabeludas. Ivan Ribeiro me causou forte surpresa. Iniciou o primeiro discurso com um período de légua e meia, que me fez pensar:

– Quero ver como o soldadinho se desembrulha. Durante o meu solilóquio o rapaz se emaranhava, metia orações na lengalenga e cada vez mais se complicava.

– Coitado. Não sai do atoleiro.

Enganei-me. Chegou naturalmente ao fim: arrumou caprichoso o montão de frases e pôs o verbo indispensável no momento preciso. O resto da arenga foi dito com absoluta correção.

– Muito bem. Temos aqui um militar esquisito. Admirei Ivan. E, enquanto não lhe soube o nome, ele foi, para mim, apenas o tenente que sabia sintaxe. O estivador exibiu sem disfarce ódio seguro aos burgueses, graúdos e miúdos. Todos nós que usávamos gravata, fôssemos embora uns pobres-diabos, éramos para ele inimigos. Houve eleição no Coletivo, e lá nos introduziram, a ele e a mim. Na primeira reunião levei cinco propostas. Lida a primeira, Desidério levantou o dedo e manifestou-se:

– Besteira. Como?

Estremeci, apertei as mãos com raiva. Anos atrás encolerizava-me facilmente, cegava, fazia imenso esforço para não me perceberem a zanga, a violência interior, movimentos dos punhos contraídos no desespero. Freqüentemente explodia a fúria bestial e desmandava-me em desatinos que me enchiam de vergonha. Sentia-me fraco, bicho inferior, invejava as pessoas calmas, não conseguia iludir-me com a manifestação parva de coragem falsa. Às vezes me dominava, recompunha-me, a tremura desaparecia, os dedos se estiravam. Sinais de unhas nas palmas suadas, as juntas a doer; a respiração era um sopro cansado. Naquele dia a ira velha, recalcada nos subterrâneos do espírito, veio à luz e sacudiu-me: desejei torcer o pescoço do insolente. Na surpresa, recusei o testemunho dos olhos e dos ouvidos. Ter-me-iam dito a palavra rude? Estaria a censurar-me o bugalho torto e imóvel, a desviar-se de mim, zombeteiro, superiormente fixo na parede, num ponto acima de minha cabeça? O rombo sujeito, carregador de sacos, não seria tão grosseiro com uma pessoa habituada a manejar livros. Devo ter pensado nas conveniências amáveis e tolas, nas perfídias gentis comuns na livraria e no jornal.

– Como?


– Besteira, confirmou Desidério. Para que serve isso? Para atrapalhar. Só para atrapalhar. O companheiro é um burocrata e está querendo meter dificuldades no trabalho.

Essa firmeza brutal esfriou-me a irritação, os escrúpulos vaidosos esmoreceram. Tentei defender-me, escorar-me em razões fracas, inutilizadas facilmente pelo estivador. Examinei as outras figuras do Coletivo: uma resistência muda indicou-me a vantagem de renunciar à discussão. O segundo projeto foi também fulminado. O terceiro agradou.

– Esse é bom, disse o vesgo. E impediu-me expor motivos:

– Conversa. A gente está vendo que isso é bom. Não vale a pena estragar tempo. Vamos adiante.

As duas proposições finais obtiveram recusa unânime.. Essa deplorável estréia varreu-me certas nuvens importunas: sempre me excedera em afirmações categóricas, mais ou me nos vãs; achava agora uma base para elas. Evidentemente as pessoas não diferiam por se arrumarem numa ou noutra classe;. a posição é que lhes dava aparência de inferioridade ou superioridade. Evidentemente. Mas evidentemente porquê? A observação me dizia o contrário. Homem das brenhas, afeito a ver caboclos sujos, famintos, humildes, quase bichos, era arrastado involuntariamente a supor uma diversidade essencial entre eles e os patrões. O fato material se opunha à idéia e isto me descontentava. Uma exceção rara, aqui, ali, quebrava a monotonia desgraçada: o enxadeiro largava o eito, arranjava empréstimo, economizava indecente, curtia fome, embrenhava-se em furtos legais, chegava a proprietário e adquiria o pensamento e os modos do explorador; a miserável trouxa humana, batida a facão e a vergalho de boi, resistente ao governo, à seca, ao vilipêndio, resolvia tomar vergonha, amarrar a cartucheira à cinta, sair roubando, incendiando, matando como besta-fera. Essas discrepâncias facilmente se diluíam no marasmo: era como se os dois ladrões, o aceito e o réprobo, houvessem trazido ao mundo a condição inelutável: pequenas saliências no povo imóvel, taciturno, resignado. Naquele instante a aspereza do estivador me confirmava o juízo. Lá fora sem dificuldade me reconheceria num degrau acima dele; sentado na cama estreita, rabiscando a lápis um pedaço de papel, cochichando normas, reduzia-me, despojava-me das vantagens acidentais e externas. De nada me serviam molambos de conhecimentos apanhados nos livros, talvez até isso me impossibilitasse reparar na coisa próxima, visível e palpável. A voz acre me ofendera os ouvidos, arrancara-me exclamações de espanto, abafadas nas preocupações do Coletivo: ninguém ali estava disposto a lisonjear-me. Aceitei o revés como quem bebe um remédio amargo. Afinal a minha opinião se confirmava.

9

O CAPITÃO de nariz comprido esteve conosco dois ou três dias. Nunca lhe ouvi uma palavra, mas vi-o falar em excesso a grupos pequenos, afirmativo, açodado, a examinar os arredores com jeito de conspirador. Sem revelar em público nenhuma opinião, estava sempre a sussurrar um cacarejo indistinto, passeava na assistência minguada os inexpressivos olhos de ave, erguia o bico longo, baixava-o, reproduzia movimentos sacudidos de galinha a colher grãos. Os cochichos permanentes aborreciam-me, os gestos ambíguos, o proceder furtivo, o conluio visível de meia dúzia de pessoas. Afinal o tipo se sumiu. Na verdade estivera a sumir-se constantemente, a esgueirar-se de um cubículo para outro. Findos esses manejos, bateu as asas na fuga definitiva, nem nos deu tempo de gravar-lhe o nome: para mim ficou sendo o capitão de nariz comprido

Não deixou rastro, mas a sombra dele permaneceu entre nós. Murmúrios, inquietação, olhadelas oblíquas, retalhos de frases sibilinas, inexplicável desconfiança a contaminar as almas. Foi Lauro Fontoura, um tenentezinho falador e estabanado, quem me deu a chave do enigma. Sem conhecer-me direito, prodigalizou-me um dia vasta parolagem confusa, misturando assuntos como se o tempo lhe escasseasse para ordená-los e quisesse esgotá-los depressa. Interrompeu-se no meio da arenga e inquiriu de chofre:

– Você não tem receio de conversar comigo? Eu sou da polícia.

– Que história é essa? indaguei frio.

Imaginava uma pilhéria à-toa e escapava-me o alcance dela; contudo não me achava de nenhum modo curioso. Se o rapaz se tivesse calado, esquecer-me-ia facilmente da revelação absurda. Não se calou e súbito compreendi que me ia enlear numa série de embrulhos dolorosos. Recebi um choque imprevisto, coisa semelhante a dura paulada no cocuruto, passo temerário e queda em vala profunda, jorro de luz na treva a encandear-me.

– Sou um espião, tornou Lauro Fontoura. É o que esses moços espalham por aí. Não lhe disseram? Pois fique sabendo. Um sujeito andou cochichando nos cubículos e encheu as cabeças desses idiotas. Reparou no oficial da venta grande?

Fiz um gesto afirmativo e desviei-me do caso desagradável. Muito desagradável. Impossível adivinhar se Lauro Fontoura pertencia realmente à polícia ou se servia de ante paro a maquinações safadas. Mal-estar, sorrisos murchos endereçados a um tipo nervoso, estabanado.

– Não entendo. Não sei aonde o senhor quer chegar. Esse capitão narigudo...

– É claro, respondeu Lauro Fontoura. Você o conhece? Nem eu. Ninguém o conhece. Não entrou em nenhum barulho. Donde veio? Apareceu de repente, semeou brigas e escapuliu-se. Nem sabemos se o excluíram do exército. Excluir, tinha graça. Veio aqui desempenhar uma tarefa e será promovido.

O moço vociferou pouco mais ou menos isso, andando agitado, a transbordar indignação. Não achando terreno propício a desabafos, retirou-se de humor brusco, deixando-me enojado e perplexo, foi expandir além a sua zanga. Lembrei-me da viagem, das suspeitas que a bordo zumbiam sobre Van der Linden. Forjavam-se ali perigos inverossímeis, injustiças alargavam-se e a vítima afinal vivia num ambiente hostil, percebia navalhas nos espíritos, gelo nas fisionomias, isolava-se na multidão. Agora se acusava sem disfarce, um indivíduo sentia os ataques e vinha explicar-me a origem deles. Impossível conjeturar se a explicação era verdadeira ou falsa; de qualquer modo o homem se mostrava leviano fazendo comentários imprudentes a um desconhecido. Surpreendera-me, logo ao chegar, ver Sérgio, Adolfo Barbosa, alguns outros, fecharem-se: fugiam às discussões rumorosas e atrapalhadas que nos desgastavam a paciência, subiam raro ao banho de sol, desertavam a Praça Vermelha à hora dos discursos. Consideravam-nos trotskistas, ofensa máxima imputável a qualquer de nós. Sem se examinar idéia ou procedimento conferia-se o labéu a torto e a direito, apoiado em motivos frívolos ou sem nenhum apoio. Difamavam-se os caracteres arredios, infensos ao barulho, às cantigas, às aulas interrompidas, recomeçadas, ao jogo de xadrez; as índoles solitárias, propensas à leitura, à divagação, inspiravam desconfiança. As palavras tomavam sentidos novos; vagas, imprecisas, tinham enorme extensão; aplicadas sem discernimento, produziam equívocos.

Certa vez entretinha-me com Sérgio a falar sobre o casamento. Pensava na minha vida, alinhava os pequenos desgostos infalíveis na monotonia conjugal: atritos inesperados e reconciliações inúteis; corpos deformando-se no resvalar para a velhice; o desleixo, ausência de véus, todas as precauções abandonadas; dois egoísmos a conjugar-se, a ferir-se. Entretanto não nos era possível suprimir a monogamia. Onde achar remédio contra as mesquinharias pingadas na rotina como gotas de azeite? Numa sucessão de estados monogâmicos, talvez. Os norte-americanos estavam certos. Um basbaque nos ouvia atento, no fim da conversa intrometeu-se nela:

– Mas isso não é dialético.

– Que diabo vem aqui fazer a dialética? resmungou Sérgio espantado.

– Sei lá.

Outro dia uma das nossas cavaqueiras foi interrompida quando me embrenhava no internacionalismo.

– Você é trotskista? inquiriu alguém.

– Eu? Que lembrança! Afirmei que sou internacionalista. Por isso me embrulharam. Quem falou em trotskismo? Internacionalismo foi o que eu disse.

– É a mesma coisa. Está bem.

Esses desacordos me deixavam perplexo. Imputavam-me convicções diferentes das minhas, e nem me restava meio de explicar-me na algaravia papagueada ali: quanto mais tentasse desembaraçar-me, dar às coisas nomes exatos, mas me complicaria. Quase todos se julgavam revolucionários, embora cantassem o Hino Nacional e alguns descambassem num patriotismo feroz. Ouvindo-os, lembrava-me de José Inácio, o beato desejava fuzilar ateus.

Onde estaria José Inácio? Esconder-se-ia, mais ou menos selvagem, num subterrâneo social, enquanto expúnhamos sabedorias convencionais, desinteressantes. Necessário ouvir a opinião de José Inácio: provavelmente ele tinha razões para querer suprimir-nos: em momentos de aperto ficávamos contra ele, materialistas de meia-tigela, camada flutuante, sem nenhuma consistência: as nossas idéias não lhe melhoravam a situação desgraçada. Sebastião Félix realizava sessões espíritas. Na verdade essa gente me parecia estranha: insatisfeita, desejava impossíveis reconstruções, mergulhando no sonho, restaurando velharias. Devia recolher-me, evitar choques inúteis. Ouvidas as excelentes conferências de Rodolfo, limitar-me-ia a parolar com duas ou três pessoas, encaracolar-me-ia depois. Não alcançava desvencilhar-me dos pequenos aborrecimentos. Embora usando pijamas e cuecas, vivíamos em público, éramos obrigados a familiarizar-nos com indivíduos muito diferentes de nós. O desleixo na indumentária de algum modo nos nivelava. Quinta-feira, à hora das visitas, uma apressada civilização, de sapato e meia, colarinho e gravata, usava modos urbanos, do pátio à secretaria. No regresso anulavam-se as distinções, a meia nudez suprimia as conveniências, amortecia o respeito e os homens se tratavam com sem-cerimônia pasmosa.

As vezes me dirigia a Rodolfo, a Sérgio; achava-me à vontade falando a eles, sentava-me numa cama de ferro, expunha dúvidas, permutava informações. De repente me via fiscaliza do: um bisbilhoteiro empurrara devagar a porta, escorregara manso para junto de nós e ali estava a espiar, a ouvir. Quando mal me precatava, uma objeção irrespondível, estranha ao assunto, alarmava-me. A princípio não conjeturei malícia: certamente aquilo significava apenas falta de educação e embaraço em compreender-nos. Agora me entrava na alma o espinho de uma suspeita. Os qüiproquós repetidos não eram talvez casuais: obstinavam-se em modificar-me as idéias mais claras. Porquê? O rompante de Lauro Fontoura abalou-me: julguei evidente haver inimigos entre nós.

Enquanto os dissídios giravam em tomo da interpretação de uma frase, era fácil enganar-me, não enxergar neles aleivosia, achar nos outros entendimento escasso. A denúncia grave, subitamente revelada, abriu-me os olhos, forçou-me a considerar atento o meio. Os modos arredios do capitão de nariz comprido, os intermináveis conciliábulos, na ausência dele os fuxicos a germinar, depois um ataque rijo e o destampatório do acusado jogavam alguma luz sobre fatos anteriores, inexplicáveis, reforçavam dúvidas, mostravam a conveniência de precaver-me. Pensei na lista de nomes exposta na galeria, em tinta azul, na instigação à greve da fome, inútil e perigosa, na figura aniquilada e sombria de Van der Linden, no porão do Manaus. Isso me vinha aos pedaços e não se entrosava bem. Mas quando Pais Barreto chegou, achei-me diante de uma realidade, caso concreto, insofismável. Era um rapaz alto, desempenado, falador, transbordante. Veio ocupar a célula fronteira à minha. Vi-o dias inteiros curvado sobre papéis, escrevendo. Escrevendo informações à polícia, cochicharam-me e não disseram em que se baseavam, nenhum fato mencionaram. As vezes nem se manifestavam claramente: jogavam a malícia de passagem, ofereciam-nos avisos sibilinos:

– Cuidado, cuidado. Não se abra com certas pessoas. Um olhar de esguelha concluía o aviso, indicava o perigo. As insinuações venenosas produziam efeito: usávamos cautela, pouco a pouco nos desviávamos da criatura visada. As alusões a Pais Barreto não me fizeram mossa a princípio. Casos semelhantes tinham-me chegado aos ouvidos, era-me impossível examiná-los, só me restava guardar silêncio e suspender qualquer juízo. As pessoas acirradas no ataque procediam de boa-fé, pareceu-me: o contágio, excessiva credulidade e rebaixamento do nível mental as levavam a admitir sem exame qualquer observação. Receava deixar-me arrastar, afirmar leviandades, alucinar-me a ponto de confundir o barulho de um motor com descarga de metralhadora. Esse temor me roia constantemente, e o pior de tudo era não saber se já me havia contaminado, se iria também criar fantasmas, ver perigos inexistentes e revoltas absurdas, comportar-me ingênuo como criança. Possivelmente essa incerteza me aconselhou resistência às insinuações malévolas. Sentia-me enervado, propenso a aceitar qualquer boato. Preguiça de refletir. Em conseqüência, afirmei a mim mesmo o contrário do que me diziam: Pais Barreto não era traidor. Mas em nada me baseava para assim pensar. De fato não pensava, faltavam-me recursos indispensáveis a uma conclusão, desconhecia os antecedentes daqueles homens e era forçado a orientar-me pelas aparências Revoltavam-me as picuinhas, as frases incompletas e tendenciosas, o labéu jogado a ausentes indefesos. Pisávamos terreno movediço e cheio de emboscadas. E não conseguíamos discernir se as acusações tinham fundamento ou não, quais os divulgadores sinceramente convencidos e quais os provocadores de suspeita e balbúrdia. Em tal situação invade-nos um mal-estar desconhecido cá fora, vivemos à espera de ameaças indeterminadas e, reconhecendo ser impossível conjurá-las, não nos resignamos a capacitar-nos disto: buscamos isolar-nos na multidão, permanecemos de sobreaviso, reduzimos o vocabulário e estudamos as caras e os gestos. Por assim dizer adquirimos uma segunda natureza Essa contensão do espírito afinal se mecaniza: jogando xadrez, remoendo as conseqüências de um lance arriscado, estamos sem querer a observar os movimentos do parceiro. Com certeza ele notará isso e nos julgará indiscretos, fará conosco o jogo que fazemos com ele Todos se espionam, divulga-se o constrangimento o ar se envenena. A recordação de um nariz bicudo persegue-nos, a toda hora esperamos vê-lo ressurgir, farejando



10

RODOLFO CHIOLDI foi chamado à polícia. Essas ordens periódicas me causavam sobressalto e estranheza. A polícia estávamos entregues, exibia-se a presença dela em tudo: na zebra dos faxinas, no uniforme dos guardas, nas manobras do capitão narilongo. O pleonasmo era de mau agouro. significava mudança para lugar pior, e vivíamos inquietos, à espera dele. Rangia a chave na fechadura, abria-se a grade larga do vestíbulo e ficávamos de orelha em pé, aguardando o aviso. As vezes era apenas visita, ida à secretaria, correspondência, um presente. Mas o grito medonho nos abalava:

– Polícia.

Olhávamos pesarosos a vítima, imaginávamos compridos interrogatórios, indícios, provas, testemunhas, acareações, um pobre vivente a defender-se às cegas, buscando evitar ciladas imprevisíveis. Depoimentos longos partidos, recomeçados, pedaços de confissão arrancados sob tortura. Abracei Rodolfo, apreensivo, em silêncio, vi-o descer a escada, atravessar a Praça Vermelha, segurando a bagagem, vestido numa roupa leve cor de creme. Não voltaria, supus: aquilo era conseqüência das exposições diárias feitas no degrau; tinham reconhecido nele com certeza uma responsabilidade nociva e afastavam-no dentro em pouco estaria incomunicável, sujeito a vigilância rigorosa. Enganei-me. Voltou no terceiro dia à noite, conversou comigo um instante à porta do meu cubículo. Vinha da Polícia Central, bastante apreensivo. Numa inquirição minuciosa, afirmara, negara, envolvera-se em fundas incoerências, afinal já nem sabia o que dissera.

– Papeles, mais papeles.

Bilhetes apócrifos, recados a lápis, documentos verdadeiros ou falhos em mistura, referências a fatos incompletos refutados aqui, aceitos ali, em trapalhada infernal. Ignorando até que ponto os carrascos estão seguros, os padecentes se desnorteiam nessa brincadeira de gato com rato, deixam escapar um gesto, uma imprudência necessária à clareza do processo. E o embuste avança, pouco a pouco se fabricam as malhas de uma vasta rede, outras pessoas vêm complicar-se nela, trazer novos subsídios ao inquérito.

Depois de lançada a informação leviana, impossível recuar, e o pior é serem imprevisíveis as conseqüências dela. Aquilo se junta a casos ignorados, estabelece uma relação só perceptível a uma das partes em luta. Na verdade não é luta: é caçada cheia de tocaias e mundéus traiçoeiros. Agarrado, o infeliz volta-se para um lado e para outro, inutilmente: a declaração estampou-se na folha, sem o emprego de violência física. Contudo as violências estão próximas, e talvez a frase inconveniente seja o reflexo de gritos e uivos causados por agulhas a penetrar unhas, maçaricos abrasando músculos. Não pensamos nisso. A palavra solta entre o suplício material e o suplício moral tem semelhança de voluntária, e se prejudicou alguém, podemos julgá-la delação. Emergiu de nervos exaustos e carne moída; ao sair do pesadelo, o miserável feixe de ruínas conjuga uns restos de consciência e horroriza-se de si mesmo. Teria dito realmente aquilo? Jura que não. Mas a frase foi composta, redigida com bastante veneno, alguns acusados a ouviram, patenteiam-se logo os penosos efeitos dela. É um passo definitivo na escarpa lisa onde o sujeito não se detém, nada encontra a que se agarre. Pisa ali, enrija os tendões, busca firmar os calcanhares no solo, mas é obrigado a marchar, a correr, até chegar ao lodaçal, lá embaixo. Já não inspira nenhuma confiança. Se, com desesperado esforço, em arrecuas violentas, dá alguns passos, consegue chegar-se ao ponto de partida, os antigos camaradas o empurram. Está de costas voltadas para eles, não se equilibra, forçam-no a descer, em pouco tempo se acha longe. Ninguém procura saber se ele tem culpa ou não, se o seu organismo era capaz da resistência precisa. Tinha obrigação de resistir. Antes de se arvorar em dirigente, devia balancear as suas forças, avaliar se elas eram suficientes para guardar um segredo em qualquer circunstância. Teve a desgraça de ser fraco e isto o inutiliza. É um desertor, tem de asilar-se no campo inimigo; aí lhe darão as tarefas mais repugnantes.

Isto explica as vagarosas desconfianças e as injustiças profundas existentes na cadeia. Impossível reconhecer todos os que se deixam subornar e os que estão a caminho disto. Em qualquer parte enxergamos trânsfugas. Desviamo-nos precipitadamente das pessoas interessadas em fazer-nos comunicações misteriosas, ligeiras indiscrições nos causam sobressalto. Porque vêm parolar conosco assuntos reservados? Em casa, na rua, no bonde, lendo o jornal, uma notícia nos enche de curiosidade, tentamos imaginar a vida estranha das organizações ilegais: pequenos grupos deslizando em caminhos desertos; casos discutidos, ruminados à luz da candeia mortiça, numa casa de subúrbio; vigias atentos sufocando receios, sondando a escuridão, no frio cortante da madrugada, o sono a custo vencido; trabalhos arriscados, terríveis coragens, ações heróicas e anônimas; justiça implacável, a necessidade a impor-se, recalcando sentimentos. Como será a linguagem dessas criaturas? Se assistíssemos às suas discussões, provavelmente entenderíamos pouco: escapar-nos-iam intuitos embrulhados em palavra técnica. Almas diferentes das vulgares, com certeza: amor ao perigo, desprezo ao conforto, nenhuma confiança nas verdades oficiais, desdém a venturas póstumas, falência de valores antigos, criação de novos. Medonhas legendas negras em paredes nos causam admiração a remotas e confusas vidas românticas; fragmentos de conversa murmurados em cafés nos acirram a fantasia: as cenas devagar supostas ganham verossimilhança e nitidez. As pessoas que se demoraram junto de nós cochichando expressões cabalísticas aparecem-nos grandes em excesso. De repente nos afastamos do mundo: esquecemos o serviço, o estudo, os negócios, e penetramos os bastidores da revolução. Vamos informar-nos, será satisfeita a nossa longa curiosidade. Percebemos então, com assombro, que ela já não existe. Não é indiferença, é exatamente o contrário: a necessidade imperiosa de não saber; estamos de olhos e ouvidos muito bem abertos para fechá-los às mais simples inconveniências. Se uma delas nos chega, estremecemos e mudamos de assunto; se persevera, receamos o interlocutor e arredamo-nos Porque nos veio comunicar tais coisas? Foi inepto ou queria sondar-nos, ver até onde nos comprometíamos, alinhavar um relatório à noite, confiá-lo ao chefe dos guardas na manhã seguinte? De qualquer forma, é indispensável guardarmos reserva. O que antigamente nos seduzia agora é motivo de calafrios. Desconhecemos o nosso valor e evitamos sobrecarregar-nos com pesos demasiados. Se passarmos três dias sentados, sem comer, sem dormir, sujeitos a um interrogatório cheio de circunlóquios, suspenso, recomeçado, não nos calaremos, sem dúvida. E nem e preciso usarem conosco rigores de técnica: não ficaremos três dias pisando em cima de alçapões: em menos de uma hora largaremos diversas incongruências, esvaziar-nos-emos por inteiro, soltaremos a frase de relance ouvida, que não compreendemos bem e talvez vá causar a ruína de outras pessoas.

Sem pensar nisso, devo ter percebido a consternação de Rodolfo ao abraçá-lo à porta do cubículo 35. Uma palavra expunha-lhe o tormento, a serenidade habitual desaparecera.

São tremendas essas incertezas. Vemo-nos irresponsáveis, tropeçamos, caímos, e não nos poderemos levantar; mas o pior é não sabermos se isso aconteceu, ignorarmos as nossas ações, sermos um joguete das circunstâncias. Fizemos acaso a revelação funesta? Desejaríamos saber isso, esquadrinhamos o interior, debalde; olhamos em redor, nenhum indício no ramerrão quotidiano: estamos incomunicáveis e ninguém nos diz se mostramos covardia ou bravura.

O meu bom amigo demorou-se alguns dias perplexo, recobrou dificilmente a calma. Depois, às novas inquirições, notou que se havia conservado perfeitamente digno: as suas palavras não causariam dano a outros indivíduos. Guardei, porém, a lembrança daquela incerteza agoniada:

– Menti demais e já nem sei o que disse.

Resistência inconsciente, defesa instintiva, imensa teimosia a escorar a vontade unânime depois a supressão da memória, nenhuma resposta à pergunta ansiosa: – “Terei pra ticado uma infâmia? Admiramos a coragem alheia, e nem pensamos que em difícil conjuntura ela própria se ignorou: viu-se numa encruzilhada, marchou, sem saber se andava para a direita ou para a esquerda. Ligeiras incongruências, um sobressalto, algumas sílabas teriam determinado caminho diverso. E as inevitáveis conseqüências. Imaginei naquela situação e naquela angústia alguém que houvesse fraquejado no torniquete: – “Nem sei o que disse. Terei cometido infâmia? Sim ou não. Como no jogo do cara-ou-cunho, a moeda oculta debaixo da palma. Súbito a descoberta medonha sim, e está um homem perdido, coberto de opróbrio, inteiramente impossível a reabilitação. Num caso ou noutro, ausência de culpa, ausência de mérito. Pensamos assim. E não evitamos o desprezo ou o entusiasmo. Rodolfo cresceu muito aos meus olhos. A energia involuntária deu-lhe maior prestígio que a inteligência revelada nos discursos longos.

11

QUASE simultaneamente me vieram algumas surpresas. Na manhã seguinte Rodolfo Ghioldi me deu notícia de Jorge Amado, com quem se avistara na sala de detidos da Polícia Central. Rodolfo me trazia um recado: por intermédio de Jorge, o editor José Olímpio me oferecia a publicação do romance inédito e propunha um adiantamento: informava-se da importância necessária e perguntava como deveria entregá-la.

Em vez de me alegrar, experimentei com essa proposta vivo embaraço. Apesar de minguarem os recursos, não me achava disposto a contrair dívidas. Não conseguiria desembaraçar-me delas, inerte, bambo, a invencível preguiça mental a dominar-me. Um entusiasmo de fogo de palha às vezes me levava a retirar os papéis da valise, insinuava-me a esperança de arrumar observações razoáveis sobre a vida na cadeia, mas o trabalho avançava lento demais, o jogo de xadrez e a vagabundagem nos cubículos me absorviam. Era o livro difícil, mais de um mês a capengar do quartel do Recife ao chiqueiro do Manaus, daí à Casa de Detenção, que deveria negociar, caso me fosse possível dedicar-me a ele. A publicação do romance me parecia leviandade. Havia nele muito defeito, eram precisos cortes e emendas sem conta. Sem falar em mutilações e enganos infalíveis, cometidos pela datilógrafa. Indispensável examinar, rever tudo, comparar o original à cópia: Eu nem sabia onde paravam essas coisas enterradas em algum buraco de Alagoas; talvez já nem existissem: uma denúncia anônima as teria revelado, jogado ao fogo. Não me preocupava em demasia a perda, realmente pequena. Se o livro se salvasse, ocupar-me-ia mais tarde em corrigi-lo, sobretudo amputar-lhe numerosas excrescências. Antes disso, consideravam-no objeto de comércio, desejavam transformá-lo em dinheiro. Recruta literário da província, acostumara-me a buscar nele algum valor artístico, embora fraco; economicamente seria um desastre, como os anteriores, dois naufrágios. Súbito me fortaleci um pouco, senti-me dono de uma possível mercadoria, descoberta pelo comprador. Meses atrás José Olímpio me falara da edição, em cartas, e eu lhe respondera que ele não venderia cem exemplares. Admirava-me a insistência, em momento de perseguição, quando o aparecimento da história poderia causar prejuízos e aborrecimentos ao livreiro. No íntimo agradeci essas boas intenções, embora as julgasse irrealizáveis, pelo menos por enquanto, na dura incomunicabilidade. Entrei, porém, a verrumar o espírito curioso. Se os papéis escapassem à tormenta, quanto valeriam? Qual seria a tiragem? Uma ligeira brecha clara abria-se no horizonte nebuloso, as desgraças futuras, consideradas certas, diluíam-se um pouco. Embalava-me em frágeis e duvidosas esperanças, quando o chefe dos guardas me berrou o nome, ao pé da escada:

– Seu Fulano, um presente.

Cheguei-me ao parapeito do passadiço, vi lá embaixo o sujeito olhando para cima, um pacote na mão. Estranhei a comunicação repetida:

– Um presente.

– Não é para mim. Há engano.

O velho examinou o endereço, leu devagar. É impossível.

Desci, intrigado. Um equívoco, evidentemente. Nenhuma camaradagem no Rio de Janeiro; antigos companheiros de trabalho, conhecimentos superficiais no café, na pensão escura do Largo da Lapa, tinham-se esvaído na ausência de vinte anos. Assim parafusando, tomei o volume, desconfiado; lá estavam no papel de cor as letras bem visíveis, graúdas, formando uma linha sinuosa. Aquilo era meu, sem dúvida.

– Bem, muito obrigado.

Não havia pretexto para recusar. Subi, desatei os cordões do embrulho, um sortimento de peras, maçãs e uvas espalhou-se no colchão

– Quem diabo se lembrou de mandar-me isto?

Nem um bilhete, nem uma palavra indicativa. Ainda relutava em convencer-me, analisava debalde o papel róseo, esforçando-me por identificar o remetente, de qualquer modo pessoa que se arriscava. Porquê? Na estupidez nacional, fazer aquilo, interessar-se por uma criatura sumariamente condenada, revelava imprudência. Quem era o imprudente? Nada explícito, caracteres irregulares indo para cima, para baixo, curva esquisita, a adelgaçar, a engrossar, com certeza lançada por mão diversa das ordinárias, mão discrepante. Recordei-me de várias, masculinas, femininas, em vão. Grafia incaracterística, assexual, de pessoa educada, mas de educação estranha. Alguém que estivera perto de mim, que estava perto e não conseguia manifestar-se, falar, abraçar-me. Quem? Amigo indeterminado, enigmática dedicação gratuita. Sim, gratuita. Observando-me por dentro, virando-me pelo avesso, tentei ver se em qualquer circunstância me tornara merecedor daquilo; e perguntei a mim mesmo se me achava capaz de tal delicadeza com outro indivíduo. Respondi pela negativa. Nada fizera, provavelmente nada faria, não me achava inclinado ao altruísmo, e a exposição colorida maçãs vermelhas, peras douradas, enormes uvas brancas quase me ofendia.

É necessário viver ali para compreender certas ações. Na existência comum nem atentamos nelas: são pequenos favores recebidos, anotados, pagos e logo postos no esquecimento; na prisão falta-nos meio de compensá-los, perdê-los da memória, sabemos isto, e as pessoas que nos obsequiam nem esperam compensação vindoura. Quando nos abrirem as portas, chegaremos à rua machucados, bambos, secos, acharemos a vida amarga, cansar-nos-emos facilmente, qualquer esforço nos parecerá vão. Se alguma coisa nos prender, serão resquícios dessa estranha solidariedade. Certamente eles nos acompanharão sempre.

Quem seria aquele homem, ou aquela mulher? Ter-me-ia visto, falado, ou me distinguira ao acaso, folheando as listas da secretaria? Dois espantos sucessivos. O livreiro devia reputar-me um desconhecido, pouco mais ou menos. Algumas cartas, uma proposição, agora renovada inesperadamente. Mau emprego de capital. Romance desagradável, abafado, ambiente sujo, povoado de ratos, cheio de podridões, de lixo. Nenhuma concessão ao gosto do público. Solilóquio doido, enervante. E mal escrito. A edição encalharia no depósito, a amarelar, roída pelos bichos. Não se venderiam cem exemplares; repisei esta convicção, quis transmiti-Ia de novo ao editor, antes que ele se arriscasse.

A terceira e última surpresa me abalou em demasia, arrancou interjeições de raiva, incompreensíveis e desarrazoadas na opinião de Sebastião Hora. Tinham-se fechado os cubículos, anoitecia, os hinos e as canções já principiavam a mexer-me os nervos, interrompidos pelo cocorocó do português. Um guarda surgiu à porta, deu-me uma carta. Não a recebi, esperei que um dos companheiros a tomasse. Ninguém se moveu, o funcionário continuou de braço estirado. Perplexo, tomei o envelope. Era realmente para mim, rasguei-o, vi um cartão, a fotografia dos meus três filhos mais novos. Num assombro, olhei as figurinhas distanciadas por tantos sucessos imprevistos; devo ter ficado minutos sem nada entender, suspenso. Esqueci a presença de Hora e Sérgio, num instante as crianças me apareceram vivas e fortes: tinham deixado a praia, a areia branca de Pajuçara, feito longa viagem, transposto diversas grades e estavam no cubículo 35. Uma delas usava boina, um laço de fita ornava os cabelos da segunda; as camisinhas leves deixavam à mostra as pernas afeitas às correrias ao sol; ao centro, o garoto carrancudo, com jeito de homem. Pouco mais ou menos me achei como um vidente de fantasmas. De que jeito me haviam chegado aquelas almas do outro mundo? Se fiz a pergunta, não percebi durante algum tempo que a explicação se amarfanhava entre os meus dedos trêmulos. Recompus-me devagar, procurei debalde a carta. Nada. Examinei o sobrescrito. Nem selo nem carimbos do correio: alguém da minha família arriscara-se a meter a mão na engrenagem policial e deixara na secretaria aqueles retratos, sem nenhuma indicação. Quem teria sido o intermediário? Não atinei com amigo ou parente capaz de aceitar a incumbência. Um viajante animoso viera do nordeste, aproximara-se da ratoeira onde fervilhávamos, ouvíamos discussões. farrapos de línguas estrangeiras, sambas, hinos e o canto galináceo do português. Surdo a esses rumores, alheio à presença dos companheiros de célula, perdia-me em reflexões inúteis, mirando o cartão de quinze centímetros. Não me ocorreu observar-lhe o dorso: foi por acaso que o virei.

Distingui dez ou doze linhas a lápis, uma data, uma assinatura e explodiu a cólera bestial:

– Que diabo vem fazer no Rio essa criatura?

Era uma quinta-feira, princípio de maio: algumas letras e algarismos me trouxeram de relance a noção do tempo esquecido. Minha mulher chegara e prometia visitar-me na segunda-feira, entre dez e onze horas.

– Que estupidez!

Percebi no aviso a ameaça de aborrecimentos e complicações inevitáveis. Imaginei-a pobre, desarmada e fraca, a mexer-se à toa na cidade grande, a complicar-se no aparelho burocrático, enervando-se nas antecâmaras das repartições, mal se orientando nas ruas estranhas, fiscalizada por investigadores. Nada me seria possível dar-lhe. E dela me chegariam decerto preocupações insolúveis, novas cargas de embaraços. Alarmava-me sobretudo o esgotamento dos recursos guardados no porta-níqueis. As vezes retirava as notas escondidas no compartimento mais secreto, desamassava-as, contava-as, recontava-as e nessas operações assustava-me com freqüência a falta de alguns mil-réis. Dois meses de cadeia. Sem a última linha escrita no verso da fotografia, esse tempo, decorrido em ambientes diversos, numerosos imprevistos a cortá-lo, parecer-me-ia talvez mais longo. Realmente não me fixava nele, a adaptação rápida a qualquer meio fazia suportável a vida na Praça Vermelha e nos cubículos. Na rotina, as coisas desagradáveis canções repisadas, mordeduras de percevejos, o grito do português diminuíam, talvez acabasse por insensibilizar-me a elas. Quando me afastassem dali, afligir-me-ia a ausência de alguns companheiros. De fato receava ser afastado; qualquer movimento anormal, chegada ou saída, me fazia pensar em viagens imprevistas para cá, para lá, envoltas em mistério, impossível adivinhar quantos dias, meses, anos, me separavam da liberdade; e realmente a idéia de ser posto na rua, sem armas, sem defesa, me causava arrepios. Medonho confessar isto: chegamos a temer a responsabilidade e o movimento, enervamo-nos a arrastar no espaço exíguo os membros pesados. Bambos, fracos, não nos agüentaríamos lá fora; a menor desgraça é continuarmos presos, inertes, descomedindo-nos em longos bocejos. Arrisco-me a falar no plural, mas na verdade ignoro se os outros se achavam também ociosos, designando-se à imobilidade e à sombra dos cubículos. Provavelmente não. Pesavam sobre mim condições particulares. O horror ao trabalho insípido, mecânico, às miudezas burocráticas. Dormência na perna, efeito do bisturi no hospital, a coxa e o pé da barriga insensíveis a beliscões e alfinetadas. E havia também aquele desalento, a enervação na carne e na alma, depois que, surdo ao aviso do faxina, me acostumara a beber diariamente dois canecos do café adocicado e enjoativo, com saibo de formiga. Ruína física e moral, ausência de energia e de membros. Em semelhante situação, a chegada imprevista de minha mulher me concentrava as últimas forças do organismo débil e a violência transbordava:

– Que estupidez!

Achava-me inútil: não serviria para nada à criatura. Para nada, para nada. Movia-me talvez menos a certeza de não poder auxiliá-la nas dificuldades e tropeços que o desaparecimento inexplicável dos desejos sexuais. Para nada, para nada. Repetia esta convicção obtusa. Nenhuma recordação amável. Lembrança de contas, ignóbil sujeição à ladroeira legal, covardia.

– Estupidez.

E a mesa de operações, o escalpelo, um médico indiferente a dizer: – “Não adianta. Vamos fechar isto. Um páreo entre Clemente Magalhães e dr. José Carneiro. Morrerá, viverá? Clemente afirmava, dr. José Carneiro negava, queria, chateado, coser aquilo e mandar-me logo para o necrotério. Afrânio Jorge me segurava a cabeça e não consentia o homicídio.

– Porque não cortam logo isto, dr. Afrânio? Porque me rasgam à unha?

– É que a artéria femural está descoberta, meu filho. Se metessem o canivete, você era um homem perdido. Horrível saber anatomia. Se Afrânio não me tivesse dito aquilo, deixar-me-ia tranqüilamente operar, morreria ou viveria, confiado na ciência. Não morrera. Dr. José Carneiro fora pago, indevidamente, na minha opinião. Quarenta dias numa cama, um tubo de borracha atravessando-me o ventre, o coração fatigado a subir, a descer, padre José Leite velando, oferecendo-me livros, contando, para entreter-me, histórias de Rodrigo Bórgia. Colapso de uma hora. O coração velho ia aquietar-se, dias longos de névoa, Mário Marroquim a discutir política, só. Minhas primas Alena e Lica sussurravam. Alena me estendia o braço:

– Tome.


– Agradecido.

– Tome Doente não tem vontade. Bem.

Recebia a xícara e bebia, sensível à brutalidade generosa. Um livro em cima do colchão, um homem loquaz a fatigar-me, alheio aos meus desesperados esforços para entendê-lo.

Sombras, nuvens, escuridão, um relógio fanhoso a bater, cochichos, o deslizar de vultos amarelos, bichos moles e fosforescentes enroscando-se. Era o que me vinha ao pensamento. Desagregação, um tubo de borracha furando-me as entranhas. A dorzinha no lugar da operação, o torpor na coxa faziam-me ouvir de novo as pancadas do relógio, gritos e gemidos na enfermaria dos indigentes, tinir de ferros na autoclave. Depois a convalescença, a vida estreita, a composição de um romance na sacristia de uma igreja do interior. A garota que ali estava no cartão, de pernas à mostra e fita no cabelo, nascera quando se findava essa história rude e agreste. Dois filhos gêmeos uma criança viva, de olhos claros, e um fazendeiro rijo, assassino e ladrão. Rememorar isso não me dava prazer. Existência vã, fastidiosa, canseiras, eternas desavenças conjugais, absurdas e inevitáveis. Regressar àquilo, afundar outra vez na água espessa, amarga.

– Que estupidez!

A frase repetida me agravava o desalento. Os hinos e canções esmoreceram, morreram, o silêncio caiu, perturbado pela marcha regular do guarda na plataforma. Sérgio desviou-se de mim. discreto, alongou-se na cama e adormeceu logo. Sebastião Hora observava-me curioso a agitação. Exibi a fotografia, indiquei o aviso a lápis:

– Que diabo vem fazer aqui essa mulher?

Hora arregalou os olhos, num assombro: eu devia estar satisfeito, sem dúvida. Resmunguei uma tentativa de explicação, desisti: não me compreenderia, naquele momento com certeza pensava horrores de mim. Egoísta, ingrato, idéias deste gênero, pouco mais ou menos. Percebi-lhe no rosto uma longa censura e não tentei desculpar-me. Em vão me irritaria, sem conseguir expressar o desarranjo imenso. Nem eu próprio me entendia. E desgostava-me expor aos outros as minhas desgraças interiores. ver nas fisionomias traços de piedade superficial. Encolhi-me, sentado na cama, a acender cigarros, verrumando o futuro, revolvendo o passado, numa confusão. Impossível dormir.



12

SEGUNDA-FEIRA pela manhã vieram chamar-me à secretaria. Arranjei-me à pressa e desci, escorreguei entre os magotes que fervilhavam ao rés-do-chão, transpus o vestíbulo, achei-me no pátio arborizado. Aquela hora os pardais se escondiam nas ramagens curtas e mofinas, educadas a tesoura. Passei diante da rouparia, vi à direita a casa onde, no meio de redes e malotes, o sujeito de fala turca havia querido forçar-me a adotar uma religião. Para ali me encaminharam De longe, num dos bancos largos, conhecidos no dia da inquirição enfadonha, bocejada, avistei minha mulher a renovar o choro manso, tranqüilo, da silenciosa despedida, na estação da Great Western. Resolvera-me a censurar a viagem precipitada, mencionar embaraços e tropeços, insinuar a conveniência de regresso imediato à província. A raiva e o desatino causados pelo súbito aviso em alguns dias se haviam decomposto, substituídos por uma expectativa ansiosa. Agora temia ofender a criatura: não lhe jogaria. a exclamação e a pergunta do solilóquio brutal. Um conselho, apenas: era necessário voltar, voltar logo. A presença dela não serviria para nada, esforçara-me por arranjar meio de explicar-lhe isto sem molestá-la. O pranto silencioso me baralhava as idéias, consumia a resolução.

Enxerguei ali perto um vulto de homem, esboçaram-se nele vagamente as feições de Luccarini. Aproximei-me, numa confusão vagarosa, a duvidar dos meus olhos, perguntando se era de fato Luccarini que se levantava para receber-me, junto a minha mulher, e não achei palavras, com certeza fiquei algum tempo a jogar monossílabos a um e a outro. Sentamo-nos; o princípio da conversa mecânica atabalhoou-se.

– Por aqui, seu Luccarini?

Esta frase impõe-se, mas não me lembro dela, e a resposta se obliterou. As lágrimas fáceis desciam leves na brancura sem rugas; nenhuma contração indicava esforço interior; evidentemente o diafragma baixava, subia, normal; as glândulas funcionavam como torneiras frouxas.

– Que tolice! murmurei aflito com aquele choro bem comportado, isento de soluços.

Os conselhos forjados com vagar atropelaram-se, fugiram, achei-me vazio, incapaz de resistência, deixando-me colher nas malhas de um embuste sentimental, reconciliando-me de chofre, a inutilizar num minuto as aparências de firmeza compostas em dois meses. íamos resvalar na familiaridade, tentar uma conjugação improvável: estaríamos em breve a semear desgostos na vida chata, a ofender-nos à toa. Nenhuma censura velada, consenso implícito, apenas a observação chocha:

– Que tolice!

As goteiras pouco a pouco estancaram, na umidade brilhou um raio de sol pálido. Informava-me precipitadamente e recebia pedaços de notícias, de um e de outro lado; não conseguia fixar a atenção e voltava a indagar. Interessava-me saber como a pobre arranjara meio de viajar e surpreendia-me ver Luccarini em companhia dela. Veio a calma, estabeleceu-se a palestra regular. A absurda visita de Luccarini me sensibilizava. Coitado. Tivera-me forte birra. Impontual no serviço, despropositara comigo uma vez, na presença dos funcionários:

– Eu também já mandei. Mas quando precisava dizer a alguém isso que o senhor me está dizendo, chamava o sujeito de parte e repreendia-o em voz baixa.

Desde então era o primeiro a chegar, o último a sair. Sentava-se à banca e não fazia nada. Irritava-me a Pontualidade malandra. Se me via na rua, fechava a cara, voltava a cabeça. Vários meses de ausência com os vencimentos integrais haviam-me parecido vantajosos: livrava-me por algum tempo daquele trambolho. Finda a licença, renovara, entrara-me no gabinete:

– Venho agradecer e ver se pago o favor que lhe devo Leia isto.

Era um relatório em meia folha de papel. De acordo com as observações dele, feitas no Recife, tínhamos reorganizado o registro das escolas e a estatística. Agora ficávamos às vezes na repartição até meia-noite, eu a pezunhar no meu romance encrencado, Luccarini a escriturar fichas, a compor em nanquim, numa letrinha miúda, a história pública das professoras. Saíamos quando o guarda nos vinha dizer que iam fechar o portão do Palácio. Imprevista camaradagem. Meses atrás eu o julgava um preguiçoso, ele me supunha uma besta cheia de fumaças, de vaidadezinhas cretinas. Virava-me o rosto, e fazia bem. Tínhamos errado. A inteligência e a capacidade de trabalho de Luccarini espantavam-me. Para que servia isso? Estávamos ali, sentados num banco, na Casa de Detenção, na capital grande, sem achar palavras, ele arrasado, filhos pequenos a ameaçá-lo de longe, cheios de necessidade, eu a resmungar sílabas idiotas:

– Obrigado, seu Luccarini. Muito obrigado. Para que veio? Ora essa!

Realmente, para que tinha vindo? Não poderíamos reconstituir o registro e a estatística. Luccarini se abatia. Os meses de licença não lhe tinham servido, estava arriado e bambo, doente, sempre doente, desejando fazer coisas impossíveis. A sinusite persistia, necessária nova operação. Perdida a confiança nos médicos pernambucanos, desesperado apelo aos cirurgiões do Rio. No meio de atropelos sem conta, as economias e as esperanças a minguar, lembrara-se de ver-me, dirigira-se à polícia. Arriscara-se debalde, mas soubera a entrevista de minha mulher naquela segunda-feira pela manhã, fora esperá-la à porta da cadeia e conseguira entrar fingindo-se meu parente.

– Obrigado.

E algumas frases sumidas, a atrapalhar-se, em balbúrdia. Não havia jeito de expressar o meu reconhecimento. Preocupava-me ver que ele se expusera cometendo uma fraude para chegar ali; isto poderia causar-lhe desgostos. Imprudência ter vindo.

As palavras de minha mulher abalaram-me. Consumira-me a julgá-la enfrentando obstáculos invencíveis. Mocinha exígua, criada em rua modesta de capital vagabunda, com certeza se atarantava na cidade grande, encolhia-se muda. Enganei-me. Estancado o pranto leve, enxutos os olhos, fez um resumo dos seus atos, na aparência convicta de uma aprovação que não existia em mim. Ofereci-lhe concordância tácita. Que havia de fazer? Tudo aquilo era disparate, mas estava realizado e tornei-me cúmplice dele.

A criatura tinha vendido os móveis e o resto, cedera tudo às cegas e naturalmente se embrulhara. As suas contas andavam sempre numa complicação. O dinheiro tinha para ela uma significação muito relativa. Ouvindo-a, inteirava-me daquele negócio. Compreendia que estávamos pelados, reduzidos à penúria. Bem. Não valia a pena discutir. As nossas desavenças não tinham base econômica: a causa ordinária delas era um ciúme desarrazoado que a levava ao furor.

Naquele momento os dissídios malucos distanciavam-se, esbatiam-se, e as nossas relações se adoçavam. Inclinava-me a concordar, perceber na mulher energia e resolução, qualidades imprevistas a revelar-se na hora difícil. Parecia-me estimar o perigo e o desconforto, dava-se bem com as mudanças, o movimento, possuía o instinto da direção, começava a gravar na cabeça o mapa do Rio, e isto era indelével. Tinha sangue de cigano, provavelmente. Essa capacidade estranha de orientar-se, como observei depois, de algum modo a aproximava também dos ladrões. Desconhecida e insignificante, iniciara em seu favor um trabalho de aranha, estendendo fios em várias direções, e ainda hoje não sei se a impelia o desejo de me ser útil ou o prazer de mexer-se, avançar, recuar, preparando a sua teia. Hospedara-se em casa de uns tios, no Méier. Estivera no Ministério da Guerra, no Ministério da Justiça, no Palácio do Catete, na Chefatura de Polícia, falara a deputados e a generais, largava rápido a língua do nordeste e começava a adotar uma gíria burocrática singular, enganando-se às vezes no sentido de algumas expressões. Estabelecera rapidamente comunicação com a família de José Lins. Entendera-se com José Olímpio e combinara com ele mandar buscar por via aérea uma das cópias do romance. Aquela hora a papelada estava decerto voando para o Rio.

Essa confirmação da proposta que Rodolfo me trouxera da Polícia Central, na semana anterior, sobressaltou-me. Era-me indispensável rever aquilo, emendar os erros cometidos pela datilógrafa. E erros meus também. Temeridade a publicaçãoTencionei contrabandear os papéis, corrigi-los antes de serem remetidos à tipografia, mas afastei logo a idéia. Com a fiscalização rigorosa, não conseguiria recebê-los. E se entrassem, não sairiam. Agildo Barata e outros andavam sempre a redigir misteriosos resumos das longas discussões murmuradas nos fundos do cubículos; folhas de almaço acumulavam-se. De repente um boato surgia, tomava corpo: iam dar busca ao Pavilhão. Ignorávamos donde vinha a notícia, badalada com certeza. Afinal a ameaça não se realizava: esmorecia, dissipava-se, deixando no solo montes de cinza. Trabalho perdido. Quem teria semeado as notícias alarmantes? Agildo Barata e Sisson não desanimavam, escreviam sem cessar. A correspondência com pessoas insuspeitas lá fora engordava debaixo dos colchões; emagrecia à hora das visitas: cartas e relatórios, escondidos em bolsas de mulheres, passavam as grades, espalhavam-se em ônibus e bondes, chegavam à Câmara dos Deputados. Nova balela, novo escarcéu, baldava a matéria semanal dessa fadiga sub-reptícia: papéis queimados, carvões leves pulverizando-se no chão vermelho. As minhas notas difíceis acumulavam-se na valise. Não me resolvera a inutilizá-las. Pouco me importava que as vissem. Indiferença. Resistira, esperara que as viessem descobrir e inutilizar; persistiam, mal escritas, a lápis, em cima do guarda-vento, narrando a figura burlesca do general, as conversas longas de capitão Lobo, a asfixia no porão do Manaus. Preguiça. Não me arriscaria a trazer para o cubículo, por intermédio de minha mulher, o romance falho. Embora ele valesse pouco, era-me desagradável perdê-lo. O original e a outra cópia recomendada existiriam? Afinal o romance valia pouco. Ser-me-ia talvez possível, com dificuldade, fazer outro menos ruim. Ali a personagem central estava parada, revolvendo casos bestas, inúteis: um sujeito a aporrinhar-se porque uma fêmea safada lhe fugia das garras, outro a encher dornas, uma criatura cansada a lavar garrafas. Onde me haviam aparecido aquelas duas figuras, um homem triste a encher dornas, uma mulher a sacolejar-se em ritmo de ganzá? Bem. Anos antes, quando eu metia preposições em telegramas, consertava sintaxe na Imprensa Oficial, via lá embaixo, sob um telheiro, o indivíduo magro a mover-se entre pipas, a encher domas, a mulher sacudindo-se, lavando garrafas. Perto, montes de lixo e cacos de vidro. Essas coisas se repetiam no livro com insistência irritante. Inconveniência imprimi-las, fazê-las circular sem as emendas necessárias.

Falei do bilhete confiado ao investigador, no carro da Great Western, do conto deixado na gaveta no dia da prisão. Conforme eu pedira, essa história capenga fora remetida a Benjamin Garay, que a lançaria em jornal de Buenos Aires. Há uma cópia disso?

Havia.

– Bem. Dá essa droga a José Lins, depois que ela aparecer em espanhol. Vamos ver se ele arranja publicação numa revista daqui. Sempre são alguns cobres.



Arriscava-me. Mais tarde, lá fora, endireitaria aquela miséria e exibi-la-ia de novo. Remoí a proposta de José Olímpio. O conserto do romance, no futuro, estava excluído, pois ele nunca se reeditaria: a convicção de que não se venderiam cem exemplares cada vez mais se firmava. Prejuízo certo para o editor. Eu o tinha prevenido. Enfim me resignava a aceitar a proposta, os recursos minguavam no porta-níqueis, impeliam-me à temeridade. Que se havia de fazer? Esse acordo se estabeleceu por gestos e monossílabos, entre assuntos baralhados.

Afastei com enjôo as notícias de Alagoas. Os meninos gozavam saúde, o resto não me interessava. Esse encontro me deixou impressão de balbúrdia. O choro perturbou-me em excesso, muitas informações se atrapalharam, difíceis de entender; indispensáveis as repetições.

Findou a meia hora de visita, o guarda se aproximou. Furtamos ainda alguns minutos na despedida. Recomendei a minha mulher que procurasse os editores Schmidt e Gastão Cruls, recebesse o dinheiro relativo aos direitos autorais dos meus dois primeiros romances.

Abraços, novos agradecimentos a Luccarini, coitado. Não nos tornaríamos a ver. Pouco depois o infeliz amigo iria acabar-se em penúria, como se esperava.



13

NAQUELE dia a comida veio muito ruim, de aspecto mais desagradável que o ordinário. No caixão, ao pé da grade, empilhavam-se os pratos e o alimento se comprimia formando uma pasta onde se misturavam carne, peixe, arroz e batatas esmagadas. Entramos na fila, passo a passo nos avizinhamos dos faxinas ocupados na distribuição, recebemos a bóia enjoativa e a sobremesa: uma laranja murcha, uma banana preta, meio podre.

Afastei-me, pegando a louça imunda, a sentir nos dedos grãos machucados e gordura, subi os degraus de ferro. Lá em cima iria repetir-se a dificuldade comum nas refeições. A falta de mesa ou cadeira, forrávamos a cama com jornais guardados para as tochas com que se queimavam os percevejos. Evitávamos assim o contato da coisa repugnante com as cobertas. Mas a imprensa ali era clandestina, só tinha livre curso à noite, nos resumos badalados pela Rádio Libertadora. Minguava o papel e, depois da queima dos insetos, procedíamos como bichos, segurando a comida, num embaraço horrível.

Naquela tarde, no cubículo, antes de lavar as mãos besuntadas, ouvi perto uns gritos finos. Cheguei-me à porta, vi a pequena distância Agildo Barata no passadiço, junto aos varões do parapeito, formulando uma arenga bastante arrepiada. A voz álgida não se detinha, derramava-se num fio invariável. Escutando-o, às vezes me assaltava a doida impressão de que o regato sonoro deixava de correr, era gelo cheio de arestas cortantes, onde se assanhavam aranhas caranguejeiras e outros viventes da umidade. Também me vinha à idéia um miar de gato comedido, vagaroso, a esconder mal as garras. Esses disparates água tranqüila, gelo, caranguejeiras, gatos associavam-se, emprestando a Agildo uma personalidade estranha, complexa em demasia. Agora estava a a alguns metros, na plataforma, escorrendo um protesto de maciez aguda. Calou-se o ato surgiu. A corrente fluida estancou, exibiram-se os cristais do gelo, os olhos maus da caranguejeira e as unhas do gato.

O caso era simples. Tínhamos em vão, por intermédio do Coletivo, reclamado talheres; surda à exigência, a diretoria supunha que nos bastava uma colher. Não nos deveríamos conformar, achava Agildo alinhando frases suaves e resolutas. Como as nossas razões não tinham produzido efeito, convinha, no parecer dele, adotarmos a última. Finda a exposição curta, jogou o prato cheio no pavimento inferior.

Nem tive tempo de pensar. Entrei na célula, apanhei o jantar nojento, arremessei-o por cima do parapeito. Mais tarde uma pergunta me verrumou: como sucedeu que, tendo sido tão rápida a minha ação entrar no cubículo, apanhar a bóia, num instante jogada no andar térreo diversas criaturas houvessem feito o mesmo anteriormente? Acompanhei durante um minuto a ruidosa manifestação. Figuras ativas apareciam nas soleiras; de toda a parte, em cima, embaixo, projéteis saíam, rebentavam com fragor no cimento. Avolumaram-se depressa as ruínas; houve silêncio e fiquei longo tempo debruçado à viga negra do parapeito a indagar como o excessivo estrago se tinha realizado e quais seriam as conseqüências dele. Estranho contágio: a inesperada proposta se erguera, breve, firme, crespa, aceita sem exame, por unanimidade.

Esquisita pessoa, Agildo. Minguado, mirrado. A voz fraca e a escassez de músculos tornavam-no impróprio ao comando. A sua força era interior. Dizia a palavra necessária, fazia o gesto preciso, na hora exata. Economizava idéias e movimentos Para utilizá-los com segurança; moreno, rosto impassível, tinha uns bonés de esportista japonês: ligeiro desvio, avanço ou recuo oportuno assegurava-lhe a vitória. Preso, dirigira a sublevação do 3 ° Regimento, e tão bem se comportara que, após breve luta, estava no cassino, vigiando os oficiais legalistas vencidos. Faltava um major, e ninguém dera pela ausência dele: provavelmente sucumbira na peleja. Súbito o desaparecido invadira a sala, gigantesco, chegara-se ao carcereiro, uma pistola em cada mão. Às desvantagens naturais Agildo somava então inconvenientes acessórios: apanhavam-no de surpresa, sentado, via um sujeito enorme, em pé diante dele, manejando armas. – “Estou frito, dissera por dentro. E levantara-se para morrer. O colossal major, rubro e afobado, largara as duas pistolas em cima de uma banca e expressara-se veemente:

– Rendo-me. Contra a força não há argumento.

Bem. O convite nos achava predispostos à bagunça, à desordem. Ninguém se lembraria de fazer tal coisa, mas a incitação nos impelia ao ato correspondente aos nossos desígnios íntimos e apresentado como necessário e justo. Na verdade não recebíamos insinuação: havia ali uma equivalência de mando. Espantei-me depois, tranqüilo e em pleno juízo, da facilidade com que havíamos obedecido ao homem fraco, isento de aparências convenientes. Andava entre nós, imperceptível, mesquinho, e revelava-se de chofre, dominador. Porquê? Revolvi os miolos indagando a causa do poder tão inesperadamente revelado, julguei enxergar uma clareira no fato obscuro. Segundo imaginei, Agildo conseguia discernir a alma alheia. Individualmente isso não constitui nenhum dom especial. Em convivência prolongada, as caras das pessoas, uma ruga, piscadelas, sobressaltos, lábios contraídos, sorrisos, palidez, rubor, ligeiros sinais quase indistintos, conjugam-se, combinam-se com situações anteriores, oferecem-nos a instantânea percepção de sentimentos e pensamentos. Não se tratava disso. Pareceu-me que o sujeitinho moreno e exíguo possuía a qualidade rara de apreender num instante as disposições coletivas; rancores indeterminados, esperanças, receios, desejos, comprimidos nos subterrâneos das consciências, chegavam-lhe às antenas. Esse radiotelegrafista recebia estranhas comunicações, relacionava-as, concluía, marchava direito a um fim desconcertante: ignorávamos tudo e, surpresos, executávamos ordens, mas isto era tão normal. tão razoável, como se nos dirigíssemos pelas nossas cabeças. Tudo estava em regra, não nos poderíamos comportar de outro modo. Apenas ninguém havia pensado nisso, era preciso alguém articular vontades bambas e aspirações vagas, usar esses elementos esparsos e instáveis com segurança. Do material gasto pela ferrugem da cadeia saía obra coerente.

Em seguida àquela explosão, ninguém mostrou arrepender-se: era como se houvéssemos realizado um projeto. Não iríamos, por fraqueza, responsabilizar o capitão moreno de voz frágil: ele apenas descobrira as nossas tendências, empregara o meio conveniente para transformá-las em ação. Reside nisso talvez o domínio que certos indivíduos exercem sobre a turba; o seu prestígio vem da faculdade quase divinatória de conhecer aspirações e interesses escondidos, juntar grãos de pólvora derramados nos espíritos, chegar-lhes um fósforo em cima. Certo não nos mexermos à toa: o mais longo discurso incendiário, profuso de razões, não ressoa cá dentro e permaneceremos calmos, frios; meia dúzia de palavras curtas nos arrastam.

Debruçado ao parapeito, descuidava-me a observar os faxinas que recolhiam destroços no rés-do-chão. As vassouras chiavam no cimento, os cacos tiniam. Dançavam-me na mente as conseqüências da nossa brutalidade. Com certeza nos iriam dar comida em horríveis marmitas de folha, como as do porão do Manaus. Privar-nos-iam das visitas, da correspondência, do banho de sol. E os estrangeiros seriam os mais lesados; transferência de Rodolfo Ghioldi, Sérgio, Birinyi, Benjamin Snaider para as galerias.

Anoiteceu. Fui dormir imaginando castigos e aviltamentos. Nada veio. No dia seguinte, à hora do almoço, a grade se descerrou como se o acontecimento da véspera não tivesse nenhuma importância; a refeição, menos ruim que as habituais, surgiu em louça nova. As colheres velhas e ordinárias haviam desaparecido. Junto aos sacos de laranjas e bananas percebi uma grande caixa. Abriram-na. E na distribuição da comida ofereceram-nos talheres decentes.



14

POUCO depois de nos haverem chegado os fugitivos do Pedro I, Sisson, Desidério, Ivan, presos ao cabo de horas de liberdade precária, uma estranha personagem surgiu no Pavilhão. Antecedera-a a grande fama. Organizador de mérito singular, altamente colocado no Partido Comunista, homem de saber e tato, viera do campo; notabilizara-se pela experiência conseguida no interior. Aliando a teoria à pratica, subira rápido. Um dos mais notáveis influentes na sublevação de 1935.

Achava-me desejoso de conhecê-lo. Ouvia quase diariamente as palestras de Rodolfo, espalhadas em geral sobre toda a América do Sul, e interessava-me escutar o dirigente nacional: com certeza nos apresentaria o Brasil, bem conhecido em lentas observações, nas viagens e fugas arriscadas. Em seguida ao panorama, vinham dar-nos o pormenor. Esse indivíduo me acirrava a curiosidade. Chamava-se Miranda. O verdadeiro nome era Antônio Maciel Bonfim, mas na vida ilegal adotara o pseudônimo, vulgarizado na prisão, e por ele o conheciam. Veio doente, conseqüência de maus tratos recebidos na Polícia Central, e ficou algum tempo na enfermaria, a sala à esquerda, além da grade. Isso desenvolveu a simpatia curiosa das células e indignou-as: nunca os métodos brutais da reação, pareceram, invisíveis e ampliados, tão bárbaros. Ferimentos vários cicatrizavam à nossa vista e não nos sensibilizavam, as próprias vítimas pareciam esquecê-los. As torturas infligidas a Miranda, arriado numa cama ali perto, conjugavam-se a aventuras e perigos, romantizavam-no, quase o glorificavam. Tínhamos enfim matéria suficiente para um esboço de herói.

Pouco durou a expectativa, correram dois ou três dias, e o mistério desfez-se: a anunciada figura abandonou o choco e surgiu de repente na Praça Vermelha. Era um rapaz forte, de bonita cabeleira e olhos vivos, alegre, risonho, falador. Sem paletó e sem camisa, exibia no peito e nas costas indícios vagos dos tormentos referidos: ligeiras equimoses, traços azulados a custo perceptíveis. Essa exposição me intrigou. Sérgio me dissera que lhe haviam magoado e ensangüentado os pés, mas falara meio indiferente, como se aquilo fosse um caso alheio. As unhas de Benjamin Snaider tinham caído, nasciam outras: sabíamos a causa e guardávamos silêncio. Assunto realmente desagradável. Ninguém se inferiorizava lembrando as violências animais; seria absurdo, porém, imaginar uma pessoa vangloriar-se com elas. Víamos agora um sujeito alardear os sinais do vilipêndio, tão satisfeito que supus achar-se entre nós um profissional da bazófia. Aquela impudência me revoltou, especialmente por não enxergarmos no corpo do homem coisa merecedora de ostentação. Enjoei num instante a nossa piedade, fácil e imaginosa: estivéramos a conceber suplícios longos, requintes de malvadez, agulhas penetrando carnes, nádegas queimadas a maçarico, e aparecia-nos uma criatura jovial, buliçosa, a envaidecer-se de pequenas manchas azuis, traços insignificantes na pele clara.

Aquela ninharia acanalhava os suplícios. Desidério também apresentara no busto nu lanhos vermelhos, vestígios do chicote, mas não afetava prazer nisto: descobria-se por não

agüentar pano em cima dos ferimentos. O novo companheiro nos insinuava a idéia de singular exibicionismo. Convenci-me por fim de que isso não é raro: à míngua de títulos, revolucionários bisonhos chegam a converter as marcas afrontosas em honrarias, equiparam-se provavelmente a guerreiros feridos. A princípio essa confusão de valores nos atordoa, afinal nos habituamos. É possível, afirmaram-me, conseguir-se o estigma artificialmente. Comprime-se a pele, em continuados beliscões, e provoca-se a hemorragia superficial necessária às equimoses prolongando-se o exercício, despontam linhas róseas, avivam-se, estendem-se. cruzam-se numa viva carta geográfica onde se estampam os vestígios de golpes inexistentes.

A impressão que Miranda me deixou persistiu e acentuou-se no correr de dias: inconsistência, fatuidade, pimpanice. Vivia a mexer-se, a falar demais, numa satisfação rui dosa, injustificável. Incrível haver ganho fama, inspirado confiança e admiração. Com o tempo deixei de espantar-me, julguei entrever o mecanismo que impulsiona esquisitas celebridades vazias. O louvor de várias formas, em vários tons, cargas sucessivas de elogios, impressionam a massa, levam-na a enxergar numa personagem a grandeza conveniente. Virtudes escassas aumentam, desenvolvem-se até o absurdo, os defeitos esmorecem, obliteram-se. Prepara-se desse modo uma personagem destinada a figurar como síntese de qualidades alheias, voluntariamente ocultas. É um cabide onde se penduram os trabalhos de um organismo completo; nele se refletem a coragem, a firmeza, o talento, a paciência dos outros. As ações dispersas do conjunto agregam-se, tomam corpo, individualizam-se e isto lhes empresta autoridade. Supondo enaltecer uma pessoa, estamos na verdade a exaltar o grupo. Em público, medido, pesado, a expor falhas no comício e no jornal, facilmente um sujeito desce do pedestal onde o colocaram. Na ilegalidade, envolto em mistério, é possível agüentar-se, esconder insuficiências, cultivar algum mérito. O essencial é desconfiar das lisonjas, representar de olhos abertos e com sangue frio o seu papel de símbolo; se se atribui valores duvidosos, se se enche de soberba, pode rebentar como um pneumático.

Iria provavelmente acontecer isso a Miranda. O seu primeiro discurso, fluxo desconexo, me surpreendeu e irritou. Depois das palestras sérias de Rodolfo, aquilo fazia vergonha, uma palavrice infindável, peca, de quando em quando interrompida com uma frase boba, transformada em bordão: – “Isto é muito importante. Em vão buscávamos a importância, e o aviso tinha efeito burlesco. Ausência de pensamentos e fatos, erros numerosos de sintaxe e de prosódia. Essas incorreções não se deviam apenas à ignorância do orador, realmente grande. O singular dirigente achava que, para ser um bom revolucionário, lhe bastava conhecer o ABC de Bukharin. Solecismos e silabadas também se originavam de um preconceito infantil em voga naquele tempo: deformando períodos e sapecando verbos, alguns tipos imaginavam adular o operário, avizinhar-se dele. Sentiam-se à vontade usando a estúpida algaravia: isto lhes facilitava a arenga e encobria escorregos involuntários, impingidos por conta da linguagem convencional. Esnobismo de algum modo semelhante ao dos nossos modernistas, vários anos no galarim, a receber encômios deste gênero: – “Como eles sabem escrever mal!

Miranda sabia dizer tolices com terrível exuberância. Se lhe faltava a expressão, afirmava a torto e a direito, desprezando o contexto, vago e empavonado. – “Isto é muito importante. Isso me incomodava e aborrecia Pois aquele animal do interior, sertanejo baiano, estava assim vazio, não tinha nada para comunicar-nos além da importância cretina? Larguei o discurso antes do fim, outros o abandonaram. Mas a loquacidade rumorosa continuou dias e meses, aflitiva.

Adolfo Barbosa tinha deixado o rés-do-chão e residia agora em cima, no cubículo 50, o último à direita, pegado à sala 4 Essa vizinhança das mulheres o decidira a transferir-se. Instalando-se, pusera a cama atrás do guarda-vento e, defendido por ele, escavacara a parede a faca ou tesoura, persistente, conseguira abrir um buraco no tijolo delgado e avistar-se com Valentina. Era uma abertura circular de poucos centímetros, que peças de roupa disfarçavam, pendentes num prego. No outro lado, igual disfarce. Evitava-se a indiscrição dos faxinas e guardas; enquanto ali vivi, nenhum suspeitou do tráfego irregular. Algumas pancadas no muro, e afastavam-se as máscaras de pano, estabelecia-se a cavaqueira. Fui apresentado assim a Valentina, ou antes a pedaços dela, numa cerimônia bastante ridícula o marido, junto a mim, indicou-me gastando amabilidades, e através do pequeno túnel enxerguei um olho, brancura de pele, uns beiços muito vermelhos. Esse comércio clandestino encheu as horas de Adolfo. Pálido, feio, prognato, isolava-se numa delicadeza excessiva e entregava-se à leitura. Dissidente, considerado trotskista, fugia às discussões, aos banhos de sol, ao jogo de xadrez, simulava não perceber remoques e grosserias. Anteriormente subia com freqüência o parapeito sem descalçar os tamancos passava à janela num pulo ágil, segurava-se aos ferros da grade chamava a companheira e embrenhava-se em dissertações políticas. Já não precisava adotar esses difíceis exercícios de macaco intelectual. Arredava a cama, dava algumas palmadas na caliça, retirava do prego a toalha, agachava-se nos travesseiros e caía na prosa. Isso o indenizava de guardar compridos silêncios, ouvir picuinhas de garotos, ver na fila da comida fisionomias hostis. A inimizade coletiva não impediu aproveitarem-lhe a invenção. Rodolfo Ghioldi às vezes me atraía ao fim do passadiço:

– Amigo, peça ao Adolfo que se retire. Eu preciso falar à Cármen.

Inteirado, o inquilino sumia-se discreto; Rodolfo entrava na célula, escondia-se atrás do guarda-vento, dava o sinal, instantes depois entretinha-se com a mulher num cochicho espanhol. Depressa Miranda invadiu o segredo e o cubículo. Insinuava-se familiar, chegava ao locutório miúdo, chamava Elisa Berger, desdobrava-se em conceitos num francês vagabundo. Coisas imprecisas, indigência interior, o cacoete repisado a substituir expressões inacabadas na língua estranha: – C'est três important.

Conversava também com Eneida. Realmente não era conversa, era ensino: com autoridade, aprumo e abundância, desenvolvia teorias colhidas no ABC de Bukharin; deixando essas alturas, explicava o meio de se aproveitarem na luta as mulheres e as crianças. Aí não deixava de afirmar convicto:

– Isto é muito importante.

A imensa frivolidade e a pavonice alegre sumiram-se um dia e julguei de relance distinguir o avesso daquela natureza. Era noite, haviam trancado os cubículos, a Rádio Libertadora funcionava. De repente, modificação no programa: uma rapariga entrava na sala 4. Dada a notícia, o locutor, segundo o costume, se animou e exigiu:

– Uma salva de palmas à companheira Fulana.

O entusiasmo vibrou, em conformidade com a exigência, acalmou-se, resolveu agüentar os percevejos e dormir. De repente a voz de Miranda se elevou, oferecendo-nos a seguinte informação:

– Essa novata é uma que na vida ilegal se chamava... E atirou-nos a alcunha da recém-chegada. Uma interjeição de pasmo ecoou. Com todos os diabos! Uma criatura cheia de responsabilidade largava tal denúncia a estranhos, aos faxinas e aos guardas. Sim senhor! Leviano apenas? Afastei essa fraca atenuante. As maneiras desagradáveis do homem, a desfaçatez, a exibição dos golpes infamantes, as arengas vazias e palavrosas, ligavam-se à coisa recente, convenciam-me de que não nos achávamos diante de um simples charlatão. Em quem deveríamos confiar? Felizmente aquele se revelava depressa.



15

AS VISITAS de minha mulher durante algum tempo quebraram a monotonia da prisão e ligaram-me com inesperados laços ao exterior. Uma vez por semana trinta minutos nos aproximavam na secretaria. Separados, nos bancos, tentando esconder-se em vão, casais segredavam. Impossíveis as efusões conjugais. No espaço exíguo e no tempo minguado, falavam graves, numa atenção concentrada, remoendo assuntos para que não se perdesse nenhuma palavra. As mulheres funcionavam como agentes de ligação, traziam notícias minuciosas, levavam relatórios, cartas, recados. Naquela meia hora realizava-se uma prestação de contas, liquidavam-se tarefas, surgiam outras, das ninharias individuais às arrojadas combinações políticas.

Na cidade estirava-se uma cadeia invisível, da oficina ao quartel e ao Congresso. Engenheiros, médicos, advogados, oficiais do exército, conspiradores antigos de alguma forma comprometidos, relacionavam-se com o nosso organismo secreto, recebiam incumbências, avançavam no desempenho delas, sem arriscar-se muito. De tempos a tempos uma delação, mensagem duvidosa, bilhete em cifra e um desses era agarrado, vinha mofar conosco, à sombra. Novos elementos se articulavam, na sala cheia de móveis uma desconhecida aparecia, familiarizava-se; crescia o número das portadoras de informações e pedidos.

As bolsas das mulheres se pejavam. O trabalho invariável das células, o fruto das longas discussões subterrâneas, redigidas com vagar, cada palavra ruminada ali desaguava, ia lá fora distribuir-se. Revistas improvisadas interceptavam frações da arriscada e numerosa correspondência; grande parte dissimulava-se nos vestidos, submergia-se na roupa íntima e escapava. Na rua as incansáveis intermediárias, fugindo à perseguição dos investigadores que farejavam pistas, desdobravam-se ativas: iam para aqui, para ali, viravam esquinas, subiam e desciam elevadores, entravam em ônibus, saltavam, metiam-se em bondes, novamente mudavam, ingeriam-se nos cinemas, achavam sempre meio de entrar por uma porta e sair por outra. Che ando a casa, podiam examiná-las com rigor as fêmeas da polícia infiltradas no serviço secreto: os papéis tinham levado sumiço em vãos de portas, escadas, apartamentos, consultórios.

Impossível avaliar o trabalho dessas lançadeiras de estranha máquina de costura, bem azeitada, a funcionar sem rumor. Entre elas avultava Maria Barata, decidida e rápida, olho vivo, palavra fácil, engenhosa, fértil em expedientes. Percebendo-lhe a agilidade física e mental, podíamos esquecer o corpo gordo e moreno, o rosto vermelho, brilhante de suor, imaginá-la delgada e própria aos movimentos excessivos. Tinha feito um casamento razoável, casamento adequado. Pessoas resolutas e corajosas, mas eram coragens diferentes: Agildo frio, calculista, jogando os seus trunfos seguro, com oportunidade; Maria exuberante e explosiva, aceitando provocações e dando a resposta necessária, alheia ao perigo, desprezando conseqüências. O marido sutil, a enroscar-se na sombra, largando o bote na hora conveniente, elástico e venenoso; a mulher sempre visível, a andar firme e direto, a voz forte, impelida às resoluções violentas, numa alegria sã. Entendiam-se à maravilha.

Todos precisavam entender-se bem. Na meia hora resumida os casais segredavam notícias e resoluções, graves, atentos ao pormenor. A entrega dos envelopes exigia prestidigitação: ligeiros, diante de funcionários, deixavam as mangas dos presos, mergulhavam entre páginas de revistas, escondiam-se por baixo de lenços pequenos caídos no cimento. È possível que os guardas percebessem esses manejos e encolhessem os ombros com indiferença, não sendo obrigados a intervir; em alguns achei mais tarde cegueira voluntária e conselhos oportunos.

Minha mulher ambientava-se depressa, naqueles encontros semanais estabelecia com as outras uma camaradagem barulhenta. Expunha-me notícias de ordem geral e entrava logo nas informações particulares. Modificava-se no meio estranho a filha do reacionário pobre e inconseqüente, apêndice da justiça, temente a Deus e ao tribunal. Ignorando política, alheia à questão das classes, a devotinha das procissões, amiga de escapulários, torcia caminho, solidarizava-se com as companheiras e entrava resoluta a colaborar no serviço postal clandestino. Sapecava-me observações desanimadoras. O homem da rua nos julgava com severidade imensa, aceitava sem exame balelas forjicadas sobre os rapazes do 3.° Regimento, ampliava-as, estendia-as; enfim, nos considerava a todos uns monstros. A pequena burguesia ainda se arrepiava, imaginando os perigos de que se livrara em noite de bombardeio e sangueira, e os vencedores lhe surgiam como heróis, a monopolizar a gratidão nacional. Um governo corrupto disfarçava as mazelas e restaurava-se, coloria-se de novo, expunha-se a luz favorável. Todos os meios de publicidade a articular-se contra nós, nenhuma defesa. Inteirava-me disso e pensava no desvario de sujeitos emperrados no otimismo, a sonhar conspirações, enormes forças mobilizando-se a nosso favor; lembrava-me do moço que ouvia, no silêncio da meia-noite, rajadas impossíveis de metralhadoras. As nossas esperanças cada vez mais se encolhiam; aniquilavam-se os interesses acesos pelos acordos sub-reptícios.

A minha situação não melhorava nem piorava. Ausência de processo, nenhuma testemunha; adiava-se, provavelmente não se realizaria o interrogatório longamente esperado. Minha mulher andava pelas repartições, a inquirir debalde; em falta de esclarecimentos, enviavam-na de um lugar para outro. Não se descobriam sinais de crimes, mas pelo jeito eles deviam existir em qualquer parte; conservar-me-ia longe do mundo até que aparecessem. Essa reles inocência provisória de nenhum modo me satisfazia. No Pavilhão achava-me inútil, olhado com indiferença, talvez com algum desprezo. Recusara-me a fazer uma conferência, lançara no Coletivo propostas chochas facilmente arruinadas por Desidério; e ausente da massa, declarando-me artesão, incapaz de entusiasmos e amigo do internacionalismo, sentia fervilharem suspeitas em redor. Já um fanático me havia chamado trotskista. A ordem pública julgava-me inofensivo, tanto que nem me afligia com perguntas, mas não revelava o intuito de mandar-me embora. Não a censurei por isso. Comparando-me a outros, a Manuel Leal, ao beato José Inácio, admiti que para mim havia até certa benignidade. Não iria lamentar-me, por ser de índole avesso a queixas e por enxergar no caso uma relativa justiça. Inimigos em chusma atacavam a sociedade, éramos cupim no edifício burguês e aplicavam-nos inseticida. A nossa prisão constituía evidência de numerosas ameaças à ordem; atribuíam-nos força e simulavam combater-nos; na verdade esmagavam-nos. Se nos soltassem, ponto final no embuste; o proprietário se indignaria vendo que o tinham alarmado sem motivo. Despojava-me de ilusões, resignava-me a encolher-me nos bastidores, comparsa anônimo e feroz, na opinião da platéia excitada.

Alheava-me disso e recolhia-me nas insignificâncias individuais. Um mês antes, de passagem pelo Rio, padre José Leite perdera alguns dias procurando avistar-se comigo; tentara vencer a resistência da autoridade jurando que eu não era comunista. Essa imprudência me comoveu e assustou. Se o meu excelente amigo tentasse de novo aproximar-se da ratoeira, arriscar-se-ia a ficar nela. O extemporâneo juramento me surpreendeu. Porque se havia comportado assim? Busquei a razão, supus encontrá-la. Padre José Leite era um místico, uma espécie de santo, ligado por inteiro às coisas espirituais e eternas. Na pureza completa, na bondade anormal, enxergava talvez nos outros as suas qualidades. O mal existia, sem dúvida, mas era abstrato. O comunismo, um fato mau, idéia má, desligava-se dos homens, criaturas de Deus, pelo menos das pessoas conhecidas, em que padre José Leite se espelhava. Achava-me entre esses viventes, real e físico, à espera de um raio de graça; impossível distinguir em mim um comunista; o meu admirável refúgio de misérias do hospital firmava-se nesta certeza sem repugnância. Explicava-se o presente misterioso recebido um mês atrás. Lembrei-me das peras, maçãs e uvas espalhadas em cima da cama, do endereço no papel róseo, formando uma curva larga e esquisita: recordei a letra incaracterística do meu velho camarada.

– Bem. Se ele tornar a aparecer, convém pedir-lhe que não se exponha, não se arrisque. Não vê onde pisa, vive no mundo da lua.

Estendia-me em semelhantes recomendações e receava causar involuntariamente prejuízo a alguém. Nada me concederiam além da licença contida no passaporte de minha mulher. Um cartão de vinte centímetros, com as iniciais D.E.S.P.S. no alto e em seguida estes dizeres: Sr. diretor: o portador do presente, cujo retrato se vê ao lado, sra. Fulana de Tal, tem autorização desta Delegacia Especial para visitar o sr. Sicrano. Uns garranchos ilegíveis serviam de assinatura; à esquerda, a fotografia de minha mulher, revelando que a permissão era intransferível. Aquilo se utilizava às sextas-feiras, ao meio-dia; a direção do estabelecimento, ranzinza e mesquinha, só nos permitia uma conversa de trinta minutos. Escolhíamos os assuntos principais com antecedência, buscávamos não perdê-los, mas isso era difícil: esquecia-me de pontos necessários, baralhava tudo, punha-me a divagar e a repetir. Uma deficiência curiosa perturbava: fugia-me a significação das notícias; esforçava-me por entendê-las, algumas pareciam-me inacreditáveis.

Diversos escritores começavam a interessar-se por mim; exagerando padecimentos, declarando-me vítima de iniqüidade, caíam num sentimentalismo propício a deformações. Tal vez nunca me houvessem lido; isto impedia juízo seguro, favorecia o logro involuntário, proporcionava-me um êxito fácil, impossível na província e na liberdade. Nesse lugar e nessa condição, penso não me haver de nenhum modo imposto aos homens da capital; agora tencionavam enxergar-me e avolumar-se, acabariam admitindo as próprias falácias e emprestando-me valor. Além de ignorar-me a literatura, esses intelectuais não me conheciam pessoalmente. O meu único amigo entre eles era José Lins que, em Maceió, me desenvolvia planos de romance, produzia a jato contínuo e passara um mês a ler-me um, dois capítulos por dia. Com certeza era José Lins o móvel da propaganda subterrânea. Sem dúvida. Enviava-me recados, aludia ao trabalho de pessoas solidárias comigo, tinha uma singular delicadeza em esquivar-se, responsabilizar os outros. Bem. Se não me achasse na cadeia, faltar-me-ia recurso para distinguir-lhe essas qualidades. Provavelmente influíra em José Olímpio. Com aqueles gestos imensos, explosões cheias de adjetivos excessivos, construíra-me uma pequena reputação; antes da minha aventura chocha, já ele me havia escrito exigindo a remessa de originais e falando-me no entusiasmo do editor. Isso não existia, claro. As insinuações discretas, as ligeiras esperanças incutidas na sombra indicavam-me o autor da maquinação. Impossibilitados de usar a imprensa, discutiam baixo, escreviam cartas a políticos, ao Presidente da República. Mas o Presidente da República era um prisioneiro como nós; puxavam-lhe os cordões e ele se mexia, títere, paisano movido por generais. Forte. Lá fora o viam forte e risonho, achando tudo bom; ali dentro o sabíamos um pobre diabo manejado pela embaixada alemã, pela embaixada italiana, por intermédio da chefatura de polícia. A mulher do embaixador italiano fazia e desfazia, mandava e desmandava, isto era, na verdade, uma colônia bastante difícil. Essa boa vontade que principiava a mexer-se na sombra não me afastaria dali, pelo menos por enquanto. Sensibilizava-me, contudo, esquecia ressentimentos, evaporavam-se às vezes os meus furores de misantropia. A convicção da própria insuficiência em meio hostil pouco a pouco ia minguando.

Continuava apático e vazio; momentos de otimismo fugaz davam-me, entretanto, a esperança de concluir um dia a lenta redação das folhas pesadas. A cópia da história nebulosa e medonha chegara do nordeste, fora enviada à tipografia. Os críticos iriam arrasar-me. Ou não arrasariam; o mais certo era não dizerem nada. Os direitos relativos a duas edições pequenas dos livros anteriores haviam sido pagos. Dinheiro curto, o indispensável aos gastos de minha mulher. Respirei. Era-me possível recusar o adiantamento oferecido pelo editor.

16

DE REPENTE foram suspensas as visitas, findaram as notícias e até as comunicações entre nós se dificultaram. Isso originou-se de um grande barulho em que nos metemos sem nenhuma preparação; aquilo veio de surpresa, em condições normais não nos teríamos comportado assim; contudo, recebemos as conseqüências, e nenhum, suponho, deu sinal de arrependimento.

Estávamos recolhidos, eram pouco mais ou menos oito horas da noite, ouvíamos a prosa de jornais contrabandeados pelos guardas. Uma das tarefas de Malta era debulhar essa literatura inimiga, resumi-Ia, comentá-la, pregá-la a sabão em folha de papel. Antes de irmos para a cama escutávamos numerosas calúnias em linguagem de hidrofobia; a liberdade de imprensa funcionava atacando-nos com violência e desespero.

Naquela noite suspendeu-se a leitura e espalhou-se um burburinho nos cubículos; expectativa, informações desencontradas, afinal soubemos que Benigno Fernandes se esvaía numa hemoptise. Ansiosos, aguardamos providências, e ante a hesitação dos carcereiros, os primeiros gritos se elevaram reclamando. O médico! O médico! Ninguém veio. Onde estava aquele bandido? A nossa cólera subia, aguçávamos os olhos e os ouvidos à cata de indícios do socorro; perguntas se cruzavam, perdiam-se numa grande balbúrdia; os minutos se passavam, longos, aumentando os protestos. Lá embaixo, à entrada, um rumor de chaves suspendeu a ruidosa manifestação; algum tempo ficamos esperando o sujeito. Nada. Apenas falas no vestíbulo, indecisas, portas abrindo-se, fechando-se, viagens inúteis de guardas a atarantar-se. As delongas nos enfureceram, a impaciência recalcada um instante rebentou de novo. Onde se escondia aquele miserável? Depois de meia hora circulou o aviso de que o doutor ia chegar. Calamo-nos, permanecemos voltados para o exterior, numa observação apreensiva.

Enfim um tipo surgiu, fúnebre, de roupa escura, atravessou o rés-do-chão, galgou a escada e foi examinar a causa do enorme desconchavo. Pouco se demorou: reapareceu de cara fechada, a resmungar coisas ininteligíveis: aborrecia-se com certeza de o terem ido incomodar sem razão. Houve um instante de perplexidade. Distingui a voz de Agildo. O homem parou; voltando-me para a direita, vi-o a pequena distância, no passadiço, respondendo a um interlocutor invisível. Não lhe distingui as palavras, o diálogo breve reduzia-se à metade, mas esta nos revelou a situação: o funcionário se retirava deixando o nosso companheiro sem nenhuma assistência. Não havia perigo, tudo em ordem a visita rápida e bocejada terminava. É possível que o caso não fosse grave; Benigno precisava repouso; os nossos gritos para nada lhe serviam. Mas era horrível permanecermos trancados, imaginando uma criatura a sufocar-se ali perto, hemorragia abundante a extingui-la pouco a pouco. Se pudéssemos ir vê-Ia, a expectativa ansiosa diminuiria; mexendo-nos, julgaríamos prestar algum serviço, não teríamos consciência da nossa inutilidade. E diante de uma figura real, pálida, em sossego, livrar-nos-íamos das idéias lúgubres que nos assaltavam. Necessário agitar-nos, buscar um remédio qualquer; a insensibilidade, a tranqüila indiferença, a rotina profissional enchiam-nos de horror indignado. A reclamação de Agildo chegava-me bem clara; as respostas do médico eram apenas um morno zumbido; não enxergando o primeiro, distinguindo o outro em pé junto à barra do passadiço, valia-me da audição e da vista, conjugava sons e gestos para traduzir a ácida conversa.

– Isso é crime! vociferava o militar. Não faz nada? O senhor é um monstro. Deixa uma pessoa a perder sangue, à míngua.

Julguei perceber a réplica: os nossos receios eram exagerados e. além disso, não estava na hora de fazer exigências. Isso me arrepiou: o burocrata se mecanizava, cumpria funções mínimas, entrincheirado no regulamento.

– Vai sair? esganiçava-se Agildo. Abandona a criatura esvaindo-se? Nem uma injeção!

A farmácia estava fechada, foi a última desculpa. O senhor é um assassino, bradou o oficial.

Diversas invectivas se seguiram, enérgicas, inúteis. O indivíduo, impassível, deu as costas, alcançou o fim da plataforma, desceu a escada, sumiu-se. Ranger de chave na porta da frente foi o sinal para um charivari louco.

Principiamos a sacudir as grades com desespero. Ajustavam-se mal aos batentes, as lingüetas folgavam nos encaixes; segurando os varões de ferro, agitando-os, produzíamos bulha infernal. Poucos se eximiram do contágio, suponho, da fúria de bichos excitados e impotentes. Sérgio, imune e sem nervos, acompanhou o desenvolvimento da bagunça, esperando ensejo para repousar; como isto não viesse, murmurou as boas noites, alongou-se na cama, engarfou os dedos no peito magro e dormiu logo. Era exceção: os outros, pilhas doidas, queriam esgotar-se, acabar-se. Em frente a mim, Lacerdão exibia violência profética: ligava-se às varas, formava corpo com elas; o inglês erudito de Cambridge desaparecia; tínhamos ali um feixe de músculos encrespando-se, tentando rebentar a prisão a carne engrossava, matéria bruta igual ao ferro; a barba espessa voava, a boca enorme se escancarava largando insultos indeterminados. Isso me atraía. As vezes não queremos saber se nos comportamos bem ou mal; procedemos assim por não nos ser possível proceder de outra maneira; a violência animal nos impele e domina. Naquele instante, máquina, peça de máquina, desprezei a inteligência de Sérgio; vi-o miúdo e chinfrim; se ele me alegasse razões, apresentar-lhe-ia argumentos vigorosos: músculos rijos, fortaleza alheia, conclusivos. Lacerdão, seguro às traves, alargando a bocarra sinistra. Nalgumas células os ocupantes se revezavam na balbúrdia, poupando forcas mas não havia descanso: usavam alternadamente os braços ou os pulmões; noutras conjugavam-se as violências, todos se esfalfavam agitando as grades. aos berros. Em conseqüência duas ou três fechaduras rebentaram, e surgiram rebeldes no passadiço e no rés-do-chão, a animar a desordem As portas avariadas, desengonçadas,, começaram a bater rijo nos umbrais, faziam depois de abertas um estrondo. horrível.

Ignoro o tempo que nos entregamos a esse delírio. Enfim talvez já nem soubéssemos a causa dele; também não pensávamos nos efeitos possíveis. Instintos livres queriam partir metal. Nos prédios vizinhos ninguém conseguiria dormir naquela noite. Isto deve ter inspirado sentimentos humanos ao diretor; isso e os prejuízos materiais e morais: peças arruinadas, cubículos vazios, a indisciplina a generalizar-se, a invadir talvez as galerias próximas.

Súbito o motim dos diabos esmoreceu e extinguiu-se no pavimento inferior. De cima choveram perguntas, vozes exigiram a suspensão do tumulto. Informações incompreensíveis, berrosHouve silêncio, perturbado por um leve rumor que se estendia. Vinham buscar Benigno, a inesperada vitória correu depressa no Pavilhão.

Naquele momento não me compenetrei dessa vitória: surgiu-me como fato casual, sem nenhuma relação com os nossos despropósitos; absurdos, manifestações de um pesadelo demorado. Impossível refletir. A transferência de Benigno chamava-me à realidade. Estivéramos a desatinar por causa dele. Bem. Agora o transportavam cuidadosamente, numa padiola. Os indivíduos que tinham vergado lingüetas, quebrado fechaduras, formavam grupos, encostavam-se ao corrimão, debruçavam-se ao parapeito baixo do passadiço, descreviam todas as fases da mudança. Benigno saía, flácido, exangue, na maca vagarosa, caminho do hospital; a grade larga do vestíbulo se descerrava para a passagem dele; depois se trancava; e não nos tornaríamos a ver. Achava-me contente. Na fadiga enorme, os ossos meio desconjuntados, a carne moída, felicitava-me e queria dormir. Mas tudo era confusoDifícil admitir que, tão poucos, isolados, separados por varões de ferro, houvéssemos batido, ao menos por enquanto, um médico infame, um diretor safado e invisível.



17

PELA manhã bebi o café enjoativo, comi um pedaço de pão sem manteiga. O caneco de coalhada tinha sido suspenso. Num cubículo do andar superior viera alojar-se um padeiro tuberculoso chamado França, encolhido, enfezadinho, sempre a morder um sorriso insignificante; podíamos contar-lhes as costelas. O ofego e a tosse levaram-me a oferecer-lhe a garrafinha de leite que me traziam diariamente. Agora me resignava ao pão seco, ao líquido repugnante adocicado. Engoli isso, peguei a toalha, disposto a marchar para o banheiro. Decorreu meia hora, e ninguém veio destrancar a porta; agucei o ouvido: nenhum sinal de chave no Pavilhão.

– O senhor não vai abrir isso? perguntei a um guarda. Balançou a cabeça negativamente:

– Vão ficar trancados uma semana por causa da bagunça de ontem.

Era justo, confessei no interior. Uma semana acaba logo. E tínhamos na véspera cometido excessos, um sarapatel horrível.

– Em todo o caso precisamos tomar banho. Como é? O funcionário não deu explicações e afastou-se. Pouco depois descerraram lá embaixo um renque de células, várias pessoas foram lavar-se; de regresso, novamente se trancafiaram, e chegou a vez dos habitantes do outro lado; em seguida as mesmas operações no andar de cima; a quarta parte dos homens saía, voltava, enclausurava-se. Tolheram-nos os banhos de sol; durante o castigo usaram minuciosa cautela para reduzir os perigos da sublevação. Era razoável, disse comigo. Se nos deixassem soltos, pegaríamos uma reivindicação qualquer, outra em seguida, e nunca estaríamos satisfeitos. A comunicação se tornava difícil.

Por esse tempo caiu-me entre as unhas um jornaleco ordinário, e surpreendeu-me ver nele o meu retrato, miudinho, numa coluna, encimando esta legenda fera, em grifo: o bagunceiro de Alagoas. Embaixo, uma diatribe em quinze centímetros me arrasava. Não me dizia os feitos, mas expunha-me à execração pública num ataque medonho. Um desordeiro, a prisão era justa. Burrice, pensei vendo no caso apenas um desconchavo. Onde me havia descompassado? E como diabo tinham descoberto aquela fotografia? Escarafunchei a memória, lembrei-me de que, meses atrás, a indignada folha me estampara a carranca noticiando o aparecimento de um livro, com abundância de elogios chinfrins. O mesmo clichê servira à prosa literária e ao desadoro político, de igual valiaQue estupidez! Esse ligeiro caso não me perturbou os cochilos e os bocejos do recolhimento forçado. Adotaram-se recursos para vencer a monotonia. Imaginou-se uma espécie de telégrafo, e os pichadores ficavam tempo sem fim batendo nas paredes; a entender-se com outras células, em barulho infernal. Jogávamos xadrez a distância, eu e Sérgio contra Benjamin Snaider. Arrumávamos as peças no tabuleiro, iniciávamos a partida.

– Peão do rei quatro, anunciávamos.

– Cavalo da dama três do bispo, gritava-nos o parceiro do cubículo vizinho.

Fora isso, longas conversas, alguma leitura, o almoço e o jantar recebidos à porta; as filas da comida foram suspensas: estabelecer-se-iam nelas contatos propícios à indisciplinaSexta-feira perdemos a visita: as mulheres deixaram pacotes na secretaria, e não conseguimos vê-las.

Uma noite chegaram numerosos indivíduos, quase todos militaresVinham do Pedro I, o navio donde Ivan, Sisson e Desidério haviam tentado fugir um mês atrásAgora essa prisão flutuante desaparecia, a carga humana era distribuída: novas figuras nos chegavam, caracteres diversos a atrair-se, repelir-se, na contradança que não nos deixava em sossego no mesmo lugar. Pouco antes haviam feito numerosas transferências em pequenos grupos, desafogara-se o Pavilhão. Mas o espaço minguava; os recém-chegados, muito numerosos, iriam alojar-se mal, três ou quatro na mesma célula. Surgiam de relance no pavimento inferior, mergulhavam nos covis estreitos, que se povoaram logo. Outros vieram, subiram a escada, formaram dois renques, invadiram as plataformas. Junto à grade, vi esse leque humano avançar. Defronte do meu cubículo, um sujeito de barba espessa, cabelos crespos, farda e insígnias de capitão, parou um momento, sorriu, apresentou-se com voz áspera:

– Rollemberg.

Tive apenas o tempo de manifestar-lhe prazer em conhecê-lo. Mas gravei o nome e a fisionomia. Um homem baixo, membrudo, também capitão, ergueu o braço ao passar, arrogante, o punho cerrado. O locutor da Rádio Libertadora indicava os novos prisioneiros, advogados, médicos, oficiais do exército, e salvas de palmas acolhiam essa gente; à medida que a lista se prolongava a manifestação ruidosa decrescia; afinal foram apenas algumas pancadas surdas e convencionais. O rumor apagou-se, as últimas fechaduras se calaram, fomos dormir ouvindo os passos leves das sentinelas.

No dia seguinte duas camaradagens me surpreenderam, rápidas, quase fulminantes; nem tive tempo de observar as estranhas personagens, ou talvez a observação tenha sido instintiva; não usamos cerimônias: num instante empolgou-nos a intimidade. Na reclusão dura, imposta pela celeuma, conseqüência da hemoptise de Benigno, alguns minutos o rigor abrandava: à hora do banho, indo aos chuveiros ou voltando, indivíduos estacionavam diante dos cubículos fechados, entretinham conversas. Os guardas agitavam as chaves, impacientes. Fingíamos não perceber a exigência e arrastávamos a parolagem, a afrontar a administração. Naquela manhã, depois do café, ouvi alguém chamar-me, no passadiço. Avizinhei-me da grade, vi diante de mim um belo rapaz de ar tranqüilo, voz lenta, risonho:

– Quem de vocês é Fulano? Eu. Que é que há?

Estendeu a mão através dos varões:

– Vim conhecê-lo. Sou Hermes Lima.

– Oh! Diabo! exclamei sacudindo-lhe o braço, num espanto verdadeiro. Um professor de universidade, tão novo! Eu o supunha velho.

Contenho-me ao falar a desconhecidos, acho-os inacessíveis, distantes; qualquer opinião diversa das minhas choca-me em excesso; vejo nisso barreiras intransponíveis e revelo-me suspeitoso e hostilDevo ser desagradável, afasto as relações. Aquela, iniciada entre barras de ferro, colhia-me de surpresa. Não usamos a cortesia necessária em tais ocasiões; o tratamento familiar veio súbito; nenhum constrangimento. Referi-me a alguns artigos de Hermes, lidos numa revista, meses atrás. E admirei-me de vê-lo:

– Não esperava encontrá-lo aqui. Ignorava a sua prisão.

– Mas não estou preso, respondeu Hermes, arranjando uma farsa que se prolongou enquanto vivemos afastados do mundo. Vim fazer-lhe uma visita.

Mais tarde, narraria a história burlesca deste modo:

– Sou uma vítima da literatura. Li um romance, desejei conhecer o autor, descobri-o no Pavilhão dos Primários. Consentiram-me entrar, mas impediram a saída. – “Como os senhores se dão bem, disse o diretor, podem ficar juntos.

Colaborei na burla atacando Hermes, responsabilizando-o pela minha reclusão:

– Foram aqueles malditos artigos que me desgraçaram. Respeitei um professor de universidade, não enxerguei nele um inimigo da ordem. Enchi-me de letras nocivas sem querer. Por isso me prenderam.

Hermes Lima foi a pessoa mais civilizada que já vi. Naquele ambiente onde nos movíamos em cuecas, meio nus, admitindo linguagem suja e desleixo, vestia pijama e parecia usar traje rigoroso. Amável, polido, correto, de amabilidade, polidez e correção permanentes.

O segundo vivente com quem naquele dia me relacionei foi o capitão fornido que atravessara a plataforma pisando rijo, erguendo o punho forte. Declarou chamar-se Walter Pompeu e dirigiu a Sérgio algumas frases num pretenso alemão absurdo. Não se fez entender e confessou que não sabia alemão.

– Está claro, resmungou Sérgio espantado. Não é preciso dizer.

Esse intróito nos revelava o curioso indivíduo, meio destrambelhado, inconseqüente, palrador. Apesar disso, quebrando louça, metendo os pés pelas mãos, era simpático.

Logo se pôs a discursar a respeito do marxismo, evidenciando completa ignorância da matéria. Sem se confundir, pulou noutro assunto, em seguida noutro, deixando-os mais ou menos sapecados. Os minutos que esteve ali no passadiço, indiferente ao carcereiro, ao tilintar das chaves, foram bastantes para uma exibição de leviandade. A indiferença diante do guarda, segundo notei depois, originava-se de uma tendência irresistível à provocação. Ia direto às vias de fato, alardeava prazer nelas; a coragem física desenvolvida na caserna servia-lhe para tomar o pião na unha sob qualquer pretexto, não tolerar a mais insignificante ofensa, voluntária ou involuntária. Tinha o coração perto da goela: segredo que ali chegasse num instante se espalhava. Eram engraçadas as suas indiscrições. Revelou-me que se havia metido a conspirar estupidamente com dois figurões do exército. No dia da revolta se dirigira ao ponto combinado para receber ordens dos chefes. Um estava inteiramente bêbedo, o outro chorava como um desgraçado.

– Mas não era choro metafórico não, explicou. Era choro de menino, as lágrimas correndo na cara, choro de medo.

Com a maior naturalidade, soltou-me os nomes dessas altas patentes. Não sei porque, de início, a franqueza estapafúrdia de Walter Pompeu me agradou. Talvez por se haver manifestado pouco depois de Hermes Lima e contrastar com ele. Dificilmente imaginaríamos duas criaturas mais diversas. A inteligência educada, fria; o instinto explosivo, solto. Discrepavam e não tinham semelhança comigo. Prendiam-me, contudo. E imaginei que poderia tornar-me amigo desses dois tipos.



18

DECORREU uma semana, e os cubículos permaneceram trancados, suspensas as visitas. Reclamei, e obtive do guarda esta explicação: o diretor achava inconveniente soltar na Praça Vermelha os homens do Pedro I, gente reimosa, propensa à desordem. Ficaríamos sob chave por tempo indeterminado.

– Mas isso é uma safadeza. Nós não temos culpa da transferência deles. A razão que os senhores nos deram foi a bagunça daquela noite.

Protestos desse gênero perderam-se, e continuamos a ver-nos de longe, jogando xadrez em tabuleiros afastados, ouvindo a telegrafia ruidosa dos garotos, prolongando a hora do banho para as conversas diante das células. Assim nos indignamos inutilmente cerca de um mês. Tínhamos achado o castigo razoável: era conseqüência de ato nosso, devíamos responsabilizar-nos por ele. Agora esse abuso de poder nos ofendia o sentimento de eqüidade. Os patifes exorbitavam e por isso tornavam-se odiosos. Vivêramos a admitir a idéia burguesa de pagar as nossas dívidas honestamente. Haviam-se imposto uma de sete dias e estiravam-na, quadruplicavam-na. Esse roubo me enfurecia. Não me sentia lesado no porão do Manaus. Apesar daquela miséria, o jejum completo, a asfixia, o calor do inferno, a imundície, não percebera ali nenhum dolo: a desgraça atingia todos como praga ou inundação. Ninguém se revolta contra essas forças brutas. A dispnéia, a escuridão leitosa, o horrível cheiro de amoníaco, o soldado negro empurrando-me com a pistola, ao descer a escada, eram coisas fatais, no medonho pesadelo. Na verdade éramos bichos. Regressávamos à condição humana, impunham-nos um castigo e percebíamos que ele era embuste. Esse procedimento insidioso me atormentava mais que as humilhações e o desconforto. Ouvindo-me falar no esbulho de um direito Walter Pompeu troçou comigo:

– Donde diabo vem você, homem? Ainda acredita nessas bobagens? Vai sair daqui marcado. E lá fora, quando houver uma greve de barbeiros, agarram-no.

– Pois sim. Eu embrulhar-me no sindicato dos barbeiros. Tem graça.

– Porque não? Antes que você prove que não é barbeiro, corre o tempo.

Um fato, pouco depois, convenceu-me de que ali domina o capricho despótico, e as sentenças dos tribunais são formalidades inconseqüentes: cumprem-se, e os réus não se desembaraçam da culpa. Certos crimes não desaparecem nunca; um infeliz ajusta contas com o juiz e fica sujeito ao arbítrio policial. Inteiramente impossível a reabilitação, pois não o deixam em paz. E dá-se o caso de um indivíduo não querer ser solto, porque essa liberdade precária finda logo: tiram-no de uma prisão e mandam-no para outra pior. Foi o que me disse o faxina ao narrar um homicídio praticado naquele dia. Um ladrão concluíra pena leve. Na véspera da saída amanhecera abatido e sombrio. Pegara uma colher de sopa e entrara a aguçar-lhe o cabo no cimento, improvisando um estilete, a resmungar:

– Hoje não me arrancam daqui.

Alguns companheiros tinham tentado acalmá-lo, obtendo esta ameaça:

– É bom não chegarem perto de mim.

E o metal arranhava o chão, convertera-se em lâmina fina. Os veteranos desviavam-se prudentes; um novato buscara puxar conversa, desprezando o aviso. O homem se levantara raivoso e pregara-lhe o estoque na barriga:

– Tinha de ser qualquer umVai você mesmo.

Ao cabo de horas a vítima se finavaSendo-me impossível enxergar as causas da ação, acomodei-me na preguiça mental e perguntei se o preso estava doido. Um acesso de loucura, devia ser isso. A resposta do faxina, curta, revelou-me de súbito um mundo singular, nunca imaginado. Não me forneceu explicações: falou como se mencionasse. fatos normais, e nem de longe pareceu notar o meu assombro. Aquela simplicidade me contagiou: não precisei refletir para compreender a situação, achar que o desgraçado tinha tido procedimento razoável. Uma palavra de gíria me confundiu, a princípio não lhe abarquei o sentido:

– É um tipo escrachado.

Depois de ligeira dúvida, o nome estranho se definiu: o ladrão estava nas fichas da polícia, tinha deixado lá o retrato e as marcas digitais, de nenhum modo chegaria a livrar-se disso. Escrachado. Bem. Era ladrão, escrunchante ou ventanista. Estas designações novas me perturbavam. O escrunchante é um técnico, arromba cofres e tem recursos para não deixar lá os sinais dos dedos; o ventanista nem sequer sabe meter a gazua numa fechadura: se encontra janelas abertas, salta-as, abre ligeiro as gavetas, leva o que lhe aparece; abaixo dele, no degrau inferior da escada, há o descuidista, um pobre-diabo: fica tempo sem fim diante de uma exposição, olhando os arredores de esguelha, a ver se o observam, empalma um objeto de pequeno valor, e agarram-no facilmente. Essa corja é registrada na polícia. Conhecem-lhe os hábitos, distinguem-na de longe por indícios imperceptíveis ao olho comum, obrigam-na a mobilidade constante, vigiam-na e simulam esquecê-la numa brincadeira de gato com rato; na hora própria deitam-lhe a mãoTem uma existência dupla, ora a esconder-se, ora na cadeia. Aí vive em relativo sossegoDão-lhe a comida em hora certa, obrigam-na a trabalho regular, pouco a pouco se embota a vigilância inquieta necessária à profissão. Ao voltar à rua, mais difíceis se tornarão as fugas, a vida oblíqua, permanente resvalar de um lado para outro. Acha-se um infeliz em estado paradoxal: deseja sair dali, imagina planos de evasão impossível, e receia afrontar de novo os perigos antigos, agora muito ampliados: mecanizaram-no, quase o imobilizaram, incutiram-lhe dúvidas sobre as suas aptidõesConseguirá mexer-se, andar furtivo, pisar leve, entrar numa casa e percorrê-la direito, sem acordaras pessoas? A certeza da própria insuficiência é horrível Exclui-se a idéia de arranjar outro ofícioEm primeiro lugar nada sabe fazer além de abrir portas ou embromar otários repisando velhas, estafadas parolagens; valoriza enormemente as suas pequenas habilidades, gosta delas, aos íntimos agrada-lhe referi-Ias com vaidade e exagero. E depois, ainda que desejasse trabalhar, não o conseguiria: negam-lhe a mínima confiança, ninguém lhe aceita os propósitos de regeneração, em qualquer parte julga perceber olhares suspeitosos. Cumprida a sentença, verrumam-lhe o espírito esses desajustamentos, a liberdade chega a apavorá-lo. De fato não é liberdade. Liquida as suas contas com a justiça, e mandam-no embora. Mas não está quite com a polícia: esta não o largará nunca. Arruma os picuás e sai; ao chegar à primeira esquina um sujeito lhe surge e prende-o, naturalmente, à ordem do chefe.

– À ordem do chefe? inquiri espantado.

Que diabo significaria aquela expressão? À ordem do chefe, sim senhor, repetiu o faxina, como se aquilo fosse coisa simples, estabelecida, clara a todas as inteligências. À ordem do chefe. É a fórmula mágica, o jeito de aniquilar os miseráveis nascidos no subsolo social. Cometeram falta e pagaram-na duramente, não lhes exigiram mais porque isto não seria possível, exigiram tudo. Satisfeita a exigência, a vítima quer libertar-se e isto é impossível. À ordem do chefe. Qualquer policial tem o direito de usar isso, uma espécie de chave; o nome do chefe de polícia tem efeito mágico: os direitos alcançados na obediência, na dureza do regime carcerário, de repente findam. Essa autoridade imensa e incontrastável paralisa sonhos e desejos, suprime as iniciativas: esperando ouvir as palavras funestas, um homem se muda em trapo. E o pior é saber que, novamente agarrado, não se reabrirá para ele o portão de ferro transposto meia hora antes; não lhe darão a célula escura, onde a existência, apesar de tudo, é suportável. Com certeza o mandarão para a Colônia Correcional. Aí são medonhas torturas físicas e morais: a porcaria, a mistura ignóbil, a fome, o gasto das energias escassas no transporte de vigas pesadas. Essa perspectiva o desorienta, invade-o singular angústia: por muito que se esforce, não enxerga lugar onde possa viver mais ou menos tranqüilo; o mínimo de tranqüilidade possível existe na cadeia, no ramerrão da faxina, estigmatizado na roupa de listras. Consumiu-se no desejo de sair e a realização desse desejo o apavora. Ainda o cultiva, pois nada mais lhe resta, mas agarra-se à esperança de adiar o momento dessa libertação temerosaAfinal vislumbra nela uma possibilidade remota. O essencial é permanecer ali mais algum tempo, fugir aos perigos exteriores, ao transporte de vigas pesadas na Colônia Correcional. Não suporta a idéia de se saber perseguido, farejado, estremecer ao virar uma esquina, ouvir a intimação fatal: – “À ordem do chefe. Necessário por qualquer meio afastar esse pesadelo. E insinua-se o pensamento absurdo. Um pequeno delito originará uma nova sentença. Ferida leve num companheiro significa outra sentença. Daremos o golpe e ficaremos. Mais alguns dias de tapeação. Sairemos, por não nos poderem reter e isto será nova desgraça.

– Porque foi que você fez isso?

– Sei lá porque fiz? Precisava ficar. Ficar porque não tinha para onde ir.

Outro julgamento. Juízes amolados e distantes lançando a decisão formal. Mais alguns anos, alguns meses, na faxina, as riscas do uniforme aviltante a clarear, esfregadas com ácido cítrico; depois de muitas lavagens, as nódoas ignominiosas estariam quase imperceptíveis e isto o avizinharia da humanidade. Além disso há razões profundas que nos amarram fortemente aos hábitos adquiridos, e às vezes nem sabemos porque nos apegamos a situações indesejáveis. No estado normal, afeitos a ocupações ordinárias, ouvindo farrapos de conversas na multidão, viajando no estribo do bonde, no aperto dos pingentes, assimilamos opiniões comuns, nem adivinhamos que, em circunstâncias imprevistas, cheguemos a praticar desatinos. Na verdade não são desatinos, mas às vezes sofremos buscando em vão no interior a causa delesPerceberia aquele homem as origens do seu crime? Perguntei isto a mim mesmo, tentando relacionar pedaços da informação. Mais tarde o caso me pareceu explicável: acima dos motivos expostos, surgiu outro, mera possibilidade, mas que, admitida, nos fazia julgar a conclusão razoável. Certo o infeliz não desejara cometer um assassínio. Ferimento ligeiro, um arranhão, o suficiente para justificar nova pena, moderada. Ladrões têm horror ao sangue, desviam-se das criaturas impulsivas, formam grupos sossegados. Aquele, no momento da agressão, recuara talvez o braço, numa piedade extemporânea. O estilete perfurara intestinos, um sujeito aguardava autópsia. Muitos anos de cadeia, trinta anos de cadeia. Esfumavam-se o terror, a agonia, prognósticos medonhos: um policial na esquina, a ordem do chefe, sujeira, fome, o transporte de vigas pesadas na Colônia Correcional.

19

UMA noite ouviram gritos desesperados. Que eram? donde vinham? Não tínhamos o menor indício. Confinados, fechados, cambiando impressões rápidas à hora do banho, tentamos realizar um inquérito sondando faxinas e guardas. Estes se encerraram num mutismo desconfiado; os outros deixaram escapar informações vagas, cochichos, na verdade traições a compromissos e daí conseguimos entrar naquele subterrâneo. É sujo e infame. De supetão divisamos hábitos inimagináveis, relações estranhas, uma esquisita moral, sensibilidade muito diversa da que revelam as pessoas comuns. Além disso paixões violentas, negócios escusos, inadmissíveis.

Essas coisas nos surgiam pouco a pouco, insinuavam-se, venciam resistência, mas, embora tentássemos explicá-las, aceitá-las, a dúvida permanecia. A força de repetições, chegávamos a admiti-Ias, pelo menos como possíveis à natureza humana, contingente e vária, capaz de tudo, até que viessem negá-las, enviar-nos à sociedade razoável, acomodada, sóbria, ignorante daqueles horríveis desvios. Cá fora passamos involuntariamente a raspadeira neles. Houve um momento em que nos vieram narrá-los, comentá-los, ou são produtos de fantasia desvairada, vestígios de sonho? Vacilamos em transmiti-los: não nos darão crédito, e isto nos deixará perplexos.

Estaremos a forjar mentiras, resvalaremos na credulidade antiga, a engrossar boatos, adorná-los, emprestar-lhes movimento e vida? Procuramos velhos companheiros, atiçamos as reminiscências deles, obtemos confirmação. Foi o que me aconteceu. Informei-me de novo, procurei afastar as possibilidades de erro ou exagero, mas ainda me ficou uma vaga incerteza. O essencial é verdadeiro, causou espanto no começo, depois foi observado e nos pareceu natural. Não examinamos, porém, as circunstâncias: temos conhecimento delas por indivíduos confusos, propensos à divagação. Verdades? Não sei. Narro com reservas o que me narraram, admito restrições e correções.

Os gritos daquela noite eram de um garoto violado. Essa declaração me estarreceu. Como podia suceder tal coisa sem que atendessem aos terríveis pedidos de socorro? Muitos guardas eram cúmplices, ouvi dizer, e alguns vendiam pequenos delinqüentes a velhos presos corrompidos vinte, trinta, cinqüenta mil-réis, conforme a peça. Esse comércio é tolerado, desemboca nele parte dos lucros obtidos na indústria mirim da cadeia fabricação de pentes, caixas, numerosas bagatelas de chifre e osso. E há também o jogo, rigorosamente proibido e nunca suspenso, o contrabando de álcool, as gorjetas, a venda de cigarros, prestação de serviços miúdos aos políticos. O dinheiro circula, às vezes serve para amaciar funcionários. Na ausência de mulheres, consente-se o homossexualismo tacitamente.

A administração finge castrar aqueles homens, insinua hipócrita que o trabalho e o cansaço tendem a suprir necessidades profundas, e ali se movem autômatos puxados para um lado e para outro. Percebemos o dolo e pouco a pouco nos habituamos a ver entrar a anormalidade na existência comum. Achamo-nos longe daqueles indivíduos, conhecemos apenas os que vêm trazer a comida, fazer a limpeza, mudar a roupa das camas, e a princípio relutamos em conceber veracidade nas informações. Perguntamos em seguida como poderia ser de outra forma num meio onde só vivem machosOs assassinos, criminosos fortuitos, em geral os sujeitos chegados maduros, conseguem livrar-se do contágio: têm a preservá-los costumes diversos, princípios, a repugnância que nos leva a desviar os olhos se vemos uma dessas criaturas, lavar as mãos se a tocamos. Esse nojo e esses escrúpulos esmorecem com o tempo: refletindo, alinhando motivos, inclinamo-nos a uma indecisa piedade, afinal até isto míngua e desaparece: achamos aqueles invertidos pessoas vulgares submetidas a condições especiais: semelhantes aos que perderam em acidente olhos ou braços. Certo são desagradáveis quando neles predomina a linha curva, afetam ademanes femininos, têm voz dulçurosa, gestos lânguidos e caminham rebolando os quadris. Nem todos são assim, de ordinário não se distinguem por nenhum sinal particular. Nada que mereça desprezo. Como se iniciaram? Os angustiosos e inúteis apelos noturnos davam a resposta.

Depois nos vieram noções complementares. Meninos abandonados, vagabundos, pivetes, cedo se estragam, não experimentam surpresa ao ser metidos nas células de pederastas calejados. Mas há reações, incompatibilidades e se os meios suasórios falham, o casamento se realiza com violência. É o recurso extremo. Antes de usá-lo, o agente emprega blandícias, numerosos processos de sedução, e se não tem êxito, recorre às ameaças. Toma a comida do outro, joga-a na latrina, arrebata-lhe das mãos o caneco de água, proíbe-lhe o cigarro, vigia-o sem descanso, requinta-se em afligi-lo. Dois ou três dias de fome, sede e maus tratos anulam a funda aversão; a relutância esmorece, finda e o idílio principia às escondidas: nem gritos nem oposição obstinada, uns restos de vergonha impedem a exibição tumultuosa. Sobrevém largo período de ternura, áspera, cega, exclusiva, de um calor desconhecido nas relações heterossexuais. De fato não P ternura: é desejo absorvente, furioso, quase a encher a vida com uma única necessidade. O macho oferece ao amigo uma dedicação exaltada, respeita-lhe os caprichos, defende-o, trabalha com vigor e economiza para satisfazer-lhe as instâncias. Mas exige correspondência, espreita-o sem descontinuar e, dominado por ciúme feroz, não lhe consente expansões duvidosas; os excessivos cuidados, o amparo e as desconfianças permanentes tornam-se verdadeira tirania. Qualquer suspeita origina rixas, e nascem daí muitos dos crimes realizados nas prisões.

Ao ter conhecimento disso, refleti na cena de sangue dias antes anunciada pelo faxina, revi os motivos adquiridos em fragmentos e enxerguei mais um, talvez o essencial. As causas expostas enfraqueceram de repente, julguei-as laterais e secundárias: imaginei que o sujeito recusara a liberdade por não lhe ser possível afastar-se de um companheiro. Devia ser isso. Pelo menos é fácil admitirmos que um sentimento obsessor, vizinho da monomania, leve alguém a lesar os seus próprios interesses.

As minhas conclusões eram na verdade incompletas e movediças. Faltava-me examinar aqueles homens, buscar transpor as barreiras que me separavam deles, vencer este nojo exagerado, sondar-lhes o íntimo, achar lá dentro coisa superior às combinações frias da inteligênciaProvisoriamente, segurava-me a estas. Porque desprezá-los ou condená-los? Existem e é o suficiente para serem aceitos. Aquela explosão tumultuária é um fato. Estupidez pretender eliminar os fatos. A nossa obrigação é analisá-los, ver se são intrínsecos à natureza humana ou superfetações. Preliminarmente lançamos opróbrio àqueles indivíduos. Porquê? Porque somos diferentes deles. Seremos diferentes, ou tornamo-nos diferentes? Além de tudo ignoramos o que eles têm no interior. Divergimos nos hábitos, nas maneiras, e propendemos a valorizar isto em demasia. Não lhes percebemos as qualidades, ninguém nos diz até que ponto se distanciam ou se aproximam de nós. Quando muito, chegamos a divisá-los através de obras de arte. É pouco: seria bom vê-los de perto sem máscaras.

Penso assim, tento compreendê-los e não consigo reprimir o nojo que me inspiram, forte demais. Isto me deixa apreensivo. Será um nojo natural ou imposto? Quem sabe se ele não foi criado artificialmente, com o fim de preservar o homem social, obrigá-lo a fugir de si mesmo?



20

AO CABO de um mês abriram-se os cubículos, as visitas ressurgiram e pudemos circular na Praça Vermelha, entender-nos com os homens chegados do Pedro l, a maior parte desconhecida, apenas entrevista durante a reclusão. Eram muitos, e quase todos haviam perdido bons lugares sem respeito às conveniências jurídicas. Sumariamente despedidos, julgavam com rancor silencioso, cochichado, às vezes explosivo, o governo arbitrário e a revolução frustrada, que os havia exposto. Difícil perdoar a esta ter-se deixado vencer num instante Se se tivesse alargado e subido, numerosas convicções se arraigariam, tendências vacilantes ganhariam consistência. Isto não se dera. E aqueles intelectuais burgueses, funcionários, médicos, advogados, engenheiros, tinham razão para indignar-se. Ausência de estabilidade, posição neutra, rejeitados pelos extremos, de alguma forma achando-se vítimas de perfídias e traições. Não se haviam ingerido em mazorca. Um artigo em jornal, uma conferência, uma assinatura em manifesto e desabavam.

Com essa gente de gabinete e sossego contrastavam diversos militares, implicados na sublevação do 3.° Regimento e da Escola de Aviação, alguns estranhos a ela, em geral considerados suspeitos. Tinham sido eliminados do exército, mas ainda vestiam fardas, guardavam hábitos da caserna; eram assíduos na ginástica, não se tinham eximido à hierarquia e à disciplina: deram-me a impressão de olhar os paisanos com desdém, julgá-los fracos e imóveis: o espírito de casta permanecia. Crédulos, admitiam sem esforço que estavam cercados de espiões. O major Alcedo Cavalcante, professor no Estado-Maior, homenzinho de voz calma e sentimentos fortes, aferrado a certo número de idéias, sempre a sustentá-las com argumentos rijos e invariáveis, revelou-se aparteando um discurso de Ivan. O tenente falou de estratégia. O major interveio: não era caso de estratégia, mas de tática; embrenhou-se em definições, numa linguagem braba, com avanços e recuos. misturou tudo e acabamos sem entender nada. Walter Pompeu ligava-se a dois sujeitos, cearenses, capitães, explosivos, como ele: José Brasil e Moésia Rolim. Formava a trinca do Ceará, meio destrambelhada, o coração perto da goela, ora pelos pés, ora pela cabeça. Atleta, vestido num calção de banho, moreno, de olhos espertos, a voz. áspera, José Brasil começou a dirigir os exercícios físicos, que desceram do terraço, vieram substituir as conferências no rés-do-chão, espantando guardas e faxinas. Falava com exuberância entremeando na conversa pilhérias engraçadas. Envaidecia-se um pouco de ser parente de Jesuíno Brilhante, o cangaceiro romantizado em livro, autor de consideráveis proezas. Não me parecia que alguém tivesse razão para contentar-se com isso. Nem contentar-se, nem descontentar-se. Era um acidente. E agradava-me pensar que o bandido representasse um desvio na família dele. Aborrecia-me nessas criaturas desgarradas o procedimento desleal: nunca se expunham, usavam a tocaia, a traição.

– Mas está certo, disse-me Walter Pompeu, grave, sentado na cama de Sérgio. É assim que se deve fazer.

A solidariedade na trinca era perfeita.

– Todos nós procuramos evitar esforços inúteis e riscos. Se desejamos liquidar um inimigo, não vamos oferecer-lhe ocasião de suprimir-nos. O importante é matá-lo de qualquer jeito. A emboscada, sim senhor, a surpresa. Na guerra achamos isso virtude: não sei porque fora dela vamos abandonar vantagens. O homem sensato e prudente não se arrisca à toa.

Moésia Rolim nunca estava em repousoEscrevia, estudava, sobretudo falava, erguendo a voz abafada cheia de hiatos e gargalhadas roucas. Passava depressa da zanga superficial à alegria estouvada perceptível em todo o Pavilhão.

– Bacharel feroz! gritava a assanhar-se.

Pequeno, sacudindo os braços curtos, lembrava um periquito a maquinar bicoradas em Moreira Lima, que o ouvia tranqüilo, com dignidade mansa de boi. Moésia Rolim, Walter

Pompeu e Lauro Fontoura, expulsos da Escola Militar em 1922 ou 1924, tinham-se metido em leis e eram advogados. Com o movimento de 1930 haviam regressado ao exército. Insatisfeitos, embrulhados em nova conspiração, outra vez eram demitidos.

Nessas idas e vindas, ora triunfantes ora derrotados, havia um número regular de indivíduos a oscilar de uma profissão para outra. Picolés, milicos. Não se ofendiam com esses epítetos. Milico no extremo sul é qualquer soldado. Aplicando-lhes a designação de picolés, talvez quisessem dizer que eles tinham na caserna a resistência do sorvete, iam derreter-se depressa. Alguns, como Agildo, eram considerados mortos para a vida militar; Maria Barata recebia no tesouro o dinheiro das viúvas, e visitava o defunto uma vez por semana.

José Gay da Cunha, segundo-tenente de aviação, era uma enorme criança muito branca e muito forte, alegre, viva, sempre a mexer-se e a rir. Figura internacional. Nemo Canabarro Lucas fora tenente no exército brasileiro e capitão no Paraguai: combatera no Chaco. Por causa da sua pronúncia castelhana, chamavam-lhe mi capitan. Mais tarde seria major na Espanha e correspondente de jornais em Londres. Afastava as intimidades com uma delicadeza fria, a voz baixa, os olhos impassíveis; raramente um débil sorriso lhe perturbava o arranjo sereno; vivia recolhido, estudando matemática. Apporelly meteu-lhe o nome numa daquelas combinações esdrúxulas que provocavam risadas imensas no Pavilhão. Começou um discurso perfeitamente sensato, chegou a vencer a expectativa de pilhéria, intrigando o auditório. Com firmeza e gravidade, lançou um começo de frase latina:

-Quod natura dat...

Pausa. O homem torcia caminho: abandonava os gracejos e enveredava na circunspeção. Temperou a goela, olhou firme a assistência, repetiu:

Quod natura dat... Nemo Canabarro Lucas.

José Gutman, baixinho, lourinho, cantava sambas. Joaquim Santos, o Quincas, tinha perdido um olho no combate do 3.° Regimento. Era radical e assinava-se: Joaquim Santos, Segundo-Tenente do Exército Popular Nacional Revolucionário. Esse radicalismo nacional comportava os hinos e as canções patrióticas. Outros oficiais, Agliberto Vieira, Benedito de Carvalho, Durval de Barros, Apolõnio de Carvalho, Dinarte Silveira, à primeira vista não me impressionaram. O capitão Álvaro de Souza era um catálogo de sangues: mistura de branco, chinês, preto. Uma cicatriz de navalhada a estirar-se do rosto ao pescoço, marcas de bala e faca na barriga e nas pernas indicavam-lhe as disposições, originavam boatos: diziam que tinha sido picotado a metralhadora. O bulhento homem negava essa balela e esquivava-se.

Entre os civis, notei, além de Hermes Lima, dois professores universitários. Castro Rebelo, meia-idade, nariz semítico, falava martelando o pormenor e detestava as conclusões apressadas. A erudição acompanhava-o nos casos mais simples. Precedera-o forte publicidade. Encontrei-o na fila do almoço, metido num largo pijama de listras, e, em meia dúzia de palavras, conheci-lhe a independência violenta. O outro era Leônidas Resende. Vivia retraído, murcho, deitado, a engordar, logros e desânimos ocultos debaixo da coberta; distinguiam-se apenas um. olhar cansado e um sorriso fraco.

Dois médicos judeus. Raul Karacik nascera no Brasil. Divergia das opiniões dominantes no Pavilhão e defendia-se com gestos ambíguos, num silêncio teimoso. Inquieto, miúdo, indiferente a um rasgão no paletó, parecia querer fugir dali a caminhar sem descanso no rés-do-chão, da entrada ao banheiro, movido por tendências ambulatórias da raça. Febus Gikovate era polonês. O faxina se embaraçava e traduzia-lhe o nome, ao levar-lhe pacotes, nas sextas-feiras. – “Seu Chico Vargas! Hermes Lima corroborava a tradução, com ênfase brincalhona. – “Chico Vargas! Assim, estive dias sem saber como se chamava aquele indivíduo simpático e arredio, míope, de voz calma, ciciada, cheia de rr guturais. Um dia toquei-lhe em política; respondeu vago e desconfiado, com circunlóquios evasivos: provavelmente era considerado trotskista. Pessoa de teoria, permaneceu nas generalidades, aniquilando as minhas preocupações objetivas, mesquinhas, imediatas.

A respeito de Gastão Prati, rapagão de cabelos grisalhos, quase brancos, de fala doce e lenta, corria uma anedota. Preso e interrogado, Miranda falara em excesso e elucidara o conteúdo obscuro de numerosos papéis. Um deles se referia a uma entrevista na casa Pratt. Isso não causara suspeita: encontro sem importância num estabelecimento comercial onde se vendem máquinas de escrever. Findas as perguntas a autoridade se erguera. Insatisfeito, Miranda achava não haver prestado as declarações todas:

– Um instante, doutor. Essa casa Pratt que está no bilhete é a residência do engenheiro Gastão Prati Aguiar. Em conseqüência, Prati se entalara. Um sujeito baixo e barbado, o advogado e jornalista Moura Carneiro, vivia a discutir investigações de petróleo. Muitas figuras, entrevistas na confusão, só mais tarde iriam caracterizar-se: Luís Lins de Barros, Orlando Melo, Maurício Lacerda, Flávio Poppe, Francisco Mangabeira, Plínio Melo, Barreto Leite, Süssekind de Mendonça.

Uma se notabilizou depressa, o engenheiro Pompeu Accioly, um grande rapaz amável, campeão de xadrez. Jogava três partidas simultâneas, sem ver os tabuleiros. Num cubículo do andar superior, sentado na cama, sob vigilância, de olhos fechados, ditava as marcações, que um sujeito, no passadiço, transmitia ao rés-do-chão, onde se juntavam mirones em torno dos jogadores. Vinham as respostas, ordenadas com apuro e vagar; Pompeu lançava rápido, imóvel, a mão em pala na testa, os lances vistos na imaginação: – “Tabuleiro número 1, número 2, número 3. Vi-o entregue a esse exercício. Ganhou facilmente duas partidas, empatou uma.

Certa manhã, à porta de uma célula vizinha ao banheiro, um moço lento, a revelar perfeita arrumação interna, me convidou a ensinar-lhe português. Assim conheci Aristóteles Moura, bancário, embrulhado em reivindicações de sindicato. Vacilei: as minhas lições não lhe deveriam servir para grande coisa. Mas evitei descontentá-lo. Pois não, algumas informações, em conversa; nada de encrencas pedagógicas. Falamos dez minutos e desisti: Moura sabia gramática melhor que eu.

Naquela barafunda os caracteres se diluíamAs conferências matinais, o orador quase nu segurando o esquema, num degrau da escada, esmoreceram. Um dia interpelei Ghioldi:

– Ó Rodolfo, porque é que você deixou de falar? Que é que há?

– Eu sou estrangeiro, amigo, respondeu frio o argentino. Que linguagem, Rodolfo! Há isso entre nós?

– Para você não há. Para outros há.

Guardei silêncio e compreendi. Estava ali a conseqüência do patriotismo idiota badalado à noite na Voz da Liberdade O Hino do Brasileiro Pobre era melhor que esse que berram nas escolas e noutros lugares, levanta as pessoas, descobre as cabeças. Palavras diferentes, música igual. Essas ondas humanas, a crescer, a desfazer-se, resvalavam num estreito nacionalismo A presença ruidosa dos militares perturbava o sossego dos homens de pensamento, e não quadrava aos operários. Joaquim Santos, Segundo-Tenente do Exército Popular Nacional Revolucionário. Tudo vago, nebuloso idéias, sentimentos, aspirações. As criaturas perdiam-se na multidão, como desenhos incompletos. Umas começavam a esboçar-se, outras viviam um instante e desmaiavam. Saíam, voltavam, tornavam a sair. E várias, ali perto, ausentavam-se, dividiam-se em grupos; as diferenças sociais, cultura e ignorância, profissões diversas, originavam atritos, ofensas involuntárias.

Os nordestinos formavam, silenciosos, uma sociedade arredia. As aulas de inglês, francês e russo espaçaram-se, afinal foram suspensas: Lacerdão, Tavares Bastos e Benjamin Snai der tiveram descanso. João Romariz não nos repelia nem nos atraía, amável e neutro. As gargalhadas de Newton Freitas buscavam motivos, perdiam a significação. A barriga negra do estivador Santana, sempre descoberta, crescia, na engorda. José Medina mordia o cachimbo com os dentes estragados. Bagé mastigava, sorna, o sorriso impudente. Trinos doidos de pardais fora, ao amanhecer; a algazarra dos pichadores e de Ramiro Magalhães dentro, o dia inteiroA voz suave de Beatriz Bandeira, à noite, o acompanhamento rijo de Eneida, cantos aspirados, de Olga Prestes ou de Elisa Berger. Valdemar Birinyi continuava a amolar Sérgio na sua gíria inconcebível, produto de várias línguas Por não lhe reconhecerem a literatura, composição de noticiário, psicologia de nota policial, Amadeu Amaral Júnior, ressentido e quase nu, a barba loura mais longa, a cueca mais escura, tinha rompantes ásperos, estridências de pavão, um grande pavão solitário. Insistente, o cocorocó do português rolava no Pavilhão, arrancando pragas.





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