Meditação primeira



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Encontro17.02.2018
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Aforismos

(Nietzsche)

Nietzsche, F. “Aforismo 3”, Além do Bem e do Mal
“Terminei por acreditar que a maior parte do pensamento consciente deve incluir-se entre as atividades instintivas sem se excetuar a pensamento filosófico. Cheguei a essa idéia depois de examinar detidamente o pensamento dos filósofos e de ler as suas entrelinhas. Ante esta perspectiva será necessário revisar nossos juízos a esse respeito, como já o fizemos a respeito da hereditariedade e as chamadas qualidades 'inatas'. Assim como o ato do nascimento tem pouca importância relativamente ao processo hereditário, assim também o "consciente" não se opõe nunca de modo decisivo ao instintivo. A maior parte do pensamento consciente de um filósofo está governada por seus instintos e forçosamente conduzido por vias definidas. Atrás de toda lógica e da aparente liberdade de seus movimentos, há valorações, ou melhor, exigências fisiológicas impostas pela necessidade de manter um determinado gênero de vida. Daí a idéia, por exemplo, de que tem mais valor o determinado que o indeterminado, a aparência menos valor que a ‘verdade’. Apesar da importância normativa que tem para nós, tais juizes poderiam ser apenas superficiais, uma espécie de tolice, necessária para a conservação de seres como nós. Naturalmente, aceitando que o homem não seja, precisamente, a ‘medida das coisas’...”

Nietzsche, F. “Aforismo 16”, Além do Bem e do Mal
“Ainda há ingênuos acostumados à introspecção que acreditam que existem ‘certezas imediatas’, por exemplo, o ‘eu penso’ ou, como era a crença supersticiosa de Schopenhauer, o ‘eu quero’; como se nesse caso o conhecimento conseguisse apreender seu objeto pura e simplesmente, enquanto ‘coisa em si’ sem alteração por parte do objeto e do sujeito. Afirmo que a ‘certeza imediata’, bem como o ‘conhecimento absoluto’ ou a ‘coisa em si’ encerram uma contradictio in adjecto; seria pois, esta a ocasião de livrar-se do engano que encerram as palavras. O Vulgo acredita .que o conhecimento consiste em chegar ao fundo das coisas; por outro lado, o filósofo deve dizer-se: Se analiso o processo expressado na frase ‘eu penso’, obtenho um conjunto de afirmações arriscadas, difíceis e talvez impossíveis de serem justificadas; por exemplo, que sou eu quem pensa, que é absolutamente necessário que algo pense, que o pensamento é o resultado da atividade de um ser concebido como causa, que exista um ‘eu’; enfim, que se estabeleceu de antemão o que se deve entender por pensar e que eu sei o que significa pensar. Pois se eu não tivesse antecipadamente respondido à questão por minha própria razão, como poderia julgar que não se trata de uma ‘vontade’ ou de um ‘sentir’? Resumindo o exposto, este ‘eu penso’ implica que comparo meu estado momentâneo com outros estados observados em mim para estabelecer o que é posto que é preciso recorrer a um ‘saber de origem diferente’, pois, ‘eu penso’ não tem para mim nenhum valor de ‘certeza imediata’. Em lugar dessa segurança em que o vulgo talvez venha a crer, o filósofo por seu lado não retira mais que um punhado de problemas metafísicos, de verdadeiros casos de consciência intelectuais que podem ser colocados da seguinte forma: De onde retiro minha noção de ‘pensar’? Por que devo crer na causa e no efeito? Com que direito posso falar de um ‘eu’ e de um ‘eu’ como causa e para cúmulo, causa do pensamento? Aquele que se atrever a responder imediatamente a estas questões metafísicas alegando uma espécie de intuição do conhecimento, como se faz quando se diz:. ‘eu penso e sei que isto pelo menos é verdade, que é real’, com certeza provocará no filósofo de hoje um sorriso e uma dupla interrogação: "Senhor, dirá o filósofo, parece-me incrível que o senhor não se equivoque nunca, mas por que anseia por encontrar a verdade acima de tudo. sem limitação de esforços?”






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