Medicina e poder: a trajetória de Aquilles Lisboa e a questão da lepra no Maranhão



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Medicina e poder: a trajetória de Aquilles Lisboa e a questão da lepra no Maranhão.
Cidinalva Silva Câmara*1
RESUMO
A coletivização da saúde levou à nacionalização de políticas de controle sanitário e publicização dessas políticas; retirando as questões de saúde/doença da esfera individual e elevando-as à esfera coletiva, fator de suma importância na extensão do controle do Estado brasileiro sobre o território nacional durante a primeira metade do século XX. Nesse contexto a lepra fora identificada como um misterioso inimigo que avançava silenciosamente pelo país corrompendo suas forças. A medicina apresentava, então, um arsenal de recursos normalizadores visíveis em discursos racionalizados, construindo um projeto de medicalização da sociedade brasileira em que o saber médico garantia a agentes e instituições o poder de nomear e classificar as doenças, suas formas de contágio e cura. Realizando uma variação do trabalho dissertativo, pretendo nesta comunicação discutir as intersecções desse processo através da trajetória de seu principal agente promotor no Maranhão: o leprólogo Achilles Lisboa.
Palavras – chaves: Lepra. Medicina. Poder.
RÉSUMÉ

La collectivization de la santé a pris à la nationalisation de politiques de contrôle sanitaire et publicização de ces politiques; en enlevant les questions de santé/maladie de la sphère individuelle et en élevant elles à la sphère collective, facteur de plus grande importance dans l'extension du contrôle de l'État brésilien sur le territoire national pendant première moitié du siècle XX. Dans ce contexte la lèpre est identifiée comme un mystérieux ennemi qui avançait calmement par le pays en corrompant leurs forces. La médecine présentait, alors, un arsenal de ressources normatifs visibles dans des discours rationalisés, en construisant un projet de medication de la société brésilienne où le savoir médical garantie à des agents et institutions le pouvoir de nommer et classer les maladies, leurs formes de contagion et cure. En réalisant une variation du travail dissertactif, je prétends cette communication discuter les intersections de ce processus à travers la trajectoire de son principal agent promotionnel dans le Maranhão: la leprólogo Achilles Lisboa.



Mots - clés : Lèpre. Médecine. Pouvoir.
1. Introdução.

Diferentes espaços geográficos, períodos históricos, grupos sociais e indivíduos produzem seus próprios meios de definir a etiologia, a transmissão, a terapêutica, e os sentidos de uma doença. Assim, também é um processo político, social e culturalmente contingente a transformação de uma doença ou evento biológico em um problema de saúde pública. (HOCHMAN,1993, p.18)

Nas primeiroa décadas do século XX, quando a lepra emerge como um problema de saúde pública as medidas que foram encaradas como profilaticamente mais indicadas para o tratamento da questão assentavam-se num modelo de expurgo e exclusão das pessoas contaminadas por tal enfermidade dos centros urbanos. Por meio delas pretendia-se assegurar não somente o controle da doença pela via do isolamento do doente em espaços restritos e afastados, como também a legitimidade da ação perpetrada, garantida por um simultâneo investimento na construção de proposições verdadeiras sobre a lepra, suas causas, formas de transmissão e, por último e não menos importante, de controle.

O presente ensaio busca esbosar alguns aspectos da história social desse processo no estado do Maranhão, reconstruindo o intinerário do médico, leprólogo, cientista, poeta, político, etc. Achilles Lisboa, figura social envolvida no debate de questões largamente em voga no país apartir da década de 1920: saúde, educação, desenvolvimento, etc.,

2. A medicina e a uniformização do controle da lepra no Brasil.

Apesar do aparato estatal de combate à lepra ganhar corpo a partir da década de 1930, desde meados da década de 1910 a enfermidade já era gestada no país como um fenômeno patológico singular, compreendida como uma ameaça sanitária transformada em alvo de políticas públicas formuladas graças a uma mudança no conhecimento científico sobre a doença e às disputas no interior da classe médica sob o domínio das verdades científicas acerca das formas de transmissão e tratamento da doença.

Esta forma de conceber a doença estava ligada a questões como: “a profissionalização do médico, a disputa pelo monopólio da autoridade sobre o diagnóstico e tratamento da doença e a própria terapêutica da doença” (COSTA, 2007, p. 05). Neste momento, a lepra passou a ser entendida como uma ameaça aos projetos desenvolvimentistas do país, agravante a sua já precária condição sanitária. Passou a ser entendida muito além dos efeitos que causava ao indivíduo doente: ela não era um problema apenas do chamado leproso, mas da coletividade - uma ameaça à ordem pública.

Nesse sentido a doença passou a fazer parte da agenda de pesquisas científicas do período que se debruçavam nas discussões sobre a etiologia da doença, suas formas de transmissão e cura. Os conhecimentos existentes sobre a doença ainda eram muito incipientes e tenderam para a recomendação do isolamento como medida política antileprosa no país. Como assevera Costa (2007, p. 90), “(...) este elemento nos ajudará a compreender não só o estatuto que a doença adquire entre as endemias brasileiras nas duas primeiras décadas do século XX, como também sua dimensão simbólica e os fatores que contribuíram para atualizar seu conteúdo e defini-la conceitualmente”.

Estudos sobre a história da saúde e da doença no Brasil (HOCHMAN, 1993; MONTEIRO, 1998, LIMA E HOCHMAN, 1996) apontam as intervenções realizadas no âmbito da saúde pública como um fator de suma importância na extensão do controle do Estado brasileiro sobre o território nacional, sobretudo nas regiões do interior do país. Segundo Hochman (1993), apesar dessas políticas terem um caráter de curta duração, nem sempre atingindo resultados efetivos, representaram a:

Constituição de poder político e aumento da capacidade de seu exercício sobre as elites e a população em todo o país via políticas de assistência à saúde e de saneamento, com impactos sobre o sistema político, sobre os grupos envolvidos com o problema e sobre a própria capacidade do Estado de produzir políticas. (1993, p. 40).


Naquele contexto, a saúde passou gradativamente a ser encarada como um bem à coletividade “cuja produção exigia a criação de arranjos coletivos, voluntários e coercitivos” (HOCHMAN, 1993, p. 41). A coletivização da saúde levou à nacionalização de políticas de controle sanitário e publicização dessas políticas; o que significou a retirada das questões de saúde/doença da esfera individual e a sua elevação para a esfera coletiva, chegando ao ponto de serem tomadas enquanto problemas de abrangência nacional.

Estando ligado à emergência do chamado “movimento Sanitarista”: “um movimento político e intelectual que, de 1916 a 1920, proclamou a doença como o principal problema do País e o maior obstáculo à civilização” (LIMA E HOCHMAN, 1996), os discursos empreendidos sobre a doença procuravam não só localizá-la no quadro das doenças endêmicas do país, como, ao mesmo tempo, indicar os elementos que a constituíam enquanto um perigo para a nação. Nesses discursos a lepra era identificada como um misterioso inimigo que avançava silenciosamente pelo país corrompendo suas forças.

Nesse sentido, o movimento sanitarista, alicerçado em modelos médicos de exclusão (pelo menos desde a Primeira República), formulava discursos sobre a população brasileira, associando-os a questões bem mais amplas, como as idéias de “Nação brasileira”, de “Povo brasileiro’ e de “cidadania”. O modelo sanitarista identificou, portanto, na doença, nas precárias condições sanitárias e no abandono da população brasileira o principal problema do país, transformando a saúde pública em questão nacional (COSTA, 2007, p.169).

As ações de combate à lepra, assim como as dos sanitaristas, seguiam o modelo de ação militarizada, criando a polícia médica. Segundo Neiva Vieira da Cunha (2005a, p. 61) e de acordo com essa concepção “cabia ao Estado, manter a saúde de seus cidadãos, estabelecendo, em detalhes, as condutas que as pessoas deveriam seguir nesse sentido”.

Foi nesse contexto que a lepra surgiu no quadro das doenças perigosas e ameaçadoras da ordem pública, num momento em que estava sendo gestado um projeto de modernização do país alicerçado no discurso médico que se buscava justificar na formação de uma série de intervenções no espaço urbano e rural. Este foi também o momento de institucionalização de entidades médicas e científicas no país que assumiriam a frente do projeto de civilização e modernização: entre essas entidades estavam a Fundação Oswaldo Cruz, a Academia Nacional de Medicina e o Departamento Nacional de Saúde Pública. Nessas instituições atuavam alguns cientistas que foram responsáveis pela criação da Liga Pró-Saneamento que, no final da década de 1910 divulgaram uma imagem de um Brasil doente2.

Para cientistas como Oswaldo Cruz, Adolpho Luz, Arthur Neiva, Belisário Pena, que ocuparam cargos de destaque naquelas instituições e dirigiram, por várias vezes, as políticas nacionais de saúde pública, o problema do Brasil e do brasileiro era a doença. As medidas adotadas para combater a lepra foram resultado da atuação desses diversos profissionais e instituições ligadas à saúde e que a empregaram enquanto um domínio social.

Nesse contexto, foram formulados dispositivos que envolveram técnicas, táticas, saberes e poderes, fazendo imissão no corpo e na vida através de técnicas disciplinares, de investimentos técnicos e políticos (PIMENTEL & BRUNO, 2006). Esse investimento no corpo e na vida se articulava a certa concepção de nação brasileira e de homem brasileiro. Noções essas baseadas, diria, insistentemente associadas às idéias de civilização e progresso planejados por agentes e instituições como os antes citados. Nesse sentido, os investimentos realizados na construção de uma idéia de Brasil e de seus problemas se expressaram nos cuidados com a saúde coletiva do brasileiro acoplando um domínio biológico a um domínio político em “enunciados relativos à ciência e práticas biotecnológicas” (NEVES, 2008, p. 41).

Percebe-se, nesse contexto, a emergência de uma gestão médica da população, assentada numa série de estratégias políticas, através da noção de saúde, que separava a população em termos de doentes e não doentes: entre corpos saudáveis e aptos a produzir, e corpos doentes, perigosos, logo, considerados como inaptos à produção.

3. O médico Achilles Lisboa e o combate contra a lepra

No Maranhão, assim como nos outros estados, já havia instituições que cuidavam de doentes de lepra seguindo o modelo filantrópico. O primeiro leprosário da capital maranhense foi estabelecido em 1830, numa casa localizada na Rua do Passeio, no Centro da cidade, por trás do cemitério da Santa Casa de Misericórdia. Este estabelecimento funcionou até 1870 mantido pela Santa Casa que, após esta data, o transferiu para outro terreno que ficava também por detrás de outro cemitério, agora o cemitério municipal do Gavião descrito pelo leprólogo Sousa Araújo como: “sórdido e tétrico (...) ali reinam a miséria, a indisciplina e o vício” (Apud, ALMEIDA, 1933, p. 55). Foi iniciada ainda a construção de outro leprosário, em 1920, no sítio Sá Viana que não foi concluído, sendo a obra abandonada em 1927, ficando os doentes alojados no leprosário do Gavião até 1937 quando foi inaugurado o asilo-colônia do Bonfim, leprosário que abrigara 1.396 pessoas nas quase cinco décadas em que esteve em funcionamento.

Um sujeito social que ocupou papel de destaque nos debates nacionais acerca do problema da lepra foi o médico maranhense Achilles Lisboa. Nos diversos artigos por ele publicados faz uma série de orientações sobre como as pessoas deviam se comportar com relação à lepra. Essas orientações estavam ensejavam uma normalização de conduta social centradas em orientações sobre cuidados com a higiene pessoal, como podem os observar em seu “Catecismo Contra a Lepra” de 1936:

1º) viver uma vida sem desregramento, (...) tratando da syphilis, do paludismo e das verminoses; tudo isso porque a lepra, que é doença de lugares sem hygiene, só se desenvolve em organismos enfraquecidos e predispostos. 2º) evitando qualquer contacto com leprosos. 3º) De modo nenhum procurar comerciar com os leprosos. (LISBOA, 1936, p.8)

Achilles Lisboa é um exemplo notável do poder social que detinha os médicos, não somente pelo fato de que propunha um programa de ação para o estado do Maranhão como forma de combater a lepra, como também pelo trânsito que o mesmo detinha na esfera política, donde extraia parte de sua legitimidade (NUNES, 2000, p. 322). Da mesma forma, a nível nacional, outros médicos lançaram mão de seus atributos como cientistas para se especializar em áreas cruciais da saúde no país, e, partindo desses atributos, galgarem cargos na estrutura política.

Nascido na cidade de Cururupu em 1872, no interior do Maranhão, Achilles Lisboa ocupou diversos cargos locais e nacionais no espaço médico, político e intelectual. Graduou-se em Farmácia na Faculdade de Farmácia da Bahia; em Medicina pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro; foi membro da Academia Maranhense de Letras; Diretor da Sociedade Maranhense de Agricultura; Delegado Geral do Recenseamento do Maranhão; Diretor da Faculdade de Farmácia do Maranhão; Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão; Prefeito da cidade de Cururupu; Diretor do Jardim Botânico; Governador do estado do Maranhão nos anos de 1935 e 1936 e aposentou-se como Naturalista do Museu Nacional3.

Os artigos escritos por Achilles Lisboa são bem representativos das dimensões e significados que a lepra recebeu no Brasil e dos tipos de “recursos investidos - científicos, políticos e simbólicos - que buscavam garantir seu lugar como um problema sanitário, em contraposição a outras doenças que assolavam a população brasileira nesse período” (COSTA, 2007, p.169). Em seus artigos sobre lepra Lisboa parecia tentar colocar em prática um projeto pedagógico. Para isso solicitava em seu Catecismo de Defesa Contra a Lepra (1936) que seus mandamentos fossem amplamente divulgados além de sugerir aos “poderes competentes”, medidas de combate e controle à lepra:

Prohibição rigorosa, immediata, pela polícia ou pela própria autoridade sanitária, de se misturarem à população os doentes de lepra declaradamente contagiantes, vedando-se-lhe sobretudo a entrada nas igrejas, nas repartições públicas, nos bondes, nos cafés, nas casas comerciaes, nos mercados, em toda parte, afinal,onde haja aglomeração de pessoas são e se exponham gêneros comestíveis, deverá ser severamente estabelecida (LISBOA, 1936, p. 14)


Achilles Lisboa tivera uma larga produção como intelectual. Além de seu engajamento nos debates a cerca da questão da lepra, publicara artigos, textos, livros sobre várias outras doenças, alcoolismo, vegetação, educação, sobre eugenia, etc.

Usando uma linguagem rebuscada, incluindo termos médicos, em artigo publicado na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão do mês de junho de 1947, intitulado “A imigração e a lepra”, Achilles Lisboa destaca a imigração como a única forma de tirar o estado do atraso econômico e efetuar uma limpeza racial. Assim sendo ele declara:

Representa a imigração para nós uma verdadeira transfusão de sangue, que nos venha levantar o valor da circulação da fortuna, trazendo-nos para as explorações agrícolas, além de normas de trabalho racionais, que nos evitem a devastação das florestas, trabalhadores capazes da intensificação de que carecemos nessas explorações. (LISBOA, 1947, p. 103).
A “transfusão de sangue” de que falava Lisboa não era apenas uma metáfora médica, ele estava se referindo à substituição de uma população rural que ele julgava doente devido às heranças africanas, expressas, por exemplo, no “folguedo bárbaro do bumba-boi, usança africana que nos veiu [sic] com a escravidão do negro e continua, aqui mesmo dentro da nossa Capital, e dar-nos o triste espetáculo de uma civilisação [sic] bastarda” (LISBOA, 1947, p 105). A população rural era apontada por ele como um povo “sem saúde, porque sem educação higiênica, preguiçosa e malandra porque doente e indisciplinada” (LISBOA, 1947, p. 104). Assim, Achilles Lisboa aponta nesse artigo o que considera a causa da improdutividade da população rural maranhense:

Com males outros muitos da imigração africana, tais como a lepra, a bouba, a ainhum, a diamba, o timbó, a bilharzia, o tambor, o bumba-boi, veio também o Necator, que é, mais do que o paludismo, fator essencial da nossa anemia tropical e, portanto, da preguiça, da inaptidão e moleza, dos nossos trabalhadores rurais. (LISBOA, 1947, p. 103)


Para o médico, o que estava em questão era um projeto de civilização para o estado do Maranhão. Tal projeto era atravessado por questões muito caras para as elites locais das quais ele fazia parte – a busca de uma raça pura que colocasse um fim na degenerescência da mestiçagem, a superação do antigo modo de trabalho – fatos que, para ele, dependiam da entrada de imigrantes de povos considerados mais avançados. Nesse sentido ele se pergunta: “Que fazer então para nos regenerar a raça, dando-lhe vitalidade e energia que lhe levantem a capacidade civilizadora com a subtaneidade exigida pelas circunstancias internacionais do momento de transformações por que passam todas as noções?” (LISBOA, 1947, p. 104)

A resposta encontrada por Lisboa foi a imigração, a promoção de um “processo de renovação rápida da introdução de um sangue novo” (LISBOA, 1947, p. 104). Mas este processo de purificação da raça dependia de medidas urgentes, dentre elas estava sanear o estado, afinal, para Lisboa, “a saúde, como maior certeza do que a própria terra tem de ser garantida aos que vierem trabalhar pela formação da sua fortuna e engrandecimento da nossa” (LISBOA, 1947, p. 105)

O objetivo de Achilles Lisboa estava para além da divulgação do perigo que a lepra representava para o Maranhão, era antes de tudo promover a divulgação de seu projeto de imigração marcado por idéias eugênicas que via no maranhense de origem africana uma ameaça à sua busca pela raça pura. O temor não parecia ser simplesmente, que a lepra amedrontasse os prováveis futuros habitantes do estado (como relata ao solicitar uma desinfecção da cidade de Alcântara escolhida para ser uma colônia de italianos). Lisboa temia também a não realização de mais um de seus vários projetos que não vingaram no Maranhão, como foi o caso da instalação de um Jardim Botânico.

Diante de seus planos de limpeza racial, a imigração se apresentava, assim como em outras partes do país, como a melhor opção e a lepra era apenas mais um mal trazido da África pelos negros que, em sua opinião era a causa do atraso econômico do estado.

As estratégias discursivas adotadas por Achilles Lisboa para conquistar espaços e postos políticos estavam assentadas basicamente em sua legitimidade científica. Para ele, a ciência era o meio através do qual o homem alcançaria um conhecimento e uma formação universal:

A cultura scientífica não proporciona somente os meios de adquirirmos mais facilmente o bem-estar na vida, tornando-os mais capazes e melhor aparelhados para a luta pela existência. Mais do que isso: Ella nos permite ter uma concepção verdadeira do mundo e da vida, concepção que nos conduz a um systema integral tanto nas ideas como na conduta. Com Ella ficamos com o espírito preparado tanto para resolver problemas, que o viver suscita, como para adoptar uma regra moral firme, não sujeita a fraqueza e nem a desfalecimento (Lisboa, 1918, p. 7-8).


Acompanhando sua trajetória intelectual, estudada por Nunes (2000), percebemos que o médico, cientista e leprólogo maranhense tratara de compor um vasto leque de produção (de jogar vários jogos) que variava de projetos de intervenção educacional na cidade de Cururupu até orientação de como a humanidade poderia alcançar a paz, passando por orientações sobre agricultura, alcoolismo, questões raciais e outras referentes à produção literária brasileira, como é possível observar tendo em conta a sua vasta produção bibliográfica.

Lisboa colocava-se contrário às formas com que o problema da lepra era tratado. Em seu texto “Pela Pátria, contra a Lepra, o maior dos seus inimigos” Lisboa descreve a doença “como o mais angustioso, o mais instante, o mais inadiável de todos os problemas nacionais” (LISBOA, [?]p. 01). Denuncia a forma como o governo brasileiro tratava a questão, segundo elo “como um avestruz” escondendo-se do perigo, silenciando a questão, que segundo ele, se apresentava como fator que impedia a entrada de imigrantes no país trazendo consigo “sua atividade civilizadora” podendo ser atingidos “por uma infecção que lhe arruíne para sempre a vida” (LISBOA, [?] p. 02). Lisboa coloca-se como defensor de uma campanha nacional contra a lepra, mas reclama do modo com ela vinha sendo praticada, clama principalmente, por um maior investimento da União, principalmente nos estados do Nordeste, dada a sua condição de falta de recursos econômicos para fazerem investimentos na área da saúde.



4. Considerações Finais

Observa-se na trajetória de Achilles Lisboa que ele, circulando nas diversas esferas sociais, buscava legitimar sua visão de mundo através de investimentos em seus conhecimentos científicos, constituindo tipos ideais de homem – branco, saudável, moralmente normalizado e produtivo; de natureza – que oferecesse todos os meios necessários para o desenvolvimento econômico e para a cura das doenças que atingiam o homem; de Estado – que oferecesse suporte, através de suas instituições, principalmente educacionais, para que a relação homem/natureza/ciência/estado fosse possível; e de ciência – que serviria para a manutenção de um homem saudável e produtivo em pleno domínio da natureza. Nessa perspectiva, a lepra, assim como o alcolismo, o uso da maconha, pobreza etc., eram molétias que ameaçavam o tipo ideal de sociedade que ele planejava.

Dessa forma, sua participação nas diversas esferas, intelectual, política, científica, lhes permitiram não só a ocupação de cargos públicos, como também a divulgação de seu idal e mundo ao mesmo tempo em que buscava espaços de consagração pessoal.

REFERÊNCIAS

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CÂMARA, Cidinalva Silva. O começo e o fim do mundo: estigmatização e exclusão social de internos da Colônia do Bonfim. São Luis, Programa de Pós-Graduação em Ciência Sociais da Universidade Federal do Maranhão. Dissertação de Mestrado, 2009.


COSTA, Dilma Fátima Avellar Cabral da. Entre idéias e ações: medicina, lepra e políticas públicas de saúde no Brasil (1894-1934)- Niterói-UFF/ICHF. Tese de Doutorado. Universidade federal Fluminense, Departamento de História, 2007. Disponível em: www.historia.uff.br/posgrad/teses
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NUNES, Patrícia Portela. Medicina, poder e produção intelectual: uma sociologia da medicina no Maranhão.- São Luís: Edições UFMA; PROIN (CS), 2000.

1Graduada em História e Mestra em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Maranhão, pesquisadora do grupo de pesquisa História Cultural/ UEG, linhas de pesquisa: História da Saúde e das Doenças, História e Cultura Urbana e do grupo de pesquisa História e Religiões/ UFMA

2Para maiores informações sobre a consolidação de instituições médico-científicas e a atuação de alguns cientistas no desenvolvimento do projeto de civilização do Brasil ver: BENCHIMOL, Jaime Larry. Febre Amarela e a institucionalização da Microbiologia no Brasil. In. HOCHMAN e ARMUS (2004)

3 Para um estudo mais detalhado sobre a trajetória, política, social e intelectual de Achilles Lisboa ver NUNES, Patrícia Maria Portela. Medicina, Poder e Produção Intelectual: Uma análise sociológica de Medicina no Maranhão. São Luís: Edições UFMA/PORIN/CS, 2000.





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