Masarykova Univerzita



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VIDA SOCIAL


Ao longo do século XIX, as ruas lisboetas encontravam-se cheias de „vivência teatralizada“118. Pode dizer-se que na rua jogava-se uma espécie de jogo comparável com o teatro. O comportamento dos burgueses na rua era bem diferente do comportamento deles em suas casas. Como diz Ramalho Ortigão: „Ninguém vive no seu interior. Vive-se na rua, ou no café. A casa aborrece; a família não nos interessa.“ 119


A participação na cidade exigia alguma actuação artística. A ordem social na rua era de grande parte definida pelas aparências. Pode se dizer que a rua era um teatro de representação. Consequentemente, os burgueses e principalmente as mulheres burguesas tinham na rua um papel de actriz ou representadora. Em Lisboa a aparência era o fundamento de uma posição social. Esse antes mencionado teatro de representação é presente no livro Primo Basílio onde a aparência é fundamental e onde as personagens tentam parecer diferentes de que são. No romance nota-se a grande preocupação da Luísa com as roupas sempre quando saía da casa, ainda por cima, quando ia passear ao Passeio Público. Luísa era uma mulher vaidosa e sabia que é admirada pelos homens que a olharam muito. Apreciava os olhares dos outros sempre quando saía da casa. Na rua acontecia um jogo sensual, cheio de galanteria e boa educação. Uma das maiores preocupações dos meios burgueses era a sedução.
E à tardinha, pelo braço dele ainda quebrada da jornada, com um vestido fresco, ir ver a cidade. Pelas ruas estreitas e tristes admiravam-na muito. Os homens vinham ás portas das lojas. Quem seria? É de Lisboa. É a do engenheiro. – E diante do toucador, apertando o corpete do vestido, sorria àquelas imaginações, e ao seu rosto, no espelho. 120
Haviam alguns factores que nos meios urbanos do século XIX em Portugal atribuíram para uma intensa vida social e pública. O primeiro, e o mais importante de todos, era o Passeio Público, que em Lisboa tinha lugar na Avenida da Liberdade. Era um passeio exibicionista, onde se encontravam os burgueses para passearem, comunicarem, exibirem-se, mostravam-se boas maneiras e namorava-se. O Passeio Público permitiu o encontro dos burgueses ao ar livre. Em todos estes acontecimentos mencionados era muito importante o conhecimento de regras do funcionamento da sociedade burguesa.
Boa aparência no Passeio Público era também fundamental. As classes mais altas optavam por se exibir nos coches ou carruagens descobertas. Depois do Passeio era habitual ir às reuniões ou chamadas saraus, caso eram acompanhadas pelo baile. As classes mais baixas também costumavam continuar a sua diversão, mas era nos bailes populares. As camadas populares podiam frequentar muitos bailes em Lisboa.”Existia o Baile Nacional na rua de S. Vicente da Guia. Normalmente começavam os bailes às 21 horas e terminavam às duas de manhã.” 121
A música ou canto consideravam-se indispensáveis para boa educação feminina. Além do canto, os atributos associados à essência femininas eram também dança ou habilidade de tocar um instrumento. Reuniões de grupos de amigos que conviviam nas suas residências eram frequentes, existiam também os clubes com os seus gabinetes de leitura, salas de jogo e salões para bailes e concertos. O teatro e a ópera eram espectáculos bastante apreciados por esta classe. Os jardins junto com os passeios públicos eram lugares perfeitos para a exibição de fatos, vestidos e das maneiras. As ruas são portanto dominadas pelas mulheres. A rua é o sítio onde ela pode mostrar ao público as suas melhores roupas, maneiras e a vontade de namoriscar e coquetar. Segundo Carlos Malheiro Dias”para a lisboeta se calçaram melhor as ruas, se alargaram os passeios, se plantaram as arvores” 122.
Até ao século XIX a vida familiar predominava e o único refúgio das senhoras eram os livros. Se as raparigas chegavam a janela, eram logo chamadas”janelheiras ou doidas” 123. As únicas pessoas que visitavam a casa podiam ser só de grande intimidade como parentes próximos, vizinhos respeitáveis ou médico.
No livro como na realidade os encontros de amigos eram comuns. A casa além das suas outras funções servia também para receber as visitas. Na casa de Jorge as visitas não eram raras: aos domingos costumavam fazer pequenas reuniões com os amigos e durante a semana recebiam visitas como a de Sebastião, Dona Felicidade ou amiga de Luísa, a Leopoldina. Casa era um sítio acolhedor para passar o tempo livre com as pessoas íntimas, discutindo os problemas do tempo, tocando piano, cantando ou recitando.
Aos domingos à noite havia em casa de Jorge uma pequena reunião, uma „cavaqueira“, na sala em redor do velho candeeiro de porcelana cor-de-rosa. Vinham apenas os íntimos. „ O engenheiro“, como se dizia na rua, vivia muito ao seu encanto, sem visitas. Tomava-se chá, palrava-se. Era um pouco „à estudante“. Luísa fazia crochet, Jorge cachimbava. 124
No século XIX já era mais habitual as senhoras saírem das suas casas. Muitas vezes eram acompanhadas, as aristocratas por escudeiros, as burguesas pelas criadas ou parentas. O Passeio Público era o único lugar de Lisboa onde se encontravam várias classes sociais. Francisco Cancio escreveu o livro Lisboa no Tempo do Passeio Público que nos mostra os hábitos dos lisboetas do século XIX e onde se em relação ao Passeio Público escreve: “Ali se reuniam as mamas e as meninas. Ali se discutiam as modas e os namoros; o preço da manteiga inglesa e os últimos modelos de Cecília Fernandes…”125
Desde o início do século XIX, as pessoas tinham oportunidade de conviver nos banhos. “A partir de 1828”126, em frente do Cais do Sodré existiam as famosas barcas de banho. Até os médicos aconselhavam os banhos na água do mar, porque tinha efeito saudável.. „Banhos de mar deviam ser rápidos, com três mergulhos. Depois de sair da água, as senhoras passavam a tarde a enxugar as pesadas cabeleiras encharcadas na água do rio, conservando-as estendidas pelas costas, sobre as toalhas, fazendo luxo e vaidade do comprimento e abundância dos cabelos, que iam até à cintura, às curvas dos joelhos, ou, no caso de maior opulência, até aos pés.“ 127 Acima de tudo, os banhos serviam de participação pública intensa e constituíam um lugar de namoro lisboeta. A barca “Deusa dos Mares era o ponto de reunião da elegância”128.
Na obra não se mencionam estes banhos. É possível que o autor optou por não falar desta diversão do tempo livre para manter a dignidade e privacidade das suas personagens. Também é raro no livro aparecerem referências da nudez ou de qualquer outro tipo de descrição que pudesse confrontar a personalidade das personagens.
No Passeio Público, nos jardins, nos teatros ou nos banhos a mulher burguesa tinha papel de actriz. Expressão era acompanhada de vestuário luxuoso.
Uma das coisas importantes no romance querosiano são os gestos que as personagens fazem, feitos com as mãos, com a boca, pernas ou olhos. Estes gestos têm algum significado e são capaz de transmitir alguma informação às pessoas a quem são destinados. Com os gestos as pessoas conseguiam transmitir o desejo, medo, aceitação, renúncia ou aborrecimento. Ao longo do livro encontram-se vários exemplos dos gestos, dos quais o mais conhecido é o cofiar do bigode de Basílio.
Basílio torcia a ponte do bigode devagar; e vendo –a descalçar as luvas129

Falava delas, devagar, traçando a perna130

…e cofiava indolentemente o bigode, arrebitando um pouco o dedo mínimo131

Basílio cofiava o bigode, olhando vagamente em redor.132

Basílio pos-se de pé, e cruzando os braços.133

E todo vermelho, de surpresa, de indignação, ficou a balançar a perna...134

Luísa baixou os olhos135
Em 1901 foi publicado um livro chamado O Ramalhete Amoroso que contém umas dicas para as senhoras e homens para saberem como se comportar perto da pessoa do outro sexo, como seduzir e amar. Este livro contém também a lista dos gestos e instrumentos corporais que é organizada pelas partes do corpo (cabelo, barba, olhos, orelhas, mãos...) e serviu no século XIX para as pessoas melhor perceberem os sinais que outra pessoa pode enviar. Os seguintes gestos estao presentes no livro O primo Basílio, na maioria dos casos interpretados pela Luísa e Basílio.

Instrumentos corporais (movimentos de corpo, gestos, posturas) e os seus significados segundo Ramalhete Amoroso: 136

O CABELO


Agitar o cabelo - Se não fosses de outra….espere um pouco mais.

Pentear o cabelo - Ama-me que eu há muito que te amo.
A BARBA

Afagar a barba - Eu queria fazer a senhora o que faço à barba.

Afagar a barba, as suíças ou a pêra -Venha ao portal.
OS OLHOS

Baixar os olhos - Sou nova, não gosto; desejo.

Abrir os olhos - Temor; ciúme; logo!

Fazer uma piscadela de olho - Se quiser estou pronto/a.

Lançar um olhar furtivo -Receio.
A BOCA

Abrir a boca - Aborrecimento; desdém.

Unir os beiços - Vou-me embora.
A CABEÇA

Baixar a cabeça - Sim.
OS OMBROS

Encolher os ombros - Negar-se
AS MÃOS E OS BRAÇOS

Apertar a mão com força - Até logo.

Abrir as mãos - Dez; largou; espanto.

Esfregar as mãos - Estou-lhe muito grato/a.

Cruzar os braços - Vem gente, cautela.
AS PERNAS

Abaixar-se - Vá-se embora; compromete-me.

Sentar e erguer-se - Tenho carta para e dar.

Abrir as pernas - Negação; escárnio.

Cruzar as pernas - Trabalho perdido.

APARÊNCIA
A moda surgia como um factor de diferenciação individual, fazia sobressair a personagem do seu portador e desvelava a classe a que esse pertencia.
Penteados faziam parte do dia-a-dia de cada burguesa. No século XIX predominavam os penteados “altos, bem trabalhados, com uns canudos caídos para as costas. Outro penteado era Dubarry, caracterizado pelos cabelos levantados, só com um laço feito de cabelos postiços”137. Namorados costumavam pedir às namoradas caracóis dos seus cabelos. Os chapéus fizeram também a parte de guarda-roupa. Eram enormes e muito chiques. Nos meados do século XIX, não eram só as senhoras que optaram pelo chapéu. Os chapéus dos senhores estavam na moda, entre os mais populares pertenceu “o chapéu de copa e o chapéu de melão”138. A forma de chapéu estava relacionada com a fortuna da pessoa que o tinham na cabeça. Os das classes mais altas usavam muitas vezes o chapéu de copa, os de menos importância e os jovens optaram por chapéu de melão. As camadas mais baixas usaram o “feltro flexível ou uma boina”139. Em casa usavam se chapéus mais confortáveis como barretes ou carapuças, mas quando se saía à rua voltava-se ao chapéu clássico. A manipulação com o chapéu funcionava como uma linguagem, podiam-se exprimir os sentimentos ou mostrar o seu estado interno.
O objectivo de corpetes e espartilhos era relançar o ventre e a cintura. Como consequência destes complementos as damas andavam com um ar pálido e cansado e muitas vezes os corpetes eram tão apertados que causavam a tuberculose. “Algumas faziam, inclusivamente, dietas para poderem entrar no corpete. A mulher burguesa do século XIX tinha portanto um ar pálido, macilento, nada saudável.”140
O pé era uma das partes do corpo que costumava estar exposta e ao mesmo tempo exercia uma fascinação do homem. A Juliana do Primo Basílio apesar de ser velha e esquelética, tinha orgulho no seu pé. Era única parte do seu corpo que realmente ela gostou e que expunha ao público.
Apertava-o, aperreava-o; trazia os vestidos curtos, lançava-o muito para fora. A sua alegria era ir aos domingos para o Passeio Público, e ali, com a orla do vestido erguida, a cara sob o guarda-solinho de seda, estar a tarde inteira na poeira, no calor, imóvel, feliz - a mostrar, a expor o pé! 141
As meias cumpriram duas funções, a prática e a sensual. Eram práticas pois tapavam as imperfeições das pernas como nódoas, verrugas, sujidade mas por outro lado eram bem elegantes. Entre outros acessórios pertencia leque ou peralta. O branco dos vestidos, roupas interiores ou dos dentes começam adquirir um valor moral, social e cultural. Portanto a brancura das roupas e sob domínio das classes mais altas.
A Luísa estava sempre preocupada com o seu vestuário, ainda mais quando se começou a encontrar com o Basílio. Tinha medo que ao lado do seu primo que estava habituado para se encontrar com as francesas e italianas cheias de chique e glamour, não vai estar ao seu nível. No livro há referências de vários tipos de vestidos que a Luísa usava e que costumava deixar fazer na modista, meias e acessórios como luvas, écharpes ou chapéus. O autor não mencionou os penteados que se usavam e na realidade eram bem populares. No livro não se fez nenhuma referência aos tipos de penteados, nem se sabe como a Luísa costumava usar o cabelo. A moda era muito importante na capital portuguesa, pode-se dizer que muito mais que em qualquer outra parte de Portugal. Eça reconhecia este relevante facto na vida da sociedade portuguesa, por isso fez sobressair o estilo da sua personagem principal. A opinião de Basílio sobre o estilo das portuguesas era evidente, em cada passo criticava tudo o que era português. As roupas preferia as francesas tal como as maneiras.
De resto, pelo que tinha visto, as mulheres em Lisboa cada dia se vestiam pior! Era atroz! Não dizia por ela; até aquele vestido tinha chique, era simples, era honesto. Mas em geral, era um horror! 142
Os homens como as mulheres com as suas aparências definiam uma ordem social na rua. O vestuário masculino era composto por “sobrecasaca, colete, camisa, gravata ou as luvas”143. Nas camadas mais altas, o uso das luvas era obrigatório, independentemente do calor ou do frio. Aos homens burgueses nunca faltava o charuto e bengala. No livro nem todos os homens se vestiam bem e com estilo. Por exemplo o Julião Zuzarte, quando um dia chegou a casa da Luísa, era bem criticado da parte do Basílio pelo seu modo de vestir e pela sua aparência. Até a Luísa estava cheia de vergonha por ter amigos sem estilo, com roupa velha e caspa nos ombros.
- Quem é este pulha? Luísa corou muito, balbuciou: - É um rapaz médico…- É uma criatura impossível, é uma espécie de estudante! - Coitado, não tem muitos meios. Mas não era necessário ter meios para escovar o casaco e limpar a caspa! Não devia receber semelhante homem. 144
Uma calva dos homens proporcionava gosto perverso de certas mulheres como o de D. Felicidade.
Quando se punha a olhar para a calva do Conselheiro, larga, redonda, polida, brilhante as luzes, uma transpiração ansiosa humedecia-lhe as costas, os olhos dardejavam-lhe, tinha uma vontade absurda, ávida, de lhe deitar as mãos, palpá-la, sentir-lhe as formas, amassá-la, penetrar-se dela! 145
Os jornais transmitiam as últimas ideias de moda, influenciavam o estilo dos portugueses, porque esses escutavam as últimas tendências que eram divulgadas nos jornais e revistas. A imprensa feminina no século XIX, precisamente no terceiro quartel, portanto na época em que se a história de O Primo Basílio desenrola, tornou-se bastante popular. Através da imprensa feminina a moda e a beleza passam a ser dois grandes temas do quotidiano das mulheres portuguesas. Portanto a imprensa gira a dois grandes temas, por um lado a casa e o bem-estar, por outro lado amor e sedução, que acompanhavam cada passo as senhoras. Como consequência, em Portugal aparece unilateralismo em moda, porque todos copiam as ideias das revistas e ninguém tenta ser original, porque realmente aquilo que ditava a imprensa era na moda.
A preocupação de aparecer bem ao público, “traz ao mercado uma série de novos produtos como cremes para dissimular as rugas, pastas ou maquilhagem e técnicas como depilação”146. Nem sempre eram estas novidades bem aceites da parte masculina, como é o exemplo de Ramalho Ortigão que se manifesta contra esta tendência: “Não sabemos realmente o que fizeste, ó mulher de Lisboa, abandonando o bigodinho lendário, cunho e brasão do teu rosto. Vossos pais não vos conheceriam assim - sem ele! Pareceis padres! Oh! É impossível! Não queremos ainda acabar de crer que deitásseis fora os buços.” 147
Aproximando-se ao século XX o corpo feminino vai perder pouco a pouco parte da sua arte de representação. A classe burguesa afirma-se como uma classe distinta no seu estilo de vida, na pose ou na respeitabilidade. A mulher burguesa nos finais do século XIX concebe a nova maneira de se ver, de se representar e apresentar.
Eça de Queiroz no livro O Primo Basílio não fala desta nova tendência de as mulheres cuidarem de si, de lerem revistas femininas ou de fazerem depilação. A Luísa costumava usar só pó de arroz e um leve perfume.


SEDUÇÃO
Durante o século XIX em Portugal não era aconselhável que a mulher tomasse alguma iniciativa na relação da sedução. É o homem que desempenha o maior papel na relação, é ele que mostra os seus sentimentos é ele que começa a relação. Este facto, obviamente contribuiu para aumento das solteiras. As relações entre os namorados regiam-se por um código de etiqueta.
O desejo de amor parece ter também o carácter cínico e narcisista, pois os homens muitas vezes preferiam ter várias mulheres para serem vistos na sociedade como os homens „verdadeiros“, „os machos“. Archibald Moore está de acordo com esta afirmação e acrescenta: “Devemos ter muitas mulheres. A quantidade é, acima de tudo o mais importante. Quando tivermos muitas mulheres conseguiremos talvez ter uma.(…) É necessário ter muitas mulheres para que se diga de nós: “Tem muitas mulheres“, ou coisas como estas: „é um femeeiro; é como a borboleta; nunca se vê com a mesma mulher; é hoje uma amanha outra; que especialidade será a dele para conhecer tantas fêmeas.” 148
Nos meios burgueses do século XIX a conquista era normalmente feita num espaço público como igreja, passeio ou teatro. A rapariga ou a senhora não podia ir a algum lado sem ser perseguida por um homem, que normalmente a seguia até à sua casa. A mesma coisa acontecia nos teatros, onde a mulher, logo depois de entrar “lhes fizeram psss! - a atenção, e trinta mil consursações.”149 A conquista podia ser feita também a janela, pois em Lisboa oitocentista, tudo se passava à janela.
Como podíamos ver uma boa aparência representava um meio de diferenciação e distinção social. O vestuário, além das suas outras funções, atribuía para a valorização do status social. A imagem da mulher burguesa era imagem da mulher inútil e fútil, mas ao mesmo tempo valiosa, que sabia cuidar de si e tinha boas maneiras. Vestidos serviam também para apontar para ociosidade da sua portadora. O bom exemplo é um corsé cujo uso impossibilitava qualquer trabalho a mulher, por isso se logo notou que a mulher tem „tempo“ para ociosidade, portanto tem que ser duma camada mais alta. Pelo contrário às classes mais baixas, não dava jeito nenhum usar corsés e vestidos enormes, pois precisavam de trabalhar e movimentar bem o seu corpo. O vestido limpo e elegante era mais um sinal de ociosidade.
SNOBISMO
O século XIX, foi sem dúvida, uma época, cheia de manifestações de snobismo na literatura. Nesse tempo, verifica-se uma completa renovação de valores, que é causada pelas condições socioeconómicas, pelas tendências artísticas e científicas. Século XIX caracterizado, além de outros, pela revolução de princípios, de ideias, de formas, de costumes, era um ambiente perfeito para desequilíbrio entre realidade e noção, que dessa mesma realidade se podia adquirir.
A definição de snobismo, pode ser explicada como, todo o indivíduo que quer aparentar que na realidade não é. É uma das principais características da baixa burguesia lisboeta, de que Eça de Queiroz tanto falou e que tanto criticou.
O Primo Basílio é a primeira obra de Eça em que realiza o aproveitamento de snobismo como matéria literária. Pode dizer-se que a obra inaugura uma galeria de snobs, com Conselheiro Acácio em frente, seguido pelo Basílio, Luísa etc. Basílio mostra a sua atitude snob no comportamento com Luísa. Literalmente se aproveita dela, para atingir o seu fim de conquista, faz-se valer nos olhos da "burguesinha da baixa" que está farta do ambiente morno lisboeta. Mas da Luísa, com as atitudes demasiado ingénuas, ressalta um snobismo barato. Basílio pretende ser um homem elegante, civilizado, requintado, sempre com a mania do “chic”, mas sente a falta de tacto e não se sabe comportar como verdadeiro enriquecido. O seu snobismo demonstra-se nos seguintes fragmentos. Basílio, sempre quando pude falava das suas relações:
Falava delas, devagar, traçando a perna: o seu amigo o patriarca de Jerusalém, a sua velha amiga a princesa de La Four d´Auvergne. 150
Mais uma demonstração do snobismo de Basílio nota-se nas histórias e aventuras das suas viagens às terras estrangeiras e exóticas, que ele costumava narrar depois de voltar a Lisboa.
Se tinha ocorrido perigos. Decerto. Uma tempestade d´areia no decerto de Petra! Horrível! Mas que linda viagem, as caravanas, os acampamentos! Descreveu a sua toilette: -uma manta de pelle de camelo as listas vermelhas e pretas, um punhal de Damasco n´uma cinta de Bagdad, e a lança comprida dos Beduínos. 151
Um ano divino. Tinha um apartamento lindíssimo, que pertencera a Lorde Falmouth, Rue Sant-Florentin, tinha três cavalos... 152
O seu carácter snob verifica-se também no seu papel de carta que era encimado por um monograma que deixava grande impressão nas pessoas que a recebiam.
Os dois B.B. um púrpura, outro ouro, sob uma coroa de conde, porque sempre fazia mais efeito. 153
Outra personagem que é caracterizada pelo snobismo e Conselheiro Acácio, que demonstra grande diferença entre parecer e ser. Através do snobismo o Conselheiro pretende fingir que é outra pessoa, uma pessoa melhor, cheia de boas maneiras e qualidades. O snobismo desta personagem, reconhece-se bem através dos seus gestos estudados ou através das suas frases não triviais. Acácio embora absolvido pelas suas altas ideias emprega sempre que pode, os truques vulgares do mais vulgar snob. No jantar onde festeja a sua nomeação ao grau de cavaleiro de ordem de S.Tiago, Acácio apenas numa frase demonstra o seu snobismo:
Não esperem o festim de Lucullo: é apenas o modesto passadio de humilde philósopho. 154
Além de Conselheiro Acácio e Basílio, o snobismo continua presente na obra eciana, sobretudo em certas atitudes, gestos, tiques etc. Quando se não consegue o desejado, dirige-se ao snobismo que ajuda salvar as aparências, ocultar um fracasso, remediar um propósito falhado.




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