Masarykova Univerzita



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, sem perversidade, sem vida miserável. Tem um papel de ”títere”76 no meio da sociedade, por isso é facilmente influenciada, simplesmente segue os padrões que a sociedade lhe atribuiu. Luísa não atingiu o seu fim de mulher, porque nunca se apaixonou verdadeiramente: com o Jorge foi o amor racional e pode-se dizer, que com o Basílio foi só uma paixão, que rapidamente se extinguiu. A protagonista é dominada pelas sensações que lhe neutralizam a vontade e evitam o despertar dos mais elementares sentimentos.
A Luísa não se casa com Jorge por amor, realmente nem gosta do seu visual, mas ele consegue garantir-lhe a segurança e descanso, que sente ao pé dele, e assegura-lhe uma vida sem complicações financeiras. Outro aspecto, que se pode notar, é a vontade de Luísa conformar-se com a vida sem objectivo, vida passivamente vivida ao lado do homem que trata dela, para que ela não tenha mais obrigações e possa passar os dias descansada entre as quatro paredes da sua casa. Mais um facto sobre a prima do Basílio que sobressai deste fragmento, é que o casamento é visto como o meio para agradar pais e para sair da casa.
„Não gostava dos homens barbados: depois percebeu que era a primeira barba, fina, rente muito macia decerto, começou a admirar os seus olhos, a sua frescura. E sem o amar, sentia ao pé dele como uma fraqueza, uma dependência e uma quebreira, uma vontade de adormecer encostada ao seu ombro, e de ficar assim muitos anos, confortável, sem receio de nada. Que sensação quando ele lhe disse: vamos casar, viu de repente o rosto barbado com uns olhos muito luzidios, sobre o mesmo travesseiro, ao pé do seu! Fez-se escarlate, Jorge tinha-lhe tomado a mão: ela sentira o calor daquela palma penetrá-la, tomar posse dela: dissera que sim, ficou como idiota e sentia debaixo do vestido dilatarem-se docemente os seus seios. Estava noiva enfim! Que alegria, que descanso para a mamã.“ 77
Mas a Luísa de certa forma admira as opiniões do seu marido, embora estas contrariem os seus desejos e opiniões, facto que se releva como nota realista sobre a situação socio-psicológica da mulher da época. Luísa e Jorge são duas figuras polares, mas é certo que o marido exerce sobre a mulher o controlo autoritário. A vida da Luísa, depois de casamento, não sofre muitas mudanças. Aprende de viver feliz com o Jorge num relacionamento sexualmente satisfatório. O resto, de que protagonista sente falta, é compensado pela leituras ultra-românticas que ocupam as horas de ausência do marido. Luísa pode-se sentir constrangida no seu casamento, mas no fundo do coração sabe, que vive uma vida feliz, ao lado do marido que a ama. Pode-se dizer, que é emocionalmente, eroticamente e até romanticamente compensada.
Luísa, depois de se ter envolvido com o Basílio, começou a reparar na sua triste vida. Deu-lhe vontade de desejar alguma mudança para que se a sua vida tornasse mais rica, literalmente vivida. Arrependeu-se também do seu casamento apressado, ficou cheia de novas sensações, e descobriu que a vida tem mais para lhe dar. A paixão pelo Basílio influenciava-a bastante: pensando sobre o assunto em casa, criava a sua própria história, de que se ela tornava heroína. Tudo, o que antes só imaginava, de repente pareceu realizável.
„o que havia de infeliz de abandonar a sua vida estreita entre quatro paredes, passava examinar róis de cozinha e fazer crochet, e partir com um homem novo e amado, ir para Paris! Para Paris! Viver nas consolações do luxo em alcovas de seda, com um camarote na Ópera! …Era bem tola em se afligir! Quase fora uma felicidade aquele „ desastre“. Sem ele nunca teria dito a coragem de se desembarcar da sua vida burguesa.“ 78
A Luísa é uma mulher elegante e bonita que atrai o olhar dos homens. O início de romance dedica-se a descrição de protagonista, falando também da sua roupa, dos seus hábitos, que faziam parte do seu dia-a-dia.
“Ficara sentada a mesa a ler o Diário de Noticias. Roupão de manha de fazenda preta, bordado a soutache, com largos botões de madrepérola; o cabelo louro um pouco desmanchado, com um tom seco do calor do travesseiro, enrolava-se, torcido no alto da cabeça pequenina de perfil bonita; a sua pele tinha a brancura tenra e láctea das louras: com o cotovelo encostado a mesa acariciava a orelha, e, no movimento lento e suave dos seus dedos, dois anéis de rubis miudinhos davam cintilações escarlates.” 79

Resumindo, podemos constatar que a Luísa está representada no romance como uma burguesa casada, sentimentalista, mal-educada e sem valores morais. Esta personagem representa uma parte da sociedade feminina da época que é incapaz de acções e reflexões. As suas ligações familiares e de amizade vêm da baixa aristocracia à baixa burguesia, e as suas únicas distracções eram a leitura, a música, o teatro ou a ópera. Mulheres como a Luísa recorreram muitas vezes à ociosidade, pois o seu dia não era bastante preenchido, aliás, em muitos casos destes, as mulheres, principalmente das camadas da sociedade mais elevadas, não tinham nada para fazer durante o seu dia. A preguíça e ociosidade é uma das principais características da protagonista do livro O Primo Basílio, que está muitas vezes exemplificada no livro.


“Luísa espreguiçou-se. Que seca ter de se ir vestir! Desejaria de estar numa banheira de mármore cor-de-rosa, em água tépida, perfumada, e adormecer! Ou numa rede de seda, com as janelas cerradas, embalar-se, ouvindo música! Sacudiu a chinelinha; esteve a olhar muito amorosamente o seu pé pequeno, branco como leite, com veias azuis, pensando numa infinidade de coisinhas: em meias de seda que queria comprar, no farnel que faria a Jorge para a jornada, em três guardanapos que lavadeira perdera..Tornou a espreguiçar-se.” 80

As mulheres como a Luísa viviam o seu temperamento romântico. Todo o mundo delas foram as leituras com as histórias „doces“, que as ajudaram fugir da realidade e permitiram sonhar. O livro ajudava Luísa a passar o tempo mais rapidamente e, muitas vezes, era o único companheiro dela durante o dia. Lendo os romances, costumava fugir da realidade, imaginando-se como a heroína destes livros. Eça de Queiroz considera este facto como resultado da má educação, cheia de sentimentalidades. Graças os livros que a Luísa costumava ler, eram as fugas da realidade inúmeras. Desta forma escapava da sua sala até aos castelos escoceses e aos outros lugares românticos. Quando era mais nova adorava ler os romances de Walter Scott, sonhando com todos os lugares que imaginava durante as leituras.


Lia muitos romances; tinha uma assinatura, na Baixa, ao mes. Em solteira, aos 18 anos, entusiasmara-se por Walter Scott e pela Escócia; desejara então viver num daqueles castelos escoceses, que tem sobre as ogivas os brasões do clã, mobilados com arcas góticas e troféus de armas….. 81
Mais tarde, como casada, passava horas a ler Dama das Camélias de Alexandre Dumas Filho ou livros de Paul Féval. No romance não faltam também as citações musicais de Verdi (La Traviatta), Donizetti (Lucia di Lamermoor), Bellini (Norma e La Sonâmbula), Rossini (Il Barbieri di Siviglia), Meyerbeer (L’Africaine), Gounod (Medjé, Romeu e Julieta e Fausto), Mozart (Missa di Réquiem e Don Giovanni), incluindo ainda a peça para piano “Oração a uma virgem”, um “Noturno” de Chopin, a valsa “O Danúbio azul” de Johann Strauss e a canção “Malagueña”.

A Luísa é perseguida pela vizinhança, a cada passo, que está pronta para julgar o seu comportamento que poderia descarrilar das normas dadas pela sociedade. Só que a Luísa, pela sua ingenuidade, não se apercebe da gravidade da situação, não repara que todos já sabem sobre as visitas frequentes do seu primo.


“Sim, homem! Vêem entrar para lá o rapaz, Vem de tipóia, faz um escândalo na rua. Já se fala. Já vieram com mexericos a tia Joana. Há dias encontrei o neto que reparou. O Cunha também. O homem dos trastes, em baixo, não se faz nada que ele não dê fé: são umas línguas de tremer. Há dias ia eu a passar quando o primo se apeou da carruagem para entrar, e foram logo conciliábulos na rua, olhadelas para a janela, o diabo! Vai lá todos os dias. Sabem que o Jorge está no Alentejo....Está duas ou três horas. É muito sério, é muito sério. Mas ela então é tola. Não vê o mal...” 82

O ambiente do colégio, que foi tão criticado por Eça, foi, se calhar por causa de vocação ao ultra-romantismo, cheio de sentimentalismo e interesse por questões amorosas. Ao longo da história Luísa revela as suas experiências e acontecimentos por que passou no colégio e depois dele, e desta forma, o leitor consegue imaginar a vida duma jovem estudante há dois séculos atrás. Luísa, junto com a sua amiga Leopoldina, fala sobre as suas lembranças românticas do colégio que se tornam de certa forma sentimentais e não faltam menções homossexuais.


“Lembras-te quando estivemos de mal? Luísa não se lembrava. Por tu teres dado um beijo na Teresa, que era o meu sentimento -disse Leopoldina.” 83

Segundo Machado de Assis a Luísa é uma personagem manipulável, essencialmente romântica e da mente fraca. Como um produto da defeituosa educação, não ouve a voz da sua consciência. O mesmo escritor afirma que a Luísa é praticamente uma marionete nas mãos de qualquer personagem da história. Mas o objectivo de Eça não foi tornar a Luísa numa heroína, apenas usou-a para mostrar os problemas típicos da mulher portuguesa.


„…A Luísa – forca é dizê-lo, -a Luísa é um carácter negativo e no meio de acção ideada pelo autor, é antes um títere de que uma pessoa moral. Repito, é um títere: não quero dizer que não tenha nervos e músculos: não tem mesmo outra coisa; não lhe pecam paixões nem remorsos; menos ainda consciência. Tal é o intróito de uma queda que nenhuma razão moral explica, nenhuma paixão, sublime ou subalterna, nenhum amor, nenhum despeito, nenhuma perversão sequer. Luísa resvala no lodo, sem vontade, sem repulsa, sem consciência…“ 84
Jorge faz num dos seus comentário que sublinha uma das atitudes de Luísa e mostra a manipulação a que ela é capaz de se submeter. Na história tem papel de um títere, como já foi mencionado.
„É necessário alguém que a advirta, que lhe diga: „Alto lá, isso não pode ser!“ Que então cai logo em si, e é a primeira! ………Não tem coragem para nada : começam as mãos a tremer-lhe, a secar se lhe a boca….É mulher, e muito mulher!“ 85

A personagem de Luísa corresponde a uma ideia que Eça tinha da mulher portuguesa. Segundo Moniz Barreto, o que distingue a mulher portuguesa, é o que se nota em protagonista, porque é „uma infeliz criatura que se perdeu por não saber ver os factos, nem reagir contra eles devido a mediocridade da inteligência e fraqueza da vontade.” 86 Como se já podia ver antes, a Luísa era para Eça de Queiroz um símbolo de uma má tendência, do adultério e de produto de errada educação materialista que a tornava demasiado sensual.



ADULTÉRIO
Eça de Queiroz sempre se movimentou no ambiente que está apresentado no livro O Primo Basílio e desta forma reparou que o tema de adultério não era raro no meio burguês. O adultério, representado pela personagem principal – a Luísa, era mais um motivo para a crítica à sociedade de Eça de Queiroz. Luísa é a personagem mais desenvolvida por Eça e também representa melhor o tema do adultério. Luísa, devido ao seu adultério, é portadora de culpa e foi por isso castigada. Pode constatar-se que sofreu mais de todas as personagens femininas ecianas, tanto psíquica como fisicamente. O adultério estendia-se dentro da baixa burguesia do século XIX.
Quando Jorge foi trabalhar para o Alentejo, um dia apareceu seu primo Basílio e ela recordou o seu namoro com ele. O primo lhe contava tudo sobre as suas viagens, sobre os outros países e sobre o mundo que a Luísa nunca viu, mas com que sempre sonhou. Queria viajar e assim conhecer os outros países e culturas. Basílio, com as suas histórias picantes, trouxe à monótona vida de Luísa algo novo e excitante. Foi se deixando influenciar e, depois de algum tempo, envolveu-se com o seu primo. O que a atraía no seu primo era também toda a vida luxuosa que ele levava, os sítios que ele visitava e que eram sempre parte das imaginações dela e de repente pareceram a tornar-se realidade.
“Que requintes teve nessa manhã! Perfumou a água com o cheiro de Lubin, escolheu a camisinha que tinha melhores rendas. E suspirava por ser rica! Queria as bretanhas e holandas mais caras, as mobílias mais aparatosas, grossas jóias inglesas, um coupé fourado de cetim...Porque nos temperamentos sensíveis as alegrias do coração tendem a completar-se com as sensualidades do luxo....”87
Basílio conhecia a moda no estrangeiro e costumava falar sobre as coisas ”chiques”. Falava sobre o comportamento das outras senhoras - inglesas, francesas, etc., e a Luísa queria ser como todas elas, que tanto admirava. O Basílio chegou até falar sobre o adultério e viu-o como uma coisa completamente normal, parte indispensável da vida. De certa forma até melhorava a posição na sociedade duma burguesa.

“Era uma mulher distintíssima, tinha naturalmente o seu amante....O adultério aparecia assim um dever aristocrático.” 88


Amava o Jorge, mas ele estava longe e a Luísa, sentia o mesmo, como se estivesse morto e nunca mais pudesse aparecer. Frequentemente começou a visitar o “Paraíso”, pequeno apartamento alugado por Basílio para os encontros deles, onde ela ia, no início, com grande curiosidade. Sentiu-se como as heroínas dos romances que costumava ler, era algo excitante e novo que dava à sua vida nova luz.
“...o apartamento impressionava-a, atraía-a mais que Basílio.” 89

Mas aconteceu o que não estava previsto, porque a Juliana, a sua criada, apanhou uma carta da Luísa e assim descobriu o seu romance. Juliana começou a chantagear com a Luísa, que, para não criar um escândalo, fez tudo o que a Juliana quis; fazia as limpezas da casa e sente-se obrigada a oferecer continuamente prendas à criada, enquanto esta dorme, descansa ou passeia. A relação entre os criados e as senhoras nem sempre era boa, e qualquer coisa má, descoberta da parte do criado, podia arruinar a vida da senhora. Essa, não queria perder a sua posição na sociedade e por isso, faria tudo o possível para acalmar a criada e assim não divulgar a notícia.


Quando Jorge voltou, reparou que a sua mulher costumava estar nervosa, ao contrário do habitual, e mais tarde, descobre também que a Luísa o tinha traído. A Luísa que, abandonada pelo Basílio, continua a amar o seu marido, cai doente, mas conta tudo a um amigo da família, que a ajuda. Luísa adoece e Jorge, para não piorar ainda mais o estado dela, não lhe conta nada. Só que um dia não conseguiu prolongar mais o seu sofrimento e contou-lhe tudo, o que a deixou ainda mais fraca e doente.
Luísa sofre psiquicamente, porque tem medo de ser denunciada, como sofre fisicamente, por depender de Juliana, devido aos trabalhos que tem para fazer em casa e para os quais nunca estava habituada. Antes de morrer, foi purificada apenas no corpo, quando lhe rasparam o cabelo, mas na alma nunca foi purificada, por isso morreu sem os seus pecados serem remidos. Nunca tinha sido verdadeiramente feliz, porque ficou logo desiludida com o amante que a só aproveitava e para quem não passou duma aventura.
O adultério, segundo Eça, é provocado pela ociosidade e pela educação da mulher burguesa, que era habitual entre esta classe Segundo o Professor António Sérgio, o adultério de Luísa, foi uma queda de circunstâncias que se podem esquematizar de seguinte forma: E o Américo Guerreiro de Sousa salienta que“o adultério resulta de sentimentalidade, educação errada, excesso de leituras, lirismo, temperamento sobreexcitado pela ociosidade, luxúria frustrada no casamento, falta de exercício físico, falta de disciplina moral”.90
Luísa entregou-se a Basílio por paixão mas não só. Mais uma vez nota-se a preguiça da protagonista, o desejo de viver como as heroínas dos romances que todos os dias lia, e por isso explica a sua entrega ao Basílio de seguinte forma:
„O que a levara então para ele? … Nem ela sabia; não ter nada que fazer, a curiosidade romanesca e mórbida de ter um amante, mil vaidadezinhas inflamadas, um certo desejo físicos.“ 91

Como se já sabe, o adultério, era bastante criticado dentro da sociedade, e muito mal visto. Uma senhora bem considerada e distinta, submetendo-se ao adultério, arriscava-se a perder o seu lugar na sociedade e desta forma tornar-se inferior. A sociedade, que cercava a Luísa, estava sempre pronta a descobrir cada maldade. Mesmo no livro Primo Basílio, fazem-se referências às mulheres de alta sociedade e a sua relação com o adultério.


“Mas eu e que as conheço, as mulheres da alta sociedade! Conheço as nas pontas dos dedos. É uma cambada. Citou logo nomes, alguns ilustres; tinham amantes inumeráveis: ate os trintanários! Algumas fumavam, outras entortavam-se. E pior! E pior!” 92

Luísa tenta encontrar as desculpas pelo seu adultério. Tem medo da reacção do seu marido, da sociedade e da sua vida depois de ser descoberto o seu acto.


“Não fora culpa sua. Não abrira os braços a Basílio voluntariamente!.....Tinha sido uma fatalidade: fora o calor da hora, o crepúsculo, uma pontinha de vinho talvez..... Estava douda, decerto. E repetia consigo as atenuações tradicionais: não era primeira que enganara seu marido; e muitas era apenas por vício, ela fora por paixão...” 93
AS PERSONAGENS SECUNDÁRIAS
As figuras secundárias femininas, que teriam papel frutuoso na aproximação do leitor à sociedade lisboeta e na sua na descrição, não são muitas no livro O Primo Basílio. Tentarei focar só essas personagens secundárias, que têm valor significante para este trabalho. Cada destas personagens caracteriza um tipo social específico e por isso, ajudar-nos-á conhecer de melhor forma o ambiente completo da sociedade lisboeta. As figuras secundárias incluem as personagens desde as classes mais baixas, como são por exemplo as criadas, até às personagens da classe burguesa, que são amigas da personagem principal. O estudo de todas as personagens femininas, desvela ao leitor a opinião e olhar sobre uma parte da sociedade lisboeta de Eça de Queiroz.
As personagens secundárias foram escolhidas e criadas por Eça para representarem de melhor forma a sua classe correspondente. Por isso cada uma delas é o exemplo típico de comportamento e da vida das pessoas das diferentes classes sociais, que viveram na Lisboa oitocentista.
As personagens femininas que são presentes na obra todas desejam a vida erótica, é esta coisa que têm em comum. Cada delas duma forma diferente, mas todas tentam exprimir os seus sentimentos e desejos sexuais. Palavras como torturas do desejo94, temperamento a lateja95r, paixão animal96 ou sensações97 não faltam para apimentar a história do livro. A componente sexual era importante para a sociedade lisboeta do século XIX. Como o resultado da grande tabuização deste tema, as pessoas tentam não mostrar a sua face verdadeira e querem aparecer com comportamento diferente daquele que têm, porque o verdadeiro comportamento podia, se calhar, chocar o resto da sociedade.
A descrição das personagens secundárias começa com as criadas, Juliana e Joana, e continua com as amigas da Luísa, Leopoldina e Dona Felicidade. Acho que não seja necessário mencionar todas as personagens que aparecem no livro, bastando destacar só aquelas cujos comportamentos e características são essenciais para o estudo da sociedade lisboeta.

AS CRIADAS
Há muitas criadas que são representadas na obra Primo Basílio para pintar de melhor forma a sociedade lisboeta. As fiéis, como a Joana, infiéis, como a Juliana, novas e velhas, figuras maternais, como a criada de Sebastião. As que vivem felizmente, porque se conformaram com o seu estatuto de criada, e as revoltadas, cheias de ódio, como é o exemplo da Juliana. Quem é que se destaca mais destas figuras secundárias, é naturalmente a criada da Luísa, a Juliana, que como a opositora da protagonista, vem de diferente estrato social. A forte personagem dela deixou a impressão em muitos leitores d´O Primo Basílio e assim o nome de Eça de Queiroz subiu de preço. A figura dela é segundo vários leitores revolucionária, porque traz a literatura um olhar novo, até esse tempo pouco explorado.
„ é um carácter dos de maior relevo de toda a literatura, de ficção do Mundo, capaz de por si só imortalizar o autor” 98
„Ter literalmente mostrado essa acção punitiva do fraco pela sociedade é uma das qualidades revolucionárias do texto eciano“ 99
Juliana era uma criada da Luísa e de Jorge. Sofreu de uma doença de coração, que se reflectia no seu estado físico, como no seu trabalho, porque a impedia de fazer certas coisas.
„Devia ter quarenta anos, era muitíssimo magra. As feições, miúdas, espremidas, tinham a amarelidão de tons baços de doença de coração. Os olhos grandes, encovados, rolavam numa inquietação, numa curiosidade, raiados de sangue, entre pálpebras sempre debruadas de vermelho.“ 100

O narrador menciona a história da vida da Juliana, que mostra a passagem da vida das pessoas de classe baixa, que em muitos casos era mesmo dura, como a da Juliana. Sublinha suas características principais que na maioria são negativas, como fealdade, falsa moral, doença, antipatia, despeito ou inveja. A criada, que teve desde o início uma vida difícil, filha de uma engomadeira pobre e de um assassino, teve que servir desde pequena. Odiava a sua profissão que a tornava má e descontente. Juliana sonha que um dia muda de papel na sociedade e vai ser como a sua patroa, cheia de glamour, com boa situação, marido que a ama e, claro, com o dinheiro. Sempre trabalhou como criada e estava farta da sua vida e de servir aos patrões. Esta inveja transforma-se num ódio severo, pois a ela é negado tudo, o que os outros têm e dispõe das características opostas das da patroa.


„Cada riso delas era uma ofensa a sua tristeza doentia; cada vestido novo afronta ao seu velho vestido de merino tingido. Detestava-as na alegria dos filhos e nas propriedades da casa. Rogava-lhes pragas.“ 101

Quer os patrões fossem educados com ela, quer não, o comportamento da Juliana não mudava. Ia-se tornando cada vez mais rabugenta e fechada.

„A necessidade de se constranger trouxe-lhe o hábito de odiar: odiou sobretudo as patroas, com um ódio irracional e pueril. Tivera-as ricas, com palacetes, e pobres, mulheres de empegados, velhas e raparigas, coléricas e pacientes- odiava-as todas, sem diferença. É patroa e basta! 102

Antes de se tornar criada na casa de Jorge e Luísa, Juliana trabalhou na casa duma tia de Jorge, que já era velha e a criada, com sonho de pelo menos uma parte da herança, submeteu-se a tudo. Pensou que dessa vez conseguiria ganhar dinheiro porque esperava que a velhinha lhe deixasse uma herança. Mas por outra vez se enganou porque não recebeu nada e continuou a sua vida ainda mais desiludida e doente. Assim chegou até casa de Jorge, que a reconheceu pela maneira como tinha tratado a tia. Odiava a Luísa porque ela tinha sempre tudo o que queria. A Juliana nunca conseguiu o que desejava, vendo nisso uma injustiça. Por isso se aproveitou da carta que encontrou, porque essa lhe dava a possibilidade de conseguir o que sempre desejara . Descobrir que Luísa era amante do primo Basílio foi o melhor que lhe podia ter acontecido, porque sabia que seria escandaloso se todos descobrissem. Deste jeito pretende fazer-lhe extorsão, e obter dela o dinheiro que não pôde tirar do Basílio.

Era muito invejosa, queria tudo o que tinham os patrões; queria ser servida, queria roupas caras, brincos, idas ao teatro, ser parte de burguesia lisboeta, por isso começou a ameaçar a sua patroa para conseguir tudo isso. A personagem de Juliana foi muito bem caracterizada psicologicamente por Eça: maltratada pela vida, doente e ressentida; anseia fortemente aproveitar a situação para obter o dinheiro preciso para poder viver o resto da sua vida sem servir senhores que odeia. Todas estas características fizeram da Juliana uma personagem de carácter forte, que é contra todos que lhe impedem o caminho à felicidade. Por Johan Jarnaes foi chamada um tirano repugnante, principalmente graças às suas características, que são tão bem descritas no livro.
„São o ódio e a vingança que tornam Juliana o um tirano repugnante“ 103

Juliana sente falta da consciência moral. Este facto nota-se em alguns actos dela, como na chantagem por exemplo. Na obra é a Juliana apresentada como a explorada e a revoltada. Eça de Queiroz, com estas descrições de criados, tentou apontar para a péssima situação deles, para desumanidade no tratamento, que é dada a eles, e para a discriminação social. As condições em que as criadas viviam são indirectamente criticadas pelo autor. Apesar disso, a Juliana não é concebida pelo leitor como uma personagem positiva, mas se calhar por causa das inúmeras referências a sua fealdade, não deixam a ninguém, estabelecer simpatias com ela.


„ Não que eu como os restos e a senhora os bons bocados! Depois de trabalhar todo o dia, se quero uma gota de vinho, quem mo dá? Tenho de o comprar! A senhora já foi ao meu quarto? É uma enxovia! A percevejada é tanta que tenho de dormir quase vestida! E a senhora se sente uma mordedura, tem a negra de desaparafusar a cama, e de a catar frincha por frincha. Uma criada! A criada é o animal. Trabalha se podes, senão rua, para o hospital.“ 104

“Toda a noite estivera doente: o quarto no sótão, debaixo das telhas, muito abafado, com um cheiro de tijolo cozido, dava-lhe enjoos, faltas de ar, desde o começo do Verão; na véspera ate vomitara! E já levantada às seis horas, não descansara, limpando, engomando, despejando, com a pontada no lado e o estômago todo embrulhado! 105


A personagem da Juliana é fundamental para a verdadeira descrição da sociedade oitocentista, porque essa, não foi constituída só pelos burgueses e gente fina. O autor, através desta personagem, transmite ao leitor outro lado da sociedade, menos pomposa, mas sim a verdadeira. É essa parte da sociedade que nunca tinha nada e por isso precisa trabalhar para sobreviver.

„Integra a grande massa de mulheres trabalhadoras que, marginalizadas (pela pobreza) dos ensinamentos de etiqueta social, música e piano destinados às moças burguesas, necessitam trabalhar duro para sobreviver. 106


Joana, junto com Juliana, destaca-se mais entre as figuras secundárias da obra. Joana era de origem de Norte de Portugal. As mulheres desta região caracterizam-se pela robustez física, qualidade de trabalho, honestidade, instintiva aceitação do lugar social e rudeza. Joana que pressupõe todas estas características, é o exemplo típico das mulheres nortenhas que no século XIX vieram para a cidade à busca de trabalho.
“Era uma rapariga muito forte, com peitos de ama, o cabelo como azeviche, todo lustroso do óleo de amêndoas doces. Tinha a testa curta de plebeia teimosa. E as sobrancelhas cerradas faziam-lhe parecer o olhar mais negro.” 107
Superioridade moral desta figura nota-se por exemplo em sua sinceridade e não necessidade de mentira social. As suas características são exactamente opostas as da Juliana. Desta maneira, Joana e Juliana, representam a camada das criadas, desde o ponto extremamente negativo, até ao positivo. No seguinte fragmento onde a Joana fala sobre o seu namorado é notável bom carácter dela.
“Ainda que eu tivesse de roer ossos, Sr.Juliana, a última migalha havia de ser pra ele! 108

Era cozinheira de Jorge e Luísa. Era humilde, respeitava os patrões, era uma rapariga simples de aldeia. Gostava do seu trabalho e não o queria perder. Dava sempre, às escondidas de Luísa, a comida a Juliana, mas quando descobriu que esta odiava Luísa, falava mal dela e costumava ofendê-la. A cozinheira, que não chega a compreender o que se passa, estranhada com aquilo, põe-se da parte de Luísa, mas Juliana, vendo naquela uma inimiga, obriga a sua patroa a pô-la na rua, ao que Luísa não tem outra saída senão aceder.


Graças a presença da personagem da Joana no livro, o autor aponta para o facto que existem mulheres das camadas mais baixas, que apesar de saberem do seu estatuto na sociedade, nao perdem a vontade de viver e conformam-se com a sua vida. Sabem que nunca na vida vão ser ricas como as suas patroas, mas continuam amáveis e trabalhadoras.
AS AMIGAS
As mulheres que rodeavam Luísa, as amigas dela, eram da mesma classe social. Tinham, por isso, vidas e hábitos comuns, mas cada tinha as suas características próprias, que a diferenciavam das outras mulheres. A Leopoldina é o exemplo da mulher, que toca as raias da emancipação revolucionária, mas além disso, tem no romance o papel da burguesa ideal. Mostra se livre às ligações religiosas e sonha com a liberdade que a sociedade oitocentista apenas permite ao homem. A própria Leopoldina afirmou, que a sua marginalização não é causada pelo seu comportamento social, mas sim, da falta de cuidado em manter as aparências. Deve-se concordar com a afirmação da própria Leopoldina, porque as aparências, eram, e de certa forma ainda continuam a ser, muito importantes na sociedade. Uma criada, que se sabe comportar, pode para os outros ter a aparência duma burguesa, e pelo contrário. A Leopoldina, como a Luísa, é o fruto da educação comum, e por isso, se deixa de entusiasmar pelas leituras e música ultra-romântica e daí nascem as ideias e imaginações. É a única personagem do livro que tem a acção corruptora sobre Luísa, porque é ela, que a prepara para entrega a Basílio e é também ela que arranja o encontro com o Castro e assim faz de Luísa um tipo de prostituta. Leopoldina era muito conhecida em Lisboa pelas suas aventuras escandalosas
“Era muito indiscreta, falava muito de si, das suas sensações, da sua alcova, das suas contas. Nunca tivera segredos para Luísa, e na sua necessidade de fazer confidências de gozar a admiração dela, descrevia-lhe os seus amantes, as opiniões deles, as maneiras de amar, os tiques, a roupa, com grandes exagerações.” 109

Sentia-se infeliz com o seu marido, João Noronha, e isso era a justificação para todos os seus erros. Contava tudo a Luísa, os escândalos de Lisboa com todos os pormenores. Jorge não gostava dela e não queria tê-la em sua casa, dizia que era uma má influência para Luísa, por isso a Luísa recebia secretamente. A opinião do Jorge sobre ela coincide com a opinião de resto da burguesia:


„Minha rica filha, é que todo o mundo a conhece. E a Quebrais! E a Pão e Queijo! É uma vergonha!“ 110
Leopoldina, em certos momentos chega a comover o leitor, por causa do efeito de natural intervenção sentimental, apesar de papel menos simpático, que esta figura desempenha.
Uma das outras amigas de Luísa era Dona Felicidade, que depois da morte da mãe de Luísa, tem uma amizade maternal com a protagonista. O leitor pode notar dois contrastes nesta personagem: fanatismo religioso e a sensualidade. Frequentava muito a Encarnação e era muito religiosa. A sensualidade não se consegue notar por fora, porque Dona Felicidade sabe manter-se dentro de um comportamento socialmente aceitável. D. Felicidade era uma senhora de cinquenta anos e tinha sido amiga da mãe de Luísa e vinha todos os domingos a casa desta.
“Era fidalga, dos Noronhas de redondela, bastante aparentada em Lisboa, um pouco devota, muito da Encarnação.” 111

„Ela recria o exemplo da velha solteirona da baixa aristocracia que sofre as consequências sociais, psicológicas e afectivas do celibato feminino na sociedade oitocentista. Pelo facto de se não ter casado, Dona Felicidade vive como que a margem da sociedade, preocupada em manter o seu staus- lembrem-se as repetidas referencias as suas relações com a nobreza.“ 112

D. Felicidade era apaixonada pelo Conselheiro Acácio, que ia também todos os domingos a casa de Luísa. Afinal recolheu-se à Igreja, vendo que o conselheiro nunca poderia amá-la.
„Havia cinco anos que D. Felicidade o amava. Em casa de Jorge riam-se um pouco com aquela chama. Luísa dizia: Ora! É uma caturrice dela! Viam-na corada e nutrida, e não suspeitavam que aquele sentimento concentrado, irritado semanalmente, queimando em silêncio, a ia devastando como uma doença e desmoralizando como um vício.“ 113

FAMÍLIA
Primo Basílio é o único romance de Eça, chamou-o episódio doméstico, que foi especialmente assestado contra a família lisboeta da pequena burguesia. Segundo Eça, a má vida familiar era resultado duma má educação dada às mulheres, que era demasiado romântica e artificial. Assim as mulheres não podiam ser mães e esposas exemplares e foi mesmo por esta razão que Eça atacou o romantismo e todas as consequências que advieram deste. A Luísa oferece ao leitor mais de perto o conhecimento de viver familiar da burguesia na capital. No dia a dia, a protagonista levanta-se tarde e o seu dia enchem as preocupações de toilette, a leitura de Diário de Notícias, do Almanaque das Senhoras e de novelas sentimentais, toca piano e para se distrair, recebe visitas.
Eça de Queiroz aproveitou a sua obra para uma profunda crítica da família do século XIX. No livro Uma Campanha Alegre, como na Carta enviada a Teófilo Braga, refere-se a esta crítica da família e explica o seu ponto de vista sobre este tema.
„Eu não ataco a família-ataco a família lisboeta, produto do namoro, reunião desagradável de egoísmos que se contradizem, e mais tarde ou mais cedo, cedo de bambochata“ 114
A família é o desastre que sucede a um homem por ter precisado de um dote. A grande questão é o dote. Mulher, filhos, parentes, criados, são desagradáveis consequências que se sofrem. Faltando assim um laço moral, a família vive no egoísmo. O homem, sem respeito, dá-se a conchinagem e ao jogo. A mulher, desocupada e enfastiada, dá-se ao sentimentalismo e ao trapo. Os filhos são educados pelos criados, enquanto, não são educados pelos cafés. 115
Luísa e Jorge sempre desejaram filho, mas nunca tiveram essa sorte em tê-lo. No livro aparecem várias referências sobre este desejo dos dois. Seria a possibilidade de crescimento da família e seria uma ocupação eficaz do tempo livre da Luísa.

Era uma tristeza secreta de Jorge – não ter um filho! Desejava-o tanto! Ainda em solteiro, nas vésperas do casamento, já sonhava aquela felicidade: o seu filho! 116


-Se houvesse um pequerrucho, já não ficavas tão só! Ela suspirou. Também o desejava tanto! Chamar-se ia Carlos Eduardo. E via-o no seu berço dormindo, ou no colo, nu, agarrando com a mãozinha o dedo do pé, mamando a ponta rosada do seu peito... 117



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