Masarykova Univerzita



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AS PERSONAGENS

CASTRO era um banqueiro vaidoso e orgulhoso de Lisboa. Era rico, gordo e opulento. Tinha uma grande paixão por Luísa e sempre que a via, seguia-a de perto. Luísa pediu a Castro que lhe emprestasse dinheiro, pois tinha que pagar a Juliana para se livrar dela. Luísa ficou relativamente descansada porque Castro ia partir para França onde tinha comprado uma propriedade perto de Bordeaux. Com a ajuda da Leopoldina encontraram-se os dois em casa, mas assim que Castro a começou a tocar, ela assustou-se e chicoteou-o rudemente. A sua aparência física ajudou a Luísa ganhar mais ódio, antipatia e aversão a este homem.


Sobre o seu ventrezinho redondo, que a perna curta fazia parecer quase pançudo, o medalhão do relógio pousava com opulência. Trazia na mão um chicote, cujo cabo de prata representava uma Vénus retorcendo os braços. A pele tinha rubor próspero; o bigode farto terminava em pontas agudas, empastadas em cera-moustache, de um aspecto napoleónico. E os seus óculos de ouro tinham um ar autoritário, bancário, amigo da ordem. Parecia contente da vida como um pardal muito farto. 43

JULIÃO ZUZARTE era um médico pobre, sem clientela, com dívidas, que esperava conseguir um lugar na escola, uma clientela rica e uma mulher bonita, com dote. Era um parente afastado de Jorge e o seu antigo condiscípulo na Politécnica. Era descontente da sua profissão mas sempre esperava pela sua futura sorte porque pensou ter direito à felicidade como todos os outros que o rodeavam. Tinha inveja de Jorge, que tinha tudo o que ele queria ter.


Tinha a certeza do seu direito a estas felicidades, e como elas tardavam a chegar ia-se tornando despeitado e amargo; andava amuado coma vida; cada dia se prolongavam os seus silêncios hostis, roendo as unhas: e, nos dias melhores, não cessava de ter ditos secos, tiradas azedas – em que a sua voz desagradável caía como um gume gelado. 44
Julião apresenta uma figura pobre a quem a vida nega todos os bens. Pelo contrário é o tipo de homem inteligente e com capacidade, mas por causa da sociedade torna-se num carácter azedo e descontente. Era convencido que é só azar que é a razão do seu insucesso na vida e este estado psíquico reflectia-se vivamente também na sua aparência. A intenção de Julião era subir na vida, por isso se adaptou ao estilo de vida diferente. No princípio aparece com os cabelos compridos cheios de caspa, 45”com paletó coçado de alamares, calças curtas mostrando o elástico roto das botas”. Utilizou a linguagem inadequada e inconveniente.
Era um homem seco e nervoso, com lunetas azuis, os cabelos compridos caídos sobre a gola. Tinha o curso de cirurgião da Escola. Muito inteligente, estudava desesperadamente, mas, como ele dizia, era um “tumba”.46
BASÍLIO era antigo namorado de Luísa e também o seu primo. Viajou muito e quando voltou a Portugal, foi visitá-la. Falaram muito os dois e lembraram-se dos velhos tempos quando haviam namorado, dos passeios em Sintra ou das férias na casa da tia. Primo contou à Luísa todas as suas viagens nas quais visitou o Oriente, Roma e Paris. Luísa ficou impressionada com as histórias e Basílio ainda exagerava todas as descrições. Basílio fez tudo para impressionar a Luísa e para que mais tarde se tornassem amantes. Depois, mudou de atitude e começou a ficar completamente diferente com Luísa.
Ele, que na realidade apenas viu em Luísa lazer para contrastar com o aborrecimento que encontrou em Lisboa, rejeita a proposta da mulher para fugirem juntos até Paris, onde ninguém se opusesse à sua relação. O Basílio acaba por fugir e Luísa, sozinha, vai ter que suportar a mais cruel das tiranias, exercida pela Juliana. Basílio compreende facilmente que Luísa realmente não dispõe desse dinheiro porque ela pertence à burguesia, e não à aristocracia. Basílio regressa de Paris e fica sabendo da morte da sua amante, o que não perturba muito o seu ânimo, exactamente por ela não passar apenas de um passatempo.
A influência que o Basílio exerce na história é de ter enriquecido no Brasil, de ter viajado pela Europa, pela América, pelo Oriente. E todo esse prestígio de homem rico e viajado tornam-no nos olhos de outros o ser de eleição. Basílio deixa a impressão em Luísa devido ao seu chic, boas maneiras e constantes conversas sobre a vida em Paris. É a aparência do seu primo, os seus conhecimentos e seu requintado gosto a parisiense que fazem dele um herói nos olhos de Luísa. Começa ter até vergonha dos seus amigos e marido, que ao lado do Basílio parecem inferiores.
Basílio recostado no sofá, como um parente íntimo, examinava a sua meia de seda bordada de estrelinhas escarlates, e cofiava indolentemente o bigode, arrebitando um pouco o dedo mínimo onde brilhavam, em dois anéis de ouro, uma safira e um rubi. 47
Eça de Queiroz mostrou-se muito crítico. Criticava também o nacionalismo e a maneira como eram as ideias vindas do estrangeiro assimiladas. As pessoas iam para o estrangeiro só para serem diferentes e “chic” como é o exemplo do Basílio que, depois de viver um período de trabalho no Brasil, criticava tudo o que era português. Não iam buscar novas ideias ou costumes diferentes, mas apenas o exterior.

SEBASTIÃO era amigo de Jorge desde criança e visitava a casa dele frequentemente. O Sebastiarrão, como lhe chamavam, é uma personagem de homem simpático, bondoso e tímido, que permanecia fiel ao Jorge e ao mesmo tempo ajuda Luísa. Tocava piano e possuía uma fortuna considerável. É a ele que a Luísa recorre para resolver os problemas que lhe causaram as cartas que Juliana apanhou. É uma das personagens mais humanas da galeria queirosiana.



Era um homem baixo e grosso, todo vestido de preto, com um chapéu mole desabado na mão. Começava a perder um pouco na frente os seus cabelos castanhos e finos. Tinha a pele muito branca, a barba alourada e curta. 48
Sebastião tinha um génio antiquado. Era solitário e acanhado. Já no latim lhe chamavam o peludo. Punham-lhe rabos, roubavam-lhe impudentemente as merendas. Sebastião tinha a forca dum ginasta, oferecia a resignação dum mártir. 49
JORGE era o tipo burguês, contente com vida e não desejava muito mais do que o que possuía. Tinha medo da opinião dos outros e por isso não estava nada contente com as visitas da Leopoldina com as suas aventuras escandalosas pelas quais a todos conheciam. Não era sentimental e criticava todos os que o eram.
Ele, nunca fora sentimental. Os seus condiscípulos, que liam Alfredo de Musset suspirando e desejavam ter amado Margarida Gautier, chamavam-lhe “proseirão burguês”, Jorge ria; não lhe faltava um botão nas camisas, era muito escarolado, admirava Luís Figuier Bastiat e Castilho, tinha horror a dívidas e sentia-se feliz. 50
Jorge é a personagem caracterizada pela tranquilidade e certa hipocrisia. Condenava as mulheres que tinham amantes, mas ele próprio teve um caso quando esteve a trabalhar no Algarve.
CONSELHEIRO ACÁCIO era um homem de palavratório complicado e inútil. Era a caricatura do estilo oficial, um verdadeiro tipo de homem oco e estúpido. Tipifica o formalismo próprio da época, o falso moralismo, o apego às aparências. Amigo do pai de Jorge e padrinho do casamento, gosta de frases feitas e citações morais, mas, na vida privada, lê poemas obscenos de Bocage e mantém como amante a empregada, Adelaide, a qual, por sua vez, o trai com um caixeiro. É um dos tipos mais famosos da galeria queirosiana, e responsável pelos adjectivos "acaciano" e "conselheiral", usados quando se deseja aludir ao falso padrão moral de alguém.
Nunca usava palavras triviais; não dizia vomitar. Fazia o gesto indicativo e empregava restituir.51
O seu aspecto físico era muito parecido com a sua maneira de ser.
Era alto, magro, vestido todo de preto, com o pescoço entalado num colarinho direito. O rosto aguçado no queixo ia-se alargando até a calva, vasta e polida, um pouco amolgada no alto; tingia os cabelos que duma orelha a outra lhe faziam colar por trás da nuca e aquele preto lustroso dava, pelo contraste, mais brilho a calva; mas não tingia o bigode: tinha o grisalho, farto, caído aos cantos da boca. 52
Examinando a figura de Conselheiro Acácio por perto, verifica-se que o conselheiro é sinónimo de pomposo e doutoral. Trata cada pessoa de maneira diferente, depende do estatuto que tem. Trata com altanaria uns e com servilismo os outros, os superiores. Do texto nota-se que se o conselheiro preocupa com ostentação e vaidade.
Na minha sepultura não quero elogios. Se os meus amigos, os meus patrícios entenderem que eu fiz alguns serviços, tem outros meios para os comemorar: lá tem imprensa, o comunicado, o necrológio, a poesia mesmo! 53

EÇA DE QUEIROZ E

AS MULHERES
A mulher tem sem dúvida um papel muito importante na obra de Eça de Queiroz. Eça pretende mostrar as mulheres lisboetas assim como eram na realidade e não como eram imaginadas. Na obra Primo Basílio, e não só, Eça dedica-se a uma crítica profunda ao tradicionalismo da sociedade burguesa e ao conservadorismo da igreja que impedia o desenvolvimento natural da sociedade. A maneira dele de escrever sobre as mulheres passou por uma evolução, mas na maioria das obras deste conhecido autor, as mulheres são representadas como adúlteras ou beatas. Como é que Eça preferia de ver as mulheres lisboetas, como é que queria que elas sejam representadas nos livros dele, fica claro da seguinte citação:
„Eu sou aquele Porco-Sujo que pretende que as mulheres de Lisboa tem amantes, e que nos jantares de alta roda, em vez de discutirem Hegel, o Positivismo e a Psicologia das Religiões, falam de criadas e de cabeleireiras.”

Eça de Queiroz


Eça de Queiroz considera que a mulher tem um papel importantíssimo na sociedade e por isso, as figuras femininas sempre tinham um papel determinante nas suas obras. Existem vários temas que nunca aparecem na sua obra, aos quais não dedica muita atenção, ou cujas intervenções são raras. É o caso dos jovens, crianças e as categorias populares citadinas. Quando aparecem, têm como objectivo de esclarecer as posições dos adultos ou das camadas mais altas da sociedade. As situações humanas gerais têm para Eça uma importância bem significante e as das personalidades femininas estão no primeiro lugar, são essas a quem o autor se dedica mais. É importante dizer que as figuras femininas nas obras ecianas passam por uma evolução. Autor esclarece que é indispensável conhecer e descrever os casos que passam do habitual, para que a escolha não seja pobre e automática. N´As Farpas considera a mulher como a grande responsável pelo teor das gerações. Eça afirma, que a geração de 1851 era mais forte e original que a dele (1866), porque as mães eram raparigas vivamente sacudidas pelo tempo das lutas civis.
Eça critica a educação deficiente dada às mulheres burguesas lisboetas do século XIX. Na obra Uma Campanha Alegre, que, em alguns dos seus capítulos, se dedica a profunda crítica da menina e da mulher portuguesa e de qual foram retirados vários fragmentos para enriquecer e completar esta dissertação, é bom meio para conhecer a sociedade portuguesa e a sua cultura. Eça acreditava que a sociedade não possibilitava à mulher o desenvolvimento da razão. Por isso não é a mulher que é criticada, mas é a sociedade, pois é ela, que leva toda a culpa de educar a mulher desta maneira. Com o objectivo de corrigir a sociedade e apontar os pontos mais problemáticos, o autor, através das suas personagens femininas, procura desvelar toda a hipocrisia e moral decadente do século XIX. O olhar de Eça de Queiroz sobre a sociedade portuguesa é crítico de forma a atribuir à educação e ao comportamento feminino uma grande importância. As mulheres dessa época tinham uma educação que visava apenas prepará-las para um casamento rico, e uma vida de beatice, passada entre as quatro paredes das suas casas, suprida por criadas ou amas e cheia de sentimentalismo. Estas mulheres são muitas vezes apresentadas nas obras ecianas para mostrar aos leitores a sua outra face, aquela que era muitas vezes oculta mas sempre existia. Muitos argumentos e hipóteses são levantados para justificar o comportamento da protagonista, como o comportamento de muitas mulheres da época. As fantasias sentimentais, que nunca foram realizadas, acompanham as protagonistas em cada passo e essas, desta maneira, fogem muitas vezes da realidade.
Critica a infidelidade feminina e critica ainda mais a sociedade, porque foi essa que a fizera assim. Não são apenas factores psicológicos ou sociológicos que levam as figuras femininas a infidelidade. No livro Primo Basílio consegue-se perceber como Eça via o papel da mulher do século XIX e a própria sexualidade. Esta obra é também uma crítica às instituições e à moral da época.
Eça critica a mulher lisboeta, sua maneira de ser, seus hábitos e costumes. No livro O Primo Basílio compara a mulher lisboeta com as mulheres francesas e inglesas, que estão mais habituadas para fazer exercício, pelo contrário, a rapariga de Lisboa é preguiçosa, não se alimenta bem, é demasiado concentrada na sua toilette. Continua a sua observação com outras características de portuguesas como medo, falta de decisão, falta de acção, passividade, falta de iniciativa, mentira, curiosidade, preocupação com dinheiro etc. Não foi só o comportamento e a educação, que foram sujeitos a crítica da parte do autor. O aspecto físico das mulheres lisboetas ficou também no centro da crítica, porque as mulheres eram demasiado magras, pálidas e sem força por causa da vida que levaram: falta de exercício físico e mental, preguiça.
„Ora entre nós, as raparigas não tem saúde. Magrinhas, enfezadas, sem sangue, sem carne, sem forca vital- umas padecem de nervos, outras de estômago, outras de peito e todas de clorose que ataca os seres privados de sol. Em primeiro lugar não respiram. Os seus dias são passados na preguiça de um sofá, com as janelas fechadas; - ou percorrendo num passinho derreado a Baixa e a sua poeira.” 54
„Músculos sem exercício, pulmões sem ar, circulação comprimida, digestão estrangulada.” 55

Depois da crítica do corpo da rapariga, Eça foca a sua fraqueza moral e revela os modos e os hábitos. Descreve o dia normal duma menina portuguesa de 18 anos. Reparando bem no seguinte fragmento é óbvio que o comportamento da Luísa é o mesmo e assim se certifica, mais uma vez, que a principal personagem feminina do Primo Basílio é a autêntica cópia da mulher portuguesa como a Eça viu.


„…almoça, vai-se pentear, corre o Diário de Notícias, cantarola um pouco pela casa, pega no croche ou na costura, atira-os para o lado, chega a janela, passa pelo espelho, da duas pancadinhas no cabelo, adianta mais dois pontos no trabalho, deixa-o cair no regaço, come um bocadinho de doce, conversa vagamente, volta ao espelho, e assim vai puxando o tempo pelas orelhas, derreada com a sua ociosidade, e bocejando as horas.“ 56
Eça de Queiroz conheceu bem a importância do papel da mulher portuguesa e por isso, nos seus textos literários, surge uma crescente responsabilidade da mulher na sociedade e necessidade de lhe encontrar um termo de equilíbrio.
Toda esta crítica da mulher portuguesa, acumulada em três capítulos da obra Uma Campanha Alegre, reflecte-se através da principal personagem Luísa, assim como pelas personagens secundárias, que formam a sociedade feminina da Lisboa do século XIX, na obra O Primo Basílio. Desta forma, o autor constituiu o retrato específico da sociedade, para as pessoas, depois de 130 anos, puderem conhecer a sociedade e o ambiente em que se viveu no tempo oitocentista.
As figuras femininas desenrolam-se aos pares: Luísa e Leopoldina, no plano das figuras de sociedade; Juliana e Joana, no plano da criadagem. Juliana, junto com a Joana, é diferente na relação com os patrões e no estilo e tipo da vida. Entre Luísa e Leopoldina existem proximidades sensuais, e até chegam a desenhar-se aproximações lésbicas. Entre as figuras solteironas pertence a D. Felicidade.
Nos seguintes capítulos, tentarei abordar e aprofundar todos os problemas da mulher lisboeta, que aqui foram mencionados, dando o maior interesse aos temas como papel da mulher na sociedade, sua educação e o adultério. Focarei também as principais personagens, e algumas secundárias, do livro para percebermos de melhor forma os seus comportamentos, e assim realmente percebermos a situação da mulher oitocentista que vivia em Lisboa.

O PAPEL DA MULHER

NA SOCIEDADE
No século XIX em Portugal como no estrangeiro, a figura da mulher começou a representar o papel principal na sociedade. Foi, se calhar, por causa desta viragem, que se Eça de Queiroz nas suas obras dedicou tanto ao papel das figuras femininas e abordou um tema tão próximo do tempo do século XIX. Para compreender as mulheres ecianas era necessário compreender primeiro o tempo em que elas viviam. Só assim se conseguiu compreender o homem, suas ideias e as influências que a sociedade exercia sobre ele.
O tempo, em que se a história do Primo Basílio desenrola, é o tempo, em que na Europa acontece a Revolução Industrial. Esta revolução trouxe consigo várias alterações, que atingiram muitos sectores, e não evitaram, a vida da mulher. Podemos dizer, que foi uma consequência das mudanças socioeconómicas, como crescimento da população, distribuição social e económica da população, criação de nova classe de licenciados da origem burguesa, que se promovem pela posse da cultura. Altera-se também o papel da família e o lugar que a mulher nele ocupa.
Em Portugal, as consequências da Revolução Industrial não se sentiam tão intensamente como nos outros países. Portugal organizava-se socioeconomicamente à volta de actividades mercantis e migratórias. Estas actividades foram durante o século XIX reforçadas por custo de perda de monopólio comercial brasileiro. Colonização económica reflecte-se também na cultura e bastante a influência. Impõem-se os novos modelos sociais e familiares e com eles novos padrões comportamentais femininos. Em Lisboa desenvolve-se uma vida social intensa, que se iniciou já no século XVIII, provocada pelo terramoto e por influência do espírito das luzes.
Durante o século XIX, as mulheres portuguesas não eram consideradas como seres juridicamente autónomos, existiam apenas como elementos de um agregado familiar. Não tinham direitos políticos, nem estatuto económico próprio. Para as instituições oficiais as mulheres praticamente não existiam. O registo delas existia só nos documentos de natureza fiscal, frequentemente no caso de viuvez. Segundo o Código Civil de 1867, o casamento tirava à mulher importantes direitos pessoais e patrimoniais. Desta forma o sexo feminino distinguia-se pela incapacidade civil e política. Só a viuvez lhes trouxe alguma autonomia, porque reforçava a importância dos seus papéis dentro da família.
No romance queirosiano existe uma separação entre o espaço público, masculino, e o espaço privado, que era maioritariamente feminino. Na obra Primo Basílio, o adultério, é a consequência do afastamento de marido por questões profissionais, apesar do Jorge não ser um carreirista para quem o trabalho está em primeiro lugar.
No século XIX os espaços públicos dispõem só de presença masculina. É claro, que as mulheres das classes populares gozavam de maior liberdade que as das classes mais baixas. A destruição do Antigo Regime económico também contribuiu para alteração de algumas condições sociais das mulheres portuguesas. Mulheres portuguesas da classe burguesa ou aristocrática, com situações económicas muito diversas, sentem-se à vontade na sociedade gerida por homens, mas esta sociedade as completamente marginaliza. Disto resulta „o afastamento efectivo no casal, é um afastamento não apenas físico, mas também cultural e psicológico“.57 Os homens, por causa das exigências profissionais, estavam em contacto com as descobertas científicas e tecnológicas. Desta forma os homens conseguiram cultivar-se e desenvolver-se e, cada vez mais, se distanciaram das mulheres, que foram obrigadas ficar em casa, cuidar das crianças e ficaram isoladas do mundo cultural ou científico.
Outro fenómeno na alteração da mentalidade feminina, tipicamente português do século XIX é a imigração em massa para o Brasil. Em Lisboa cria-se uma oferta de mão-de-obra feminina desqualificada, mas muito barata..58 Assim, a burguesia portuguesa, ao contrário de outras nações europeias, consegue manter criados em maior número e durante muito mais tempo. Apenas as famílias ricas podiam ter criados, que de certa forma davam liberdade à mulher, que se podia dedicar às outras actividades e dispensar trabalhos de casa. A actividade profissional preenchia grande período de tempo livre da mulher. O trabalho surgia como uma qualidade, uma virtude, pois a mulher não tinha tempo para desânimo. As mulheres sem trabalho, caso não tenham meios de fortuna próprios, estavam fortemente dependentes do homem. Para as mulheres solteiras, o casamento tornava-se muitas vezes inevitável, mas mesmo depois do casamento, dependência económica continuava, mas agora era no homem, que cuidava da sobrevivência da sua esposa. Cada acto que não agradava o homem, podia ser grande risco para a mulher, pois podia ser expulsa, e por isso aceitava praticamente tudo, que o marido exigia. Uma das consequências destes factores era o adultério. A adúltera, no caso de descoberta do seu romance, temia mais da situação económica que a esperava, do que da própria raiva do marido. Em metade do século XIX, 50 por cento das mulheres portuguesas ficavam solteiras, porque a recessão económica afectava principalmente as classes burguesas. Mas neste tempo as mulheres tomam consciência da sua dependência económica, como a sua posição deficitária.
No livro Primo Basílio as únicas mulheres que trabalhavam eram as empregadas como Juliana e Joana, de resto as personagens femininas ficavam em casa para assegurar o bom funcionamento dela. É verdade que só estas duas personagens eram da classe mais baixa, que tinham que ganhar o seu ganha-pão. Restantes personagens femininas sustentavam os seus maridos, por isso não trabalhavam. A excepção era a Dona Felicidade que era solteira mas de origem da família rica cuja herança lhe assegurava uma boa vida. Nas cidades, em classes com mais pose, a mulher era afastada de qualquer trabalho lucrativo. Era sempre o homem que trabalhava e a sua esposa vivia uma vida parasitária. A sua preocupação era tratar das criadas para assegurar bom funcionamento da casa e esperar pelo seu homem que ele voltasse do trabalho. Este modelo da mulher da burguesia portuguesa é representado pela principal personagem do livro O Primo Basílio, a Luísa. A diferença entre sexo feminino e masculino era bastante grande e notável em várias actividades e ramos do século XIX, como a educação, trabalho ou interesses.
„…onde as senhoras ainda que superiormente dotadas pela natureza, estão condenadas a uma educação acanhada, a uma higiene moral deplorável………país onde em todas as reuniões os homens e as senhoras estão divididos em grupos distintos, que se não entendem senão quanto à paixão, o interesse ou a vaidade os aproxima; numa terra que estabelece no seio da mesma mãe pátria, duas nações de seres diferentes que não tem as mesmas crenças religiosas, nem o mesmo nível de cultura intelectual, nem o mesmo código moral.“ 59

A mulher solteira em Portugal tinha uma vida sem responsabilidades sociais, mas também sem utilidade alguma. A mulher casada era, comparando com as solteiras, melhor considerada na sociedade, porque conseguiu cumprir o seu objectivo para que foi destinada: o casamento e os filhos. A educação tradicional da mulher portuguesa deixou-a numa situação de inferioridade intelectual e social perante o homem.


Como solteira, a mulher é sujeita ao seu pai, mas como casada, é sujeita ao seu homem. „Mulher tem obrigação acompanhar o seu marido, excepto ao estrangeiro“.60 “Deixa de ser a administradora dos seus bens, qualquer que seja a forma porque se realize o contracto matrimonial“.61Como se vê, a mulher casada pode fazer poucas coisas sem a licença do seu marido. A rapariga solteira podia negociar e trabalhar livremente, a mulher casada não pode fazer o mesmo sem a licença. No caso de adultério, o homem recebia 3 meses, mas a mulher chegam a „tirar-lhe os próprios bens a favor do marido e em que pagar uma mesada determinada pelo concelho familiar e o juíz“62. Apesar desta inferioridade, a mulher continuava a ver o casamento como o meio de sustento. A sociedade aceitava só pouco trabalhos para a mulher e esses eram mal pagos. A sua inutilidade social levava-a considerar o casamento como a única saída.
Se exceptuarmos as que tem fortuna própria, o que forma uma diminuta parcela, as mulheres das classes elevadas vêem-se forçadas a aceitar a procurar no casamento a única segurança provável de existência material…A mulher por si só não pode viver. A sociedade negava-lhe os meios de vida, de trabalho, de independência, …a educação, o preconceito de os hábitos tradicionais tolhem-lhe a iniciativa e proíbem-lhe a livre concorrência. 63
Na realidade o Código Civil de uma nação diz muito sobre a mentalidade de uma época.
A EDUCAÇÃO DAS MULHERES
O tema da educação preocupou Eça desde o início da sua carreira literária, como se verifica no segundo volume de Uma Campanha Alegre, colheita de sua colaboração nas Farpas. Contém três artigos sobre este tema. O comportamento da Luísa, do Primo Basílio, resulta da sua péssima educação ultra-romântica. A anemia, preguiça, o medo, indecisão, passividade ou falta de acção, precocidade, mentira ou a exagerada preocupação com a moda, tornam a mulher das classes improdutivas, incapaz de qualquer acção. Eça privilegia religião, amor do trabalho, amor do dever, obediência, honestidade ou bondade. Se o comportamento das mulheres, é a consequência da educação que elas receberam, tem que se explicar este tema, para percebermos, como a vida das mulheres no século XIX funcionava. Este capítulo é um olhar para o desenvolvimento e práticas do ensino feminino.
„No ano de 1884-85 o número das escolas primárias femininas era cinco vezes inferior ao das masculinas. No mesmo ano é criada a Escola de Maria Pia para as raparigas das classes sociais desfavorecidas e mais tarde, em 1906, torna-se primeiro liceu feminino em Portugal.“64 ”No último quartel do século XIX, 90 por cento das mulheres eram analfabetas e notava se também grande atraso educacional das portuguesas.” (Anuário Estatístico do Reino de Portugal, 1884, pag.26) O ensino dos rapazes distinguia-se do ensino das meninas, que eram obrigadas à adaptação e à obediência. Os rapazes, pelo contrário, foram educados de forma para estimular a sua independência. As filhas das famílias aristocratas aprendiam Cultura Clássica, Línguas e História, mas dava se importância também às boas maneiras e à arte, como pintura, canto ou música. A educação das raparigas que não pertenceram nem à classe burguesa, nem à aristocracia, era dirigida ao ensino doméstico, mas existiam também colégios femininos, que funcionavam em regime de internato ou semi-internato.

A mulher é, pela família e pela religião, educada exclusivamente para o amor. As mulheres portuguesas oitocentistas não tiveram acesso ao desenvolvimento das potencialidades próprias, e como solução, restava-lhes o casamento, que no caso das mulheres era considerado como a única função social que deviam visar. Era considerado como o único objectivo das senhoras, o fim da trajectória das suas vidas, pois sem marido, a vida dela, como a posição dentro da sociedade, seria muito complicada Como o resultado deste raciocínio, as senhoras costumavam fugir da realidade em que viviam e dirigiam-se à outra realidade, camuflada, onde sentiam a falta de consciência moral e força de vontade. No livro Primo Basílio aparecem várias opiniões sobre o casamento, umas, bastante diferentes das outras, de que se nota a variada opinião da sociedade portuguesa. Segundo Sebastião, a mulher tem que se estimar toda a vida; o Saavedra prefere, em vez de casamento, variedade. Mas uma opinião bem inovadora é apresentada por Julião: „o casamento é uma fórmula administrativa, que há-de um dia acabar...” 65Segundo ele, a fêmea era um ente subalterno;“o homem deveria aproximar-se dela em certas épocas do ano (como fazem os animais, que compreendem estas coisas melhor que nós), fecundá-la, e afastar-se com tédio.“66 Mas na realidade, o casamento tornava-se para uma mulher indispensável. A situação do homem já era diferente, mas mesmo assim, o homem casado estava melhor visto na sociedade.


A mulher das classes ricas, não têm preocupações nenhumas, porque é o marido que trabalha, são as criadas que lhe cozinham e limpam a casa, é a cabeleireira que a penteia, e por isso a mulher não resta mais nada que genuína ocupação do tempo livre, que tem tanto - o amor. O marido é ocupado pelo seu trabalho, negócios, escritório, amigos e assim, a mulher procura outro modo como fugir da realidade, deixa-se guiar pela fantasia e segue as histórias dos romances que lhe ocupam as compridas tardes em casa. Este tipo da mulher é representado no livro pela personagem de Luísa, que tem as características típicas duma burguesa. Lisboa, é segundo Eça, a terra das mulheres virtuosas, mas é também a terra pobre, onde o maior número das famílias são empregados públicos, e portanto, as mulheres não tem criadas e por isso tem o dia inteiro ocupado por trabalhos de casa. Esta mulher ocupada, cheia de trabalho, não tem tempo para fantasias, sentimentos e torna-se mais virtuosa que qualquer outra. Neste caso, o casamento é bem equilibrado, pois o marido é respeitado e cada membro tem as suas tarefas para realizar. As meninas fechadas dia inteiro em casa, tornam-se inactivas e melancólicas. Este trabalho foca a imagem feminina numa época, em que a mulher se definia pelos seus papéis de esposa e de mãe. Por isso, o único objecto de conversa é o namoro e vestidos.
Eça de Queiroz, em As Farpas, critica a má educação da mulher, que tem princípios sobretudo em errada orientação das mães, que tendem desenvolver nas filhas o gosto pela toilette, permitem a mentira, falsidade ou curiosidade.
„A descuidada educação da mulher, mal formada por leituras ultra-românticas de efeitos deletérios; as frágeis bases da instituição do matrimónio; a ociosidade que lhe proporcionava a vida caseira no lar burguês e o tédio daí decorrente; as influências de um meio social monótono, corrupto e hipócrita, incapaz de proporcionar à mulher meios de ocupação útil e, por outro lado, repleto de costumes dissolutos e de referências ultra-românticas propícias ao exacerbamento da imaginação romanesca e da sensualidade, num carácter fraco como o de Luísa. 67
Segundo Eça de Queiroz, a mulher é, desde criança, educada para a sedução. É pela toilette, que a criança é ensinada vestir-se bem, andar, dominar as atenções, vencer o noivo. Senhoras em Portugal são excluídas da vida pública, da literatura, da indústria e do comércio, a mundo delas fecha-se à volta de família e toilette.
“As mulheres vivem na consciência desta decadência. Pobres, precisam casar. A caça ao marido é uma instituição. Levam-se as meninas aos teatros, aos bailes, aos passeios, para as mostrar, para as lançar a busca. Faz-se com maior simplicidade esse acto simplesmente monstruoso. Para se imporem a atenção, as meninas tem as toilettes ruidosas, os penteados fantásticos, as árias ao piano. A sua mira e o casamento rico. Gostam do luxo, da boa mesa, das salas estofada: um marido rico realizaria essas ideias.” 68
Na educação das personagens, que não pertencem nem às figuras principais, mas estão mencionadas no livro O Primo Basílio cometeram-se uns erros. São as personagens de mães, que com a má educação das suas filhas, influenciaram a vida das futuras mães e esposas. As consequências da educação são conhecidas há séculos. A vida do humano é baseada na educação e é a partir desta que cada um se desenvolve e toma o seu caminho.
“Na tradição da psicologia causalista de Zola e de Flaubert, as consequências da educação recebida inscrevem-se, de forma mais profunda, ao nível de comportamento e de carácter, impondo a heroína os seus semas mais marcantes.” 69

A mãe é a figura principal na má educação das meninas, pois elas, desde pequeninas, são apresentadas não como crianças, mas sim, como pequenas damas, com penteados, cintura apertada e com toilette como a da nobreza. Assim, as crianças são influenciadas desde pequenas, começam a ser vaidosas, preocupar-se imenso com o vestido e penteado e não conseguem aproveitar a liberdade que a infância lhes oferece.


„Na criança, como num mármore branco, a mãe grava; mais tarde os livros, os costumes, a sociedade só conseguem escrever. As palavras escritas podem apagar-se, não se alteram as palavras gravadas.” 70
„A acção de uma geração é a expansão pública do temperamento das mães.” 71

É, por exemplo, o caso da mãe de Luísa, que segundo Eça de Queiroz, “falhou na formação, sociabilização e educação da sua filha, porque sobrecarregou-se da permissividade moral e a sua ânsia de casar a Luísa.” Mais um exemplo de má educadora é a mãe de Sebastião, que revela o seu amor ao filho na falta de firmeza e de exigência à relação a sua instrução. Como o resultado desta educação, Sebastião tornou-se bondoso demais, e na época, em que o casamento e o trabalho eram promotores da dignidade social masculina, vive solteiro e desocupado.


„Minha rica senhora! O seu menino é um génio! É um génio! Há-de ser um Rossini! É puxar por ele! É puxar por ele! -Mas era justamente o que ela não queria, era puxar por ele, coitadinho! Por isso não foi um Rossini.“ 72

Eça de Queiroz foca a sua crítica também nos métodos pedagógicos dos colégios. Não pretende alterar o ensino feminino, mas tenta dar o conselho de ocupar a mente das raparigas, futuras mães, ocupar o espírito. Isso quer dizer, não perder tempo em pensar em amor, mas sim, aproveitar esse tempo para ensino, trabalho e actividade física.


Analfabetismo era um problema grave na sociedade portuguesa do século XIX. A maioria das mulheres era analfabeta, como a grande parte dos homens. Apesar deste facto no livro não aparece nem uma referência ao analfabetismo. A Luísa como outras personagens do Primo Basílio muitas vezes escreviam cartas, liam os jornais e livros. Inclusivamente as criadas sabiam ler. É o exemplo da Juliana que soube ler a carta da Luísa destinada ao seu primo. O problema tão vasto como analfabetismo da sociedade portuguesa não é focado nesta obra eciana.
Percentagem de analfabetos sobre o total da população para 1878:73

Fêmeas 82, Homens 18



Percentagem de indivíduos analfabetos, que sabiam ler e escrever e que sabiam apenas ler para 1878:

Sabiam ler e escrever: fêmeas 8, homens 21

Sabiam ler: fêmeas 2, homens 3

Nem sabiam ler, em escrever: fêmeas 89, homens 75



Percentagem de mulheres:

Analfabetas: 86

Sabiam ler e escrever 12

Sabiam ler 2



LUÍSA
A Luísa está representada no romance como uma burguesa casada, é um protótipo duma senhora feliz, bem relacionada na sua vida, pois tem um casamento exemplar, a casa com os seus criados, o círculo de amigos e a sua vida sem escândalos. É uma mulher exemplar para a sociedade, por isso, é também bem conceituada em Lisboa. Mas a Luísa, durante a viagem do seu marido a Alentejo, apaixona-se pelo seu primo Basílio e comete o crime de adultério, que na época do século XIX era visto como algo inconveniente e completamente fora das regras informais da sociedade. É necessário abordar todos os temas relacionados com a heroína do livro O Primo Basílio e os aspectos que a levaram a envolver-se com o Basílio, como todas as características dela, que são características da mulher burguesa lisboeta, como a Eça viu. A personagem da Luísa foi bem descrita por Eça de Queiroz e oferece aos seus leitores um olhar único para conhecerem a burguesia oitocentista de Lisboa. O próprio Eça, na Carta a Teófilo Braga, explica-se em relação à personagem da Luísa:
„O Primo Basílio apresenta, sobretudo, um pequeno quadro doméstico, extremamente familiar a quem conhece bem a burguesia de Lisboa: a senhora sentimental, mal-educada, nem espiritual arrasada de romance, lírica, sobreexcitada no temperamento pela ociosidade e pelo mesmo fim do casamento peninsular, que é ordinariamente a luxúria, nervosa pela falta de exercício e disciplina moral, etc., etc. Enfim a burguesinha da Baixa.“ 74
Usando a personagem principal, o autor tenta descrever o padrão dos modelos femininos da época, mas a Luísa só cumpre o papel que a sociedade lhe atribuiu. Usando uma máscara, as mulheres eram bem diferentes do que pareciam a ser. Desta forma, a Luísa parece ser uma mulher ideal para Jorge, para Sebastião, como para a sociedade que vivia ao pé dela. Mas o leitor consegue conhecer o verdadeiro comportamento e carácter da protagonista e consegue encontrar o retrato negativo da burguesia lisboeta, tal como foi descrita em As Farpas. A relação com o sentimentalismo ultra-romântico sente-se em Lisboa da época e disso surge a sensualidade e o erotismo. O comportamento feminino reflecte os modelos determinados pela sociedade, e desta forma, nasce a pluralidade, falta de consciência moral, de carácter, falsidade ou incapacidade encarar o seu papel na sociedade. Estas mulheres procuram nas fantasias românticas soluções para as suas dificuldades. A Luísa é desde o início de romance apresentada como uma pessoa de dois comportamentos, com um carácter dual, porque por um lado apresenta uma imagem perfeita para a sociedade, e por outro, uma face que se mantém oculta para as pessoas que a rodeiam. Mas de facto, a Luísa só tenta encarar o papel que é exigido e destinado a ela, porque na realidade é dependente da sociedade, funciona e comporta-se como esta quer vê-la. Isto quer dizer, que corresponde aos modelos da sociedade burguesa oitocentista, encara vários papéis para ser o que todos esperam dela. A protagonista queirosiana é denunciada como um ser fraco. Pensa tanto em Jorge, como em Basílio, é incapaz de qualquer acção que exija alguma decisão. Sente-se subjugada por aquele que no momento ocupa a sua imaginação. Tenta afastar de si os remorsos que estão na sua mente à medida que se torna a amante do primo, acreditando no seu amor e paixão. Agarra-se à fuga pelo sonho e pela fantasia, e assim afasta de si todos os problemas e consequências relacionadas com o seu adultério. As fantasias românticas da Luísa são, durante o seu adultério com o primo, activadas como forma de esquecer o mundo que a cerca. Luísa não percebe que, acima dos seus desejos de aventura e romance, está uma sociedade sempre pronta a apontar a mulher que se desvia do padrão comportamental que lhe é traçado. Dessa forma, o universo feminino queirosiano demonstra que:
„Ao criar limites ficcionais para as possibilidades da experiência feminina, esse script inscreve os desejos individuais num código colectivo de acções cujas consequências reforçam comportamentos psiquicamente introjetados e papéis socialmente legitimados. [...] observa-se que a trajectória das personagens femininas é decalcada num script que circunscreve a personagem num universo erótico-familiar, num dever-se que praticamente anula qualquer opção de actuar-se fora dele.” 75
Ao contrário dos autores, como Herculano ou Garrett, Eça de Queiroz preferia razão, observação e experiência. Concluindo, todos este factos, a Luísa não é propriamente a mulher que Eça admirasse ou amasse, é apenas meio de crítica da sociedade lisboeta nos tempos, em que se Eça instalou na capital portuguesa. É bem possível, que Eça conheceu a „verdadeira“ Luísa e a sua história, senhora que mesmo viveu no século XIX, e usou a, para criar uma das suas melhores obras. Eça não pretendeu apresentar a Luísa como uma mulher péssima, símbolo de adultério, mas ela é apresentada como uma adúltera


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