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Masarykova Univerzita

Filozofická Fakulta

Katedra románských jazyků a literatur
Portugalská Filologie a Literatura

Alena Mikulecká


Sociedade Lisboeta na obra O Primo Basílio de Eça de Queiroz

Magisterská diplomová práce

Vedoucí práce: Silvie Špánková, Mgr.

2009

Prohlašuji, že jsem diplomovou práci vypracovala



samostatně s využitím uvedených pramenů a literatury.

Ráda bych poděkovala vedoucímu práce

Mgr. Silvii Špánkové za rady a vstřícnost

během vypracovávání této diplomové práce.


Índice



  1. Introdução……………………………………………………………………………..…...6




  1. Vida de Eça de Queiroz………………………………………………………….….……..8




  1. Romance de Sociedade………………………………………………………………..….13



  1. Sociedade

4.1 População.....................................................................................................................15


4.2 Eça de Queiroz e a Sociedade......................................................................................19
4.3 ClassesSociais..............................................................................................................21
4.4 O Brasileiro..................................................................................................................26
4.5 As Personagens............................................................................................................29


  1. Mulheres

5.1 Eça e as Mulheres.........................................................................................................33


5.2 O Papel da Mulher na Sociedade.................................................................................36
5.3 A Educação das Mulheres............................................................................................40
5.4 Luísa.............................................................................................................................44
5.5 Adultério......................................................................................................................50
5.6 As Personagens Secundárias........................................................................................53
5.7 As Criadas...................................................................................................................54
5.8 Amigas.........................................................................................................................58

5.9 Família.........................................................................................................................60




  1. Comportamento

6.1 Vida Social...................................................................................................................61


6.2 Aparência.....................................................................................................................67
6.3 Sedução........................................................................................................................71
6.4 Snobismo.....................................................................................................................72


  1. Conclusão.................................................................................................................................74

Bibliografia.........................................................................................................................77



Introdução
Lisboa é um dos temas importantes nas obras de vários escritores portugueses e estrangeiros. Muitos passaram toda a vida na capital portuguesa, facto que se projectou nos livros, onde Lisboa apresenta muitas aparências – é amada, odiada, ignorada ou simplesmente vivida. Está presente, quase como uma personagem, em todos os romances ou dramas que lá aconteceram. É difícil ou quase impossível apontar um escritor português cuja obra tenha sido tão profunda e intensamente ligada à Lisboa, sua vida, estilos e costumes, como a de Eça de Queiroz. Só um escritor conseguiu falar de Lisboa nos seus livros com tanta elegância e com tanto amor, que se tornou por excelência o escritor de Lisboa. Graças aos seus livros, onde descreveu todas as ruas e cada canto da velha Lisboa, com os seus habitantes e com tudo o que lhe pertencia no final do século XIX, conseguimos agora imaginar um verdadeiro retrato da capital portuguesa desse tempo.
Trinta livros de Eça de Queiroz falam sobre locais de Lisboa e sobre a sociedade que habitava a cidade que ele viu pela primeira vez aos 21 anos de idade e onde morou apenas seis anos. Eça mostra-nos a velha Lisboa do fim do século XIX e não se preocupa apenas em descrever o aspecto da cidade imóvel e muda. Dá-nos tudo o que nela há de vida.

Este trabalho pretende focar um só ponto da descrita de Eça, mostrar a sociedade lisboeta oitocentista do livro O Primo Basílio e comparar essa mesma sociedade com aquela que existia na Lisboa do século XIX. Dito por outras palavras, comparar a sociedade como Eça a viu com a da realidade. O resultado desta pesquisa e deste estudo pretende descobrir se a sociedade na obra Primo Basílio era igual à realidade e se não, mostrar em que partes a sua descrita contradiz com a sociedade lisboeta da realidade.


O trabalho é divido em quatro partes. A primeira parte fala sobre toda a vida deste autor, para melhor percebermos o porquê da grande preocupação de Eça de Queiroz com Lisboa, apesar de ter estado tão pouco tempo na capital portuguesa. Durante a sua vida visitou e viveu em várias cidades europeias, mas Lisboa tinha para ele algo de especial que o influenciou de tal modo, que várias histórias dos seus livros se passam nesta metrópole.
A segunda parte compara a sociedade lisboeta do século XIX, tal como foi apresentada na obra Primo Basílio com a real. Equipara a população de Lisboa e os diferentes estratos sociais do fim do século XIX com os caracterizados por aquele que até hoje é considerado como um dos maiores autores da literatura portuguesa. Dá-se maior importância à burguesia lisboeta, pois é esta classe que é na sua obra descrita duma forma mais pormenorizada. Entre outros, aborda a Lisboa intelectual, critica-a, observa-a, dá-nos as suas opiniões ou pontos de vista quer através da sua narração, quer através das suas personagens.
A terceira parte dá grande atenção às mulheres que se tornaram um dos mais importantes pontos de crítica deste conhecido autor. Falar-se-á sobre o papel que as figuras femininas têm na obra, tenta descobrir-se o que Eça criticou em relação às mulheres e os problemas delas apresentadas no livro como adultério, educação etc. Focar-se-ão também as principais personagens femininas do Primo Basílio e tenta descobrir-se a razão da escolha de Eça por estas.
A quarta e a última parte deste trabalho descreve os hábitos das pessoas que nos finais do século XIX habitavam a capital portuguesa. Pretende descobrir-se quais são os hábitos que Eça não mencionou no livro, como é que as pessoas costumavam passar os seus dias livres, onde iam, o que faziam e como se comportavam. Esta parte do trabalho tem como objectivo revelar a realidade, o dia a dia de Lisboa e os segredos da vida da burguesia e do povo.
Para a pesquisa e para elaboração deste estudo foram utilizados livros históricos que descrevem e comentam a realidade do século XIX, a população de Lisboa com os seus hábitos e a composição da sociedade. De seguida foram aproveitados os dicionários, livros críticos, revistas, internet e obras de Eça de Queiroz entre outros.
Sou consciente da existência de inúmeros trabalhos que se dedicam à obra de Eça de Queiorz que estudam a sociedade tal como a Eça descreveu e fiz estudo de muitos destes trabalhos. O que traz de novo este trabalho é a comparação da sociedade apresentada no livro O Primo Basílio com as fontes histórico-sociológicas. O contributo deste trabalho pode considerar-se como algo inovador no estudo da obra querosiana.


Vida de Eça de Queiroz

José Maria de Eça de Queirós nasceu dia 25 de Novembro de 1845 em Póvoa de Varzim como filho natural do Dr. José Maria de Almeida Teixeira de Queiroz e de Carolina Augusta Pereira de Eça. Os pais dele casaram-se quatro anos depois de seu filho, o futuro escritor, ter nascido.

Em 1851 devido ao falecimento da ama, a criança é entregue aos cuidados da avó paterna, que vive nos arredores de Aveiro. Mas infelizmente a avó morre em 1855 por isso Eça é internado no Colégio da Lapa, no Porto, dirigido pelo pai de Ramalho Ortigão. Com vinte anos de idade representa, no Teatro Académico, uma peça de Teófilo Braga e conhece Antero de Quental.

O ano 1866 Eça de Queirós começa a sua carreira do escritor quando publica na “Gazeta de Portugal”, a crónica Notas Marginais, Sinfonia de Abertura, Macbeth, Poetas do Mal, Ladainha da Dor, O Miantonomah e Misticismo Humorístico. Na mesma revista, colabora com as crónicas Os Mortos, As Misérias: I. Entre a Neve, Farsas e Ao Acaso. No mesmo ano conclui a formatura em Direito, na Universidade de Coimbra.

Em 1867 funda e começa a dirigir o periódico “Distrito de Évora” onde insere Correspondência do Reino: I Carta e, a seguir, mais doze Cartas. No “Distrito de Évora inicia a publicação do conto O Rei Tadeu que completa dois dias depois. Em Julho do mesmo ano, 1867, abandona a direcção do jornal que fundara e regressa a Lisboa. De novo na “Gazeta de Portugal”, escreve os contos O Milhafre, Lisboa e o Senhor Diabo. Em Novembro prossegue na mesma revista com as crónicas Uma Carta, a Pintura em Portugal e O Lume. No mês seguinte, ainda na mesma publicação, as crónicas Omphalia Benoiton, Mefistófoles, Memórias duma Forca.

Em 1869 em “Revolução de Setembro” surgem os primeiros versos de Carlos Fradique Mendes, publicados por Eça. Em Outubro parte para Egipto na companhia de um amigo, o conde de Resende, onde assiste a abertura do canal Suez. Redige O Egipto, crónica de viagem, só postumamente divulgada.

Em 1870 em “Diário de Notícias” insere De Port Said ao Suez. Em Abril na “Revolução de Setembro” inicia o conto A Morte de Jesus. Dia 21 de Julho sai o despacho que o nomeia administrador do concelho de Leiria. No mesmo mês aparece no “Diário de Notícias” o primeiro folhetim de O Ministério da estrada de Sintra, que se prolongará até 27 de Setembro, escrito de parceria com Ramalho Ortigão. Logo depois presta provas para cônsul da 1ª classe e fica classificado em primeiro lugar mas é preterido na colocação.

Em 1871 é posto em venda o primeiro número de As Farpas, publicação dirigida por Eça e Ramalho até Novembro do ano seguinte. Em Junho, a seu pedido, é exonerado do cargo de administrador do concelho de Leiria. Profere a quarta conferência do Casino, que intitula O Realismo como Nova Expressão da Arte. E, 1872 é nomeado para o consulado das Antilhas Espanholas e em Dezembro chega a havana, onde é empossado no cargo pelo seu antecessor.

Em 1873 segue, em missão oficial, para os Estados Unidos, regressando a Havana em Novembro. Como brinde aos assinantes do “Diário de Notícias” publica o conto Singularidades duma Rapariga Loira.

Em Novembro de 1874 e transferido para consulado de Newcastle-on-Tyne, de cujo cargo toma posse em Dezembro. A “Revista Ocidental” apresenta os capítulos iniciais de O Crime de Padre Amaro (primeira versão). Dois meses depois recomeça o mesmo romance (segunda versão) que é mais logo posta à venda. Em Novembro conclui a redacção de O Primo Basílio.

Em Abril de 1877 inicia em “A Actualidade”, do Porto, uma colaboração subordinada ao título Crónica de Londres, a qual manterá durante quinze números.

Em 1878 em “A Renascença” surge uma carta sobre Ramalho Ortigão. Conclui A Capital, obra apenas divulgada postumamente. Em Novembro escreve A Catástrofe, fragmento de uma romance que seria intitulado A Batalha do Caia, mas que nunca concluiu. Durante este ano, redige Alves&Cª, romance também publicado postumamente.

Em 1879 escreve na França O Conde d´Abranhos, outro romance só postumamente apresentado ao público. No mesmo ano sai a lume a terceira e última versão de O Crime do Padre Amaro.

No início do ano 1880 vai passar féria a Portugal e em Março publica na revista “ O Atlântico” os contos Um Poeta Lírico e No Moinho. No “Diário de Portugal” inicia a publicação do romance em folhetins O Mandarim, que será lançado em livro ainda neste ano. Em Julho na “Gazeta de Notícias”, do Rio de Janeiro, sai a crónica Paris e Londres, a que se seguirão Os Duelos, Afeganistão e Irlanda, O Brasil e Portugal e O Inverno em Londres. Em Dezembro em “O Atlântico” sai Brasil e Portugal, artigo de crónica literária completado em 6 de Fevereiro do ano seguinte.

Em 1881 na “Gazeta de Portugal” insere o artigo Israelismo e, depois, Literatura de Natal, A Irlanda e a Liga Agrária, Lorde Beaconsfield e Acerca de Livros.

Em 26 de Abril de 1883 é eleito sócio correspondente da Academia Real das Ciências, sem nunca lá ter comparecido. Ano seguinte visita a Costa Nova acompanhado da condessa de Resende e de suas filhas, Emília e Benedita. Em A Ilustração inclui A Inglaterra e a França julgadas por um Inglês e em 20 de Agosto, Victor Hugo.

Em 1885, em Um Feixe de Penas publica o conto Suave Milagre. Visita Émile Zola, em Paris. A 25 de Dezembro os pais de Eça declaram oficialmente a sua legitimidade.

A 10 de Fevereiro de 1886 casa-se com Emília de Castro Pamplona (Resende) no Porto, no oratório particular da Quinta de Santo Ovídio. No dia 21 de Abril elabora o prefácio do livro O Brasileiro Soares de Luís de Magalhães. A 12 de Junho escreve o prefácio de Azulejos do Conde de Arnoso.

Em 1887 com o romance A Relíquia concorre ao Prémio D. Luís da Academia Real das Ciências, perdendo em favor da obra O Duque de Viseu de Henrique Lopes de Mendonça. Em Julho elabora, sem a publicar, uma Carta a Camilo Castelo Branco. Elabora uma Carta-Prefácio para Luís de Camões, um poema de Joaquim de Araújo.

Em 1888 em “O Repórter” faz aparecer a crónica A Europa. Em A Ilustração surgem os artigos polémicos A Academia e A Literatura e Ainda sobre A Academia. Em Junho prepara para a “Gazeta de Notícias” a crónica O Testamento de Mecenas, mas não a publica. Também, no mesmo mês, é posto à venda o romance Os Maias. A 28 de Agosto publica-se o decreto que o nomeia cônsul em Paris. Na “Gazeta de Notícias” e em “O Repórter” começa a Correspondência de Fradique Mendes. Em 20 de Setembro toma posse do seu cargo, começando a exercer em Outubro. Escreve A Crítica e Os Maias. Ainda em Outubro fixa residência em Paris. Desenrola-se a polémica com Pinheiro Chagas concernente à atribuição do Prémio D. Luís. Forma-se o grupo dos Vencidos da Vida em Lisboa.

No dia 25 de Fevereiro de 1889 sai em "O Primeiro de Janeiro" o prefácio do livro de João Dinis, Aguarelas. A 24 de Março chega a Lisboa de férias. No dia 29 de Março publica anonimamente Os Vencidos da Vida em "O Tempo". A 1 de Julho sai 1º número da "Revista de Portugal", fundada e dirigida por Eça. Começa a aparecer a versão definitiva da “Correspondência de Fradique Mendes”, agora sob o título de Cartas de Fradique Mendes. Também na “Revista de Portugal” insere, anonimamente, as crónicas El-Rei D. Luís e duas Notas do Mês, a segunda das quais em Dezembro. No mês de Dezembro elabora o artigo Eduardo Prado.

A 11 de Janeiro de 1890 no único número da revista "Anátema" aparece o artigo Fraternidade, com a data de Abril de 1888 e em Fevereiro na “Revista de Portugal” aparece a terceira Nota do Mês. No órgão de propaganda democrática, “Almanaque da República”, faz sair O Inverno em Londres.

Ano seguinte começa a escrever a lenda S. Frei Fil, publica-se em livro, Uma Campanha Alegre.,

Na “Gazeta de notícias” aparece a crónica A Europa em Resumo. E mais tarde, na mesma publicação, surgem A Decadência do Riso, Um Santo Moderno, O Imperador Guilherme, Civilização, Os Grandes Homens da França e Enghelberto e Um Dia de Chuva. Em Maio sai o último número da "Revista de Portugal".

Em 1893 interrompe “S. Frei Gil” e inicia a lenda Vida de Santo Onofre. Em Julho, do mesmo ano, começa a redacção, nunca concluída, do Dicionário de Milagres. Durante este ano também colabora com o jornal a "Gazeta de Notícias" com diversos artigos como A Aia, Uma Colecção de Arte, Cozinha Arqueológica, Descanso dominical etc.

Em Abril de 1894 escreve Em Paris o romance A Ilustre Casa de Ramirez. Continua a colaboração na "Gazeta de Notícias" com os artigos As Festas Russas, Os Anarquistas, Carnot, A Morte e Funeral de Carnot, e com as crónicas Chineses e Japoneses, O Conde de Paris entre muitos outros.

Em 1895 organiza e prefacia “O Almanaque Enciclopédico para 1896”, em colaboração com José Sarmento e Henrique Marques, lançado no fim do ano. Continua a colaboração no jornal "Gazeta de Notícias".

Em 1896 organiza e prefacia “O Almanaque Enciclopédico para 1897”, com os mesmos colaboradores. Publicação de Antero de Quental – In Memoriam com a colaboração de Eça com o texto "Um Génio que era um Santo". Colabora, mais uma vez, na "Gazeta de Notícias".

Colaboração no jornal "Gazeta de Notícias" continua também no ano seguinte e terminará ainda no mesmo ano. Em Paris começa a publicação da "Revista Moderna", com a colaboração de Eça. Dia 20 de Novembro inicia o romance A Ilustre Casa de Ramirez.

Em 1898 na “Revista Moderna” surge a crónica A Rainha.

Em 1899 publica também na “Revista Moderna”, o romance A Cidade e as Serras. Manifesta-se sobre a condenação do capitão Dreyfus, caso da jurisprudência militar francesa, numa carta de 26 de Setembro a Domício da Gama. Começa, mas não chega a terminá-lo, um artigo de crítica literária: O Francesismo.

No mês de Julho de 1900 o estado de saúde do escritor agrava-se. A 13 de Agosto regressa a Paris vindo da Suíça e, sem melhoras, recolhe ao leito. Morre a 16 de Agosto em Neuilly, após doença prolongada. A 17 de Setembro o corpo é transladado para Portugal, realizando-se o funeral no cemitério do Alto de S. João em Lisboa. Postumamente foram publicadas obras: Dicionário de Milagres, A Ilustre Casa de Ramirez, Contos, Prosas Bárbaras, Cartas de Inglaterra, Ecos de paris, Cartas Familiares, Bilhetes de Paris, Correspondência de Fradique Mendes, Notas Contemporâneas, Últimas Páginas, A Capital, O Conde d´Abranhos, Alves&C.ª, O Egipto, Notas de Viagem, Cartas Inéditas de Fradique Mendes, Mais Páginas Esquecidas, Cartas de Lisboa, Correspondência do Reino e Crónicas de Londres.



ROMANCE DE SOCIEDADE

Romance de sociedade foca a sociedade de uma determinada época, observando vários aspectos: moral, social, religioso, económico, político e intelectual. Algumas das principais características é certo realismo, actualidade no assunto, crítica e opinião do autor sobre os problemas presentes na sociedade. Mas é claro, que um romance de sociedade não reflecte exactamente a realidade de sociedade, por isso mesmo é este trabalho feito de maneira para comparar a sociedade lisboeta como a Eça viu com aquela real. A sociedade apresentada no livro é a sociedade dum ponto de vista do autor, é através dos olhos dele que os leitores vêem e conhecem a sociedade.


Século XIX é o século de grande mudança social, porque acontece a ascensão das classes mais altas, cujos membros são politicamente poderosos e socialmente respeitáveis. É também o século de desenvolvimento técnico e económico, que tem grande importância na vida social de cada país. Portugal não acompanhou grande transformação económica que acontecia na Europa, devido às dissidências políticas, ignorância dos operários, falta de matéria prima, etc. Para o atraso económico contribuiu também tratado de Rio de Janeiro de 1810, as invasões francesas e ida da corte para o Brasil. Só depois do ano 1834, quando foi abolido o regime de Corporações e Ofícios, acontece mais progresso que gradualmente aumenta até ao final do século. Todas estas mudanças sociais reflectiam-se na vida das pessoas e estimulam a literatura social. Os romancistas, como Eça de Queiroz, criticam esta sociedade, principalmente a aristocracia agarrada aos antigos privilégios e a burguesia agarrada ao desejo do lucro.
Em Portugal, foi pela geração de Coimbra que o realismo se instalou. Realismo significava uma atitude de protesto contra o idealismo subjectivo. Conferências do Casino de iniciativa de Antero Quental, aceleraram o sucesso da nova geração literária. Existem três grandes influências na escrita de Eça de Queiroz. A primeira é o meio académico de Coimbra em que circulava, seguem as suas viagens pelo estrangeiro, especialmente pelo Oriente, e ainda a influência do realismo francês, principalmente de Flaubert e Zola.
Eça de Queiroz escolhe para o tema da sua obra a sociedade burguesa do tempo. A ideia principal de O Primo Basílio é a dependência do homem da sua vida privada e social do meio ambiente. Eça apresenta aos seus leitores a sociedade em que homem não pode gozar a sua liberdade porque é precisamente essa sociedade que o domina. Se é pobre é obrigado a submeter-se, pelo contrário, se é rico tem que cumprir a etiqueta, as regras.
No romance sente-se esta forte crítica à sociedade de falsas bases e a intenção de Eça de moralizar, mas é sobretudo a ironia que não falta e entretece a obra. Toda esta crítica do autor, todo este ódio tem raízes num certo amor, a intenção de contribuir por um Portugal melhor.
Uma sociedade, sobre estas falsas bases, não está na verdade: atacá-las é um dever. E, neste ponto, O Primo Basílio, não está inteiramente fora da arte revolucionária, creio. Amaro, é um empecilho, mas os Acácios, os Ernestos, os Saavedras, os Basílios são formidáveis empecilhos; são uma bem bonita causa da anarquia no meio da transformação moderna, merecem partilhar com O Padre Amaro da bengala do homem de bem. 1
Concluindo, Eça mostra-nos a sociedade lisboeta mal formada, sem princípios morais, apreciadora de tudo o que é estrangeiro. Achava necessário combater esta sociedade. Obra O Primo Basílio é crítico-educativa, porque ao mesmo tempo critica esta sociedade como a educa.

POPULAÇÃO


Para comparar a sociedade lisboeta do século XIX com a sociedade que é apresentada no livro O Primo Basílio era preciso encontrar alguma fonte de informações que seria tão vasta para nos dar uma completa imagem da sociedade de Portugal. Uma das fontes foi O Censo de 1960 que foi o primeiro dos censos portugueses que incluiu as informações sobre a composição dos agregados domésticos. Publicaram-se pela primeira vez os dados retrospectivos, comparando a população desde 1864. Desta forma foi possível enriquecer este trabalho também pelas informações sobre a população lisboeta, profissões e estrutura familiar. O Censo divide as unidades de residência, “em convivências, como hotéis, pensões, etc., e famílias”2. Famílias correspondem aos agregados domésticos e poderão incluir duas ou mais unidades conjugais. Uma família foi definida como „o grupo de pessoas ligadas por união de parentesco, legítimo ou ilegítimo, que utilizassem habitualmente o mesmo alojamento e a pessoa isolada que ocupasse um alojamento. Os empregados de serviço doméstico das famílias e das pessoas isoladas que com elas residissem foram considerados como fazendo parte da família.” 3 As instruções do Censo divididem a família pela ordem seguinte: chefe da família, a mulher do chefe da família, os filhos e outros descendentes. Segundo esta repartição, na obra O Primo Basílio considera-se como uma família Jorge e Luísa, pois estão casados e partilham o mesmo alojamento, incluindo as criadas Joana e Juliana. Existe mais um caso que se pode considerar como uma família que é Leopoldina com o seu marido. O chefe da família é no primeiro caso Jorge e no segundo o marido de Leopoldina. O resto das personagens não são casadas, nem ligadas por união de parentesco com a pessoa que partilhasse com eles mesmo alojamento, portanto segundo o censo não podem ser consideradas como uma família.
Agregados domésticos dividem-se, segundo a tipologia do Grupo de Cambridge, em “cinco tipos estruturais diferentes: solitários, agregados sem unidade conjugal, agregados familiares simples (casais sem filhos), agregados familiares complexos: alargados e múltiplos (casais com filhos e parentes).”4 As personagens do livro O Primo Basílio ocupam quase todos os antes referidos grupos, com excepção dos agregados não conjugais e agregados familiares complexos, que representam casais com filhos. Incluindo só as personagens principais, na obra de Eça de Queiroz pertence ao grupo de solitários Sebastião, Castro, Julião, Basílio, Conselheiro Acácio, Juliana, Joana e Dona Felicidade e aos agregados familiares simples pertence Jorge, Luísa, Leopoldina e o seu marido.
No livro não está mencionado nem um casal com filhos, também porque na época do século XIX a capital tinha poucas crianças que era resultado da situação socioeconómica no país. „Os grupos menores de catorze anos representavam apenas 21 por cento em 1864 e 26 por cento Em 1900.“ 5 É notável que no fim do século XIX a maioria dos portugueses, quase 61 por cento, eram agregados familiares simples, dito com outras palavras, eram pessoas casadas mas sem filhos. A maioria dos casais nunca chegou a ter filhos, o facto que se reflecte na história do livro.
Na realidade a estrutura familiar era diferente daquela que está apresentada no livro, pois a maioria das pessoas pertencia ao grupo de agregados familiares simples, ao contrário do livro onde mais que metade das personagens eram solitárias. O facto de falta da personagem da criança no livro reflecte a falta de crianças em Portugal oitocentista.
Estrutura familiar em Portugal6:

Solitários: ……………………………………………..14.42 %

Agregados não conjugais:………………………………4.93 %

Maridos ausentes: ………………………………………0.52 %

Agregados familiares simples: ………………………..60.93 %

Agregados familiares complexos: …………………….19.72 %


Relativamente ao emprego quase todas as personagens do livro O Primo Basílio tinham emprego, com excepção de Luísa, Leopoldina e Dona Felicidade, portanto pertenciam à classe socioprofissional. Eça de Queiroz conseguiu que a profissão das suas personagens fosse idêntica às profissões que eram comuns no século XIX como criadas, funcionários do ministério, médicos ou jornalistas, por isso corresponde mesmo à realidade portuguesa de Lisboa. As personagens com emprego eram trabalhadores por conta de outrem, como por exemplo o Jorge que era engenheiro e funcionário de ministério, pertenceu à população activa com profissão assalariada. Segundo o estudo “quase 9O por cento dos lisboetas do fim do século XIX eram trabalhadores por conta de outrem”7 e pelo contrário nem um por cento trabalhava na agricultura. O resultado desta pesquisa confirma que as personagens principais do Primo Basílio, que tinham emprego eram trabalhadores assalariados e desta forma faziam parte de grande grupo dos lisboetas trabalhadores. No livro não é mencionada nem uma personagem de agricultor, pois essa profissão era muito rara na capital, praticava-se muito mais nas aldeias e nas cidades pequenas. O estudo confirma que a “percentagem dos agricultores em Sintra já é significativamente maior que em Lisboa”8.
As personagens da mesma maneira que os burgueses lisboetas preocupavam-se com a cultura e sociedade. Como se sabe as personagens da obra eciana pertenciam à baixa burguesia, de que resulta que não possuíam uma grande quantidade de dinheiro como a alta burguesia ou aristocracia. Com o emprego que tinham, conseguiam ganhar a boa qualidade de vida própria e dos seus próximos, mas era insuficiente para grandes investimentos. Alguns deles ocupavam lugar nas instituições da cidade, mas não existem referências sobre o investimento imobiliário ou urbano, ao contrário da realidade onde a grande parte do “dinheiro possuído pelos burgueses servia para o investimento imobiliário, urbano e rural, que permaneceu mais seguro e prestigiado”.9 Além disso se sabe que as personagens como Sebastião ou Julião tinham problemas no seu trabalho e nunca conseguiam ganhar muito dinheiro.
Na realidade a maioria dos burgueses podiam ser também associados à classe socioprofissional, pois tinham, além da sua posição na sociedade, o emprego bem considerado. “Entre os funcionários superiores, destacaram-se mais os juízes e professores do ensino superior, nas profissões liberais, os médicos e os advogados.”10 Foram estes grupos que dominavam as instituições da cidade e que tinham apego à educação, preocupavam-se com a cultura e artes. “O espírito de negócio era dominante na capital mas nunca se conseguiu grande lucro, por isso burguesia afastava-se deste sector, que era dominado por múltiplas oficinas.”11
Continuando o estudo do ano 1878, o tempo em que se a história do Primo Basílio acontece, a idade “média no casamento das mulheres era 27 anos e dos homens aproximadamente 31 anos.”12 Deste estudo conclui-se que a Luísa que se casou aos 22, entrou no matrimónio cinco anos mais cedo comparando com a idade média de acesso ao matrimónio. Tomando como base o livro As Farpas sabe-se que Eça criticava os casamentos apressados, que resultavam em arrependimento dos noivos e em mal matrimónio. “O celibato definitivo rondava os 25 por cento”13, o que significa que uma em cada quatro pessoas nunca se casou. No livro estão presentes várias personagens solteiras, mas não sabemos a idade exacta de muitas delas, por isso não se pode confirmar a conformidade da história com a realidade quanto ao celibato.

Idade média ao casamento e intensidade do matrimónio, Portugal, 1878: 14



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