Martin buber



Baixar 0.6 Mb.
Página9/12
Encontro18.09.2019
Tamanho0.6 Mb.
1   ...   4   5   6   7   8   9   10   11   12


Mas se a lembrança de sua decadência, de seu EU inatural e de seu EU atual, permitir alcançar a raiz profunda que o homem chama desespero e de onde brotam a autodestruição e a regeneração, isto já seria o início da conversão.
*
75 Segundo relata o Brahmana dos cem caminhos, um dia deuses e demônios disputavam

71

entre si. Então os demônios disseram: “a quem poderíamos apresentar nossa oferta”? E depuseram todas as oferendas nas próprias bocas. Os deuses, porém, depuseram as oferendas cada um na boca do outro. E então Pradshapati, o Espírito primordial, entregou-se aos deuses.


*
Compreende-se que o mundo do ISSO abandonado a si mesmo - isto é, privado do contato do tornar-se TU, aliena-se tornando-se um íncubo; como é possível, no entanto, que, como dizes, o EU do homem perca a sua atualidade? Quer ele viva na relação ou fora dela, o EU garante-se a si mesmo na sua consciência de si; é o fio de ouro ao qual vêm se ordenar os estados intermitentes. Que EU diga: “eu te vejo” ou “eu vejo a árvore” este meu ver pode não ser igualmente atual em ambos os casos, mas o que é igualmente atual nos dois casos, é o EU.

- Senão vejamos, verifiquemos se é assim. A forma lingüística não prova nada; muitos TU proferidos são, fundamentalmente, ISSO, ao qual se diz TU, somente por hábito ou sem pensar. E muitos ISSO expressos significam, no fundo, um TU de cuja presença se guarda, mesmo estando distante, no fundo de seu ser, uma lembrança; assim em inúmeros casos o EU é apenas um pronome indispensável, apenas uma abreviação necessária de “este aqui que fala”. Mas e a consciência de si? Quando, numa frase se emprega o verdadeiro TU da relação e, em outra, o ISSO de uma experiência,

72

e quando em ambos os casos é o EU que verdadeiramente se tem em mente, é do mesmo EU de cuja auto-consciência se fala em ambos os casos?



76 O EU da palavra-princípio EU-TU é diferente do EU do palavra-princípio EU-ISSO.

O EU da palavra-princípio EU-ISSO aparece como egótico22 e toma consciência de si como sujeito (de experiência e de utilização).

O EU da palavra-princípio EU-TU aparece como pessoa e se conscientiza como subjetividade, (sem genitivo dela dependente).

O egótico aparece na medida em que se distingue de outros egóticos.

A pessoa aparece no momento em que entra em relação com outras pessoas.

O primeiro é a forma espiritual da diferenciação natural, a segunda é a forma espiritual do vínculo natural.

A finalidade da separação é o experienciar e o utilizar, cuja finalidade é, por sua vez, “a vida”, isto é, o contínuo morrer no decurso da vida humana.

A finalidade da relação é o seu próprio ser, ou seja, o contato com o TU. Pois, no contato com cada TU, toca-nos um sopro da vida eterna.

Quem está na relação participa de uma atualidade, quer dizer, de um ser que não está unicamente nele nem unicamente fora dele. Toda atualidade é um agir do qual EU participo sem poder dele me apropriar. Onde não há participação não há atualidade. Onde há apropria-

73

ção de si não há atualidade. A participação é tanto mais perfeita, quanto o contato do TU é mais imediato.



77 O EU é atual através de sua participação na atualidade. Ele se torna mais atual quanto mais completa é a participação.

Mas o EU que se separa do evento de relação em direção da separação, consciente desta separação, não perde sua atualidade. A participação permanece nele, conservada como potencialidade viva; ou então, em outro termo usado quando se trata da mais elevada relação e que pode ser aplicado a todas as relações, “a semente permanece nele”. É este o domínio da subjetividade, onde o EU toma consciência simultaneamente tanto de seu vínculo quanto de sua separação. A autêntica subjetividade só pode ser compreendida de um modo dinâmico, como a vibração de um EU no seio de sua verdade solitária. É aqui, também, o lugar onde irrompe e cresce o desejo de uma relação cada vez mais elevada e absoluta, o desejo de uma participação total com o Ser. Na subjetividade amadurece a substância espiritual da pessoa.

A pessoa toma consciência de si como participante do ser, como um ser-com, como um ente. O egótico toma consciência de si como um ente-que-é-assim e não-de-outro-modo. A pessoa diz: “Eu sou”, o egótico diz: “eu sou assim”. “Conhece-te a ti mesmo” para a pessoa significa: conhece-te como ser; para o egótico: conhece o teu modo de ser. Na medida em que

74

o egótico se afasta dos outros, ele se distancia do Ser.



78 Com isso não se quer dizer que a pessoa “renuncie” ao seu modo de ser específico, mas somente isso: este não é somente o seu ponto de vista, mas a forma necessária e significativa de ser. Ao contrário, o egótico se delicia com seu modo-de-ser específico que ele imaginou ser o seu. Pois, para ele, conhecer-se significa fundamentalmente, sobretudo estabelecer uma manifestação efetiva de si e que seja capaz de iludi-lo cada vez mais profundamente; e pela contemplação e veneração desta manifestação procura uma aparência de conhecimento de seu próprio modo-de-ser, enquanto que o seu verdadeiro conhecimento poderia levar ao suicídio ou à regeneração.

A pessoa contempla-se o seu si-mesmo, enquanto que o egótico ocupa-se com o seu “meu”: minha espécie, minha raça, meu agir, meu gênio.

O egótico não só não participa como também não conquista atualidade alguma. Ele se contrapõe ao outro e procura, pela experiência e pela utilização, apoderar-se do máximo que lhe é possível. Tal é a sua dinâmica: o pôr-se à parte e a tomada de posse; ambas operações se passam no ISSO, no que não é atual. O sujeito, tal como ele se reconhece, pode apoderar-se de tudo quanto queira, que daí ele não obterá substância alguma, ele permanece como um ponto, funcional, o experimentador, o utilizador, e nada mais. Todo o seu modo de ser

75

múltiplo ou sua ambiciosa “individualidade” não podem lhe proporcionar substância alguma.



Não há duas espécies de homem; há, todavia, dois pólos do humano.

79 Homem algum é puramente pessoa, e nenhum é puramente egótico; nenhum é inteiramente atual e nenhum totalmente carente de atualidade. Cada um vive no seio de um duplo EU. Há homens entretanto, cuja dimensão de pessoa é tão determinante que se podem chamar de pessoas, e outros cuja dimensão de egotismo é tão preponderante que se pode atribuir-lhes o nome de egótico. Entre aqueles e estes se desenrola a verdadeira história.

Quanto mais o homem e a humanidade são dominados pelo egótico, mais profundamente o EU é atirado na inatualidade. Nestas épocas a pessoa leva, no homem, na humanidade, uma existência subterrânea e velada e, de algum modo, ilegítima - até o momento em que ela será chamada.
*
O homem é tanto mais uma pessoa quanto mais intenso é o EU da palavra-princípio EU-TU, na dualidade humana de seu EU.

O seu dizer-EU - portanto, o que ele quer dizer ao pronunciar EU - decide seu lugar e para onde leva seu caminho. A palavra “EU” é o verdadeiro “shibbolet23 da humanidade.

Então escute!

76

Que distante é o EU do egotista! Ele pode inspirar profunda compaixão, quando sai de uma boca trágica impelida a calar a sua auto-contradição. Ele pode induzir ao medo, quando provém de uma boca caótica que representa a contradição de um modo selvagem despreocupado e sem suspeita.



80 Quando ele provém de uma boca fútil e hipócrita é penoso e repugnante.

Aquele que profere o EU separado, com inicial maiúscula, desvela a desonra do espírito universal, que foi rebaixado até não ser mais que uma espiritualidade.

Porém, como soa de um modo autêntico e belo, o EU tão vivo e enérgico de Sócrates! É o EU do diálogo infinito e o ar de diálogo que o envolve em todos os caminhos até diante de seus juízes e nos últimos instantes da prisão. Este EU vivia na relação com os homens, relação que se encontrava no diálogo. Ele acreditava na atualidade dos homens e ia em sua direção. Assim, ele permaneceu com eles na verdadeira atualidade e esta não o deixa mais. A sua solidão não pode ser considerada abandono e quando o mundo humano permanece silencioso ele ouve o Demônio dizer TU.

Que som belo e autêntico tem o EU de Goethe! É o EU de uma intimidade pura com a Natureza; ela se oferece a ele e lhe fala constantemente, ela lhe revela seus segredos sem, entretanto, trair os seus mistérios. Este EU crê na natureza e fala à rosa “Então és Tu?” e, se une a ela numa mesma atualidade. Quando

77

o EU se volta sobre si mesmo, o espírito do atual permanece com ele, a visão do Sol permanece no olhar feliz que se recorda de sua natureza solar e a amizade dos elementos acompanha o homem até o silêncio da morte e do devir.



81 Assim, ressoa através dos tempos o dizer-EU “adequado, verdadeiro, puro” das pessoas que estão vinculadas, das pessoas socráticas e goetheanas.

E, para apresentar, antecipadamente uma imagem do reino da relação absoluta, quão poderoso é o dizer-EU de Jesus, como um verdadeiro poder de dominação, e quão legitimo, como uma evidência! Afinal, ele é o EU da relação absoluta, na qual o homem atribui a seu TU o nome de Pai, de tal modo que, ele mesmo, não é senão o Filho, nada mais que filho. Quando ele profere EU, ele só pode ter em mente o EU da palavra-princípio sagrada que se tornou absoluta para ele. Se, por acaso, o isolamento o toca, a ligação é mais forte, e é somente do seio desta ligação, que ela fala aos outros. Em vão, procurais reduzir este EU a um mero poder em si ou este TU a algo que habita em nós e uma vez mais procurar desatualizar o atual, a relação presente, ambos, EU e TU, subsistem. Cada um pode dizer TU, sendo assim um EU, cada um pode dizer Pai, sendo assim Filho: a atualidade permanece.


*
78

Mas o que acontecerá, se a missão de um homem exige que ele só conheça o vínculo com sua causa, e então desconheça qualquer relação atual com um TU e a presentificação do TU, de modo que tudo aquilo que o envolve se torne um ISSO, um ISSO útil à sua causa?

82 Que tal o dizer-EU de Napoleão? Não é ele legítimo? Este fenômeno do experienciar e do utilizar não é uma pessoa?

Na realidade, o mestre do século, ignorou a dimensão do TU. Isso ficou bem caracterizado quando se afirmou que todos os seres eram para ele valore.24 Ele que, em um sentido benévolo, comparou com Pedro aqueles seus seguidores que o renegaram após sua queda, a ninguém poderia renegar, pois, não havia pessoa alguma a quem reconhecesse como ser presente. Para multidões, ele era o TU demoníaco, aquele que não responde, aquele que responde ao TU com um ISSO, aquele que, na dimensão pessoal responde ficticiamente; aquele que somente responde na sua esfera, no âmbito de sua causa e somente por seus atos. Tal é o limite histórico e elementar onde a palavra-princípio da ligação perde sua realidade, seu caráter de reciprocidade: é o TU demoníaco, para o qual nenhum ente pode tornar-se um TU.

Este terceiro tipo de EU, ao lado da pessoa e do egótico, que não é nem o homem livre nem o homem do arbitrário, nem se situa entre eles, existe, postado de uma maneira fatal, nas grandes épocas do destino; todos se entusiasmam

79

ardentemente por ele, enquanto que ele próprio permanece em um fogo gélido; aquele ao qual milhares de relações se dirigem, mas da qual nenhuma provém; ele não participa de nenhuma atualidade, mas ele é como uma atualidade da qual todas participam intensamente.



Na verdade, ele não vê os entes que estão em sua volta, senão como máquinas capazes de diversas realizações, que devem ser avaliadas e utilizadas para o bem de sua causa.

83 Assim, também ele se vê a si mesmo, (ele deve apenas por à prova seu próprio poder de realização, através de experiências renovadas incessantemente, sem no entanto experimentar o próprio limite). Ele próprio usa a si mesmo como um ISSO.

E mais, seu dizer-EU carece de vivacidade, de energia e plenitude; e com mais razão ele não procura, (como o egotista moderno), passar por tal. Ele não fala de si mas “a partir de si”. Falado ou escrito, o seu EU é, nada mais nada menos, que o indispensável sujeito gramatical de uma frase de suas constatações e de suas ordens; ele não possui subjetividade, mas ele nada tem a ver com a consciência que se ocupa de seu modo de ser e, com maior razão, ele não se ilude com sua auto-manifestação. “Eu sou o relógio que existe sem se conhecer”. Assim, ele próprio manifestou a sua fatalidade, a atualidade deste fenômeno e a inatualidade de seu EU, na época em que ele, expulso de sua causa, podia e devia, afinal, pensar sobre si e falar de si, e somente agora

80

podia considerar o seu EU, que só agora se revelava. Este EU, que ora emerge, não é simplesmente sujeito, mas também não atinge a subjetividade; livre do encanto que o envolvia, mas não redimido, ele se expressa nestes termos terríveis, ao mesmo tempo legítimos e ilegítimos: “O Universo nos contempla!” e finalmente mergulha novamente no mistério.



Quem ousaria afirmar que esse homem, depois de tal carreira e de tal queda, tenha compreendido sua missão terrível e monstruosa, ou então que ele a tenha entendido mal?

84 O que é certo é que a época, cujo senhor e modelo foi o homem demoníaco e carente de presença, não o compreendeu. Ela desconhece que neste homem reinava não o ardor e o prazer de poder, mas a missão fatal e o dever a cumprir. A época se entusiasma com a altivez soberana desta fronte, mas não suspeita que sinais estão aí inscritos, como as cifras no mostrador de um relógio. Ela se aplica a imitar este olhar dirigido para os seres, sem notar o que, nele, é necessidade ou coação e confunde o rigor objetivo deste EU com a agitação da consciência de si. A palavra EU permanece o “Shibboleth” da humanidade. Napoleão o proferiu sem o poder de relação, mas ele o pronunciou como o EU do ato da execução. Quem se esforça em repeti-lo, denuncia a impossibilidade de salvação de sua própria autocontradição.


*
81

O que é autocontradição?

Quando o homem não põe à prova, no mundo, o a priori da relação, efetivando e atualizando o TU inato no TU que ele encontra, então ele se introverte. Ele se manifesta ao contato com o EU não natural, impossível objeto, isto é, ele se desvela ali onde não há lugar para a revelação. Assim instaura-se um confronto consigo mesmo que não pode ser relação, presença, reciprocidade fecunda mas somente autocontradição. O homem pode tentar interpretá-la como uma relação, por exemplo, uma relação religiosa para escapar do horror de ser seu espectro; ele deverá sem cessar descobrir a falsidade desta interpretação.

85 Aqui se situa o limite da vida. Aqui, algo irrealizado refugia-se numa aparência demente de realização; por ora ele tateia, de um lado para o outro, nos labirintos, onde se perde cada vez mais.


*
Às vezes, quando o homem estremece na alienação entre o EU e o mundo, ocorre-lhe o pensamento de que algo deva ser feito. Como quando repousas, na pior hora no meio da noite, atormentado por um pesadelo, estando acordado, quando os baluartes desmoronam-se e os abismos vociferam e percebes no fundo do teu ser, que a vida subsiste e que deves voltar ao seu encalço; mas como? Assim é o homem nos instantes de recordação, horrorizado, pensativo, desorientado. E, talvez, conheça ainda, no

82

seu âmago profundo, a direção com o conhecimento não amado da profundeza, a autêntica direção que pela oferta, leva até a conversão. Mas ele repudia este conhecimento; o sol artificial da noite25 não pode suportar o que é “místico”. Ele chama para si o pensamento no qual ele, com razão confiou profundamente: tal pensamento deve remediar tudo. Não é a grande arte do pensamento o fato de pintar uma imagem do mundo cheia de confiança e digna de fé? Assim fala o homem aos seus pensamentos: “veja este monstro terrível estirado aí com seus olhos cruéis, não é, por acaso, o mesmo com o qual EU brinquei outrora? Lembras como eles me sorriam com estes mesmos olhos, que eram tão bons?”



86 “E vê, meu EU miserável, quero confessar-te francamente: ele é vazio, e tudo o que sempre faço por experiência e utilização não penetra no fundo de sua caverna. Não queres reconciliar-nos novamente, ele e eu, de tal maneira que ele se libere e EU me restabeleça?”

E o pensamento dócil e habilidoso pinta, com sua rapidez bem conhecida, uma, ou antes, duas séries de imagens sobre as paredes da direita e da esquerda. De um lado está o universo, (ou antes acontece o universo, visto que as imagens do mundo do pensamento são autênticas cinematografias). A minúscula Terra emerge do turbilhão dos astros, e, do fervilhamento sobre a terra, emerge o pequeno homem, e assim a história o transporta através dos tempos, para que ele reconstrua com persistência

83

os formigueiros das civilizações, que ela aniquila. Abaixo desta série de imagens está escrito: “Um e Todo”. Do outro lado surge a alma. Uma fiandeira tece a órbita de todos os astros, a vida de todas as criaturas e toda a história universal; tudo isso é um fio da mesma tessitura e não se chama mais, doravante, astros, criaturas e mundo mas sensações, representações ou até vivências e estados da alma. E logo abaixo desta série de imagens lê-se: “Um e Todo”.



Doravante, quando o homem estremece na alienação e o mundo o angustia, ele levanta o olhar (para a direita ou para a esquerda, pouco importa) e avista uma imagem.

87 Então, ele vê que o EU está contido no mundo e que, na verdade não há EU, e, por isso, o mundo não pode prejudicá-lo, e, então ele se tranqüiliza; ou, então, ele vê que o mundo está contido no EU, e que, afinal, não há mundo, e, por isso, ele também não pode prejudicar o EU, o que tranqüiliza também. E uma outra vez, quando o homem se estremece na alienação e o seu EU o aterroriza, ele levanta os olhos e vê uma imagem, pouco importa qual: ou o EU vazio está totalmente repleto de mundo ou submerso na torrente do mundo, e ele se tranqüiliza.

Porém, chega um momento, que, aliás, está próximo, em que o homem que estremece levanta os olhos e vê, num só relance, as duas imagens de uma vez. E então um tremor mais profundo se apodera dele.

84

TERCEIRA PARTE



91 As linhas de todas as relações, se prolongadas, entrecruzam-se no TU eterno.

Cada TU individualizado é uma perspectiva para ele. Através de cada TU individualizado a palavra-princípio invoca o TU eterno. Da mediação do TU de todos os seres, surge não só a realização das relações para com eles mas também a não realização. O TU inato realiza-se em cada uma delas, sem, no entanto, consumar-se em nenhuma. Ele só se consuma plenamente na relação imediata para com o TU que, pela sua própria essência, não pode tornar-se ISSO.

Os homens têm invocado o seu TU eterno sob vários nomes. Quando cantavam aquele que era assim chamado, pensavam sempre no TU; os primeiros mitos foram cantos de louvor. Os nomes entraram, então, na linguagem do ISSO; um impulso cada vez mais poderoso levou os homens a pensarem no seu TU Eterno e falar dele como de um ISSO. Todos os nomes de Deus permanecem, no entanto, santificados, pois, não se fala somente sobre Deus, mas também se fala com Ele.

Muitos quiseram admoestar que o nome de Deus fosse usado corretamente, pois ele estava demasiadamente mal empregado. E, certamente, é o nome mais densamente pesado de todos os nomes humanos. E por esta razão, é o mais imperecível e indispensável. E que importam as

87

divagações errôneas a respeito da essência de Deus e das obras de Deus (aliás, só houve e haverá afirmações erradas sobre isso) em vista da Verdade Una de que todos os homens que invocaram a Deus, tinham em mente Ele mesmo?



92 Pois, aquele que, proferindo a palavra Deus, quer significar realmente TU, não importa de que ilusão esteja tomado, invoca o verdadeiro TU de sua vida, o qual não pode ser limitado por nenhum outro e com o qual ele está em uma relação que engloba todas as outras.

Mas também invoca Deus, aquele que abomina este nome e crê estar sem Deus quando invoca, com o impulso de todo o ser, o TU de sua vida, como aquele que não pode ser limitado por nenhum outro.


*
Quando, seguindo nosso caminho, encontramos um homem que, seguindo o seu caminho, vem ao nosso encontro, temos conhecimento somente de nossa parte do caminho, e não da sua, pois esta nós vivenciamos somente no encontro.

Do evento perfeito da relação conhecemos, por tê-la vivido, a nossa saída, a nossa parte do caminho. A outra nos acontece, nós não a conhecemos. Ela acontece para nós no encontro. É, na verdade, uma presunção de nossa parte, falar sobre ela como se fosse de algo além do encontro.

O que deve nos ocupar, aquilo pelo que nós devemos nos interessar, não é a outra parte,

88

mas a nossa; não é a graça mas a vontade. A graça nos diz respeito, na medida em que nós avançamos para ela e aguardamos a sua presença; ela não é nosso objeto.



93 O TU se apresenta a mim. EU, porém, entro em uma relação imediata com ele. Assim, a relação é, ao mesmo tempo, escolher e ser escolhido, passividade e atividade. Do mesmo modo, uma ação do ser em sua totalidade como supressão de todas as ações parciais, e, por conseguinte, de todas as sensações de ação (as que não são fundamentadas senão em sua limitação recíproca), deve tornar-se necessariamente semelhante a uma passividade.

Esta é a atividade do homem que atingiu a totalidade, a atividade que se chamou o fazer-nada, onde nada mais isolado, nada parcial se move no homem e, também nada dele intervêm no mundo; onde é o homem total, encerrado e repousado em sua totalidade que atua; onde o homem tornou-se uma totalidade atuante. Ter conquistado a firmeza nesta disposição, significa estar preparado para o encontro supremo.

Para tanto não é necessário o despojar-se do mundo sensível como um mundo de aparência. Não há mundo aparente, só existe o mundo que, sem dúvida, se nos revela duplo, visto que nossa atitude é dupla. Só deve ser quebrado o encanto da separação. Não é necessária, também, a “superação da experiência sensível”; cada experiência, mesmo a mais espiritual, não poderia nos fornecer senão um

89

ISSO. Não é preciso, também dirigir-se a um mundo de idéias e valores que não nos pode tornar-se presente. Nada disso é necessário. Pode-se dizer o que é preciso? Porém não no sentido de uma prescrição. Nada do que algum dia foi inventado e imaginado nas épocas do espírito humano em matéria de prescrições, de preparação, de prática ou meditação, tem algo a ver com o fato originariamente simples do encontro.



94 Qualquer que seja o proveito no conhecimento ou a eficácia de tal ou tal atividade, nada disso interfere naquilo de que é aqui tratado. Esta realidade diz respeito ao mundo do ISSO e não impele a dar nenhum passo, o passo que nos faria sair dele. Não são prescrições que nos ensinam a saída. Isso só se pode demonstrar, na medida em que se estabelece um círculo que exclui tudo o que não é esta saída do mundo do ISSO. Então torna-se patente, a única coisa que importa: a perfeita aceitação da presença.

Naturalmente, quanto mais longe o homem adentrou-se no isolamento, tanto mais a aceitação implica um risco mais pesado, uma conversão mais fundamental; não se trata de algo como a renúncia do EU, como o misticismo supõe geralmente; o EU sendo indispensável a cada relação o é também para a relação mais elevada, a qual só pode acontecer entre EU e TU; não se trata da renúncia do EU mas do falso instinto da auto-afirmação que impele o homem a fugir do mundo incerto, inconsistente, passa-

90

geiro, confuso e perigoso da relação, em direção ao ter das coisas.


*
Toda relação atual com um ser presente no mundo é exclusiva. O seu TU é destacado, posto à parte, o único existente diante de nós.

95 Ele enche o horizonte, não como se nada mais existisse, mas tudo o mais vive na sua luz. Enquanto dura a presença da relação sua amplidão universal é incontestável. Porém, desde que um TU se torna um ISSO a amplidão universal da relação parece uma injustiça para com o mundo e sua exclusividade como uma exclusão do universo.




1   ...   4   5   6   7   8   9   10   11   12


©aneste.org 2017
enviar mensagem

    Página principal