Martin buber



Baixar 0.6 Mb.
Página7/12
Encontro18.09.2019
Tamanho0.6 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   12


39 No primeiro caso, ele só poderia encontrá-lo na relação, no segundo, só a partir dela. Somente agora, ele experiencia as coisas como soma de qualidades. Sem dúvida, qualidades referentes ao TU de cada evento de relação foram acumuladas em sua memória mas, somente agora, as coisas se compõem de suas qualidades;

33

ele só pode atingir o núcleo poderoso, revelado, a ele no TU, englobando todas as qualidades, isto é, a substância, na medida em que procura na lembrança da relação conservada em estado de sonho, de imagem ou de pensamento segundo a característica própria deste homem. De fato, somente agora ele ordena as coisas em uma conexão espacio-temporal-causal; somente agora, ele determina a cada uma o seu lugar, a sua evolução, a sua mensurabilidade, a sua condição. O TU se revela no espaço, mas, precisamente, no face-a-face exclusivo no qual tudo o mais aparece como cenário, a partir do qual ele emerge mas que não pode ser nem seu limite nem sua medida. Ele se revela no tempo, mas no sentido de um evento plenamente realizado, que não é uma simples parte de uma série fixa e bem organizada, mas sim o tempo que se vive em um “instante”, cuja dimensão puramente intensiva não se define senão por ele mesmo. O TU se manifesta como aquele que simultaneamente exerce e recebe a ação, sem estar no entanto, inserido numa cadeia de causalidades, pois, na sua ação recíproca com EU, ele é o princípio e o fim do evento da relação. Eis uma verdade fundamental do mundo humano: somente o ISSO pode ser ordenado. As coisas não são classificáveis senão na medida em que, deixando de ser nosso TU, se transformam em nosso ISSO. O TU não conhece nenhum sistema de coordenadas.



40 Porém, tendo chegado até aqui, se faz necessário afirmar também outro aspecto sem o

34

qual, a primeira parte da verdade - fundamental, não seria senão um fragmento inútil: o mundo ordenado não significa a ordem do mundo. Há momentos em que, sem motivo aparente, a ordem do mundo se apresenta como presente. Percebe-se, então, o tom do qual o mundo ordenado é nota indecifrável. Tais momentos são imortais, mas são também os mais fugazes. Deles não se pode conservar nenhum conteúdo, mas, em contrapartida a sua força integra a criação e o conhecimento do homem, as irradiações de sua força penetram no mundo ordenado, fundindo-o incessantemente. Tal é a história do indivíduo, tal a história da espécie.



O mundo é duplo para o homem pois sua atitude é dupla.

Ele percebe o ser em torno de si, as coisas simplesmente e os entes como coisas; ele percebe o acontecimento em seu redor, os fatos simplesmente e as ações enquanto fatos, coisas compostas de qualidades, fatos compostos de momentos, coisas inseridas numa rede espacial, e fatos numa rede temporal, coisas e fatos limitados por outras coisas e fatos, mensuráveis e comparáveis entre si, um mundo bem ordenado e um mundo separado.

41 Este mundo inspira confiança, até certo ponto; ele apresenta densidade e duração, numa estrutura que pode ser abrangida pela vista, ele pode ser sempre retomado, repetido com olhos fechados e experienciado com olhos abertos; ele está ai, junto à tua pele, se TU o consentes, encolhido em tua alma, se TU assim o preferes. Ele é teu obje-

35

to, permanecendo assim segundo tua vontade, e no entanto, ele permanece totalmente alheio seja fora de ti ou dentro de ti. TU o percebes, fazes dele tua “verdade”, ele se deixa tomar mas não se entrega a ti. Ele é o único objeto a respeito do qual TU te podes “entender” com o outro. Mesmo que ele se apresente de um modo diferente a cada um, ele está pronto a ser para ambos um objeto comum, mas nele TU não podes te encontrar com o outro. Sem ele TU não podes subsistir, TU te conservas graças à sua segurança mas se te reabsorveres nele, serás sepultado no nada.



Por outro lado, o homem encontra o Ser e o devir como aquilo que o confronta mas sempre como uma presença e cada coisa ele a encontra somente enquanto presença; aquilo que está presente se descobre a ele no acontecimento e o que acontece, se apresenta a ele como Ser. Nada mais lhe está presente a não ser isso, mas isso enquanto mundano. Medida e comparação desaparecem. Depende de ti que parte do incomensurável se tornará atualidade para ti. Os encontros não se ordenam de modo a formar um mundo, mas cada um dos encontros é para ti um símbolo indicador da ordem do mundo. Os encontros não são inter-relacionados entre si, mas cada um te garante o vínculo com o mundo.

42 O mundo que assim te aparece não inspira confiança, pois ele se revela cada vez de um modo e, por isso, não podes lembrar-te dele. Ele não é denso, pois nele, tudo penetra tudo; ele não tem duração, pois,

36

vem sem ser chamado e desaparece quando se tenta retê-lo. Ele é confuso, se TU quiseres esclarecê-lo, ele escapa. Ele vem a ti para buscar-te; porém se ele não te alcança, se ele não te encontra, se dissipa; ele virá novamente, sem dúvida, mas transformado. Ele não está fora de ti. Ele repousa no âmago de teu ser, de tal modo que, se te referes a ele como “alma de minha alma”, não dizes nada de excessivo. Guarda-te, no entanto, da tentativa de transferi-lo para a tua alma, TU o aniquilarias. Ele é teu presente, e somente na medida em que tiveres como tal é que terás a presença; podes fazer dele teu objeto, experienciá-lo e utilizá-lo, aliás, deves proceder assim continuamente, mas, então, não terás mais presença alguma. Entre ele e ti existe a reciprocidade da doação; TU lhe dizes TU, e te entregas a ele; ele te diz TU e se entrega a ti. Não podes entender-te com ninguém a respeito dele, és solitário no face-a-face com ele, mas ele te ensina a encontrar o outro e a manter o seu encontro. E através da benevolência de sua chegada e da melancolia de sua partida, ele te conduz até o TU no qual se encontram as linhas, apesar de paralelas, de todas as relações. Ele não te ajuda a conservar-te em vida ele dá, porém, o pressentimento da eternidade.


*
O mundo do ISSO é coerente no espaço e no tempo.

37

O mundo do TU não tem coerência nem no espaço nem no tempo.



43 Cada TU, após o término do evento da relação deve necessariamente se transformar em ISSO.

Cada ISSO pode, se entrar no evento da relação, tornar-se um TU.

Estes são os dois privilégios fundamentais do mundo do ISSO. Eles impelem o homem a considerar o mundo do ISSO como o mundo no qual se deve viver, no qual se pode viver, o mundo que oferece toda espécie de atrações e estímulos de atividades e conhecimentos.

No interior desta crônica forte e salutar, os momentos de encontro com o TU se manifestam como episódios singulares, lírico-dramáticos, sem dúvida, de um encanto sedutor, mas que, no entanto, nos induzem perigosamente a extremos que debilitam a solidez já provada, e deixam atrás deles mais questões que satisfações, abalando nossa segurança. Eles são não só inquietantes, mas indispensáveis. Já que devemos, após estes momentos, voltar ao “mundo”, por que não permanecer nele? Por que não chamar à ordem o que está diante de nós, no face-a-face, e não remetê-lo ao mundo dos objetos? Já que não se pode deixar de dizer TU, alguma vez, ao pai, à esposa, ou ao companheiro por que não dizer TU pensando ISSO? produzir o som TU através dos órgãos vocais, não significa de modo algum proferir a palavra-princípio tão pouco tranqüilizadora; sussurrar do fundo da alma um TU amoroso é inofensivo

38

enquanto não se tem em mente outra coisa senão experienciar e utilizar.



Não se pode viver unicamente no presente; ele poderia consumir alguém se não estivesse previsto que ele seria rápida e radicalmente superado. Pode-se, no entanto, viver unicamente no passado, é somente nele que uma existência pode ser realizada. Basta consagrar cada instante à experiência e à utilização que ele não se consumirá mais.

E com toda a seriedade da verdade, ouça: o homem não pode viver sem o ISSO, mas aquele que vive somente com o ISSO não é homem.

39
*

SEGUNDA PARTE

47 A história do indivíduo e a história do gênero humano, embora possam separar-se uma da outra, estão de acordo em todo o caso em um ponto: ambas manifestam um crescimento progressivo do mundo do ISSO.

Coloca-se em dúvida este fato no caso da história da espécie; acentua-se que, na gênese das civilizações sucessivas encontra-se um estado de primitividade que, embora com coloridos diversos, é, no entanto, estruturada de modo idêntico. E segundo este estado primitivo tais civilizações iniciam com um pequeno mundo de objetos. Com isso não seria a vida da espécie mas a de cada civilização em particular que corresponderia à vida do indivíduo. Porém, se se observar aquelas civilizações que aparecem isoladas, nota-se que aquelas que receberam historicamente a influência de outras civilizações adotaram o seu mundo do ISSO em um estado bem determinado, intermediário entre seu estado primitivo e seu estado de pleno desenvolvimento. Isto acontece seja através da assimilação direta de civilizações contemporâneas, como no caso da Grécia e Egito, seja através da assimilação indireta de civilizações passadas, como no caso da cristandade medieval, herdeira da civilização grega. Elas ampliam o seu mundo do ISSO não unicamente através de sua própria experiência, mas também graças à

43

afluência de experiências de outrem; somente então, com este crescimento, realiza-se o desabrochamento decisivo e seu poder de descoberta. Por enquanto faz-se abstração da contribuição importante para isso, da contemplação e dos atos que são atribuídos ao mundo do TU.



48 Pode-se dizer com isso que, em geral, o mundo do ISSO de uma determinada civilização, é mais extenso do que o da precedente, e, apesar de algumas paradas e retrocessos aparentes, pode-se perceber claramente na história um aumento progressivo do mudo do ISSO. Fundamentalmente não importa aqui, se a “imagem do mundo” de uma determinada civilização ressalte mais um caráter de finitude ou de infinitude ou melhor de não-finitude; na realidade, um mundo “finito” pode muito bem incluir maior número de partes, de coisas, de fenômenos do que um mundo “infinito”. É necessário também observar que se trata de comparar não somente a extensão dos conhecimentos da natureza mas também a proporção tanto das diferenças sociais como das realizações técnicas; estes dois últimos aspectos tendem a ampliar o mundo dos objetos.

O contato originário do homem com o mundo do ISSO implica a experiência que, sem cessar, constituía este mundo e a utilização que o conduz a seus múltiplos fins, visando a conservar, a facilitar, a equipar a vida humana. A medida em que se amplia o mundo do ISSO, deve progredir também a capacidade de experimentar e utilizar. O indivíduo pode, sem dú-

44

vida, substituir cada vez mais a experiência direta pela experiência indireta ou pela “aquisição de conhecimentos”; ele pode reduzir cada vez mais a utilização, transformando-a em “aplicação” especializada; não obstante seja indispensável que essa capacidade se desenvolva de geração em geração. É nisto que se pensa quando se fala de um desenvolvimento progressivo da “vida espiritual”.



49 Com isto, com efeito, a gente se torna culpado do verdadeiro pecado verbal contra o Espírito; pois esta “vida espiritual” representa geralmente um obstáculo para uma vida do homem no Espírito; ela é, quanto muito, a matéria que, depois de vencida e modelada, a vida do Espírito deve consumir. É um obstáculo, pois a capacidade de experimentação e de utilização se desenvolve no homem freqüentemente, em detrimento de sua força-de-relação, único poder, aliás, que lhe permite viver no Espírito.
*
O espírito13 em sua manifestação humana é a resposta do homem a seu TU. O homem fala diversas línguas - língua verbal, língua da arte, da ação mas o espírito é um, e este espírito é a resposta ao TU que se revela dos mistérios, e que do seio deste mistério o chama. O espírito é palavra. Assim como a fala se torna palavra primeiramente no cérebro do homem e em seguida som em sua laringe - ambos não são, aliás, senão reflexos

45

do verdadeiro fenômeno, já que, na verdade não é a linguagem que se encontra no homem, mas o homem se encontra na linguagem e fala do seio da linguagem - assim também acontece com toda palavra e com todo espírito. O espírito não está no EU, mas entre o EU e o TU. Ele não é comparável ao sangue que circula em ti mas ao ar que respiras. O homem vive no Espírito na medida em que pode responder a seu TU. Ele é capaz disso quando entra na relação com todo o seu ser. Somente em virtude de seu poder de relação que o homem pode viver no espírito.



50 Mas é aqui que se levanta, com toda a sua força, a fatalidade do fenômeno da relação. Quanto mais poderosa é a resposta, mais ela enlaça o TU, tanto mais o reduz a um objeto. Somente o silêncio diante do TU, o silêncio de todas as línguas, a espera silenciosa da palavra não formulada, indiferenciada, pré-verbal, deixa ao TU sua liberdade, estabelece-se com ele na retenção onde o espírito não se manifesta mas está presente. Toda resposta amarra o TU ao mundo do ISSO. Tal é a melancolia do homem, tal é também sua grandeza. Pois, assim, surgem no seio dos seres vivos o conhecimento, a obra, a imagem e o modelo.

Tudo, porém, que deste modo se transformou em ISSO, tudo o que se consolidou em coisa entre coisas, recebeu por sentido o destino de se transformar continuamente. Sempre de novo - tal foi o sentido da hora em que o espírito se apoderou do homem e lhe mos-

46

trou a resposta - o objeto deve consumir-se para se tornar presença, retornar ao elemento de onde veio para ser visto e vivido pelo homem como presente.



O homem que se conformou com o mundo do ISSO, como algo a ser experimentado e a ser utilizado, faz malograr a realização deste destino: em lugar de liberar o que está ligado a este mundo ele o reprime; em lugar de contemplá-lo ele o observa14, em lugar de acolhê-lo serve-se dele.

51 Primeiramente o conhecimento: é na contemplação de um face-a-face, que o ser se revela a quem o quer conhecer. O que o homem viu pode considerá-lo como um objeto, compará-lo com outros objetos, ordenar em classes de objetos, descrever e decompor objetivamente, porque nada pode ser integrado na soma de conhecimento, senão na qualidade de um ISSO. Na contemplação, porém, não se tratava de coisa entre coisas, de um processo entre processos, era exclusivamente a presença. O ser não se comunica na lei deduzida depois de aparecer o fenômeno mas sim no fenômeno mesmo. Pensar o geral significa somente desenrolar o novelo do fenômeno que foi contemplado no particular, isto é, na reciprocidade do face-a-face. E agora isso foi incluído na forma de ISSO do conhecimento conceitual. Quem o extrair daí e o contemplar de novo na presença, realiza no sentido daquele ato de conhecimento como algo que é atual e operante entre os homens. Há outro modo de conhecer quando

47

se constata: “eis como acontece, eis como isso se chama, como a coisa é construída, eis seu lugar”; nesse caso se toma como ISSO aquilo que se tornou ISSO, experimenta-se e utiliza-se como ISSO, serve-se dele entre outros meios para a tarefa de se “orientar” no mundo e em seguida para conquistá-lo.



Acontece o mesmo com a arte: é na contemplação de um face-a-face que a forma se revela ao artista. Ele a fixa numa imagem. A imagem não habita em um mundo de deuses mas neste vasto mundo dos homens. Sem dúvida ela está “aí” e, ainda que nenhum olhar humano a procure; mas ela dorme. O poeta chinês conta que os homens não apreciavam ouvir a canção que ele tocava em sua flauta de jade. Tocou-a, então, aos deuses e estes a escutaram; desde então também os homens escutaram a canção; ele desceu pois dos deuses até os homens até aqueles cuja imagem não poderia se prescindir. Como em um sonho, ele procura o encontro com o homem a fim de quebrar o encanto e abraçar a forma por um instante atemporal. Em seguida ele veio e experienciou aquilo que deveria ser experienciado: assim isso é feito, assim é expresso, tais são as qualidades da imagem e, em suma, qual o lugar que lhe cabe.

Não que a inteligência científica e estética não tenham papel algum a desempenhar: mas ela deve realizar fielmente sua obra e mergulhar na verdade superinteligível da relação que envolve todo inteligível.

48

Em terceiro lugar, existe o ato puro, a ação sem arbitrariedade. É um domínio acima do espírito do conhecimento e do espírito da arte, porque aí o homem corporal é efêmero não é obrigado a gravar sua marca em uma matéria mais durável que ele, mas ele mesmo sobrevive a ela enquanto imagem, e eleva-se ao céu estrelado do espírito cercado pela música de sua palavra viva. É aí que o TU provindo de um profundo mistério aparece ao homem, lhe fala do seio das trevas e é aí que o homem lhe respondeu com sua vida.



53 Aqui, muitas vezes, a palavra tornou-se vida e esta vida é ensinamento, quer ela tenha cumprido a lei quer a tenha transgredido - estas duas circunstâncias são, na verdade, necessárias para que o espírito não morra sobre a terra. Assim, ela permanece para a posteridade, para instruí-la, não a respeito do que é ou deve ser, mas sobre a maneira de como se vive no espírito, na face do Tu. E isso significa que ela mesma está pronta, a qualquer momento, a tornar-se para a posteridade um TU e lhe abrir o mundo do TU. Ou antes, não, ela não está pronta, mas ela se dirige para sempre aos homens e os interpela. Estes, porém, indiferentes e incapazes para tal contato vivo que lhe abriria o mundo, estão bem informados. Eles aprisionaram a pessoa na história, e seus ensinamentos nas bibliotecas; eles codificaram indiferentemente o cumprimento ou a violação das leis, e são pródigos na auto-veneração ou mesmo na auto-adoração sempre bem camuflada com psicologia, como é próprio

49

do homem moderno. Oh! semblante solitário como um astro na escuridão. Oh! dedo vivo colocado sobre uma fronte insensível.



Oh! ruídos de passos cambaleantes.
*
O aperfeiçoamento da função de experimentação e de utilização realiza-se, geralmente, no homem em detrimento de seu poder de relação.

Mas como procede com os seres vivos que o rodeiam, esse mesmo homem que transformou o espírito para torná-lo instrumento de prazer?

54 Submisso à palavra-princípio da separação, afastando o EU do ISSO, dividiu sua vida com homens em duas “zonas” claramente delimitadas: as instituições e os sentimentos. Domínio do ISSO e domínio do EU.

As instituições são o “fora”, onde se está para toda sorte de finalidades, onde se trabalha, se faz negócios, se exerce influência, se faz empreendimentos, concorrências, onde se organiza, administra, exerce uma função, se prega; é a estrutura mais ou menos ordenada e aproximadamente correta na qual se desenvolve, com o concurso múltiplo de cabeças humanas e membros humanos, o curso dos acontecimentos.

Os sentimentos são o “dentro”, onde se vive e se descansa das instituições. Aí o espec-

50
tro das emoções vibra diante do olhar interessado; aí o homem usufrui sua ternura, seu ódio, seu prazer e sua dor, quando esta não é muito violenta. Aí a gente se sente em casa, se estira na cadeira de balanço.

As instituições são um fórum complexo, os sentimentos são um recinto fechado mas rico em variações.

Na verdade, a delimitação, entre ambos, está sempre ameaçada, pois os sentimentos caprichosos, penetram, às vezes, nas mais sólidas instituições; todavia, com um pouco de boa vontade, chega-se sempre a restabelecê-la.

É nas regiões da vida, assim chamadas pessoais, que a delimitação segura é mais difícil. No matrimônio, por exemplo, é, às vezes, difícil de se realizar ainda que afinal se consiga. Esta demarcação se realiza perfeitamente nos âmbitos da, assim chamada, vida pública.

55 Considere-se, p. ex.: com que segurança na vida dos partidos bem como nos grupos que se julgam acima dos partidos, e nos seus “movimentos”, se alternam as assembléias revolucionárias com a pequena rotina dos negócios - regular como um mecanismo ou desenvolto como um organismo.

Mas o ISSO desvinculado das instituições é um Golem15 e o EU separado dos sentimentos é uma alma-pássaro16 que volita. Ambos desconhecem o homem: aquelas, somente um exemplar: estes, somente um objeto; nenhuma conhece a pessoa, a comunidade. Ambos desconhecem a presença; aquelas, as instituições,

51

mesmo as mais modernas, conhecem somente o passado estagnado, o ser acabado; os sentimentos, mesmo os mais duradouros, não conhecem senão o instante fugaz, aquilo que ainda não existe. Ambos não têm acesso à vida atual. As instituições não geram a vida pública, os sentimentos não criam a vida pessoal.



Com dor crescente, e em número cada vez maior, sentem os homens que as instituições não geram a vida pública. É daí que provém a angústia sequiosa deste século. Que os sentimentos não geram a vida pessoal, poucas pessoas o compreendem ainda, pois, parece que é neles que reside o que se tem de mais pessoal. Quando se aprende, como o homem moderno, a dar muita importância aos seus próprios sentimentos, o desespero em comprovar sua irrealidade, não será melhor esclarecimento, pois este desespero é também um sentimento e como tal nos interessa.

56 Os homens que sofrem com o fato de as instituições não produzirem vida pública alguma lembram-se de um meio: dever-se-ia torná-la mais flexíveis graças aos sentimentos, dissolvê-las ou fragmentá-las; dever-se-ia mesmo renová-las pelos sentimentos inoculando-lhes a “liberdade de sentimento”. Se, por exemplo, o Estado automatizado agrupa cidadãos total mente estranhos uns aos outros, sem fundar ou favorecer uma vivência com-o-outro, deve-se substituir isto por uma comunidade de amor. Esta comunidade de amor deve florescer quando pessoas se agrupam pela manifestação de um

52

livre sentimento e resolvem viver juntas. Mas isso não é assim; a verdadeira comunidade não nasce do fato de que as pessoas têm sentimentos umas para com as outras (embora ela não possa, na verdade, nascer sem isso), ela nasce de duas coisas: de estarem todos em relação viva e mútua com um centro vivo e de estarem unidos uns aos outros em uma relação viva e recíproca. A segunda resulta da primeira; porém não é dada imediatamente com a primeira. A relação viva e recíproca implica sentimentos, mas não provém deles. A comunidade edifica-se sobre a relação viva e recíproca, todavia o verdadeiro construtor é o centro ativo e vivo.



Mesmo as instituições da chamada vida pessoal não podem ser renovadas por um livre sentimento (ainda que não possam ser renovadas sem ele).

57 O matrimônio por exemplo, nunca se regenerará senão através daquilo que sempre fundamentou o verdadeiro matrimônio: o fato de que dois seres humanos se revelam o TU um ao outro. É sobre esse fundamento que o TU, que não é o EU para nenhum dos dois, edifica o matrimônio. Este é o fato metafísico e metapsíquico do amor, do qual os sentimentos são apenas acessório. Aquele que deseja renovar o matrimônio por outro meio não é essencialmente diferente daquele que quer aboli-lo, ambos declaram que não conhecem mais o fato. Na verdade, se se desejar despojar do erotismo tão falado em nossa época, tudo o que se refere ao EU, portanto, todo contato no qual um não está presente ao outro, e nem se

53

presentifica a ele, mas onde cada um se limita a fruir a si mesmo através do outro, o que restaria?



A verdadeira vida pública e a verdadeira vida pessoal são duas formas de ligação. Para que possam nascer e perdurar são necessários sentimentos como conteúdo mutável; por outro lado são necessárias instituições como forma durável; porém estes dois fatores reunidos não geram ainda a vida humana, é necessário um terceiro que é a presença central do TU, ou ainda, para dizê-lo com toda a verdade, o TU central acolhido no presente.
*
A palavra-princípio EU-ISSO não tem nada mal em si porque a matéria não tem nada de mal em si mesma. O que existe de mal é o fato de a matéria pretender ser aquilo que existe.




1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   12


©aneste.org 2017
enviar mensagem

    Página principal