Martin buber



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22 O sentido da ação não é tão evidente quando se trata da relação com o TU humano. O ato essencial que instaura aqui a imediatez, é comumente interpretado em termos de sentimentos e, por isso mesmo, desconhecido. Os sentimentos acompanham o fato metafísico e metapsíquico do amor, mas não o constituem: aliás estes sentimentos que o acompanham podem ser de várias qualidades. O sentimento de Jesus para com o possesso é diferente do sentimento para com o discípulo-amado; mas o amor

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23 é um. Os sentimentos, nós os possuímos, o amor é acontece. Os sentimentos residem no homem mas o homem habita em seu amor. Isto não é simples metáfora mas a realidade. O amor não está ligado ao EU de tal modo que o TU fosse considerado um conteúdo, um objeto: ele se realiza, entre o EU e o TU. Aquele que desconhece isso, e o desconhece na totalidade de seu ser, não conhece o amor, mesmo que atribua ao amor os sentimentos que vivencia, experimenta, percebe, exprime. O amor é uma força cósmica. 6 Aquele que habita e contempla no amor, os homens se desligam do seu emaranhado confuso próprio das coisas; bons e maus, sábios e tolos, belos e feios, uns após outros, tornam-se para ele atuais, tornam-se TU, isto é, seres desprendidos, livres, únicos, ele os encontra cada um face-a-face. A exclusividade ressurge sempre de um modo maravilhoso; e então ele pode agir, ajudar, curar, educar, elevar, salvar. Amor é responsabilidade de um EU para com um TU: nisto consiste a igualdade daqueles que amam, igualdade que não pode consistir em um sentimento qualquer, igualdade que vai do menor, ao maior do mais feliz e seguro, daquele cuja vida está encerrada na vida de um ser amado, até aquele crucificado durante sua vida na cruz do mundo por ter podido e ousado algo inacreditável: amar os homens.



O sentido da ação no terceiro exemplo, aquele da criatura e sua visão, permanece no mistério. Acredite na simples magia da vida, no serviço no universo e lhe será esclarecido o

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que significa cada espera, cada olhar da criatura.



Qualquer palavra seria falsa; mas veja: os entes vivem em torno de você, mas ao se aproximar de qualquer um deles você atinge sempre o Ser.
*
Relação é reciprocidade. Meu TU atua sobre mim assim como EU atuo sobre ele. Nossos alunos nos formam, nossas obras nos edificam. O “mau” se torna revelador no momento em que a palavra-princípio sagrada o atinge. Quanto aprendemos com as crianças e com os animais! Nós vivemos no fluxo torrencial da reciprocidade universal, irremediavelmente encerrados nela.
*
- Falas do amor como se fosse a única relação entre humanos; entretanto podes fazer a escolha de um único exemplo, visto que existe também o ódio?

24 - Enquanto o amor for cego, isto é, enquanto ele não vir a totalidade do ser, ele não será incluído verdadeiramente no reino da palavra-princípio da relação. O ódio por sua própria essência permanece cego; não se pode odiar senão uma parte de um ser. Aquele que, vendo um ser na sua totalidade, deve recusá-lo, não está mais no reino do ódio, mas no limite

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humano da possibilidade em dizer-TU. Se acontece ao homem não poder proferir ao seu parceiro a palavra-princípio que encerra uma aceitação do ser ao qual ele se dirige, ou, então, se ele deve renunciar a si ou ao outro, isto significa que ele atinge o limite no qual o “entrar-em-relação” reconhece sua própria relatividade, limite esse que só poderá ser abolido por esta mesma relatividade.



Porém aquele que experimenta imediatamente o ódio está mais próximo da relação do que aquele que não sente nem amor e nem ódio.
*
Todavia, a grande melancolia de nosso destino é que cada TU em nosso mundo deve tornar-se irremediavelmente um ISSO. Por mais exclusiva que tenha sido a sua presença na relação imediata, tão logo esta tenha deixado de atuar ou tenha sido impregnada por meios, o TU se torna um objeto entre objetos, talvez o mais nobre, mas ainda um deles, submisso à medida e à limitação. A atualização da obra em certo sentido envolve uma desatualização em outro sentido. A contemplação autêntica é breve; o ser natural que acaba de se revelar a mim no segredo da ação mútua, se torna de novo descritível, 25 decomponível, classificável, um simples ponto de interseção de vários ciclos de leis. E o próprio amor não pode permanecer na relação imediata; ele dura mas numa alternância de atualidade e de latência. O homem que, agora mesmo era único e incondicio-

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nado, não somente à mão, mas somente presente, que não podia ser experienciado mas somente tocado, torna-se de novo um ELE OU ELA, uma soma de qualidades, uma quantidade com forma. Agora EU posso, de novo, extrair dele o colorido de seus cabelos, de sua voz ou de sua bondade; porém enquanto EU fizer isso, ele não é mais meu TU ou não se transformou ainda novamente em meu TU.



Cada TU, neste mundo é condenado, pela sua própria essência, a tornar-se uma coisa, ou então, a sempre retornar à coisidade. Em termos objetivos poder-se-ia afirmar que cada coisa no mundo pode ou antes ou depois de sua objetivação aparecer a um EU como seu TU. Porém esta linguagem objetivamente não capta senão uma ínfima parte da verdadeira vida.

O ISSO é a crisálida, o TU a borboleta. Porém, não como se fossem sempre estados que se alternam nitidamente, mas, amiúde, são processos que se entrelaçam confusamente numa profunda dualidade.


*
No começo é a relação.

Consideremos a linguagem dos “primitivos”, isto é, daqueles povos que permaneceram carentes de objetos e cuja vida foi construída num âmbito restrito de atos fortemente ricos de presença. O núcleo dessas linguagens, as palavras-frase, as formas primitivas pré-gramaticais de cujo desabrochamento 26 surgiram as múltiplas categorias verbais, exprimem em geral a totalidade de uma relação. Para

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nossa expressão: “bem longe” o Zulu emprega uma palavra-frase que significa “lá onde alguém grita: Oh! mãe estou perdido!”. E o habitante da Terra do Fogo sobrepuja nossa sabedoria analítica com uma palavra-frase de sete sílabas, sujo sentido exato é o seguinte: “Observa-se um ao outro, cada um aguardando que o outro se ofereça a realizar aquilo que ambos desejam mas não querem fazer”. As pessoas tanto substantivas quanto pronominais, estão ainda encerradas como em um baixo relevo, sem independência completa. Não importa estes produtos da decomposição e da reflexão, mas, sim, a verdadeira unidade originária, a relação de vida.



Ao encontrarmos alguém, nós o saudamos, desejando-lhe o bem ou assegurando-lhe a nossa dedicação ou recomendando-o a Deus. Porém, quão mediatas e desgastadas são estas formas (o que se sente ainda no “Heil” (Olá) daquela força originária radiante?) se comparadas àquela saudação relacional sempre jovem e autêntica dos Cafres: “Eu o vejo”. ou à sua variante americana, a expressão, embora ridícula, sublime: “cheire-me”.

Pode-se supor, que as relações e os conceitos, e também a representação de pessoas e coisas se desligaram dos eventos de relação e de estados de relação. As impressões e as emoções elementares, que 27 despertaram o espírito do “homem natural”, são derivadas de fenômenos de relação, pela vivência de um face-a-face, por estados de relação, pela vida na reci-

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procidade. Ele não pensa na lua que ele vê todas as noites, até o dia em que, no sono ou na vigília, ela se dirige para ele em pessoa e se aproxima dele, enfeitiça-o com gestos ou lhe proporciona algo, ao tocá-lo, agradável ou desagradável. O que ele conserva desse fato não é a imagem ótica de um disco ambulante e nem a imagem de um ser demoníaco que, de algum modo, lhe pertencesse, mas primeiramente a imagem dinâmica, a imagem excitante daquela força lunar irradiante que perpassa o corpo. A imagem pessoal da lua e de sua força atuante se definirá somente aos poucos. Somente então a lembrança daquilo que ele recebeu de um modo inconsciente, noite após noite, começa a reavivar, permitindo-lhe apresentar e objetivar o autor e o portador daquela ação. Somente agora o TU, originalmente inexperienciável, só agora recebido, torna-se um ELE OU ELA.



Este caráter original de relação do aparecimento de todos os seres cuja ação perdura por muito tempo, faz com que seja melhor compreendido um elemento da vida primitiva, que a ciência moderna estudou muito e sobre o qual ela discorreu largamente embora ele ainda não seja muito bem entendido. Trata-se deste poder cheio de mistério, cuja idéia se encontra, sob diversos aspectos, na crença ou na 28 ciência, (estas duas, aliás, são aqui uma só) de muitos povos primitivos. É o Mana7, o Orenda, de onde parte um caminho até o sentido originário do Brahman ou ainda a Dynamís, a”Charis” dos Papiros mágicos ou das Cartas Apostólicas.

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Ela foi definida como um poder supra-sensível e sobre-natural, categorias modernas que não traduzem autenticamente o pensamento primitivo. Os limites de seu mundo são traçados pela sua vivência corporal, à qual pertence “naturalmente” a visita aos mortos, visto que admitir o supra-sensível como dado real, lhe parece absurdo. Os fenômenos, aos quais ele atribui “poder místico”, são todos fenômenos elementares de relação, sobretudo aqueles sobre os quais ele medita, porque comovem seu corpo e deixam nele uma impressão de emoção. Não só a lua e o morto que o visitam durante a noite, trazendo-lhe dor ou prazer, possuem aquele poder, mas também o sol que o queima, o animal selvagem que urra, uiva diante dele, o chefe cujo olhar o domina e o chamane, cujo canto o impele com força à caça. O Mana é este poder atuante, que transformou a pessoa lunar, lá no espaço celeste, em um TU que agita o sangue. O Mana é o poder que permanece na memória como traço da pessoa lunar, uma vez que a imagem objetiva se separou da imagem emotiva, embora ele mesmo nunca apareça senão no autor e portador de um poder. O Mana é aquilo em virtude do que, uma vez possuído, por exemplo, em uma pedra mágica, se pode agir. A “idéia de mundo” dos primitivos é mágica, não pelo fato de ter como centro o poder mágico do homem, mas porque 29 este poder é unicamente uma variedade particular do poder mágico universal da qual provém toda ação essencial. A causalidade de sua idéia de mundo não



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é um contínuo, mas é um cintilar sempre renovado, uma emanação e uma ação do poder, é um movimento vulcânico sem continuidade. O Mana é uma abstração primitiva, talvez até mais primitiva do que o número, porém não mais sobrenatural. A lembrança capaz de aprendizagem classifica os grandes eventos de relação, as comoções fundamentais. De um lado, aquilo que é mais importante para o instinto de conservação e o que é mais notável para instinto, de conhecimento, precisamente tudo que “atua”, se evidencia mais claramente sobressai-se, torna-se autônomo. De outro lado, o que é menos importante, o incomum, o TU mutável das vivências recuam, permanecem isolados na memória, se objetivam paulatinamente, encerrando-se, aos poucos, em grupos e gêneros. Finalmente, em terceiro lugar, lúgubre em sua separação, às vezes mais fantasmagórico que o morto e a luta, mas sempre nitidamente incontestável, irrompe o outro, o parceiro “sempre o mesmo”: o EU.

A consciência do EU está tão pouco apegada ao domínio primitivo do instinto de auto-conservação, como aquele dos outros instintos; isso não significa que o EU tenta perpetuar-se, mas é o corpo que nada sabe ainda de um EU. Não é o EU mas sim o corpo que deseja fazer coisas, utensílios, jogos, ser o inventor. 30 Não se reconhece um COGNOSCO ERGO SUM8, mesmo numa forma mais ingênua, no conhecimento primitivo, nem a concepção, por mais infantil

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que seja, de um sujeito de experiência. O EU surge da decomposição das vivências primordiais, provém das palavras originais vitais, o EU-atuando-TU e TU-atuando-EU9, após a substantivação e a hipóstase do particípio.


*
Assim se manifesta, na história intelectual do primitivo, a diferença fundamental, entre as duas palavras-princípio. Já no evento primordial de relação, ele profere a palavra-princípio EU-TU de um modo natural, anterior a qualquer forma, sem ter-se conhecido como EU, enquanto que a palavra-princípio EU-ISSO torna-se possível, através desse conhecimento, através da separação do EU.

A primeira palavra-princípio EU-TU decompõe-se de fato, em um EU e um TU, mas não proveio de sua justaposição, é anterior ao EU. A segunda, o EU-ISSO, surgiu da justaposição do EU e ISSO, é posterior ao EU.

O EU está incluído no evento primordial da relação, através da exclusividade desse evento. Neste evento, por sua própria natureza, tomam parte somente dois parceiros na sua total atualidade, o homem e aquilo que o confronta. Assim o mundo se torna um sistema dual, e o homem já sente ai aquela emoção cósmica do EU, mesmo sem ter ainda dele conhecimento.

Por outro lado, o EU não está ainda inserido no fato 31 natural que traduz a palavra-princípio EU-ISSO, onde o experienciar é centrado no EU egocêntrico. Este fato é um modo pelo qual

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o corpo do homem, como portador de suas sensações se distingue de seu meio ambiente. O corpo, nesta sua particularidade, aprende a se conhecer e a se distinguir, porém, esta distinção permanece ao nível de simples contigüidade não podendo assim, perceber o caráter, mesmo implícito, da egoidade.10



Entretanto, no momento em que o EU da relação se pôs em evidência e se tornou existente na sua separação, ele se dilui e se funcionaliza de um modo estranho, no fato natural do corpo que se distingue do seu meio ambiente e deste modo descobre a egoidade. Somente então pode surgir o ato consciente do Eu, a primeira forma da palavra-princípio EU-ISSO, a primeira experiência egocêntrica: o EU que se distanciou, aparece então como o portador de suas sensações das quais o meio ambiente é o objeto. Sem dúvida isto acontece sob forma primitiva e não sob forma teorético-cognitiva, porém, a proposição: “eu vejo a árvore” é proferida de tal modo que ela não exprime mais uma relação entre o homem-EU e a árvore-TU, mas estabelece a percepção da árvore-objeto pelo homem-consciência. A frase erigiu a barreira entre sujeito e objeto; a palavra-princípio EU-ISSO, a palavra da separação, foi pronunciada.
*
32 - Então esta melancolia de nosso destino teria sido um processo surgido numa época pré-histórica?

- Sem dúvida um processo, mas na medida em que a vida consciente do homem é

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também um processo. Mas na vida consciente, o que ressurge é uma evolução humana como ser cósmico. O espírito se manifesta no tempo como um produto ou um sub-produto da natureza e, no entanto, é ele que a envolve de maneira a-temporal.



A oposição das duas palavras-princípio recebeu inúmeros nomes nas diversas épocas e mundos; mas ela é na sua verdade anônima, inerente à Criação.
*
Então acreditas em um paraíso na era primitiva da humanidade?

Ela poderá ter sido um inferno e sem dúvida, aquela à qual EU posso remontar no curso da história, é cheia de furor, de medo, de angústia, de dor, crueldade, mas irreal não foi.

As vivências de relação do homem primitivo não eram certamente doces complacências; mas é melhor a violência sobre um ente realmente vivenciado, do que a solicitude fantástica para com números sem face. Da primeira, parte um caminho para Deus, da segunda, somente o caminho que leva ao nada.
*
33 A vida do primitivo, mesmo se a pudéssemos desvendar inteiramente, só pode nos representar a vida do homem primordial de um modo simbólico; ela nos apresenta exclusivamente breves esboços sobre a relação temporal das duas palavras-princípio. A criança nos presta informações mais completas.

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Aquilo de que nós, de um modo inequivocamente claro, nos apercebemos, é que a realidade espiritual das palavras-princípio provém de uma realidade natural: a da palavra-princípio EU-TU, de um vínculo natural11; a palavra-princípio EU-ISSO, do fato natural de distinguir-se de seu meio.



A vida pré-natal das crianças é um puro vínculo natural, um afluxo de um para outro, uma inter-ação corporal na qual o horizonte vital do ente em devir parece estar inscrito de um modo singular no horizonte do ente que o carrega, e entretanto, parece também não estar aí inscrito, pois não é somente no seio de sua mãe humana que ele repousa. Este vinculo é tão cósmico que se tem a impressão de estar diante de uma interpretação imperfeita de uma inscrição primitiva, quando se lê numa linguagem mítica judaica que o homem conheceu o universo no seio materno mas que ao nascer tudo caiu no esquecimento. E este vínculo permanece nele como uma imagem secreta de seu desejo. Não como se sua nostalgia significasse um anseio de volta, como prescrevem aqueles que vêem no espírito, por eles confundido com o

intelecto, um simples parasita da natureza. Ao contrário, é a nostalgia da procura do vínculo cósmico do ser que se desabrocha ao espírito com seu TU verdadeiro.

34 Cada criança em desenvolvimento, como todo ente em formação, repousa no seio da grande mãe, isto é, do mundo primordial indiferenciado e que precede toda forma. Ela se

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desliga deste mundo para a vida pessoal, e somente, nas horas obscuras, em que nós fugimos dela (o mesmo acontece, sem dúvida, todas as noites ao homem são), é que nós nos reaproximamos novamente. Esta separação não acontece, entretanto, de um modo brusco e catastrófico, análogo àquele que nos separou de nossa mãe corporal. A criança tem um prazo para substituir a ligação natural, que a unia ao universo, por uma ligação espiritual, isto é, a relação. Ela sai das trevas candentes e do caos e se dirige para a criação clara e fria. Mas ela não a possui ainda; ela deve antes de tudo esclarecê-la, fazendo-a para si mesma uma realidade; ela deve contemplar o seu mundo, escutá-lo, senti-lo, manipulá-lo. A criação revela a sua essência como forma no encontro. Ela não se derrama aos sentidos que a aguardam, mas ela se eleva ao encontro daqueles que a sabem buscar. Tudo o que será representado diante do homem adulto, como objetos habituais, deve ser conquistado, solicitado pelo homem em formação num inesgotável esforço, pois coisa alguma é parte de uma experiência, nada se revela senão pela força atuante na reciprocidade do face-a-face. Como o primitivo, a criança vive de um sonho a outro (para ela grande parte da vigília é ainda um sono) no clarão e no contra-clarão do encontro.



35 A originalidade da aspiração de relação já aparece claramente desde o estado mais precoce e obscuro. Antes de poder perceber alguma coisa isolada, os tímidos olhares procuram no

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espaço obscuro algo de indefinido; e em momentos em que, aparentemente não há necessidade de alimento, é sem finalidade, ao que parece, que as suaves e pequeninas mãos gesticulam, procuram algo de indefinido no vazio. Afirmar que se trata de um gesto animal, é nada exprimir. Pois estes olhares, na verdade, depois de minuciosas tentativas, se fixarão em um arabesco vermelho de um tapete e dele não se desprenderão até que a essência do vermelho se lhes tenha revelado. Estes movimentos em contato com um ursinho de pelúcia, tomarão uma força sensível e precisa e tomarão conhecimento carinhoso e inesquecível de um corpo completo. Nestes dois fatos, não se trata de uma experiência de um objeto mas de um confronto, que sem dúvida, se passa na “fantasia”, com um parceiro vivo e atuante. (Esta “fantasia” não é de modo algum, uma “animação”: ela é o instinto de tudo transformar em TU, o instinto de relação que, quando o parceiro se apresentar em imagem e simbolicamente e não no face-a-face, vivo e atuante ele lhe empresta vida e ação tirando de sua própria plenitude). Suaves e inarticulados gritos ressoam, ainda, sem sentido no vazio; mas, um belo dia, de repente, eles se transformarão em diálogo. Com quê? Talvez com a chaleira que está fervendo, mas é um diálogo. Muitos movimentos, chamados reflexos, são um instrumento indispensável à pessoa na construção de seu mundo. Não é verdade que a criança percebe 36 primeiramente um objeto, e, só então entra em



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relação com ele. Ao contrário, o instinto de relação é primordial, como a mão côncava na qual o seu oponente, possa se adaptar. Em seguida acontece a relação, ainda uma forma primitiva e não-verbal do dizer-TU. A transformação em coisa é, entretanto, um produto posterior, provindo da dissociação das experiências primordiais, da separação dos parceiros vinculados - fenômeno semelhante ao surgimento do EU. No princípio é a relação, como categoria do ente, como disposição, como forma a ser realizada, modelo da alma; o a priori da relação; o TU inato.

Quando se vive numa relação realiza-se, neste TU encontrado, a presença do TU inato. Fundamentando-se no a priori da relação, pode-se acolher na exclusividade este TU, considerado como um parceiro; em suma, pode-se endereçar-lhe a palavra-princípio.

O TU inato atua bem cedo, na necessidade de contato (necessidade de início, tátil, e em seguida, um contato visual com outro ente), de tal modo que ele expressa cada vez mais claramente, a reciprocidade e “a ternura”. Porém, desta mesma necessidade provém o instinto de autor e aparece posteriormente (instinto de produzir coisas por síntese, ou, quando isso não é possível, por análise, decompondo, separando) de tal maneira que se produz uma “personificação” das coisas feitas, um diálogo. 37 O desenvolvimento da alma na criança é indissoluvelmente ligado ao desenvolvimento da nostalgia do TU, às realizações e decepções deste

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anseio, ao jogo de suas experiências e à seriedade trágica de sua perplexidade. A verdadeira compreensão destes fenômenos, prejudicada por cada tentativa de restringi-la a um âmbito mais estrito, só pode ser atingida, na medida em que, quando observados e examinados, for levada em consideração sua origem cósmica e meta-cósmica, a saber, a saída do mundo primordial indiviso, não formado ainda, de onde o indivíduo físico já se desligou pelo nascimento, mas não ainda o indivíduo corporal, integral, atualizado que só pode realizar esta passagem gradualmente, à medida que entra nas relações.


*
O homem se torna EU na relação com o TU. O face-a-face aparece e se desvanece, os eventos de relação se condensam e se dissimulam e é nesta alternância que a consciência do parceiro, que permanece o mesmo, que a consciência do EU se esclarece e aumenta cada vez mais. De fato, ainda ela aparece somente envolta na trama das relações, na relação com o TU, como consciência gradativa daquilo que tende para o TU sem ser ainda o TU. Mas, essa consciência do EU emerge com força crescente, até que, um dado momento, a ligação se desfaz e o próprio EU se encontra, por um instante diante de si, separado, como se fosse um TU, para tão logo retomar a posse de si e dai em diante, no seu estado de ser consciente entrar em relações.

38 Somente, então, pode a outra palavra-princípio constituir-se. Sem dúvida, o TU da relação desvaneceu-se muitas vezes sem, com isso, ter-se

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tornado o ISSO de um EU, um objeto de uma percepção ou experiência sem ligação como será doravante, mas ele se tornou, de algum modo, um ISSO em si, por hora inobservável aguardando o ressurgimento de um evento de relação. Sem dúvida, o corpo que se transforma em corpo humano12 se distingue em seu ambiente na medida que se sente portador de suas impressões e como executor de seus impulsos, mas somente ao nível de uma radical separação entre o EU e o objeto. Então, o EU desligado se encontra transformado. Reduzido da plenitude substancial à realidade funcional e unidimensional de um sujeito de experiência e utilização, aborda todo “ISSO em si”, apodera-se dele e se associa a ele para formar outra palavra-princípio. O homem transformado em EU que pronuncia o “EU-ISSO” coloca-se diante das coisas em vez de confrontar-se com elas no fluxo da ação recíproca. Curvado sobre cada uma delas, com uma lupa objetivante que olha de perto, ou ordenando-as num panorama através de um telescópio objetivante de um olhar distante, ele as isola ao considerá-las, sem sentimento algum de exclusividade, ou ele as agrupa sem sentimento algum de universalidade.




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