Martin buber



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Hassidismo ensina a todos a presença do Deus no mundo.

Como será o homem responsável pela tarefa de realizar Deus no mundo? “Se diriges a força integral de tua paixão ao destino universal de Deus, se fizeres aquilo que tens a fazer, seja o que for, simultaneamente com toda tua força e com essa intenção sagrada, a Kavaná, reúne Deus e a Schehiná, eternidade e tempo. Para tanto não precisas ser erudito, nem sábio: nada é necessário exceto uma alma humana, unida em si e dirigida indivisamente para o seu alvo divino” (Idem, p. 22).

O Hassidismo concretizou profundamente, como nos mostram as “Histórias do Rabi”, três virtudes que se tornaram essenciais para a realização da tarefa de cada um: o amor, a alegria e a humildade. Foi pelo amor que o mundo foi criado e é através dele que será levado à perfeição. O temor de Deus é somente uma porta que leva ao amor de Deus, que ocupa lugar central na relação entre Deus e o homem. Deus é amor, é a capacidade de amar, é a mais profunda participação do homem em Deus.

A alegria entusiástica provém do reconhecimento da presença de Deus em todas as coisas. A humildade é a procura constante do verdadeiro si-mesmo que atinge sua perfeição como parte de um todo, de uma comunidade. Todas as virtudes atingem sua perfeição pela oração no sentido mais lato de qualquer ação santificada em qualquer momento do dia ou da noite.

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A verdadeira relação com o tzadik sustentará o hassid em sua busca de realização. O tzadik é o amparador do corpo e da alma. A grande tarefa do tzadik é facilitar aos seus hassidim a relação imediata com Deus e não substituí-la. Ele deverá orientar o hassid em sua tensão, em seu ir-em-direção-a-Deus. “Um dos princípios fundamentais do hassidismo”, diz Buber, “é que o tzadik e o povo dependem um do outro...” Sobre sua inter-relação repousa a realidade hassídica. “Aqui tocamos aquela base vital do hassidismo, da qual se esgalha a vida entre entusiasmadores e entusiasmados. A relação entre o tzadik e seus discípulos é tão somente a sua mais intensa concentração. Nesta relação, a reciprocidade se desenvolve no sentido da máxima clareza. O mestre ajuda os discípulos a se encontrarem e, nas horas de depressão, os discípulos ajudam o mestre a reencontrar-se. O mestre inflama as almas dos discípulos; e eles o rodeiam e iluminam. O discípulo pergunta e, pela forma de sua pergunta, evoca, sem o saber, uma resposta no espírito do mestre a qual não teria nascido sem essa pergunta”. (Histórias do rabi, p. 25).



A vitalidade do fervor religioso, o ensinamento completado pela prática cotidiana e concreta; um novo tipo de relação com Deus, de “serviço” a Deus através do mundo; um profundo espírito de comunidade; o amor como elemento fundamental; a inter-relação, no autêntico inter-humano do tzadik e seus hassadim formando a comunidade; a alegria entusiástica;

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o novo sentido do mundo e das relações do homem com o mundo; a transposição da divisão entre o sagrado e o profano, tais são algumas das principais facetas do ensinamento hassídico que marcaram decisivamente o pensamento e a vida de Buber.

A intimidade de Buber com o hassidismo repousa sobre uma inefável relação de simpatia. Ela produziu um vínculo de autopatia, isto é, se Buber delapidou as “histórias” auxiliando-as a se manifestarem mais claramente, do mesmo modo, a mensagem do hassidismo fecundou e provocou o pensamento de Buber. Talvez se pudesse falar de remodelagem mútua. O Hassidismo foi o farol convidativo, decisivo e provocador de uma tomada de consciência da tarefa e do sentido da existência humana no mundo.


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4) EU E TU, DE UMA ONTOLOGIA DA RELAÇÃO A UMA ANTROPOLOGIA DO INTER-HUMANO.
EU E TU representa, sem dúvida, o estágio mais completo e maduro da filosofia do diálogo de Martin Buber. Ele a considerava como sua obra mais importante: obra na qual apresentou, de modo mais completo e profundo, sua grande contribuição à filosofia. EU E TU não é simplesmente uma descrição fenomenológica das atitudes do homem no mundo ou simples

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mente uma fenomenologia da palavra, mas é também e sobretudo um ontologia da relação. Podemos dizer que a principal intuição de Buber foi exatamente o sentido de conceito de relação para designar aquilo que, de essencial, acontece entre seres humanos e entre o Homem e Deus.



A reflexão inicial de EU E TU apresenta a palavra como sendo dialógica. A categoria primordial da dialogicidade da palavra é o “entre”. Mais do que uma análise objetiva da estrutura lógica ou semântica da linguagem, o que faria da palavra um simples dado, Buber desenvolve uma verdadeira ontologia da palavra atribuindo a ela, como palavra falante, o sentido de portadora de ser. É através dela que o homem se introduz na existência. Não é o homem que conduz a palavra, mas é ela que o mantém no ser. Para Buber a palavra proferida é uma atitude efetiva, eficaz e atualizadora do ser do homem. Ela é um ato do homem através do qual ele se faz homem e se situa no mundo com os outros. A intenção de Buber é desvendar o sentido existencial da palavra que pela intencionalidade que a anima, é o princípio ontológico do homem como ser dia-logal e dia-pessoal. As palavras-princípio (“Grundwort”) são duas intencionalidades dinâmicas que instauram uma direção entre dois pólos, entre duas consciências vividas.

Na verdade EU E TU pode ser considerada a obra mais importante de Buber não só pelo vigor do pensamento ou pela atualidade

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de sua mensagem, mas também pelo fato de que ela se situa no centro ou no começo de toda a obra: é a chave ou a via de acesso a todos os outros escritos pertinentes aos mais diversos domínios onde se manifestou a atividade reflexiva de Buber. Obra de maturidade, EU E TU teve consequências diretas nas suas obras posteriores sobre antropologia filosófica, educação, política, sociologia, bem como nos seus estudos e exegeses da Bíblia e sobre o Hassidismo ou o Judaísmo. Todas as influências de filósofos ou de correntes filosóficas, do pensamento místico em geral, do Budismo, Taoísmo, da mística judaica e do Hassidismo se encontram nesta monumental reflexão, verdadeira obra-prima da primeira metade do século. A mensagem de EU E TU, em cada uma de suas três etapas, apresenta temas que ainda hoje provocam e fecundam nossa reflexão.



A base de EU E TU não é constituída por conceitos abstratos mas é a própria experiência existencial se revelando. Buber efetua uma verdadeira fenomenologia da relação, cujo princípio ontológico é a manifestação do ser ao homem que o intui imediatamente pela contemplação. A palavra, como portadora de ser, é o lugar onde o ser se instaura como revelação.

A palavra é princípio, fundamento da existência humana. A palavra-princípio alia-se à categoria ontológica do “entre” (“zwischen”) objetivando instaurar o evento dia-pessoal da relação. A palavra como dia-logo é o fundamento ontológico do inter-humano.

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O fato primitivo para Buber é a relação. O escopo último é apresentar uma ontologia da existência humana, explicitando a existência dialógica ou a vida em diálogo. As principais categorias desta vida em diálogo são as seguintes: palavra, relação, diálogo, reciprocidade como ação totalizadora, subjetividade, pessoa, responsabilidade, decisão-liberdade, inter-humano.



Mais do que uma metafísica ou ma teologia sistemática, EU E TU é uma reflexão sobre a existência humana. A questão antropológica do sentido da existência interpelou Buber. Tudo o mais está integrado a esta questão. Por exemplo, a problemática de Deus, ponto importante nas obras de Buber, é integrada na questão da pessoa humana, ser de relação. Assim, Deus será o TU ao qual o homem pode falar e nunca algo sobre o qual ele discorrerá sistemática e dogmaticamente. O TU eterno é aquele que nunca poderá ser um ISSO. Sobre a questão de Deus, a intuição fundamental de Buber é entender o novo tipo de relação que o home pode ter com Ele, porque para o homem não importa talvez o que Deus é em sua essência, mas sim o que Deus é em relação a ele, homem. Deus é, pois, Aquele com o qual o homem pode estabelecer uma relação inter-pessoal. Buber encaminha o problema de Deus, ultrapassando a dicotomia sagrado-profano, através da realidade da existência humana.
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EU E TU se apresenta em três partes. Segundo um antigo projeto de Buber abandonado logo no início, EU E TU representava o primeiro capítulo ou a primeira parte de uma obra em cinco partes. Esta primeira parte, EU E TU, Buber a subdividiu nos seguintes tópicos: 1. Palavra; 2. História; 3. Deus.

A ontologia da relação será o fundamento para uma antropologia que se encaminha para uma ética do inter-humano. Diz-se então que o homem é um ente de relação ou que a relação lhe é essencial ou fundamento de sua existência. Com isso assistimos ao encontro do pensamento de Buber com a tradição fenomenológica, na medida em que grande parte dos filósofos que a ela pertencem partem também deste princípio do homem como ser situado no mundo com o outro. O maior mérito que cabe a Martin Buber está no fato de ter acentuado de um modo claro, radical e definitivo as duas atitudes distintas do homem face ao mundo ou diante do ser. As atitudes, como veremos adiante, se traduzem pela palavra-princípio EU-TU e pela palavra-princípio EU-ISSO. A primeira é um ato essencial do homem, atitude de encontro entre dois parceiros na reciprocidade e na confirmação mútua. A segunda é a experiência e a utilização, atitude objetivante. Uma é a atitude cognoscitiva e a outra atitude ontológica.

O sentido que Buber atribuiu ao conceito de relação, aliado à radical distinção ontológico-existencial, é uma aquisição que terá pro-

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fundas influências para a abordagem da existência humana. Não se pode mais prescindir destas reflexões em qualquer perspectiva que se tome do humano, seja na antropologia filosófica ou em ciências humanas. Se a sua afirmação da existência humana como ser de relação não é original - aliás o próprio Buber reconheceu ter recebido o impulso decisivo de Feuerbach, - o mesmo não se pode dizer no que se refere à distinção que ele estabeleceu entre as duas atitudes do homem e os dois tipos de mundo a elas correspondentes. De qualquer forma, sua penetrante e vigorosa reflexão e o modo profético com que lança sua mensagem baseada nestes dois princípios da existência humana - o dialógico e o monológico - e sobretudo a coerência e intimidade entre EU E TU e o restante de sua vasta obra, colocam-no em um lugar inquestionavelmente singular na História da Filosofia e do pensamento contemporâneo. Todos aqueles que abordaram os mesmos temas, fundamentais em filosofia, não o fizeram com tão grande profundidade e beleza de linguagem.



O mundo é múltiplo para o homem e as atitudes que este pode apresentar são múltiplas. A atitude é um ato essencial ou ontológico em virtude da palavra proferida. Cada atitude é atualizada por uma das palavras-princípio, EU-TU ou EU-ISSO. A palavra princípio, uma vez proferida, fundamenta um modo de existir.

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Ela é uma palavra originária, fundamental, “Grundwort”. O homem, como já foi dito, é um ser de relação. Podemos nos referir aqui ao conceito de intencionalidade como ele é entendido na fenomenologia. A relação não é uma propriedade do homem. Assim como a intencionalidade não significa algo que esteja na consciência, mas sim algo que está entre a consciência e o mundo ou o objeto. Sendo assim, a relação é também um evento que acontece entre o homem e o ente que se lhe defronta. Não é o homem que é o condutor da palavra mas é esta que o conduz e o instaura no ser. Notemos aqui nítidas reminiscências judaicas sobre o sentido dado à palavra que não é logos (razão), mas dabar. A atitude de abertura do homem e a doação originária do ser formam a estrutura da relação EU-SER. “A essência do ser se comunica no fenômeno”, diz Buber. A contemplação é a atitude que instaura a presença imediata do homem-EU ao mundo.

Dentre as múltiplas atitudes que o homem pode apresentar diante do mundo, Buber destaca duas que são as duas possibilidades do EU revelar-se como humano. Em faze da doação do ser no fenômeno, o home, EU, profere a palavra-princípio. Em outros termos o homem pode atender ao apelo do ser. Tal decisão é essencialmente passiva e ativa, ela é uma atitude de aceitação ou de recusa. Estas duas atitudes, repetimos, são atualizadas pelas palavras-princípio proferidas. Ser EU significa proferir uma das duas palavras. Sendo a palavra

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Portadora de ser, o homem que a profere existe autenticamente graças a ela. Existir como EU ou proferir a palavra-princípio é uma e mesma coisa. A própria condição de existência como ser-no-mundo é a palavra como dia-logo. Há uma distinção radical entre as duas palavras-princípio. O EU de uma palavra-princípio é diferente do EU da outra. Isso não significa que existem dois “Eus” mas sim a existência de uma dupla possibilidade de existir como homem. A estrutura toda é dual. Há dois mundos, duas relações. Chamamos relação para EU-TU e relacionamento para EU-ISSO. TU e ISSO são duas fontes onde a eficácia da palavra se desenvolve constituindo a existência humana. As torrentes caudalosas que brotam do ISSO, das coisas provêm de um modo convergente da fonte primordial que é o Tu. O TU é primordial e conseqüentemente o ISSO é posterior ao TU. “No princípio é relação”. A abordagem reflexiva, cognoscitiva de objetos, do ISSO, só poderá ser levada a efeito na medida em que passa pelo lugar ontológico do encontro de duas pessoas. Não constitui novidade o que muitos filósofos contemporâneos afirmam sobre a prioridade da relação ontológica sobre a relação cognoscitiva do homem com o mundo. Sem dúvida, tanto estes filósofos como o próprio Buber souberam estar atentos e se enriquecer da mesma fonte.



O fenômeno da relação foi descrito por Buber com o emprego de vários termos: diálogo, relação essencial, encontro. Devemos estar atentos ao sentido de cada um deles. Por exem-

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plo, encontro e relação não são a mesma coisa. O encontro é algo atual, um evento que acontece atualmente. A relação engloba o encontro. Ela abre a possibilidade da latência; ela possibilita um encontro dialógico sempre novo. Mesmo durante o relacionamento EU-ISSO o homem guardaria a possibilidade de uma nova relação. “Beziehung”, é uma possibilidade de atualização do encontro dialógico, “Begegnung”.

O dialógico é para Buber a forma explicativa do fenômeno do interhumano. Interhumano implica a presença ao evento de encontro mútuo. Presença significa presentificar e ser presentificado. Reciprocidade é a marca definitiva da atualização do fenômeno da relação. O “entre” é assim considerado como a categoria ontológica onde é possível a aceitação e a confirmação ontológica dos dois pólos envolvidos no evento da relação.

As duas palavras-princípio instauram dois modos de existência: a relação ontológica EU-TU e a experiência objetivante EU-ISSO. Esta diferença antropológica se fundamenta no conceito de totalidade que determina a relação ontológica EU-TU. “A palavra-princípio só pode ser proferida pelo ser na sua totalidade”.

As duas palavras-princípio ao se atualizarem não só estabelecem dois modos de ser-no-mundo, mas também imprimem uma diferença no estatuto ontológico do outro. No entanto, o fundamento cabe à palavra-princípio EU-TU. Segundo Buber o TU ou a relação são originários. O TU se apresenta ao EU como sua con-

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dição de existência, já que não há EU em si, independente; em outros termos o si-mesmo não é substância mas relação. O EU se torna EU em virtude do Tu. Isto não significa que devo a ele o meu lugar. Eu lhe devo minha relação a ele. Ele é meu TU somente na relação, pois, fora dela, ele não existe, assim como o EU não existe a não ser na relação. “É falso dizer que o encontro é reversível, afirma Buber. Nem meu TU é idêntico ao EU do outro nem seu TU é idêntico ao meu EU. À pessoa do outro EU devo o fato de que EU tenho este TU; porém o meu EU – que deve aqui ser entendido como o EU da relação EU-TU – EU o devo ao fato de dizer TU, não à pessoa à qual EU digo TU”. (Replies to my Critics, p. 697, in The phylosophy of Martin Buber. Editado por Schilpp, P. A. e Friedman, M.)



O “entre”, o “inter-valo” é o lugar de revelação da palavra proferida pelo ser. Este intervalo existe entre EU e TU e entre EU e ISSO. Não há conhecimento de um indivíduo, mas este relacionamento EU-ISSO funda-se em última análise no inter e dia-pessoal. Há uma conivência ontológica entre o EU e o TU para o conhecimento do mundo. Como diz Bachelard, coisas infinitas como o céu, a floresta e a luz, não encontram seu nome senão dentro de um coração amante. A co-participação dia-logal é o fundamento ontológico do existir e de suas manifestações. A compreensão do ser é tributária desta participação dialogal no eixo

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Eu-Tu envoltos na vibração recíproca do face-a-face.

Buber estabelece, como vimos, uma distinção entre as duas palavras-princípio. Para que o evento instaurado pela palavra-princípio EU-TU seja dialógico é necessário o elemento de totalidade. Totalidade não é simples soma dos elementos da estrutura relacional. Esta totalidade se vincula à totalidade do próprio participante do evento. Esta totalidade do EU que profere a palavra-princípio deve ser entendida como um ato totalizador, uma concentração em todo o seu ser. O homem está apto ao encontro na medida em que ele é totalidade que age. Mais que a independência do todo, como evento relacional, único, Buber entende a totalidade como independência da própria relação em face dos componentes desta estrutura. Porém esta independência não é absoluta, mas relativa: cada elemento da estrutura considerado isoladamente é pura abstração. O evento “acontece” em virtude do encontro “entre” o EU e o TU na reciprocidade da ação totalizadora. A totalidade presente no EU-TU não é simplesmente a soma das sensações internas do EU psicológico. A totalidade precede ontologicamente a separação. A palavra EU-TU precede a palavra EU-ISSO. EU-ISSO é proferido pelo EU como sujeito de experiência e utilização de alguma coisa. A “contemplação” é anterior ao conhecimento. A inteligência, o conhecimento conceitual que analisa um dado ou um objeto é posterior à intuição do ser. EU-ISSO é posterior ao EU-TU.

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O EU de EU-ISSO usa a palavra para conhecer o mundo, para impor-se diante dele, ordená-lo, estruturá-lo, vencê-lo, transformá-lo. Este mundo nada mais é que objeto de uso e experiência.



O problema da totalidade permanece no centro das preocupações de Buber em relação à questão antropológica. Tal preocupação se coaduna com a sua concepção da tarefa filosófica, a saber, a reflexão sobre questões reais - aquelas que envolvem um compromisso atual com a totalidade da pessoa em todas as suas manifestações. As categorias da totalidade e do “entre” são fundamentais na antropologia filosófica de Buber. Se EU E TU nos revela o diálogo como fundamento da existência humana, se a questão antropológica deverá ser abordada como um ato vital de procura do sentido da existência humana, então trata-se de perscrutar o dialógico no ser humano. O “entre” permitirá, como chave epistemológica, abordar o homem na sua dialogicidade; e só no encontro dialógico é que se revela a totalidade do homem. A ênfase sobre a totalidade acarreta, como corolário, a rejeição da afirmação da racionalidade da razão como característica distintiva do homem.
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As duas palavras-princípio fundam duas possibilidades do homem realizar sua existência. A palavra EU-TU é o esteio para a vida dialógica, e EU-ISSO instaura o mundo do ISSO, o lugar e o suporte da experiência, do conhecimento, da utilização.

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A atitude do EU pode ser o ato essencial que revela a palavra proferida com a totalidade do ser, ou então uma postura noética, objetivante. Na primeira, o EU é uma pessoa e o outro é o Tu; na segunda, o EU é um sujeito de experiência, de conhecimento e o ser que se lhe defronta um objeto. A este segundo tipo de Eu, Buber chama de ser egótico, isto é, aquele que se relaciona consigo mesmo ou o homem que entra em relação com o seu si-mesmo. EU-TU e EU-ISSO traduzem diferentes modos de apreensão da realidade, ao mesmo tempo que instauram uma diferença ontológica no outro pólo da relação, seja como TU seja como ISSO. A contemplação (“Schauung”) é a doação do ser como TU ao EU, pessoa, que o aceita. A inteligência, o conhecimento, a experiência é a apreensão do ser como objeto. Na contemplação, a atitude não é cognoscitiva mas ontológica. No conhecimento ou na experiência a atitude não é presença do ser que se revela na contemplação, é um tornar-se presente ao ser e com o ser.



Em suma, existem dois modos de presença. Sendo originários, a relação EU-TU e o conceito de presença recebem seu sentido autêntico na doação originária do Tu. No encontro dialógico acontece uma recíproca presentificação do EU e do TU. No relacionamento EU-ISSO se o ISSO está presente ao EU não podemos dizer que o EU está na presença do ISSO. A alteridade essencial se instaura somente na relação EU-TU; no relacionamento EU-ISSO o outro não é encontrado como outro em sua alteridade. Na

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relação dialógica estão na “presença” o EU como pessoa e o TU como outro.


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Há diversos modos de existência EU-ISSO. Buber os resume em dois conceitos: experiência (“Erfahrung”) e a utilização ou uso (“Gebrauchen”). A experiência estabelece um contacto na estrutura do relacionamento, de certo modo unidirecional entre um Eu, ser egótico, e um objeto manipulável.

Este relacionamento se caracteriza por uma coerência no espaço e no tempo; ele é coordenável e submetido à ordem temporal. O relacionamento implica que os entes, coisas que são objetos, se confinam com outros objetos. O relacionamento define as coisas como uma soma de partes.

O mundo do ISSO, ordenado e coerente, é indispensável para a existência humana; ele é um dos lugares onde nós podemos nos entender com os ouros. Buber o chama de reino dos verbos transitivos. Ele é essencial na vida humana, mas não pode ser o sustentáculo ontológico do interhumano.

A afirmação da primazia do diálogo no qual o sentido mais profundo da existência humana é revelado não nos deve levar à conclusão de que a atitude EU-ISSO seja algo de negativo, inferior ou um mal. Ao contrário, ela é uma das atitudes do homem face ao mundo, graças à qual podemos compreender todas as

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aquisições da atividade científica e tecnológica da história da humanidade. Em si o EU-ISSO não é um mal; ele se torna fonte de mal, na medida em que o homem deixa subjugar-se por esta atitude, absorvido em seus propósitos, movido pelo interesse de pausar todos os valores de sua existência unicamente pelos valores inerentes a esta atitude, deixando, enfim, fenecer o poder de decisão e responsabilidade, de disponibilidade para o encontro com o outro, com o mundo e com Deus. A diferença entre as atitudes não é ética mas ontológica. Não se deve distingüí-las em termos de autenticidade ou inautenticidade. Enquanto humanas, as duas atitudes são autênticas. Quando, por esta razão, a relação perde o seu sentido de construtora do engajamento responsável para com a verdade do inter-humano, aí então, o EU-ISSO é destruição do si-mesmo, e o homem se torna arbitrário e submetido à fatalidade.



“Se o homem não pode viver sem o ISSO, não se pode esquecer que aquele que vive só com o ISSO não é homem”.
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Quando a decisão vital do homem percebe o sopro do espírito entre ele e o parceiro da relação, acontece a conversão, advém a resposta, surge o TU. Não existe nenhum meio ou conteúdo, nenhum interesse interposto nesta doação do TU e na aceitação do Eu. À doação gratuita do TU, o EU responde pela aceitação

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Imediata. Então na presença, na proximidade que une os semelhantes, o Eu, pessoa, encontra o Tu. Buber distingue três esferas onde acontece a relação: a relação com os seres da natureza, a esfera dos homens e a esfera das essências espirituais. O critério de maior valor repousa sobre reciprocidade. Assim a relação de maior valor existencial é o encontro dialógico, a relação inter-humana onde a invocação encontra sua verdadeira e plena resposta. Devemos estar alertas ao equívoco de atribuir ao Tu, em Buber, o significado simplista de pessoa e ao ISSO o significado de coisa, objeto. EU-TU não é exclusivamente a relação interhumana. Há muitas maneiras de EU-TU e o TU pode ser qualquer ser que esteja presente no face-a-face: homem, Deus, uma obra de arte, uma pedra, uma flor, uma peça musical. Assim como o ISSO pode ser qualquer ser que é considerado um objeto de uso, de conhecimento, de experiência de um Eu. EU E TU não aceita a distinção familiar entre coisas e pessoas. Devemos estar atentos também a uma outra distinção familiar que não é aceita por Buber. Trata-se da atribuição de certas atitudes a determinados tipos de humanos e outras atitudes que só alguns seres humanos podem ter. O homem pelo simples fato de ser humano pode tomar qualquer uma das duas atitudes. EU-TU não é reservado às pessoas mais “poderosas”, de maior poder de acesso à cultura, - aos sábios ou aos artistas. É errado também afirmar que o cientista só poderia tomar, por exemplo, o homem como

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objeto de seu estudo e investigação, adotando uma atitude EU-ISSO, já que esta é uma exigência metodológica interna de sua ciência. Tal distinção entre pessoas mais aptas a tomar tal atitude – EU-TU ou EU-ISSO - que outras não têm fundamento já que se trata de duas atitudes vitais que não representam dois tipos de posturas estanques que alguns homens pudessem tomar e outros não. Não são, ademais, dois estados de ser, mas dois modos de ser, de existência pessoal que o homem deve tomar incessantemente, quer uma quer outro, num ritmo constante.




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