Martin buber



Baixar 0.6 Mb.
Página10/12
Encontro18.09.2019
Tamanho0.6 Mb.
1   ...   4   5   6   7   8   9   10   11   12

Na relação com Deus, a exclusividade absoluta e a inclusividade absoluta se identificam. Aquele que entra na relação absoluta não se preocupa com nada mais isolado, nem com coisas ou entes, nem com a terra ou com o céu, pois tudo está incluído na relação. Entrar na relação pura não significa prescindir de tudo, mas sim ver tudo no TU; não é renunciar ao mundo, mas sim proporcionar-lhe fundamentação. Afastar o olhar do mundo não auxilia a ida para Deus; olhar fixamente nele também não faz aproximar de Deus, porém, aquele que contempla o mundo em Deus, está na presença d'Ele. “Aqui o mundo, lá Deus” tal é uma linguagem do ISSO; assim como “Deus no mundo” é outra linguagem do ISSO. Porém, nada abandonar, ao contrário, incluir tudo, o mundo

91

na sua totalidade, no TU, atribuir ao mundo o seu direito e sua verdade, não compreender nada fora de Deus mas apreender tudo nele, isso é a relação perfeita.



Não se encontra Deus permanecendo no mundo, e tão pouco encontra-se Deus ausentando-se dele: Aquele que, com todo o seu ser, vai de encontro ao seu TU e lhe oferece todo ser do mundo encontra-o, Ele que não se pode procurar.

96 Sem dúvida Deus é o “totalmente Outro”, Ele é porém o totalmente mesmo, o totalmente presente. Sem dúvida, ele é o “mysterium tremendum” cuja aparição nos subjuga, mas Ele é também o mistério da evidência que me é mais próximo do que o meu próprio EU.

Na medida em que TU sondas a vida das coisas e a natureza da relatividade, chegas até o insolúvel; se negas a vida das coisas e da relatividade, deparas com o nada; se santificas a vida, encontras o Deus vivo.
*
O sentido-de-TU do homem que experimenta, através das relações com o TU individual, a decepção do tornar-se ISSO, este sentido aspira atingir o seu TU Eterno, além de todas aquelas relações sem, contudo, negá-las. Não como se se procurasse uma coisa; na verdade, não há uma procura de Deus, pois, não há nada onde não se possa encontrá-lo. Quão insensato e sem esperança seria aquele que se

92

afastasse de seu próprio caminho a fim de procurar Deus; mesmo que houvesse conquistado toda sabedoria da solidão e todo o poder de concentração, não o encontraria. Ao contrário, é antes como alguém que anda pelo seu caminho e deseja que este seja o caminho certo; no poder de seu desejo se manifesta a sua aspiração. Cada evento de relação é uma etapa que lhe possibilita um olhar sobre a relação completa; assim, em todas as relações, ele não toma parte da relação completa, mas também toma parte, por estar pronto. Ele vai pelo seu caminho estando pronto e não procurando; por isso ele possui a serenidade para com as coisas e o modo de tocá-las que é para elas uma ajuda. Porém, quando ele encontra a relação completa, o seu coração não se afasta das coisas, mesmo que tudo agora venha ao seu encontro de uma só vez.



97 Ele abençoa todas as celas que o abrigaram e todas nas quais ele se hospedará. Pois este achado não é o fim do caminho mas o seu eterno centro.

É um achado sem que se tivesse procurado; uma descoberta daquilo que é primordial, originário. O sentido do TU que não pode ser saciado, até que ele tenha encontrado o TU infinito, que lhe estava presente desde o começo; bastou somente que esta presença se lhe tornasse totalmente atual, de uma atualidade da vida santificada do mundo.

Não significa que Deus possa ser deduzido de alguma coisa, por exemplo, da natureza como o seu autor ou da história, como

93

seu guia ou então do sujeito, como o si-mesmo que nele se reflete. Não que exista um “dado” qualquer que fosse dele deduzido, mas significa o existente diante de nós, na sua imediatez, sua proximidade e duração, que só pode ser legitimamente invocado, mas não evocado.


*
Pretende-se ver, como elemento essencial na relação com Deus, um sentimento chamado “sentimento de dependência” ou mais claramente, em termos mais recentes, o sentimento de criatura. Por mais correto que seja fazer realçar e definir este elemento, acentuando-o de um modo exclusivo, se desconhece o caráter da relação perfeita.

98 O que já foi dito a respeito do amor, vale aqui com maior razão: os sentimentos simplesmente acompanham o fato da relação, que não se realiza na alma, mas entre o EU e o TU. Por mais que se queira conceber o sentimento como essencial, ele permanece submisso ao dinamismo da alma, onde um é ultrapassado, superado, abolido pelo outro; diferenciando-se da relação, o sentimento baseia-se nunca escala. Mas, antes de tudo, cada sentimento tem seu lugar no seio de uma tensão de polaridade; ele toma sua cor e seu sentido não somente em si próprio, mas também em seu pólo oposto; cada sentimento é condicionado pelo seu contrário. A relação absoluta que, na realidade, engloba todas as relativas e não é parcial como

94

estas, mas total com realização e unificação delas, é relativizada do ponto de vista psicológico, na medida em que é reduzida a um sentimento delimitado que é realçado.



Do ponto de vista da alma, a relação perfeita só pode ser concebida como bipolar, como uma “coincidentia oppositorum”, como união dos sentimentos contrários. Sem dúvida, um dos pólos - reprimido pela atitude fundamentalmente religiosa da pessoa - desaparece à consciência retrospectiva e só poderá ser lembrada na profundeza mais pura e imparcial da introspecção.

Sim, sem dúvida, na relação pura, TU te sentiste inteiramente dependente como nunca em alguma outra foste capaz de te sentir - e também inteiramente livre como nunca e em nenhum lugar: criatura e criador. O que possuías, então, não era mais um destes sentimentos limitado pelo outro, mas ambos sem reserva e juntos.

Que necessitas de Deus, mais do que tudo, sempre o sabes em teu coração: porém, não sabes também que Deus necessita de ti, de ti na plenitude de sua eternidade? Como existiria o homem se Deus não tivesse necessidade Dele, como TU existirias? Necessitas de Deus para existir e Deus tem necessidade de ti para aquilo que, justamente, é o sentido de tua vida. Os ensinamentos e poemas tentam dizer mais e o fazem demasiadamente; que triste e pedante verborréia que fala do “Deus em devir que, de fato haja um devir de Deus vivo,

95

sabemos, certamente em nosso coração. O mundo não é um jogo divino; ele é um destino divino. O fato de que exista o mundo, que o homem, a pessoa humana exista, que EU e TU existamos tem um sentido divino.



A criação - ela se realiza em nós, ela penetra em nós pelo ardor, nos transforma pelo seu brilho, nós estremecemos, desvanecemos, submetemo-nos. Nós nos associamos a ela, encontramos nela o criador, nós nos oferecemos a ela como auxiliares e companheiros.

Dois grandes servidores percorrem os tempos: a prece e a oferta. Aquele que ora arrepende-se em um sentimento de dependência sem reserva e sabe - de um modo incompreensível - que atua sobre Deus, mesmo sabendo que nada exige de Deus; pois, quando não aspira a nada para si, ele vê a sua ação brilhar na chama suprema. E aquele que apresenta a oferta?

100 Não posso menosprezá-lo este correto servidor do passado que julgava que Deus desejava o perfume de seu holocausto; ele sabia de um modo insano, porém forte, que se podia e que se devia oferecer a Deus; isso também sabe aquele que oferece a Deus sua vontade humilde a fim de encontrá-lo em sua grande vontade. “Tua vontade seja feita” é tudo o que ele diz, mas a verdade completa para ele: “através de mim, de quem necessitas”. Em que a prece e a oferta diferem de toda magia? Esta pretende agir, sem entrar na relação, e pratica seus artifícios no vazio; a prece e a oferta, porém, colocam-se “diante da Face”, na realização da

96

palavra-princípio sagrada que significa ação mútua. Eles proferem TU e o ouvem.



Querer ver a relação pura como uma dependência é querer desatualizar um dos sustentáculos da relação e por isso mesmo, ela própria.
*
O mesmo ocorre, do outro lado, quando se vê, como elemento essencial no ato religioso, a absorção e a descida no si mesmo, seja livrando o si mesmo de todo condicionamento da egoidade, seja concebendo-o como o Único que pensa e que é. O primeiro destes tidos de consideração supõe que Deus venha integrar-se no ser livre do EU ou que este venha a realizar-se em Deus; o segundo tipo julga que o ser livre do EU se coloque imediatamente em si mesmo como se fora na Unidade divina.

101 O primeiro tipo implica, portanto que, em um momento supremo, o dizer-TU deixa de existir já que a dualidade é abolida; o segundo que não há verdade no dizer-TU, pois já não há mais, na realidade, dualidade. Se o primeiro tipo de consideração crê na unificação do divino e do humano, o segundo acredita na identidade do divino e do humano. Ambos afirmam um além do EU e do TU, que no primeiro caso é um além em devir - por exemplo no êxtase - e o outro, um além que existe e que se revela por exemplo, na contemplação de si do sujeito pensante. Ambos suprimem a relação; de um modo dinâmico no primeiro, onde o EU é abolido pelo TU, que agora não é mais TU mas o

97

ser único; de um modo estático, por assim dizer, no segundo tipo, onde o EU absorvido no Si-mesmo, conhece-se como o único existente. A doutrina da dependência não deixa ao EU, que sustenta o arco universal da relação pura, senão uma realidade, tão vã e débil a ponto de não acreditar mais que ela seja capaz de sustentar algo; enquanto que uma doutrina da absorção deixa desaparecer este arco no momento de sua perfeição, a outra considera-o uma quimera a ser superada.



As doutrinas da absorção reclamam para si as grandes fórmulas da identificação - uma delas sobretudo invoca a palavra de São João: “Eu e o Pai somos um”,26 a outra invoca a doutrina de Sandilya “O que envolve tudo é o meu si mesmo no fundo do coração”.27

102 Os caminhos destas sentenças se opõem frontalmente. A primeira, (após uma emanação subterrânea), jorra da vida miticamente grande de uma pessoa e se realiza em doutrina. A outra emerge no interior de uma doutrina e culmina (provisoriamente) na vida miticamente grande de uma pessoa. Por este caminho, transforma-se o caráter da sentença. O Cristo, da tradição joanina, o Verbo que uma vez se encarnou, conduz ao Cristo de Mestre Eckart, que Deus engendra eternamente na alma humana. A fórmula da coroação de si mesmo nos Upanishads: “Eis aqui o atual, o Si-mesmo, TU o és”, conduz mais rapidamente à fórmula budista da deposição: “Um Si mesmo e

98

aquilo que pertence ao si não é para ser compreendido nem na verdade nem na atualidade”.



O começo e o fim deste dois caminhos devem ser considerados separadamente.

Que a invocação do “somos um” é infundada, torna-se claro para quem ler imparcialmente, parágrafo por parágrafo, o Evangelho segundo João. É, sem dúvida, o Evangelho da relação pura. Há mais verdade aqui do que na fórmula familiar dos versos místicos: “Eu sou TU e TU és EU”. O Pai e o Filho consubstanciais - podemos afirmar: Deus e o Homem consubstanciais, constituem o par indestrutivelmente atual, os dois suportes da relação primordial, que vinda de Deus ao homem se chama missão e mandamento, indo do homem a Deus se chama contemplação e escuta e entre os dois se chama conhecimento e amor. É nesta relação que o filho, embora o Pai habite e opere nele, se inclina diante daquele que é “maior” que ele e ora.

103 São vãs todas as tentativas modernas em interpretar esta realidade originária do diálogo como um relacionamento do EU ao Si-mesmo ou algo semelhante, um fenômeno fechado no qual a interioridade do homem seria auto-suficiente; tais tentativas pertencem à história insondável da desatualização.

- E a mística? Ela relata como se pode vivenciar a unidade sem dualidade. Pode-se duvidar da exatidão de seu relato?

- Conheço não somente um, mas dois eventos onde se perde a consciência da dualidade. A mística os confunde, às vezes, em

99

sua linguagem, como também eu os confundi outrora.



Um destes eventos é o da alma que alcança a unidade. Não se trata de algo que se passa entre Deus e o homem, mas algo que ocorre no homem. As forças se concentram em um núcleo, tudo o que tenta desviá-las é dominado, o ser permanece em si mesmo e rejubila, como diz Paracelso, em sua exaltação. Para o homem este é o instante decisivo. Sem este, o homem não é apto para a obra do espírito. Com ele, decide no seu íntimo, se isso significa preparação ou satisfação. O homem concentrado na unidade pode entrar em relação somente agora plenamente possível - com o mistério e a salvação. Mas, ele pode também saborear a felicidade da concentração e voltar à dispersão, sem acatar a tarefa suprema. 104 Em nosso caminho tudo é decisão: voluntária, pressentida, secreta; esta decisão, no âmago de nosso ser, é a mais originariamente secreta e a que nos determina mais poderosamente.

O outro evento é aquele insondável tipo do ato de relação pelo qual se percebe que a dualidade se torna unidade: (o um e o um unidos, aí a nudez brilha na nudez)28 O EU e TU desaparecem, a humanidade que, há pouco estava na presença da divindade, se submerge nela; aparecem a glorificação, a divinização e a unidade. Porém, quando alguém iluminado e esgotado, voltar à miséria das coisas terrestres e refletir com coração advertido sobre os dois eventos, o ser não lhe apareceria dividido

100

e, em uma das partes, abandonado à perdição? De que serve à minha alma poder ser de novo afastada deste mundo, se esse mundo permanece necessária e totalmente apartado da unidade? Para que este “prazer de Deus” em uma vida dividida em dois? Se este momento celestial de abundante riqueza nada tem em comum com o meu pobre momento terrestre, o que me importa, pois devo continuar vivendo sobre a terra, devo ainda viver com toda a seriedade? Eis como se deve compreender os mestres que renunciaram às delícias do êxtase da “unificação” Tal unificação não era uma unificação. Eu os compraria com os homens que, na paixão do Eros realizado, são de tal modo transportados pelo milagre do abraço que a consciência do EU e do TU cede lugar, neles, ao sentimento de uma unidade que não dura e não pode durar.



105 O que o vidente extasiado chama unificação, é a dinâmica extasiada da relação; não é uma unidade surgida no instante do tempo universal na qual viriam fundir-se o EU e o TU, mas é o dinamismo da própria relação que, colocando-se diante dos sustentadores desta relação, firmemente postos um diante do outro, pode confundi-la com o sentimento do vidente extasiado. Aqui existe, então, um transbordamento marginal do ato de relação. A própria relação, sua unidade vital é sentida com tal veemência que os seus componentes parecem empalidecer diante dela, e que pela sua existência, o EU e o TU, entre os quais ela se institui, serão esquecidos. Trata-se, aqui, de um

101


destes fenômenos que encontramos nas margens, onde a atualidade se amplia e se dilui. Porém, maior que estas oscilações enigmáticas da margem do ser é a realidade central da hora quotidiana e terrena onde um raio luminoso, sobre um galho, te faz pressentir o TU eterno.

Aqui, se coloca a exigência de outra doutrina da absorção, segundo a qual o universo e o si-mesmo são idênticos de tal modo que nenhum dizer-TU pode garantir uma última atualidade.

A própria doutrina contém a resposta a esta exigência. Um Upanishad conta como o príncipe dos deuses, Indra, foi ao encontro de Pradshapati, o espírito criador, para aprender com ele a encontrar e conhecer o si-mesmo.

106 Ele permanece um século na escola; despedido duas vezes com informações insuficientes até que, finalmente, o justo lhe foi revelado: “Quando se dorme em sono profundo e sem sonhos, tal é o si-mesmo, tal é o imortal, o certo, o universal”. Indra se retira, mas, logo um escrúpulo se apodera dele; ele se volta e pergunta: “Em tal estado, ó Sublime, ninguém sabe algo sobre o si-mesmo: “Isso sou eu” e não: “isso são os entes””. Ele caiu no aniquilamento. Não vejo ai nenhum proveito. É, de fato, assim, Senhor, responde Pradshapati.

Na medida em que esta doutrina contém uma afirmação sobre o verdadeiro ser, não importa qual seja o seu conteúdo de verdade - que não podemos descobrir nesta vida -

102


com uma coisa, ele nada tem em comum: a atualidade; ela é obrigada, então, a rebaixá-la a um mundo de aparência. E na medida em que esta doutrina contém uma indicação para se aprofundar no verdadeiro ser, ela não conduz à atualidade vivida, mas para o aniquilamento, onde não reina consciência alguma, de onde não surge lembrança alguma. O homem que emerge deste aniquilamento, pode reconhecer a experiência através da expressão-limite da não-dualidade, sem, no entanto, poder chamá-la unidade.

Queremos, todavia, tomar um cuidado sagrado do bem sagrado de nossa atualidade que nos é para esta vida e, talvez para nenhuma outra vida mais próxima da verdade.

Na atualidade vivida não há unidade do ser. A atualidade é somente ação; sua força e profundidade são as desta ação. E mais, só há atualidade “interior” na medida em que houver ação mútua.

107 A atualidade mais forte e profunda é aquela onde tudo se dirige à ação, o homem na sua totalidade, sem reserva, e o Deus que tudo envolve, o EU unificado e o TU ilimitado.

O EU unificado, pois, já falei sobre isso a atualidade vivida implica a unificação da alma, a concentração de forças em um núcleo, o instante decisivo para o homem. Mas, isso não é, como aquela absorção, uma abstração da pessoa atual. A absorção não quer conservar senão o que é puro, autêntico, durável e se desfazer de tudo o mais; a concentração não

103


considera o instintivo como impuro, assim como não considera o sensível como superficial e o emotivo como fugaz; tudo deve ser incluído, integrado. Ela não deseja o si mesmo abstrato, mas o homem inteiro, integral. Ela quer a atualidade, ela é a atualidade.

A doutrina da absorção exige e promete a entrada no uno pensante, “naquele que pensa o mundo”, no sujeito puro. Porém, na realidade vivida, não há pensante sem pensado, e mais, aqui o pensante depende tanto do pensado como este daquele. Um sujeito que dispensa um objeto anula a sua própria atualidade. Não há pensante em si senão no pensamento do qual ele é o produto e o objeto, como um conceito-limite isento de qualquer representação. Assim, ele existe, na determinação antecipadora da morte, à qual se pode comparar um sono profundo quase tão impenetrável quanto ela.

108 Finalmente, existe na mensagem da doutrina sobre um estado de absorção que se assemelha a um estado de sono profundo, por natureza, sem consciência e, sem memória. São estes os cincos mais altos do mundo do ISSO. Deve-se respeitar o sublime poder de ignorar e reconhecê-lo respeitosamente como aquilo que, no máximo, se pode vivenciar mas que não se pode viver.

Buda, o “perfeito”, e o que aperfeiçoa não fala. Ele se recusa a opinar sobre se a unidade existe ou se não existe; ele não diz se aquele que passou por todas as provações da absorção subsiste, depois da morte, na unidade, ou se ele

104

não subsiste. Esta recusa, este “nobre silêncio” pode ser interpretado de dois modos: um teórico, porque a perfeição escapa às categorias do pensamento e do discurso; o outro prático, porque a revelação de sua essência não basta para fundamentar uma verdadeira vida de salvação. As duas interpretações se completam como verdade: aquele que faz do ente um objeto de uma proposição, leva-o para o mundo da divisão29 para a antítese do mundo do ISSO - no qual não existe vida de salvação. “Oh! monge, quando a opinião de que a alma e o corpo são essencialmente idênticos prevalece, não pode haver vida de salvação; oh! monge, quando a opinião de que a alma é uma coisa e o corpo outra prevalece, não pode, também, haver vida de salvação”.



109 “No mistério contemplado, como na realidade vivida o que reina não é o “é assim” nem o “não é assim” não é nem o ser nem o não-ser, mas o assim-e-de-outro modo, o ser-e-o-não-ser, o indissolúvel. Apresentar-se indiviso em face do mistério indiviso é condição originária de salvação. É evidente que Buda foi um daqueles que reconheceu isso. Como todos os verdadeiros mestres, ele quer ensinar não uma doutrina mas o caminho. Ele não contesta senão uma única afirmação, a dos “insensatos”, para os quais não há ação, nem ato, nem força; pode-se seguir o caminho. Ele arrisca uma só afirmação, porém, decisiva: “Há, ó monges, um ser que não nasceu, que não se transformou, que não foi criado ou formado”. Se este ser não existisse, não existiria fim algum. Ele existe, e o caminho tem uma finalidade.

105


É até aqui que podemos, permanecendo fiéis à verdade de nosso encontro, seguir Buda; um passo mais, seríamos infiéis à atualidade de nossa vida. Pois, a verdade e a atualidade, que nós não tiramos de nós mesmos, mas que nos são dadas e repartidas, nos ensinam que, se este fim é somente um entre outros, não pode ser o nosso; se for o fim ele é falsamente fixado. E mais: se for um fim entre outros, o caminho pode conduzir até ele; se for o fim, o caminho somente conduz mais perto dele.

Buda designa como o fim a “abolição da dor”, isto é, do devir, da morte: a redenção do círculo dos nascimentos. “Não há volta à vida” tal é a fórmula daquele que se libertou do desejo de existência e, com isso, do dever-tornar-se-continuamente.30

110 Ignoramos se há regresso; nós não prologamos, para além desta vida, as linhas da dimensão de tempo na qual vivemos e não tentamos descobrir o que deseja revelar-se a nós em seu tempo e segundo sua lei. Se soubéssemos que há um regresso, nós não procuraríamos de modo algum, escapar dele, porém em vez de aspirar à existência bruta, desejaríamos poder proferir, em cada existência, segundo seu modo e sua língua, o EU eterno do efêmero e o TU eterno do imortal.

Não sabemos se Buda leva a bom termo a libertação da necessidade-de-renascimento. Certamente conduz a um fim intermediário que nos interessa também: à unificação da alma. Porém, para nos conduzir a ele, não só ele nos conserva afastados da “floresta de opiniões”, o que é necessário, mas também da “ilusão das

106

formas” que longe de ser uma ilusão, é o mundo autêntico (apesar dos paradoxos subjetivistas da intuição que para nós fazem parte dele). Seu caminho é também uma abstração e quando ele fala por exemplo, de tomar consciência dos processos de nosso corpo, ele quer dizer com isso quase o contrário do conhecimento certo de nosso corpo. E ele não conduz o ser unificado mais adiante até o supremo dizer-TU que lhe é oferecido. Sua decisão, no âmago do ser, parece levar à supressão da possibilidade de dizer-TU.



Buda conhece o dizer-TU ao homem - isto patenteia-se pelo trato com os discípulos, trato esse que, embora fortemente superior, é imediato - porém ele não o ensina; pois o simples confronto face-a-face de um ser com outro é estranho a este amor que se chama “encerrar indistintamente em seu seio tudo o que

se tornou”.

111 Sem dúvida, ele conhece também, no âmago de seu silêncio o dizer-TU para o princípio primeiro, para além de todos os “deuses” que ele trata como discípulos; o seu ato proveio de um fenômeno de relação que se tornou substancial, ato este que é também uma resposta ao TU; mas ele não diz nada.

Os seus seguidores em todas as nações, o “Grande Veiculo”31, o renegaram majestosamente. Eles invocaram sob o nome de Buda, o TU eterno dos homens. Eles o aguardam como ao Buda futuro, o último desta época, aquele que deve realizar o amor.

Toda doutrina da absorção repousa sob a ilusão gigantesca do espírito humano, voltado

107


para si mesmo, de que ele existe no interior do homem. Na verdade ele existe a partir do homem, entre o homem e o que não é o homem. Na medida em que o espírito voltado sobre si renuncia a este seu sentido, ao sentido da relação, ele é obrigado a colocar no homem aquilo que não é o homem, ele é obrigado a reduzir o mundo e Deus a um estado de alma. Esta é a ilusão psíquica do espírito.

“Eu anuncio, ó amigo, diz Buda, que este alto corpo de asceta, dotado de sensibilidade, habita não só o mundo, o nascimento, a abolição do mundo mas também o caminho que leva a essa abolição do mundo”.




1   ...   4   5   6   7   8   9   10   11   12


©aneste.org 2017
enviar mensagem

    Página principal