Louis Pauwels Jacques Bergier



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Para o astronauta que penetra no espaço cósmico a segunda camada é a mais perigosa. A nós, porém, de início, interessa a camada inferior, pois ela exerce influência, por meio de ondas eletromagnéticas, sobre as comunicações para transmissão de notícias. Ela se origina do bombardeio ininterrupto da atmosfera por partículas vindas do espaço sideral e pela absorção de energia solar. Na atmosfera superior os gases estão na realidade muito diluídos, mas apesar disso ainda há dez milhões de partículas por centímetro cúbico. Quando as partículas são ionizadas pelas radiações ou por impacto de corpúsculos, abrem certas trajetórias no campo magnético terrestre. Como satélites em miniatura, os

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eléctrons deslocam-se de leste para oeste e os íons positivos de oeste para leste. Como no caso dos satélites, a órbita se desloca. A um observador na Terra aparece como espiral. A Terra é, pois, rodeada de tais espirais, que envolvem as linhas de força do campo magnético terrestre. Alguns dos eléctrons atingem temperaturas de mais de 10 milhões de graus. Os íons não são tão quentes, mas ainda assim sua energia é suficiente para fender as moléculas da atmosfera e produzir auroras boreais.



Essa camada ionizada é invisível a olho nu. Mas exerce influência sobre as ondas radiofónicas. Na faixa de 20 centímetros o efeito é quase igual a zero. Porém, ao lado da faixa de 21 centímetros, que representa uma janela no cinturão de radiação, ela se torna muito intensa. Fortemente influenciadas são as ondas longas, médias e curtas, entre 3 mil metros e 24 centímetros. São múltiplas as consequências. Em parte essas ondas são com-pletamente absorvidas, em parte são fendidas, em parte a camada atua como um espelho esférico que faz surgir imagens. Por isso os sputniks eram acompanhados por fantasmas que lhes ficavam diretamente fronteiros e emitiam os mesmos raios.

A mais extraordinária descoberta da física moderna

Com o auxílio dos radiotelescópios, descobriu-se que o Sol está envolto em plasma e consiste em plasma. De tempos a tempos esse plasma explode e derrama sobre a Terra raios cósmicos, campos magnéticos, eléctrons e partículas carregadas. Essas partículas enchem todo o nosso sistema solar e produzem um fenómeno conhecido só há pouco tempo, os ventos solares. Sondas espaciais, enviadas da Terra a Vénus, traçaram um mapa destes ventos solares.

Ainda há poucos anos não se tinha a menor ideia da existência desses ventos de plasma. Um aluno de Bruno Rossi asseverou há pouco tempo em Florença que seu professor considerava os ventos solares a mais extraordinária descoberta da física moderna. Acredita-se que tenham efeito sobre a rotação da Terra, modificando-a. Além disso supõe-se que provocam alterações em nossa atmosfera, que dão origem aos ciclones. Exercendo influência sobre as correntes terrestres, diz-se, provocam terremotos no

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núcleo central da Terra. Todas essas hipóteses, porém, não foram provadas. Hoje ainda não somos capazes de traçar um mapa celeste com esses ventos solares. Só podemos verificar, mais uma vez, como ainda é pouco, no fundo, aquilo que sabemos. O vácuo interestelar nunca existiu a não ser na fantasia dos sábios do século XIX. O espaço cósmico não é vazio, é atravessado por correntes e forças, das quais mal ainda sabemos alguma coisa; o vento solar é apenas um entre muitos fenómenos no espaço universal.



As erupções solares não nos enviam apenas estes estranhos ventos, mas também modificam os elementos. Este fenómeno foi muito cuidadosamente examinado. Observações realizadas sobretudo por Goldberg, Mohler e Múller demonstraram que, com a ocorrência de erupções solares sobremodo violentas, pode formar-se hidrogénio pesado. Este combina-se com outros núcleos atómicos, formando novos núcleos atómicos um tanto pesados. Pode-se, pois, definir o Sol, sobretudo sua superfície e sua atmosfera, como uma fábrica de plasma, na qual se produzem em grandes quantidades diversos elementos químicos. Seria para nós extremamente importante saber com exatidão como se processam essas transformações, mesmo se nunca formos capazes de imitá-las na Terra.

No início houve, pois, o plasma. Este enchia todo o espaço universal; de sua condensação resultaram os corpos celestes, que se agruparam em galáxias. Aos poucos os astrofísicos vão compreendendo por que as galáxias têm braços em espiral. Com o auxílio da radioastronomia pôde-se provar que, tal como um vento solar, também existe um vento galáctico. Com uma velocidade de 50 km por segundo, correntes de plasma avançam do centro da galáxia para fora. Conseguiu o radioastrônomo australiano Frank Kerr descobrir essa corrente nas imediações de nosso Sol; ali ela ainda tem uma velocidade de 7 km por segundo. A quantidade do gás assim emitido é tão grande que daria para formar todos os anos um novo sol. Assim originam-se provavelmente, também as novas estrelas nos braços espiralados de nossa galáxia.

O cientista americano Halton C. Arp, que trabalha no observatório do Monte Palomar, demonstrou matematicamente que o plasma, ao fluir do centro da galáxia, é contido por um campo magnético tubular e conduzido aos braços da espiral.

Não existe vácuo interestelar:

o espaço cósmico está saturado de plasma

pessoas. Isso será simples utopia? Não ousamos impor limites às possibilidades da ciência. Talvez o plasma modifique mais nosso planeta do que a aviação ou a utilização da energia nuclear.


Como o vento solar, o vento galáctico leva consigo campos magnéticos encerrados no plasma. Estes campos magnéticos por sua vez influenciam sem dúvida a formação das galáxias e sua ligação mútua. Não existe um vácuo intergaláctico, como não existe um vácuo interplanetário. O espaço está, pelo contrário, todo ocupado por plasma, magnetismo, gravidade e talvez ainda por outras forças, das quais até agora não temos a menor ideia. Algumas dessas forças puderam ser observadas experimentalmente na Terra. Assim, W. Bostick, fazendo no vácuo experiências com plasma, viu como este se dispunha em formações a que chamou plasmóides. Plasmóides são nuvens de plasma que assumem a forma de nebulosas espirais e podem ter até 50 centímetros de comprimento; seu diâmetro é de aproximadamente 10 . centímetros. Emitem luz e podem ser fotografados. As fotografias assim obtidas são extremamente impressionantes. Vê-se na retorta um universo em miniatura. "O que está em cima é exatamente como o que está embaixo" já disseram os alquimistas.

Quando começa a compreender, a ciência também quer dominar. O quarto estado da matéria não se encontra apenas nos espaços interestelares, mas também na Terra. Já está sendo utilizado pela indústria e nesse sentido haverá rápido desenvolvimento. As possibilidades de utilização vão de interruptores para correntes elétricas da mais alta tensão até o acionamento de foguetes, à transformação direta de calor em energia elétrica e à construção de alto-falantes de alta fidelidade, para citarmos só uns poucos exemplos. Tem-se a impressão de que aqui se abrem perspectivas quase ilimitadas.

Dois cientistas húngaros, os Professores K. Simonyi e M. Uszo-ky, querem criar sóis artificiais de plasma. Um tal sol deverá ter um diâmetro de 1.250 metros, uma temperatura interna de 100 milhões de graus e uma pressão de 1.000 atmosferas. Cada um desses sóis deverá irradiar 3 X IO16 watts. Deverão ser levados a uma altura de 20 mil quilómetros como satélites artificiais; sua velocidade deverá ser calculada de tal maneira que pareçam estar imóveis sobre o mesmo ponto da superfície terrestre. Se um tal plasmóide fosse colocado sobre a Sibéria ou a Antártica criar-se-ia um clima tropical naquelas regiões, o que daria condições para ali viverem muitas centenas de milhões de

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Um fogo que tudo devora



Os sóis artificiais seriam bolas de fogo incandescentes. O plasma pode ter as mais variadas temperaturas. O plasma intergaláctico, por exemplo, é muito frio. Outras massas de plasma podem ter milhões ou bilhões de graus de calor. Nenhum recipiente de qualquer substância que nos é conhecida poderia conter matéria tão quente assim. Este problema lembra o do ácido que tudo dissolve, dos alquimistas. Como se poderá conservar um fogo que devora tudo aquilo com que entra em contacto?.

Fizeram-se experiências de encerrar o plasma em gafYafas magnéticas. É como os cientistas chamam um recipiente invisível, cujas paredes são formadas pelas linhas de força de um campo magnético. Como esta garrafa não consiste em matéria, não pode ser destruída pelo calor. Na prática, naturalmente é muito difícil produzir um campo magnético tão denso que impeça o escapamento de toda e qualquer matéria no quarto estado.

Quando se fala nestes trabalhos de pesquisa, ouve-se sempre de novo o nome de um francês chamado Siegfried Klein.

Meu amigo Siegfried Klein certamente não se zangará se o comparo a Thomas Alva Edison. Tal como se deu com o grande inventor do século passado, os resultados alcançados por Klein nem sempre são explicáveis cientificamente. Embora nos deixem estupefatos, são fáceis de alcançar. Um dos mais admiráveis de seus inventos utilizados industrialmente é o plasma falante. Esse aparelho é vendido na França sob o nome Ionofone e nos Estados Unidos sob a designação de Ionovac. Plasma que flui no ar vibra sob a influência de um campo de força elétrica e assim produz sons sem necessidade de quaisquer peças metálicas. É este o único instrumento que possibilita uma reprodução de fato inteiramente fiel do som. Na teoria, o fenómeno ainda não foi plenamente esclarecido, pelo menos que eu saiba. Vários físicos de renome demonstraram que tal coisa nem é possível; apesar disso, porém, o aparelho já se encontra no comércio. O ionofone prova que o plasma pode ser manejado e que, com

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um pouco de perseverança, com ele se podem realizar coisas consideradas impossíveis pelos teóricos. No decorrer desta contribuição teremos ainda de nos lembrar várias vezes desta total discrepância entre teoria e prática.



Ao contrário do ionofone, o microconversor ainda não atingiu, a fase de comercialização. Quando estiver pronto para a fabricação em série, poder-se-ão instalar usinas termelétricas sem caldeiras, sem turbinas e geradores. Na fase atual da técnica, para se transformar energia térmica em energia elétrica é necessário fazer ferver um líquido, por exemplo, água ou mercúrio. O vapor põe as turbinas em movimento, as turbinas acionam os geradores, os geradores produzem a corrente. Isso é assim no mais moderno submarino atómico e também numa usina termelétrica das mais comuns, na qual se queima carvão.

Esse caminho tortuoso é sobremaneira inadequado quando se emprega a energia nuclear. Para a produção de calor comum é usada para não dizermos desperdiçada uma energia de primeira ordem. Não se poderia transformar energia nuclear ou calor diretamente em eletricidade? Se refletirmos sobre este problema, ocorre-nos logo de início à lembrança o efeito termelé-trico (efeito de Seebeck). Soldando-se em dois pontos dois fios de metais diferentes, por exemplo de platina e de volfrâmio, aquecendo-se um dos pontos de soldagem e deixando-se o outro a temperatura ambiente ou inferior, refrigerada, uma corrente flui do ponto de soldagem mais quente para o mais frio. Desta maneira, calor é transformado diretamente em eletricidade. De um século para cá o efeito de Seebeck é utilizado para medições de temperatura. Naturalmente já se pensou em utilizar este fenómeno em escala industrial para produção de corrente elétrica. No entanto, metais não conduzem apenas eletricidade, mas (infelizmente, neste caso), também o calor; a capacidade condutora elétrica e a térmica estão em relação direta uma com a outra. Tais elementos termelétricos são por isso pouco eficientes e pouco produtivos. Para se obterem tensões mais elevadas, devem-se ligar entre si muitos fios, o que resulta num conjunto pesado, dificilmente manejável. Empregando-se semicondutores em vez de metais, conseguem-se resultados um pouco mais favoráveis. Todavia, o mais eficaz elemento termelétrico desse tipo, construído em Toulon, mal produz mais do que seis watts por metro quadrado (os pontos de soldagem são aquecidos pelo Sol). Caso se quisesse construir uma usina geradora desse tipo, aquecida por energia nuclear, seria necessário empregarem-se elementos térmicos com um peso de várias dezenas de milhares de toneladas e a produção nem por isso seria extraordinária. Siegfried Klein

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como também os americanos Lewis e Reiss teve a ideia de substituir por plasma um dos dois fios do elemento térmico. No momento o dispositivo está sendo aperfeiçoado nos laboratórios do comissariado francês para energia nuclear. Este aparelho tornará possível transformar diretamente em eletricidade o calor de uma chama. Caso a experiência for bem sucedida e a instalação produzir energia suficiente, poder-se-á com tal conversor acionar um automóvel, um avião ou uma usina geradora, com qualquer espécie de combustível, inclusive com turfa e matérias combustíveis só existentes em certas estações do ano, como palha. O efeito em escala pequena pode ser conseguido com toda e qualquer chama, quando se acrescenta um sal de fácil evaporação, que aumenta o número de íons. Na maioria dos casos emprega-se potassa. Também os gases ionizados que escapam de um reator nuclear apresentam o efeito em pequena escala, e talvez será possível um dia transformar energia nuclear diretamente em energia elétrica.



Se de fato for conseguido utilizar em instalações simples e eficientes o efeito em escala pequena, o invento deste físico se revelará tão importante como a máquina a vapor ou o motor elétrico.

Usinas geradoras sem turbinas

O efeito em pequena escala foi descoberto no decorrer de experiências. Outros cientistas partem de teorias e delas desenvolvem planos para dispositivos que transformam calor em eletricidade. Recorrem, por exemplo, ao efeito magnético-hidrodi-nâmico. A magneto-hidrodinâmica, cujo pioneiro foi o sueco H. Alfven, figura entre a dúzia de novas ciências que resultaram da pesquisa sistemática do plasma. Alfven parece ter sido o primeiro a notar que, num líquido neutro, mas carregado de eletricidade, como é o plasma, os fenómenos magnéticos devem necessariamente ter maior importância do que num fluido comum, por exemplo, água. A teoria magneto-hidrodinâmica permitiu desde logo reconhecer que, com o auxílio de uma chama carregada de eletricidade, movida com suficiente rapidez, se pode construir uma máquina que corresponde ao dínamo, isto é, um dispositivo em que um condutor movido num campo magnético produz uma corrente elétrica que pode ser derivada. Pesquisas no campo

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da magneto-hidrodinâmica foram iniciadas sem perda de tempo nos Estados Unidos, na União Soviética e na França. Já vi alguns desses geradores. São relativamente pesados e ainda não se pode esperar deles que acionem um automóvel ou um avião. Todavia, não é fora de cogitação que, em futuro não muito distante, venham a substituir as usinas geradoras tradicionais. É muito mais simples produzir corrente elétrica introduzindo-se elétrodos num tubo no qual se move uma chama do que fazer água ferver, e com o vapor produzido acionar a turbina que mova um gerador.



Rumo aos planetas com foguetes de plasma

O gerador magneto-hidrodinâmico ainda não foi aperfeiçoado ao ponto de poder ser produzido em série. Ainda constituem problemas a resistência dos materiais ao fogo, a estabilidade c o equilíbrio térmico. Mas os problemas serão solucionados e é praticamente certo que num quarto de século as usinas termelé-tricas de hoje, nas quais se queima carvão ou óleo, estarão substituídas por usinas geradoras magneto-hidrodinâmicas, nas quais, sem caldeiras, sem turbinas e sem geradores, calor é transformado em eletricidade.

Mas queremos agora mudar a finalidade de tal gerador magneto-hidrodinâmico, isto é, queremos empregar calor produzido por meios químicos ou atómicos, para dar a um raio de plasma uma alta velocidade. Se o plasma for expelido através do exaustor de um foguete, este será acionado pelo recuo. Teríamos assim um foguete elétrico. O primeiro a fazer tal proposta foi o alemão Moeckel, em 1959. Até hoje, porém, a força de empuxo de tais foguetes de plasma ainda é um tanto reduzida. Mas, para voos interplanetários, por exemplo, entre a Terra e Marte ou Vénus, seria suficiente essa reduzida força de empuxo; muito mais importante é ela manter-se constante durante um longo período de tempo. Um foguete de plasma seria, primeiramente, afastado do campo de gravidade da Terra por meio de motores químicos atualmente em uso e levado a uma órbita, que correspondesse aproximadamente à desejada órbita de vôo; só então se poderia acionar o foguete de plasma. A força de empuxo desenvolvida equivaleria apenas a cerca de um milésimo da superfície da

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Terra, mas com o aceleramento constante se alcançaria em cem dias uma velocidade de 80 km por segundo. Então o foguete estaria nas imediações de Marte.



Como fornecedores de energia para tais foguetes, entram em consideração combustíveis químicos ou baterias solares. Uma bateria solar produz teoricamente 1,4 kilowatts por metro quadrado nas proximidades da Terra, 2,65 kW nas imediações de Vénus, mais próxima do Sol, e 0,6 kW perto de Marte, que fica situado mais longe do Sol do que a Terra. Cerca de 22% dessa energia disponível pode ser transformada em corrente elétrica. Seria perfeitamente imaginável construir-se uma bateria solar na forma de uma vela de vários mil quilómetros quadrados, de tecido leve, equipada com fotocélulas e que nas proximidades do corpo celeste visado se desdobrasse plenamente. Coisa semelhante já se realizou com o satélite de transmissão à distância Eco, o balão refletor que os americanos colocaram numa órbita circular em torno da Terra.

Parece igualmente possível acumular energia solar ou qualquer outra energia elétrica num raio de plasma que gira em torno de um eixo. Provavelmente a bateria solar, o motor e o acumulador de plasma, em conjunto, abrirão ao homem o caminho para os planetas.

Um milhão de graus numa garrafa

Átomos leves podem fundir-se em átomos pesados; assim, isótopos de hidrogénio se fundem em hélio, com o que é liberada considerável quantidade de energia. Para que tal aconteça são necessárias temperaturas extremamente elevadas (várias centenas de milhões de graus). Tal fusão nuclear até agora só foi possível ao homem na bomba de hidrogénio. Vejamos o que se passa. Por meio de uma bomba de hidrogénio de vinte megatons é liberada uma energia de 24 bilhões de kW, isto é, uma quantidade de energia igual à que se consome na França sob a forma de corrente elétrica em meio ano. Durante uma fração de segundo, esta imensa energia se concentra num espaço não maior do que o ocupado por um automóvel pequeno.

Se um dia for possível domar essa energia e empregá-la em fins pacíficos, estarão solucionados todos os problemas de ener-

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gia da humanidade. A água do mar contém hidrogénio pesado suficiente para cobrir nossas necessidades durante milénios. A única possibilidade de captar essa energia consiste em produzir um plasma que contenha o máximo possível de átomos de hidrogénio pesado, aquecer este plasma até uma temperatura de 10 a 100 milhões de graus e encerrá-la numa garrafa formada de linhas de força eletromagnéticas, para que ela não possa escapar. Ninguém ainda o conseguiu. Pelo menos as experiências ainda não proporcionaram quaisquer resultados realmente aproveitáveis. Em todo caso, porém, os especialistas sabem que são boas as perspectivas nesse sentido; isso tornou-se-lhes evidente de maneira dramática.



Em abril de 1956, o famoso físico nuclear soviético Professor I. W. Kurtschatow acompanhou à Inglaterra os mais altos representantes da União Soviética de então, Bulganin e Kruschev. Foi-lhe permitido visitar o centro de pesquisas atómicas de Har-well. Propôs ele realizar ali uma conferência. Suas declarações por ocasião dessa conferência tiveram o impacto de uma bomba. O Professor Kurtschatow anunciou que os cientistas soviéticos tinham conseguidp produzir, sem o emprego de energia nuclear, temperaturas de mais de um milhão de graus. Revelou aos seus colegas estrangeiros, quase petrificados de surpresa, que um grupo de cientistas soviéticos da Academia Soviética de Ciências, sob a direção de L. A. Artimowitsch, M. A. Leontowitsch, A. D. Sacharow e I. E. Tamm, tinham conseguido produzir temperaturas incrivelmente elevadas fazendo passar uma corrente de dois milhões de amperes através de um gás. Quando, no caso desse gás, se tratava de hidrogénio pesado, verificaram que, ao passar da corrente, eram emitidos raios X e nêutrons. Naturalmente isso não permite concluir-se que desta maneira fora provocada uma reação termonuclear em cadeia; se assim fosse, o recipiente teria explodido imediatamente. Mas em todo caso fora dado um primeiro passo. O cientista soviético comunicou que ulteriores pesquisas estavam em andamento e que havia certas esperanças de ser solucionado esse problema.

Desde o relatório de Kurtschatow passaram-se vários anos. Nesse período de tempo, cientistas e leigos interessados presenciaram um constante subir e descer. Ora anunciava-se que era iminente o domínio do plasma, ora era-se forçado a admitir que ainda não se tinha controle sobre o plasma e que este consumia mais energia do que produzia. A descarga de compressão (pinch), conseguida primeiro pelos soviéticos e depois também pelos ingleses em suas instalações ZETA, não é estável. Como uma serpente de fogo enfurecida, o plasma se lança sobre as paredes da garrafa e

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as destrói. Consegue-se, na melhor das hipóteses, manter o plasma dentro dela durante um milésimo de segundo. Criaram-se por isso outros dispositivos. O stallarator, por exemplo, é um campo magnético no qual se encerra o plasma. O campo não é produzido por uma descarga no próprio plasma, mas, fora dele, por meio de condutores saturados de corrente. Com tal dispositivo puderam-se alcançar alguns resultados. Mas, coisa estranha, o plasma desaparece no stallarator sem que se possa explicar como ele se transforma em matéria comum. O problema de aproveitamento pacífico da energia de fusão ainda não está solucionado. No entanto, acredito que a suposição de meu amigo Charles-Noél Martin, de que a energia termonuclear é coisa para depois de amanhã, seja demasiado pessimista; na minha opinião já a utilizaremos amanhã ou talvez ainda hoje.



Por meio da descoberta do quarto estado da matéria não foi apenas desvendado o segredo da matéria no espaço cósmico; foi também iniciado o desenvolvimento de ciências e ramos científicos mais numerosos e, quanto a suas possibilidades práticas, mais importantes do que a química e a física baseadas nos três estados da matéria anteriormente conhecidos. Estamos no limiar de uma revolução, tanto da ciência como da técnica. Aprenderemos mais e com maior exatidão a respeito da estrutura da Terra, de suas origens e a história de sua evolução. Aos poucos serão modificadas nossa sociedade industrial e, em consequência, também nossa vida cotidiana.

Foi recentemente expressada a suposição de que existe plasma superpesado, com até 6 X IO38 partículas por centímetro cúbico. Tal plasma poderia existir no interior de proto-estrelas, cuja explosão faria surgir aos pares galáxias de matéria e de antimaté-ria. Entre o plasma intergaláctico, no qual só há uma única partícula por centímetro cúbico e esse plasma superpesado, existe uma escala quase ilimitada de densidades. Até agora a ciência explorou quando muito um centésimo milésimo deste novo mundo. Milénios passarão até ele estar completamente explorado. Mas o primeiro avanço foi conseguido e ocorreu em nossa época.

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CAPÍTULO IX Pesquisa genética no Presente e no Futuro

Jacques Bergier

"Como é enorme essa gota de sémen de que nascemos, que traz dentro de si todas as impressões, nSo apenas da forma física, mas também dos pensamentos e inclinações de nossos antepassados. Onde consegue essa gota alojar tão imenso número de formas?"

Montaigne

Do homem ao super-homem

Os

's PRÉMIOS NOBEL DO ANO DE 1962 destacaram nitidamente uma época na história mais recente da humanidade. Dois dos prémios, o de química, concedido aos ingleses Max Perutz e John Kendrew, e o de medicina, outorgado a dois outros ingleses, Francis Crick e Maurice Wilkins, bem como ao americano J. D. Watson, permitem reconhecer a importância adquirida por uma nova ciência a biologia molecular. Talvez seja esta a mais importante de todas as ciências, pois ela poderia um dia nos dar filhos exatamente segundo nossos desejos, com qualidades físicas, intelectuais e psíquicas previamente fixadas, pequenos ou grandes, com vocação para a música ou para a matemática, impetuosos ou circunspectos, esportivos ou quietos e contemplativos.




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