Louis Pauwels Jacques Bergier



Baixar 0.65 Mb.
Página2/18
Encontro18.09.2019
Tamanho0.65 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   18


Em muitos pontos na esfera do saber humano e na criação humana falha ou se revela insuficiente nossa filosofia geral da vida. Queremos localizar esses pontos, dedicar-lhes sem demora nossos cuidados e tentar ver e compreender corretamente as coi-

15

sas. Isso pode ser feito num terreno parcial da zoologia, da biologia, da arqueologia, da psicologia, da matemática, da história ou das artes. Não existe uma frente fechada, mas há, como em todas as revoluções, uma multiplicidade de cenários.



É este, pois, o papel que pensamos assumir. Queremos ser testemunhas de um movimento subterrâneo, que cria novas formas de ação e de pensamento. Queremos procurar na história os pontos de junção com o mundo de amanhã.

CAPÍTULO II Uma segunda Renascença

Louis Pauwels

"Enquanto naquela noite, em nossa casa da Rua Baker, conversávamos fumando um charuto, Sherlock Holmes opinou: "Este é um caso em que somos obrigados, por meio de conclusões finais, a chegar dos efeitos às causas."

Sir Arthur Conan Doyle

N

IÃO ACREDITO NUM desenvolvimento espontâneo do génio. Estou, ao contrário, convencido de que na história da humanidade existem momentos de significação toda especial. A meu ver é errada a ideia do génio solitário, do eleito, atingido, de súbito pelo raio da revelação e cujo ardor ilumina de um só golpe as massas estupefatas. Se fitarmos a fotografia de um trapezista, certamente não iremos afirmar que ele está voando, pairando livremente no ar. Sem dúvida ele durante um breve momento se assemelha a uma ave, mas na realidade é arrastado para baixo pela força da gravidade. Com o génio dá-se a mesma coisa. O poeta Pierre de Ronsard (1524 a 1585) expressou magistralmente o encanto da natureza, a felicidade da vida e a comoção do amor. Mas isso só lhe foi possível porque uma violenta revolução abalava nosso planeta em seus alicerces e se difundia um novo clima espiritual que levou o homem a ler de modo bem diferente no livro da natureza e a descobrir novas dimensões da existência humana e novos aspectos do amor. O poderoso hálito da Renascença, que transformou a Ásia, extinguiu o Egito, remodelou o Ocidente, abalou a Igreja, deu novo alento à Ciência, despertou a Antiguidade e preparou um futuro no qual nós, os homens de hoje, ainda vivemos, produziu na flauta de Ronsard uma melodia suave, harmoniosa, alegre, animadora, de florida liber-



17

dade e juvenilidade contida, uma serenata matutina, como festiva música para acompanhamento da vida agradável. Que tal tempestade numa flauta possa fazer surgir melodias tão humanas eis aí o milagre da poesia.

A quinta caravela e o primeiro astronauta

Ao tempo em que Ronsard nascia, no tranquilo e ensolarado Vendômois, nosso planeta se transformou, os homens descobriram uma nova realidade. Que se passava? O mundo da Idade Média terminara seu estreito trajeto. Absolutamente não quero ater-me à antiga chapa segundo a qual na história da humanidade a Idade Média tendo sido uma época de obscurantismo, de ignorância; pesquisas mais recentes em torno das correntes poéticas e científicas da alquimia, análises dos trabalhos de um Roger Bacon, de um Basilius Valentinus e de outros, provam que naquele tempo atuavam espíritos ousados, incansáveis pesquisadores que se podem designar como geniais precursores. Apesar disso, as estruturas sociais estavam enrijecidas; a escolástica, que tudo dominava, impedia autênticos progressos no mundo intelectual.

O mundo da Idade Média era um mundo restrito, confinado, envolto em terrores e maravilhas. Estreitara-se muito o vasto horizonte da Antiguidade. Os olhares voltavam-se para cima, para Deus. O mapa-múndi consistia em grande parte de áreas em branco, que se deixavam entregues aos demónios e criaturas fabulosas. Quando, no século XIII, Marco Pólo trouxe aos seus contemporâneos ocidentais notícias da China (por ele chamada Cathay), ninguém reconheceu que se tratava da mesma terra da qual falara Ptolomeu sob o nome de Serica. E Cathay, descrita no Livro das Maravilhas, foi colocada num mapa mítico daquelas longínquas regiões, que se designavam de modo muito generalizado pelo nome de índia. O Ocidente nada mais sabia a respeito da Ásia, tal como lhe era praticamente desconhecido também o grande mundo da Antiguidade.

No século XV, porém, os portões foram repentinamente abertos. O infante português Dom Henrique, o Navegador, enviou expedições que descobriram de novo a África. O continente negro, no qual o Islã penetrara enquanto os europeus não tinham dele nenhum conhecimento, entrou de repente em seu campo

18

i

visual. Pouco depois, Bartolomeu Dias circunavegou o Cabo da Boa Esperança e abriu assim a rota marítima para a índia. Vasco da Gama abriu de novo o Oceano Índico aos navios europeus, que havia um milénio ali não mais tinham sido vistos. Nesse meio tempo, Cristóvão Colombo, que procurava no oeste a rota marítima para a China e o Japão, aportou em Guanahani e Cuba, e descobriu mais tarde, na foz do Orinoco, um novo continente que aliás só Américo Vespúcio, no início do século XVI, reconheceu como tal. Em 1500 Cabral chegou ao Brasil. Do alto da serra centro-americana, em 1513, Balboa avistou pela primeira vez o Oceano Pacífico. De súbito o mundo se mostrava ao homem em toda a sua grandeza e multiplicidade. Isso pode perfeitamente ser comparado com o descobrimento da extensão infinita do Universo em nosso tempo: abria-se uma nova dimensão. Fernão de Magalhães ousou circunavegar o globo. Apenas uma de suas cinco caravelas regressou, após navegar em volta da Terra, ao porto pátrio* de Sevilha. Aquele foi o acontecimento mais importante na história da humanidade, até o vôo ao redor da Terra pelo primeiro astronauta.



A primeira despedida do Oriente

Nos trinta anos que antecederam o nascimento de Ronsard, os trezentos navios de que Portugal dispunha deram ao globo terrestre uma nova estrutura. Foram à África e à Ásia, ancoraram em portos indianos e chineses, deslocaram o centro económico da Terra para a costa europeia do Atlântico, causaram o declínio dos países do Mediterrâneo e modificaram o destino do Ocidente cristão. Ao passo, porém, que as rotas mercantes foram sendo abertas, rompeu-se um intercâmbio espiritual existente até então. Isso é claramente exposto por Jacques Pirenne em seu extenso trabalho Les Grands Courants de VHistoire Uni-verselle. O pensamento alquimista, vivo sob a superfície durante toda a Idade Média, estava intimamente ligado à vida espiritual e à ciência dos árabes e, por conseguinte, a tradições orientais e antigas. Além disso não deve ser esquecido que, a partir do século XI, o Ocidente fora fortemente influenciado pelo Oriente; o contacto entre a misteriosa Ásia e a Europa transmitira aos

• Fernão de Magalhães, português, a serviço dos reis da Espanha. Por iuo, a mençlo dos autora a "porto pátrio de Sevilha". (N. da £.}

19

ocidentais certo aprimoramento e generosidade, uma tendência para o luxo e os prazeres sensuais, uma inclinação para o fantástico e a alegria desenfreada. Ao passo, porém, que espanhóis e portugueses partiam em conquista dos mares, tomando assim com grande vantagem a dianteira aos franceses e ingleses, enfraquecidos por cem anos de guerra, os turcos tentaram construir para si um novo império romano e foram ocupando aos poucos os territórios bizantinos. Sua ditadura militar esmagou a cultura árabe. Constantinopla tornara-se uma placa giratória entre o Oriente e o Ocidente. A civilização de Córdoba na qual se haviam encontrado elementos helenísticos, persas e ocidentais, tinha sido um dos pontos culminantes da história intelectual. Em 1453, com a ocupação de Constantinopla, esgotou-se uma corrente que durante quatro séculos havia ligado dois grandes círculos culturais. Sábios e letrados sucumbiram, bibliotecas de incalculável riqueza foram devoradas pelas chamas. A partir de então o Ocidente não teve mais contacto com certa forma do sonho e da meditação, com determinado saber matemático e metafísico, com um mundo místico, cheio de poesia, no qual existiram lado a lado a estética sensual e a mais rigorosa abstinência.



No momento em que o Ocidente conquistou os oceanos, rompeu-se a comunicação com a espiritualidade do Oriente; este mergulhou num sono de Bela Adormecida. A Europa, empolgada por profundas transformações sociais e enriquecida de um momento para outro, dispunha-se a colonizar a Terra. Suas forças intelectuais e seu poder político aumentavam enormemente, mas suas virtudes e seu saber mais elevado, puramente espiritual, entraram em decadência. A Europa caminhava para o materialismo e o racionalismo, que inicialmente lhe descerravam possibilidades nunca antes sonhadas, mas que depois a lançaram ao perigo da autodestruição, à qual, em nosso tempo, mal conseguimos escapar. O presente encontra-se novamente envolto em grandes revoluções; como no início do século XVI, o espírito humano está novamente sacudindo seus fundamentos.

Fontes esgotadas


marítimas dos portugueses. Cortada do mar, na área do Mediterrâneo pelos otomanos e nas costas do Oceano Índico pelos portugueses, a Ásia se isolou, recolheu-se às suas próprias riquezas e aos seus próprios segredos. Estavam interrompidas todas as possibilidades de uma troca de ideias. O lendário continente dividiu-se em dois mundos. O Extremo Oriente, voltado exclusivamente para a China, não tardou a se entrincheirar contra o Ocidente, ao passo que a Ásia muçulmana por sua vez se dividia em três partes: o Império Otomano, que sufocava sob um rigoroso domínio militar, o Império Persa, avassalado por um nacionalismo radical e o império feudal indiano, dominado por uma aristocracia militar turca.

O Egito, outrora berço da civilização, baluarte da sabedoria e da intelectualidade, perdeu com a destruição de Alexandria toda e qualquer importância.

O Ocidente se ampliava para os conquistadores que habitavam as costas do Atlântico. Todas as rotas lhes estavam abertas, mas simultaneamente todas as antigas civilizações superiores do Oriente se isolavam. A expansão do poderio ocidental ia de mãos dadas com um crescente isolamento. O preço pago pela formação da consciência moderna era o rompimento com um antiquíssimo legado cultural e espiritual. Ao movimento vertical do espírito a descida da verdade do céu à Terra e o retorno da verdade feita carne ao céu decisivo não só para a civilização cristã da Idade Média, mas também para a árabe, a indiana, a chinesa e a egípcia, seguiu-se no Ocidente um movimento horizontal, uma expansão dos conhecimentos no( plano do homem, uma ampliação das possibilidades humanas ligadas à Terra, um imperialismo hu.manístico. Terminou assim a civilização cristã da época feudal. Este fim se explica pelo menos em parte como consequência do rompimento com a intelectualidade do Oriente. A Igreja tornou-se mais pobre, a religião profanou-se em certa extensão. Era como se a cristandade se houvesse desprendido de suas origens, como se suas próprias fontes se tivessem esgotado.

Sem dúvida também o século XVI foi um século cristão basta pensarmos nas grandes guerras religiosas. Mas, como diz Léopold Sedar Senghor. "Pela primeira vez distinguiu-se entre o sacro e o profano". Até a fé já se esforçava por fundamentar-se na razão. Já se prenunciava o formalismo do século XVII, com sua religiosidade pomposa, calculadora.


Na época da Renascença, pela primeira vez na história de nosso planeta, o Sol ergueu-se no Ocidente. A Ásia fora destroçada pela brutal expansão do poderio turco e pelas conquistas

20

21



O retorno às fontes

Enquanto se transformava de tal maneira, a Europa negava toda e qualquer realidade de tudo quanto não fosse europeu, tudo quanto não participasse de sua vida espiritual, voltada para o prático, baseada na inteligência, com o poder por única meta. Nos séculos XVII e XVIII ninguém pensava em reconhecer qualquer grandeza ao espírito ou à alma do Oriente. Do Islã só se tomava conhecimento sob a forma das histórias de amor das Mil e Uma Noites; da índia, através das peças galantes de Rameau. Durante três séculos o Ocidente humanístico acreditou representar o ponto culminante da evolução e reinar, incontestado, sobre toda a Terra, de cujos habitantes não europeus se imaginava que tinham ficado num nível intelectual primitivo.

Só na segunda metade do século XIX foi novamente iniciado o intercâmbio de ideias entre o Ocidente e o Oriente. Mediante Schopenhauer e Nietzsche, o Oriente difundiu sobre o Ocidente, excessivamente seguro de si próprio, uma possante agitação subterrânea. No início do século XX, René Guénon e seus discípulos voltaram-se de novo para o pensar tradicional, retornaram às fontes de espiritualidade religiosa. E finalmente a ciência pôs em dúvida as estruturas fundamentais do saber e do reconhecimento elaboradas desde o século XVI, enquanto ao mesmo tempo a China, a África, a índia e o mundo islâmico despertavam de seu longo sono e, com as armas forjadas pelo Ocidente, conquistaram um lugar no palco político do "planeta.

Tudo isso conduziu a uma liberalização da vida espiritual: o homem como indivíduo adquiriu nova importância. Apelava-se à razão e reivindicava-se o direito de analisar a liberdade. De mãos dadas com os descobrimentos geográficos ia a exploração das realidades de que o homem se via cercado. Graças à bússola, os navios podiam navegar por todos os mares; o invento da impressão de livros com tipos móveis pôs em circulação uma exuberância de novas ideias. Com o ímpeto de uma juventude reencontrada, o espírito pesquisador, num mundo em que milagres medievais existiam ao lado dos milagres das experiências científicas, realizou admiráveis progressos. Leonardo da Vinci, um Júlio Verne de seu tempo, projetou um escafandro, um barco submarino e um avião, e em grandes traços já reconhecera o princípio da força de gravidade. Copérnico anunciou a forma esférica da Terra e afirmou que nosso planeta gira ao redor do Sol. Mercator (Gerhard Kremer) criou os fundamentos da geografia científica. Andreas Vesalius fundou á anatomia moderna, Ambroise Pare apontou novos caminhos à cirurgia, e Agrícola (Georg Bauer) assentou os alicerces da petrografia e da ciência da mineração. O saber obtido por dedução desaloja o saber revelado, a dúvida abala a autoridade, a admiração triunfa sobre a certeza, a razão sobre a fé.

O desenvolvimento da sociedade, que conseguiu voltar a uma interpretação individualista do direito, os grandes descobrimentos, que levaram o Ocidente a tomar consciência de si próprio, coincidiram com um retorno ao mundo espiritual da Antiguidade. A comunicação com este mundo estivera interrompida durante sete séculos. O que então se encontrou não era propriamente novo; apenas estivera esquecido.

A redescoberta da liberdade

A juvenilidade dos velhos

A Guerra dos Cem Anos resultou numa dissolução das estruturas feudais. Das ordens de cavalaria, da nobreza guerreira, das ordens religiosas, cujo poder vinha de Deus, o poder passou para a nobreza e para o clero secular, que puseram o direito humano no lugar do direito divino. Através das malhas maiores destas estruturas pôde penetrar certa porção de liberdade. A crescente importância económica das cidades trouxe consigo uma ascendência da burguesia. A indústria e o comércio floresciam, novas riquezas afluíam aos portos da Europa.

22

A Renascença partiu da Itália. Petrarca despertou para nova vida a epopeia romana, Boccaccio introduziu de novo o estudo do grego. Em 1440, Plethon fundou em Florença uma academia platónica. Após a queda de Constantinopla numerosos sábios procuraram o Ocidente e trouxeram consigo preciosos manuscritos que tinham conseguido salvar. Massilio Filino fundou a filologia grega, Pico delia Mirandola fez cõm que entrasse em voga



23

o estudo do hebraico. Cristóvão Colombo copiou duas vezes o coro do segundo ato da Medeia, tragédia de Sófocles, na qual o poeta fala de um mundo cujo descobrimento estaria reservado a séculos ulteriores. No De Coelo de Aristóteles, encontrou ele a afirmação de que a Terra é esférica. Quando Descartes nasceu, muitos homens da Renascença já conheciam a proposição de Aristóteles: "Quem quiser instruir-se deve em primeiro lugar saber duvidar, pois a dúvida do espírito leva à descoberta da verdade". Já sabiam que, para Demócrito, só valiam as experiências a que ele próprio presenciara e cujos resultados reconhecera, selando-os com seu anel de sinete. Pitágoras já estabelecera antes de Newton a lei segundo a qual em dois corpos que se atraem mutuamente a força ativa é inversamente proporcional ao quadrado da distância. Tales descrevera a Via-Láctea; em Lucrécio encontra-se a ideia de um espaço interminável, tomado por um sem-número de mundos; Plutarco pressentira a existência das leis da gravidade. Galileu e Newton afirmam expressamente o quanto devem aos pensadores da Antiguidade. Copérnico escreve no prefácio de sua obra principal que, ao ler antigos autores, ocorreu-lhe a ideia de que a Terra se move.

A Renascença foi muito mais do que um retorno à literatura e à estética greco-romanas. O pensar moderno, cujo germe já estava presente nos escritos de antigos pesquisadores, chegou à florescência no clima favorável do século XVI e ainda hoje colhemos seus maravilhosos frutos. Até a física nuclear já parece ter sido pressentida na Antiguidade. Em sua Carta sobre as Maravilhas escreve Roger Bacon: "Correspondendo aos poucos exemplos que dei da natureza e da arte, podemos de uma coisa derivar várias coisas, o todo das partes e o geral do peculiar. Além disso vimos que seria absurdo recorrer à magia. Bastam-nos a natureza e a ciência."

É verdade que também na Idade Média nunca se extinguira por completo esse espírito pesquisador, proveniente da Antiguidade; esse anelo a um tempo voltado para o futuro e alimentado por fontes de um remoto passado de ler no livro da natureza. Presumivelmente esse espírito e esse desejo ardente foram mantidos vivos em toda a Idade Média cristã pela alquimia. No século XVI, circulavam trabalhos manuscritos e impressos de alquimistas, sobretudo os escritos de Basilius Valentinus, pelos quais mais tarde Leibniz iria entusiasmar-se: "Decidi estudar a natureza e, através de sua constituição, explorar-lhe os segredos, o que, depois das coisas eternas, figura entre as coisas mais sublimes deste mundo".

24

Havia na Alemanha, a partir de 1540, e na França a partir de 1545, os primeiros vestígios dos agrupamentos de que iria originar-se a maçonaria. Por volta do mesmo tempo formou-se o colégio dos irmãos da Rosa-cruz, no qual se reuniam homens cujo interesse se voltava tanto para o passado como para o futuro. Maçons e rosa-cruzes desempenharam, como se sabe, papel decisivo na Revolução Francesa.



Novo impulso

Da Itália, o movimento da Renascença não tardou a estender-se à França. Quando Ronsard, Antoine de Baif e Joachim du Bellay se reuniram à sombra de Dorat, o professor de literatura antiga, a meta visada era sem dúvida renovar a poesia francesa. Mas a ambição por algo novo que os empolgava,, a busca fervorosa de novos conhecimentos e sua mania de compor versos sobre temas greco-romanos ultrapassavam de muito o interesse puramente literário. Estavam numa corrente que arrastava consigo a humanidade do Oeste. Seus esforços genuinamente literários faziam parte de um movimento coletivo. Só podiam alcançar suas metas se esse movimento fosse extraordinariamente vigoroso.

Animava-os um entusiasmo que mal se pode imaginar. Ronsard entregava-se ao estudo até às duas ou três horas da madrugada, depois acordava Baif, que se levantava, tomava a vela "e não deixava esfriar a cadeira". Nestes colégios, onde de textos antigos emanava um novo espírito, reinava uma disciplina extremamente rígida. Sobre Ronsard escreve André Berry em seu excelente livro: "Despertava-se às quatro horas da manhã. Um aluno ia de uma sala à outra, sacudia e acordava os que ainda vadiavam na cama e acendia as velas. Após a oração matinal, os discípulos, com um castiçal na mão e seus grossos livros embaixo do braço, iam à sala de aulas por volta das cinco horas. Até as dez horas ouviam, atentos, sem uma folga, a preleção do professor. Às dez e meia almoçavam. Terminada a refeição, os alunos podiam descansar, lendo as obras de Sófocles, Aristófanes, Eurípides, às vezes Virgílio, Cícero ou Horácio. À uma hora recomeçavam as aulas, prolongando-se até às cinco da tarde. O estudante tinha então de procurar em seus livros os textos citados pelo professor.

■ .■ ■ ■' ■ ■ , ' ■ ■•■• ; - ■■ 25

Depois iam todos à capela, para rezar as vésperas. No inverno iam para a cama às oito horas e no verão às nove horas".

Aos ventos da liberdade toda a fadiga desaparece. O estudo da sabedoria do passado conduz ao saber de amanhã, a pesquisa das canções do homem antigo leva ao som das vozes de amanhã. Ronsard designa Dorat como o "homem que despertou a ciência morta".

De encontro a uma nova Plêiade

Existem notáveis correlações entre a Renascença e a nossa época Tal como os homens do século XVI se ocupavam sem preconceitos com o mundo da Antiguidade, nós nos dispomos a investigar o passado remoto da humanidade; lançamos as vistas para o futuro ainda muito distante, sim, mas ao mesmo tempo voltamos nossos olhos para o que já houve antes de nós, remontando a épocas o mais longínquas possível. Os mais recentes e sensacionais progressos na arqueologia, na etnologia e na paleontologia, e o espírito que neles se manifesta, podem ser comparados ao movimento que reconduziu os homens da Renascença às fontes greco-romanas. Tentamos compreender as civilizações mais remotas, descobrir os primeiros vestígios da humanidade e, ao mesmo tempo, com o auxílio de foguetes, avançamos para as regiões fora da órbita terrestre. Enquanto rompemos através da amplidão infinita do Universo, esforçamo-nos por investigar nossas origens. Assim como nossos antepassados sentiram desfazerem-se as estruturas fundamentais da vida espiritual medieval e os esteios culturais da Idade Média cristã, nós percebemos como os alicerces da cultura huma-nística são abalados e como se desmoronam gradativamente as estruturas do saber moderno, do pensar cartesiano, que no século XIX atingira o auge do florescimento. "Já há muito tempo" escreve Oppenheimer "devíamo-nos ter dedicado a um exame mais detido das faculdades intelectuais e das relações entre o homem e o Universo."

Queremos simultaneamente aprender alguma coisa das civilizações extintas e entrar em comunicação com seres inteligentes no Universo. Exploramos o Cosmo em busca de outros mundos e pesquisamos nosso próprio planeta à procura de nossas origens. Sentimos como em todas as esferas da cultura nas ciências naturais,

26

na psicologia e na sociologia se desfazem os limites que ainda ontem cercavam nosso modo de pensar. Estamos indo de encontro ao tempo do despertar e das maravilhas, no qual tudo é possível, no qual o espírito passa por uma profunda transformação e perscruta os grandes segredos da criação. É de se admirar que tal estado, de uma fantasia completamente livre e de uma consciência levada à máxima tensão, em certo sentido comparável ao estado pelo qual passou um artista da Renascença, não faça surgir uma poesia e uma música adequadas ao novo homem, um hino à grandeza da existência humana; que essa possante tempestade não encontre em palavras de nossa geração uma expressão harmónica. Mas ainda nos achamos no início do desenvolvimento. Nossa arte e nossa literatura ainda são de ontem, assim como a geração de Francisco I vivia no passado e já fora dilacerada pelo chamamento do futuro. Aguardemos e tenhamos esperanças de que em nosso tempo de renascimento uma nova Plêiade possa apresentar-se em cena.



27

CAPÍTULO III Três Janelas para o Infinito

Jacques Bergier

"O acaso criou as distâncias. Apenas o espirito pode mudar tudo."

Beaumarchais

' Nós enviamos sinais às estrelas

PROPOSTA DE COMUNICAÇÃO COM possíveis habitantes dè outros planetas por meio de sinais luminosos foi feita inicialmente pelo matemático alemão Karl Friedrich Gauss; mais tarde a ideia foi novamente trazida à tona pelo poeta e inventor francês Charles Cros. Queriam atear enormes fogueiras, na Sibéria ou no Saara, dispostas de maneira a representar um teorema clássico da geometria, o teorema de Pitágoras, por exemplo. Os seres de outros planetas, dotados de inteligência, concluiriam que também na Terra existem criaturas inteligentes e responderiam por meio de outros sinais. A ideia imediatamente encontrou forte eco; no início do século XX houve até uma francesa entusiasta que legou sua fortuna àquele que conseguisse encontrar uma possibilidade de entendimento com os habitantes de outros planetas. Todavia, incluiu em seu testamento uma condição: a importância não devia ser paga se o planeta em contacto fosse Marte, pois isso... seria fácil demais. É verdade que a proposta nunca foi concretizada, por parecer demasiado absurda. Mas, em todo caso, inspirou Lorde Dunsany, escritor irlandês, a escrever um lindo conto: Por meio de enormes refletores instalados no Saara os homens representam o teorema de Pitágoras. Os homens de Marte reagem, sinalizando primeiro a mesma figura, mas depois deslocam as retas, de manei-




1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   18


©aneste.org 2017
enviar mensagem

    Página principal