Louis Pauwels Jacques Bergier



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Tais sonhos fazem surgir questões filosóficas sérias, terríveis até. Como podemos saber que não somos apenas cérebros encerrados em tubos de ensaio, aos quais um instrumento registrador fornece sensações? Lem chega à conclusão de que os fenómenos parapsicológicos examinados pelo narrador de sua história são explicáveis por falhas do instrumento registrador: a telepatia é possível quando entre duas fitas magnéticas, que abastecem cérebros diferentes, ocorre curto-circuito; o conhecimento prévio do futuro ocorre quando, por enrolamento errado da fita, atingem o cérebro sinais que só deveriam chegar duas horas ou dias, ou anos mais tarde. É difícil contestar tal arrazoado. Afinal de contas, nossa realidade está ligada ao cérebro, tal como este é no momento atual. Não temos nenhuma espécie de prova científica da existência de uma alma imortal. Sem tal prova, o pesadelo materialista de Lem não é insensato.
Poder-se-ia imaginar também que em tal cérebro se implantassem órgãos adicionais dotados da capacidade de perceber o infravermelho, as ondas de rádio, os raios X, nêutrons e outros elementos. Tal implantação de órgãos certamente levaria à formação de novos sentidos, bem estranhos.

Mais emocionante ainda seria a possibilidade de captar em fita magnética as sensações emitidas por um cérebro e transmiti-las a outro. Isso tornaria possível a um só indivíduo levar várias vidas, que em nada seriam diferentes de uma vida própria. Esta ideia já foi largamente aproveitada pelos autores de ficção científica, sobretudo por Arthur C. Clarke. Ela merece que lhe dediquemos um momento de atenção. Não se deveria abusar do emprego de um instrumento magnético registrador de sensações, exatamente como não se deve ficar a vida inteira no cinema sem comer nem beber e nem ficar sentado eternamente em frente à tela do receptor de televisão. Mas esta é a

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Comando de máquinas por meio de pensamentos



A ciência já conseguiu, em certa extensão, conjugar cérebro e máquina. Na União Soviética dotaram-se mutilados de membros artificiais que são controlados por meio de pensamentos. Quando o inválido quer cerrar o punho, correntes elétricas atingem o pulso e acionam os músculos da mão. O inválido, em consequência de um acidente ou de um ferimento, já não tem mão. As correntes são intensificadas e acionam minúsculos motores elétricos que movem a mão artificial.

Partindo-se dessa conquista, poder-se-ia imaginar — como de fato foi feito em romances do futuro — que aviões ou naves

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espaciais fossem comandados diretamente por meio de pensamentos. Na guerra, um avião dirigido por pensamentos teria numerosas vantagens. Numa nave espacial, cortando o espaço a 10 km por segundo, porém, haveria motivos para se recear que as correntes nervosas entrassem em ação com demasiada lentidão; neste caso, devem-se evidentemente preferir instalações eletrônicas inteiramente automáticas, já que os eléctrons se movem praticamente com a velocidade da luz.



Mas as possibilidades do futuro não se limitam ao bisturi e à ligação do cérebro com mecanismos eletrônicos. Campo ainda mais vasto é tornado acessível pelas drogas, as conhecidas e as até agora desconhecidas. O livro clássico que desenvolve este tema é o O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson, único romance policial em que a solução do mistério é mais horrenda do que o próprio mistério. Também Arthur Machen, em seu conto trágico Das neue weisse Pulver (O Novo Pó Branco), trata do efeito das drogas. Nessa história de um farmacêutico infeliz, um medicamento de fórmula muito complicada se transforma num pó de feiticeiras, em consequência de uma reação química extremamente rara. Wells sonhou com drogas em O Novo Acelerador, narrativa curta, rica de imaginação, na qual se destaca um tratado sobre a importância dos fosfatos orgânicos — 50 anos antes de ter-se a ciência ocupado seriamente com isso. Em O Cão de Tindalos, Frank Belknap Long descreve a exploração do Tempo por meio de uma droga.

Intermináveis podem ser os sonhos em torno das drogas. Desejam-se drogas que anestesiem sem embotar o organismo. Desejam-se drogas que ativem o cérebro. Em vão procuram-se afrodisíacos realmente eficazes e indaga-se se eles só existem nas lendas e na propaganda. Na prática, as receitas dessa natureza, que se encontram na literatura mágica, são em sua maioria perigosas e ineficazes.

As drogas podem criar gente melhor?

Sonha-se sobretudo com uma droga que poderia tornar a espécie humana melhor do que ela é. Não se trata de fantasia inteiramente absurda. Cientistas de renome ocupam-se com a ideia, entre eles o Dr. Henri Laborit, como o prova seu artigo em La Presse médicale de 27 de março de 1965:

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"É possível que a farmacologia venha a desempenhar papel destacado na evolução humana. Muitos naturistas, anciãos estranhos, pessoas que lamentam o fim dos bons velhos tempos, que querem voltar à boa natureza, não tardarão a me replicar que a farmacologia não é natural. Mas que vem a ser natural? Ou tudo é natural, ou nada o é. Quando o homem fez fogo ou arrancou uma folha de parreira para cobrir sua vergonha, sua ação já não correspondia mais à pureza da vida natural, tal como a entendem nossos antagonistas. Assim que se introduz numa ação humana qualquer juízo apreciativo, deve-se saber que isso acontece graças a uma decisão arbitrária e que, do ponto de vista filogenético, genético e semântico, estamos em condições de pronunciar um juízo apreciativo. Não consigo compreender o princípio segundo o qual deveria ser proibido ao homem, assim que ele teve consciência de sua posição no processo da evolução da natureza, exercer influência sobre aqueles entre seus hábitos que ainda revelam traços animais, e não lhe ser proibido inventar o automóvel, ato pelo qual ninguém pensa em censurá-lo. Bem analisando, o homem, que tão profundamente transformou o mundo ao seu redor, ainda tem no século XX o cérebro de seus antepassados, habitantes das cavernas. Este cérebro permaneceu biologicamente o mesmo e unicamente teve seu património aumentado por um aparelho semântico, meticulosamente transmitido de geração a geração, para proteger as estruturas sociais, estas por sua vez na maior parte obsoletas.



"O meio mais eficaz para a eliminação desse perigoso estado de coisas parece-nos ser talvez — eu digo expressamente talvez —, mediante recursos farmacológicos, por termo ao funcionamento, na maioria dos casos já inadequado, desse cérebro paleolítico; esse cérebro o homem carregou consigo através dos séculos, enquanto por outro lado soube substituir suas mãos por máquinas, seus pés por meios de transporte muito mais rápidos, melhorar seus olhos por meio de sistemas ópticos ou eletrônicos e achou perfeitamente natural penetrar em certos segredos da organização da matéria. Finalmente, não acredito que se adultera tanto a vontade daquele que há dois mil anos veio para pregar a paz sobre a Terra, se no dia, talvez próximo, em que isso lhe for possível, o homem o fizer."

Aliás, o cientista que manifestou essa opinião trabalha com tais drogas e já obteve alguns resultados. Neste terreno, poder-se-ia cogitar de toda uma série de substâncias:

1. Uma droga que tranquiliza doentes mentais violentos. Laborit parece já ter encontrado tal medicamento.

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2. Uma droga que cura criminosos. Desta poder-se-iam imaginar diversas modalidades:

Uma droga que apaga por completo tudo quanto há acumulado na memória, depois do que se poderia reeducar o criminoso.

Uma droga que torna os criminosos sobremaneira suscetíveis à sugestão hipnótica. Exercendo influência sobre eles após a hipno-tização, poder-se-ia fazer com que nunca mais cometessem crimes. Uma droga que realmente melhora o criminoso, restabelecendo seu equilíbrio interior e dirigindo o funcionamento de certas glândulas endócrinas, de tal maneira que não mais sejam produzidas estas ou aquelas secreções, aparentemente responsáveis por seus crimes.

Poderá a psicoquímica vencer o

medo que o homem moderno tem da vida?

São evidentemente inúteis as controvérsias em torno da possibilidade de se poder, ou não, com o auxílio de uma molécula química adequada, apagar o pecado original ou a livre vontade do homem. Nem todos acreditam no pecado original. E quanto à vontade livre, o certo é que esta é muito mais limitada quando se tem uma terrível dor de dentes, do que quando se atenua a dor com uma droga apropriada. Do mesmo modo, pode-se imaginar que um criminoso terá mais vontade livre quando certos instintos são violentamente reprimidos. Seja dito ainda que um tratamento psicoterápico com remédios convenientes, com toda a certeza restringe menos a vontade livre do que, por exemplo, o cárcere ou a casa de correção.

3. Continuando-se o sonho, chega-se a drogas que tranquilizam os automobilistas e reduzem a violência em nossa vida cotidiana. Por meio de uma substância ativa pulverizada sob a forma de gás podia-se, no auge de um tumulto, serenar os manifestantes, fazendo-os voltar ao bom senso. Já se pensou até em drogas capazes de pacificar todo um exército. Do mesmo modo podem-se imaginar drogas que acalmam instantaneamente o mais bravio dos animais. Essas drogas poderiam ser empregadas por meio de um pulverizador ou como bomba de gás. Se este sonho parecer demasiado fantástico, basta lembrarmos que existem micró-

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bios muito mais perigosos do que qualquer tigre. Foram aniquilados por meio da química farmacêutica.

4. Finalmente poder-se-ia imaginar que seja eliminado por meio de drogas o medo da vida, comum no homem moderno. Acreditou a ciência poder consegui-lo por meio da ataractica, o que, porém, não foi possível.

O medo é um fenómeno cujas causas são pouco conhecidas. Existem medos conscientes e inconscientes. Tem-se a impressão de que certos medos desmotivados, impossíveis de eliminar por meio da psicoterapia, sejam de origem química. Se isso realmente for o caso, deve ser possível encontrar na química também o medicamento específico para curá-lo. Não faltam pacientes nos quais os pesquisadores poderiam experimentar suas drogas. Segundo as estimativas, nas nações industrializadas cerca de 15% das pessoas adultas sofrem de graves estados de medo. Muitos se apresentariam voluntariamente quando os médicos começassem a fazer experiências com remédios contra o medo. O pouco que sabemos da psique humana indica com insistência que tais drogas contra o medo também seriam remédios contra o suicídio, já que o suicídio é uma manifestação de medo. Isso significa que essas pesquisas merecem ser intensificadas.

Pílulas de inteligência?

5. Já se tem sonhado muitas vezes com drogas que nos tornem mais inteligentes. A despeito de todas as críticas que se possam fazer contra a inteligência, ela não deixa de ser uma coisa muito útil na vida. É verdade que ela deveria ser embotada pelo sentimento e apoiada pela intuição mas, para a sobrevivência e para o sucesso, a inteligência é um fator muito importante. Em experiências de laboratório já se conseguiu, por meio de drogas, aumentar a inteligência de animais. As experiências foram cuidadosamente controladas. Infelizmente, porém, as drogas empregadas são extremamente tóxicas. Bom exemplo disso é a nicotina. Animais que recebem por via oral ou parenteral uma forte dose de nicotina, tornam-se nitidamente mais inteligentes, mas sucumbem rapidamente. Seja mencionado que o homem mal pode ter esperanças de aumentar sua inteligência por meio do fumo. Teria de fumar dez milhões de cigarros.

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Em todo caso, poder-se-ia imaginar uma droga que aumentasse a inteligência por meio da nicotina e ao mesmo tempo não fosse tóxica. Surgem então diversas indagações: Tal droga nos daria a todos inteligência igual? Ou seu uso tornaria os tolos inteligentes, ao passo que as pessoas já inteligentes se elevariam a génios? Existem — não se levando em conta possíveis mutações — limites à inteligência humana? Em que idade essa droga deveria ser empregada? Seria necessário tomá-la constantemente, caso não se quisesse sofrer uma regressão, tal como a descreveu Daniel Keyes em Flores para Algernon?

Estas são perguntas para as quais ainda não existe resposta, mas que estimulam a novos devaneios. Assim, no plano social, poder-se-ia imaginar uma aristocracia com o privilégio de usar a droga da inteligência, ou uma democracia na qual todos a poderiam empregar. Ter-se-ia o direito de impedir uma distribuição do específico da inteligência? Quem preferisse permanecer ignorante e feliz poderia recusar-se a tomá-la? Isso, a meu ver, seria tema para um autor de ficção científica. Talvez os tolos herdarão a Terra depois que os superinteligentes se divertirem com raios da morte e bombas de cobalto.

Drogas eliminam Espaço e Tempo

Finalmente, pode-se deixar o terreno seguro da psicoquímica e sonhar com drogas inteiramente fantásticas. Alguns autores, entre eles Aldous Huxley, manifestaram a opinião de que o homem poderia, por meio de uma substância adequada, obter a felicidade sem de modo algum tê-la merecido. Em seu livro Put Down This Earth, o escritor inglês John Brunner imaginou uma droga que muda física e efetivamente quem a toma para um paraíso, numa segunda Terra que existe ao lado da nossa e que ainda não foi poluída pelo homem, por precipitações radioati-vas. Segundo Brunner, deve existir um número imenso de tais mundos e, por conseguinte, cada um de nós poderia dar definitivamente as costas ao nosso planeta e levar uma vida tranquila em companhia de alguns amigos, longe das armas nucleares e instrumentos de escuta. Podem-se também imaginar drogas

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que despertem capacidades telepáticas. Povos indígenas, que ainda se encontram em estado primitivo, parecem conhecer tais drogas. Mas seria preciso sonhar ao mesmo tempo com antídotos, pois capacidades telepáticas poderiam ser muito perigosas. Os autores de ficção científica costumam escrever que estas substâncias atuam sobre a glândula pineal que, desde Descartes, se considera a sede da alma. Em todo caso, pode-se imaginar que essa parte do cérebro corresponda às chamadas faculdades psiônicas: telepatia, vidência, bilocação, previsão do futuro, telecinética, etc. Por conseguinte, pode-se sonhar com uma droga específica para cada uma dessas faculdades ou de uma droga psicônica geral.



Computadores eletrônicos

talvez solucionem esses problemas

Caso, como se acredita, a memória esteja ligada a proteínas, talvez as referidas faculdades também o estejam; as drogas necessárias para despertá-las poderiam então ser análogas à insulina: um arcabouço de proteína portador de moléculas ativas. Assim como se pôde analisar e produzir sinteticamente a insulina, deveria ser possível calcularem-se as fórmulas das novas drogas por meio de instrumentos processadores de dados. Milhares de químicos, em laboratórios muito bem equipados, se dedicariam à síntese das drogas. Mesmo se durante os 82 bilhões de anos que, segundo os cosmólogos, ainda restam a este mundo até seu fim, toda a humanidade só trabalhasse nisso, não conseguiria produzir sinteticamente todas as composições orgânicas possíveis. No entanto, seguindo caminhos que teriam sido traçados por uma química e fisiologia orgânicas ainda por serem descobertas, poder-se-ia idealizar um laboratório do futuro, no qual se pesquisariam intensamente drogas psiônicas.

Não invejo os pesquisadores futuros empenhados nesse trabalho. Um rato, ao qual se desse droga que lhe revelasse o futuro e que, por conseguinte, soubesse que dentro em breve iria ser dissecado, provavelmente não se conservaria muito tranquilo! Experiências com seres humanos poderiam conduzir a todos os paradoxos de Espaço e Tempo descritos por Alfred Pester, o brilhante autor americano de ficção científica, em Estação Ter-

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minai Estrelas. Um laboratório no qual as pessoas submetidas a experiências e os próprios cientistas começam a viajar livremente no Espaço e no Tempo, podem deslocar telecineticamente os objetos e modificar por meio da força de vontade os resultados das experiências, certamente não seria lugar dos mais agradáveis Então se terá saudade do tempo em que a ciência ainda não era complicada e a magia não tinha sido reinventada



CAPÍTULO XVIII A Maravilha da Célula

Jacques Bergier

Uma viagem aos limites de nosso saber

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OERIA POÉTICO MAS absolutamente correto do ponto de vista científico, com base no que o biologista hoje sabe, imaginar-se a célula como planeta que consiste inteiramente em matéria programada e é rodeado de satélites nos quais existem fábricas. Estas fábricas são os ribossomos. O planeta central é o núcleo da célula. As instruções são levadas do núcleo aos ribossomos por um ácido, denominado ácido ribonucleico (ARN). Tais fatos permitem especulações ilimitadas. Pode-se imaginar uma reprogramação do núcleo da célula, ou uma influência sobre os ribossomos, ou ainda uma ação exercida sobre o ácido, enquanto este transmite as informações.

No que se refere ao núcleo da célula, seria imaginável — e de fato já se pensou nisso — apagar o programa original e fazer nova programação, como se pode faier com uma fita magnética. Diversos trabalhos, aliás violentamente controvertidos, permitem supor que não são totalmente absurdos tais sonhos. De fato, os ácidos nucleicos parecem apresentar características magnéticas; talvez seja possível, com um instrumento suficientemente delicado, desmagnetizá-los e magnetizá-los de novo. Assim, poder-se-ia, por exemplo, exercer influência sobre células cancerosas e reprogramá-las de acordo com células normais.

Naturalmente, só poderíamos programar artificialmente uma célula se tivéssemos noções até certo ponto exatas a respeito do código magnético e possuíssemos instrumentos registradores inteiramente magnéticos. Ainda não atingimos esse ponto. Até agora a biologia só dispõe de eléctrodos suficientemente finos para

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serem introduzidos numa célula. Mas isso é pelo menos um começo.

Seria possível uma intervenção menos ambiciosa, que consistisse em injetar numa célula substâncias químicas capazes de mudar o código genético. Com bactérias já se realizaram tais experiências. Pode-se assim prever um futuro no qual se transmitirá uma informação ao núcleo, modificando dessa maneira a programação natural. Mas isso é um empreendimento tão complicado que hoje em dia ainda não podemos fazer dele uma ideia exata.

Em seu livro Os Dentes de Dragão, o escritor americano Jack Williamson solucionou o problema de um modo que só a ficção científica pode permitir-se. Descreve ele uma ação telecinética sobre o núcleo celular. Williamson esgota todas as possibilidades de sua ideia — evidentemente absurda, como todas as ideias da ficção científica — antes de se tornarem realidade.

Células programadas produzem quaisquer substâncias desejadas e causam mutações

Se através de indução paramagnética, por meio químico ou de outro modo, fosse conseguido modificar as ordens transmitidas aos ribossomos numa célula, poder-se-iam cultivar bactérias que produzissem aspirina, extraíssem metais preciosos da água do mar, ou talvez até transformassem um metal em outro. Os próprios ribossomos poderiam ser empregados como líquidos de cultura, que equivaleriam a indústrias químicas muito mais eficientes do que as mais perfeitas criadas pela mão do homem, fábricas que produzissem petróleo de gases, ou açúcares e gorduras do ar, e tudo isso com temperatura e pressão normais, por conseguinte da maneira mais barata possível. Todas as nossas instalações industriais seriam então de utilidade duvidosa, para não dizermos obsoletas.

Até agora os cientistas mal deram atenção à possibilidade de se exercer influência sobre o ARN. Em todo caso, novas experiências dão ensejo a ulteriores reflexões. Seria imaginável retirar-se o ARN de uma célula, transformá-lo e injetá-lo em outra célula. Poder-se-iam assim formar culturas que atacassem o câncer, aniquilassem um tumor canceroso, e fossem, por sua vez, eliminadas.

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Mostraram as experiências realizadas por Mituru Tanakami, na Universidade de Berkeley, Califórnia, que é possível separar dos ribossomos as cadeias de moléculas de proteína trazidas pelo ARN. Trata-se de uma cirurgia química extremamente complicada. Um ribossomo é minúsculo, mede apenas cerca de 100 unidades angstrõm de comprimento (um décimo de milímetro). No entanto, esta minúscula forma constitui uma fábrica, em cuja superfície são polimerizadas proteínas (polimerização = agregação em macromoléculas). O ARN é uma cadeia de cerca de 80 moléculas de aminoácidos. Ele aborda os ribossomos e lhes dá a ordem de formar um tipo muito específico de moléculas de albumina. Este mecanismo tanto tem de maravilhoso como de preciso. É graças a ele que nossos filhos se assemelham a nós e que de uma rosa nunca pode nascer um gato.



Em princípio, o fenómeno não difere muito da transmissão de um programa estabelecido em Paris, pelo correio ou por mensageiro especial, a uma instalação processadora de dados em Marselha, por exemplo. Na prática tudo naturalmente é muito mais complicado, mas pesquisas como as de Mituro Tanakami justificam esperanças de se poder modificar o ARN em seu trajeto do núcleo para o ribossomo. Tal possibilidade daria amplo campo de ação à fantasia. Poder-se-iam introduzir em larga frente ARN hostis ao câncer, injetar num feto um soro ou um vírus sintético que levasse à formação de um cérebro que superaria tudo quanto até agora existiu. Um ilustre colaborador do Instituto Pasteur manifestou recentemente que uma coisa assim seria impossível. O super-homem não resultaria então de uma mutação no homem, mas de uma ação exercida sobre o embrião. Quem, numa conferência pública, se arriscar a aludir a tais experiências, ouve clamar por toda parte: "Nunca alguém ousará fazer semelhante coisa!" Mas até agora o homem sempre ousou tudo e com certeza também desta vez se abalançará ao feito ousado.

Cérebros eletrônicos de matéria viva?

Passemos a um terreno menos controvertido. Podem-se imaginar armazenadores compostos de ARN para mecanismos processadores de dados. De algum modo se aplicaria sobre um ARN a informação a ser transmitida a um ribossomo. A informação existente no ribossomo poderia ser lida por meio de um detector,

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por exemplo, um aparelho fotográfico desenvolvido até a perfeição máxima, e que opere na faixa do infravermelho. Tal dispositivo seria a forma definitiva do mecanismo processador de dados. Um computador eletrônico altamente desenvolvido caberia então numa pasta de papéis. Em lugar de cristais extremamente dispendiosos, empregar-se-iam ribossomos obtidos de células, ou micróbios mais simples, que com pouca despesa se poderiam cultivar em quaisquer resíduos orgânicos. Em vez de máquinas grandes, caras e cada vez mais centralizadas, o homem teria à sua disposição instrumentos relativamente pequenos, ele-trônico-biológicos, de baixo custo, acessíveis a todos, cujo consumo de energia seria reduzido. Uma grama de ARN parece conter cerca de 100 bilhões de vezes mais informação do que uma grama do melhor ferrite (ferrite é atualmente empregada em geral para os armazenadores das máquinas processadoras de dados). Naturalmente, tal máquina computadora viva deveria ser protegida contra todo e qualquer contágio, mas isso não implicaria problemas mais difíceis do que os já oferecidos pelos atuais mecanismos processadores de dados. Os aposentos em que estão instalados os aparelhos são tão estéreis como uma sala de operações. Por que, pois, não existirem aparelhos computadores baseados em matéria viva?

Imagens de televisão a cores com micróbios produzidos industrialmente

cos, apagar a programação, registrar novos impulsos eletrônicos e depois reconstituí-los novamente.

Segundo este princípio, poder-se-ia imaginar uma instalação industrial do futuro, na qual o material inicial é uma cultura de bacilos. Os bacilos são triturados com o recurso do ultra-som, os ácidos nucleicos são extraídos por meio de centrifugação e transformados num filamento; este é conduzido através de um campo de raios X, de modo a ser neutralizado. A seguir, gravam-se nos filamentos de ácido nucleico programas de televisão a cores, que se projetam fazendo os filamentos atravessar uma cabeça receptora adequada.




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