Louis Pauwels Jacques Bergier



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Estas distâncias foram calculadas com base no fato de apresentar a luz vinda desses objetos, até nós, determinado deslocamento para o vermelho, que habitualmente significa considerável velocidade de afastamento.

Mas existem também outras explicações. Talvez a massa dos quasares seja tão compacta que a luz só dificilmente consegue libertar-se, deslocando-se, segundo o efeito de Einstein, para o vermelho.

É verdade que essa hipótese é rejeitada pela maioria dos astrónomos. E apesar de tudo seria possível, como o afirma o cientista francês Georges Courtés, em seu livro sobre as galáxias, quando diz que os quasares podem ser estrelas extraordinariamente densas, "cuja natureza na época atual ainda não se sabe explicar".

Caso, contrariando a suposição generalizada, os quasares estivessem bem perto de nós, talvez até dentro do sistema de nossa própria galáxia, teríamos todos de modificar fundamentalmente as ideias que tivemos até agora. Neste caso, deveria haver no Espaço, dentro do qual vivemos, as mais variadas e sutis modificações de que, no momento, ainda não temos a menor noção. The Sciences, boletim informativo da Academia de Ciências de Nova York, publicou recentemente o seguinte: "As equações de Einstein conservam sua validade, mas quer parecer agora que possivelmente são incompletas". Em outras palavras: ainda que os quasares sejam tão densos, a ponto de curvar o espaço ao seu redor de tal maneira que sua gravitação não chega até nós, devem eles exercer sobre nosso Espaço outros efeitos sutis, devem bombardear-nos com partículas elementares, que de nenhum modo podemos descobrir.

A muito custo puderam os cientistas estabelecer o conceito segundo o qual não vivemos num espaço euclidiano, mas numa continuidade de Espaço e Tempo. Caso tenhamos, pois, de nos habituar à noção de que o Espaço em que vivemos ainda é muito mais complicado do que o supunha Einstein, o mundo tornar-se-á ex-

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tremamente inquietante. Vamos, pois. embora sem provas decisivas, admitir que os quasares estão muito longe de nós, e passar a outra questão.

A teoria de Hoyle e Narlikar


Grande como uma galáxia ou menor do que uma estrela?

É evidentemente possível que, no caso dos quasares, se trate de galáxias nas quais, numa reação em cadeia, sejam provocadas explosões de estrelas (coisa semelhante a uma explosão num depósito de munições). Por motivos que, no momento, ainda nos são incompreensíveis, a onda de choque dessa reação em cadeia se espalha mais depressa do que a luz, o que contradiz as teorias de Einstein. Isso explicaria as oscilações de luminosidade, que, de outra forma, seriam inexplicáveis num objeto celeste com a extensão de vários milhares de anos-luz. Alguns astrónomos estão com sua atenção voltada para tão completa mudança da física. Na sua maioria, porém, eles se esquivam a esse problema, o que bem posso compreender. A velocidade da luz não é apenas um limite pratico, assemelhado ao de outras velocidades naturais, como, por exemplo, que se manifesta na barreira do som. O fato de representar a velocidade da luz um limite máximo superior fundamenta-se sem dúvida em motivos sólidos, que se relacionam com a estrutura da matéria. Um objeto ou sinal que ultrapassasse a velocidade da luz teria de fugir para o passado, virar o tempo ao avesso.

Num meio material, no qual a luz é frenada, um objeto pode ser mais veloz do que a luz, sem ir frontalmente contra as leis de Einstein. No espaço vazio, porém, tal é impossível, pois de outro modo seriam possíveis as viagens aos tempos passados e o envio de sinais a períodos anteriores. Os autores de ficção científica, é verdade, não vêem nisso qualquer obstáculo, mas para o juízo normal tal hipótese é inconcebível. Preferimos por isso deixá-la de lado e secundar a opinião da maioria dos astrónomos, que vêem nos quaseres objetos situados a grande distância, muito menores do que as galáxias. Notaremos desde logo que a situação já assim é suficientemente fantástica e emocionante, sem que se deite por terra precipitadamente a teoria de Einstein ou se modifique a continuidade espaço-tempo por meio de objetos infinitamente densos.

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Que explicações foram apresentadas para os quasares, as quais não se afastem demasiadamente da ciência tradicional? Devemos citar em primeiro lugar a teoria de Hoyle e Narlikar.

Essa teoria é a última palavra da astrofísica oficial. É difícil esclarecê-la sem alterá-la. Teremos de recorrer a algumas imagens. Apóio-me num artigo de John David, publicado no boletim informativo da Embaixada Britânica em Paris.

O Professor Hoyle e o Dr. J. V. Narlikar estabeleceram uma nova teoria de gravitação.

Se uma criança leva um tombo e machuca o nariz, experimenta diretamente, embora à própria custa, a força da gravidade. Entre todas as forças físicas fundamentais que atuam no Universo, é com a gravidade que estamos mais familiarizados. Mas, para os cientistas que se ocupam com ela, esta força continua a ser com-pletamente misteriosa.

É verdade que os autores de ficção científica imaginam mundos sem gravidade, mas em nosso mundo real não existe a possibilidade de neutralizar o efeito da gravidade ou de restabelecê-lo à vontade; também não se pode modificar a carga de gravitação de uma determinada quantidade de matéria, para torná-la mais leve ou mais pesada.

A gravitação, embora misteriosa, é, segundo tudo indica, uma força fundamental, cuja compreensão deverá forçosamente levar a um melhor conhecimento de todo o Universo. Isso explica por que encontram eco tão intenso as ideias ousadas de Hoyle e Narlikar.

"Como se pode prová-la?" Eis a primeira pergunta que fazem a si próprios os cientistas quando é apresentada uma nova teoria. Segundo o Professor Hoyle, sua nova teoria pode ser provada, embora, como ele o admite, isso seria inviável na prática, pois, para consegui-lo, ter-se-ia de eliminar a metade das estrelas no Universo.

Segundo a teoria tradicional da gravitação, tal eliminação nada modificaria na Terra; apenas o céu à noite nos pareceria mais escuro. Caso, porém, a teoria de Hoyle e Narlikar corresponda à realidade, essa eliminação teria as mais graves consequências: o Sol se tornaria duas vezes mais quente e na Terra verificaríamos que nosso peso duplicaria. A órbita da Terra em torno do Sol seria modificada de tal maneira que a distância entre ambos seria consideravelmente reduzida. Seríamos todos torrados vivos.

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Estas suposições põem em relevo um aspecto essencial da teoria de Hoyle e Narlikar. Em sua teoria geral da relatividade, Einstein encarou a gravitação como fenómeno essencialmente local. As massas do Sol e da Terra criam um campo de gravidade que mantém a Terra em sua órbita ao redor do Sol. Para ele, esse campo de gravidade é um aspecto peculiar do Espaço e do Tempo, mas sua existência num determinado lugar — no sistema solar — segundo a teoria de Einstein não poderia ser modificada por influência de regiões mais distantes do Universo. Caso se excluíssem essas regiões, o Sol e a Terra de nenhum modo seriam atingidos.



A misteriosa gravidade

A essa teoria do campo, Hoyle e Narlikar antepuseram uma teoria da partícula, segundo a qual a gravitação influencia toda a matéria ao mesmo tempo. Caso se eliminasse a metade de todas as partículas de matéria no Universo, seria influenciada em proporção correspondente a gravidade atuante entre as partículas restantes.

Só matemáticos especializados podem seguir em detalhe os raciocínios que levam a essa conclusão. Embora, porém, seja difícil de compreender e provar, a nova teoria tem, entre outras, a vantagem de proporcionar explicações que satisfazem o bom senso, o que a teoria de Einstein não consegue.

Ao passo que as equações estabelecidas por Einstein para explicar a gravitação conservariam sua validade também num Universo completamente vazio — pode-se imaginar uma continuidade de Espaço e Tempo sem qualquer matéria — segundo a teoria de Hoyle e Narlikar, com o desaparecimento da matéria também desapareceriam as equações. Gravidade — e, por conseguinte, física — só podem existir se no Universo estiverem presentes pelo menos duas partículas que se influenciem mutuamente. Tal afirmação parece corresponder ao bom senso.

Satisfaz também o espírito a ideia de que, segundo a nova teoria, gravidade e força atrativa são a mesma coisa — as maçãs caem ao solo, não se erguem. Na teoria de Einstein é diferente. Segundo as equações de Einstein um matemático de outro mundo não poderia verificar se a gravitação em nosso mundo significa atraso ou repulsa. Nas equações, isso é expressado apenas

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pelos sinais + ou —. Do ponto de vista matemático, a escolha é arbitrária; Einstein decidiu-se pelo sinal menos para exprimir o fato observado, de ser a gravidade idêntica à força atrativa. A teoria de Hoyde e Narlikar exclui essa arbitrariedade. De suas equações sobressai de modo inequívoco que as maçãs devem forçosamente cair ao chão.

A gravidade ocupa hoje uma divisão um tanto compacta da ciência. O que ela tem de original é estar relacionada em igual proporção com toda a matéria, ao passo que os fenómenos elé-tricos ou nucleares transcorrem de maneira diferente, segundo as substâncias ou partículas. Além disso, a gravidade é extremamente fraca em comparação com a força elétrica ou nuclear. Para nós, ela só se torna perceptível em massas gigantescas, em nossa escala de observação, como, por exemplo, a da Terra.

Quando levamos um tombo, temos consciência da força atrativa que a massa enorme da Terra exerce sobre nosso corpo. Mas não sentimos a atração infinitamente menor, de uma montanha ou de uma grande casa — e apesar disso ela existe.

Uma das tarefas futuras da física será estabelecer uma teoria que tome em consideração a fraqueza da gravidade e suas características, e, ao mesmo tempo, a ponha em ligação com outras forças físicas. Tal teoria de unidade ainda não está à vista, mas acreditam Hoyde e Narlikar que ela está certamente ao alcance da mão.

A nova teoria estabelecida pelos dois cientistas pode ser aplicada também a certos problemas surgidos em relação com os quasares. Singularmente, já antes da descoberta dos quasares, o Professor Hoyle e o cientista americano William Fowler apresentaram a hipótese segundo a qual, teoricamente, gigantescas nuvens de gás no espaço poderiam às vezes implodir, isto é, explodir para dentro. Isso resultaria em formas que seriam curiosamente semelhantes às quase-estrelas.

Hoyle e Fowler estudaram depois os fenómenos que habitualmente levam à formação de uma galáxia composta de estrelas. Uma grande nuvem de gás se contrai e se desfaz em numerosas nuvens menores, das quais se originam as estrelas. Opinaram os dois cientistas que, eventualmente, a grande nuvem pode não se dividir. Ela continuaria então a contrair-se sob o efeito de sua própria gravidade, de modo que a massa total, com velocidade e energia crescentes, se precipitaria no interior da nuvem de gás.

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Essa implosão levaria a uma figura muito estranha, em cujo centro se encontraria matéria incrivelmente compacta. Um fragmento da milésima parte de uma cabeça de alfinete pesaria um trilhão de toneladas.



Mundos que se criam constantemente?

Numerosos físicos esforçam-se atualmente por obter uma ideia mais exata das ocorrências que se desenrolam no interior desses objetos celestes que implodem. Hoyle e Narlikar são de opinião que a matéria possivelmente seja aniquilada por completo e desaparece naquilo a que chamamos o campo da criação.

Diz a famosa teoria do Professor Hoyde, segundo a qual no Universo está em andamento um constante processo de criação, que do referido campo brota um fluido constante de matéria, para compensar a expansão do Universo observada pelos astrónomos. Já há muito tempo se verificou que as distantes galáxias, observadas por meio de telescópios ópticos, se distanciam da Terra, algumas movendo-se a enorme velocidade. Segundo Hoyle, graças à constante criação de nova matéria, a densidade média da matéria no Universo é conservada. Em todo caso, pode desenrolar-se temporariamente no interior dos quasares um fenómeno inverso: Por meio do afundamento consequente da gravitação, uma determinada quantidade de matéria pode ser conduzida ao campo de criação.

Tais pensamentos podem no início causar estranheza, mas parecem corresponder em notável extensão ao que até agora se pôde observar dos quasares. Talvez expliquem também a enorme energia luminosa e as vigorosas ondas de rádio emitidas pelos quasares.

Parece que as quase-estrelas obtêm sua energia da gravidade, ao passo que a energia de estrelas normais resulta de reação nuclear. Disso sobressai o quanta podem ser importantes as novas teorias da gravitação.

Segundo o Professor Hoyle, as novas observações astronómicas e as novas teorias delas derivadas poderão influenciar profundamente nossos postulados no campo da física. Sem dúvida, vivemos num tempo de transformação e é perfeitamente possível que, já dentro de alguns anos, nossa concepção do Universo se tenha

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modificado. Homens como Hoyde e Narlikar muito terão contribuído para isso.



Se os quasares forem assim como o acreditam Hoyde e Narlikar, o Universo é muito mais complicado e de organização mais sutil do que até agora se podia acreditar. O Universo seria então um mecanismo que compensa automaticamente as perdas de matéria, que ocorrem quando as galáxias superam a velocidade da luz e desaparecem, sendo produzida nova matéria no interior dos quasares. Estes são, pois, os laboratórios nos quais a matéria é produzida e depois lançada sobre nosso Universo, num sistema de vastidão imensa — o campo da criação.

Existirá um código astronómico, tal como existe um genético?

Segundo Hoyle, a matéria assim originada tornaria a surgir em todo o Universo sob a forma de átomos de hidrogénio. Como são formados os mecanismos auto-reguladores num todo tão perfeitamente sintonizado? Ainda não há resposta para essa pergunta. Albert Ducrocq estabeleceu a hipótese segundo a qual o Universo funciona como a vida. Esforça-se por diminuir a en-tropia e fazer o antiacaso vencer sobre o acaso.

Esta é uma imagem poética que Teilhard de Chardin com certeza de boa vontade teria deixado prevalecer.

Mas se a examinarmos sob as normas austeras da ciência, não tareiam a aparecer numerosas dúvidas. Suponhamos que uma galáxia, com uma determinada quantidade de matéria, deixa nosso Universo, porque sua velocidade supera a da luz. Como sabe o Universo que deve ser produzido um determinado número de quasares para compensar a perda de matéria? De onde provém tal informação? Como é ela transmitida? Caso se trate de um mecanismo auto-regulador, como se processa a regulagem?

Se Ducrocq, Hoyle, Narlikar e também Costa de Beauregard têm razão, o Universo é tão bem organizado e funciona com tanta precisão como uma molécula de ADN (ADN = ácido desoxirribonucleico). Tal como se descobriu o código genético, devia-se descobrir o código astronómico. A informação não se limita à matéria viva, mas forma um elemento integrante do Universo, tal como a matéria e a energia. Isso significa uma re-

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visão fundamental de nossas ideias. A ciência nem de longe ainda pronunciou sua última palavra.



Não esqueçamos, porém, que a teoria de Hoyle e Narlikar não está sozinha. Ainda que nos limitemos às que não admitem velocidade superior à da luz, podemos escolher, entre toda uma série, esta ou aquela teoria, cada qual mais fantástica do xjue a outra. Assim, um americano afirmou recentemente serem os quasares enormes massas de gás ionizado (plasma), que envolvem um núcleo extraordinariamente compacto e quente, comparável a um gigantesco reator nuclear. As partículas resultantes da fusão atravessam, velozes, o plasma vibrante e produzem ressonância e ondas de rádio que se propagam pelo Universo. Esclarecem os cientistas que as leis físicas conhecidas, em associação com as observações de laboratório sobre a atuação do plasma, explicam plenamente a produção e difusão das ondas. Tomam também em consideração um fator conhecido como energia livre de Debye. Esta energia, descoberta em 1923 pelo holandês J. W. Debye, passava até agora por ser fraca demais para poder transformar energia térmica em energia eletromagnética, por exemplo, sob a forma de ondas de rádio. Considerando-se a dimensão dos quasares, porém, essa energia deve representar um fator considerável.

Essa teoria tem a vantagem de ser muito razoável. Sua deficiência consiste em não explicar as enormes energias dos quasares, a não ser que no interior de tal reator nuclear incrivelmente quente se processem reações ou transformações de matéria ou de energia de espécie completamente desconhecida, nas quais estão em jogo não só a energia nuclear, mas também ainda outras fontes de energia, por exemplo, uma energia do Espaço, designada por alguns físicos como energia subquântica.

Nesta forma a teoria americana foi apoiada pelo astrofísico soviético Nikolai Kardaschew, que entrou no debate ao afirmar que na zona da radioestrela CTA 102 deve existir uma civilização extragaláctica dotada de inteligência. Kardaschew defendeu energicamente seu ponto de vista numa conferência do Instituto de Física da Academia Soviética de Ciências, em 12 de maio de 1964. Acredita ele que no interior de um super-reator termonuclear campos magnéticos comprimidos podem liberar imensas quantidades de energia.

Muitos destacados académicos soviéticos, sobretudo o Professor Vitali Ginsberg, mostraram-se um tanto cépticos. Preferem esperar novos resultados das experiências em andamento antes de ampliarem mais a hipótese. No meio tempo, a fantasia está trabalhando constantemente.

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A ideia de Hoftmann: Pior do que a antimatéria



Banesh Hoftmann é um notável físico americano que leciona na Columbia University e foi um dos colaboradores de Einstein. Defendeu energicamente a existência de fenómenos paranormais e foi um dos primeiros a observar que existem agentes físicos, por exemplo, o neutrino, que atravessam todos os obstáculos e que, em consequência disso, poderiam ser os intermediários de fenómenos parapsicológicos.

Foi preciso um homem de sua cultura e fantasia para que fosse estabelecida uma teoria original sobre os quasares. Ela foi publicada no número de maio de 1965 da excelente revista inglesa Science Journal.

A ideia fundamental do Professor Hoftmann é encontrada com frequência na ficção científica, mas nunca nas publicações científicas. É a seguinte essa ideia básica: Existe uma matéria negativa. Não uma antimatéria, não uma matéria com carga oposta, como a matéria normal, mas uma matéria com massa negativa, isto é, partículas com carga elétrica positiva ou negativa ou neutras, cuja massa, porém, é inferior a zero. Tal matéria seria expelida pela matéria comum. Ela possuiria uma antigravitacão e uma inércia negativa. Nos romances de ficção científica as naves espaciais interestelares já há um quarto de século são acionadas por tal matéria.

Tudo podem permitir-se os autores de ficção científica; mas os cientistas devem agir com maior precaução. Hoftmann, porém, despreza todas as precauções e mostra, de maneira brilhante, que matéria negativa, se é que ela existe, deve produzir, pela ação da matéria normal, verdadeiras tempestades de energia, das quais se originam os quasares. Nenhuma pessoa até agora verificou a presença de uma partícula de matéria negativa, mas o Professor Hoftmann não deixa que isso o desencoraje. Afinal de contas, também Dirac previu teoricamente a antimatéria antes que esta fosse realmente descoberta.

De fato a matéria negativa explicaria os quasares, mas sua existência ainda não foi provada por nenhuma observação astronómica e nem por qualquer experiência de laboratório. Pode-se perguntar se é razoável explicar um mistério por meio de outro.

Eu mesmo creio que deveríamos abordar o problema do qua-sar com certa franqueza. Inicialmente, devia-se admitir a possibilidade de estarmos aqui em face de algo completamente novo,

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que vai além de nosso saber e de nossa fantasia. Encontramo-nos em situação aproximadamente idêntica à dos físicos do século XIX ante o problema da energia solar. Compreendiam perfeitamente que as fontes de energia que lhes eram conhecidas — combustão química, gravitação — não podiam explicar a energia solar. Como ainda nada sabiam a respeito dos núcleos atómicos e da energia nuclear, era-lhes impossível estabelecer hipóteses que explicassem verdadeira e corretamente a energia solar.



Em face dos quasares estamos lidando com idêntico problema. Uma fonte de energia completamente nova, no momento ainda inexplicável, produz esses gigantes no Universo.

CAPÍTULO XVII Possibilidades nunca antes imaginadas

Jacques Bergier
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V^UANDO A FANTASIA DO ser humano se apoderou de seu próprio cérebro, deteve-se de início junto ao cirurgião e seu escalpelo, que realizava maravilhas, sonhou com operações que deveriam dar ao homem faculdades ilimitadas. Assim, em seu Grande Deus Pan, Arthur Machen descreve uma intervenção cirúrgica que abre a tal ponto as portas da percepção, que o operado pode reconhecer todas as forças da natureza. Um grau mais baixo, no nível do sonho, encontra-se a ideia de uma ligação das duas metades do cérebro, que deveria pelo menos duplicar a memória, a inteligência e outras faculdades intelectuais. A operação de fato foi realizada, em macacos, mas, na verdade, sem resultados dignos de nota até agora. Antes que os cientistas se ocupassem com isso, o americano John W. Campbell, autor de ficção científica, predisse, há cerca de trinta anos, a possibilidade de tais operações.

A fantasia, para a qual não existem quaisquer limitações biológicas ou fisiológicas, cogitou também da possibilidade de transplantar um cérebro num ser vivo da mesma espécie ou de uma espécie próxima. Todavia, ainda existem limites aos transplantes de órgãos no homem. A regra é que um organismo repele os tecidos de outro, mesmo quando eles são oriundos de um ser vivo da mesma espécie; só em alguns gémeos ou em mãe e filha não sobrevêm a reação de imunidade do organismo. Esta dificuldade essencial, porém, não impediu que os romancistas se entregassem aos seus sonhos.

Um desses sonhos muito se aproxima das possibilidades reais; um cérebro é mantido vivo num recipiente, numa solução nutritiva especial (com um cérebro de macaco isso foi conseguido por vinte e quatro horas). É este o tema do romance de Curt Sidmak O Cérebro de Donavan. Numerosos outros autores de ficção científica também exploraram essa possibilidade. Se o cérebro no

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recipiente fosse irrigado com sangue fresco e as substâncias residuais fossem afastadas, seria teoricamente possível mantê-lo vivo por tempo ilimitado. Se, além disso, dotássemos o cérebro de órgãos de sentidos, e o ligássemos a um computador eletrônico muito eficiente, poderia até ter vida ativa, embora não necessariamente agradável. Adquiriria assim uma espécie de imortalidade, sobre a qual é legítimo sonhar. Um cérebro libertado dos incómodos físicos, num tubo de ensaio, poderia talvez aprender a utilizar-se dos 90% de neurônios que, segundo a estimativa dos neurologistas, ficam inaproveitados a cada momento. O cérebro deveria ter também a possibilidade de pôr um fim à sua vida quando estivesse desgostoso de seu estado e de sua prisão. Isso poderia dar-se por meio da emissão de um sinal eletrônico adequado. A experiência é mais um pesadelo do que um sonho, mas em todo caso trata-se quase de um pesadelo que poderia tornar-se realidade. Um cérebro de tal maneira isolado provavelmente não permaneceria humano por muito tempo, pois a consciência, se pensarmos no caso, evidentemente não é apenas uma função.



A ligação entre cérebros torna possível levarem-se várias vidas

única restrição. Por que não deveríamos multiplicar nossa vida, por que não levarmos todas as noites uma vida nova? O telescópio do tempo, ativo em certos sonhos, faz essa possibilidade parecer absolutamente plausível. O homem poderia então escolher como quereria viver. Poderia até, com o recurso das curvas reflexivas do cérebro sobre a fita magnética, influenciar ativa-mente em certa extensão suas outras vidas. Correntes emitidas pelo cérebro modificariam correspondentemente as sensações registradas, com o que se teria, como na vida real, certa liberdade restrita. Autores como Clifford Simal ou Stanislas Lem trataram esse tema com grande riqueza de ideias.




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