Louis Pauwels Jacques Bergier



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Será ganha a batalha da água

Também em outro setor se travará dentro de vinte anos a guerra fria, no campo da luta pela água. Já hoje o mundo sente falta de água potável. Em 1984, isso ter-se-á agravado muito mais. Para remediar essa carência será preciso, com o emprego da eletricidade, transformar água do mar em água potável. Acrescentemos mais um termo ao nosso vocabulário do futuro: eletromembrana. A ele-tromembrana é uma superfície de pergaminho carregada de eletricidade, que permite a passagem da água, mas retém os sais nela contidos. No caso da água do mar, podem-se obter, dos resíduos da membrana, iodo, magnésio, ouro e outras substâncias úteis. Gigantescas usinas geradoras de energia elétrica por meio de reatores atómicos e geradores magneto-hidrodinâmicos bombearão do mar verdadeiros rios de água potável. Junto às margens desses rios, os desertos irão florescer, surgirão novas cidades. Essas fontes artificiais de água potável ostentarão a bandeira dos países que as criaram e representarão sua técnica no Terceiro Mundo. Tal como - antes as vitórias militares, as fontes de água potável criadas por um país atestarão seu poderio e seu progresso.

Em 1964, os soviéticos iniciaram em Schewtschenko, a construção de uma gigantesca instalação para dessalgar o Mar Cáspio. Irá fornecer 25 milhões de galões de água potável por dia e será acio-nada pelo maior reator nuclear do mundo, o possante BR-250. Os americanos já aceitaram o desafio e planejam instalações ainda maiores para Israel, Egito, Kuweit, os desertos mexicanos e a África do Norte. Para o homem de 1984, estas instalações para dessalgar água do mar serão tão familiares como as grandes usinas siderúrgicas ou as usinas geradoras de nosso tempo. Suas possantes chaminés, sem fumaça (as chaminés são necessárias para a evasão dos gases de refrigeração dos reatores) lembrarão que as reservas de nosso planeta não são ilimitadas e que os graves problemas da superpopulação sempre pairam, ameaçadores, no horizonte. Pois em 1984 a explosão demográfica não estará ainda nem de longe contida em seu ímpeto.

Como não se tornar um número?

O problema principal consistirá em manter o equilíbrio entre o indivíduo e a sociedade, em fazer com que o indivíduo não se reduza a simples número.

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O homem de 1984 será em primeiro lugar um número de dez algarismos. Será o portador deste número durante toda a sua vida. Ele se acha impresso com tinta magnética num documento de identidade cuja apresentação é o suficiente para que ele possa retirar dinheiro em qualquer banco do mundo. O número permitirá também alcançá-lo pelo telefone a qualquer tempo, onde quer que ele se encontre, bastando que ele comunique seu novo endereço à central telefónica. O número é codificado de tal maneira que indica seu grupo sanguíneo, os aspectos mais importantes de sua história clínica, sua conduta como cidadão. Basta comunicar à Interpol o número de um malfeitor suspeito e imediatamente já lhe são impedidos todos os meios de transporte. Gigantescas instalações de computadores eletrônicos acumularam dados correspondentes a cada número, podendo dar em poucos segundos informações sobre profissão, condições de vida e muitos outros detalhes. As autoridades sanitárias mundiais e outras organizações internacionais terão acesso a esses registros magnéticos. Com seu número o ser humano de 1984, homem ou mulher, é cidadão do mundo. Mas ele quer ser mais do que um simples número. Quer defender-se contra a sociedade que, se por um lado cuida paternalmente dele, por outro é curiosa demais, poderosa demais. Assim, nas negociações do ano de 1984, sempre se ouvirá, a cada passo, uma palavra: ombudsman. O ombudsman é a invenção social mais revolucionária do século XX, mais revolucionária ainda do que o comunismo. A invenção é oriunda dos países escandinavos. Na Escandinávia o ombudsman é um funcionário que defende o indivíduo contra o governo. É eleito por um pequeno grupo de cidadãos, não pode ser demitido e é insubordinável. Quem se sentir lesado ou prejudicado pela sociedade, pagou imposto em excesso, sofreu condenação arbitrária, expulsão, recusa de um passaporte, etc. recorre ao ombudsman. Este se encarrega gratuitamente de seu caso, defende seus direitos perante a sociedade e a justiça.



Nos países escandinavos debate-se sobre quantos ombudsmen são necessários. Fala-se de um para cada seis mil habitantes. Os liberais ingleses incluíram em seu programa de governo a instituição do ombudsman. Em 1964, os soviéticos manifestaram seu interesse por essa instituição. Em 1984, todos aqueles que não querem ter apenas um número, mas também um nome, recorrerão ao seu ombudsman. A sociedade, que cada vez mais se apodera de tudo, terá finalmente encontrado uma reação. Quem se julga perseguido, procura seu direito junto ao ombudsman.

Mas, com isso, ainda não estão solucionados os problemas da sociedade. Quando se tornar realidade a esperança dos espíritos mais esclarecidos de 1984, e for criado um governo mundial, quem

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vigiará os vigias? Poderão os ombudsmen, honrados funcionários administrativos locais, opor-se a esse organismo, mais poderoso do que todos os ditadores de tempos passados, que controlará o planeta, disporá de gigantescos cérebros eletrônicos, conhecerá melhor as técnicas de domínio psicológico e psicoquímico? Fará a si próprio tais perguntas o homem de 1984 quando contemplar seu cartão perfurado, que ele próprio não pode ler e que lhe serve ao mesmo tempo de passaporte, de livro de cheques e certificado de saúde. Também os futuros componentes de um governo mundial, os organizadores e especialistas, farão tais perguntas. E em seus diálogos surgirá um conceito: a curva de Stine.



Podemos tornar-nos imortais?

Quem escolherá as crianças que irão receber tal tratamento preferencial? Esta pergunta é sobremodo empolgante quando se tiver de restringir muito o círculo, a talvez uma dúzia no século XXI. Este direito caberá ao governo mundial? Quem poderá impedir os pais de conseguir a imortalidade para os próprios filhos? A opinião pública? Esta deixa-se influenciar facilmente. Os ombudsmen? Estes só estão familiarizados com problemas locais. Já a sombra da imortalidade, com todos os conflitos que ela pode criar, começa a pairar sobre os homens.

Todavia, no tempo oportuno haverá imortais. Serão necessários vários séculos para se assimilar todo o saber adquirido dia a dia. Passarão também vários séculos até se alcançarem os astros situados fora de nosso sistema solar, com lâmpadas voadoras, naves espaciais acionadas pela luz, em cujo aperfeiçoamento se está trabalhando. Os imortais são necessários, mas como selecioná-los entre os mortais? Esta será em 1984 a grande interrogação que estará sempre presente em todos os debates intelectuais.
Harry Stine, especialista em foguetes e autor de ficção científica, dedicou-se, no período entre 1950 e 1960, à tarefa de calcular as curvas que, como função do tempo, reproduzem a velocidade dos veículos, a produção de energia e a densidade das redes de tráfego e de notícias. Tal como André de Cayeux e François Meyer na França, queria ele investigar o aceleramento da história. Desta maneira pôde predizer tanto os sputniks como a maioria das grandes conquistas no campo tecnológico. Estabeleceu outras curvas, sobretudo a da duração da vida. Esta curva revelou um fato admirável e até espantoso: uma criança nascida no ano 2000 tem boas perspectivas de não morrer nunca mais. A curva da duração da vida sobe verticalmente no ano 2000 e tende a tornar-se interminável.

Em 1984 o desenvolvimento nesse sentido já estará muito próximo de tornar-se realidade. A decifração do código genético, as descobertas no campo da química da vida, trazem para breve o momento em que a imortalidade se torne um fato real, pelo menos para algumas pessoas. Pois, para os cientistas de 1984, será claro que uma criança nascida no ano 2000 ficará a vida inteira sob os cuidados de uns cinquenta excelentes biologistas e irá requerer o dispêndio de alguns bilhões para que sua vida seja prolongada alguns séculos ou um milénio, por conseguinte para dar-lhe, segundo a escala humana, vida eterna, sendo que o eleito seria mantido fisicamente no estado de uma pessoa de cinquenta anos de idade.

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Problemas que se solucionaram por si



No entanto, a humanidade de 1984 não está apreensiva. Ela viu com demasiada frequência os problemas se solucionarem por si mesmos. A luta entre comunismo e capitalismo chegou ao fim. As duas formas sociais existem lado a lado e as guerras religiosas do passado foram esquecidas há muito tempo. Em 1964 um protestante podia andar pelas ruas de Paris sem correr qualquer risco, um católico em Genebra não era molestado. Em 1984 um membro registrado do Partido Comunista poderá passear livremente em Nova York e o propagandista de um neocapitalismo agressivo não será incomodado em Moscou. Basta que cada um tenha seu número mundial e seu cartão magnético em ordem. Enquanto a inscrição magnética mostrar que a conta tem fundos, os bancos de Nova York pagarão dólares e os de Moscou, rublos.

Também estará solucionado, por iniciativa privada, o problema do tempo de lazer. Em 1964 o problema era importuno para os filósofos e os literatos misantropos. Sobretudo as pessoas que desprezam a juventude, a liberdade e a beleza, repetiram até tornar-se fastidioso, que o homem não poderia suportar uma era de lazer, que a semana de trinta horas seria uma catástrofe, que a

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juventude iria endoidecer. O mesmo se dissera no século XIX sobre a semana de cinquenta e duas horas. À semana de trinta horas de 1972 seguirá, em 1984, a semana de vinte e quatro horas. Não haverá por isso nenhuma catástrofe. Pelo contrário, a liberação da energia acumulada durante as férias e as horas de folga conduzirá a uma das grandes revoluções intelectuais da humanidade. Uma das palavras-chave de 1984 será lansi.



Já em 1940 compreendeu-se que nenhuma das línguas faladas e escritas no mundo era realmente adequada para o ensino científico. Benjamim Lee Whorf mostrou claramente que as línguas orientais, como o russo e o chinês, não correspondem ao Universo real, o Universo da relatividade e dos quanta.

A linguagem da ciência para todos

Por isso, a cultura científica só se tornou possível para todos depois da invenção de lansi, a language scientifique.

Os criadores desse novo idioma combinaram com grande habilidade os trabalhos de Benjamim Lee Whorf com as pesquisas de Gilbert Cohen-Séat sobre línguas puramente racionais, como lo-glan, sobre análises de línguas de comunicação entre o homem e a maquina (cobo, algol) e, ainda, com as ideias de Gérard Cordon-nier sobre a metalingua. Surgiu, assim, na década de setenta, a língua científica, lansi, bem adaptada a todo o mundo. Ela não conhece substantivos nem verbos. Descreve as ocorrências no sistema de espaço e tempo e lhes dá a probabilidade. Leva-se quando muito quinze anos para aprender perfeitamente o lansi e com seu conhecimento pode-se ler toda a gigantesca literatura científica.

Uma obra de ciência popular escrita em lansi fixa-se por si mesma no cérebro, é imediatamente absorvida e compreendida. No plano intelectual, lansi é o equivalente da alimentação preparada com o auxílio do fogo. Os antigos métodos de ensino são comparáveis à alimentação do homem, antes do domínio do fogo, de tão difícil digestão. A ciência traduzida para lansi pode ser trabalhada imediatamente. Métodos de impressão radioquímicos permitem a produção barata e a distribuição gratuita de bilhões de trabalhos científicos, acessíveis a todos. Toda e qualquer pessoa normal lê com entusiasmo lansi, abrindo assim as portas para a ciência do mundo. O tempo de folga, a impressão radioquímica e lansi

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trouxeram incrível progresso à humanidade. Só a invenção da escrita representou uma transformação tão revolucionária.

Naturalmente, lansi também criou problemas. Destes, o mais difícil é constituído pelas pessoas intelectualmente retardadas. Quem quiser ter acesso a lansi e às riquezas da ciência, deve ter um cociente de inteligência de pelo menos 80 (a média é 100). A introdução de lansi submeteu a humanidade a uma dura prova. Foi preciso reconhecer que o número de pessoas com um cociente de inteligência abaixo de 80 era muito maior do que se supunha, sobretudo nos países altamente industrializados. Esses seres humanos isolados do progresso representam uma minoria cujo destino é altamente penoso. Uma minoria que bem gostaria de escapar ao destino que a aguarda. Uma minoria que, com excessiva frequência, é vítima de charlatães.

Em 1984 não passa uma semana sem que a autoridade sanitária mundial advirta contra pílulas que, segundo consta, causam elevação da inteligência, mas que, na realidade, são inúteis e frequentemente até provocam o câncer. Novos cultos pseudo-religiosos, métodos pseudo-hipnóticos, prometem um aumento da inteligência, que tornará lansi acessível a todos. Anúncios oferecem a discreta remessa de cursos de melhora da inteligência. Tudo isso não passa de embuste. Em casos muito raros conseguiu-se elevar a inteligência pela inalação de íons positivos (o método foi criado na década de 1960 pelo Dr. Dussert de Bergerac). Mas isso só é eficaz em circunstâncias muito peculiares. Parece até que a humanidade está dividida em dois tipos. Quer-se conseguir que todos os seres humanos venham ao mundo iguais, mas infelizmente no momento isso ainda não pode ser realizado.

Novas ciências

Haverá uma saturação? O interesse científico será apenas moda passageira? Hoje em dia ninguém ainda pode dizê-lo. O certo é que, a julgar pelas consultas à opinião pública efetuadas a partir de 1980, o interesse se desloca cada vez mais para dentro, em busca dos segredos da personalidade humana. As maravilhas do mundo exterior, o fantástico da realidade parece afetar muito menos as massas.

O descobrimento da extinta Atlântida, as formas de vida primitiva encontradas nas cavernas lunares, as fantásticas riquezas nas

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cidades mortas, em Marte, tudo isso só tem entusiasmado a juventude. Em compensação há um interesse geral e ardente pela telepatia, pelo subconsciente coletivo, êxtase místico, etc. Os maiores cientistas se prontificam de boa vontade a tomar parte em experiências parapsicológicas controladas. Desde que se conseguiu estabelecer uma comunicação telepática entre a Terra e a Lua, ninguém mais duvida da realidade da parapsicologia. O grande nome da época é C. G. Jung.



Ciência fatal

Cientistas em número cada vez maior procuram provas para a teoria do sincronismo, estabelecida há tempos por C. G. Jung e por Pauli, laureado com o Prémio Nobel. Esta teoria, que dá à - antiga ideia de destino um sentido científico e afirma que cada um poder dominar o seu, embora predeterminado por fatores genéticos e sociais, constitui como que o eixo de ciências inteiramente novas, nas quais se encontraram cosmobiologia, psicologia e matemática. Os jovens sonham tornar-se cosmo-observadores ou desti-nólogos. Estas profissões são muito difíceis, mas constituem o limite interno essencial da ciência.

A física nuclear, porém, deu origem a uma nova profissão, a do técnico nuclear que, como todos os outros, tem sua semana de vinte e quatro horas. Também a pesquisa matemática tornou-se rotina, é profissão séria, mas que não consegue mais entusiasmar ninguém. As novas ciências, nas quais se associam física, matemática e psicologia, atraem os espíritos mais elevados e despertam paixões intolerantes.

Se o homem e a mulher comuns se sentem atraídos por descobertas como o sincronismo e a análise do destino é porque isso desperta neles emoções religiosas. Mais ainda, porém, surpreende o observador de 1984 o aparecimento de novas religiões, que se apoiam nas antigas, o que, aliás, muito inquieta os crentes tradicionais.

Uma nova guerra religiosa

O Subud, fundado na década de 1950 pelo indonésio Pak Subud, espalhou-se por todo o mundo. Na Indonésia o Subud tem em 1984 mais adeptos do que o Islã. No mundo comunista, o Subud adquiriu muitos prosélitos, sobretudo na China e na Ásia Central Soviética. Na África é a religião dominante.

No antigo mundo islâmico, a religião Bahai, a despeito de todas as medidas repressivas, expandiu-se muito e conquistou para si toda a zona do Mediterrâneo; ao mesmo tempo, essa religião melhorou consideravelmente sua posição na Inglaterra e nos Estados Unidos.

Na América do Norte, na Escandinávia e, por estranho que pareça, na Itália, o culto dos Grandes Galácticos, que no início era considerado uma tolice relacionada com os discos voadores, tomou impulso nunca visto e conta, em 1984, com 5 a 6 milhões de adeptos. Segundo os ensinamentos deste culto, virão à Terra emissários da Federação das Galáxias, os seres que emitiram os sinais captados pelos radiotelescópios. Os antropólogos comparam essa nova religião com o culto polinésio do Cargo. Os satíricos zombam dela. Seja como for, a verdade é que em 1984 cerca de 6 milhões de pessoas acreditam na chegada dos Grandes Galácticos em suas naves espaciais interestelares, e isso a despeito de todas as afirmações da ciência, de que o espaço interestelar só dificilmente poderá vir a ser vencido por um ser de vida efémera como o homem. Na índia, baseadas nas experiências da consciência racial, que revivem antigos cultos de reencarnação, novas religiões se difundiram à custa das antigas.

Congressos ecuménicos visam a uma fusão das religiões tradicionais para poderem, com êxito, travar luta contra as novas religiões. Historiadores, psicólogos e sociólogos ocupam-se com as novas religiões, suas origens e as bases de sua força. Os místicos negam sua autenticidade e só aceitam como válidas as clássicas revelações divinas: Moisés, Jesus, Maomé. Em 1984, os racionalistas desapareceram por completo de cena. Se ainda aí estivessem, veriam na difusão de novas religiões um sinal da degeneração humana.
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Drogas, Tempo e Espaço

cada mundo corresponde a uma determinada droga. Nesta fronteira interna esperam-se grandes descobertas, que irão abalar o mundo de 1984.


Todos estão de acordo em que, a partir de um determinado número de calorias diárias — da ordem de três mil calorias — em combinação com um determinado tempo de lazer, digamos dois dias inteiros por semana, surge um anseio de coisas maravilhosas, daquilo que Jung definiu como "vitamina da alma". Esse desejo já hoje se manifesta muito nitidamente na Califórnia. Em 1984, aparecerá no mundo inteiro. A ciência não o consegue satisfazer, como tampouco o conseguem a ficção científica e as religiões tradicionais. Lograrão satisfazê-lo as novas religiões? É uma interrogação que se impõe.

Em 1964, segundo os brilhantes livros de Aldous Huxley Céu e Inferno e As Portas da Percepção, os homens estavam convencidos de que drogas adequadas são capazes de enriquecer a vida de tal maneira que o hóspede desconhecido, que se pode chamar alma, consciência ou psique, recebe a vitamina de que necessita.

Em 1984, mal ainda se acredita nisso. Psilocibina e mescalina revelaram-se muito mais perigosas como causadoras de vício do que anteriormente se supunha. Desde então criaram-se às centenas outras drogas sintéticas, mas nenhuma delas é inofensiva e inócua. Seu uso foi por isso proibido por lei; só podem ser tomadas sob supervisão médica.

Todavia, não se pode negar que algumas dessas drogas parecem ter propriedades extraordinárias, que também despertam faculdades parapsicológicas. Pelo menos cem pacientes viveram em sonho com três anos de antecedência o grande e recente terremoto no Chile. Todos se encontravam sob a influência do LSD. Outras experiências deste tipo mostraram que após a ingestão de certas drogas se vêem em sonhos o passado, o futuro e talvez até outros mundos. É esta uma das aventuras mais emocionantes do ano 1984. Há os que se apresentam voluntariamente para testes com novas drogas, tal como em 1964 havia quem se apresentasse como voluntário às autoridades da navegação espacial. Alguns destes voluntários perderam a vida, outros enlouqueceram. Os que sobreviveram, porém, descrevem cenas de um passado que puderam ser comprovadas, ou tiveram visões do futuro que, em parte, já se tornaram realidade, ou puderam descrever outros mundos que talvez existam alhures. Esses mundos emergem nos sonhos de pessoas que não têm nenhuma ligação umas com as outras. Provavelmente

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O homem não está mais insatisfeito



Que esperanças se têm para 1984? De 1980 a 1984 a televisão mundial e várias grandes revistas realizaram uma investigação de âmbito mundial, na qual se interrogaram 700 milhões de pessoas (homens e mulheres em igual número). 90% das pessoas consultadas expressaram a esperança de obter uma prova da imortalidade ou da reencarnação. Todos eram unânimes ao opinar que "algo de tão sublime como a pessoa humana" não podia simplesmente desaparecer, como um buraco numa folha de papel quando se queima o papel. Em 1984, porém, tal esperança ainda não se justifica por nenhuma descoberta parapsicológica nem por qualquer experiência com drogas. Apesar disso, ela é viva e em geral muito difundida. Talvez ela explique a difusão de novas religiões, já que as velhas nunca conseguiram provar a imortalidade.

No plano das coisas reais, duas possibilidades de imortalidade física estão abertas: imortalidade para um pequeno número de crianças, que recebem tratamento especial, e a imortalidade por meio da hibernação, para aqueles que quiserem arriscar-se a mergulhar num sono secular, em hélio líquido. Mas nenhuma dessas possibilidades pode proporcionar verdadeira satisfação, e assim espera o homem de 1984 que a nova ciência realize o que as antigas ciências e religiões não lograram alcançar: provar-lhe que existe outra vida. No entanto, ele não está mais insatisfeito com a vida que leva.

CAPÍTULO XV

Brincadeiras de guerra com computadores eletrônicos

Jacques Bergier

"O general que quer ganhar uma batalha, efetua em seu templo, antes do combate, numerosos cálculos."

O general chinês Sun Tsu, 500 a.C.

Um mundo louco

^, EM 1917, os Estados Unidos entraram na Primeira Guerra Mundial, o governo via-se em face de difíceis problemas. Uma primeira estimativa mostrara que 500 mil americanos tinham condições para servir nas fileiras. Tratava-se então de decidir quando deviam ser mobilizados. Não convinha convocá-los cedo demais, e mobilizá-los tarde demais poderia resultar em catástrofe. O problema foi confiado a vários estatísticos e matemáticos, que propuseram soluções contraditórias. Finalmente submeteu-se o assunto ao Coronel Leonard P. Ayres, estatístico do exército. Ayres entregou ao presidente dos Estados Unidos um relatório no qual expunha que, após cálculos matemáticos exatos, chegara à conclusão de que uma mobilização na primeira semana de setembro de 1917 seria o mais indicado. De fato tudo correu perfeitamente bem. Ninguém jamais perguntou ao Coronel Ayres como chegara ele àquela conclusão e ele só deu a conhecer seu método em 4 de maio de 1940, perante alunos da escola de oficiais, quando a Segundo Guerra Mundial atingiu os Estados Unidos.

O método do Coronel Ayres consistira em calcular o tempo em que nos acantonamentos do recrutamento houvesse uma calça de

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uniforme para cada recruta, pois considerava essa peça da farda a necessidade mínima para a organização de um exército. Simplesmente não tomara em consideração os diversos cálculos que lhe haviam sido submetidos.



As calças do Coronel Ayres são em geral consideradas um primeiro exemplo de uma pesquisa de empreendimento, isto é, o emprego de métodos analíticos aprimorados para o exame de fenómenos complicados demais para que os matemáticos, que só sabem pensar em sentido geométrico, os possam analisar. A pesquisa de empreendimento e seu aperfeiçoamento, que de um modo geral se designa como análise de sistema, adquiriu nos Estados Unidos uma admirável importância. Nos últimos anos, formaram-se ali verdadeiros laboratórios de guerra, nos quais homens e máquinas travam batalhas imaginárias, com as quais se pretende menos ganhar uma guerra realmente deflagrada do que evitar uma guerra possível. Esses laboratórios são controlados pela Rand Corporation (Rand = Research and Development), a mais extraordinária organização privada em nosso planeta. Até bem recentemente, a Rand estava de fato hermeticamente isolada do mundo exterior pelo segredo militar. Uma pontinha do véu foi erguida pelo livro Analysts for Military Decisions, publicado por Edward S. Quade. Os autores são numerosos demais para que possam ser citados individualmente aqui; todos pertencem à Rand Corporation. No entanto, o livro não reflete a opinião oficial da Rand Corporation nem a da Força Aérea Americana, que com ela se consulta. Levando-se em conta tal restrição, é uma fonte de informações extraordinariamente pura, que consultei detalhadamente ao compor meu artigo; sem o mencionado livro mal creio que meu trabalho teria sido realizado.




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