Louis Pauwels Jacques Bergier



Baixar 0.65 Mb.
Página12/18
Encontro18.09.2019
Tamanho0.65 Mb.
1   ...   8   9   10   11   12   13   14   15   ...   18

Caso, porém, a ciência conseguisse produzir antimatéria, exa-tamente como hoje se fabricam acetileno e plutônio, seria criado o mais possante acumulador de energia que se pode imaginar, pois, por tudo quanto sabemos, pode-se imaginar que a matéria se destrói ao encontrar-se com a antimatéria, e que no embate toda a matéria é transformada em energia. Uma tonelada de matéria e uma tonelada de antimatéria dão juntas duas tone-

132


ladas de energia, por conseguinte 2 X IO13 kWh ou 20 bilhões de kWh. Para impedir tal destruição e conservar a antimatéria, seria preciso introduzi-la numa garrafa magnética, isto é, num campo magnético de determinada forma, tal como é empregada nas experiências com plasma. É verdade que só a garrafa magnética não seria suficiente; ela teria de ser reforçada por campos elétricos ou eletromagnéticos. Este problema técnico absolutamente não deveria ser insolúvel. Se os cientistas conseguirem produzir antimatéria, também encontrarão uma possibilidade de conservá-la. Deveriam encontrá-la, tanto mais por ser possível que de fato seja válido o princípio de exclusividade de Wolfgang Pauli, segundo o qual duas partículas elementares de um só sistema não podem encontrar-se no mesmo estado. (Em resumo, uma explicação do princípio de Pauli: A observação nos ensina que não há duas pessoas, dois animais ou duas plantas perfeitamente iguais. Afirma Pauli que no microcosmo se dá a mesma coisa. Num átomo não poderia haver dois eléctrons com o mesmo nível de energia, pois seriam idênticos. Isso explica o sistema periódico dos elementos. Caso o princípio de Pauli também se aplique à antimatéria, a conservação desta seria mais fácil do que se acredita.)

De cálculos que se baseiam nesta ideia, parece resultar que cada antielemento só pode destruir outro antielemento que lhe corresponda perfeitamente: antimercúrio só destrói mercúrio, mas não ferro comum. Por conseguinte, a conservação de antimatéria não representaria qualquer problema sobremaneira difícil. Nem se necessitaria de uma garrafa magnética. O memorial dos cientistas americanos talvez faça alusão a tal descoberta quando fala em sensacionais trabalhos russos no terreno da antimatéria.'

Em todo caso, os mais recentes progressos na física nuclear fazem parecer absolutamente admissível que, dentro em breve, sejam criados processos para a produção sintética de antinúcleos por meio de uma nova modalidade de reação nuclear, como também métodos de conservação da antimatéria. É por isso bem possível que num futuro próximo algumas nações disponham de consideráveis reservas de antimatéria. A humanidade entraria então em nova fase, adquirindo forças nas quais mal se ousava pensar. Que irá fazer com elas?

1SS


Rumo às estrelas com a Lâmpada Voadora

O Professor Staniojukowitsch, de Moscou, respondeu àquela pergunta com estas palavras: "A humanidade conquistará as estrelas!" O cientista russo e os colaboradores de seu instituto de pesquisas elaboraram o plano de uma sonda espacial acionada por antimatéria e iniciaram os primeiros trabalhos para sua realização. Batizaram seu veículo espacial de Lâmpada Voadora. Empregando tais veículos, que se moveriam com velocidade quase igual à da luz, poderiam os homens explorar todo o Universo, pelo menos todos os corpos celestes de nossa galáxia, e talvez também outras galáxias. A Lâmpada Voadora baseia-se no seguinte princípio: Quanto mais rápidas forem emitidas partículas por um mecanismo motor, tanto maior será sua aceleração. O Professor Staniojukowitsch ponderou da seguinte maneira: Caso se conseguisse construir uma nave espacial que não emitisse gases incandescentes, mas luz, isto é, uma espécie de lâmpada voadora, - esta poderia atingir velocidades que, graças à contração do tempo, conforme a teoria da relatividade, permitiriam visitar também os mais distantes corpos celestes.

Não tardou, porém, a aparecer um sério obstáculo. Um espelho nunca reflete com perfeição absoluta a luz ou outra radiação eletromagnética. Uma diminuta fração da energia é absorvida pelo espelho. Mas com bilhões e mais bilhões de calorias, até tal minúscula fração seria suficiente para fazer derreter qualquer espelho.

Staniojukowitsch e seus colaboradores solucionaram este problema. Demonstraram que existe um caso no qual as radiações são praticamente 100% refletidas; menos de um bilionésimo é absorvido pelo refletor. Isso se dá quando as ondas têm um comprimento de um décimo de milímetro, por conseguinte, em ondas eletromagnéticas no limite entre ondas de rádio e raios infravermelhos e quando se emprega como refletor um grosso bloco de cobre polido. Medições extremamente precisas revelaram que tal espelho de cobre permite refletir de maneira praticamente total um feixe de raios de comprimento de onda adequado e com uma intensidade cinco milhões de vezes maior do que a luz solar, sem que o cobre se derreta.

O segundo obstáculo no caminho para a Lâmpada Voadora é o problema de transformar a energia libertada com a destruição da matéria pela antimatéria em radiações com um comprimento de onda de um décimo de milímetro. O Professor Sta-

134


nioiukowitsch e seus colaboradores parecem ter solucionado também este problema. Não creio que neste caso se trate apenas de otimismo intencional.

O terceiro obstáculo é a radiação cósmica. Uma nave espacial que se deslocar com velocidade quase igual à da luz será, como é fácil de se compreender, atingida por quantidade muito maior de partículas e raios cósmicos do que uma nave espacial com velocidade de 10 ou 15 quilómetros por segundo. Já que a radiação cósmica, em todo o Espaço, tem praticamente a mesma intensidade, uma nave espacial que se mover com grande velocidade será atingida por mais raios do que uma de vôo lento no mesmo período. Dentro de pouco tempo, a dose de raios seria mortal para os ocupantes da nave espacial. Necessita-se, pois, de um dispositivo que proteja os homens do perigo vindo de fora. Staniojukowitsch e seus colaboradores publicaram planos para tal barreira protetora. Trata-se de uma parede magnética protetora produzida artificialmente.

Naturalmente a Lâmpada Voadora deveria ser montada no espaço cósmico e iniciar o vôo de maneira que sua corrente de raios nunca atingisse a superfície terrestre, pois grandes áreas da Terra seriam queimadas ou até derretidas. O Professor Agrest é de opinião que as tectites foram produzidas pelos reatores de tais lâmpadas voadoras, que num passado remoto visitaram a Terra ou foram enviadas ao espaço cósmico por civilizações muito antigas, situadas em nível técnico incrivelmente elevado.

Segundo uma fórmula relativamente simples, pode-se calcular a duração da viagem espacial, no tempo dos ocupantes da Lâmpada Voadora. Aplicando-se a fórmula a um veículo espacial, que vence metade de seu trajeto com uma aceleração correspondente à força de atração da Terra, e depois mantém a mesma aceleração até a chegada ao destino, obtêm-se resultados fantásticos. Os ocupantes de tal Lâmpada Voadora absolutamente nada sentiriam. A gravidade da nave espacial seria a mesma que na superfície terrestre. Sentiriam o tempo transcorrer regularmente. Mas dentro de poucos anos, teriam atingido as mais distantes estrelas. Ao cabo de 21 anos, (segundo esse cálculo de tempo) estariam no mais denso núcleo de nosso sistema galáctico, à distância de 75 mil anos-luz da Terra. Em 28 anos, chegariam à Nebulosa de Andrômeda, a galáxia mais próxima de nós; a distância que a separa de nós perfaz 2.000.250.000 anos-luz^

Bem entendido, não se trata aqui de ficção científica. A fórmula de que falamos acima foi verificada experimentalmente no laboratório. Com o auxílio dessa fórmula, qualquer um que saiba lidar com uma tábua de logaritmos, pode verificar a exatidão

135


de nossos cálculos. Mal pode haver engano e todos os resultados alcançados neste campo estão em concordância uns com os outros. É, pois, importante refletir-se sobre a importância de tais fenómenos para o homem.

Os exploradores que quiserem visitar a Nebulosa de Andrô-meda voltarão à Terra dentro de 56 anos; a este prazo deve ser acrescentado ainda o tempo de sua permanência nos planetas por eles explorados. Vamos, pois, supor que levem ao todo 65 anos, mas 65 anos segundo o tempo da astronave. Na Terra, terão passado, neste intervalo, 4.000.500.000 anos. A viagem com velocidade quase igual à da luz significa uma conquista não apenas no Espaço, mas também no Tempo. Não só o Universo, mas também o futuro torna-se acessível ao homem. Só os autores de ficção científica pensaram nesta consequência. Mas deve estar em tempo para os cientistas também meditarem sobre as consequências de tal empreendimento. Quando os viajantes estiverem no futuro, todo o regresso ao passado será inteiramente impossível. Nós nos encontramos no mundo real e não no mundo do romance. A Máquina do Tempo, de Wells, não é exequível e nunca se tornará realidade. Mas a possibilidade de explorar o Universo e voltar à Terra centenas, milhares ou até milhões de anos mais tarde, já é algo de assombroso. Caso, como acreditam alguns, a história se desenrola em ciclos, se as civilizações se extinguem e tornam a nascer, a Lâmpada Voadora talvez pudesse contribuir para manter a continuidade: com as contribuições de uma ciência elevada, oriunda de seu passado, traria sangue novo a uma civilização em declínio e ao mesmo tempo lhe transmitiria tudo quanto os viajantes da nave espacial tivessem descoberto nos planetas de outros sóis. Tal colonização, não apenas no Espaço, mas também no Tempo, seria algo inteiramente novo na história da humanidade. Falou-se muito em trabalhar "para os descendentes", em preparar um "porvir magnífico", em dedicar sua atividade aos homens do futuro. A Lâmpada Voadora, o foguete acionado por antimatéria, nos daria uma possibilidade real, física, de entrar em contacto com a posteridade. Os homens do futuro provavelmente não viajem apenas para explorar as galáxias, mas também para transmitir a civilizações futuras aquilo que puderam realizar. Só por este motivo a descoberta da antimatéria será tão importante como foi no passado a do fogo.

O lado sombrio da antimatéria

A antimatéria é uma promessa, mas é também uma ameaça. Uma bomba de antimatéria com poder explosivo 50 ou 75 vezes maior do que o de uma bomba de hidrogénio, com a força destruidora de 1.000 ou 5.000 megatons, poderia significar o fim de nossa civilização. Tal bomba, detonada a grande altura, (com o lado técnico de tal possibilidade ocupou-se o técnico militar francês Camille Rougeron) incendiaria toda a América do Norte ou toda a Europa. Um território do tamanho dos Estados Unidos ou dos países do Mercado Comum seria inteiramente destruído pelo fogo. Seria um incêndio realmente apocalíptico, 100.000 vezes maior do que o de Hiroxima.

Entende-se assim o receio de Kruchev ao declarar que tremia ante o conteúdo das pastas dos cientistas.

No dia em que existir uma reserva de antimatéria e ela puder ser conservada — a antimatéria não é radioativa' e deveria em princípio poder ser conservada ilimitadamente — não será sobremodo difícil para os técnicos fabricar uma bomba de antimatéria. Bastaria juntarem-se antimatéria e matéria normal do mesmo número de ordem para provocar uma poderosa, uma imensa explosão.

Teremos de ouvir, um dia, que o país X colocou em órbita ao redor da Terra satélites com bombas de antimatéria, e que pode detoná-las por meio de um sinal transmitido pelo rádio? Temem-no os 17 cientistas americanos que assinaram o mencionado manifesto. Temores iguais preocupam Linus Pauling, detentor do Prémio Nobel. Quando este lhe foi concedido pela segunda vez (a primeira vez recebeu o Prémio Nobel de Química, mais tarde o Prémio Nobel da Paz), falou em armas que atual-mente se encontram em preparo, mais horrendas do que a bomba atómica. Pediu intervenção imediata das Nações Unidas. O perigo do momento é a bomba de antimatéria, "uma nuvem não maior do que a mão humana". Quando essa ameaça se tornará realidade? É difícil fazer-se um cálculo exato, mas pode ser dentro de bem pouco tempo.
156

m

Antimatéria e ciência



A antimatéria é, pois, uma promessa aos olhos dos técnicos em voos espaciais e uma ameaça quando técnicos militares com ela se ocuparem. Para o cientista no laboratório é uma possibilidade fascinante, que pode levar a novas descobertas, nunca antes sonhadas. Uma dessas descobertas já foi feita, em caráter experimental, pelo americano Martin Deutsch. Verificou ele que posítron e eléctron, antes de se destruírem mutuamente, formam, durante um período de tempo muito curto, um novo elemento, o positronium.

No positronium, eléctron e posítron giram em torno de seu centro comum de gravitação. Trata-se de um elemento mais leve do que hidrogénio, coisa antes julgada impossível. No sistema periódico dos elementos não se encontra o positronium. Se houvesse uma possibilidade de estabilizá-lo! Sonha-se com balões cheios de um gás 920 vezes mais leve do que hidrogénio, de - metais e ligas que podem pairar no espaço, semelhantes às cidades aéreas de Swift nas Viagens de Gulliver. Talvez a ciência consiga um dia estabilizar o positronium, possivelmente refrigerando-o a temperaturas próximas ao zero absoluto ou encerrando-o num campo magnético estruturado. Seria então maravilhosamente enriquecido o estudo da matéria.

O positronium ainda não é antimatéria, é um elemento intermediário, no limite entre dois mundos. Caso se conseguir produzir antimatéria, talvez se possa produzir matéria com núcleos duplos, um de carga positiva e outro de carga negativa, elementos estes que não caberiam mais em nenhum sistema periódico. Em torno desse núcleo duplo girariam eléctrons e posítrons em órbitas que nunca se encontrariam.

A antimatéria possibilitaria pesquisas ainda muito mais extraordinárias.

Uma experiência realizada em 1957, na Universidade de Co-lúmbia, pela física chinesa Senhora Wu, agitou o mundo científico. Conseguiu ela congelar cobalto radioativo. Em teoria, o cobalto congelado deveria ter emitido simetricamente eléctrons em todas as direções. No entanto, a experiência mostrou que os eléctrons eram de preferência emitidos na direção do Pólo Norte de um poderoso eletroímã que movia os núcleos. Este surpreendente resultado provava que a matéria não é simétrica, como já o tinham predito, em teoria, dois outros chineses, T. D. Lee e C. N. Yang. Em outras palavras: as leis da natureza se

138


modificam quando entramos num universo simétrico ao nosso. Num espelho, as leis da natureza do Universo não são as mesmas que existem entre nós.

Foi uma das teorias mais fantásticas já estabelecidas. Equivale a afirmar que a matéria, até em suas mínimas partículas, e até o Espaço não são simétricos. Por conseguinte, o espaço em que vivemos não é o espaço dos matemáticos, não é apenas não-eu-clidiano, é até invertido. Na realidade cotidiana não só os paralelos se cruzariam, mas também os objetos não seriam mais os mesmos quando empreendessem uma viagem através do Espaço e retornassem ao seu ponto de partida.

Como no Espaço existem duas espécies de torções, sentimo-nos tentados a acreditar que nossa matéria é torcida para um lado e a antimatéria para o outro, por exemplo, para a direita e para a esquerda.

O grande físico soviético, Lew Landau, laureado com o Prémio Nobel, demonstrou por meio de cálculos, que isso de fato parece ser o caso. Chama-o ele o princípio da simetria absoluta. Desde então, todos os físicos do mundo sonham com produzir anti-rádio-cobalto e repetir assim a experiência da Senhora Wu. Se os posítrons emitidos pelo núcleo do anti-rádio-cobalto também forem assimétricos, estará provada a teoria da simetria absoluta. Nos Países Baixos realizaram-se experiências com matéria normal, que emitia posítrons. Tais experiências indicam que Landau tinha razão. No entanto, só uma experiência com anti-rádio-cobalto permitiria conclusões definitivas.

Até onde chega o pensamento

Caso se revelasse certa a teoria da simetria absoluta, as consequências iriam além do que poderia imaginar a mais fértil fantasia. Einstein demonstrou que não se podem separar Espaço e Tempo. Se o Espaço é torcido também não pode mais haver tempo. Se desmoronar o princípio da paridade, isto é, da simetria do Espaço, também não terá mais valor o princípio da simetria entre o passado e o futuro. A relatividade do Tempo era até agora um dos fundamentos essenciais da física. Segundo essa relatividade, o passado de um observador era o futuro de outro, conforme sua posição no espaço, e sua velocidade própria.

139

Se for tirada ao físico essa relatividade do passado e do futuro, chegará ele a conclusões mais inquietantes. Se no mundo real o tempo estiver torcido, se mesmo nas mínimas partículas o futuro for diferente do passado, se o tempo não se compõe de momentos, mas de setas, todas voltadas para o mesmo horizonte, pelo menos no mesmo mundo, toda a física deveria ser reformulada.



Um russo, Nikolai Alexandrowitsch Kosyrew, ousou abordar a tarefa. Este teórico é violentamente atacado pelos cientistas soviéticos. Como muitos génios, que trabalham de modo puramente intuitivo, Kosyrew não quer convencer, quer mostrar; falta às suas demonstrações a exatidão científica. Quase se pode chamá-lo um matemático domingueiro. Ele, aliás, não é físico teórico profissional; é na realidade astrónomo, e neste campo já realizou valiosas descobertas. Assim, foi ele o primeiro a observar auroras boreais em Vénus, e torrentes de gás incandescente na cratera Alphonsus, na Lua. Ninguém duvida das qualidades e dos méritos de Kosyrew como astrónomo. Mas sua nova física, que ultrapassa Einstein, em que o Tempo é composto de setas, ainda não logrou aprovação geral. Essa nova física leva a concluir que a ciência um dia poderá obter energia do escoamento do Tempo, tal como hoje se extrai energia de água corrente. A teoria de Kosyrew avança até os limites do pensamento. Para confirmá-la seria preciso realizar no laboratório experiências com antiele-mentos radioativos, com elementos radioativos compostos de anti-ma teria. E se ela fosse confirmada, só mesmo espíritos de uma ousadia fora do comum poderiam daí tirar conclusões práticas. Se o Tempo de fato é um rio com remoinhos, se a direção em que flui está marcada com setas que estão ligadas às mínimas partículas de matéria e antimatéria, irão um dia construir barragens para captar a energia do Tempo? Com essa visão do futuro, queremos encerrar nossa excursão ao reino da antimatéria.

140


CAPÍTULO XIII Magia e Ciência

Jacques Bergier

"Para tudo existe um tempo.

Existe até um tempo para o reencontro dos tempos."

Louis Pauwels

Fatos, apenas fatos

H AFIRMAÇÃO DE QUE, JÁ ANTES DE nossa era científica, homens tenham descoberto técnicas altamente desenvolvidas e encontrado meios assombrosos para exercer influência sobre a natureza e a vida, é por demais chocante para que se possa aceitá-la sem provas concretas.

Todos os espíritos racionalistas — e nós nos contamos entre eles — estão convencidos que as únicas fontes do saber são a experiência e o cálculo. De fato, se excluirmos estas fontes, parece que resta como única alternativa a revelação divina. Se não empregarmos esta expressão em seu estreito significado religioso, mas de um modo geral, ela fica sujeita a todas as ameaças que, até a libertação da ciência, na época da Renascença e sobretudo no século XVIII, pairavam sobre a livre pesquisa.

Ao séquito da revelação pertencem a superstição, o obscurantismo esotérico e a coação espiritual. Pois quando o saber emana de uma revelação, aqueles que com ela toram contemplados têm o direito de impor a verdade a todos os outros.

Hoje em dia ninguém mais defende a teoria da revelação divina. Na esfera das ciências até pessoas com orientação religiosa

141

exigem liberdade. Assim, ainda recentemente, o físico dominicano Dubarle manifestou publicamente que a ciência deve ser materialista. Mas, se além da experiência e do cálculo, não existem outras fontes do saber, devemos então considerar nulo e sem qualquer valor tudo quanto nos ensinam civilizações extintas? Não existiram já antes das grandes civilizações antigas por nós conhecidas outras civilizações altamente desenvolvidas, ainda mais antigas?



Uma exploração imparcial das civilizações da era anterior à ciência de fato nos transmitiria conhecimentos dos quais nossa ciência ainda não tem a menor ideia. Há mais de dez anos co-letamos uma profusão de fatos, uma parte dos quais analisamos no livro Partida para o Terceiro Milénio. Fazemos isso para rebaixar nossa atual civilização? Certamente que não. Queremos, pelo contrário, incentivar com isso novas pesquisas, mostrar a unidade espiritual dos homens de todas as raças, culturas e épocas. Somos de espírito ecuménico.

Magia e Farmacologia

A pesquisa sistemática da magia em sentido farmacológico começou em 1926, com um artigo que depois se tornou clássico, Action and Clinicai Uses of Ephedrine, an Alkaloid Isolated from the Chinese Drug Ma Huang, da autoria de K. K. Chen e C. F. Schmidt. Os autores, um chinês e um americano, não se limitaram, segundo o hábito da época, a simplesmente negar as qualidades mágicas da droga chinesa Ma Huang, mas analisaram a respectiva planta. Puderam assim isolar a substância ativa efedrina. Ao seu trabalho devemos muitos preparados estimulantes: benzedrina, pervitina, etc. O estudante que, antes do exame, engole um comprimido estimulante, com certeza não imagina que está praticando um antiquíssimo costume de magia.

Alguns anos mais tarde, cientistas americanos se ocuparam com o tesouro de feitiços hindus de cinco mil anos. Descobriram a reserpina, da qual hoje em dia se fabricam numerosos tranquilizantes ou calmantes. Atualmente, só nos Estados Unidos gastam-se por ano dois bilhões de dólares em tranquilizantes. Quem toma esses remédios com certeza não sabe que seu principal elemento ativo é uma substância que outrora se administrava a pessoas destinadas aos sacrifícios dos cultos.

142

Só depois desses trabalhos tratou-se seriamente de examinar as receitas mágicas da Idade Média, que talvez realmente possam provocar as visões dos sabás de feiticeiras, descritos nos processos de bruxaria.



Eis a receita para a pomada com que as feiticeiras se untavam antes de partir para o sabá:

3 g de enantol (extrato de uma planta palustre tóxica); 50 g de ópio; 30 g de betei; 6 g de quinqiiefólio; 15 g de meimendro; 15 g de beladona; 250 g de cânhamo indiano; 5 g de cantáridas; goma de tragacanto e açúcar em pó.

A indústria farmacêutica ainda está muito longe de ter extraído toda a riqueza da antiga magia; parece que os taumaturgos de épocas anteriores ainda estão muito à frente dos atuais processos químicos. Os índios norte-americanos empregavam uma pílula anticoncepcional de efeito absolutamente seguro. Os africanos conhecem drogas que permitem interromper sem riscos uma gravidez, no segundo ou terceiro mês. Tribos indígenas dispõem de extratos vegetais que despertam e intensificam a capacidade parapsicológica.

Extratos animais e vegetais, misturas mágicas, a que nós, por termos durante tanto tempo desprezado o mundo não civilizado, não demos atenção, revelam mistérios que a ciência nem de longe ainda elucidou. Escreve Frank Belknap Long: "A maçã, a árvore e a serpente são símbolos de grande e terríveis segredos".

Ferreiros, alquimistas, mágicos

Magia e metal — duas palavras próximas uma à outra, dois campos ligados entre si. Só há pouco tempo sabemos que as ligas metálicas foram usadas muito antes do que os metais puros e que o emprego de ligas e metais puros é muito mais antigo do que ainda bem recentemente se supunha. Nossas técnicas metalúrgicas originam-se na sua maioria da magia. Na Síria tornava-se elástico o aço cravando a lâmina em brasa no corpo de um escravo vivo. Procurava-se interpretar simbolicamente tal prática, acreditando-se que o mágico queria transmitir à espada a força do sangue. Hoje sabemos que se obtém resultado idêntico mergulhando-se a lâmina incandescente em água na qual bóiem peles de animais. O elemento ativo é o nitrogénio animal. Partindo




1   ...   8   9   10   11   12   13   14   15   ...   18


©aneste.org 2017
enviar mensagem

    Página principal