Louis Pauwels Jacques Bergier



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Primeira fase: Sob o efeito de descargas elétricas, de um bombardeamento de eléctrons ou de radiações adequadas, formam-se aminoácidos.

Segunda fase: Com polifosfatos atuando como catalisadores, transformam-se os aminoácidos em ácidos de nucleína. Terceira fase: Com catalisadores adequados, ainda por serem encontrados, levam-se as moléculos espiraladas dos ácidos de nucleína a formar uma solução nutritiva na qual pode originar-se um vírus. O primeiro vírus formado desta maneira será provavelmente diferente daqueles que já conhecemos. Devem-se proteger todos os seres vivos, sobretudo os seres humanos, contra o contacto com esse vírus, pois ele poderia causar uma nova doença contra a qual ainda não estamos imunizados. Por outro lado, há a esperança de que entre os vírus produzidos artificialmente se encontrem um ou mais que sejam nocivos às células cancerosas, mas não às células normais. Neste caso, a síntese da vida teria contribuído diretamente para o progresso da medicina. Muito mais significativas, porém, do que todas as conclusões práticas de tal síntese bem sucedida seriam as consequências teóricas.

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Produzir vida para compreendê-la



Numerosos aspectos da vida não podem ser analisados. Apenas por meio de uma síntese nos será possível descobrir as peculiaridades específicas da célula. Em seu interior fenómenos químicos e físicos transcorrem de modo diferente do que fora dela. A vida utiliza a catálise de modo muito engenhoso, fundamentalmente diverso da catálise na química.

Provavelmente, foram precisos muitos milhões de anos até ser atingida tal perfeição. Assim o explica o Professor J. D. Bernal, que ensina cristalografia no Birbeck College (Universidade de Londres): "Enquanto só existiam moléculas pequenas, formadas pela condensação de gás de ácido carbónico e amónia, não podia existir nada que se assemelhasse a um organismo individualizado; na melhor das hipóteses existiam pequenas zonas nas quais a composição se mantinha um pouco mais constante e nas quais durante certo tempo ocorria um metabolismo, mas isso mais se assemelhava a luz fria do que aos organismos, tal como os conhecemos hoje em dia. Todas essas unidades subvitais, mesmo se não foram idênticas, eram sem dúvida muito semelhantes umas, às outras; seus limites foram provavelmente variáveis e pouco nítidos e em geral podiam sem mais nem menos fundir-se umas com as outras ou se misturarem. Quando duas delas não eram compatíveis, uma (ou ambas) eram aniquiladas; mas, quando compatíveis, o espaço de suas atividades bioquímicas se ampliava em consequência da fusão. Aos poucos isso teria de conduzir, através de uma espécie de seleção natural, a um aperfeiçoamento das funções e a uma uniformidade dentro das regiões nas quais a permuta era possível e que — por exemplo no caso de certos grandes pântanos — podiam cobrir uma superfície de muitos quilómetros quadrados.

A vida artificial, produzida no laboratório, ultrapassará essa fase de luz fria e chegará diretamente ao nível dos vírus ou até das pequenas bactérias. Poder-se-á acompanhar passo a passo a transformação e assim compreender como se processa essa organização. Quando isso tiver sido alcançado, a indústria, para voltarmos à esfera das coisas práticas, poderá formar sacarídeos e gorduras do ar. Estaria assim solucionado o problema da fome no mundo. Mais emocionante, porém, seria a síntese artificial da vida no laboratório, no plano puramente espiritual.

Acredita-se que os ácidos DN e RN produzidos sinteticamente conseguirão de um modo ou de outro tirar de uma solução nutritiva adequada os elementos de uma célula, com que se envol-

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vem, e sobretudo uma membrana celular que isolará cada célula do mundo exterior. Naturalmente trata-se aqui de uma suposição não provada e ainda impossível de provar, mas todos os cientistas a admitem. Ninguém ainda tem a mais pálida ideia, é claro, de como se realizará em detalhe esse milagre. Isso equivale a admitir que a vida produzida artificialmente — tal como a natureza — desde o início será superior a todo o nosso saber. O certo é que as perguntas que serão feitas e as respectivas respostas serão suficientes para encher toda uma série de grossos volumes.



A volta a Louis Pasteur

Ainda lá pelos meados de nosso século, caso se chegasse a falar sobre a produção sintética da vida, todos os químicos teriam declarado sem rodeios que tal síntese, por motivos de simetria, não poderia tornar-se realidade. Pasteur demonstrara que as substâncias químicas produzidas por meio sintético na maioria dos casos são opticamente de atividade dupla, isto é, são uma fusão de duas substâncias, uma das quais volta o plano de polarização da luz para a direita e a outra para a esquerda. As substâncias produzidas pela vida, porém, são opticamente ativas, viram por conseguinte o plano de polarização só para a esquerda ou só para a direita. Na época de Pasteur e ainda por muito tempo depois, não havia possibilidade de dividir uma substância opticamente de atividade dupla em duas partes componentes opticamente ativas.

.Na opinião de Pasteur tal separação era privilégio divino que nunca seria concedido ao homem, se ele não fendesse cristais com a mão sob o microscópio, o que novamente equivaleria a uma intervenção da vida. Mais tarde criou-se um processo de separação, fazendo com que uma das partes componentes fosse devorada por uma determinada espécie de micróbio. Também aí a vida entrava de novo em ação. Acredita-se hoje em dia que as dificuldades não são tão invencíveis como o julgavam Pasteur e seus seguidores. Foi possível produzir substâncias assimétricas, sem que a vida tivesse de intervir. A coroa solar e a Lua enviam-nos luz polarizada, cuja influência, que persiste por milhões de anos, levou à formação de substâncias polarizadas. Também o campo magnético da Terra desempenha um papel nessa polarização. Se o químico conseguir produzir substância opticamente

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de atividade dupla, também será capaz, por meio de luz polarizada suficientemente forte, criar a assimetria necessária à vida. No ano de 1945, Tenney e Ackermann conseguiram, com o auxílio de luz polarizada circularmente, obter ácido tartárico opticamente ativo. Em 1953, o francês Darmois propôs um método geral que possibilita, por meio de sucessiva cristalização, separar os dois componentes opticamente ativos de uma mistura opticamente de dupla atividade. Por conseguinte a objeção de Pasteur hoje não vale mais.

Vida no antimundo

No entanto, aparece-nos pela frente um problema dos mais interessantes. Quando se produz um vírus sinteticamente, despertando-o depois para a vida ao dividi-lo em duas partes, que são como que a imagem e seu reflexo no espelho, produziu-se na realidade não uma vida, mas duas: uma de tipo terrestre e outra que é o oposto da vida terrestre, no mundo atrás do espelho, que talvez exista em outro lugar, num antimundo.

Por meio de experiências com partículas elementares, os chineses Lee e Yang demonstraram recentemente que o Espaço em nossa região do Universo não é simétrico e que as mínimas partículas de matéria têm a tendência de girar em torno de si próprias num determinado sentido. Designa-se este fenómeno como a invalidade da lei de paridade. Ainda não se sabe como pode ele ser relacipnado com a simetria essencial para a matéria viva, mas se existe outro universo, a vida ali presumivelmente está constituída em sentido oposto ao da vida em nosso mundo.

Existe, pois, a possibilidade de se formarem simultaneamente, por meio da síntese química, duas espécies de vida, duas espécies de vírus ou micróbios. Uma corresponde à nossa região do Universo, a segunda corresponde à vida no antimundo. Esta segunda espécie de vida deveria presumivelmente ser nutrida com produtos assimétricos, que se deveriam produzir especialmente para isso. Desta maneira talvez fique um pouco esclarecido o problema da simetria.

Esse problema interessou Curie mais do que a radioatividade; Pasteur achouro mais interessante do que o micróbios. A geometria aplicada à química e à biologia leva a resultados um

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tanto singulares. Caso se pudesse deixar o objeto rodar numa quarta dimensão, poder-se-ia transformar um cristal de rotação para a direita num cristal de rotação para a esquerda, ou um ser vivo de tipo terrestre num ser vivo do antimundo.



Do mesmo modo poder-se-ia por meio desse processo — caso ele fosse realizável — fazer um sapato direito de um esquerdo e uma luva esquerda de uma direita. Um ser humano que passasse por essa transformação, teria então seu coração do lado direito. É deste tema que trata a história de Wells A Verdade no Caso Plattner. Em consequência de uma explosão, o herói da narrativa é colocado por acaso em rotação, na quarta dimensão, e volta depois ao nosso mundo. No romance, escrito em 1897, Wells escreve: "Seu coração provavelmente se encontra no lado direito, mas isso só se saberá ao certo quando se fizer a autópsia, pois ninguém pode imaginar o que se passa no interior do corpo humano". No mesmo ano Roentgen descobriu os raios que receberam o seu nome! A realidade consegue superar até a fantasia de um Wells.

A síntese da vida nos ajudará a desvendar o segredo da quarta dimensão? Se obtivermos simultaneamente dois seres vivos que são o reflexo um do outro, poderemos transformá-los reciprocamente? A esse propósito impõem-se tais perguntas, fora do comum. Como todas as grandes descobertas científicas, a síntese da vida criará mais problemas do que conseguirá solucionar.

Em todo caso, parece certo que, na formação de seres vivos, a geometria desempenha certo papel. Conhece-se ainda muito pouco o acúmulo de partículas, sua disposição espiralada, a rotação das espirais em torno do próprio eixo e ao redor de outras espirais, toda a complexa arquitetura da vida. Cientistas absolutamente sérios interessam-se vivamente pela fabricação de ornatos de papel para descobrir como, por meio de dobras de superfícies retangulares, se poderia chegar às complicadas espirais e roscas dos ácidos de nucleína.

O algarismo cinco e a vida

Provavelmente a água desempenhará um papel na síntese da vida. Já se pôde provar que ela não só é indispensável a toda coisa viva, mas também atua na cristalização de certas proteínas. Perutz e sua escola mostraram que neste caso a ligação por meio

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de moléculas de água desempenha um papel absolutamente essencial. A quantidade da água em ação pode oscilar muito, mas parece que normalmente as moléculas de proteína só estão separadas por uma ou duas camadas moleculares de água. Quando são mais moléculas de água, as que fecham os vãos entre as moléculas de proteína acham-se dispostas como no gelo. No entanto, a cristalização não constitui fenómeno biológico corrente. Quando surgiu a vida, tais fusões presumivelmente só eram de importância secundária.

Demonstrou Bernal que, como parte componente de seres vi

vos, a água é organizada segundo um sistema de simetria, que

corresponde a corpos sólidos com cinco ângulos. Há alguns anos

demonstrou-o de maneira brilhante perante a Royal Society.

Trouxe um recipiente cheio de pentaedros e outros recipientes

com cubos, prismas e outros corpos, com menos ou mais de cinco

ângulos. Virou o recipiente com pentaedros e estes rolaram, es

palhando-se, como um líquido. Os outros sólidos geométricos es

barraram uns nos outros, não fluíram, por conseguinte. Esta orga

nização pentaédrica explica o fato de ser a água fluente. Talvez

tenha um significado cósmico o fato de termos cinco dedos.

Possivelmente, a simetria de toda a vida de organização superior,

construída com água, se baseia no algarismo cinco... v

Sob o efeito de radiações ou por meio de qualquer espécie de contaminações, de contacto com seres vivos, a água parece assumir uma forma peculiar, parece ser ativada. Mostrou-nos Piccardi que essa água ativada é da maior importância para a estabilidade de sistemas vivos. Numa determinada fase da síntese da vida, provavelmente na condensação dos aminoácidos em ácidos de nucleína, será preciso por em jogo água ativada. Esta já pode ser produzida por meio de radiação com ondas eletro-magnétícas longas.

sua morte: "Dentro de algumas horas, talvez de alguns minutos, terei transposto o limiar que separa a molécula viva do cristal". Este limiar é transposto pelos vírus. Provavelmente os primeiros vírus sintéticos separar-se-ão de seu ambiente sob forma cristalina. Terão então de ser despertados para a vida. É esta uma enorme dificuldade, evidentemente subestimada pela maioria dos autores que se manifestaram a respeito da síntese da vida. Presumivelmente poder-se-á ativar a vida sintética dando-lhe uma alimentação viva adequada, por exemplo uma folha de tabaco, pois o vírus do tabaco, uma das espécies de vírus mais profundamente investigadas, numa dessas folhas passa do estado cristalino para o estado vivo. Talvez a vivificação também possa ser conseguida por meio de uma radiação adequada ou de bombardeio com partículas elementares.

A ciência moderna já está muito perto de conseguir uma síntese da vida. Apesar disso, é claro, tanto pode demorar vinte anos como seis meses até ser realizada a síntese; muito mais, porém, na minha opinião, não irá demorar. Poderá o homem, partindo do vírus sintético, criar células mais complicadas, seres multicelulares sintéticos? Não creio. A meu ver, um organismo vivo complexo, por exemplo um talo de grama, não consiste apenas em matéria, mas também em três bilhões de anos de tempo. É o ponto culminante de uma sucessão que transcorre nas coordenadas do tempo e não pode ser reproduzido num único momento. Mas já a produção artificial de um vírus seria a coroação de nossa cultura, orientada para a ciência e assinalaria o início de um novo período na biologia.

A vida sintética deve ser despertada para a vida

Os vírus, as formas mais simples de vida, apresentam dois aspectos, um cristalino e outro vivo. Constituem assim o limite da vida. Sobre isso o grande cientista francês René Berthelemy, um dos inventores da televisão, escreveu poucas horas antes de

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CAPÍTULO XII

Antimatéria — uma realidade científica

Jacques Bergier

"A matéria presumivelmente ainda tem mil propriedades que nâo conhecemos."

Voltaire


Será a antimatéria uma realidade, como se acredita no exterior, ou um mito, como se supõe na França? Qual é a participação da fantasia e qual a da ficção científica nos boatos que andam atualmente por aí?

No ano de 1932, o inglês Paul Dirac, laureado com o Prémio Nobel, estabeleceu nova teoria sobre o eléctron. Segundo suas considerações, o mundo observável — átomos, seres humanos, astros — é apenas uma tenuíssima camada sobre a superfície da verdadeira realidade. Esta realidade propriamente dita é um oceano feito de partículas elementares. É extremamente denso. As partículas de que se compõe encontram-se, em comparação com nosso mundo observável, num estado em que sua energia é inferior a zero. Sua energia é negativa. Esta última realidade, o oceano de Dirac, não pode ser descoberto por nós. Mas os raios cósmicos ou as partículas ricas de energia, produzidas nos aceleradores, nos podem pelo menos transmitir uma ideia sobre ele.

Mundos paralelos

Eléctron e posítron

i ALA-SE NISSO COMO SE falou na fissão nuclear em 1938. Relatos de refugiados políticos, indiscrições colhidas por jornalistas, alusões de cientistas ou governantes, novelas de ficção científica, criam em conjunto uma atmosfera semelhante àquela em que o mundo pela primeira vez começou a acreditar na possibilidade de uma bomba atómica. Fala-se de armas que seriam mais destruidoras do que tudo quanto foi empregado até agora, mais terríveis do que tudo quanto existe nos arsenais secretos das potências militares; fala-se de engenhos voadores interestelares que seriam acionados por meio do aniquilamento total da matéria, de catástrofes que já teriam ocorrido em alguns laboratórios de pesquisas.

Recentemente, num memorial assinado por dezessete destacados cientistas norte-americanos, foi apontado que, no campo da pesquisa da antimatéria, os Estados Unidos haviam recuado perigosamente a uma posição inferior. Simultaneamente, a imprensa soviética acusou os americanos de quererem criar a arma absoluta, capaz de destruir continentes inteiros. Na França, a ciência oficial mete a cabeça na areia e afirma simplesmente que uma coisa como a antimatéria não existe.

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Imaginemos uma jangada que flutua no mar. Desta jangada um tubo desce para a água. O tubo acha-se ligado a uma bomba. Fazendo-se funcionar a bomba, pode-se fazer fluir sobre a superfície do mar, ou até acima dela, água que antes ali não estava. Ao mesmo tempo formam-se bolhas de ar no jacto d'água, pois uma bomba nunca está perfeitamente vedada e livre de ar. Quando uma gota d'água atinge uma bolha de ar, satura-a: ambas desaparecem, e nós tornamos a ver em nossa frente a superfície lisa da água. Do mesmo modo, partículas elementares e raios naturais ou artificiais podem arrancar do oceano de Dirac partículas recém-criadas. São eléctrons e partículas elementares, que na realidade são apenas buracos no oceano, buracos que aos nossos sentidos e sob os nossos instrumentos medidores aparecem como antipartículas: eléctrons de carga positiva (eléctrons são de carga negativa) que, ao se encontrarem com eléctrons normais, são aniquilados.



Essa visão fantástica foi confirmada por meio de experiências. Revelou-se que eléctrons acelerados artificialmente, raios cósmicos e raios gama são capazes de arrancar ao vácuo pares de par-

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tículas elementares, compostos de um eléctron normal e um eléc-tron de carga positiva. O eléctron positivo chama-se posítron. Eléctron e posítron destroem-se mutuamente quando se chocam; é então libertada energia em forma de raios gama.

Há cerca de quinze anos, com o auxílio de aceleradores gigantescos, conseguiu-se arrancar ao oceano de Dirac também anti-prótons e mais tarde antinêutrons. Gradativamente, chegou-se a descobrir que cada partícula elementar tem sua antipartícula. A cada partícula elementar corresponde no oceano de Dirac um buraco. Ao encontrar-se com uma partícula elementar, a antipartícula se aniquila e toda a quantidade de energia da matéria é libertada. Parece tratar-se aqui de uma lei absolutamente válida. Quando os cientistas encontram uma nova partícula elementar, é descoberta pouco depois uma antipartícula correspondente. Até agora nos mantivemos rigorosamente no terreno dos fatos reais. A partir de agora deve-se pensar que penetramos no âmbito das hipóteses.

Das antipartículas à antimatéria

Que sabemos a respeito da composição da matéria comum? Em torno de um núcleo de carga positiva de prótons e nêutrons circulam eléctrons de carga negativa, dispostos sobre órbitas em forma de escama. Frequentemente são imprecisas as expressões no campo da física nuclear; sob escamas entendem-se diferentes níveis de energia. Os eléctrons não gravitam, pois, em torno do núcleo atómico como planetas em torno do Sol, em órbitas determinadas. As expressões positivo e negativo referem-se à carga elé trica. Não há qualquer motivo específico para se chamar a eletricidade do eléctron de negativa e a do próton de positiva; trata-se de uma definição arbitrária. Melhores teriam sido os conceitos de eletricidade setentrional e meridional; do mesmo modo poder-se-ia falar em eletricidade vermelha e azul. A terminologia atualmente em uso tende a criar confusão entre os leigos. Mas, repitamos, ainda que os especialistas em física nuclear talvez não estejam de acordo com tal formulação: A matéria se compõe de núcleos atómicos de carga positiva e de eléctrons de carga negativa que giram em torno deles. Porém, a energia tanto dos núcleos como dos eléctrons é positiva, o termo positivo signifi-

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cando, neste caso, mais do que zero. Núcleos e eléctrons flutuam num oceano de partículas de energia negativa, sendo que a expressão negativo significa, neste caso, menos do que zero, não se tratando, por conseguinte, de definição arbitrária (como no caso da eletricidade). Os buracos neste nível de energia negativo aparecem como antipartículas: eléctrons positivos, prótons negativos, antinêutrons, anti-hiperons, partículas de anti-sigma, partículas anti-Aii e assim por diante.



A matéria pode constituir-se de partículas elementares. Todavia, que eu saiba, nunca se conseguiu, até agora, por meio do encontro entre feixes de eléctrons e de prótons, produzir hidrogénio pesado, cujo núcleo se compõe de um próton e de um nêutron. Tem, pois, o físico sólidos motivos para acreditar que, por meio de uma captação em cadeia de nêutrons, podem ser constituídos todos os elementos de um caos primitivo que contém apenas prótons e nêutrons.

Numa antimatéria hipotética existirá o mesmo fenómeno? Poderão antiprótons e antinêutrons juntar-se em núcleos em torno dos quais giram posítrons? Será possível produzir anti-hidrogê-nio, antiferro, antimercúrio? Serão algumas galáxias do Universo constituídas de antimatéria? Existe um antiuniverso, um anti-mundo em outra continuidade de espaço-tempo ou também na nossa continuidade, mas que se move do futuro para o passado? São estas as grandes perguntas que a ciência de nosso tempo começa a fazer a si própria.

Um posítron ou eléctron positivo, que gira em torno de um núcleo constituído por antinêutrons e antiprótons, irradiaria luz, a mesma luz emitida pela matéria normal. O telescópio não nos pode, pois, dar qualquer esclarecimento. Galáxias formadas de antimatéria, se existirem, devem emitir luz igual à das galáxias comuns. Quando, porém, uma galáxia de antimatéria atinge uma galáxia de matéria comum, matéria e antimatéria devem destruir-se mutuamente, o que leva a uma gigantesca explosão. Além disso, estrelas de antimatéria podem mergulhar num universo de matéria comum, sem perder sua energia, porque a matéria cósmica normal, ao atingir a superfície, é automaticamente aniquilada.

Não sabemos, pois, com certeza se existe antimatéria. Alguns cientistas, porém, estão convencidos de que, por motivos de simetria, a antimatéria deve necessariamente existir. Outros acreditam que o Universo não é simétrico. Neste caso não existiria antimatéria e as antipartículas seriam apenas fenómenos inteiramente fora do comum, produzidas por concentrações de energia localmente enfeixadas com firmeza; isso abriria um buraco

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nas partículas com energia negativa que formam o oceano de Dirac. Esta opinião é defendida sobretudo por um dos pais da fissão nuclear, o Professor Otto R. Frisch, que atualmente dirige a secção de física nuclear no famoso Cavendish Laboratory, em Cambridge.



Físicos não menos famosos acreditam por sua vez que não só existe um universo paralelo de antimatéria, mas outros mundos paralelos de matéria comum, mas em outras dimensões. Assim, Pascual Jordan acredita que as supernovas são oriundas de outros mundos e aparecem de súbito em nosso universo.

Seja lá como for, ainda que não exista antimatéria no Universo, nada prova que o homem não poderia conseguir produzi-la artificialmente. Acetileno ou plutônio não existem na natureza e no entanto isso não impede o homem de consumir acetileno em grandes quantidades na indústria de matérias sintéticas ou de fabricar bombas atómicas. É, pois, plenamente justificado perguntar-se o que acontecerá quando o homem conseguir um dia fabricar antimatéria.

O mais possante acumulador de energia

Para produzir dez toneladas de antimatéria seriam necessários IO14 kWh, isto é, uma quantidade de energia igual à consumida no mundo inteiro em dez anos. Para se poder produzir tais quantidades de energia e concentrá-las num lugar, provavelmente não seria, nem de longe, suficiente a eletricidade com que são acio-nados os aceleradores de partículas; seria necessária uma reação nuclear inteiramente nova, por exemplo, a fissão do núcleo de um elemento trans-plutônico num núcleo normal de plutônio e num antinúcleo. Cientistas que saíram da URSS deixaram entrever que ali já se descobriram tais reações. Na realidade, porém, é muito difícil verificar-se a exatidão de tais notícias.




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