Lacano: Um significante entre aquilo que não engana e aquilo que se trama



Baixar 30.73 Kb.
Encontro18.09.2019
Tamanho30.73 Kb.



LACANO: Um significante entre aquilo que não engana e aquilo que se trama

Por Arlete Mourão

Reunião Lacanoamericanana de Salvador

Agosto de 1997

Uma das possibilidades de se definir a produção teórica em psicanálise consiste em considerá-la como o produto da operação sustentada pelo analista, na clínica. No cerne dessa operação está a hiância produzida por um desejo – o desejo do analista – que ao se constituir como um enigma para o analisando, viabiliza o ato analítico. Se para o analisando este ato cria uma condição de resolução desse enigma, para o analista, ele cria, num segundo momento, a necessidade de teorizar. Para que essa teorização se desenvolva dentro de um registro que não seja o do delírio, o analista precisa desenvolver uma interlocução com seus pares, situação que também comporta uma hiância, posto se realizar no registro da palavra. Uma vez que a palavra divide o sujeito, instituindo-o enquanto sintomático – enquanto dividido –, podemos dizer que é dentro dessa dimensão sintomática que nos reunimos (por exemplo, nessas Reuniões Lacanoamericanas), ou seja, dentro de uma dimensão de discurso histérico. Entretanto, isso não nos desobriga de tentarmos viabilizar nossos enlaces de forma mais próxima possível do analítico – especialmente, no que este implica a falta, a castração.

Talvez, uma das dificuldades que temos encontrado no caminho desses enlaces seja, exatamente, ficarmos apenas num registro de discurso histérico, no qual uma espécie de emperramento vem refletir-se nesses sintomas tão conhecidos, tais como a rivalização, a idealização, enfim, as várias formas de mascaramento da castração. Se há aí uma produção de saber, ele se ancora apenas nos significantes do Outro e não no Outro do significante1, caracterizando um registro de demanda, e não de desejo. Produzir um saber a partir do Outro do significante, num registro de desejo, requer uma passagem pela dimensão da angústia, que perpassa não só o ato de nossas produções, mas também as formas de nos reunirmos.

Nessas formas, independentemente do fato de sermos alunos ou leitores de Lacan, do fato de pertencermos a diferentes geografias e idiomas, há algo da ordem de um embaraço, de um impasse, que insiste e se expressa de maneira mais evidente entre nós, que compomos este “eixo Freud-Lacan”. Um impasse que, principalmente, é marcado pelo ciclo: alianças, atos de fundação, dissensões e cisões, além de uma acentuada paranóia reivindicatória quanto a se encontrar uma forma ideal de reunir ou instituir. Isso faz com que pequenas escolas proliferem como cogumelos depois da chuva2, sempre ao redor de um novo mestre com seus seguidores que, geralmente, são seus analisandos e ex-analisandos. Também faz crescer, cada vez mais, o contingente de analistas ditos independentes, pois em muitos casos fica impossível compactuar com determinadas subversões, senão perversões.

Esse quadro, com suas implicações rotuladas por fragmentação ou dispersão, vem se constituindo numa das grandes preocupações de nosso meio, levando-nos a questionamentos sobre as conseqüências disso para a Psicanálise, assim como a busca de novas formas de enlace – enlaces mais “permanentes”3. Seria tal quadro uma resistência à psicanálise? Seria o fruto de um limite conceitual? Ou seria o resultado da cultura e seu mal-estar colocado de forma mais transparente num eixo onde não é mais possível a inocência de uma harmonia comunitária, de uma totalização? Não haveria nesse quadro algo de inevitável, de irredutível e que, por isso mesmo, geraria angústia provocando muitas atuações?

Na extensão analítica, falar simplesmente de uma resistência à psicanálise não diz muito sobre ao que se estaria mesmo resistindo – seria considerar apenas um parâmetro imaginário da questão. Por outro lado, pensar por si só num possível limite conceitual, que nos impediria de encontrar um modo mais adequado de nos reunirmos – implicando uma dimensão simbólica da questão – talvez não seja o suficiente. A meu ver, se quisermos nos questionar, realmente, sobre o movimento psicanalítico atual e ampliar nossos enlaces de forma que tenham mais permanência, para, com isso, também, “garantir o avanço da psicanálise, preservando seu lugar na cultura”4, é preciso encontrarmos nosso limite Real. Em outras palavras, é preciso apreender a dimensão do Real que nos afeta enquanto grupo, pois, provavelmente, é a ela que estamos resistindo e sintomatizando.

Desse Real, não passível de representação, podemos ter notícias olhando para trás, para as experiências vividas – experiências dentro da especificidade que nos concerne, ou seja, nossa condição de grupos psicanalíticos – tentando apreender aí seus efeitos. No bojo dessas experiências, temos esta Reunião Lacanoamericana, cujos efeitos, se pudermos daí fazer uma leitura mais ampla e menos dramática5, podem nos oferecer subsídios para precisar e delimitar melhor o conflito que nos envolve. Entre nós, essa Reunião já tem uma história de 10 anos que, neste só-depois de sua aposta, monta um texto que se deixa ler e interpretar de várias formas. Trago uma leitura possível dessa história, para poder problematizá-la junto a outras.

A meu ver, mais que um dispositivo para reunir analistas, a Reuniões Lacanoamericana veio e vem se constituindo numa espécie de significante-mestre – Lacano, como se fez conhecer nos primórdios dessa história – promotor de uma transferência que convoca ao trabalho. Isso significa que esse significante não se deixou colar em nenhum significado específico, oficial ou especular, ou seja, que ele vem funcionando, exclusivamente, como um S1, que, ao não se fechar numa única significação, possibilita uma circulação do saber e, portanto, do desejo, numa relação com o Outro do significante, tendo como efeito um enlace predominantemente analítico.

Essa perspectiva, viabilizando a diferença, possibilita, em primeiro lugar, um laço de trabalho – uma transferência de trabalho – sinônima de uma transferência à letra de Freud e Lacan, aqui, num texto nomeado pelo significante Lacano. Tal transferência permite uma relação com a produção que se caracteriza, então, como a resposta a um saber enigmático – o saber inconsciente – e não como o atendimento a uma demanda de reconhecimento ou de autorização. Isso se dá, exatamente, em função desse significante descolado que se deixa circular nessa transferência, e não de um signo que, entre outras coisas, poderia se deixar subverter.

Além disso, sermos convocados por um significante não colado é o que tem possibilitado o rompimento com a cristalização de um discurso que, no limite das fronteiras institucionais, corre mais o risco de emperramento, de conversão numa religião do Nome-do-Pai. No âmbito dessa Reunião, o intercâmbio teórico tem se desenvolvido, não em função de discurso instituído, mas de um discurso constituído a partir da singularidade desejante da cadeia significante de cada um de nós, num registro prioritariamente de transferência de trabalho. Com isso, essas transferências montam uma trama textual e não imaginária. Uma trama textual que, por se tecer numa estrutura de corte, permite um enodamento cuja única garantia é a de produzir, não a permanência de uma autorização, mas a vigência de um registro de desejo.

Uma estrutura de corte é o que também tem nos permitido falar de um laço predominantemente de trabalho. É essa estrutura que tem se obtido aqui mediante o dispositivo, especialmente, no que se refere à descontinuidade da sua estrutura organizacional, na medida em que a mesma se dissolve ao término de cada Reunião. Isso corresponde a uma disjunção, um corte, que garante um campo onde pode haver uma integração de diferenças, a partir de uma interseção de desejos. O efeito disso é a possibilidade de renovação, da surpresa, do inesperado, acerca do que o outro tem a dizer, caso a experiência se renove. Nesse sentido, o que se estabelece não é um ritual, mas a possibilidade da palavra, com toda a cisão da qual ela é promotora. É essa cisão que fica preservada através dessa estrutura de corte – cisão que é condição do desejo.

Resumindo, pode-se dizer que, determinada por cortes, a Reunião Lacanoamericana vem desenvolvendo uma história de diferenças cujo texto vem se construindo a partir de “atos de palavras” dos que aqui participamos – palavras fundadas no desejo de cada um. Uma história de diferenças cuja trama textual, se tem elos, só pode ser lida depois de cada corte, o que inclusive condiciona a natureza desses elos como sendo de trabalho. Enquanto dimensão do Real, esses cortes permitem um enodamento que garante uma consistência tridimensional (RSI) nessa estrutura; garante que conceber a Lacano como um significante, que está na origem de uma transferência de trabalho, não significa apenas privilegiar o Simbólico, pois a produção só se viabiliza dentro do registro de uma disjunção, de um corte, o que aponta para o Real enodado na estrutura dessa Reunião. Essas garantias não são sem preço. Seria tal preço a falta de permanência de nossos enlaces, o que, por sua vez, alimentaria a dispersão e/ou fragmentação?

É fato que corte sempre gera angústia. É fato também que diante da angústia, diante de vacilações fantasmáticas, o que se produz é o “mal-estar na cultura”. Lembremos com Freud6 que não há outro mal-estar na cultura senão o mal-estar do desejo, e, com Lacan, que a angústia é aquilo que não engana quanto ao Real, quanto à falta, quando não se pode colocar o falo aí, no lugar da falta7. Seriam essa angústia e esse mal-estar os elementos que estariam no cerne dessa fragmentação?

Sabemos que o preço da angústia sempre é pago com produções, atuações ou passagens ao ato. Qual seria o preço que temos pago pela angústia suscitada com o dispositivo da Lacano? Não me parece que reforçar a fragmentação seja um deles. Afinal, essa fragmentação está tanto aqui como além mares, em outros contextos e dispositivos, além de ser algo inerente e inevitável nesse contexto, no qual os percursos vão, cada vez mais, em direção ao desejo e, cada vez menos, em direção ao amor – no que este tem de dimensão religiosa.

No registro das produções, como descrito acima, temos obtido textos incontestavelmente referidos a um saber inconsciente, que se deixou trabalhar pelos significantes da psicanálise, ou seja, referidos a um registro de desejo e não de demandas.

No rol das atuações, tem havido um movimento de subversão à estrutura dessa Reunião, o qual escamoteia uma subversão do desejo. Parece tratar-se de uma espécie de re-trama fantasmática subseqüente à angústia, onde se tenta inserir o significante Lacano dentro de uma trama imaginária – individual e/ou grupal – de forma a aliviar essa angústia. Tal subversão tem se dado tanto pela via de se tentar pregar uma significação pejorativa ou patológica a esse significante, quanto pela via de se fazer um uso do mesmo para outros fins que não o do intercâmbio teórico.

Na primeira via, um exemplo disso tem sido o uso de expressões, para se referir à Lacano, como “coisa de obsessivos” ou “circo”, entre outras. Se, entrar no mérito desse tipo de crítica não nos interessa, é interessante observar que ela vem sendo feita por pessoas diferentes, em lugares diferentes, mas nomeada sempre pelas mesmas expressões, do que se deduz ser uma expressão herdada transferencialmente por muitos, de um mesmo mestre, e isso sim parece com uma palhaçada.

A segunda via tem se dado, em especial, quando a angústia recai sobre a incerteza, sobre o engano acerca de uma identidade analítica de alguém ou de alguma “instituição convocante” da Reunião. Tudo indica que, aí, uma a re-trama posterior a essa angústia se reportar ao significante Lacano, não enquanto um significante, mas enquanto um objeto apaziguador, um “órgão de reconhecimento”, que garantiria um significável. Com relação a isso, entre outras coisas, pode estar uma certa fantasia de que participar com um trabalho ou como uma “instituição convocante” da Reunião poderia autenticar o analítico de alguém ou de alguma instituição. Nessa perspectiva, não se pode esquecer que o que nos convoca aqui é a convocatória, é o texto. É a identidade desse texto que é legitimada a cada Lacano.

Não nos parece que esse tipo de legitimação corrobore com a fragmentação dos enlaces analíticos. Se existe algo no cerne da questão da fragmentação, isso deve ser encontrado não na via de uma esterilidade desta forma de Reunião, mas na fertilidade da angústia que ela pode promover, pela ênfase na diversidade da palavra; fertilidade que é condição do ato criativo, mas que também pode sucumbir ao acting-out ou à passagem ao ato. Nessa perspectiva, interromper a interlocução ou sair de cena torna-se sinônimo não de fragmentação, mas de obstrução, de emperramento do discurso, o que não é o caso na experiência das Reuniões Lacanoamericanas.

Na experiência dessas reuniões, depois destes 10 anos, o que temos obtido não é estéril nem desprezível, ao contrário, temos podido obter o “testemunho”, no tempo, de muitos percursos Isso não pode ser desconsiderado na tentativa de se constituir uma nova forma de nos agruparmos. Se nos ressentimos da falta de uma permanência de nossos enlaces, podemos nos perguntar: será que nos ressentimos da “falta de permanência” ou dapermanência da falta”? Se nossa condição é a de grupo de analistas, há que se pressupor aí uma relação distinta com a falta. Distinção essa que deve ser adicionada à idéia de se “ir além do Édipo” Aí, há a possibilidade de se criar um enlace distinto. Além disso, se é pertinente uma permanência de enlaces, é importante que fique claro que se trata de enlaces analíticos, que, como tais, devem comportar a dimensão do Real – da falta.

Nesse sentido, pensar em uma nova forma de agrupar ou reunir analistas que nos permita uma multiplicidade e ao mesmo tempo uma permanência de enlaces – como é o caso da proposta de Convergência – significa encontrar uma estrutura que comporte angústia; que permita lidar com a angústia mediante a da produção, no que esta tem de ato criativo; que permita não a contenção da angústia, mas uma interação a partir dela; que possa garantir uma continuidade de interlocução e, ao mesmo tempo, portar uma falta, ou seja, garantir uma permanência e ao mesmo tempo a arte de um encontro faltoso. Nesses termos, como se poderia pensar em uma permanência na qual pudesse permanecer o desejo? Na qual pudesse permanecer o analítico, apesar do político ? É um desafio que temos de encarar !



...............................................................



1. Por “Outro do significante”, refiro-me ao outro estatuto do Outro, ou seja, aquele ao qual se chega no fim de uma análise – aquele inerente à alteridade introduzida pela linguagem.

2 Expressão usada por R. Godenberg em Carta, 1992, Lacan e a Formação do Analista no Brasil, Álgama.

3 É o caso da nova proposta de uma Convergência Lacaniana de Psicanálise, na qual se estaria buscando uma maior permanência de nossos enlaces.

4 Um dos termos convocatórios de Convergência.

5 Dramática, no sentido das críticas que lhe são feitas acerca da falta de permanência contida na sua estrutura organizacional.

6 Em O Mal-Estar na Cultura.

7 Lacan, Seminário X, A Angústia.





©aneste.org 2017
enviar mensagem

    Página principal