Jane Porter



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CAPÍTULO SETE

Tamanha empáfia enfureceu-a.

— É inacreditável que se importe tanto com uma membrana.

Leo segurou-a firme pelo braço.

— É inacreditável que você fale nesse tom. Sua pobre avó desmaiaria.

Ela tentou desvencilhar-se.



  • Você nem a conheceu e, aliás, ela não está mais aqui, está?

  • Não. Mas eu estou. - E puxou-a para si, com tanta força que ela sentiu os seios esmagados contra o peito dele, e estremeceu ante o íntimo contato.

  • Por que foi embora antes que eu acordasse?

  • Já expliquei — redargüiu, agarrando-se à raiva, para não ceder ao desejo.

  • Em um bilhete.

  • Podia ter saído sem deixar bilhete nenhum.

  • Você me agradeceu por tirar a sua virgindade.

  • Falei que apreciei a sua generosidade, e que foi um parceiro perfeito para a primeira vez.

De súbito ele baixou a cabeça e os lábios cobriram os dela.

— Vai pagar por isso, Josie.

O beijo abrasou-a, e então a ira dissipou-se, derretida por urna paixão muito mais explosiva, perigosa.

Sentiu como se pertencesse a ele que, por sua vez, também sa­bia disso. Sabia que comandava a situação, esperava a hora certa de atacar. Possuí-la.

E, tola como era, queria ser possuída. Ele era tão viril --- ardente.

Contudo ele e a paixão amedrontavam-na.

Joelle recuou, palpitante. Virou-se, contemplou o salão azul.


  • Todos já foram.

  • Devíamos entrar.

  • Não vou entrar. Apresente minhas desculpas ao vovô, diga o que bem entender... que fiquei enjoada, tive uma enxaqueca.

Ele riu.

  • Não direi nada. Garantimos que estaríamos lá, e ponto.

  • Não, Leo. Não posso entrar...

  • Que pena! Seu avô nos aguarda.

Fitou-o nos olhos, viu orgulho e arrogância, e assim compreendeu tudo.

A noite com Leo inadvertidamente transformou-a em sua propriedade.



  • Se pensa que vou entrar e bancar a noivinha feliz, está enganado.

  • Nem você seria egoísta a ponto de arruinar o aniversário do seu avô.

  • Ele vai sobreviver.

  • Vai mesmo? Ele andou muito doente nos últimos meses...

  • Mentira.

  • Como sabe, bella? Não estava sequer aqui.

  • Não ouse me recriminar. Essa é a minha família...

  • Se é uma neta tão devotada, por que não retornou quando ele teve pneumonia? Por que não pegou o primeiro avião quando o julgaram desenganado?

Leo estava inventando tudo.

  • Ele nunca ficou doente assim.

  • Ele quase morreu.

Lágrimas inundaram-lhe os olhos.

  • Você está exagerando.

  • Preferia estar, mas é verdade. Veja, bambina, ao contrário de você, eu fiquei aqui. Velei por ele no hospital, segurei sua mão.

  • Ninguém me avisou. Ninguém telefonou.

  • E você telefonou alguma vez?

  • Tirei um ano de férias... Mas é claro que voltaria, se soubesse.

  • Ele é velho. Perdeu a esposa há um ano. E você tirou férias?

  • Não foi bem assim

  • Sério? As pessoas não valorizam o que têm, até perder.

Ele não sabia como o pesar esgotou-a. Que foi impraticável visitar o cemitério sem que a imprensa escrevesse sobre ela, a princesinha deprimida.

E podia duvidar da sua devoção, mas ela só aceitou o casamen­to para ver o avô sorrir novamente. A qualquer preço.



  • O que você quer?

Ele riu, incrédulo.

  • Quero que você, bella, faça a coisa certa.

  • E qual é a coisa certa?

  • Honrar nosso compromisso.

O jantar foi servido no salão intermediário, pintado na mais tênue nuança de coral. Belos afrescos românticos ornavam os vãos sobre as janelas.

Joelle pressentiu que chamaram a atenção ao se sentarem ao lado do avô na cabeceira da mesa. Chantal e Nic sentavam-se na extremidade oposta, longe demais para conversas.

— Todos estão olhando - cochichou Joelle.

— Só estão curiosos - replicou Leo, roçando o ouvido dela com os lábios. - Imaginando por que chegamos atrasados, o que fazíamos.

Sexo, a palavra vibrou dentro dela. Bastou olhar para ele e as­sociar penumbra com isolamento.

— Gosto dele - confidenciou de súbito o avô. - Leo é ótimo para você.

Joelle mordeu a língua. O avô não sabia metade da história. Contudo Leo tinha razão. Seria injusto aborrecê-lo hoje.

Aparentemente perderam o consome. A salada acabara de che­gar, em pratinhos enfeitados com beterraba e queijo de cabra. Na­politana temperada ao vinagrete com limão e raiz-forte.

Joelle não sabia como sentaria ao lado de Leo por uma hora ou mais, fingindo que o casamento seguia de vento em popa.

Os pratos de salada foram retirados e os garçons trouxeram la­gosta e arroz de açafrão.

— Apreciando o jantar? - indagou Leo. E encostou a coxa na dela debaixo da mesa, de propósito.

Ela afastou a perna.



  • Não me toque.

  • Mas você adorou isso semana passada.

  • Semana passada.

  • Que volúvel!

  • Pare. - O avô espiou, ressabiado. - Querido - acrescentou ela -, você nos pouparia muitos dissabores acaso revelasse quem era.

  • E você dormiria comigo?

  • Não.

  • Por que não?

  • Não pretendia que fosse eterno, querido. Devia ser só uma noitada.

Por um instante ele emudeceu. Deu uma garfada. Provou o vi­nho. E quando a fitou, ela entendeu porque a delonga. Estava fu­rioso.

— Noitada?

Joelle não queria provocá-lo, não entre 150 aristocratas euro­peus.

— Não me obrigue a ser grosseira - sussurrou, apunhalando a lagosta.

— Oh, seja grosseira, por favor.

Estavam destruindo tudo, pensou ela. Transformando as lem­branças em rancor. Fora tão generoso na cama, a sensualidade crua, voraz. Adorou ser tão desejada.



  • Nada pessoal, Leo. Jamais deveria passar de uma noite.

  • Ótimo. Imagine se fosse pessoal.

  • Não vejo motivos para drama. Ambos conseguimos o que desejávamos. Eu ganhei experiência. E você fez o test drive.

  • Não foi por isso que dormi com você.

Ela engoliu em seco.

  • Jura?

Não atinou como passaram o resto da noite. O tempo parou.

Enfim foram todos conduzidos ao terceiro ambiente, um esplêndido salão branco e dourado. Espelhos revestiam as paredes, e uma orquestra executava as músicas prediletas do avô - de Mozart a Gershwin.

Graças a Deus Leo não a convidou para dançar. Joelle impôs o máximo de distância entre ambos, buscando guarida nas irmãs e em seus maridos.


  • Como é voltar para casa após um ano? - indagou Nic, abraçada ao sultão. Estava grávida de novo, e todos apostavam que seria outro menino.

  • Ótimo - replicou Joelle.

Obrigou-se a recordar o momento quando o jato sobrevoou a cidade. Porto, a capital, era uma das mais pitorescas cidades me­diterrâneas.

Amava Melio e a ilha gêmea, Mejia. Há alguns anos Melio e Mejia quase se separaram. Mejia seria entregue ao domínio fran­cês, e Melio, à Espanha, acaso os Ducasses não pagassem os tribu­tos e empréstimos.

A união de Nic com o sultão salvou o país, e como Chantal desposou um plebeu, restava a Joelle providenciar os preciosos her­deiros. As leis não seriam reescritas, tampouco os filhos de Chan­tal ou Nic sucederiam ao trono, o que caberia à Joelle e seu con­sorte. E, a caminho de casa, Joelle pensou que Melio merecia o sacrifício.

Mas agora...

Agora preferia ver cada lei reescrita a desposar Leo Fortino.

Uma hora depois, Leo acompanhou-a pela escadaria até seu aposento.



  • Não é necessário - protestou Joelle, sentindo Leo nos calcanhares. Parecia um carcereiro em vez do amante da semana passada. - Não devia abandonar a festa...

  • Você ficou cansada.

  • Não preciso de pajem. Conheço o caminho do meu quarto.

  • Mas é a minha prometida. Esperam que cobicemos um instante a sós.

Quase empurrou-o escada abaixo.

  • Ninguém está olhando. Agora pode ir.

  • E deixar o trabalho pela metade? Nunca. Vou escoltá-la até a porta.

  • E me trancafiar também?

  • Se tivesse a chave, sim.

  • Teme que eu fuja? - Sarcástica, tentou rir, mas a voz embargou.

  • Já fugiu uma vez...

  • Quando?

  • O ano em Nova Orleans.

  • Não foi uma fuga.

  • Imagine, foi só escapulir de fininho, enquanto todos dormiam. Bem similar ao truque da semana passada. Sumir de madrugada, rabiscar um bilhetinho. Você é boa nisso, sabia?

  • Foram vinte anos de treino — caçoou, ponderando que fugir não era má idéia afinal. À porta do quarto, tentou esgueirar-se para dentro sem permitir que ele entrasse.

Todavia, Leo segurou a porta com força, até ela desistir.

  • E agora? - inquiriu ela, largando-se no divã de veludo.

  • Não temos um roteiro, bella.

Joelle observou Leo examinar o aposento, primeiro a mobília - incluindo o canapé de veludo verde —, depois as fotografias nas paredes.

Na maioria, retratos da mãe que outrora decoraram o gabinete do pai. Certa ocasião, Joelle chegou do colégio e achou um quadro no lugar das fotos. Mas pendurou tudo de volta, apesar de a avó repro­var. Ela reclamava que o quarto transformara-se em um templo.

Leo apanhou um dos porta-retratos na penteadeira. Um fotógrafo flagrara a mãe seminua, debruçada no espelho.

Porém, a despeito da maquiagem, da insinuação dos seios des­nudos, Star parecia jovem. Inocente.

— Ela está linda nessa - comentou.

Joelle compreendeu o que sugeriu. Para ser Star, a mãe reinventou-se, apagando a garota provinciana que passara fome para tornar-se especial. Mítica.

Mas naquela foto, tirada no auge do sucesso de Star, via-se a garota da roça no espelho, o estigma da miséria nos olhos.


  • É o meu favorito. Quando o admiro, quase creio que a conheço.

  • Chantal comentou que é obcecada por ela, desde adolescente. Que pecado!

  • Quando ela falou isso?

  • Na noite que passei no hospital com seu avô.

  • E logo o transformou em confidente - retrucou amarga.

  • Estava preocupada com o futuro. Preocupada com você.

  • Então devia ter conversado comigo. Até você sabia onde me achar.

  • E isso a incomoda?

— Não detestaria jamais ser consultado? Se todos presumissem sa­ber o que é melhor para você? Mas provavelmente nunca o magoaram.

Ele disfarçou o semblante.



  • Conheci a mágoa, mas não vivo no passado.

  • Sorte sua. Sabe, Chantal tinha 12 anos quando nossos pais morreram, Nic tinha nove. Eu, quase cinco. Elas se lembram da mamãe. Eu não me lembro de nada. - Nenhum sorriso sequer.

  • Por isso foi à Luisiana? Para encontrar sua mãe?

  • Talvez.

De fato, só ao chegar lá compreendeu o que procurava.

Família.


Raízes.

Joelle e as irmãs cresceram em Melio, e após a morte dos pais os avós paternos criaram-nas no palácio - mas a família materna era intrigante. Os misteriosos d'Ville de Baton Rouge. Entretanto, os parentes americanos não foram hospitaleiros. Não a receberam a bala, mas quase. Ao visitar-lhes o casebre, os tios e primos suspeitaram das suas intenções.

Recordando como foi escorraçada, Joelle sentiu uma antiga dor. Pois após perder a avó, tampouco se sentia uma Ducasse.


  • Ria à vontade, mas pensei que encontraria a mim mesma.

Ele não riu.

  • E encontrou?

  • Acho que não.

Leo acariciou-lhe a cabeça.

— Podemos recomeçar? Tentar reconstruir tudo sob uma base sólida?

Ela não respondeu, não conseguiu. Leo estava próximo demais, irradiando autoridade, carisma.


  • Não sei como recomeçar - replicou, afinai.

  • Por que não?

Porque pensei que me queria pelo que sou.

  • Saber o que sei muda tudo. Compreendo os seus... motivos.

  • Motivos?

  • Você andou me investigando, não foi?

Leo não respondeu e a angústia avultou. Aquela noite incrível tornou-se hedionda.

  • Você não confiava em mim. E por isso não revelou quem era, porque queria provar que eu não era a princesa virtuosa que lhe prometeram.

  • Não pretendia magoá-la. E, sim, precisei descobrir quem era antes de casarmos.

  • Poderia ter me visitado em Melio. Oferecido uma chance...

  • Foi o que fiz.

  • Quando? Em Nova Orleans? Hoje?

  • Não importa...

  • Importa sim.

  • Por quê?

  • Porque não existe relacionamento unilateral. Preciso confiar em você também. E não confio.

  • Talvez ajudasse pensar em mim como Luigi.

Tentava animá-la, sem entender que ela se apaixonou por ele - de verdade.

Apesar de o homem que ela queria não existir.



  • Você não é nenhum Luigi.

  • Mas podia ser.

Joelle quis sorrir, todavia sentiu mais pânico que outra coisa. Leo estava próximo demais. Pressentia o magnetismo, a tensão entre eles.

— Não. Você é Leo. - Um leão. Uma fera.

Perscrutou-lhe as feições, o talhe do terno, as pernas musculosas. Fera soou perfeito. Uma fera perversa, a propósito.

Ele se aproximou, furtou-lhe um dos passadores de cabelo. Ela ofegou ante o toque íntimo, fascinada.

Leo removeu outro passador do coque, e enfim libertou os ca­ belos.


  • As coisas serão melhores. Só precisa nos dar uma chance.

  • Leo...

  • Confie em mim.

Então, beijou-a, um beijo sensual que fê-la vibrar da cabeça aos pés.

Se ao menos ele jamais houvesse mentido...

Mas mentiu, e estragou o lindo sonho, aquele que toda mulher tem com belos príncipes e finais felizes. Embora a vida não seja ne­nhum conto de fadas. Nem sequer para princesas de carne e osso.

De repente, Leo ergueu a cabeça.

— Não esqueça a sessão de fotos amanhã. Dez horas em ponto.

Fotos?


  • Que sessão? Onde?

  • Nosso retrato oficial de noivado. Seu avô disse que é uma tradição.

  • Leo...

  • Lembre-se, às dez. Lá embaixo. - Acariciou-lhe os lábios antes de sair. - E não se atrase.

CAPÍTULO OITO

Leo encontrou Nicollette na soberba escadaria. De vestido azul de paetês, o cabelo louro trançado em um coque, Nicollette mos­trava-se elegante, apesar da gravidez avançada.



  • Apreciando a festa? - indagou, risonha.

Claro, acaso gostasse de confusão.

  • Sim, obrigado. E você?

  • Muito. Não via o vovô tranqüilo assim desde que vovó faleceu.

Leo não queria mesmo ouvir isso. Já se sentia culpado feito um condenado.

  • Deve estar feliz por ter as netas em casa.

  • Talvez, o alívio nos olhos dele é notável. O pesar evaporou a preocupação com o futuro de Melio. Vovô confia tanto em você. Todos nós confiamos.

As palavras de Nic estrilavam na cabeça de Leo mesmo após despedir-se e retornar à suíte no elegante Porto Palace Hotel no centro da cidade.

Contemplando a vista panorâmica da baía da janela do quarto, tirou a gravata, desabotoou a camisa.

A voz de Nic continuou ecoando. Vovô confia tanto em você. Todos nós confiamos.

Todos nós.

Eu não, respondeu Leo, largando-se em uma cadeira do suntuoso aposento.

O casamento era uma aliança entre famílias, todavia na última semana ele e Joelle transformaram o pacto em algo bem mais ínti­mo...

Já não se tratava de política.

Como se casariam nessas circunstâncias? Quase sem consen­so? Ele odiava conflitos, mas Joelle abusava, deixava-o louco. E detestou sentir-se assim.

Descontrolado.

Como quando garoto. Arrastado ao redor do planeta pela mãe, a bela Princesa Marina, amada por todos, exceto pelos que a conheciam bem.

Agastado, Leo empurrou a cadeira, rumou para o banheiro, abriu a água. Despindo-se, deixou-se acalmar pela torrente gelada.

O Rei Remi contava com ele. Era velho e carecia de amparo. Portanto ele e Joelle superariam as diferenças. Tudo acabaria bem.

Entretanto, ao regressar ao palácio na manhã seguinte para a foto oficial, Leo descobriu que Joelle ainda não descera.

Esperou 15 minutos, mais 15 e afinal pediu que a chamassem.

A criada retornou.

— Sua Alteza não se encontra no aposento.

Remi convidou-o a aguardar no gabinete, mas foi terrível controlar os nervos.

Desposar a Princesa Ducasse foi uma decisão política. A pior decisão política que jamais tomara. Acabaria com essa maldita confusão agora, não fosse pela fragilidade de Remi.

Bom, e também pela infelicidade de haver deflorado a noiva.

Leo não era nenhum cavaleiro de armadura brilhante, mas não se rouba a inocência de uma princesa para depois devolvê-la ao patriarca da família.


  • Conhaque? - ofereceu Remi.

  • Cedo demais para mim - retrucou Leo, lembrando que já desejara ser o príncipe encantado, que mata o dragão e salva a donzela. Antes de compreender o mundo onde nascera.

Sua família era tão problemática quanto possível, apesar de os pais terem casado por amor.

Mas, se aquilo era amor, queria distância. E portanto nunca in­cluiu o amor nos próprios planos, nem quando namorava, tampou­co ao decidir casar, ou escolher Joelle.

Evitou o contato deliberadamente até o casamento aproximar-se. Leo desejava compromisso, não paixão.

E, no entanto, o que aconteceu com Joelle foi a mais pura paixão.



  • Talvez aceite este drinque - disse Leo, mudando de idéia.

Remi sorriu brincalhão.

  • Ela me levou à bebida.

Leo apanhou o copo e o rei acomodou-se em uma poltrona de couro.

  • Mandei Chantal atrás dela - declarou Remi, tentando parecer confiante. - Ela vai encontrá-la.

Leo duvidava. Devia ter previsto que Joelle simplesmente par­tiria. Era boa nisso, tanto quanto a mãe dele.

Pois o altruísmo não constava entre os encantos de Marina.

— O fotógrafo esperará - comentou o rei.

Claro, as fotos. O retrato oficial de noivado.

Como se quisesse tirar as malditas fotos. Na infância tivera o seu quinhão de sorrisos forçados, em especial antes do divórcio dos pais.

Mas Leo não abominava apenas as fotos encenadas. Detestava todas, inclusive instantâneos.

Jamais sorriria para outra câmera Polaroid. Jamais se deixaria manipular... sorrir educado, como se nada o perturbasse.

Que irônico, pensou Leo, esforçar-se tanto para ser educado, pelo bem do rei, enquanto Joelle fugia à la Princesa Marina...

Remi tateou o tapete com a bengala, receoso.

— Nicolette sempre foi teimosa. Dada a chiliques. Mas Joelle... Chantal vai encontrá-la, conhece todos os esconderijos favoritos dela.

Chantal não a encontrou, mas Nic descobriu um bilhete no quarto de Joelle, e os seguranças alertaram o Rei Remi que Joelle foi vista embarcando em um trem com destino a Mejia.

Remi convocou uma reunião familiar. As netas e os maridos compareceram ao gabinete. E Leo também. Humilhado.

— Como ela obviamente vai para a casa da ilha — observou Chantal —, Leo poderia pegar o helicóptero de Demetrius e trazê-la de volta.

Nic fez uma careta.



  • Por quê? Decerto ela não quer ficar aqui.

  • Mas só porque detesta a exposição pública - argumentou Chantal.

  • Então se hospede na ilha - sugeriu Malik Nuri, marido de Nic. - Aproveite a casa e tente resolver as coisas.

  • Possuo uma casa lá, também - disse Leo, disfarçando o embaraço. - Talvez demore alguns dias...

  • Uma semana. - Remi interrompeu, batendo a bengala. - Duas semanas.

  • O tempo necessário - Leo anuiu, lacônico.

Uma hora depois, pacientemente Joelle aguardou a barca an­ corar.

Adorava Mejia, desde menina. Lá a vida era muito mais simples.

Um chapéu branco de palha escondia os cabelos, grandes óculos escuros protegiam o rosto, porém, mesmo reconhecendo-a, ninguém espiou ou cochichou.

O que era maravilhoso em Melio e em Mejia é que todos respeitavam a família real. Apenas estrangeiros interpelavam os Ducasses.

Joelle empunhou a bolsa estufada e dirigiu-se à fileira de táxis.

O casarão não ficava longe do cais.



  • Bella, bella, bella.

Não.

Ele não. Não aqui,

Joelle permaneceu cabisbaixa, como se o chapéu pudesse tor­ná-la invisível. O que em nome de Deus ele fazia aqui?

Ele ergueu-lhe o queixo, forçando-a a encará-lo. Ombros largos. Corpo musculoso, altivo. O sujeito não tinha intenção de re­cuar.



  • Deixe-me em paz.

  • Que faremos com você, bella bambina? Hein?

  • Esqueçam-me.

  • E partir o coração do seu avô? - Fez um tsc, tsc reprovador. - Creio que não.

  • Você não entendeu a deixa, não é?

  • Logo vai me conhecer. - Enlaçou-a pela cintura, e conduziu-a até o carro. - E felizmente teremos tempo de sobra para nos conhecermos melhor.

  • Não vou a parte alguma com você.

  • Não tema, bella. Serei paciente. O casamento é só daqui a duas semanas...

  • Não haverá casamento!

  • Lógico que haverá. Seu avô não suportaria uma humilhação pública.

O chofer abriu a porta quando abordaram o elegante seda. Joelle empacou.

  • Não vou a lugar nenhum.

Suspirando, Leo empurrou-a na traseira antes de acomodar-se com mais sutileza ao seu lado.

O chofer deu a partida como se nada acontecesse. Mas Joelle espumava.



  • Você não tem esse direito.

  • Agora talvez não, mas em duas semanas...

  • Nunca!

  • Serão duas longas semanas.

  • Você é louco. - Deixaram os penhascos, rumo às colinas verdejantes. Embora Joelle e as irmãs tivessem uma linda casa com praia particular seguiram em outra direção. - Para onde vamos?

  • Para casa.

  • Não a minha casa.

Ele não respondeu. Apenas espreguiçou-se no assento de couro. Ela sentiu a pele arrepiar-se ante a proximidade do seu corpo.

  • Dá licença?

  • Josie...

  • Não me chame assim.

  • Talvez umas boas palmadas no bumbum resolvessem os seus problemas.

Antes que desse por si, ele a pôs no colo e, levantando a saia curta, sapecou-lhe várias palmadas no bumbum.

Mortificada, afastou-se dele o máximo possível, a pele abrasada.



  • Não acredito que fez isso.

  • Eu avisei. Melhor começar a prestar atenção. Não faço ameaças vãs. E perdoe-me, princesa, mas você mereceu.

Joelle encolheu-se no canto com os olhos cheios de lágrimas.

  • Não esquecerei isso.

  • Ótimo.

Vinte minutos depois pararam ante um imponente portão de ferro. O portão abriu devagar e o carro passou. Contornaram uma alameda, a folhagem densa interrompida aqui e ali por palmeiras tropicais, os muros verdes realçados por ramos de buganvília lilás.

O motorista estacionou na frente de um casarão amarelo, o mar azul-turquesa visível logo atrás do telhado coral.

O chofer desligou o motor e Joelle observou a casa melhor, uma combinação de técnica e criatividade, com uma torre própria. Parte estilo provençal, parte colonial, as janelas gentilmente ar­queadas eram emolduradas por venezianas verdes e sacadas.

— Vamos, querida, conhecer a casa?

Os dedos coçaram para tirar as sandálias e jogá-las na cabeça dele.

— Mas é claro. Não há nada que eu apreciaria mais.

O passeio foi breve e objetivo. Leo deu uma rápida volta pelo solar, mostrando cada cômodo, os numerosos aposentos no andar superior, e enfim a espaçosa suíte da torre.


  • Nosso quarto.

Joelle gelou.

  • Quarto de quem?

  • Nosso.

Agora ela ardeu em chamas. Desesperada por ar, correu para a janela. Mas o ar não pareceu nada fresco. Joelle contemplou a vista.

  • Eu prefiro um quarto no térreo.

Leo acomodou-se em uma poltrona.

  • Aposto que sim. Mas me sentirei melhor sabendo que está a salvo comigo.

De camisa branca, calça de linho e sandálias de couro italianas, parecia um homem de férias. Sem qualquer preocupação.

  • Não devia estar em outro lugar? No trabalho... um cargo real?

  • Não.

  • Não sei o que pretende, mas sei que meu avô jamais aprovaria.

  • Eu queria mesmo conversar sobre ele, mas isso deve esperar. Por enquanto, só diversão.

Diversão.

Então era àquilo que ele se referia. O comentário descuidado em Nova Orleans. Garotas só querem diversão.

— Cometeu um erro em Nova Orleans, bella. Bandos de ho­mens lhe dariam diversão, mas não eu.


  • Obviamente cometi um erro.

  • Um erro? Cometeu vários. Você é estouvada. Impulsiva.

Ainda não atinou o que fez sua família passar ao fugir para a América ano passado.

  • Já sei.

  • Não, não sabe. Era a última coisa que seu avô precisava desde a morte de Astrid.

  • Se pensa que está me comovendo, engana-se.

E Joelle quase pôde enxergar uma placa sobre a cabeça de Leo: Perigoso. Não alimente. Mantenha distância da jaula. Joelle pensou que fosse assaltá-la, mas ele sorriu.

  • Vejo você à noite.

  • Eu...

Ele saiu, fechou a porta e, boquiaberta, Joelle ouviu a chave girar.

Ele a trancou. O espanto cedeu lugar à fúria.

Pôs-se a andar, a atenção fixa na praia estonteante além dos jardins. Pensou em tudo que poderia estar fazendo. Nadando. Bron­zeando-se na areia. Lendo. Mas ele a trancafiou - sem livros, nem televisão.

Desgraçado. Leo pagaria por isso, jurou e retomou a vigilância na janela. Fazia uma tarde gloriosa - meros fiapos de nuvem no céu límpido.

Joelle olhou para baixo. Pular era impraticável. E fugir usando o velho truque dos lençóis amarrados seria no mínimo ridículo.

Três horas seguidas de indignação foram cansativas - e assim decidiu tomar banho. Havia dúzias de produtos diferentes no ba­nheiro de mármore azul e branco e Joelle resolveu experimentar todos.

Estava afundada na imensa banheira quando a porta abriu, dei­xando escapar um pouco do vapor perfumado.

Soube logo que era Leo devido à súbita tensão no ar.

Cerrando os olhos, Joelle afundou mais na banheira, grata pelas montanhas de bolhas.

— Poderia fazer o favor de fechar a porta?

Ouviu a porta bater, e presumiu que ele foi embora.

Todavia, segundos depois, os nervos deflagraram um intenso frisson. A pele arrepiou, até os mamilos enrijeceram, túrgidos.

Joelle abriu os olhos.

Leo trajava apenas calças de linho branco, a pele nua, bronzea­ da, o corpo esplendidamente musculoso.

Era esbelto e vigoroso, e quando sentou na borda da banheira de mármore, ela pressentiu que estava em apuros.

— Teve uma tarde agradável? - indagou, checando a temperatura da água com uma das mãos.

Ela esquivou-se dele. Leo percebeu o receio, mas também o lampejo de curiosidade naqueles belos olhos.

E ela era bela, assim como arisca, e a teimosia deixava-o louco. Quase tão louco quanto a atração física.

Fazia oito dias desde que a tomara nos braços, e a queria de novo. A volúpia tornava-se mais forte.

— Só porque dormimos juntos não significa que pode entrar na banheira comigo.

— Eu não ia entrar. Mas agora que falou, um banho seria ótimo.

Ela estendeu uma das mãos, oferecendo um vislumbre dos botões rosados dos seios.

— Não me provoque. Basta por hoje. Agüentei ser atirada no seu carro. Ser trancada no quarto. Ser espancada feito criança.

Ele tomou vantagem do gesto defensivo, segurando-a pelo pulso.



  • Foi divertido, não foi?

  • Não estou rindo. - E ela puxou a mão, incapaz de desvencilhar-se. - Você adora isso, não? Me controlar...

  • Você gosta, também.

Ela arregalou os olhos, as íris mais verdes que azuis.

  • Adora o poder. A luta pelo poder, o uso, até o abuso de poder.

  • Não - protestou ela, impotente.

  • Se não amasse o poder, não me enfrentaria com tamanho ardor.

Joelle era uma lutadora. E Leo começava a compreender por­ que precisou ir para a América.

— Me dê a outra mão - ordenou ele.

Ela se encolheu, todavia sem temor nos olhos, apenas fogo.

— Me dê a mão - repetiu. - Livre-se das conseqüências.

— E depois? Planeja me amarrar?

O calor avassalou-o, o corpo reagiu, tornando-se rijo, dolorosa­ mente rijo.

— Só se estiver nua.

Ele mergulhou a mão na água. Joelle esquivou-se, mas logo que ele acariciou a anca nua ela arqueou, a mão esquerda de súbito frouxa.

— Obrigado. — Prendeu-a pelos pulsos, dominando-a.

Joelle tremeu de raiva.

— Não sou uma cidadã de segunda classe. Não pode me tratar assim.

Ele ergueu-lhe os braços, encurralando-a na banheira, os seios fartos expostos, apontando para cima.



  • Tem razão. É uma princesa. Princesa Josie.

Os olhos dela flamejaram, como adagas de fogo.

  • Me solte.

  • E se não soltar?

  • Eu vou...

  • Vai o quê? Me xingar? Qual é a grande idéia?

  • Por que gosta tanto de me humilhar?

Leo estendeu o torso sobre o dela. Sentiu os mamilos tesos ro­çarem no peito, o corpo incendiar.

  • Não quero humilhá-la. Mas que entenda o voto que fez, o penhor que me concedeu...

  • Ficamos noivos por procuração. Você nem sequer compareceu ao noivado.

  • Nem você.

  • Exato. Jamais nos encontramos. Só assinamos um pedaço de papel.

  • Mas lhe dei meu anel.

  • Grande coisa.

  • Para mim, é. E devia ser para você também. Sua palavra... reputação... deviam significar alguma coisa. - Beijou-a no pescoço. Joelle estremeceu, e ele apoiou o peso sobre ela, deixando o peito pressionar-lhe os seios.

Joelle agarrou-se a ele, na busca cega por mais contato.

Leo. - A voz soou embargada, rouca.

Ele a repeliu, correu o olhar pelo seu corpo demorando-se, provocativamente, nos seios nus, na curva dos quadris, na junção onde as coxas se encontram.


  • Você é minha. Mesmo que ainda não saiba disso.




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