Jane Porter



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CAPITULO CINCO

Beijou-a, sem pressa, prolongando o beijo até Joelle não pensar em nada, além do desejo de ficar junto dele.

Queria senti-lo. Dentro de si.

Ele segurou-lhe os seios, as mãos ásperas nos mamilos túrgidos e então delineou a cintura, os quadris. Possuía extraordinária sensibilidade, um jeito de fazê-la sentir-se aquecida em todos os pontos certos. Cravou os dedos nos bíceps musculosos, enquanto aquela boca alternadamente beijava e mordia-lhe o ombro. Os dentes e a língua encontraram centenas de zonas erógenas que imploravam para serem lambidas e mordiscadas.

Com as mãos, ele acariciava as coxas, entre as coxas, e a boca traçava rastros de fogo nos seios que a enlouqueceram de desejo.

Desesperada, agarrou-se a ele, querendo mais, querendo que o terrível anseio dentro dela fosse atendido. Suspirou quando os lábios contornaram um dos mamilos intumescidos, conforme ele fendeu suas coxas com o joelho, acomodando-se ali.

Vibrou quando ele contemplou-a. Estranhamente, Joelle sentiu-se como uma oferenda sacrifical e cogitou - bem rápido - que seria assim na noite de núpcias, exceto que não estaria tão atraída, tão excitada. Melhor que a primeira vez fosse agora, com Leo. Por sua própria vontade.


  • Você está perdida em pensamentos.

  • Só pensando em você.

Ele arqueou uma sobrancelha. Ela sorriu.

  • Crê tão pouco em mim?

Os olhos verdes flamejaram.

  • Não confio facilmente.

  • Bom. Nem eu. - E beijou-o devagar, e quando o beijo esquentou sentiu a relutância dele dissipar.

Ele se remexeu, aninhando os quadris na sua pélvis. A pressão insistente da ereção tirou-lhe o fôlego.

  • Eu quero você - murmurou ela.

  • Estou aqui.

  • Mas ainda não dentro de mim.

E de repente estava, rijo contra a carne tenra, o corpo robusto investindo com força. Ela quedava morna, lubrificada, mas não conseguiu penetrá-la.

Joelle sentiu a mão dele insinuar-se, prepará-la antes de tomar o membro, massagear com a ponta as dobras delicadas, afagar, e ela reagiu instintivamente, abrindo mais as pernas.

Ele acariciou-a com o membro uma vez mais e logo ao oferecer-lhe as ancas ela sentiu-o dentro de si, um centímetro ou dois, e quedou surpresa pela dilatação, pela fisgada de dor.

Sempre doía assim? Joelle tentou relaxar. E ao pensar que era normal, já que ele estava rompendo o hímen, sentiu-o estocar com força. Mais força que esperava.

Deve ter choramingado porque ele paralisou, e fitou-a.

— Machuquei você?

Ela ofegava, tentando ajustar-se ao tamanho dele.


  • Você é grande.

  • Devo parar?

  • Não. - Talvez devesse contar a Leo que nunca...

  • Não vou me mexer até que pare de doer - avisou, beijando-a com doçura. - Seu corpo só precisa se acostumar ao meu.

Soou muito sábio e ela ficou grata pela dica, em especial porque continuou a beijá-la, mais apaixonado, a língua acariciando a sua língua, a boca distraindo-a do que acontecia com o resto do corpo.

Com o corpo assomado por deliciosas sensações, a dor amainou e descobriu-se irrigada, sensível.

Ele começou a mover-se, em estocadas curtas e ela experimentou um frêmito voluptuoso de prazer. Ergueu as ancas e ele estocou mais forte, o prazer aumentou. E Leo penetrou fundo, tirando para penetrar de novo e o prazer entorpeceu-a. O sexo não era como imaginou. Era mil vezes melhor.

E conforme ele arremetia dentro dela, a fricção avultou, tórrida, até os músculos contraírem, numa paixão incandescente, que ameaçava explodir.



  • Não posso...

  • Relaxe - ele sussurrou, e ela balançou a cabeça, insegura. - Relaxe - repetiu, assaltando-a com vigor, evitando que escapasse do libidinoso tormento e, justo quando ela pensou que conseguiria se controlar, o corpo irrompeu em chamas. Estremeceu desesperada, o corpo firmemente agarrado ao dele.

Sentiu os lábios roçarem os dela e ele gemeu seu nome antes de arquear, contrair, e extasiar-se, assim como ela. Mais tarde, ao acordar, percebeu que ele ainda estava dentro dela, e pressentiu seu olhar.

  • Que foi?

  • Estou olhando você.

  • Por quê?

  • Você é linda.

Envergonhou-se ao vê-lo grande, musculoso, nu. Porém a vergonha evaporou quando a puxou de volta para os seus braços.

  • Foi incrível - murmurou ela.

  • Sério?
    Joelle riu, feliz.

  • Hoje foi... - Não havia palavras. Mesmo se quisesse explicar, ele nunca entenderia o que significou para ela.

  • Sei que vou soar redundante, mas queria passar mais tempo aqui. Não estou pronta para ir. Adoraria bancar a turista.

  • É essa a razão para não querer voltar para casa?

  • Não. Não quero voltar porque não quero trabalhar, mas não quero ir embora porque amo Nova Orleans. Não faz muito sentido, faz?

  • Um sentido restrito.

Ela riu, saboreou a beleza de Leo. Era tão viril na cama. Pura potência sexual.

  • Fiquei aqui quase um ano e resta tanto que ainda não fiz.

  • Por exemplo?

  • Leo removeu os cabelos de um dos seios, cobrindo-o com a palma.

Ela vibrou de prazer quando a mão cálida friccionou o mamilo de leve, torturantemente.

  • Tudo isso.

  • De olhos fechados, Joelle visualizou a Luisiana que não conheceu.

  • Adoraria fazer as excursões aos pântanos, locais assombrados, os passeios guiados no French Quarter...

  • Você está de brincadeira. - Com carinho beliscou-lhe o mamilo.

Ela se agitou, o corpo serpeando de vida, as coxas úmidas e quentes.

  • Não. — Queria sentir de novo. O prazer. Entretanto não podia mostrar-se tão insaciável.

Obrigou-se a pensar na lista de fetiches turísticos.

— Adoraria um passeio a Audobon Park - suspirou, a mão dele tão quente no seio, o calor intenso. - Dar uma volta de bonde, um cruzeiro no Mississipi, o trivial.

— Olhe para mim.

A voz irradiou autoridade, e ela obedeceu.

— Você passou um ano aqui, bella. Não fez nada disso?

Não, mas fizera o impensável. Entregou-lhe o corpo, e também o coração.

Estúpida.

— Andei ocupada trabalhando. Quando não era um emprego, era outro.

— Talvez amanhã.

— Talvez — retrucou, sabendo que amanhã seria tarde demais.

Ele não falou nada e ela notou certa compaixão.


  • Não me olhe assim. Posso parecer imatura, mas todos precisam crescer uma hora. Até rebeldes feito eu.

  • Eu não me preocupo. Sou do tipo empreendedor. Faço o que deve ser feito.

  • Como hoje? - brincou, tentando esconder os sentimentos.

  • Isso foi só o começo, bella.

  • Mas não era o começo, pensou ela, contendo as lágrimas. Era o fim...

  • Então como me saí? Bom? Ruim? Regular? - indagou ansiosa.

  • Quer uma avaliação de desempenho?

Não se perde a virgindade todo dia.

  • Quero.

  • Você foi ótima. Excelente.

  • Jura que não fiz nenhuma idiotice?

  • Jamais devia se importar com uma coisa dessas...

  • Toda mulher se importa.

  • Bem, você não devia. Você é maravilhosa. Foi inacreditável.

  • Que bom — replicou, mas à ansiedade sobreveio a tristeza. Esquisito...

Foi a primeira vez com Leo. E a última.

  • Durma aqui hoje — convidou ele.

  • A maioria dos homens não gosta desse tipo de coisa.

  • Que tipo de coisa?

  • Você sabe. Dormir juntos. Compromisso.

Ele riu.

  • Você sabe demais sobre o mundo, bambina. Só tem 22 anos.

  • Tenho irmãs mais velhas.

  • São muito ligadas?

  • Costumávamos ser.

  • O que aconteceu?

Ela deu de ombros.

  • Nós crescemos.

A expressão de Leo de súbito mostrou-se distante.

  • Tenho uma ligação telefônica de manhã, mas não quero que vá embora.

  • Ligação importante?

Muito importante, pensou ele. Telefonaria para o avô dela, e para o pai. Não seria um telefonema cordial. Joelle beijou-lhe o peito.

  • Então vá dormir. Precisa descansar. Não se preocupe comigo.

Joelle acordou. Era cedo, quase cinco e meia da manhã. Vestiu-se no banheiro, cuidando para não despertar Leo.

Não gostava de despedidas, e dizer adeus a Leo pareceu-lhe impossível.



Você sabia desde o começo, só uma noite, ralhou consigo mesma.

Por uma noite ela foi outra pessoa. Livre, apaixonada. Mandou o juízo às favas. Foi apenas Joelle e não a princesa, a propriedade pública.

Ninguém precisava saber.

Vestida — exceto pela calcinha que sumiu — Joelle ajeitou os cabelos com os dedos em um rabo-de-cavalo. Ficou malfeito, mas funcional.

Apanhou os sapatos e rumou para a sala, sentando-se na escrivaninha elegante. Usando o bloco de notas do hotel tentou rabiscar um bilhete para Leo, mas após escrever seu nome, não soube o que dizer. Restava pouco tempo. Diga alguma coisa.

Então, ligeira, preencheu a folha. Torceu para que as palavras fossem coerentes.

Joelle retornou ao quarto, deixou o bilhete ao lado de Leo. Estava adormecido. Observou-o um momento, memorizando cada detalhe.

Sabia que jamais o veria novamente. E também que era um homem inesquecível.

O autocontrole aparente escapou-lhe logo ao atravessar o lobby do hotel e sair pelas portas de vidro. O céu ainda estava escuro, salvo pela faixa acinzentada no horizonte.

Joelle pensou que a noite com Leo calaria o anseio por descobrir o sexo e, sim, todas as curiosidades foram satisfeitas. Não gostou só do sexo. Gostou de Leo. Muito.

O porteiro acomodou-a em um táxi e Joelle afundou no assento, irrequieta.

Não pense nele.

Através da janela, viu o sol romper as nuvens, tingindo o céu de um rosado sutil. E lembrou-se da estação de carruagens na Royal Street e da sensação dos lábios de Leo nos seus.



Pare de pensar.

Tarde demais para arrependimentos, concluiu. Porém isso não abrandou o aperto no coração.

Queria saber como era fazer amor com um homem de verdade. Ser tomada nos braços de um homem forte, experiente. Ora, agora descobriu.

E como fizeram amor. Ele iniciou-a em jogos lascivos que sequer supunha existir, revelou o prazer em variedades intermináveis de toque. Provocou, atormentou, deleitou-a.

E não seria assim com o Príncipe Borgarde. E compreendeu que saber talvez fosse pior que não saber nada.

— Qual é mesmo o endereço? — indagou o motorista, rompendo o silêncio.

Joelle reconheceu a vizinhança.


  • Fica no próximo quarteirão. O prédio de tijolos à esquerda.

Após subir as escadas até o apartamento no segundo andar, Joelle entrou no chuveiro decidida a enfrentar o dia.

Contudo, o jato d'água morna ofereceu pouco alívio. Não conseguia parar de pensar nele. Ou no modo como a possuiu, e cada vez que o corpo mergulhava dentro dela as ancas arqueavam para recebê-lo.

Foi tão instintivo. Tão bom. Deleitou-se com a fricção lânguida da sua pele na dela.

O calor do seu corpo...

Como pôde dar tão errado? Preparara-se para sofrer um pouquinho...

Entretanto nunca pretendeu apaixonar-se.

Bateram à porta do banheiro. Era Lacey, a colega de Joelle.


  • Josie, é melhor correr. Senão vai perder o vôo.

Joelle apanhou a toalha.

  • Já vou.

Leo percebeu que Joelle saiu logo ao acordar. E permaneceu ali, espumando de frustração.

Não devia ter dormido com ela.

Como diabos perdera o controle? Ele nunca perdia o controle.

Mas perdeu, e na hora errada, com a mulher errada.

Lívido, Leo arrancou as cobertas, e avistando um fiapo de seda branca - a calcinha de Joelle — entre os lençóis beges, apanhou-a.

Leo espiou a porta entreaberta, e depois o lençol. A débil marca de sangue pareceu muito mais escura.

Ela era virgem. Impossível.

E se fosse, por que perderia a virgindade pouco antes do casamento? Não fazia sentido.

Abolira o hábito de possuir virgens há anos, decidindo que as virgens eram para os mais jovens. Mais sensíveis. Beirando os 35 possuíra muitas mulheres, e sabia o que queria e o que não queria.

Queria provar que Joelle era uma impostora... não a princesa imaculada que o palácio de Melio tentou convencê-lo de que arrebataria. E seduziu-a, deliberadamente, usando a destreza das mãos, o conhecimento da anatomia feminina para deixá-la de joelhos, pensando que...

Leo sacudiu a cabeça, ao recordar fragmentos da noite passada. Como a insegurança dela, e o corpo, tenso. Foi difícil penetrá-la, mas culpou o nervosismo, e ainda...

Leo suspirou.

Houve resistência, quase um obstáculo, e cogitou, por um breve segundo, se já fizera amor, mas ela apenas encorajou-o e - cego de paixão - ele prosseguiu.

Avançou, arremeteu dentro dela.

Deus.

Amargurado, avistou o bilhete na cabeceira, leu o que estava escrito. Maldezione, vociferou.



Leo, eu não poderia pedir uma "primeira" vez melhor, ou um amante mais generoso. Obrigada. Você foi maravilhoso. Com carinho, Josie.

Era uma carta de agradecimento.



Por tirar a virgindade dela.

Droga.


Que situação ridícula. Jamais lhe agradeceram por fazer isso e muito menos com tanta educação, já que o tema subtendido era obrigado, mas você já era.

Pensou que fosse libertina, leviana. Foi ótima na cama, todavia atribuiu a cumplicidade à experiência, senão... a quê? Curiosidade? Paixão?

Como pôde permitir que um desconhecido - o que ele julgava ser - tomasse o que por direito cabia ao noivo?

Ficou zangado. Muito zangado. Ela foi pura lava na cama, tão ardente, tudo o que desejava em uma mulher, tudo o que nunca acreditou que encontraria.

Mas encontrar em Joelle, a própria noiva, de quem suspeitava sob todos os aspectos?

Chega de joguinhos. Ele queria a verdade.

Leo sentiu a fúria inundá-lo ao sair do hotel. O motorista aguardava no Mercedes negro, reluzente entre as palmeiras luxuriantes.


  • Para o French Quarter - ordenou, fornecendo o endereço. O trânsito fluía tranqüilo na Canal Street, e chegaram ao bairro dela em minutos. Leo nem sequer esperou o motorista abrir a porta. E saltou do Mercedes.

Relembrou a doçura dela na cama, seu gosto de mel. Era mais sensual que qualquer mulher que conhecera e era virgem. E não uma virgem qualquer. Era a última princesa virgem. E o fato de que a sua princesa, a sua virgem, entregou-se a um desconhecido - o que julgava ser - deixou-o furioso.

Ela queria uma aprazível "primeira vez" ? Ótimo. Mostraria a ela muito mais que ontem. Ensinaria à espertinha tudo o que sempre quis saber.

E ele apreciaria cada mísero instante também.

Tocou a campainha. A porta se abriu, e uma jovem apareceu.



  • Pois não? - indagou, segurando uma caneca de café.

  • Estou procurando Josie d'Ville.

  • Ela já foi.

  • Foi trabalhar? Onde? - inquiriu, impaciente.

A jovem de cachos ruivos sorriu comovida.

  • Foi para casa. Saiu para o aeroporto há mais de uma hora.

Quatro horas mais tarde, na penumbra, Joelle esforçava-se para se acomodar no assento estreito. Estava voltando para casa da mesma forma como partiu - de classe econômica.

Tentou inflar o travesseiro vazio, não que aquele molambo de poliéster pudesse ser chamado de travesseiro, e cerrou os olhos.



Adeus, Leo Fortino, pensou, com um nó na garganta. Olá, Luigi Borgarde.

CAPÍTULO SEIS

— Ele chegou, Alteza. — A jovem aia fez uma reverência à por­ ta do aposento de Joelle. — O Príncipe Borgarde aguarda-a com seu avô.

— Obrigada. Descerei logo. — Joelle se acovardou. Por que esperou até o último minuto? Por que não contou logo ao avô?

Mas preferiu contar na presença do Príncipe Borgarde, para evitar mal-entendidos.

Joelle respirou fundo, ensaiou as palavras novamente. Não haverá casamento, vovô. Não posso desposá-lo, príncipe. Talvez brigassem com ela, contudo o sermão do avô não adian­taria.

Não era mais criança. E não passaria o resto da vida tentando fazer todo mundo feliz. Uma única noite com Leo a fez compreen­der que, por mais que desejasse ser como Nic e Chantal, fracassa­ria. E talvez ambas aceitassem os casamentos, mas ela não.

Pois não casaria com alguém que a via como simples meio de alcançar um objetivo. Não, queria um homem igual a Leo. Sexy, forte, apaixonado.

É agora ou nunca, resolveu, vislumbrando-se no espelho da penteadeira - o vestido longo de crepe branco e um singelo pin­gente de ouro no cordão em torno do pescoço e, presos em um co­que, os cabelos não mais castanho-escuros, mas de uma tonalida­de luminosa de louro-mel. Tal qual o avô apreciaria vê-la — boni­ta, dócil, todavia não se sentia dócil. E sim armada para a guerra.

Joelle tentou acalmar-se, e contemplou um porta-retratos na penteadeira. A mãe, no ano em que ganhou o disco de platina. Na foto, a mãe, muito chique na cerimônia de premiação, aparentava ter o mundo a seus pés.

Joelle a invejava. Você teve sorte, mamãe, pensou. Você teve tudo.

Desceu a escadaria, evitando pensar. Hoje era a festa do avô, e todos os amigos e entes queridos compareceriam, incluindo Luigi Borgarde.

E julgou irônico que ele esperasse até a festa — duas semanas untes do casamento — para conhecê-la. Que noivo empolgado.

Com tardia convicção, decidiu que jamais desposaria Luigi.

Se não houvesse dormido com Leo...

Contudo, não foi o sexo que mudou sua opinião, foi Leo. Gos­ tava dele. De verdade, Leo fizera amor tão intensamente, que nun­ca esqueceria tamanha paixão.

Adentrando o Salão da Rainha, o menor dos três salões de baile do palácio, os tabiques de madeira branca e a coroa reluzente em contraste com as paredes azul-cobalto, Joelle perscrutou o recinto à procura do avô.

Avistou-o. Desacompanhado. E sentiu um aperto no coração.

Os cinco esplêndidos candelabros venezianos orlados com cristais azuis cintilavam sobre o Rei Remi Ducasse, de fraque e com o cabelo ralo penteado para trás, realçando a face ainda en­cantadora.

Seria o segundo aniversário sem a avó.

Joelle engoliu em seco e, ao avançar na direção dele, a multidão se dispersou e percebeu que se enganara.

Ele não estava só.

Joelle petrificou, incapaz de dar outro passo.

O avô estava perante o magnífico Ticiano - o quadro favorito da avó -, prestando atenção em um dos convidados. Não discern­iu o rosto, só que o convidado era alto - muito alto - e Joelle sentiu o sangue gelar.

Somente um homem transpirava tamanho poder. Restou-lhe apenas admirá-lo, perplexa.

Fizera de tudo ao seu alcance para esquecer Leo Fortino e aqui estava ele, à vontade com o avô.

Talvez fosse outra pessoa, ponderou, arrepiada. Talvez possuísse o cabelo quase negro e postura idênticos, pois havia muitos convidados elegantes. Sofisticados.

Ande logo, ralhou consigo mesma.

Aproximou-se do avô, viu-o sorrir, o convidado virar-se e o choque inundou-a em ondas.



Leo.

Era Leo, e olhava para ela, calado.

Que confusão! Obviamente já sabia quem ela era e, a julgar pelo silêncio sepulcral, estava furioso.

— Joelle, adorada. — O avô atraiu o olhar dela.

Apoiava-se com dificuldade na bengala, porém os olhos azuis sorriam.



  • Feliz aniversário, vovô - sussurrou.

  • Obrigado, querida. E, Joelle, deve saber quem temos aqui.

Sim, pensou, controlando a palpitação enlouquecida, sabia. Ele estava lindo, de trajes formais, a camisa branca em deslumbrante contraste com a pele morena.

E, sem pestanejar, lembrou o modo como a beijou, como a to­cou e como ela ardeu em chamas.

Por isso não pode desposar Luigi, refletiu. Você entregou o co­ração a Leo.

Não que ele se mostrasse muito feliz ao vê-la.



  • Ela é linda, não é? - elogiou o avô.

  • É mesmo - concordou Leo, e seus olhares se encontraram.

Aturdida, desviou os olhos. Por que parecia contrariado? Foi ele quem disse que era só sexo, e ela assentiu. Sem exigências...

Os dedos crisparam-se instintivamente, o espalhafatoso anel de noivado incomodou. Será que vovô sabia da noite com Leo?

Não, concluiu. Do contrário não estaria exultante. Era tão anti­quado quanto a própria água-de-colônia.

Um garçom surgiu com uma bandeja de prata.



  • Ah, excelente - comemorou o avô. - Champanhe. - Apanhou uma taça, ofereceu outra a Joelle, uma terceira a Leo.

  • Brindemos ao feliz regresso de minha neta. Eu não podaria pedir um aniversário melhor.

  • Obrigada, vovô.

Encontrar Leo nessa situação foi cruel.

Queria reencontrá-lo, mas não enquanto fosse noiva de outro.



  • Pronta para o casamento? - indagou o avô.

  • Vovô - engasgou, corada.

Ele não demonstrou ouvir.

  • Só faltam duas semanas.

  • Por favor, agora não, vovô.

  • Não fique nervosa. O Príncipe sabe que é inexperiente...

Agarrou-o pelo braço, interrompendo-o. O avô encarou-a.

  • Que foi?

Ela não conseguiu falar.

— Tudo bem, querida. Toda noiva fica nervosa...



  • Precisamos conversar - desabafou. - Quero conversar com você e o príncipe juntos, mas como ele não está presente...

  • Que está dizendo, Joelle?

  • Que não posso desposar o Príncipe Borgarde. Não sem sentimentos...

  • Ora, claro que não tem sentimentos por Leo, acabaram de se conhecer.

  • Quer dizer Luigi - corrigiu ela.

  • Quem é Luigi?

  • O príncipe. Luigi Borgarde.

  • Não existe Luigi nenhum, só Leo.

  • Quê?

De súbito ela não conseguia respirar.

  • E haverá casamento sim - persistiu ele.

Impossível... Leo não era Luigi...

  • Não estou me sentindo bem - avisou, trêmula.

O avô não escutou; e propôs outro brinde.

  • Ao futuro.

  • Ele sempre desligava o aparelho auditivo nas festas, mas o gesto pareceu perverso, considerando as circunstâncias.

— Ao futuro - arremedou Leo, erguendo a taça.

O futuro dela...

— Estou me sentindo... — Calou-se, e seguraram-na pelo coto­velo.

— Tonta? - A ríspida voz masculina completou. A voz de Leo.

Sim.

O toque abrasou-a, tão familiar quanto doloroso. Perdeu o controle dos dedos dormentes. A taça de prata quicou no chão, o champanhe jorrou.



— Sinto muito. - Joelle apanhou um guardanapo, se ajoelhou e pôs-se a enxugar a poça no piso de mármore.

O avô cutucou-lhe as mãos com a bengala.



  • Os criados cuidarão disso.

  • Alguém pode escorregar - balbuciou. Ai meu Deus...

Leo tomou-lhe a mão, e ergueu-a não muito gentilmente.

  • Vai sujar o vestido.

O vestido branco era a última das suas preocupações.

  • Você sabia - gaguejou ela.

  • Lógico.

Seduziu-a sabendo que seria sua esposa. Usou-a como se ela não fosse nada. Ninguém.

— Confiei em você. Pensei...

A bengala do avô golpeou o piso impacientemente.

— Fale alto, querida, sabe que não escuto bem.



  • Perdoe-nos, Majestade. - Leo elevou a voz, mantendo o tom respeitoso. - Mas a princesa expressava seu constrangimento. Alega que não me reconheceu em Nova Orleans.

  • Não reconheceu? - repetiu o rei, intrigado.

  • Sim, Majestade. Não reconheceu que eu era... o seu príncipe.

O queixo de Joelle caiu.

  • Mas você contou que se encontraram em Nova Orleans.

Não.

O Rei Remi voltou se para Joelle.



  • Faz apenas uma semana. Como não se lembra dele?

  • Eu...lembro.

  • Então qual é o problema?

— Só está emocionada - argumentou Leo, o sorriso intimidador. - Talvez a princesa e eu necessitemos de algum tempo a sós.

Um calafrio percorreu-lhe o corpo. Depois do sofrimento que lhe causou? Nunca.



  • Discordo - retrucou. - É aniversário do vovô...

  • Tolice. - O avô bateu a bengala. - Saiam, tomem ar fresco, mas voltem quando o jantar for servido. O príncipe é meu convidado de honra.

E o avô deixou-a sozinha com Leo.

  • Surpresa? - murmurou Leo, afinal.

  • Odeio você.

  • Não me odiou na cama.

Cretino.

  • Você disse que era Leonardo Marciano Fortino...

  • E sou.

  • O que aconteceu com Luigi?

  • Como seu avô explicou, não existe Luigi nenhum.

  • Mas...

  • Engano seu.

Inacreditável.

  • E o título de Príncipe de Borgarde? Foi só uma omissão conveniente?

  • Você não sabia meu nome. Não julguei de bom-tom enfiá-lo pela sua garganta abaixo.

  • Ah, por favor!

  • Por favor o quê, bella? O que o seu coraçãozinho deseja agora?

A raiva carregava uma entonação sexual, evocando a paixão entre ambos.

Estava testando, seduzindo-a como em Nova Orleans.

E, engraçado, até ontem a perspectiva de se casar com Leo a entusiasmaria, mas agora era diferente. Ele traiu sua confiança.

— Não vou casar com você.



  • Não seja boba.

  • Boba? Vou dizer o que é bobo. Nós dois. Acabou. O noivado. O casamento. - Segurou o anel, tentou tirar os extraordinários diamantes cercados por rubis do dedo. - Chega.

A mão dele cobriu a sua.

  • Deixe isso aí.

  • Não. Você me enganou. Me deixou acreditar que...

  • Ele apertou seus dedos e, segurando firme, puxou-a para si, a ponto de lograr sussurrar-lhe ao ouvido.

  • Que tudo foi lindo e maravilhoso? Que você foi sexy e insaciável na cama?

  • Fale baixo. - As lágrimas pendiam dos cílios. Não podia chorar em público.

As pessoas observavam, e Leo sequer sorriu para disfarçar.

  • Como o seu avô disse, precisamos de ar.

E Leo arrastou-a consigo pelo salão abarrotado em direção ao terraço.

A noite estava morna e, logo que pôde, Joelle rechaçou-o.



  • Não pode me obrigar. O casamento é arranjado, mas é consensual.

  • Justo como o sexo.

Ah, que golpe baixo.

  • O que aconteceu naquela noite não importa.

  • Não?

  • Foi só... uma... exceção. Não acontecerá novamente.

  • Acho que está confusa, Joelle... Josie... seja lá quem for. Porque era você e eu em Nova Orleans. Você e eu na cama.

  • Não. Você era um desconhecido. Alguém inofensivo...

  • Inofensivo? Bella, decerto não me conhece.

  • Não me ameace.

  • Não estou ameaçando. Ainda.

Deus, como era ingênua, pensou Leo, vendo Joelle esquivar-se, debruçando-se na sacada de pedra.

Nem sequer imaginava o que ele passou na última semana. O primeiro impulso foi pegar um avião, exigir-lhe explicações. Po­rém sabia que era temperamental demais. Que precisava de um tempo, e ela, também.

Mas cansou de ser paciente.

Josie quebrou todos os tabus, e precisava compreender o por­ quê.



  • Você dormiu comigo.

  • Você reparou?

  • Quero uma resposta séria. Por que dormiu comigo?

  • Porque quis.

  • Não é suficiente.

  • Que pena! É tudo que conseguirá.

  • Errado - murmurou ele. - Já consegui mais. A única coisa que nunca desejou me dar. - Ela enrubesceu. Sabia que estava encurralada.

  • É isso que chateia você, não é? - continuou. - Pensou estar liquidando a virgindade por aí, mas entregou-a a mim.

  • Então cometi um engano.

  • Por quê? Por que eu? Nunca teve intimidades com outro homem.

  • Não se mostre tão espantado. Você me viu na boate. Viu as calças de couro, a maquiagem pesada. Me viu cantar e entendeu o que quis — que eu era suja. Rodada - e não pouco, mas um bocado. E errou feio.

Os olhos fulminavam, revelando a mágoa e a ira.

— Nunca fui promíscua. Curiosa, sim. E por isso dormi com você. Grande coisa.

Com os cabelos cor de mel presos na nuca e o pingente dourado entre os seios, Leo julgou-a semelhante à mitológica deusa Diana, ultrajada ao ser flagrada banhando-se por um caçador. A deusa ti­nha um gênio infernal.


  • Grande coisa - arremedou, momentaneamente solidário aos mortais que enraiveceram a bela Diana.

  • Vá embora - bradou Joelle.

  • Não vou a lugar nenhum até resolvermos isso.

  • Resolver o quê? Que foi o primeiro homem a dormir comigo? Que eu não queria casar virgem? Ora, já sabe de tudo.

  • Por que não quis mais ser virgem?

  • Você não é, é?

  • Óbvio que não.

  • Exato.

Flagrou-se reagindo a ela, como em Nova Orleans.

Jamais acreditaria que fosse tão inexperiente. Tudo entre am­bos pareceu tão espontâneo.

Como se fosse feita para ele.

Joelle foi irreprimível, fascinantemente sensual na própria inocência. Mostrou-se tão cúmplice...



  • Não se dorme com um homem sem contar uma coisa dessas.

  • Eu não sabia que devia fazer um anúncio solene. Obrigada, Leo. Não cometerei gafes da próxima vez.

  • Da próxima vez você não será mais virgem.



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