Jane Porter



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CAPÍTULO TRÊS

Joelle acanhou-se ante a crueza da resposta de Leo. Ele tinha uma voz decidida, e quando declarou que a queria — de corpo e alma — ela se sentiu emboscada...

E fitá-lo nos olhos foi mais um erro em uma noite repleta de erros.

Jamais encarara um homem tão intimamente.

Os olhos não eram castanhos como pensara, mas verde-escuros, da cor dos bosques perfumados de Melio.

Confiantes. Meigos. Inteligentes. Bonitos.

Sentiu os lábios recurvarem de admiração, e então músculos imperceptíveis vincaram os cantos daqueles olhos, e ela perdeu o fôlego.

Estavam próximos demais. Leo era corpulento demais.

Os calafrios recobriram cada centímetro de pele, arrepiando até os seios, fazendo os mamilos despontarem contra o macio sutiã de seda.

Foi uma reação estranha, e deveras intensa, também.

Leo se remexeu e encostou o joelho no dela. Joelle sufocou ante o calor agudo que a trespassou. Comprimiu as coxas, tentan­do repelir a torrente de desejo.

Bastou um toque, e o corpo ficou ardente, instigado. Úmido.

Erguendo o rosto, buscou o olhar de Leo. E não soube se foi a candura oculta nos olhos ou a boca agora enternecida, mas quis beijá-lo. Quase se desesperou para sentir a sua boca.

Havia tanto que desejava compreender. De que forma os lábios de um homem podem atiçar a imaginação e como seria sentir o sopro suave da respiração dele, torturante contra a pele...



  • Quer a minha alma? — sussurrou.

  • E isso é muito ruim?

Ela não conseguiu evitar. Os lábios curvaram num sorriso largo.

— Dizem que o melhor sexo começa pelo cérebro.

Leo sorriu também. Contudo, não um sorriso bem-humorado. Em vez disso pareceu pronto a declarar guerra.

— Verdade. O cérebro é o órgão sexual mais relevante. Deve-se usar o cérebro para obter o máximo de prazer.

Ela corou, não só mediante as palavras, mas pela intensidade daquele olhar.

Joelle ficou tão excitada. Nunca sentiu nada semelhante. Po­rém as sensações fiadoras não eram gentis, divertidas.

Eram sensuais. Arrebatadoras.

Fogo e paixão. O que pensou desejar...

— Você aparenta estar com sede — comentou Leo, o semblante voluptuoso, ao servir o copo dela de vinho.

Todavia, sob as Anotações sexuais jazia uma cálida lubricidade que a seduzia.

Ela tinha sede, pensou. Sede de ser Joelle por inteiro.


  • Beba.

  • Não creio que possa.

  • Por que não?

  • Adrenalina demais.

Leo considerou-a bela no palco - sexy em demasia - mas nada era tão sexy quanto as palavras "adrenalina demais", proferidas naquela voz embargada pela melancolia.

Ele entendia de adrenalina. A certa altura da vida experimenta­ra onda de adrenalina após outra, carecendo de hercúleos desafios físicos para abrandar a inquietação que o perseguia ao redor do globo. E a confissão dela comoveu-o.



  • O que a perturba? - indagou.

  • Você.

  • Eu, não.

  • Você, sim. — Coragem, ponderou ela. — Você não é como os homens que conheço - arrematou e umedeceu os lábios com a ponta da língua.

Leo sentiu-se tão rijo quanto a própria pélvis.

  • E como são tais homens?

  • Charmosos. Simpáticos. Inofensivos.

  • Este sou eu.

Joelle riu.

  • Você é intratável.

  • Talvez. — De repente estendeu a mão, tocou-lhe de leve na face. — Você tem uma bela risada, bambina. Devia rir mais vezes.

Joelle enrubesceu, disfarçou, notou que o jantar estava a caminho. Os garçons apresentaram os pratos com uma mesura e deixa­ram-nos a sós. E Joelle já não estava nervosa.

Leo mostrava-se calmo também, e ela relaxou, degustando a refeição esmerada.

E ali, diante de Leo, entre as aconchegantes paredes vermelhas, pensou que este era o tipo de noite quando os menores detalhes assumem significados colossais.

A toalha branca impecável era aveludada ao toque. A vela cin­tilava, refletindo nas louças e cristais. O brilho da lua através da vidraça realçava o ambiente.

Joelle escutou Leo falar da vida no estrangeiro, que morou em várias capitais, como Londres, Santiago, Zurique. Considerava-se um cidadão do mundo.

Apreciou a força daquela voz e percebeu que sorria.



  • Você viajou bastante — comentou ele, mudando o foco para a experiência dela. — Onde se sentiu mais à vontade?

— Aqui. — Foi fácil responder. Jamais viajara tanto quanto Leo, porém lugar nenhum se comparava.

Adorou os últimos meses. Adorou ser uma anônima, invisível nas ruas de Nova Orleans.

Caminhar pelo French Quarter tarde da noite, de guitarra a tira­ colo, rumo ao pequenino apartamento que dividia com Lacey, da Geórgia.

O Carnaval. O calor luxuriante do verão. Os tijolos carcomidos dos prédios antigos. As sacadas imponentes que pairavam sobre as ruelas.



  • Tudo pareceu natural aqui. Eu me senti natural.

  • Então planeja permanecer em Nova Orleans?

  • Não.

  • Por quê?

Encontrou os olhos dele, viu que tentava descobrir o que ela pensava. Ninguém nunca a observou tanto tempo, com tamanha atenção, e imaginou se experimentaria isso de novo, depois de ca­sada. Algum dia se sentiria especial? Desejável?

  • Não posso.

  • Não pode por quê? Você é adulta. Faça o quiser.

  • Se fosse simples assim. Todos temos obrigações...

  • Então é o trabalho que exige o seu regresso?

  • Sim. Tenho um novo cargo à espera.

  • Que tipo de cargo?

  • Ela riu sem graça.

  • É terrível. Acredite. Não vai querer saber.

  • É ruim?

  • Péssimo.

Ele resmungou algo ininteligível. Levantou de súbito, apanhou a carteira.

  • Hora de irmos.

Estava zangado. Joelle alarmou-se. O que disse de errado?

  • Leo?

Contudo ele não olhou para ela. Meteu a carteira no bolso da calça e rumou para a escada.

Joelle seguiu-o vacilante. Alcançaram a rua, e Leo enveredou pela Royal Street, no caminho oposto da vinda. Espiou-o, tentou decifrar-lhe a expressão, mas estava escuro.

Cruzaram um quarteirão, depois outro. E se continuassem na­quela direção, logo chegariam a Canal Street, no fim do French Quarter.


  • Leo? — perguntou apreensiva.

  • Que foi?

  • Onde... Onde vamos?

Ele parou abruptamente, e encarou-a.

— Para onde acha que vamos?

Ela balançou a cabeça. Não entendeu a expressão nos olhos dele. Não entendeu nada.

Abateu-se um silêncio arrastado, no qual ela distinguiu a frustra­ção nos olhos turvos, uma emoção que continha raiva bem como paixão. Então ele encurralou-a em uma alcova escura, uma antiga estação de carruagens como tantas outras no French Quarter.



  • Tomamos nossos drinques - disse firme.

  • Sim.

  • Jantamos.

Ela percebeu que o casaco dele se abriu, sentiu o paletó roçar-lhe os seios.

  • No Brennan's.

Leo passou um braço por cima da cabeça dela, apoiando-se na entrada.

  • Tomamos café. Sobremesa. Agora diga o que acontece depois.

O medo misturou-se ao desejo.

  • Não sei.

  • Sim, você sabe.

A penumbra ocultava-lhe o semblante, mas ela sentiu a tepidez do corpo dele sem que a tocasse.

Leo inundou-a de emoção, e desde que o conheceu ela oscilava como um pêndulo de emoção à outra. E a sensação de estar em moto contínuo agastou-a.

Conteve as lágrimas, pois eram lágrimas de estresse. Foi uma semana difícil, fazer as malas, dizer adeus. Ficou tão tensa a noite toda... exaurida por um desejo que não compreendia.

Mas ele poderia aquietar o rumor nas suas veias. Liberar o fogo.

Sentiu-o aproximar-se. Prendeu a respiração, certa de que a beijaria. Queria o beijo. Temia o beijo.

O polegar afagou-lhe a face. Ela nem sequer ousou respirar.

Os olhos de Leo mostravam-se sombrios.


  • Diga.

O polegar desceu até a boca. Delicadamente acariciou-lhe os lábios. Uma sensação abrasadora avassalou-a.

A volúpia tomou vida dentro dela embora soubesse que nada aconteceria ali, naquela alcova estranha. Leo Fortino não possui­ria uma mulher em praça pública.

Ela estendeu a mão para tocá-lo no colarinho, receosa demais para tocar a pele.


  • Nós vamos...

  • Sim? — O polegar desenhava círculos no lábio intumescido.

Os círculos lentos deixaram-na louca.

  • Vamos para o seu...

  • Meu?

  • Hotel...

Disse o que ele queria ouvir. E ele silenciou o resto com um beijo.

A boca era voraz, o hálito, fresco, e ela petrificou de surpresa. Julgava-se bastante experiente em termos de beijo, mas este não era um beijo comum.

Os lábios dele exploraram os seus em uma provocação sensual, e ele foi bem-sucedido. Até demais. O lábio inferior titilou e isso se estendeu direto até o ventre, flamejante de desejo.

Contudo era só o começo. Os lábios dele tragaram o calor dos seus e a lenta exploração se transformou em algo voluptuoso.

O corpo rijo pressionava o dela, as coxas acomodaram-se entre as suas.

Sentiu a rigidez do peito esmagar-lhe os seios, e gemeu conforme ele se movia, com o joelho erguido, entre as suas coxas, geran­do fricção,sensação.

O gemido foi como atirar gasolina no fogo.

O desejo dele era atroz. Sua lascívia assombrou-a. Ele era tão diferente de qualquer coisa que compreendesse, que pudesse con­trolar e assim mesmo ela queria tudo — a paixão, a fúria, o avassalamento. Soube desde o início que não conseguiria resistir.

Leo escorregou uma das mãos pelo pescoço. A trilha que esco­lheu era deliciosa e Joelle arqueou indefesa contra o corpo de Leo, os quadris encaixados nos dele, a cabeça jogada para trás, expon­do mais pele.

Os dedos de Leo roçaram a espádua; acariciaram a ondulação dos seios. Um prazer trepidante dançou através dela. Os lábios cindiram, ofegaram, enquanto a mão dele se movia sob a fina blu­sa à procura de pele nua e quente.

Foi o seu tênue ofegar que enfim despertou Leo. Ele a estava desnudando ali, praticamente fazendo amor com ela na rua, em uma alcova soturna.

Que diabos andou pensando?

Afastando-se, Leo tentou acalmar o caos no corpo e no cérebro.

Não se sentia desnorteado assim há anos.

— Qual o problema? — indagou Joelle provocante.

Ela tinha uma voz sexy, incongruente com os olhos de água-marinha. Parecia tão menina, e ele sentiu um arroubo protetor.

Onde diabos estavam os guarda-costas dela? O avô? As irmãs? Todos que poderiam ajudá-la?

A Princesa Joelle sabia muito pouco sobre o mundo. Os parentes deviam estar procurando por ela. Em vez disso abandonaram-na em uma cidade grande como Nova Orleans, destinada a exta­siar os sentidos com comida, sexo e música.

— Que está fazendo, bambina? — perguntou, afagando-lhe a face, a pele macia, tépida.

Escutou-a arfar ante a carícia gentil, porém os ombros deram uma sacudidela de pouco-caso.

— Sabe como é, Leo. Garotas só querem diversão.

Era verdade e não era, pensou Joelle. Queria um homem que a desejasse. Um homem que não estivesse disposto a esperar anos por ela, mas precisasse possuí-la.



  • Diversão - repetiu Leo e a palavra pairou tão sedutora entre ambos que não significou nada remotamente divertido, mas transformou-se em estímulo.

  • Sim.

  • Você estaria melhor em casa cozinhando um pacote de ma carrão instantâneo.

Joelle precisou morder a língua. Macarrão instantâneo. Coisa de criança. As faces queimaram.

  • Não sou uma criança.

  • Eu não disse que era.

E de repente a mão dele enredou-se nos seus cabelos e, forçan­ do o rosto para cima, cobriu seus lábios com os dele. O toque da sua boca entorpeceu-a, a pressão tão diferente de antes.

Joelle estremeceu. Era a reação mais estranha, mas não conseguiu evitar as torrentes abrasadoras que aumentavam dentro de si, ou a fraqueza súbita que inundou os joelhos, as pernas.

Fincou as mãos no peito dele, tentando equilibrar-se e pensou que aquele peito era inacreditavelmente rígido, musculoso. O cor­po era como sempre imaginou um corpo de homem, embora a mão no seu cabelo revelasse o toque de um homem possessivo, sen­sual, um homem que não via problemas em marcar uma mulher como sua.

Era isso o que ela desejava, embora não o que devesse buscar. Leo Fortino não aparentava ser um sujeito bonzinho, do tipo que simplesmente deixa uma mulher escapar.

Mas você já está prometida, a consciência advertiu. Não pode romper o noivado.

E não vou, respondeu à consciência. É só por uma noite. Uma vez e pronto, juro.

Leo deve ter pressentido a sua indecisão. Ergueu a cabeça, os lábios abandonaram os seus. Ela tentou dizer algo. Fazer alguma coisa. Pense positivo, descontraia. Contudo nada lhe veio à mente.

Leo rompeu o silêncio.



  • E quanto à diversão?

Ela não logrou responder. A cabeça girava. Sentiu-se corajosa durante o jantar, tanto que ficou entorpecida, mas o torpor passou e todos os medos retornaram.

  • Mudou de idéia? — perguntou Leo baixinho.

Sim, ou quase. Pois, bem no fundo, Leo e a sexualidade dele assustaram-na.

Queria um caso, mas nos seus termos. Um relacionamento que pudesse controlar, todavia se mal controlara o diálogo com Leo, como controlaria o que acontecesse no quarto?

— O hotel fica na esquina — anunciou ele, voltando para a calçada. — Lá coloco você num táxi.

Sentiu-se aturdida, mas não pronta para ser despachada para casa.

— Não estou fugindo apavorada.

Os olhos de Leo cintilaram na escuridão.

— Não falei que estava.

— Então por que o táxi? — Empinou o queixo, sorriu. — Ainda não vi a decoração do seu quarto de hotel.



CAPITULO QUATRO

Então ela realmente faria isso.

Leo bateu a porta da suíte e observou Joelle.

Ficaram à meia-luz. Contudo Joelle mostrou-se despreocupada.

Não suportou pensar que ela fazia esse tipo de coisa com freqüência. Queria acreditar que não era promíscua, ou leviana, toda­via conheceram-se hoje e aqui estava ela, a sós com ele em um quarto de hotel às duas da manhã.

Sim, ele convidou-a. Porém tratou-se de uma armadilha — para testar-lhe a moral — que, embora infame, foi necessária.

Precisava saber. O casamento seria dali a três semanas. Como ela podia se comportar assim? Se não era fiel antes do casamento, por que seria fiel depois?

Conhecera aristocratas que, como Joelle, não conseguiam ser fiéis.

Belas mulheres - modelos, socialites, princesas - que não se satisfaziam com um único homem. Sabia como eram devassas. O quanto tais desejos insaciáveis magoavam todos os que as cerca­vam.


  • Quer alguma coisa do bar? — ofereceu. — Champanhe, vinho?

  • Agora não, obrigada.

Percebeu a tensão na voz dela, e por um instante sentiu esperança. Alívio. Talvez voltasse atrás. Queria que ela fosse uma mu­lher controlada, em vez de refém dos próprios caprichos.

Entretanto Joelle deu-lhe as costas, e examinou a suíte - a elegância discreta do aposento caramelo e bronze decorado com an­tiguidades valiosas, e o cortinado de seda na janela, emoldurando o panorama noturno.



  • Você tem uma ótima vista do Mississipi - disse ela. - Adoro o rio.

Ele contemplou o rio, as luzes delineando um barco a vapor que passava. À luz do dia, os velhos barcos com rococós vitorianos lembravam bolos de casamento em miniatura.

O cinismo corroeu-lhe o coração. Não haveria mais bolo de ca­samento. Não haveria casamento nenhum.

— A água possui certa energia — acrescentou ela, ainda observando o rio. — Não me imagino vivendo sem vista para a água. Acho que a minha vida foi marcada por marés, tempestades.

Joelle espiou-o por cima do ombro.



  • Mas não tinha nada disso onde morava, não é?

Ele obrigou-se a responder.

  • Tinha o Tâmisa em Londres, lagos na Suíça.

Leo não queria mais conversar sobre o mundo dele. Se ela não seria parte do seu futuro, não precisava conhecer seu passado.

Abriu o frigobar, e tirou uma garrafa de água mineral. Tomou um gole, depois outro, mas a água gelada não lhe esfriou o ânimo.

Ou o desejo.

Ele a queria. E esse era o pior insulto de todos. Não entendia como podia sentir raiva e indignação, e permanecer tão atraído.

Passara por isso antes, jurou que jamais seria enganado por outra mulher desesperada. E mesmo assim aqui estava ele, incapaz de agir.

Pensou que desposaria a princesa inocente, lembrou a conversa com o Rei Remi, avô de Joelle, enxergou o envelope com a folha dourada, o dossiê compilado pelos secretários palacianos de Melio, revisado pelo seu próprio pessoal.

Recordava cada palavra. Cada frase.

A Princesa Joelle Ducasse, filha caçula do Príncipe Julien, foi ofuscada pelas ambiciosas irmãs mais velhas. Embora assaz ins­truída, e musicalmente talentosa, a Princesa Joelle é a menos ex­trovertida das três.

Tomou outro gole.



A princesa ainda não namora, preferindo a companhia dos pa­rentes aos socialites da mesma idade.

Leo baixou a garrafa com uma pancada.

Joelle fitou-o pasma.


  • Você está muito quieto.

— Só pensando. — E avançou na direção dela, repulsa, desejo, misturados em um vórtice de emoções. Notou um lampejo de co­moção nos olhos azul-esverdeados. Estava assustada, pensou, e sentiu um aperto no peito. Não queria assustá-la, porém não que­ria que se comportasse estupidamente, tampouco. A vida é dura, até cruel, e confiança é difícil de encontrar.

Crescera ignorando o que era confiança, carente de estabilida­de... normalidade - e tudo foi-lhe negado. O pai andava tão an­sioso para livrar-se da mãe que, quando o divórcio saiu, livrou-se de Leo também. Que piada!

Leo estudou a face pálida de Joelle. Não a compreendia, mas uma coisa sabia: não desposaria uma mulher imatura.

Pousando as mãos nos ombros dela, Leo conteve as emoções conflitantes, dividido entre enxotá-la ou atirá-la na cama.

Queria abraçar, tocá-la. Todavia ela era a última mulher com quem viria a se casar. Nunca confiaria nela.

Amaldiçoou o noivado arranjado e inclusive a si mesmo. Acaso conhecesse Joelle, investigaria seus antecedentes com maior rigor. Telefonaria para o avô dela de manhã. Para o próprio pai, os se­cretários palacianos. Poderiam divulgar a notícia para a imprensa como bem entendessem. Leo apenas queria aquilo acabado, e logo. Tudo parecia normal e estranho em um só tempo, pensou Joelle, aprisionada pelas mãos de Leo. A atração entre ambos era tan­gível. Ansiava por ele, e sabia que a desejava, estava nos seus olhos, no toque, porém...



  • Esses pensamentos parecem muito sérios - murmurou.

  • Sim.

A resposta monossilábica não foi metade ameaçadora do que o olhar fulminante. O pânico cresceu, e ela cogitou ir embora.

— Até onde planeja levar isso, Josie? — indagou, cingindo-lhe os pulsos.

Ao entrelaçar os dedos nos seus ela sentiu uma torrente abrasadora.

A sensação eletrizou-a e cada nervo alertou-a para fugir. Mas o corpo conservou-se imóvel.



  • Até onde? - repetiu, puxando-a mais para perto.

  • Me conte uma coisa - retrucou.

  • O quê?

A intensa concentração tornou-o mais exótico. Um magnífico predador à espreita.

Devia fazer sucesso com as mulheres. Era lindo, inteligente, rico... sensual.

— Você falou que queria meu corpo, e minha alma.

Ele observou-a, calado.

— E, perdoe-me a indiscrição, mas por que me acharia interessante? Tenho 22 anos. Você é dez anos mais velho. O que, intelectualmente, agradaria a você?

Ele franziu a boca adorável e, conforme o silêncio prolongou- se, ela compreendeu.

Queria a alma, porque estava presa ao corpo, mas não era a alma que ele queria. Era seu corpo.


  • Não respondi ainda, portanto não coloque palavras na minha boca - redargüiu. - E seu corpo é bonito, você tem talento - não esqueça, ouvi você cantar hoje -, também toca guitarra e decerto outros instrumentos também.

  • Piano e violino - replicou, apreensiva.

  • Você é culta, viajada, fluente em três idiomas...

  • Quatro.

  • E qual é o quarto?

  • Espanhol.

  • Claro. E apesar de vestir-se como uma vedete, possui belas maneiras.

— E os homens apreciam bons modos?

Ele sorriu malicioso.

— Alguns de nós, sim. Mas o que temos aqui não é amor, é sexo. E creio que sexo é o que procura.

A palavra sexo soou tão ofensiva. Sexo. Sexo com Leo. Sexo porque ela assim decidiu, provavelmente sua última decisão.



  • Se acaso esperava mais - acrescentou ele -, você não...

  • Eu entendo - interrompeu-o.

  • Não precisa dizer.

  • Entendo isso, também. - Julgou que estivesse tentando livrar-se dela, e não compreendeu. Ele a queria, mas não queria.

Percebeu que debaixo daquela sofisticação toda, ele era demasia­ do íntegro, talvez até antiquado. Era uma pena que ela não fosse outra pessoa. Que se conhecessem nessa situação.

Por um momento, o desconhecido acossou-a de todas as direções, contudo Joelle fez o que precisava fazer. Tocou-o. Sedutora­mente pôs as mãos no peito dele, ansiando descobrir a vida e o sexo.

Entretanto tocá-lo foi doloroso. E ponderou se era assim que deveria sentir-se.

Conflitante. Oprimida.

Ele abraçou-a mais forte.


  • Frio? - indagou, quando ela estremeceu.

  • Não. - Ele estava rijo, excitado, e o relevo nas calças comprimia-lhe o ventre. Adrenalina.

  • Adrenalina?

  • O suspense está me matando. Eu... - Calou-se, não poderia revelar que era quase inexperiente, pois confissões de inocência desanimam os homens. - Esqueça. Não é nada.

Ele aproximou o rosto do dela, capturando a tepidez da pele, antes de roçar os lábios nos seus. Foi uma carícia delicada, embora possuísse algo de arrebatador, tão ardente, tão explosivo, que ela afastou a cabeça, temendo o fulgor das chamas.

Ele deslizou a mão coluna acima, para amparar a nuca. Ela rea­giu em cada ponto que a mão dele tocou.



  • Seu coração disparou - comentou ele.

  • Você exerce esse efeito sobre mim.

  • Aposto que diz isso a todos os homens.

  • Não. - Tentou sorrir e fracassou. Em compensação, afagou-lhe o rosto. Ele se encolheu ante o carinho suave embora sem repelir.

  • Você tem um rosto lindo - sussurrou.

  • Não tenho. É comum.

  • Não há nada de comum em você.

Fitou-a nos olhos, e a boca cobriu a dela outra vez. Oh, como ela adorava a sensação daqueles lábios nos seus. A pressão instigante parecia dizer que um beijo não é só um beijo, mas puro prazer.

Então ele intensificou o beijo, afagando a boca com o polegar e uma sensação febril inundou-a. Derreteu por dentro, enquanto os seios arfavam, os mamilos despontavam, incrivelmente sensíveis.

A reação dela incitou-o, e o calor flamejou, torturante. Os lá­bios de Leo tornaram-se ávidos, dominando, saboreando.

Ele estimulou o lábio superior com a língua, e quando os lábios cindiram, trilhou o contorno da boca, a carne tenra do lábio infe­rior, e então a face, com a ponta da língua, declarando sem pala­vras que desfrutaria dela segundo os próprios termos.

A mão escorregou pela espádua, colhendo um dos seios., Joelle vibrou ante o atrito dos dedos no mamilo.

Isso a fez ansiar tanto, e o desejo tornou-a confiante.

Natural, concluiu, como a primeira vez deveria ser. Avassala­dora. Lasciva. Sexual. E a mão insinuou-se sob a blusa, a palma calorosa no abdome, os dedos leves na cintura fina.

Ela tentou rechaçar a vertigem, mas o toque era prazeroso de­ mais.

Quando ele levantou o bojo do sutiã de seda, a pele morna con­tra o seio ainda mais cálido, Joelle acreditou que se dissolveria em pura voluptuosidade.

Ninguém a tocara assim...

Ninguém a fez sentir-se tão indefesa e voraz ao mesmo tempo.

Podia imaginar as mãos dele na barriga, nos quadris, entre as coxas. Talvez doesse, refletiu, mas talvez, não, e se doesse, seria ótimo assim mesmo. Com ele. Com alguém tão sensual como Leo Fortino.

De súbito, Leo impeliu-a com firmeza para a beira da cama.

Aturdida buscou apoio, a cabeça girando.

Leo postou-se sobre ela, silencioso, atento, a eletricidade tangível. Ela viu a intempérie de paixão nos olhos verdes. Ele ofegava, e os lábios impetuosos esmagavam os seus.

Abruptamente, beijou-a com alento, um beijo ardente, que a possuiu por inteiro. Foi como se a fendesse, subjugando-a.

E enquanto a língua explorava a sua boca, ela desejava capturar as fogosas estocadas. O beijo fê-la pensar no corpo rígido sobre o dela, dentro dela.

— Tire a roupa - ordenou rouco.

A ordem, tão direta, deflagrou sensações em todos os pontos.

— Agora? - soluçou Joelle.

Ele ajeitou-se em cima dela, aguerrido, e o sombrio olhar esverdeado despiu-a inteira.

— Sim.


Ela queria isso, lembrou, queria descobrir a vida.

Com o coração retumbante, alcançou as tiras da blusa amarrada nas costas. Sentiu o olhar dele, a intensa concentração. As mãos vacilaram, ao esforçar-se para desfazer o nó.

Os segundos se arrastaram. O olhar dele tornou-se implacável. Flamejante. Enfim, desatou o nó e tirou a blusa.

Ele não falou nada.

Não fez nada.

Joelle corou, acanhada de jeans e sutiã meia-taça.

O jeans, lembrou. E erguendo-se, quase esbarrando em Leo, abaixou o zíper e, arfante, despiu o jeans.

Que se uniu à blusa aos pés da cama.

Vestia uma lingerie muito singela de seda - calcinha branca, su­tiã branco. E nos cândidos trajes de baixo, sentiu-se ainda mais nua.

Espiou Leo, não viu nada de encorajador no seu rosto. O que ela estava fazendo aqui?

Entregando a virgindade a Leo Fortino para evitar concedê-la a Luigi Borgarde, Príncipe de Milão, Conde de Veneza, seja lá qual fosse o título.

Não vou casar por amor, lamentou. Luigi sequer tentou me conhecer. Em vez disso enviou um secretário qualquer ao palácio, para me inspecionar de cima a baixo, e cuidar que eu assinasse a papelada. Papelada. Sou uma noiva contratada. Uma princesa ba­rata. Uma pechincha.

Estava furiosa com ele, por julgar correto invadir o mundo dela, sem ao menos perguntar cara a cara se gostaria de se casar com ele.

Custaria tanto assim ao Príncipe Luigi tirar um dia de folga para conhecer a futura esposa? Mais de uma vez ela pediu ao avô que providenciasse o encontro, antes do noivado ser anunciado, mas o avô argumentou que o príncipe era ocupado, e que deveria confiar nele. É um bom homem, retrucou, exato o que você e Melio precisam.

A raiva quase asfixiou a paixão.

Exceto a avó, todos presumiam que fosse igual a Nic e a Chantal, para quem o dever representava tudo. Mas o dever era a última coisa com que se importava. Em contrapartida, amava a música. De todo coração. Quando cantava, tocava guitarra, não era uma princesa despojada. Sentia-se capaz. Bonita.

Se Melio possuísse atividades econômicas mais fortes — como petróleo, ou exportação — poderia casar-se com quem bem enten­desse.

Ao contrário, casar-se-ia com um desconhecido porque ele era rico e ela, não.

— Acaso mudou de idéia...? — A voz de Leo distraiu-a da vida à sua espera na Europa. A vida para a qual retornaria amanhã.

Restava-lhe apenas essa noite. Faria amor com Leo porque queria fazer amor.

— Nada mudou.

Apreensiva, Joelle abriu o sutiã, baixando o tecido delicado pe­los ombros e seios.

Em silêncio repetiu, quero fazer amor porque é a única coisa que posso decidir por mim mesma.

De olhos turvos, Leo uniu-se a ela na cama.

Ela prendeu a respiração conforme ele avançou, aconchegan­ do-se nas suas pernas. Sequer a tocara ainda, mas pôde sentir-lhe a tepidez.

Então era isso, pensou, a realidade.

E com ele tão altivo, ameaçador sobre si, duvidou da própria competência para levar isso adiante.

O que entendia sobre fazer amor? Sobre corpos masculinos?

Cerrou os olhos enquanto as mãos dele posicionaram-se nas suas coxas, a pressão rigorosa. Dominadora.

— Então — disse ele, as mãos subindo tão devagar pelas coxas que irradiavam torrentes de sensação por toda parte. — Creio que está protegida?

Protegida? Ela esqueceu tudo nesse aspecto.


  • Ah, certo. Sim. Tenho err, um... preservativo... na bolsa.

  • Sempre carrega os seus?

Não, ao menos, até hoje, não. Mas hoje retirou um do dispensá­rio no banheiro feminino da boate. Por via das dúvidas.

— Pensei que eu... err, devia — gaguejou, porém ele não falou nada. — Sabe, tomar precauções.

— Como deveria — respondeu, apanhando um nécessaire de couro na mesinha-de-cabeceira. — Mas tenho os meus.

Colocou o pacote na cama, e beijou-lhe o ombro. Os mamilos enrijeceram, os seios arfavam.

Os lábios trilharam o pescoço, lenta, muito lentamente. - Dispa-me - disse ele.


  • Despir você?

  • Sim.

Joelle sentiu-se demasiado exposta, os seios desnudos, o cabelo solto, nua exceto pela calcinha minúscula. Porém forçou-se a ignorar a nudez, a pensar apenas nele.

Aproximando-se mais, inalou o perfume de sândalo, concentrada no calor sedutor do corpo dele. Ignorando o tremor das mãos, concentrou a visão no primeiro botão da camisa. Determi­nada, desabotoou-o, e depois o seguinte.

Antes que percebesse, ambos estavam nus e ela jazia debaixo dele. Sentiu-se um pouquinho boba, e muito inexperiente quando ele acariciou-lhe o corpo, dos seios aos quadris. Joelle estreme­ceu, os mamilos despontaram.


  • Nada aconteceu ainda - disse ele, espreguiçando-se.

  • Sou tão pouco atraente assim?

Ele emitiu um ruído, meio risada, meio rosnado.

  • Você é atraente demais.




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