J. A. Borralho da graçA, professor catedrático de Farmacognosia da Faculdade de Farmácia de Lisboa



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segredos e virtudes das plantas medicinais

SELECÇÕES DO READERS DIGEST


Selecções do Reader's Digest

CONSULTORES DA EDIÇÃO PORTUGUESA


J. A. Borralho da GRAÇA, professor catedrático de Farmacognosia da Faculdade de Farmácia de Lisboa.

Luís Filipe M. AIRES, assistente responsável pela cadeira de Botânica Farmacêutica da Faculdade de Farmácia de Lisboa.


REDACTORES DA EDIÇÃO ORIGINAL
Prof. Pierre DELAVEAU, Universidade René-Descartes,

Paris V, Faculdade >de Ciências Farmacêuticas e Biológicas: pp. 337-348. Michelle LORRAIN, professor-assistente de Fisiologia

Vegetal e Farmacognosia, Instituto Europeu de Ecologia, Metz: pp. 11-15, 349-360.

François MORTIER, Faculdade de Ciências Farmacêuticas

e Biológicas, Nancy I: pp. 8-10.

Caroline RiVOLIER: pp. 43-46, 48-53, 55-60, 63-74,

76-84, 88-90, 92-95, 98, 99, 103, 106-108, 110,

112-114, 116, 117, 120-125, 128, 129, 131, 133-135,

137-140, 144-146, 148-166, 168-171, 173-182,

184-189, 192-196, 199-201, 203, 204, 216-218, 223,

227, 228, 231-234, 236-240, 242-252, 254-267,

269-282, 284, 286-290, 294, 299, 301, 303, 304. Doutor Jean RiVOLIER e Caroline RiVOLIER: pp. 362-441.

Abade Rene SCHWEITZER, engenheiro-agrónomo: pp.

20-40, 47, 54, 61, 62, 67, 75, 185-87, 91, 96, 97,

100-102, 104, 105, 109, 111, 115, 118, 119, 126,

127, 130, 132, 136, 141-143, 147, 167, 172, 183,

190, 191, 197, 198, 202, 205-215, 219-222, 224-226,

229, 230, 235, 241, 253, 268, 283, 285, 291-293,

295-298, 300, 302, 442-453.
CONSULTORES DA EDIÇÃO ORIGINAL
Pierre BosSIaRDET, desenhador artístico, Centro Nacional

de Investigação Científica.

Renê H. DELÉPINE, professor-assistente, Universidade

Pierre-et-Marie-Curie, Paris VI, director da equipa de biogeografia e ecologia bentónica.

Michel GuÉDÈS, professor-assistente, Museu Nacional de

História Natural, Paris, laboratório de fanerogân-kas. Prof. Paul JOVET, director (honorário) do Centro Nacional de Investigação Científica, Paris. Prof. René PARIS, Universidade René-Descartes, Paris

V, Faculdade de Ciências Farmacêuticas e Biológicas.
ILUSTRAÇõES
David BAXTER: pp. 67, 72, 143, 209. FranÇoise BONVOUST: pp. 95, 96, 115, 132, 150, 159,

192, 198, 269, 284, 286, 295. Luc BOSSERDET: Pp. 92, 107, 110, 120, 126, 138, 146,

149, 151, 154, 163, 164, 230, 245, 265, 268Pierre BROCHARD: p. 50. Jean COLADON: pp. 63, 70, 113, 148, 174, 205, 210,

211, 214, 226, 242, 252, 292, 442-452. François COLLET: Pp. 93, 158. Philippe COUTÊ PP, 82, 106, 121, 157, 176, 237, 267,

278. FrançoiSC DE DALMAS: Pp. 103, 119, 156, 170, 183. Maurice ESPÉRANCE: pp. 20-35, 47, 54, 61, 86, 87, 96,

111, 118, 132, 188, 197, 216, 219, 223, 227, 253,



289. lan GARRARD: pp. 53, 59, 79, 89, 122, 153, 171, 173,

184, 201, 271, 287. Odette HALMOS: pp. 177, 178, 229, 246, 276, 298. Madeleine HUAU: pp. 73, 147, 161, 162, 169, 172, 238,

279, 281, 304. Mette IVERS: pp. 49-51, 69, 97, 99, 109, 112, 124, 125,

129, 131, 141, 165, 166, 185, 186, 189, 200, 236,

239, 244, 255, 277, 305-336. Josiane LARDY: pp. 45, 57, 71, 77, 100, 114, 117, 143,

167, 175, 182, 187, 196, 202, 208, 218, 248, 251,

258, 260, 263, 273, 296, 299, 300. Annie LE FAou: pp. 43, 44, 56, 90, 108, 123, 130, 139,

144, 155, 190, 194, 207, 228, 254, 256, 264, 266,

272, 294. Yvon LE GALL: P. 102. Nadine LIARD: Pp. 193, 220, 222, 283. GUy MICHEL: pp. 60, 66, 91, 128, 133, 140, 142, 152,

168, 212-213, 232, 291, 297, 301, 302. Daniel MONCLA: Pp. 94, 134, 241, 274. Marie-Claire Nivoix: pp. 64, 78, 116, 160, 203, 215,

217, 258. Alain d'ORANGE: p. 101. Charles PICKARD: pp. 75, 98, 221, 233. Robert Rousso: pp. 48, 52, 180, 181. Jean-Paul TURMEL: pp. 58, 104, 141, 191, 195, 204,

206, 240, 243, 247. Denise WEBER: capa e pp. 46, 55, 62, 65, 74, 76, 80,

81, 83-85, 88, 127, 135, 179, 199, 224, 225, 231,

234, 249, 250, 257, 259, 261, 262, 269, 275, 280,

282, 288, 290, 303.
SEGREDOS E VIRTUDES DAS PLANTAS MEDICINAIS
uma edição de Selecções do Reader's Digest
1983, Selecções do Reader's Digest, SARL.
Rua de Joaquim António de Aguiar, 43 - Lisboa
Reservados todos os direitos. Proibida a reprodução, total ou parcial, do texto ou das ilustrações, sem autorização, por escrito, dos editores.
Composição: Fototexto, Lda. - Lisboa Impressão: Lisgráfica, SARL. - Queluz de Baixo Encadernação: AMBAR - Porto

1.a edição, Maio de 1983. Depósito legal n.I 2130/83


PRINTED IN PORTUGAL

Índice
Prefácio
O reino dos simples

As plantas medicinais A fábrica vegetal Identificar, colher, conservar

Guia das plantas a conhecer

As plantas espontâneas As plantas cultivadas As plantas tóxicas As plantas exóticas

Os benefícios das plantas

O emprego do simples Dicionário da saúde

Os usos veterinários

Glossário


índice alfabético

Ao leitor


O aumento do consumo individual de medicamentos que se observa por todo o Mundo tem originado nos últimos anos um interesse renovado pelas plantas medicinais, um retorno às fontes naturais para o tratamento de doenças. Este fenómeno poderá explicar-se pelo facto de grande parte dos medicamentos ter tido origem precisamente em espécies vegetais, pelo desejo de regressar à Natureza que se observa no homem moderno e por uma certa desconfiança em relação aos medicamentos de origem sintética de produção industrializada.
Esta obra, que não pretende substituir a medicina tradicional, foi realizada sob a orientação de autores especializados que souberam pôr os seus profundos conhecimentos nos campos da botânica e da farmacognosia ao alcance e ao serviço do grande público. Nela se explicam as possibilidades reais das plantas medicinais, se estimula a sua colheita no meio natural e, simultaneamente, se desmistificam as especulações pseudocientíficas que ensombram a divulgação séria da medicina pelas plantas.
A identificação e a colheita das plantas adequadas constituem um primeiro problema. Para o solucionar, recorreu-se a ilustrações de grande qualidade e a descrições morfológicas minuciosas que permitem distinguir as espécies benéficas das neutras e das nocivas. Oferecer mapas exactos com a localização dos lugares de colheita de cada planta seria pretensão irrealizável; mas o leitor encontrará descritos os habitats característicos das diferentes espécies. A obra assinala ainda em que altura e época devem ser colhidas as plantas espontâneas e cultivadas e quais são as suas partes úteis. E, uma vez colhidas e preparadas, ensina a conservar as substâncias vegetais com propriedades medicinais.
Atitudes menos cuidadas quanto à colheita e preparação e menos prudentes quanto à dosagem podem conduzir a riscos que deverão ser evitados, para que, em vez de benefícios para a saúde e bem-estar, se não colham antes prejuízos. Assim, ficando um tanto à mercê do discernimento do leitor a maneira como aproveitar, com a maior utilidade, o conteúdo da obra, os editores não poderão ser responsabilizados pelas consequências que advenham da má utilização das informações ou da negligência em relação a recomendações insistentemente referidas ao longo do livro.
SELECÇõES Do READER,s DIGEST

Prefácio


Para a importação de novas drogas medicinais oriundas do Oriente, há muito mantida pela Europa, deram os Portugueses uma contribuição notabilissima, tornando-a mais variada e abundante à medida que as foram procurando nas regiões africanas, asiáticas e sul-americanas a que pela primeira vez aportavam.
Para além de quanto a África ia oferecendo de novidade, foi na índia que se

encontrou maior variedade e riqueza desses produtos, os quais, comercializados pelos Portugueses, passaram a ser quer conhecidos pela primeira vez na Europa, quer mais abundantes e acessíveis.


Havia produtos que serviam de mezinhas, outros designados por especiarias, conjunto na quase totalidade de origem vegetal, embora os houvesse de origem animal ou mista, utilizados como condimentos, masticatórios, excitantes, estupefacientes, perfumes, unguentos e corantes, com propriedades exclusivas ou polivalentes.
Na preocupação que sempre existiu de ir descrevendo tudo quanto de útil se descobria, foram enviados boticários nas naus que partiam a caminho do Oriente, aos quais competia não só o desempenho das suas funções durante as viagens e nos locais onde as tripulações se instalassem, mas também a averiguação das mezinhas usadas nas diversas zonas visitadas ou onde fosse possível obter notícia fidedigna, e ainda descrever a natureza e origem das *drogas e cousas medicinais+, as suas propriedades e aplicações.

Distinguiram-se nessa tarefa, em grande parte original, em primeiro lugar Simão Alvares, boticário de profissão que chegou à índia em 1509, e Tomé Pires, feitor de drogas, que ali chegou em 1512 por mandato do rei D. Manuel I e que seguiu mais tarde para a China como embaixador, com a incumbência de procurar reconhecer as plantas daquela região úteis para a medicina.


Mas foi Garcia de Orta quem mais se notabilizou no estudo das espécies medicinais e de outros produtos semelhantes da índia, para onde partiu em 1534, onde se fixou e onde morreu. Tendo nascido em Elvas, Garcia de Orta tirara o curso de Medicina nas Universidades de Salamanca e Alcalá, tendo ainda regido uma cadeira na Universidade de Lisboa em 1530 antes de partir para o Oriente.
O seu livro Coloquios dos simples, e drogas he cousas mediçínais da Indía publicado em 1563 em Goa, adquirefama internacional, nomeadamente depois de ter sido traduzido em latim, francês e italiano. Nesta obra se consignam, sob a forma de diálogo, todos os conhecimentos científicos e práticos que o autor conseguiu reunir sobre tais produtos e sua utilização.
O cientista francês Jules Charles de l'Écluse (Clúsio) publicou uma edição latina simplificada, com o título Aromatum et Simplicium Aliquot Medicamentorum Apud Indos Nascentium Historia, enriquecendo com notas pessoais e desenhos a obra original.
Depois do que se ficou devendo a árabes, gregos e romanos, surge assim a

partir desta tão notável obra de Garcia de Orta a divulgação escrita, em diversas línguas eformas, de quanto mais se passou a conhecer depois da chegada dos Portugueses ao Oriente.




Entretanto, nasce em África, em local não conhecido, mas possivelmente no Norte desse continente, um outro português, Cristóvão da Costa, o qual, depois de estudar Medicina na Universidade de Coimbra, parte para a índia, desembarcando em Goa em 1568, ainda a tempo de conviver com Garcia de Orta, de cujo saber muito aproveitou certamente. Regressando à Europa, Cristóvão da Costa fixou-se em Burgos, onde foi médico e cirurgião e escreveu e imprimiu o seu Tractado Delas Drogas, y medicinas de las Indias Orientales, con sus plantas debuxadas aí biuo por ChristouaI A Costa medico y cirujano que Ias vio ocularmente. En el qual se verifica mucho de lo que escrivio el Doctor Garcia de Orta ...,publicado em 1568, obra baseada na de Garcia de Orta que apresenta desenhos de todos os produtos, alguns dos quais mais

ricamente pormenorizados e documentados que no livro em que se fundamentou. Também a obra de Cristóvão da Costa foi traduzida em latim, italiano e francês.


Entretanto, descoberto o Brasil, inicia-se também nos vastos territórios sul-americanos uma primeira tentativa de inventário e descrição das plantas medicinais da região, em relação às quais, porém, não foi publicada qualquer obra em especial.
Sobre estudos de tal natureza no século XVII pouco haverá a dizer, para além do notável trabalho do médico alemão Gabriel Grisley intitulado Desingano para a Medícina ou Botica para todo o pai de família (1656), onde o autor refere a flora médica portuguesa, além de um outro, Viridarium Grísley Lusitanicum ... (1661), que constitui a primeira lista das plantas de Portugal. Tendo-se estabelecido em Portugal no

tempo do rei D. João IV, Grisley foi pelo monarca encarregado de organizar um horto botânico em Xabregas.


À mesma época pertence o boticário francês João Vigier, também radicado no

nosso país, autor da História das Plantas da Europa ... (1718).


São vários os nomes daqueles que no século XVIII se dedicaram à botânica e deixaram obra com interesse para o estudo das plantas medicinais de África e do Brasil, embora englobadas em trabalhos menos especializados. De destacar em relação ao Oriente o jesuíta João de Loureiro, que em 1735 seguiu como missionário para a China, onde a necessidade de utilizar essas plantas no combate às doenças lhe despertou o interesse pelo seu estudo, de que resultou a célebre Flora Cochinchinensis, publicada em 1790 em Lisboa, onde são referidas plantas da Cochinchina, China e África, obra reeditada em Berlim em 1793.
Notabilizou-se sobretudo entre todos os botânicos portugueses do século XVIII o abade Correia da Serra, nascido em Serpa em 1750, que emigrou para Itália aos 6 anos com seu pai, fugido à Inquisição. Aí adquiriu conhecimentos científicos e relacionou-se com o duque de Lafões, com o qual, uma vez regressado a Portugal depois da morte de D. José, fundou a Academia Real das Ciências.
Considerado pelo intendente Pina Manique como homem perigosíssimo, Já que dera guarida em sua casa a um francês jacobino, viu-se de novo obrigado a abandonar o País, passando parte da sua vida em Inglaterra, França e por fim na América do Norte. Em todos esses países o seu nome era altamente prestigiado pelas maiores celebridades científicas da época ligadas à botânica, nomeadamente em França, onde sempre recorriam ao seu conselho.


Mas foi na América que esse prestígio atingiu o expoente máximo, como raramente terá acontecido com qualquer outro cientista português. O desempenho da sua actividade pedagógica, os trabalhos científicos realizados e a ajuda prestada ao presidente Jefferson, de quem era íntimo amigo, na fundação da Universidade da Virginia valeram-lhe ser considerado * o estrangeiro mais esclarecido que jamais visitara os EUA +.
Surgira, entretanto, outro botânico português, Félix da Silva Avelar Brotero, nascido em Santo Antão do Tojal em 1744, e que da mesma maneira fora obrigado a emigrar para França, fugindo à perseguição inquisitorial. Convivendo com os mais notáveis naturalistas franceses da época, visitando a Holanda, Alemanha, Itália e Inglaterra, só regressa ao País em 1790, depois de terminado o período pombalino. A rainha D. Maria I nomeia-o professor da Faculdade de Filosofia da Universidade de Coimbra e encarrega-o da regência da cadeira de Botânica e Agricultura.
Todavia, em relação às plantas medicinais, as obras destes dois últimos botânicos portugueses, notáveis embora, não suscitam grande interesse, ao contrário de outras publicadas já no século XIX, da autoria do lente da Universidade de Coimbra Jerónimo Joaquim de Figueiredo, intitulada Flora Farmacêutica e Alimentar Portuguesa (Lisboa, 1825), do médico e lente da Universidade de Coimbra Francisco Soares Franco, Matéria Médica (1816), e do professor da Universidade do Porto Agostinho Albano da Silveira Pinto, Código farmacêutico lusitano (1835).
Retomando o tema das plantas úteis do ultramar, o conde de Ficalho, professor de Botânica da Universidade de Lisboa, publica a célebre obra Plantas úteis da África Portuguesa (1884), culminando assim a lista das contribuições de carácter histórico dos cientistas portugueses para o conhecimento das plantas medicinais.
De então para cá têm sido publicados muitos outros estudos, de conjunto ou contribuições de extensão e valor variados, mas já sem a prioridade e o cunho de originalidade daqueles outros que no século XVI nos colocaram em posição ímpar no mundo da ciência no respeitante ao conhecimento dos produtos naturais aproveitados pela medicina.

O reino dos simples


As plantas medicinais 8
A fábrica vegetal 11
Identificar, colher, conservar 16

As plantas medicinais


*O Senhor produziu da terra os medicamentos; o homem sensato não os desprezará+, aconselha o Eclesiástico, 38, 4; no entanto, muito antes desta alusão no texto sagrado à fitoterapia, ou medicação pelas plantas, já fora criado, divulgado e transmítido, entre as mais antigas civilizações conhecidas, o hábito de recorrer às virtudes curativas de certos vegetais; pode afirmar-se que se trata de uma das primeiras manifestações do antiquíssimo esforço do homem para compreender e utilizar a Natureza, como réplica a uma das suas mais antigas preocupações: a que é originada pela doença e pelo sofrimento.
É admirável que todas as civilizações, em todos os continentes, tenham desenvolvido, a par da domesticação e da cultura das plantas para fins alimentares, a pesquisa das suas virtudes terapêuticas. Mas é talvez ainda mais admirável que este conjunto de conhecimentos tenha subsistido durante milénios, aprofundando-se e diversificando-se, sem nunca, porém, cair totalmente no esquecimento.
A utilização das propriedades do ópio obtido da dormideira, 4000 anos antes de se conhecer o processo de extracção da morfina, é, sob este ponto de vista, bem significativa da perenidade destes conhecimentos, que durante muito tempo permaneceram empíricos e que, desde há alguns séculos, o progresso das ciências modernas tornou mais rigorosos.
Mesmo actualmente, apesar do espectacular desenvolvimento da quimioterapia, a fitoterapia continua a ser muito utilizada, readquirindo até um certo crédito desde que foram divulgadas as consequências, por vezes nefastas, do abuso dos compostos químicos.
Para se ter uma visão de conjunto do progresso dos conhecimentos humanos referentes às plantas medicinais, devem distinguir-se três grandes períodos. Durante as Antiguidades Egípcia, Grega e Romana acumularam-se numerosos conhecimentos empíricos que serão transmitidos, especialmente por intermédio dos Árabes, aos herdeiros europeus destas civilizações desaparecidas.
A partir do Renascimento, estes sábios ocidentais aproveitarão utilmente a renovação do espírito científico e o surto das viagens dos Descobrimentos para desenvolver consideravelmente estes conhecimentos adquiridos e dar início a uma ordenação rigorosa de todos os elementos saídos da experiência do passado.
Finalmente, e sobretudo desde o final do século xviIi, o progresso muito rápido das ciências modernas veio enriquecer e diversificar em proporções extraordinárias os conhecimentos sobre as plantas, os quais actualmente se apoiam em ciências tão variadas como a paleontologia, a geografia, a citologia, a genética, a histologia e a bioquímica.
Em 1873, o egiptólogo alemão Georg Ebers comprou um volumoso rolo de papiro; após ter decifrado a introdução, Ebers foi surpreendido por esta frase: *Aqui começa o livro relativo à preparação dos remédios para todas as partes do corpo humano.+ Provou-se que este escrito era o primeiro tratado médico egípcio conhecido. Compunha-se de uma parte relativa ao tratamento das doenças internas e de uma longa e impressionante lista de medicamentos.


Actualmente, pode afirmar-se que, 2000 anos antes do aparecimento dos primeiros médicos gregos, já existia uma medicina egípcia, organizada como conjunto de conhecimentos e de práticas distintas das crenças religiosas.

Duas das receitas incluídas no rolo de papiro de Georg Ebers são, efectivamente, consideradas como remontando à 6. a dinastia, ou seja a cerca de 24 séculos antes do nascimnento de Cristo! Sabe-se hoje que, na época do antigo Império Egípcio, o palácio do faraó mantinha um corpo de médicos, entre os quais se esboçavam já especializações como a odontologia e a oftalmologia.


Muito tempo depois, em 450 a. C., Heródoto diria que *no Egipto cada médico só trata de uma doença, pelo que constituem uma legião ... +. Aproximadamente na mesma época, o Templo de Edfu desenvolveu uma escola de medicina e mantinha um importante jardim de plantas medicinais.
De entre as plantas mais utilizadas pelos Egípcios, é indispensável citar o zimbro, as coloquíntidas, a romãzeira, a semente do linho, o funcho, o bordo, o cardamomo, os cominhos, o alho, a folha de sene, o lírio e o rícino. Um baixo-relevo proveniente de Akhetaton ostenta uma planta medicinal que posteriormente desempenhou um papel fundamental na farmacopeia da Idade Média: a mandrágora. Os Egípcios conheciam també m as propriedades analgésicas da dormideira, utilizada na preparação do *remédio contra as

crises anormalmente prolongadas+.


Mais notável ainda é o conhecimento progressivamente adquirido das regras de dosagens específicas para cada droga; esta prática ampliou-se ao fabrico e à administração de todos os remédios e pode afirmar-se que nasceu assim a receita médica e a respectiva posologia.
Estes conhecimentos médicos iniciados no antigo Egipto divulgaram-se nomeadamente na Mesopotâmia. Em 1924, o Dr. Reginald

Campbell Thompson, do Museu Britânico, conseguiu identificar 250 vegetais, minerais e substâncias diversas cujas virtudes terapêuticas os médicos babilónios haviam utilizado, especialmente a beladona, administrada contra os espasmos, a tosse e a asma; os pergaminhos da Mesopotâmia mencionam o cânhamo indiano, ao qual se reconhecem propriedades analgésicas e que se receita para a bronquite, o reumatismo e a insônia.
Foram sobretudo os Gregos, e mais tarde, por seu intermédio, os Romanos, os herdeiros dos conhecimentos egípcios, desenvolvendo-os até um elevado nível.

Aristóteles, espírito universal, estudou história natural e

botânica;
Hipócrates, frequentemente considerado *o pai da medicina+, reuniu com os

seus discípulos a totalidade dos conhecimentos médicos do seu tempo no conjunto de tratados conhecidos pelo nome de Corpus Hippocraticum: para cada enfermidade descreve o remédio vegetal e o tratamento correspondente.


Catão, o Antigo, no século II a. C., mencionou no seu tratado De Re Rustica 120 plantas medicinais que cultivava no seu próprio jardim.
No início da era cristã, Dioscórides inventariou no seu tratado De Materia Medica mais de 500 drogas de origem vegetal, mineral ou animal; à semelhança dos seus predecessores, esforçou-se por ter em conta o maravilhoso e separar o racional do irracional. Esta preocupação científica nem sempre foi seguida por Plínio, o Antigo, cuja monumental História Natural contém por vezes descrições de algum modo fantasistas.
Finalmente, o grego Galeno, cuja influência foi tão duradoura como a de Hipócrates, ligou o seu nome especialmente ao que ainda se denomina a * escola galénica+ ou *farinácia galénica+. Efectivamente, distingue-se o emprego das plantas *ao natural+, ou seja sob a forma de pós, das *preparações galénicas+, em que solventes como o álcool, a água ou o vinagre servem para concentrar os componentes activos da droga, os quais serão utilizados para preparar unguentos, emplastros e outras formas galénicas.
O longo período que se seguiu, no Ocidente, à queda do Império Romano, designado universalmente por Idade Média, não foi exactamente uma época caracterizada por rápidos progressos científicos. Os domínios da ciência, da magia e da feitiçaria tendem frequentemente a confundir-se; drogas como o meimendro-negro, a beladona e a mandrágora serão consideradas como plantas de origem diabólica.
Assim, Joana d'Arc será acusada de ter *atormentado os Ingleses pela força e virtude mágica de uma raiz de mandrágora escondida sob a couraça+. Contudo, não é possível acreditar que na Idade Média se perderam completamente os conhecimentos adquiridos durante os milénios precedentes. Os monges, devido aos seus conhecimentos do latim e do

Grego, foram os detentores do saber da Antiguidade; grande número de mosteiros vangloriava-se dos seus *jardins dos simples+, onde cresciam as plantas utilizadas para o tratamento dos doentes.


Ainda actualmente se conserva a memória de Santa Hildegarda, a *santa curandeira+ , cujos tratados, conhecidos pelo nome de Physica, além de respeitarem os conhecimentos antigos, trazem à luz, pela primeira vez, as virtudes de algumas plantas como a pilosela ou a arnica.



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