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Encontro05.01.2018
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Afasia e letramento: um outro olhar para o processo terapêutico de linguagem escrita

Gisele Senhorini

Ana Paula de Oliveira Santana

Francisleine Moleta

gisfono@hotmail.com
INTRODUÇÃO

Tradicionalmente os estudos sobre as afasias buscam identificar as dificuldades com a linguagem escrita decorrentes de lesões cerebrais da mesma maneira que se identificam as alterações com a linguagem oral, não levando em consideração as práticas sociais de escrita do sujeito afásico e o seu contexto significativo. Daí nossa proposta nesta pesquisa de analisar as contribuições do letramento para o processo terapêutico de linguagem escrita de um sujeito afásico. Para isso, partirmos de três aspectos fundamentais: (1) a reflexão em torno da relação entre oralidade e letramento, (2) a consideração da importância dos processos de letramento dos sujeitos e (3) a consideração das condições de interação em que ocorrem.

Sabendo que a linguagem escrita está sempre alterada nos casos de afasia, os gêneros textuais produzidos indica-nos um caminho vantajoso na reabilitação, já que eles estão amplamente marcados pelos aspectos culturais em que o afásico esta envolvido.

Neste trabalho consideramos o grau de letramento dos sujeitos afásicos como determinante na maneira como eles lidam com a escrita e o texto escrito. Acreditamos que este grau de letramento faça diferença na maneira como a linguagem é afetada pelo acometimento neurológico, na maneira como o sujeito “verá o que não estava lá após o episódio neurológico.

Letramento é entendido aqui, segundo Signorini (2001), como um “conjunto de práticas de comunicação social relacionadas ao uso de materiais escritos, e que envolvem ações de natureza não só física, mental e lingüístico-discursiva como também social e político – ideológica”. Nesse sentido, letramento deve referir-se a um contexto e a padrões socioculturais determinados e nos importa, então mais o conhecimento e os usos que o sujeito tem e faz sobre a língua, do que o quanto de formalização em torno da aquisição do código esse mesmo sujeito apresenta.

Dentro desses aspectos a concepção de oralidade e escrita são entendidas, enquanto continuum, ou seja, consideramos que o continuum possa ser visto durante o processo de elaboração textual em que, no caso de sujeitos afásicos, há uma construção conjunta entre escrevente e interlocutor, há uma co-ocorrência de linguagem oral e escrita e entre gêneros.


OBJETIVO

Dentro deste viés o objetivo desta pesquisa é analisar o processo terapêutico de um sujeito afásico considerando as questões do letramento como norteadoras.


METODOLOGIA

A pesquisa ocorreu na dependências da Clínica – escola da Universidade Tuiuti do Paraná. Em sessões terapêuticas individuais, com duração de 50 minutos.

Em cada sessão utilizava-se diferentes tipos de materiais: computador, revistas, jornais, mapas, placas de trânsito, fotos, agenda, entre outros. Todas as sessões foram filmadas e posteriormente transcrição das fitas para a análise dos dados.

Inicialmente foi realizado uma entrevista inicial, avaliação e em seguida elaborado o processo terapêutico. A abordagem terapêutica que orientou toda a prática foi a neurolinguistica de cunho discursivo. A terapeuta segundo a abordagem adotada, além de posicionar-se como interlocutora nas situações dialógicas, assumia a posição de mediadora, tentando auxiliar o afásico a (re)assumir seu papel de interlocutor.


ANÁLISE DOS DADOS

Neste trabalho, selecionamos dados de Ma, senhor de 47 anos, divorciado e pai de duas filhas, com grau de escolaridade em nível de ensino médio. Trabalhava como motorista de caminhão. Em 2006, foi vítima de uma agressão tendo como seqüela uma Traumatismo Crânio Encefálico. Tomografia computadorizada demonstrou fratura temporo-parietal esquerdo com grande afundamento e hemorragia em parênquima subjacente. Apresenta um quadro afásico de predomínio expressivo caracterizado por dificuldades de encontrar palavras – o que torna seu discurso bastante disfluente, parafasia fonológicas e semânticas. Quanto à leitura tem dificuldade em identificar as letras o que torna muito ineficaz e quanto a sua escrita realiza cópias e consegue escrever seu nome, das suas filhas e de sua irmã. Seus enunciados orais como escritos são beneficiados com o prompting que podem ser acompanhados por gestos representativos, recorrendo também à linguagem escrita para orientar a construção do sentido. Em muitos momentos utiliza expressões “eu sabia, agora não sei mais”. Sua expectativa em torno da terapia era voltar a ler e a escrever para renovar a carteira de motorista.

Ma tem dificuldade em acessar espontaneamente palavras escritas: logo após o TCE ele também apresentou este tipo de dificuldade na fala. Se considerarmos que fala e escrita estão em um continuum, podemos pensar que o desenvolvimento de sua escrita está acompanhando o desenvolvimento de sua fala após-TCE. É necessário que a palavra seja construído, por meio de alfabeto móvel, para depois Ma conseguir copiar e dizer esta palavras. A realização motora do ato de escrever é eficiente. Há fluência no gesto. No texto, em si, há presença de perseveração de estruturas, grafemas e/ou palavras. Sua compreensão de fala é boa, bem como de percepção de si no mundo. A percepção em relação à sua escrita é razoável:e ele não sabe bem sem o que escreve está certo ou errado, mas sé capaz de identificar com segurança um texto bem escrito, uma palavra adequada em comparação a uma inadequada.

Os atendimentos foram iniciados no dia 09/04/08, nesta primeira entrevista Ma relata que atualmente esta melhor, já consegue contar dinheiro, dirige, viaja para outras lugares. Incomoda-se as vezes com estranhos, que devido a sua dificuldade de fala, acha que ele é estrangeiro. Segundo ele, preferiria que eles soubessem do seu problema.

Neste primeiro encontro procurou-se entender as queixas principais que Ma iria trazer me trazer e também iniciar o processo de compreensão da relação desse sujeito com a sua linguagem.

A principal queixa trazida está relacionada a retomada da escrita, pois Ma quer renovar a sua carteira de motorista (como demonstrado na transcrição abaixo).

L1 Ig: (...) Você acha que depois do acidente a sua leitura e sua escrita ficaram prejudicadas?

L2 Ma: É difícil pra eu falar. Antes eu não sabia nada, agora ... ((pegou um papel e começou a

L3 escrever 1, 2, 3 ...))

L4 Ig: E para ler como é?

L5 Ma: É ruim de falar...

L6 Ig: Mas dá pra entender o que você lê?

L7 Ma: ((Gesto afirmativo com a cabeça)) Precisa melhorar oh .. 2 ((mostra a carteira de L8 motorista))

L9 Ig: Vai renovar a carteira de motorista? ... Ah! Daqui dois anos, tem tempo ainda (...)

Mediante esta queixa, procurou-se abordar estratégias com diferentes gêneros textuais e considerando que a ocorrência de fala e escrita em um continuum é primordial para a analise das condições de linguagem de um sujeito afásico: sua competência lingüística dá-se a ver e tem possibilidade de evoluir diante desta consideração. A interação, entendida como interlocução dialógica, possibilita a construção do texto de tal modo que este possa ser compreendido por outros sujeitos fora desta relação – ou seja, ela caracteriza o texto como tal.
CONCLUSÃO

Um gênero textual seja ele qual for, para ser construído por um sujeito afásico demanda a referência a outros gêneros. O continuum se mostra também nesta relação entre gêneros. Enfim, podemos afirmar que nas afasias são produzidos gêneros textuais diferentes, orais e escritos, os quais co-ocorrem sem determinação de supremacia de qualquer tipo. Há, nesse sentido, uma visibilidade do continuum oralidade – escrita.



Ao se contextualizar as sessões terapêuticas dentro das práticas sociais da escrita o sujeito coloca-se como autor do seu próprio discurso, no que se refere não só a relação como texto escrito, mas também em relação com o texto oral. Desta forma, o processo terapêutico foi capaz de fornecer condições para que o sujeito consiga lidar com as manifestações afásicas, e que o percurso (singular) neste continuum, o auxiliou a compreender melhor o que estava lendo, utilizar a escrita como prompting no seu discurso oral. Ou seja, foi possível perceber o sujeito modificou a sua escrita, tendo mais independência para escrever, dando significação aos seus enunciados e (re) assumindo o seu papel de interlocutor.
Palavras-chave: afasia; letramento; processo terapêutico.




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