Itens de polaridade e nominalizaçÕes em -ada



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ITENS DE POLARIDADE E NOMINALIZAÇÕES EM -ADA

Ana Paula Scher, Universidade de São Paulo, Brasil


Neste trabalho dou continuidade à investigação iniciada em Scher (2004, 2006) sobre nominalizações em  ada que aceitam um sufixo diminutivo, como se pode ver em O João deu uma lidinha no artigo, O João deu uma marteladinha no prego e O João deu uma remadinha até a margem.

A interpretação que se obtém de cada uma dessas sentenças é essencialmente a mesma que foi descrita em trabalhos anteriores (Scher, 2004, 2005, 2006, entre outros) para Construções com Verbos Leves (CVLs) sem o sufixo diminutivo na nominalização: elas denotam uma eventualidade incompleta, mais rápida ou mais breve que a eventualidade denotada por uma sentença com um verbo correspondente. Com base nesses fatos Scher (op.cit) sugere que o sufixo diminutivo  inha ocupe a posição de núcleo de uma categoria Asp que domina a categoria verbalizadora, presente na nominalização em -ada. Essa mesma posição ficará vazia em representações de sentenças que não contêm o sufixo diminutivo, embora a leitura aspectual de diminutivização se mantenha, devido aos traços semânticos relevantes da categoria Asp. Por outro lado, sentenças como O João deu uma martelada no ladrão ou O João deu uma remada no ladrão, na interpretação em que o ladrão foi atingido por um martelo ou por um remo, respectivamente, não aceitam a presença desse sufixo: O João deu uma *marteladinha no ladrão ou O João deu uma *remadinha no ladrão. A estrutura proposta em Scher (2006) para esse segundo caso de nominalização em -ada faz essa previsão, uma vez que não projeta AspP, a projeção responsável por alojar o sufixo diminutivo. Entretanto, no contexto que venho tomando como contexto de item de polaridade (nesse caso, um item de polaridade diminutiva tal como à toa ou de nada), os dois tipos de nominalização parecem aceitar bem o sufixo diminutivo: O João deu uma lidinha à toa no artigo, O João deu uma marteladinha à toa no prego, O João deu uma remadinha à toa até a margem, O João deu uma marteladinha à toa no ladrão, O João deu uma remadinha à toa no ladrão.

É importante observar que, mesmo quando o sufixo diminutivo co-ocorre com a nominalização em  ada do segundo tipo, ele não traz para a sentença a mesma interpretação que ele traz para as três primeiras sentenças desse resumo, em que o item de polaridade diminutiva não está presente. Na realidade, há uma diferença interessante entre as sentenças em que o item de polaridade está presente e aquelas em que ele não ocorre: as eventualidades denotadas por sentenças como O João deu uma lidinha à toa no artigo nunca poderão ser tomadas como singularizadas, incompletas, mais rápidas ou mais breves. Serão, antes, interpretadas como sem importância. Em O João deu uma marteladinha à toa no prego, por exemplo, a expressão marteladinha à toa denota uma eventualidade de bater com o martelo em um prego, a que não se atribui a importância canonicamente atribuída a uma eventualidade do tipo expresso por martelada.

Por outro lado, essa interpretação remete, certamente, a um tipo de diminutivização. Gostaria de sugerir, neste trabalho, no entanto, que não se trata do mesmo tipo de diminutivização descrito e discutido em trabalhos anteriores, ou seja, da diminutivização de uma eventualidade na comparação com a eventualidade denotada por uma sentença com um verbo correspondente à nominalização. Usando o modelo da Morfologia Distribuída para propor uma representação para o processo de formação de nominalizações em -ada no português brasileiro, sugeri que a estrutura das nominalizações de sentenças como O João deu uma lidinha no artigo contenha uma projeção aspectual que domina imediatamente a projeção verbal e é dominada imediatamente pela projeção nominal que forma a nominalização. Isso quer dizer que os traços semânticos da projeção aspectual têm escopo sobre a projeção verbal, ou seja, a diminutivização se aplica a uma eventualidade denotada por uma expressão verbal.



Para resolver a questão que se coloca neste trabalho, sobre a diminutivização do tipo sem importância, sugiro que, nesse caso, a projeção aspectual domine imediatamente a projeção com o núcleo nominalizador, fazendo com que a interpretação do tipo de sem importância se aplique à eventualidade denotada pela nominalização propriamente dita e não à eventualidade denotada pelo verbo do qual se forma essa nominalização. Essa proposta pode se justificar pelo fato de que o mesmo tipo de diminutivização se aplica a nomes em geral, minimizando sua importância, como mostram os exemplos dos diálogos a seguir: A: Não gostei do que o João fez. Ele deu uma flor pra minha namorada. B: Ah, não se preocupa com isso. Foi uma florzinha de nada!, ou ainda, A: O João comprou um carro. B: Carro? Um carrinho de nada! Portanto, é natural que se suponha que, ao entrar na derivação, o sufixo diminutivo  inha o faça associando-se diretamente à projeção nominal responsável pela formação da nominalização, e não como núcleo da projeção aspectual que domina a projeção verbal.

Isso não significa que o efeito geral de diminutivização presente no primeiro caso de CVL esteja perdido se o sufixo  inha não se realizar foneticamente, como morfema correspondente aos traços semânticos de AspP. A eventualidade denotada pelo verbo ainda mantém a leitura de diminutivização por causa da presença da projeção AspP. No entanto, por motivos que devem ainda ser esclarecidos, na sentença interpretada como evento diminutivizado, essa projeção nunca poderá se realizar foneticamente, se o item de polaridade diminutiva ocorrer na sentença. Além disso, também será necessário encontrar uma explicação para o fato de que a interpretação de sem importância só ocorrerá com a presença de expressões polarizadas.


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