Introdução / I. O destino do Mundo Predito o Destino do Mundo / 17 o valor dos Mártires / 39



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Enquanto isto outro viajante se aproximava de Constança. Huss era sabedor dos perigos que o ameaçavam. Despediu-se

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de seus amigos como se jamais devesse encontrá-los de novo, e seguiu viagem pressentindo que esta o levava para a fogueira. Apesar de haver obtido salvo-conduto do rei da Boêmia, e igualmente recebido outro do imperador Sigismundo durante a viagem, dispôs os planos encarando a probabilidade de sua morte.

Numa carta dirigida a seus amigos em Praga, disse: "Meus irmãos, ... parto com um salvo-conduto do rei, ao encontro de numerosos e figadais inimigos. ... Confio inteiramente no Deus todo-poderoso, em meu Salvador; confio em que Ele ouvirá vossas fervorosas orações; que comunicará Sua prudência e sabedoria à minha boca, a fim de que eu possa resistir a eles; e que me outorgará Seu Espírito Santo a fim de fortificar-me em Sua verdade, de maneira que eu possa defrontar com coragem tentações, prisão e, sendo necessário, uma morte cruel. Jesus Cristo sofreu por Seus bem-amados; deveríamos, pois, estranhar que Ele nos haja deixado Seu exemplo, para que nós mesmos possamos suportar com paciência todas as coisas para a nossa própria salvação? Ele é Deus, e nós Suas criaturas; Ele é o Senhor, e nós Seus servos; Ele é o Dominador do mundo e nós somos desprezíveis mortais: no entanto Ele sofreu! Por que, pois, não deveríamos nós também sofrer, particularmente quando o sofrimento é para a nossa purificação? Portanto, amados, se minha morte deve contribuir para a Sua glória, orai para que ela venha rapidamente, e para que Ele possa habilitar-me a suportar com constância todas as minhas calamidades. Mas se for melhor que eu volte para o meio de vós, oremos a Deus para que o possa fazer sem mancha, isto é, para que eu não suprima um til da verdade do evangelho, a fim de deixar a meus irmãos um excelente exemplo a seguir. Provavelmente, pois, nunca mais contemplareis meu rosto em Praga; mas, se a vontade do Deus todo-poderoso dignar-se de restituir-me a vós, avancemos então com coração mais firme no conhecimento e no amor de Sua lei." - Bonnechose.

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Em outra carta, a um padre que se tornara discípulo do evangelho, Huss falava com profunda humildade de seus próprios erros, acusando-se "de ter sentido prazer em usar ricas decorações e haver gasto horas em ocupações frívolas". Acrescentou então estes tocantes conselhos: "Que a glória de Deus e a salvação das almas ocupem tua mente, e não a posse de benefícios e bens. Acautela-te de adornar tua casa mais do que tua alma; e, acima de tudo, dá teu cuidado ao edifício espiritual. Sê piedoso e humilde para com os pobres; e não consumas teus haveres em festas. Se não corrigires tua vida e te refreares das superfluidades, temo que sejas severamente castigado, como eu próprio o sou. ... Conheces minha doutrina, pois recebeste minhas instruções desde tua meninice; é-me, portanto, desnecessário escrever-te mais a respeito. Mas conjuro-te, pela misericórdia de nosso Senhor, a não me imitares em nenhuma das vaidades em que me viste cair." No invólucro da carta acrescentou: "Conjuro-te, meu amigo, a não abrires esta carta antes que tenhas a certeza de que estou morto." - Bonnechose.

Em sua viagem, Huss por toda parte observou indícios da disseminação de suas doutrinas e o favor com que era considerada sua causa. O povo aglomerava-se ao seu encontro, e em algumas cidades os magistrados o escoltavam pelas ruas.

Chegado a Constança, concedeu-se a Huss plena liberdade. Ao salvo-conduto do imperador acrescentou-se uma garantia pessoal de proteção por parte do papa. Mas, com violação destas solenes e repetidas declarações, em pouco tempo o reformador foi preso, por ordem do papa e dos cardeais, e lançado em asquerosa masmorra. Mais tarde foi transferido para um castelo forte além do Reno e ali conservado prisioneiro. O papa, pouco lucrando com sua perfídia, foi logo depois entregue à mesma prisão. - Bonnechose. Provara-se perante o concílio ser ele réu dos mais baixos crimes, além de assassínio, simonia e adultério - "pecados que não convém mencionar". Assim o próprio concílio declarou; e finalmente foi ele despojado da tiara e lançado na prisão. Os antipapas também foram depostos, sendo escolhido novo pontífice.

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Se bem que o próprio papa tivesse sido acusado de maiores crimes que os de que Huss denunciara os padres, e contra os quais exigira reforma, o mesmo concílio que rebaixou o pontífice tratou também de esmagar o reformador. O aprisionamento de Huss despertou grande indignação na Boêmia. Nobres poderosos dirigiram ao concílio protestos veementes contra o ultraje. O imperador, a quem repugnava permitir a violação de um salvo-conduto, opôs-se ao processo que lhe era movido. Mas os inimigos do reformador eram maus e decididos. Apelaram para os preconceitos do imperador, para os seus temores, seu zelo para com a igreja. Aduziram argumentos de grande extensão para provar que "não se deve dispensar fé aos hereges, tampouco a pessoas suspeitas de heresia, ainda que estejam munidas de salvo-conduto do imperador e reis". - História do Concílio de Constança, de Lenfant. Assim, prevaleceram eles.

Enfraquecido pela enfermidade e reclusão, pois que o ar úmido e impuro do calabouço lhe acarretara uma febre que quase o levara à sepultura, Huss foi finalmente conduzido perante o concílio. Carregado de cadeias, ficou em pé na presença do imperador, cuja honra e boa fé tinham sido empenhadas em defendê-lo. Durante o longo processo manteve firmemente a verdade, e na presença dos dignitários da Igreja e Estado, em assembléia, proferiu solene e fiel protesto contra as corrupções da hierarquia. Quando se lhe exigiu optar entre o renunciar suas doutrinas ou sofrer a morte, aceitou a sorte de mártir.

Susteve-o a graça de Deus. Durante as semanas de sofrimento por que passou antes de sua sentença final, a paz do Céu encheu-lhe a alma. "Escrevo esta carta", dizia a um amigo, "na prisão e com as mãos algemadas, esperando a sentença de morte amanhã. ... Quando com o auxílio de Jesus Cristo, de novo nos encontrarmos na deliciosa paz da vida futura, sabereis quão misericordioso Deus Se mostrou para comigo, quão eficazmente me sustentou em meio de tentações e provas." - Bonnechose.

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Na escuridão da masmorra previa o triunfo que teria a verdadeira fé. Volvendo em sonhos à capela de Praga, onde pregara o evangelho, viu o papa e seus bispos apagando as pinturas de Cristo que desenhara nas paredes. "Esta visão angustiou-o; mas no dia seguinte viu muitos pintores ocupados na restauração dessas figuras em maior número e cores mais vivas. Concluída que foi a tarefa dos pintores, que estavam rodeados de imensa multidão, exclamaram: "Venham agora os papas e os bispos; nunca mais as apagarão!" Disse o reformador ao relatar o sonho: "Tenho isto como certo, que a imagem de Cristo nunca se apagará. Quiseram destruí-la, mas será pintada de novo em todos os corações por pregadores muito melhores do que eu." - D'Aubigné.

Pela última vez Huss foi levado perante o concílio. Era uma vasta e brilhante assembléia: o imperador, os príncipes do império, os delegados reais, os cardeais, bispos e padres, e uma vasta multidão que acorrera para presenciar os acontecimentos do dia. De todas as partes da cristandade se reuniram testemunhas deste primeiro grande sacrifício na prolongada luta pela qual se deveria conseguir a liberdade de consciência.

Chamado à decisão final, Huss declarou recusar-se a renunciar e, fixando o olhar penetrante no imperador, cuja palavra empenhada fora tão vergonhosamente violada, declarou: "Decidi-me, de minha espontânea vontade, a comparecer perante este concílio, sob a pública proteção e fé do imperador aqui presente." - Bonnechose. Intenso rubor avermelhou o rosto de Sigismundo quando o olhar de todos na assembléia para ele convergiu.

Pronunciada a sentença, iniciou-se a cerimônia de degradação. Os bispos vestiram o preso em hábito sacerdotal, e, enquanto recebia as vestes de padre, disse: "Nosso Senhor Jesus Cristo estava, por escárnio, coberto com um manto branco,

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quando Herodes o mandou conduzir perante Pilatos." - Bonnechose. Sendo de novo exortado a retratar-se, replicou, voltando-se para o povo: "Com que cara, pois, contemplaria eu os Céus? Como olharia para as multidões de homens a quem preguei o evangelho puro? Não! aprecio sua salvação mais do que este pobre corpo, ora destinado à morte." As vestes foram removidas uma a uma, pronunciando cada bispo uma maldição ao realizar sua parte na cerimônia. Finalmente "puseram-lhe sobre a cabeça uma carapuça, ou mitra de papel em forma piramidal, em que estavam desenhadas horrendas figuras de demônios, com a palavra 'Arqui-herege' bem visível na frente. 'Com muito prazer', disse Huss, 'levarei sobre a cabeça esta coroa de ignomínia por Teu amor, ó Jesus, que por mim levaste uma coroa de espinhos.'"

Quando ficou assim trajado, "os prelados disseram: 'Agora votamos tua alma ao diabo.' 'E eu', disse João Huss, erguendo os olhos ao Céu, 'entrego meu espírito em Tuas mãos, ó Senhor Jesus, pois Tu me remiste'." - Wylie.

Foi então entregue às autoridades seculares, e levado fora ao lugar de execução. Imenso séquito o acompanhou: centenas de homens em armas, padres e bispos em seus custosos trajes e os habitantes de Constança. Quando estava atado ao poste, e tudo pronto para acender-se o fogo, o mártir uma vez mais foi exortado a salvar-se renunciando aos seus erros. "A que erros", diz Huss, "renunciarei eu? Não me julgo culpado de nenhum. Invoco a Deus para testemunhar que tudo que escrevi e preguei assim foi feito com o fim de livrar almas do pecado e perdição; e, portanto muito alegremente confirmarei com meu sangue a verdade que escrevi e preguei." - Wylie. Quando as chamas começaram a envolvê-lo, põs-se a cantar: "Jesus, Filho de Davi, tem misericórdia de mim", e assim continuou até que sua voz silenciou para sempre.

Mesmo os inimigos ficaram tocados com seu procedimento heróico. Um zeloso adepto de Roma, descrevendo o martírio de Huss, e de Jerônimo que morreu logo depois, disse: "Ambos

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se portaram com firmeza de ânimo quando se lhes aproximou a última hora. Prepararam-se para o fogo como se fosse a uma festa de casamento. Não soltaram nenhum grito de dor. Ao levantarem-se as chamas, começaram a cantar hinos, e mal podia a veemência do fogo fazer silenciar o seu canto." - Wylie.

Depois de completamente consumido o corpo de Huss, suas cinzas, e a terra em que repousavam, foram ajuntadas e lançadas no Reno, e assim levadas para além do oceano. Seus perseguidores em vão imaginavam ter desarraigado as verdades que pregara. Dificilmente se dariam conta de que as cinzas naquele dia levadas para o mar deveriam ser qual semente espalhada em todos os países da Terra; de que em terras ainda desconhecidas produziriam fruto abundante em testemunho da verdade. A voz que falara no recinto do concílio em Constança, despertara ecos que seriam ouvidos através de todas as eras vindouras. Huss já não mais existia, mas as verdades por que morrera, não pereceriam jamais. Seu exemplo de fé e constância animaria multidões a permanecerem firmes pela verdade, em face da tortura e da morte. Sua execução patenteou ao mundo inteiro a pérfida crueldade de Roma. Os inimigos da verdade, posto não o soubessem, haviam estado a adiantar a causa que eles em vão procuraram destruir.

Contudo, outra fogueira deveria acender-se em Constança. O sangue de mais uma testemunha deveria testificar da verdade. Jerônimo, ao dizer adeus a Huss à partida para o concílio, exortou-o a que tivesse coragem e firmeza, declarando que, se caísse em algum perigo, ele próprio acudiria em seu auxílio. Ouvindo acerca da prisão do reformador, o fiel discípulo imediatamente se preparou para cumprir a promessa. Sem salvo-conduto, com um único companheiro, partiu para Constança. Ali chegando, convenceu-se de que apenas se havia exposto ao perigo, sem a possibilidade de fazer qualquer coisa para o livramento de Huss. Fugiu da cidade, mas foi preso em viagem para casa e conduzido de volta em ferros, sob a guarda de um grupo de soldados. Ao seu primeiro aparecimento perante o

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concílio, as tentativas de Jerônimo para responder às acusações apresentadas contra ele eram defrontadas com clamores: "Às chamas! Que vá às chamas!" - Bonnechose. Foi lançado numa masmorra, acorrentado em posição que lhe causava grande sofrimento e alimentado a pão e água. Depois de alguns meses, as crueldades da prisão causaram-lhe uma enfermidade que lhe pôs em perigo a vida, e seus inimigos, receosos de que ele se lhes pudesse escapar, trataram-no com menos severidade, posto que permanecesse na prisão durante um ano.

A morte de Huss não deu os resultados que os sectários de Roma haviam esperado. A violação do salvo-conduto suscitara uma tempestade de indignação, e como meio mais seguro de agir, o concílio decidiu, em vez de queimar a Jerônimo, obrigá-lo, sendo possível, a retratar-se. Foi levado perante a assembléia e ofereceu-se-lhe a alternativa de renunciar, ou morrer na fogueira. A morte, no início de sua prisão, teria sido uma misericórdia, à vista dos terríveis sofrimentos por que passara; mas agora, enfraquecido pela moléstia, pelos rigores do cárcere e pela tortura da ansiedade e apreensão, separado dos amigos e desanimado pela morte de Huss, a fortaleza de Jerônimo cedeu, e ele consentiu em submeter-se ao concílio. Comprometeu-se a aderir à fé católica, e aceitou a ação do concílio ao condenar as doutrinas de Wycliffe e Huss, exceção feita, contudo, das "santas verdades" que tinham ensinado. - Bonnechose.

Por este expediente Jerônimo se esforçou por fazer silenciar a voz da consciência e escapar da condenação. Mas, na solidão do calabouço, viu mais claramente o que havia feito. Pensou na coragem e fidelidade de Huss, e em contraste refletiu em sua própria negação da verdade. Pensou no divino Mestre a quem se comprometera a servir, e que por amor dele suportara a morte de cruz. Antes de sua retratação encontrara conforto, em todos os sofrimentos, na certeza do favor de Deus; mas agora o remorso e a dúvida lhe torturavam a alma. Sabia que ainda outras retratações haveria a fazer antes que pudesse estar em paz com Roma. O caminho em que estava entrando

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apenas poderia terminar em completa apostasia. Sua resolução estava tomada: não negaria ao Senhor para escapar de um breve período de sofrimento.

Logo foi ele novamente levado perante o concílio. Sua submissão não satisfizera aos juízes. Sua sede de sangue, aguçada pela morte de Huss, clamava por novas vítimas. Apenas renunciando à verdade, sem reservas, poderia Jerônimo preservar a vida. Decidira-se, porém, a confessar sua fé e seguir às chamas seu irmão mártir.

Renunciou à retratação anterior e, como moribundo, exigiu solenemente oportunidade para fazer sua defesa. Temendo o efeito de suas palavras, os prelados insistiram em que ele meramente afirmasse ou negasse a verdade das acusações apresentadas contra ele. Jerônimo protestou contra tal crueldade e injustiça. "Conservastes-me encerrado durante trezentos e quarenta dias, numa prisão horrível", disse ele, "em meio da imundícia, repugnante mau cheiro e da maior carência de tudo; trazeis-me depois diante de vós e, dando ouvidos a meus inimigos mortais, recusais-vos a ouvir-me. ... Se sois na verdade homens prudentes, e a luz do mundo, tende cuidado em não pecar contra a justiça. Quanto a mim, sou apenas um fraco mortal; minha vida não tem senão pouca importância; e, quando vos exorto a não lavrar uma sentença injusta, falo menos por mim do que por vós." - Bonnechose.

Seu pedido foi, finalmente, atendido. Na presença dos juízes, Jerônimo ajoelhou-se e orou para que o Espírito divino lhe dirigisse os pensamentos e palavras, de modo que nada falasse contrário à verdade ou indigno de seu Mestre. Para ele naquele dia se cumpriu a promessa de Deus aos primeiros discípulos: "Sereis até conduzidos à presença dos governadores e dos reis por causa de Mim. ... Mas, quando vos entregarem, não vos dê cuidado como, ou o que haveis de falar, porque naquela mesma hora vos será ministrado o que haveis de dizer. Porque não sois vós quem falará, mas o Espírito de vosso Pai é que fala em vós." Mat. 10:18-20.

As palavras de Jerônimo excitaram espanto e admiração, mesmo a seus inimigos. Durante um ano inteiro, havia ele

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estado emparedado numa masmorra, impossibilitado de ler ou mesmo ver, com grande sofrimento físico e ansiedade mental. No entanto, seus argumentos eram apresentados com tanta clareza e força como se houvesse tido oportunidade tranqüila para o estudo. Indicou aos ouvintes a longa série de homens santos que haviam sido condenados por juízes injustos. Em quase cada geração houve os que, enquanto procuravam enobrecer o povo de seu tempo, foram censurados e rejeitados, mas que em tempos posteriores mostraram ser dignos de honra. O próprio Cristo foi, por um tribunal injusto, condenado como malfeitor.

Em sua retratação, Jerônimo consentira na justiça da sentença que condenara Huss; declarou ele agora o seu arrependimento, e deu testemunho da inocência e santidade do mártir. "Conheci-o desde a meninice", disse ele. "Foi um ótimo homem, justo e santo; foi condenado apesar de sua inocência. ... Eu, eu também estou pronto para morrer; não recuarei diante dos tormentos que estão preparados para mim por meus inimigos e falsas testemunhas, que um dia terão de prestar contas de suas imposturas perante o grande Deus, a quem nada pode enganar." - Bonnechose.

Reprovando-se a si mesmo por sua negação da verdade, Jerônimo continuou: "De todos os pecados que tenho cometido desde minha juventude, nenhum pesa tão gravemente em meu espírito e me causa tão pungente remorso, como aquele que cometi neste lugar fatídico, quando aprovei a iníqua sentença dada contra Wycliffe, e contra o santo mártir, João Huss, meu mestre e amigo. Sim, confesso-o de coração, e declaro com horror que desgraçadamente fraquejei quando, por medo da morte, condenei suas doutrinas. Portanto suplico... a Deus todo-poderoso, Se digne de perdoar meus pecados, e em particular este, o mais hediondo de todos." Apontando para os juízes, disse com firmeza: "Condenastes Wycliffe e João Huss, não por terem abalado a doutrina da igreja, mas simplesmente porque estigmatizaram com a reprovação os escândalos do clero: a pompa, o orgulho e todos os vícios dos prelados e padres. As

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coisas que eles afirmaram, e que são irrefutáveis, eu também as entendo e declaro como eles."

Suas palavras foram interrompidas. Os prelados, trêmulos de cólera, exclamaram: "Que necessidade há de mais prova? Contemplamos com nossos próprios olhos o mais obstinado dos hereges!"

Sem se abalar com a tempestade, Jerônimo exclamou: "Ora! supondes que receio morrer? Conservastes-me durante um ano inteiro em horrível masmorra, mais horrenda que a própria morte. Tratastes-me mais cruelmente do que a um turco, judeu ou pagão, e minha carne, em vida, literalmente apodreceu sobre os ossos, e contudo não me queixo, pois a lamentação não vai bem a um homem de coração e espírito; mas não posso senão exprimir meu espanto com tão grande barbaridade para com um cristão." - Bonnechose.

De novo irrompeu a tempestade de cólera, e Jerônimo foi levado precipitadamente à prisão. Havia, contudo, na assembléia, alguns nos quais suas palavras produziram profunda impressão, e que desejavam salvar-lhe a vida. Foi visitado por dignitários da igreja, e instado a submeter-se ao concílio. As mais brilhantes perspectivas lhe foram apresentadas como recompensa de renunciar a sua oposição a Roma. Mas, semelhante a seu Mestre, quando se Lhe ofereceu a glória do mundo, Jerônimo permaneceu firme.

"Provai-me pelas Sagradas Escrituras que estou em erro", disse ele, "e o renunciarei."

"As Sagradas Escrituras!" exclamou um de seus tentadores; "então tudo deve ser julgado por elas? Quem as pode entender antes que a igreja as haja interpretado?"

"São as tradições dos homens mais dignas de fé do que o evangelho de nosso Salvador?" replicou Jerônimo. "Paulo não exortou aqueles a quem escreveu, a escutarem as tradições dos homens, mas disse: 'Esquadrinhai as Escrituras.'"

"Herege!" foi a resposta; "arrependo-me de ter-me empenhado tanto tempo contigo. Vejo que és impulsionado pelo diabo." - Wylie.

Sem demora se proferiu sentença de morte contra ele. Foi levado ao mesmo local em que Huss rendera a vida. Cantando

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fez ele esse trajeto, tendo iluminado o semblante de alegria e paz. Seu olhar fixava-se em Cristo, e a morte para ele havia perdido o terror. Quando o carrasco, estando para acender a fogueira, passou por trás dele, o mártir exclamou: "Venha com ousadia para a frente; ponha fogo à minha vista. Se eu tivesse medo, não estaria aqui." Suas últimas palavras, proferidas quando as chamas se levantavam em redor dele, foram uma oração. "Senhor, Pai todo-poderoso", exclamou, "tem piedade de mim e perdoa meus pecados; pois sabes que sempre amei Tua verdade." - Bonnechose. Sua voz cessou, mas os lábios continuaram a mover-se em oração. Tendo o fogo efetuado a sua obra, as cinzas do mártir, com a terra sobre a qual repousavam, foram reunidas e, como as de Huss, lançadas no Reno.

Assim pereceram os fiéis porta-luzes de Deus. Mas a luz das verdades que proclamaram - luz de seu exemplo heróico - não se havia de extinguir. Tanto poderiam os homens tentar desviar o Sol de seu curso como impedir o raiar daquele dia que mesmo então despontava sobre o mundo.

A execução de Huss acendera uma chama de indignação e horror na Boêmia. A nação inteira compreendia haver ele tombado vítima da perfídia dos padres e traição do imperador. Declarou-se ter sido ele um fiel ensinador da verdade, e o concílio que decretou sua morte foi acusado de crime de assassínio. Suas doutrinas atraíam agora maior atenção do que nunca. Pelos editos papais, os escritos de Wycliffe tinham sido condenados às chamas. Aqueles, porém, que haviam escapado da destruição, foram agora tirados dos esconderijos e estudados em conexão com a Bíblia, ou partes dela que o povo podia adquirir; e muitos assim foram levados a aceitar a fé reformada.

Os assassinos de Huss não permaneceram silenciosos a testemunhar o triunfo que alcançava a causa do reformador. O papa e o imperador uniram-se para aniquilar o movimento, e os exércitos de Sigismundo foram lançados contra a Boêmia.

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Surgiu, porém, um libertador. Zisca, que logo depois do início da guerra ficou completamente cego, e que no entanto era um dos mais hábeis generais de seu tempo, foi o chefe dos boêmios. Confiando no auxílio de Deus e na justiça de sua causa, aquele povo resistiu aos mais poderosos exércitos que contra eles se poderiam levar. Reiteradas vezes, o imperador, organizando novos exércitos, invadiu a Boêmia, apenas para ser vergonhosamente repelido. Os hussitas ergueram-se acima do temor da morte, e nada poderia resistir a eles. Poucos anos depois do início da guerra, o bravo Zisca morreu; mas seu lugar foi preenchido por Procópio, que era um general igualmente bravo e hábil, e nalguns sentidos dirigente mais destro.

Os inimigos dos boêmios, sabendo que morrera o guerreiro cego, conjeturaram ser favorável a oportunidade para recuperar tudo que haviam perdido. O papa proclama, então, uma cruzada contra os hussitas, e novamente uma imensa força se precipitou sobre a Boêmia, mas apenas para sofrer terrível desbarato. Segue-se outra cruzada. Em todos os países papais da Europa, reuniram-se homens, dinheiro e munições de guerra. Congregavam-se multidões sob o estandarte papal, seguras de que afinal se poria termo aos hereges hussitas. Confiante na vitória, a numerosa força entrou na Boêmia. O povo arregimentou-se para repeli-la. Os dois exércitos se aproximaram um do outro, até que apenas um rio se lhes interpunha. "Os cruzados constituíam força grandemente superior, mas em vez de se arremessarem através da torrente e travar batalha com os hussitas a quem de longe haviam vindo a combater, ficaram a olhar em silêncio para aqueles guerreiros." - Wylie. Então, subitamente, misterioso terror caiu sobre os soldados. Sem desferir um golpe, aquela poderosa força debandou e espalhou-se, como se fosse dispersa por um poder invisível. Muitos foram mortos pelo exército hussita, que perseguiu os fugitivos, e imenso despojo caiu nas mãos dos vitoriosos, de maneira que a guerra, em vez de empobrecer os boêmios, os enriqueceu.

Poucos anos mais tarde, sob um novo papa, promoveu-se ainda outra cruzada. Como antes, homens e meios foram

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trazidos de todos os países papais da Europa. Grande foi o engodo apresentado aos que se deveriam empenhar nesta perigosa empresa. Assegurava-se a cada cruzado perdão completo dos mais hediondos crimes. A todos os que morressem na guerra era prometida preciosa recompensa no Céu, e os que sobrevivessem haveriam de colher honras e riquezas no campo de batalha. De novo se reuniu um vasto exército e, atravessando a fronteira, entraram na Boêmia. As forças hussitas recuaram diante deles, arrastando assim os invasores cada vez mais longe para o interior do país, e levando-os a contar com a vitória já alcançada. Finalmente o exército de Procópio fez alto e, voltando-se para o inimigo, avançou para lhe dar batalha. Os cruzados, descobrindo então o seu erro, ficaram no acampamento esperando o assalto. Quando se ouviu o ruído da força que se aproximava, mesmo antes que os hussitas estivessem à vista, um pânico de novo caiu sobre os cruzados. Príncipes, generais e soldados rasos, arrojando as armaduras, fugiram em todas as direções. Em vão o núncio papal, que era o dirigente da invasão, se esforçou para reunir suas forças possuídas de terror e já desorganizadas. Apesar de seus enormes esforços, ele próprio foi levado na onda dos fugitivos. A derrota foi completa, e novamente um imenso despojo caiu nas mãos dos vitoriosos.

Assim pela segunda vez, vasto exército, enviado pelas mais poderosas nações da Europa, uma hoste de homens bravos e aguerridos, treinados e equipados para a batalha, fugiu, sem dar um golpe, de diante dos defensores de uma nação pequena e, até ali, fraca. Havia nisso uma manifestação do poder divino. Os invasores foram tomados de pavor sobrenatural. Aquele que derrotou os exércitos de Faraó no Mar Vermelho, que pôs em fuga os exércitos de Midiã diante de Gideão e seus trezentos, que numa noite derribou as forças do orgulhoso assírio, de novo estendera a mão para debilitar o poder do opressor. "Eis que se acharam em grande temor, onde temor não havia, porque Deus espalhou os ossos daquele que te cercava; tu os confundiste, porque Deus os rejeitou." Sal. 53:5.

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Os líderes papais, perdendo a esperança de vencer pela força, recorreram finalmente à diplomacia. Adotou-se um compromisso mútuo que, se bem que pretendesse conceder liberdade de consciência aos boêmios, realmente, traindo-os, entregava-os ao poder de Roma. Os boêmios tinham especificado quatro pontos como condições de paz com Roma: pregação livre da Bíblia; o direito da igreja toda, tanto ao pão como ao vinho na comunhão, e o uso da língua materna no culto divino; a exclusão do clero de todos os ofícios e autoridades seculares; e nos casos de crime, a jurisdição das cortes civis tanto para o clero como para os leigos. As autoridades papais finalmente "concordaram em que os quatro artigos dos hussitas deveriam ser aceitos, mas que o direito de os explicar, isto é, de determinar sua significação exata, deveria pertencer ao concílio ou, em outras palavras, ao papa e ao imperador". - Wylie. Nesta base, fez-se um tratado, e Roma ganhou, pela dissimulação e fraude, o que não tinha conseguido pelo conflito; pois, dando sua própria interpretação aos artigos hussitas, como à Escritura Sagrada, ela poderia perverter-lhes o sentido de modo a convir a seus propósitos.

Uma classe numerosa na Boêmia, vendo que isto traía sua liberdade, não se conformou com o tratado. Surgiram dissensões e divisões, que levaram à contenda e derramamento de sangue entre eles mesmos. Nesta luta o nobre Procópio sucumbiu, e pereceu a liberdade da Boêmia.

Sigismundo, traidor de Huss e Jerônimo, tornou-se agora rei da Boêmia, e sem consideração para com o seu juramento de apoiar os direitos dos boêmios, prosseguiu com o estabelecimento do papado. Ele, porém, pouco ganhara com sua subserviência a Roma. Durante vinte anos sua vida estivera repleta de trabalhos e perigos. Seus exércitos tinham sido arruinados, e esgotados os seus tesouros por uma longa e infrutífera luta, e agora, depois de reinar um ano, morreu, deixando seu reino às bordas da guerra civil e legando à posteridade um nome estigmatizado com a infâmia.

Seguiram-se tumultos, contendas e carnificina. Exércitos estrangeiros invadiram de novo a Boêmia, e dissensões

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internas continuaram a perturbar a nação. Aqueles que permaneceram fiéis ao evangelho, foram sujeitos a uma perseguição sanguinolenta.

Como seus irmãos de outrora, entrando em pacto com Roma, houvessem aceito seus erros, os que permaneciam na antiga fé formaram-se em igreja distinta, tomando o nome de "Irmãos Unidos". Este ato acarretou sobre eles as maldições de todas as classes. Contudo sua firmeza era inabalável. Obrigados a buscar refúgio nos bosques e cavernas, congregavam-se ainda para ler a Palavra de Deus, e unir-se em Seu culto.

Por meio de mensageiros enviados secretamente a diversos países, souberam que aqui e acolá havia "os que isoladamente confessavam a verdade, alguns numa cidade, outros noutra, como eles próprios, objeto de perseguição; e que entre as montanhas dos Alpes havia uma antiga igreja, apoiada no fundamento das Escrituras e protestando contra as corrupções idolátricas de Roma". - Wylie. Esta informação foi recebida com grande alegria, e iniciou-se correspondência com os cristãos valdenses.

Firmes no evangelho, os boêmios esperaram através da noite de sua perseguição, ainda volvendo os olhos para o horizonte, na hora mais tenebrosa, semelhantes aos homens que esperam a manhã. "Sua sorte fora lançada em dias maus mas... lembravam-se das palavras primeiramente proferidas por Huss e repetidas por Jerônimo, de que um século deveria passar antes que raiasse o dia. Estas foram para os taboritas [hussitas] o que, para as tribos na casa da servidão, foram as palavras de José: 'Eu morro; mas Deus certamente vos visitará, e vos fará subir desta terra.'" - Wylie. "O período final do século XV testemunhou o aumento vagaroso mas certo das igrejas dos Irmãos. Se bem que longe de não serem incomodados, gozavam de relativo descanso. No princípio do século XVI, suas igrejas eram em número de duzentas na Boêmia e na Morávia." - Vida e Tempos de João Huss, de Gillet. "Assim, numerosos foram os restantes que, escapando da fúria destruidora do fogo e da espada, tiveram o privilégio de ver o raiar daquele dia que Huss predissera." - Wylie.

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A Influência de um Bom Lar



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Preeminente entre os que foram chamados para dirigir a igreja das trevas do papado à luz de uma fé mais pura, acha-se Martinho Lutero. Zeloso, ardente e dedicado, não conhecendo outro temor senão o de Deus, e não reconhecendo outro fundamento para a fé religiosa além das Escrituras Sagradas, Lutero foi o homem para o seu tempo; por meio dele Deus efetuou uma grande obra para a reforma da igreja e esclarecimento do mundo.

Como os primeiros arautos do evangelho, Lutero proveio das classes pobres. Seus primeiros anos se passaram no humilde lar de um camponês alemão. Pelo trabalho diário de mineiro que era, seu pai ganhava os meios para a sua educação. Ele o destinava a ser advogado; mas Deus tencionava fazer dele um construtor no grande templo que tão vagarosamente se vinha erigindo, através dos séculos. Dificuldades, privações e severa disciplina foram a escola na qual a Sabedoria infinita preparou Lutero para a importante missão de sua vida.

O pai de Lutero era homem de espírito forte e ativo, e de grande força de caráter, honesto, resoluto e correto. Era fiel às suas convicções de dever, fossem quais fossem as conseqüências. Seu genuíno bom senso levava-o a considerar com desconfiança a organização monástica. Ficou muito desgostoso quando Lutero, sem seu consentimento, entrou para o convento, só se reconciliando com o filho passados dois anos, e mesmo então suas opiniões permaneceram as mesmas.

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Os pais de Lutero dispensavam grande cuidado à educação e ensino dos filhos. Esforçavam-se por instruí-los no conhecimento de Deus e prática das virtudes cristãs. Ouvida por seu filho, muitas vezes ascendia ao Céu a oração do pai, a fim de que o filho pudesse lembrar-se do nome do Senhor, e um dia auxiliar no avançamento de Sua verdade. Todas as vantagens para a cultura moral ou intelectual que sua vida de trabalhos lhes permitia gozar, aproveitavam-nas avidamente aqueles pais. Ardorosos e perseverantes eram seus esforços por preparar os filhos para uma vida piedosa e útil. Com sua firmeza e força de caráter, muitas vezes exerciam severidade excessiva; mas o próprio reformador, embora consciente de que em alguns aspectos haviam errado, encontrava em sua disciplina mais para aprovar do que condenar.

Na escola, para onde foi mandado com pouca idade, Lutero foi tratado com aspereza e mesmo violência. Tão grande era a pobreza de seus pais que, ao ir de casa para a escola noutra cidade, foi por algum tempo obrigado a ganhar o pão cantando de porta em porta, e muitas vezes passava fome. As tristes e supersticiosas idéias sobre religião, que então prevaleciam, enchiam-no de temor. À noite deitava-se com coração triste, olhando a tremer para o tenebroso futuro, e com um contínuo terror ao pensar em Deus como juiz severo e implacável, tirano cruel, em vez de bondoso Pai celestial.

Não obstante, sob tantos e tão grandes desalentos, Lutero avançou resolutamente para a elevada norma de excelência moral e intelectual que lhe atraía a alma. Tinha sede de saber, e seu feitio de espírito ardoroso e prático, levou-o a desejar o que é sólido e útil em vez do que é vistoso e superficial.

Quando, à idade de dezoito anos, entrou na Universidade de Erfurt, sua situação foi mais favorável e suas perspectivas mais brilhantes do que nos primeiros anos. Os pais, havendo pela economia e trabalho conseguido certo bem-estar, puderam prestar-lhe todo o auxílio necessário. E a influência de

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amigos judiciosos, diminuiu até certo ponto os efeitos sombrios de seu ensino anterior. Aplicou-se ao estudo dos melhores autores, entesourando diligentemente seus mais ponderados conceitos e fazendo sua própria a sabedoria dos sábios. Mesmo sob a ríspida disciplina dos mestres anteriores, cedo apresentara ele promessa de distinção; e sob influências favoráveis, seu espírito logo se desenvolveu. Memória retentiva, vívida imaginação, poderosa faculdade de raciocinar e aplicação incansável, colocaram-no logo em primeiro lugar entre seus companheiros. A disciplina intelectual amadureceu-lhe o entendimento, despertando uma atividade de espírito e agudeza de percepção que o estavam preparando para os embates da vida.

O temor do Senhor habitava no coração de Lutero, habilitando-o a manter sua firmeza de propósito e levando-o a profunda humildade perante Deus. Ele tinha uma constante intuição de sua dependência do auxílio divino, e não deixava de iniciar cada dia com oração, enquanto o íntimo estava continuamente a respirar uma súplica de guia e apoio. "Orar bem", dizia ele muitas vezes, "é a melhor metade do estudo."

Enquanto um dia examinava os livros da Biblioteca da Universidade, Lutero descobriu uma Bíblia latina. Nunca antes vira tal Livro. Ignorava mesmo sua existência. Tinha ouvido porções dos evangelhos e epístolas, que se liam ao povo no culto público, e supunha que isso fosse a Escritura toda. Agora, pela primeira vez, olhava para o todo da Palavra de Deus. Com um misto de reverência e admiração, folheava as páginas sagradas. Pulso acelerado e coração palpitante, lia por si mesmo as palavras de vida, detendo-se aqui e acolá para exclamar: "Oh! quem dera Deus me desse tal livro!" - História da Reforma do Século XVI, D'Aubigné. Anjos celestiais estavam a seu lado, e raios de luz procedentes do trono de Deus traziam-lhe à compreensão os tesouros da verdade. Sempre temera ofender a Deus, mas agora a profunda convicção de seu estado pecaminoso apoderou-se dele como nunca antes.

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Um desejo ardente de se achar livre do pecado e encontrar paz com Deus, levou-o afinal a entrar para um mosteiro e dedicar-se à vida monástica. Exigiu-se-lhe, ali, efetuar os mais humildes trabalhos e mendigar de porta em porta. Estava na idade em que o respeito e a apreciação são mais avidamente desejados, e essas ocupações servis eram profundamente mortificadoras para os seus sentimentos naturais; pacientemente, porém, suportou a humilhação, crendo ser necessária por causa de seus pecados.

Todo momento que podia poupar de seus deveres diários empregava-o no estudo, furtando-se ao sono e cedendo mesmo a contragosto o tempo empregado em suas escassas refeições. Acima de tudo se deleitava no estudo da Palavra de Deus. Achara uma Bíblia acorrentada à parede do convento, e a ela muitas vezes recorria. Aprofundando-se suas convicções de pecado, procurou pelas próprias obras obter perdão e paz. Levava vida austera, esforçando-se por meio de jejuns, vigílias e penitências para subjugar os males de sua natureza, dos quais a vida monástica não o libertava. Não recuava ante sacrifício algum pelo qual pudesse atingir a pureza de coração que o habilitaria a ficar aprovado perante Deus. "Eu era na verdade um monge piedoso", disse, mais tarde, "e seguia as regras de minha ordem mais estritamente do que possa exprimir. Se fora possível a um monge obter o Céu por suas obras monásticas, eu teria certamente direito a ele. ... Se eu tivesse continuado por mais tempo, teria levado minhas mortificações até à própria morte." - D'Aubigné. Como resultado desta dolorosa disciplina, perdeu as forças e sofreu de desmaios, de cujos efeitos nunca se restabeleceu por completo. Mas com todos os seus esforços, a alma sobrecarregada não encontrou alívio. Finalmente foi arrojado às bordas do desespero.

Quando pareceu a Lutero que tudo estava perdido, Deus lhe suscitou um amigo e auxiliador. O piedoso Staupitz abriu a Palavra de Deus ao espírito de Lutero, mandando-lhe que não mais olhasse para si mesmo, que cessasse a contemplação do castigo infinito pela violação da lei de Deus, e olhasse a Jesus, seu Salvador que perdoa os pecados. "Em vez de torturar-te

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por causa de teus pecados, lança-te nos braços do Redentor. Confia nEle, na justiça de Sua vida, na expiação de Sua morte. ... Escuta ao Filho de Deus. Ele Se fez homem para te dar a certeza do favor divino." "Ama Aquele que primeiro te amou." - D'Aubigné. Assim falava aquele mensageiro da misericórdia. Suas palavras produziram profunda impressão no espírito de Lutero. Depois de muita luta contra erros, longamente acalentados, pôde ele aprender a verdade e lhe veio paz à alma perturbada.

Lutero foi ordenado sacerdote, sendo chamado do claustro para o cargo de professor da Universidade de Wittenberg. Ali se aplicou ao estudo das Escrituras nas línguas originais. Começou a fazer conferências sobre a Bíblia; e o livro dos Salmos, os Evangelhos e as Epístolas abriram-se à compreensão de multidões que se deleitavam em ouvi-lo. Staupitz, seu amigo e superior, insistia com ele para que subisse ao púlpito e pregasse a Palavra de Deus. Lutero hesitava, sentindo-se indigno de falar ao povo em lugar de Cristo. Foi apenas depois de longa luta que cedeu às solicitações dos amigos. Era já poderoso nas Escrituras, e sobre ele repousava a graça de Deus. Sua eloqüência cativava os ouvintes, a clareza e poder com que apresentava a verdade levavam-nos à convicção, e seu fervor tocava os corações.

Lutero ainda era um verdadeiro filho da igreja papal, e não tinha idéia alguma de que houvesse de ser alguma outra coisa. Na providência de Deus foi levado a visitar Roma. Seguiu viagem a pé, hospedando-se nos mosteiros, pelo caminho. Em um convento na Itália, encheu-se de admiração ante a riqueza, magnificência e luxo que testemunhou. Dotados de uma receita principesca, os monges habitavam em esplêndidos compartimentos, ornamentavam-se com as mais ricas e custosas vestes, e banqueteavam-se em suntuosas mesas. Com dolorosos pressentimentos Lutero contrastou esta cena com a renúncia e rigores de sua própria vida. O espírito estava-se-lhe tornando perplexo.

Afinal, contemplou a distância a cidade das sete colinas.

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Com profunda emoção prostrou-se ao solo, exclamando: "Santa Roma, eu te saúdo!" - D'Aubigné. Entrou na cidade, visitou as igrejas, ouviu as histórias maravilhosas repetidas pelos padres e monges, e cumpriu todas as cerimônias exigidas. Por toda parte via cenas que o enchiam de espanto e horror. Observava a iniqüidade que existia entre todas as classes do clero. Ouviu gracejos imorais dos prelados, e horrorizou-se com sua espantosa profanidade, mesmo durante a missa. Ao associar-se aos monges e cidadãos, deparou com desregramento, libertinagem. Para onde quer que se volvesse, encontrava sacrilégio em lugar de santidade. "Ninguém pode imaginar", escreveu ele, "que pecados e ações infames se cometem em Roma; precisam ser vistos e ouvidos para serem cridos. Por isso costumam dizer: 'Se há inferno, Roma está construída sobre ele: é um abismo donde procede toda espécie de pecado."' - D'Aubigné.

Por um decreto recente, fora prometida pelo papa certa indulgência a todos os que subissem de joelhos a "escada de Pilatos", que se diz ter sido descida por nosso Salvador ao sair do tribunal romano, e miraculosamente transportada de Jerusalém para Roma. Lutero estava certo dia subindo devotamente esses degraus, quando de súbito uma voz semelhante a trovão pareceu dizer-lhe: "O justo viverá da fé." Rom. 1:17. Ergueu-se de um salto e saiu apressadamente do lugar, envergonhado e horrorizado. Esse texto nunca perdeu a força sobre sua alma. Desde aquele tempo, viu mais claramente do que nunca o engano de se confiar nas obras humanas para a salvação, e a necessidade de fé constante nos méritos de Cristo. Tinham-se-lhe aberto os olhos, e nunca mais se deveriam fechar aos enganos do papado. Quando ele deu as costas a Roma, também dela volveu o coração, e desde aquele tempo o afastamento se tornou cada vez maior, até romper todo contato com a igreja papal.

Depois de voltar de Roma, Lutero recebeu na Universidade de Wittenberg o grau de doutor em teologia. Estava agora na liberdade de se dedicar, como nunca antes, às Escrituras que ele amava.

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Fizera solene voto de estudar cuidadosamente a Palavra de Deus e todos os dias de sua vida pregá-la com fidelidade, e não os dizeres e doutrinas dos papas. Não mais era o simples monge ou professor, mas o autorizado arauto da Bíblia. Fora chamado para pastor a fim de alimentar o rebanho de Deus, que tinha fome e sede da verdade. Declarava firmemente que os cristãos não deveriam receber outras doutrinas senão as que se apóiam na autoridade das Sagradas Escrituras. Estas palavras feriram o próprio fundamento da supremacia papal. Continham o princípio vital da Reforma.

Lutero via o perigo de exaltar teorias humanas sobre a Palavra de Deus. Corajosamente atacava a incredulidade especulativa dos escolásticos, e opunha-se à filosofia e teologia que durante tanto tempo mantiveram sobre o povo a influência dominante. Denunciou tais estudos não somente como indignos mas perniciosos, e procurava desviar o espírito de seus ouvintes dos sofismas dos filósofos e teólogos para as verdades eternas apresentadas pelos profetas e apóstolos.

Preciosa era a mensagem que levava às ávidas multidões, que ficavam embevecidas ante suas palavras. Nunca antes tais ensinos lhes haviam caído aos ouvidos. As alegres novas do amante Salvador, a certeza de perdão e paz mediante Seu sangue expiatório, alegravam-lhes o coração, inspirando-lhes imorredoura esperança. Acendeu-se em Wittenberg uma luz cujos raios deveriam estender-se às regiões mais remotas da Terra, aumentando em brilho até ao final do tempo.

Mas a luz e as trevas não podem combinar. Entre a verdade e o erro há um conflito irreprimível. Apoiar e defender um é atacar e subverter o outro. Nosso Salvador mesmo declarou: "Não vim trazer paz, mas espada." Mat. 10:34. Disse Lutero, alguns anos depois do início da Reforma: "Deus não me guia, Ele me impele avante, arrebata-me. Não sou senhor de mim mesmo. Desejo viver em repouso; mas sou arrojado

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ao meio de tumultos e revoluções." - D'Aubigné. Ele estava então a ponto de ser compelido ao confronto.

A igreja de Roma mercadejava com a graça de Deus. As mesas dos cambistas (Mat. 21:12) foram postas ao lado de seus altares, e o ar ressoava com o clamor dos compradores e vendedores. Com a alegação de levantar fundos para a ereção da igreja de São Pedro, em Roma, publicamente se ofereciam à venda indulgências, por autorização do papa. Pelo preço do crime deveria construir-se um templo para o culto de Deus - a pedra fundamental assentada com o salário da iniqüidade! Mas os próprios meios adotados para o engrandecimento de Roma, provocaram o mais mortal dos golpes ao seu poderio e grandeza. Foi isto que suscitou o mais resoluto e eficaz dos inimigos do papado, determinando a batalha que abalou o trono papal e fez tremer na cabeça do pontífice a tríplice coroa.

Tetzel, o oficial designado para dirigir a venda das indulgências na Alemanha, era culpado das mais vis ofensas à sociedade e à lei de Deus; havendo, porém, escapado dos castigos devidos aos seus crimes, foi empregado para promover os projetos mercenários e nada escrupulosos do papa. Com grande cinismo repetia as mais deslumbrantes falsidades, e relatava histórias maravilhosas para enganar um povo ignorante, crédulo e supersticioso. Tivesse este a Palavra de Deus, e não teria sido enganado dessa máneira. Foi para conservá-lo sob o domínio do papado, a fim de aumentar o poderio e riqueza de seus ambiciosos dirigentes, que a Bíblia fora dele retirada. (Ver História Eclesiástica, de Gieseler.)

Ao entrar Tetzel numa cidade, um mensageiro ia adiante dele, anunciando: "A graça de Deus e do santo padre está às vossas portas!" - D'Aubigné. E o povo recebia o pretensioso blasfemo como se fosse o próprio Deus a eles descido do Céu.

O infame tráfico era estabelecido na igreja, e Tetzel, subindo

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ao púlpito, exaltava as indulgências como o mais precioso dom de Deus. Declarava que em virtude de seus certificados de perdão, todos os pecados que o comprador mais tarde quisesse cometer ser-lhe-iam perdoados, e que "mesmo o arrependimento não é necessário". - D'Aubigné. Mais do que isto, assegurava aos ouvintes que as indulgências tinham poder para salvar não somente os vivos mas também os mortos; que, no mesmo instante em que o dinheiro tinia de encontro ao fundo de sua caixa, a alma em cujo favor era pago escaparia do purgatório, ingressando no Céu. - História da Reforma, de Hagenbach.

Quando Simão, o mago, propôs comprar dos apóstolos o poder de operar milagres, Pedro lhe respondeu: "O teu dinheiro seja contigo para perdição, pois cuidaste que o dom de Deus se alcança por dinheiro." Atos 8:20. A oferta de Tetzel, porém, foi aceita por ávidos milhares. Ouro e prata eram canalizados para o seu tesouro. Uma salvação que se poderia comprar com dinheiro obtinha-se mais facilmente do que a que exige o arrependimento, fé e esforço diligente para resistir ao pecado e vencê-lo.

À doutrina das indulgências tinham-se oposto homens de saber e piedade da Igreja Romana, e muitos havia que não tinham fé em pretensões tão contrárias tanto à razão como à revelação. Nenhum prelado ousou erguer a voz contra este iníquo comércio; mas o espírito dos homens estava-se tornando perturbado e desassossegado, e muitos com avidez inquiriam se Deus não operaria mediante algum instrumento a purificação de Sua igreja.

Lutero, conquanto ainda católico romano da mais estrita classe, encheu-se de horror ante as blasfemas declarações dos traficantes das indulgências. Muitos de sua própria congregação haviam comprado certidões de perdão, e logo começaram a dirigir-se a seu pastor, confessando seus vários pecados e esperando absolvição, não porque estivessem arrependidos e desejassem corrigir-se, mas sob o fundamento da indulgência. Lutero recusou-lhes a absolvição, advertindo-os de que, a

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menos que se arrependessem e reformassem a vida, haveriam de perecer em seus pecados. Com grande perplexidade voltaram a Tetzel, queixando-se de que seu confessor recusara-lhes o certificado; e alguns ousadamente exigiram que se lhes restituísse o dinheiro. O frade encheu-se de cólera. Proferiu as mais terríveis maldições, fez com que se ascendessem fogos nas praças públicas, e declarou haver "recebido ordem do papa para queimar todos os hereges que pretendessem opor-se às suas santíssimas indulgências". - D'Aubigné.

Entra Lutero, então, ousadamente, em sua obra como campeão da verdade. Sua voz era ouvida do púlpito em advertência ardorosa e solene. Expôs ao povo o caráter ofensivo do pecado, ensinando-lhes ser impossível ao homem, por suas próprias obras, diminuir as culpas ou fugir ao castigo. Nada, a não ser o arrependimento para com Deus e a fé em Cristo, pode salvar o pecador. A graça de Cristo não pode ser comprada; é dom gratuito. Aconselhava o povo a não comprar indulgências, mas a olhar com fé para um Redentor crucificado. Relatou sua própria e penosa experiência ao procurar em vão pela humilhação e penitência conseguir salvação, e afirmou a seus ouvintes que foi olhando fora de si mesmo e crendo em Cristo que encontrara paz e alegria.

Prosseguindo Tetzel com seu comércio e ímpias pretensões, Lutero decidiu-se a um protesto mais eficaz contra esses clamorosos abusos. Logo se lhe apresentou uma ocasião. A igreja do castelo de Wittenberg possuía muitas relíquias, que em certos dias santos eram expostas ao público, e concedia-se completa remissão de pecados a todos os que então visitassem a igreja e se confessassem. Em conformidade com isto, o povo naqueles dias para ali acudia em grande número. Uma das mais importantes destas ocasiões, a festa de "Todos os Santos", estava-se aproximando.

Na véspera, Lutero, reunindo-se às multidões que já seguiam para a igreja, afixou na porta desta um papel contendo noventa e cinco proposições contra a doutrina das indulgências. Declarou sua disposição de defender essas teses no dia

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seguinte na Universidade, contra todos os que achassem conveniente atacá-las.

Suas proposições atraíram a atenção geral. Eram lidas e relidas, e repetidas de todos os lados. Estabeleceu-se grande excitação na Universidade e na cidade inteira. Mostravam essas teses que o poder de conferir o perdão do pecado e remir de sua pena, jamais fora confiado ao papa ou a qualquer outro homem. Todo esse plano era uma farsa, um artifício para extorquir dinheiro, valendo-se das superstições do povo - expediente de Satanás para destruir a alma de todos os que confiassem em suas pretensões mentirosas. Mostrou-se também claramente que o evangelho de Cristo é o mais valioso tesouro da igreja, e que a graça de Deus, nele revelada, é livremente concedida a todos os que a buscam com arrependimento e fé.

As teses de Lutero desafiavam discussão; mas ninguém ousou aceitar o repto. As questões por ele propostas, em poucos dias se espalharam por toda a Alemanha, e em breves semanas repercutiram pela cristandade toda. Muitos dedicados romanistas que tinham visto e lamentado a terrível iniqüidade que prevalecia na igreja, mas não sabiam como deter seus progressos, leram as proposições com grande alegria, reconhecendo nelas a voz de Deus. Pressentiam que o Senhor graciosamente estendera a mão para deter a maré de corrupção que crescia rapidamente e que promanava da Sé de Roma. Príncipes e magistrados secretamente se regozijavam de que estava para ser posto um paradeiro ao arrogante poder que negava o direito de apelar contra suas decisões.

As multidões, supersticiosas e amantes do pecado, ficaram aterrorizadas quando se varreram os sofismas que lhes acalmavam os temores. Ardilosos eclesiásticos, interrompidos em sua obra de sancionar o crime, e vendo perigar seus lucros, encolerizaram-se e se arregimentaram para sustentar suas pretensões. O reformador teve atrozes acusadores a defrontar. Alguns o acusavam de agir precipitadamente e por impulso. Outros, de ser presunçoso, declarando mais que ele não era dirigido por Deus, mas que atuava por orgulho e ardor. "Quem é

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que não sabe", respondia ele, "que raramente um homem apresenta uma idéia nova, sem que tenha alguma aparência de orgulho, e seja acusado de excitar rixas? ... Por que foram mortos Cristo e todos os mártires? Porque pareciam ser orgulhosos desprezadores da sabedoria de seu tempo, e porque apresentavam idéias novas sem ter primeiro humildemente tomado conselho com os oráculos das antigas opiniões."

Declarou mais: "O que quer que eu faça, não será feito pela prudência do homem, mas pelo conselho de Deus. Se a obra for de Deus, quem a poderá deter? se não, quem a poderá promover? Nem minha vontade, nem a deles, nem a nossa; mas a Tua vontade, ó santo Pai, que estás no Céu." - D'Aubigné.

Posto que Lutero tivesse sido movido pelo Espírito de Deus para iniciar sua obra, não a deveria ele levar avante sem severos conflitos. As acusações dos inimigos, a difamação de seus propósitos e os injustos e maldosos reparos acerca de seu caráter e intuitos, sobrevieram-lhe como um dilúvio avassalador; e não ficaram sem efeito. Ele confiara em que os dirigentes do povo, tanto na igreja como nas escolas, se lhe uniriam alegremente nos esforços em favor da Reforma. Palavras de animação por parte dos que se achavam em elevadas posições, haviam-lhe inspirado alegria e esperança. Já, em antecipação, vira ele um dia mais radiante despontar para a igreja. Mas a animação tinha-se transformado em censuras e condenações. Muitos dignitários, tanto da Igreja como do Estado, estavam convictos da verdade de suas teses; mas logo viram que a aceitação dessas verdades implicaria grandes mudanças. Esclarecer e reformar o povo corresponderia virtualmente a minar a autoridade de Roma, sustar milhares de torrentes que ora fluíam para o seu tesouro e, assim, grandemente cercear a extravagância e luxo dos chefes papais. Demais, ensinar o povo a pensar e agir como seres responsáveis, buscando apenas de Cristo a salvação, subverteria o trono do pontífice, destruindo finalmente sua própria autoridade. Por esta razão recusaram o conhecimento a eles oferecido por Deus, e se dispuseram

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contra Cristo e a verdade pela sua oposição ao homem que Ele enviara para os esclarecer.

Lutero tremia quando olhava para si mesmo - um só homem opor-se às mais poderosas forças da Terra. Algumas vezes duvidava se havia sido, na verdade, levado por Deus a colocar-se contra a autoridade da igreja. "Quem era eu", escreveu ele, "para opor-me à majestade do papa, perante quem... os reis da Terra e o mundo inteiro tremiam? ... Ninguém poderá saber o que meu coração sofreu durante estes primeiros dois anos, e em que desânimo, poderia dizer em que desespero, me submergi." - D'Aubigné. Mas ele não foi abandonado ao desânimo. Quando faltou o apoio humano, olhou para Deus somente, e aprendeu que poderia arrimar-se em perfeita segurança Àquele todo-poderoso braço.

A um amigo da Reforma, Lutero escreveu: "Não podemos atingir a compreensão das Escrituras, quer pelo estudo quer pelo intelecto. Teu primeiro dever é começar pela oração. Roga ao Senhor que te conceda, por Sua grande misericórdia, o verdadeiro entendimento de Sua Palavra. Não há nenhum intérprete da Palavra de Deus senão o Autor dessa Palavra, como Ele mesmo diz: 'E serão todos ensinados por Deus.' Nada esperes de teus próprios trabalhos, de tua própria compreensão: confia somente em Deus, e na influência de Seu Espírito. Crê isto pela palavra de um homem que tem tido experiência." - D'Aubigné. Eis aqui uma lição de importância vital para os que sentem que Deus os chamou a fim de apresentar a outrem as verdades solenes para este tempo. Estas verdades suscitarão a inimizade de Satanás e dos homens que amam as fábulas que ele imaginou. No conflito com os poderes do mal, há necessidade de algo mais do que força de intelecto e sabedoria humana.

Quando inimigos apelavam para os costumes e tradições, ou para as afirmações e autoridade do papa, Lutero os enfrentava com a Bíblia, e com a Bíblia unicamente. Ali estavam argumentos que não podiam refutar; portanto os escravos do formalismo e superstição clamavam por seu sangue, como o fizeram os judeus pelo sangue de Cristo. "Ele é um herege",

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bradavam os zelosos romanos. "É alta traição à igreja permitir que tão horrível herege viva uma hora mais. Arme-se imediatamente para ele a forca!" - D'Aubigné.

Lutero, porém, não caiu vítima da fúria deles. Deus tinha uma obra para ele fazer, e a fim de o proteger foram enviados anjos do Céu. Entretanto, muitos que de Lutero tinham recebido a preciosa luz, tornaram-se objeto da ira de Satanás, e por amor à verdade sofreram corajosamente tortura e morte.

Os ensinos de Lutero atraíram a atenção dos espíritos pensantes de toda a Alemanha. De seus sermões e escritos procediam raios de luz que despertavam e iluminavam a milhares. Uma fé viva estava tomando o lugar do morto formalismo em que a igreja se mantivera durante tanto tempo. O povo estava diariamente perdendo a confiança nas superstições do catolicismo. As barreiras do preconceito iam cedendo. A Palavra de Deus, pela qual Lutero provava toda a doutrina e qualquer reclamo, era semelhante a uma espada de dois gumes, abrindo caminho ao coração do povo. Por toda parte se despertava o desejo de progresso espiritual. Fazia séculos que não se via, tão generalizada, a fome e sede de justiça. Os olhos do povo, havia tanto voltados para ritos humanos e mediadores terrestres, volviam-se agora em arrependimento e fé para Cristo, e Este crucificado.

Esse interesse generalizado, mais ainda despertou os temores das autoridades papais. Lutero recebeu intimação para comparecer a Roma, a fim de responder pela acusação de heresia. A ordem encheu de terror a seus amigos. Sabiam perfeitamente bem o perigo que o ameaçava naquela corrupta cidade, já embriagada com o sangue dos mártires de Jesus. Protestaram contra sua ida a Roma, e requereram fosse ele interrogado na Alemanha.

Assim se fez por fim e foi designado o núncio papal para ouvir o caso. Nas instruções comunicadas pelo pontífice a esse legado, referiu-se que Lutero fora já declarado herege. O núncio foi, portanto, encarregado, de o "processar e constranger

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sem demora". Se ele permanecesse firme, e o legado não conseguisse apoderar-se de sua pessoa, tinha poderes "para proscrevê-lo em todas as partes da Alemanha; banir, amaldiçoar e excomungar todos os que estivessem ligados a ele". - D'Aubigné. E, além disso, determinou a seu legado, a fim de desarraigar inteiramente a pestífera heresia, que, exceto o imperador, excomungasse de qualquer dignidade na Igreja ou Estado, a todos os que negligenciassem prender Lutero e seus adeptos, entregando-os à vingança de Roma.

Aqui se patenteia o verdadeiro espírito do papado. Nenhum indício de princípios cristãos, ou mesmo de justiça comum, se pode notar no documento todo. Lutero estava a grande distância de Roma; não tivera oportunidade de explicar ou defender sua atitude; no entanto, antes que seu caso fosse investigado, era sumariamente declarado herege, e no mesmo dia exortado, acusado, julgado e condenado; e tudo isto por aquele que se intitulava santo pai, a única autoridade suprema, infalível na Igreja ou no Estado!

Nessa ocasião, em que Lutero tanto necessitava da simpatia e conselho de um verdadeiro amigo, a providência de Deus enviou Melâncton a Wittenberg. Jovem, modesto e tímido nas maneiras, o são discernimento de Melâncton, seu extenso saber e convincente eloqüência, combinados com a pureza e retidão de caráter, conquistaram admiração e estima gerais. O brilho de seus talentos não era mais assinalado do que a gentileza de suas maneiras. Logo se tornou um fervoroso discípulo do evangelho, o amigo de mais confiança e valioso apoio para Lutero, servindo sua brandura, prudência e exatidão de complemento à coragem e energia daquele. Sua cooperação na obra acrescentou força à Reforma, e foi uma fonte de grande animação para Lutero.

Augsburgo fora designada como o lugar para o processo, e o reformador partiu a pé para fazer a viagem até lá. Alimentavam-se sérios temores a seu respeito. Fizeram-se abertamente ameaças de que ele seria agarrado e assassinado no caminho, e seus amigos rogaram-lhe que se não

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aventurasse. Solicitaram-lhe mesmo que durante algum tempo saísse de Wittenberg e procurasse segurança com os que de bom grado o protegeriam. Ele, porém, não queria deixar a posição em que Deus o colocara. Deveria continuar fielmente a manter a verdade, apesar das procelas que sobre ele se abatiam. Sua expressão era: "Sou como Jeremias, homem de lutas e contendas; mas, quanto mais aumentam suas ameaças, mais cresce a minha alegria. ... Já destruíram minha honra e reputação. Uma única coisa permanece: meu desprezível corpo; que o tomem, abreviarão assim, por algumas horas, a minha vida. Mas, quanta a minha alma, não a podem tomar. Aquele que deseja proclamar a verdade de Cristo ao mundo, deve esperar a morte a cada momento." - D'Aubigné.

As notícias da chegada de Lutero a Augsburgo deram grande satisfação ao legado papal. O perturbador herege que despertava a atenção do mundo inteiro, parecia agora em poder de Roma, e o legado decidiu que ele não escapasse. O reformador deixara de munir-se de salvo-conduto. Seus amigos insistiam em que sem ele não aparecesse perante o legado, e eles próprios se empenharam em consegui-lo do imperador. O núncio tencionava obrigar a Lutero, sendo possível, a retratar-se, ou, não conseguindo isto, fazer com que fosse levado a Roma, para participar da sorte de Huss e Jerônimo. Por conseguinte, mediante seus agentes esforçou-se por induzir Lutero a aparecer sem salvo-conduto, confiante em sua misericórdia. Isto o reformador se recusou firmemente a fazer. Antes que recebesse o documento hipotecando-lhe a proteção do imperador, não compareceu à presença do embaixador papal.

Haviam decidido os romanistas, como ardiloso expediente, tentar ganhar a Lutero com aparência de amabilidade. O legado, em suas entrevistas com ele, mostrava grande amizade; mas exigia que Lutero se submetesse implicitamente à autoridade da igreja, e cedesse em todos os pontos sem argumentação ou questões. Não avaliara devidamente o caráter do homem com quem devia tratar. Lutero, em resposta, exprimiu sua consideração pela igreja, seu desejo de verdade, sua

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prontidão em responder a todas as objeções ao que ele havia ensinado, e em submeter suas doutrinas à decisão de algumas das principais universidades. Mas ao mesmo tempo protestava contra a maneira de agir do cardeal, exigindo-lhe retratar-se sem ter provado estar ele em erro.

A única resposta foi: "Retrate-se, retrate-se!" O reformador mostrou que sua atitude era apoiada pelas Escrituras, e declarou com firmeza que não poderia renunciar à verdade. O legado, incapaz de responder ao argumento de Lutero, cumulou-o com uma tempestade de acusações, zombarias, escárnios e lisonjas, entremeados de citações da tradição e dos dizeres dos pais da igreja, sem proporcionar ao reformador oportunidade de falar. Vendo que a conferência, assim continuando, seria completamente vã, Lutero obteve, por fim, relutante permissão para apresentar sua resposta por escrito.

"Assim fazendo", disse ele, escrevendo a um amigo, "os oprimidos encontram duplo proveito; primeiro, aquilo que escrevi pode ser submetido ao juízo de outrem; segundo, tem-se melhor oportunidade de trabalhar com os temores, se é que não com a consciência, de um déspota arrogante e palrador, que do contrário dominaria pela sua linguagem imperiosa." - Vida e Tempos de Lutero, de Martyn.

Na próxima entrevista, Lutero apresentou uma exposição clara, concisa e poderosa, de suas opiniões, amplamente apoiadas por muitas citações das Escrituras. Este documento, depois de o ter lido em voz alta, entregou ao cardeal que, entretanto, o lançou desdenhosamente ao lado, declarando ser ele um acervo de palavras ociosas e citações que nada provavam. Lutero, assim estimulado, defronta então o altivo prelado em seu próprio terreno - as tradições e ensinos da igreja - e literalmente derrota suas afirmações.

Quando o prelado viu que o raciocínio de Lutero era irrespondível, perdeu todo o domínio de si mesmo e, colérico, exclamou: "Retrate-se! ou mandá-lo-ei a Roma, para ali comparecer perante os juízes comissionados para tomarem conhecimento de sua causa. Excomungá-lo-ei e a todos os seus

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partidários, e a todos os que em qualquer ocasião o favorecerem, e os lançarei fora da igreja." E finalmente declarou, em tom altivo e irado: "Retrate-se, ou não volte mais!" - D'Aubigné.

O reformador de pronto se retirou com os amigos, declarando assim plenamente que nenhuma retratação se deveria esperar dele. Isto não era o que o cardeal se propusera. Ele se havia lisonjeado de poder pela violência forçar Lutero a submeter-se. Agora, deixado só com os que o apoiavam, olhava para um e para outro, em completo desgosto pelo inesperado fracasso de seus planos.

Os esforços de Lutero nesta ocasião não ficaram sem bons resultados. A grande assembléia presente tivera oportunidade de comparar os dois homens, e julgar por si do espírito manifestado por eles, bem como da força e verdade de suas posições. Quão assinalado era o contraste! O reformador, simples, humilde, firme, permanecia na força de Deus, tendo ao seu lado a verdade; o representante do papa, importante a seus próprios olhos, despótico, altivo e desarrazoado, achava-se sem um único argumento das Escrituras, exclamando, no entanto, veementemente: "Retrate-se, ou será enviado a Roma para o castigo!"

Se bem que Lutero se houvesse munido de salvo-conduto, os romanistas estavam conspirando para apanhá-lo e aprisioná-lo. Seus amigos insistiam em que, como lhe era inútil prolongar sua permanência, deveria sem demora voltar a Wittenberg, e que a máxima cautela se deveria ter no sentido de ocultar suas intenções. De acordo com isto, ele deixou Augsburgo antes do raiar do dia, a cavalo, acompanhado apenas de um guia a ele fornecido pelo magistrado. Com muitos pressentimentos atravessou sem ser percebido as ruas escuras e silenciosas da cidade. Inimigos, vigilantes e cruéis, estavam a conspirar para a sua destruição. Escaparia das ciladas que lhe preparavam? Eram momentos de ansiedade e fervorosas orações. Atingiu uma pequena porta no muro da cidade. Abriu-se-lhe e, com o guia, por ela passou sem impedimento. Uma vez livres do lado de fora, os fugitivos apressaram a fuga e, antes que o

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legado soubesse da partida de Lutero, achava-se ele além do alcance de seus perseguidores. Satanás e seus emissários estavam derrotados. O homem que haviam pensado estar em seu poder, tinha-se ido, escapara-se, como um pássaro da armadilha do caçador.

Com as notícias da fuga de Lutero, o legado ficou opresso de surpresa e cólera. Esperara ele receber grande honra por seu tino e firmeza ao tratar com o perturbador da igreja; mas frustrara-se-lhe a esperança. Deu expressão à sua raiva em carta a Frederico, o eleitor da Saxônia, denunciando com amargura a Lutero, e reclamando que Frederico enviasse o reformador a Roma ou que o banisse da Saxônia.

Em sua defesa, Lutero insistia em que o legado do papa lhe mostrasse seus erros pelas Escrituras, e comprometia-se da maneira mais solene a renunciar a suas doutrinas se se pudesse mostrar estarem em desacordo com a Palavra divina. E exprimia sua gratidão a Deus por haver sido considerado digno de sofrer por uma causa tão santa.

O eleitor possuía ainda pouco conhecimento das doutrinas reformadas, mas estava fundamente impressionado pela sinceridade, força e clareza das palavras de Lutero; e, até que se provasse estar o reformador em erro, resolveu Frederico permanecer como seu protetor. Em resposta ao pedido do legado, escreveu: "'Visto que o Dr. Martinho compareceu perante vós, em Augsburgo, deveríeis estar satisfeito. Não esperávamos que vos esforçásseis por fazê-lo retratar-se sem o haver convencido de seus erros. Nenhum dos homens doutos de nosso principado me informou de que a doutrina de Martinho seja ímpia, anticristã ou herética.' O príncipe recusou-se, além disso, a enviar Lutero a Roma, ou expulsá-lo de seus domínios." - D'Aubigné.

O eleitor notara uma ruína geral das restrições morais na sociedade. Era indispensável grande obra de reforma. As complicadas e dispendiosas medidas para restringir e punir o crime seriam desnecessárias se os homens tão-somente reconhecessem e obedecessem à lei de Deus e aos ditames de uma

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consciência esclarecida. O eleitor via que Lutero trabalhava para conseguir este objetivo, e secretamente se regozijava de que uma influência melhor se estivesse fazendo sentir na igreja.

Via também que, como professor na Universidade, Lutero tivera extraordinário êxito. Um ano apenas se passara desde que o reformador afixara as teses na igreja do castelo, e no entanto, já havia grande baixa no número de peregrinos que visitavam a igreja na festa de Todos os Santos. Roma fora privada de adoradores e ofertas, mas seu lugar se preenchera por outra classe que agora vinha a Wittenberg, não como peregrinos para adorar suas relíquias, mas como estudantes para encher as suas salas de estudo. Os escritos de Lutero haviam suscitado por toda parte novo interesse nas Escrituras Sagradas, e não somente de todos os recantos da Alemanha, mas de outros países, que congregavam estudantes na Universidade. Moços, chegando à vista de Wittenberg pela primeira vez, "erguiam as mãos ao Céu e louvavam a Deus por ter feito com que desta cidade a luz da verdade resplandecesse como de Sião, nos tempos antigos, e dali se espalhasse mesmo aos mais longínquos países". - D'Aubigné.

Lutero ainda não estava de todo convertido dos erros do catolicismo. Enquanto, porém, comparava as Santas Escrituras com os decretos e constituições papais, enchia-se de espanto. "Estou lendo", escreveu ele, "os decretos dos pontífices, e ... não sei se o papa é o próprio anticristo, ou seu apóstolo, em tão grande maneira Cristo é neles representado falsamente e crucificado." - D'Aubigné. No entanto, Lutero nessa ocasião era ainda adepto da Igreja de Roma, e não tinha o pensamento de que em algum tempo se separaria de sua comunhão.

Os escritos e doutrinas do reformador estendiam-se a todas as nações da cristandade. A obra espalhou-se à Suíça e Holanda. Exemplares de seus escritos tiveram ingresso na França e Espanha. Na Inglaterra, seus ensinos eram recebidos como palavras de vida. À Bélgica e Itália também se estendeu a verdade. Milhares estavam a despertar do torpor mortal para a alegria e esperança de uma vida de fé.

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Roma exasperou-se cada vez mais com os ataques de Lutero, e por alguns de seus fanáticos oponentes foi declarado, mesmo por doutores das universidades católicas, que aquele que matasse o monge rebelde estaria sem pecado. Certo dia, um estranho, com uma arma de fogo escondida sob a capa, aproximou-se do reformador, e perguntou porque ia assim sozinho. "Estou nas mãos de Deus", respondeu. "Ele é minha força e meu escudo. Que me poderá fazer o homem?" - D'Aubigné. Ouvindo estas palavras o estranho empalideceu, e fugiu como se fosse da presença de anjos do Céu.

Roma estava empenhada na destruição de Lutero, mas Deus era a sua defesa. Suas doutrinas eram ouvidas em toda parte, "nas cabanas e nos conventos, ... nos castelos dos nobres, nas universidades e nos palácios dos reis"; e homens nobres surgiram por toda parte para amparar-lhe os esforços. - D'Aubigné.

Foi aproximadamente por esse tempo que Lutero, lendo as obras de Huss, achou que a grande verdade da justificação pela fé, que ele próprio procurava sustentar e ensinar, tinha sido mantida pelo reformador boêmio. "Nós todos", disse Lutero, "Paulo, Santo Agostinho, e eu mesmo, temos sido hussitas, sem o saber!" "Deus certamente disso tomará contas ao mundo", continuou ele, "de que a verdade a ele pregada há um século tenha sido queimada!" - Wylie.

Num apelo ao imperador e à nobreza da Alemanha, em favor da Reforma do cristianismo, Lutero escreveu relativamente ao papa: "É horrível contemplar o homem que se intitula vigário de Cristo, a ostentar uma magnificência que nenhum imperador pode igualar. É isso ser semelhante ao pobre Jesus, ou ao humilde Pedro? Ele é, dizem, o senhor do mundo! Mas Cristo, cujo vigário ele se jacta de ser, disse: 'Meu reino não é deste mundo.' Podem os domínios de um vigário estender-se além dos de seu superior?" - D'Aubigné.

Assim escreveu ele acerca das universidades: "Receio muito que as universidades se revelem grandes portas do inferno,

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a menos que diligentemente trabalhem para explicar as Santas Escrituras, e gravá-las no coração dos jovens. Não aconselho ninguém a pôr seu filho onde as Escrituras não reinem supremas. Toda instituição em que os homens não se achem incessantemente ocupados com a Palavra de Deus, tem de tornar-se corrupta." - D'Aubigné.

Esse apelo circulou rapidamente por toda a Alemanha e exerceu poderosa influência sobre o povo. A nação toda foi abalada, e multidões se animaram a arregimentar-se em redor do estandarte da Reforma. Os oponentes de Lutero, ardentes no desejo de vingança, insistiam em que o papa tomasse medidas decisivas contra ele. Decretou-se que suas doutrinas fossem imediatamente condenadas. Sessenta dias foram concedidos ao reformador e a seus adeptos, findos os quais, se não as abandonassem, deveriam todos ser excomungados.

Foi uma crise terrível para a Reforma. Durante séculos, a sentença de excomunhão, de Roma, ferira de terror a poderosos monarcas; enchera fortes impérios de desgraça e desolação. Aqueles sobre quem caía sua condenação, eram universalmente considerados com espanto e horror; cortavam-se-lhes as relações com seus semelhantes, e eram tratados como proscritos que se deveriam perseguir até à exterminação. Lutero não tinha os olhos fechados à tempestade prestes a irromper sobre ele, mas permaneceu firme, confiando em que Cristo lhe seria apoio e escudo. Com fé e coragem de mártir escreveu: "O que está para acontecer não sei, nem cuido em sabê-lo. ... Caia onde cair o golpe, não tenho receio. Nem ao menos uma folha tomba ao solo sem a vontade de nosso Pai. Quanto mais não cuidará Ele de nós! Coisa fácil é morrer pela Palavra, visto que a própria Palavra ou o Verbo, que Se fez carne, morreu. Se morrermos com Ele, com Ele viveremos; e passando por aquilo por que Ele passou antes de nós, estaremos onde Ele está, e com Ele habitaremos para sempre." - D'Aubigné.

Quando a bula papal chegou a Lutero, disse ele: "Desprezo-a e ataco-a como ímpia, falsa. ... É o próprio Cristo que

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nela é condenado. ... Regozijo-me por ter de suportar tais males pela melhor das causas. Sinto já maior liberdade em meu coração; pois finalmente sei que o papa é o anticristo, e que o seu trono é o do próprio Satanás." - D'Aubigné.

Todavia a ordem de Roma não foi sem efeito. A prisão, tortura e espada eram armas potentes para forçar à obediência. Os fracos e supersticiosos tremiam perante o decreto do papa; e, conquanto houvesse simpatia geral por Lutero, muitos sentiam que a vida era por demais preciosa para que fosse arriscada na causa da Reforma. Tudo parecia indicar que a obra do reformador estava a ponto de terminar.

Mas Lutero ainda era destemido. Roma tinha arremessado seus anátemas contra ele, e o mundo olhava, nada duvidando de que perecesse ou fosse obrigado a render-se. Mas com poder terrível ele rebateu contra ela a sentença de condenação, e publicamente declarou sua decisão de abandoná-la para sempre. Na presença de uma multidão de estudantes, doutores e cidadãos de todas as classes, Lutero queimou a bula papal, com as leis canônicas, decretos e certos escritos que sustentavam o poder papal. "Meus inimigos, queimando meus livros, foram capazes", disse ele, "de prejudicar a causa da verdade no espírito do povo comum, e destruir-lhes a alma; por esse motivo consumo seus livros, em retribuição. Uma luta séria acaba de começar. Até aqui tenho estado apenas a brincar com o papa. Iniciei esta obra no nome de Deus; ela se concluirá sem mim, e pelo Seu poder." - D'Aubigné.

Às acusações dos inimigos, que dele zombavam pela fraqueza de sua causa, Lutero respondia: "Quem sabe se Deus não me escolheu e chamou, e se eles não deverão temer que, ao desprezar-me, desprezem ao próprio Deus? Moisés esteve só, na partida do Egito; Elias esteve só, no reino do rei Acabe; Isaías só, em Jerusalém; Ezequiel só, em Babilônia. ... Deus nunca escolheu como profeta nem o sumo sacerdote, nem qualquer outra grande personagem; mas comumente escolhia homens humildes e desprezados, e uma vez mesmo o pastor

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Amós. Em todas as épocas, os santos tiveram que reprovar os grandes, reis, príncipes, sacerdotes e sábios, com perigo de vida. ... Não me considero profeta; mas digo que eles devem temer precisamente porque estou só e eles são muitos. Disto estou certo: que a Palavra de Deus está comigo, e não com eles." - D'Aubigné.

Entretanto, não foi sem terrível luta consigo mesmo que Lutero se decidiu a uma separação definitiva da igreja. Foi aproximadamente por esse tempo que escreveu: "Sinto cada dia mais e mais quão difícil é pôr de parte os escrúpulos que a gente absorveu na meninice. Oh! quanta dor me causou, posto que eu tivesse as Escrituras a meu lado, o justificar a mim mesmo que eu ousaria assumir atitude contra o papa, e tê-lo na conta de anticristo! Quais não foram as tribulações de meu coração! Quantas vezes não fiz a mim mesmo, com amargura, a pergunta que era tão freqüente nos lábios dos adeptos do papa: 'Só tu és sábio? Poderão todos os mais estar errados? Como será se afinal de contas, és tu que te achas errado, e estás a envolver em teu erro tantas almas, que então serão eternamente condenadas?' Era assim que eu lutava comigo mesmo e com Satanás, até que Cristo, por Sua própria e infalível Palavra, me fortaleceu o coração contra estas dúvidas." - Vida e Tempos de Lutero, de Martyn.

O papa ameaçara Lutero de excomunhão se ele não se retratasse, e a ameaça agora se cumprira. Apareceu nova bula, declarando a separação final do reformador, da Igreja de Roma, denunciando-o como amaldiçoado do Céu e incluindo na mesma condenação todos os que recebessem suas doutrinas. Tinha-se entrado completamente na grande contenda.

A oposição é o quinhão de todos aqueles a quem Deus emprega para apresentar verdades especialmente aplicáveis a seu tempo. Havia uma verdade presente nos dias de Lutero - verdade de especial importância naquele tempo; há uma verdade presente para a igreja hoje. Aquele que todas as

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coisas faz segundo o conselho de Sua vontade, foi servido colocar os homens em circunstâncias várias, e ordenar-lhes deveres peculiares aos tempos em que vivem e às condições sob as quais são postos. Se prezassem a luz a eles concedida, patentear-se-iam diante deles mais amplas perspectivas da verdade. Esta, porém, não é hoje desejada pela maioria, mais do que o foi pelos romanistas que se opunham a Lutero. Há, para aceitar teorias e tradições de homens em vez de a Palavra de Deus, a mesma disposição das eras passadas. Os que apresentam a verdade para este tempo não devem esperar ser recebidos com mais favor do que o foram os primeiros reformadores. O grande conflito entre a verdade e o erro, entre Cristo e Satanás, há de aumentar em intensidade até ao final da história deste mundo.

Disse Jesus a Seus discípulos: "Se vós fosseis do mundo, o mundo amaria o que era seu, mas porque não sois do mundo, antes Eu vos escolhi do mundo, por isso é que o mundo vos aborrece. Lembrai-vos da palavra que vos disse: Não é o servo maior do que o seu senhor. Se a Mim Me perseguiram, também vos perseguirão a vós; se guardaram a Minha palavra, também guardarão a vossa." João 15:19 e 20. E, por outro lado, declarou nosso Senhor explicitamente: "Ai de vós quando todos os homens de vós disserem bem, porque assim faziam seus pais aos falsos profetas." Luc. 6:26. O espírito do mundo não está hoje mais em harmonia com o espírito de Cristo do que nos primitivos tempos; e os que pregam a Palavra de Deus em sua pureza não serão recebidos agora com maior favor do que o foram naquele tempo. As maneiras de oposição à verdade podem mudar, a inimizade pode ser menos manifesta porque é mais arguta; mas o mesmo antagonismo ainda existe, e se manifestará até ao fim do tempo.

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O Poder Triunfante da Verdade



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Um novo imperador, Carlos V, subira ao trono da Alemanha, e os emissários de Roma se apressaram a apresentar suas congratulações e induzir o monarca a empregar seu poder contra a Reforma. De um lado, o eleitor da Saxônia, a quem Carlos em grande parte devia a coroa, rogava-lhe não dar passo algum contra Lutero antes de lhe conceder oportunidade de se fazer ouvir. O imperador ficou assim colocado em posição de grande perplexidade e embaraço. Os adeptos do papa não ficariam satisfeitos com coisa alguma a não ser um edito imperial sentenciando Lutero à morte. O eleitor declarava firmemente que "nem sua majestade imperial, nem outra pessoa qualquer tinha demonstrado haverem sido refutados os escritos de Lutero"; portanto, pedia "que o Dr. Lutero fosse provido de salvo-conduto, de maneira que pudesse comparecer perante um tribunal de juízes sábios, piedosos e imparciais". - D'Aubigné.

A atenção de todos os partidos dirigia-se agora para a assembléia dos Estados alemães que se reuniu em Worms logo depois da ascensão de Carlos ao poder imperial. Havia importantes questões e interesses políticos a serem considerados por esse concílio nacional. Pela primeira vez os príncipes da Alemanha deveriam encontrar-se com seu jovem monarca numa assembléia deliberativa. De todas as partes da pátria haviam chegado os dignitários da Igreja e do Estado. Fidalgos seculares, de elevada linhagem, poderosos e ciosos de seus direitos hereditários; eclesiásticos principescos, afetados de sua

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consciente superioridade em ordem social e poderio; membros da corte e seus partidários armados; e embaixadores de países estrangeiros e longínquos - todos se achavam reunidos em Worms. Contudo, naquela vasta assembléia, o assunto que despertava o mais profundo interesse era a causa do reformador saxônio.

Carlos previamente encarregara o eleitor de levar consigo Lutero à Dieta, assegurando-lhe proteção e prometendo franco estudo das questões em contenda, com pessoas competentes. Lutero estava ansioso por comparecer perante o imperador. Sua saúde achava-se naquela ocasião muito alquebrada; não obstante escreveu ao eleitor: "Se eu não puder ir a Worms com boa saúde, serei levado para lá, doente como estou. Pois se o imperador me chama, não posso duvidar de que é o chamado do próprio Deus. Se desejarem usar de violência para comigo (e isto é muito provável, pois não é para a instrução deles que me ordenam comparecer), ponho o caso nas mãos do Senhor. Ainda vive e reina Aquele que preservou os três jovens na fornalha ardente. Se Ele me não salvar, minha vida é de pouca importância. Tão-somente evitemos que o evangelho seja exposto ao escárnio dos ímpios; e por ele derramemos nosso sangue, de preferência a deixar que eles triunfem. Não me compete decidir se minha vida ou minha morte contribuirá mais para a salvação de todos. ... Podeis esperar tudo de mim... exceto fuga e renúncia. Fugir não posso, e menos ainda me retratar." - D'Aubigné.

Quando em Worms circularam as notícias de que Lutero deveria comparecer perante a Dieta, houve geral excitação. Aleandro, o delegado papal a quem fora especialmente confiado o caso, estava alarmado e enraivecido. Via que o resultado seria desastroso para a causa papal. Instituir inquérito sobre um caso em que o papa já havia pronunciado sentença de morte, seria lançar o desdém sobre a autoridade do soberano pontífice. Além disso, tinha apreensões de que os eloqüentes e poderosos argumentos daquele homem pudessem desviar da causa do papa muitos dos príncipes.

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Com muita insistência, pois, advertiu Carlos contra o aparecimento de Lutero em Worms. Por este tempo foi publicada a bula que declarava a excomunhão de Lutero. Este fato, em acréscimo às representações do legado, induziu o imperador a ceder. Escreveu ao eleitor que, se Lutero não se retratasse, deveria permanecer em Wittenberg.

Não contente com esta vitória, Aleandro trabalhou com toda a força e astúcia que possuía, para conseguir a condenação de Lutero. Com uma persistência digna de melhor causa, insistiu em que o caso chegasse à atenção dos príncipes, prelados e outros membros da assembléia, acusando o reformador de "sedição, rebelião e blasfêmia". Mas a veemência e paixão manifestadas pelo legado revelaram demasiadamente claro o espírito que o impulsionava. "Ele é movido pelo ódio e vingança", foi a observação geral, "muito mais do que pelo zelo e piedade." - D'Aubigné. A maior parte da Dieta estava mais do que nunca inclinada a considerar favoravelmente a causa de Lutero.

Com redobrado zelo insistia Aleandro com o imperador sobre o dever de executar os editos papais. Mas, pelas leis da Alemanha, não se poderia fazer isto sem o apoio dos príncipes; e vencido finalmente pela importunação do legado, Carlos ordenou-lhe apresentar seu caso à Dieta.

"Foi um dia pomposo para o núncio. A assembléia era grandiosa; a causa ainda maior. Aleandro deveria pleitear em favor de Roma, ... mãe e senhora de todas as igrejas." Deveria reivindicar a soberania de Pedro perante os principados da cristandade, reunidos em assembléia. "Possuía o dom da eloqüência e ergueu-se à altura da ocasião. Determinava a Providência que Roma aparecesse e pleiteasse pelo mais hábil de seus oradores, na presença do mais augusto tribunal, antes que fosse condenada." - Wylie. Com alguns receios, os que favoreciam o reformador anteviam o efeito dos discursos de Aleandro. O eleitor da Saxônia não estava presente, mas por sua ordem alguns de seus conselheiros ali se achavam para tomar notas do discurso do núncio.

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Com todo o prestígio do saber e da eloqüência, Aleandro se pôs a derribar a verdade. Acusação sobre acusação lançou ele contra Lutero, como inimigo da Igreja e do Estado, dos vivos e dos mortos, do clero e dos leigos, dos concílios e dos cristãos em geral. "Nos erros de Lutero há o suficiente", declarou ele, para assegurar a queima de "cem mil hereges."

Em conclusão esforçou-se por atirar o desprezo aos adeptos da fé reformada: "O que são estes luteranos? Uma quadrilha de insolentes pedantes, padres corruptos, devassos monges, advogados ignorantes e nobres degradados, juntamente com o povo comum a que transviaram e perverteram. Quanto lhes é superior o partido católico em número, competência e poder! Um decreto unânime desta ilustre assembléia esclarecerá os simples, advertirá os imprudentes, firmará os versáteis e dará força aos fracos." - D'Aubigné.

Com tais armas têm sido, em todos os tempos, atacados os defensores da verdade. Os mesmos argumentos ainda se apresentam contra todos os que ousam mostrar, em oposição a erros estabelecidos, os simples e diretos ensinos da Palavra de Deus. "Quem são estes pregadores de novas doutrinas?" exclamam os que desejam uma religião popular. "São indoutos, pouco numerosos, e das classes pobres. Contudo pretendem ter a verdade e ser o povo escolhido de Deus. São ignorantes e estão enganados. Quão superior em número e influência é a nossa igreja! Quantos grandes e ilustres homens existem entre nós! Quanto mais poder há de nosso lado!" Tais são os argumentos que têm influência decisiva sobre o mundo; mas não são mais conclusivos hoje do que o foram nos dias do reformador.

A Reforma não terminou com Lutero, como muitos supõem. Continuará até ao fim da história deste mundo. Lutero teve grande obra a fazer, transmitindo a outros a luz que Deus permitira brilhar sobre ele; contudo, não recebeu toda a luz que deveria ser dada ao mundo. Desde aquele tempo até hoje, nova luz tem estado continuamente a resplandecer sobre as

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Escrituras, e novas verdades se têm desvendado constantemente.

O discurso do legado produziu profunda impressão na Dieta. Não havia presente nenhum Lutero, com as claras e convincentes verdades da Palavra de Deus, para superar o defensor papal. Nenhuma tentativa se fez para defender o reformador. Era manifesta a disposição geral de não somente condená-lo e as doutrinas que ele ensinava mas, sendo possível, desarraigar a heresia. Roma fruíra da mais favorável oportunidade para defender sua causa. Tudo que ela poderia dizer em sua própria reivindicação, fora dito. Mas a aparente vitória foi o sinal da derrota. Dali em diante o contraste entre a verdade e o erro seria visto mais claramente, ao entrarem para a luta em campo aberto. Nunca mais desde aquele dia Roma se havia de sentir tão segura como estivera.

Conquanto a maior parte dos membros da Dieta não tivesse hesitado em entregar Lutero à vingança de Roma, muitos deles viam e deploravam a depravação existente na igreja, desejosos da supressão dos abusos de que sofria o povo alemão em conseqüência da corrupção e cobiça da hierarquia. O legado apresentara sob a luz mais favorável o dogma papal. O Senhor então constrangeu um membro da Dieta a dar uma descrição verdadeira dos efeitos da tirania papal. Com nobre firmeza, o Duque Jorge da Saxônia se levantou naquela assembléia principesca e especificou com terrível precisão os enganos e abominações do papado e seus horrendos resultados. Disse ao concluir:

"Tais são alguns dos abusos que clamam contra Roma. Toda vergonha foi posta à parte, e seu único objetivo é... dinheiro, dinheiro, dinheiro, ... de maneira que os pregadores que deveriam ensinar a verdade, nada proferem senão falsidade, e são não somente tolerados mas recompensados, porque quanto maiores forem suas mentiras, tanto maior seu ganho. É dessa fonte impura que fluem tais águas contaminadas. A devassidão estende a mão à avareza. ... Ai! é o escândalo causado pelo clero que arremessa tantas pobres almas à condenação eterna. Deve-se efetuar uma reforma geral." - D'Aubigné.

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Uma denúncia mais hábil e convincente contra os abusos papais não poderia ter sido apresentada pelo próprio Lutero; e o fato de ser o orador inimigo decidido do reformador, deu maior influência às suas palavras.

Se se abrissem os olhos dos que constituíam a assembléia, teriam visto anjos de Deus no meio deles, derramando raios de luz através das trevas do erro e abrindo mentes e corações à recepção da verdade. Era o poder do Deus da verdade e sabedoria que dirigia até os adversários da Reforma, preparando assim o caminho para a grande obra prestes a realizar-se. Martinho Lutero não estava presente; mas a voz de Alguém, maior do que Lutero, fora ouvida naquela assembléia.

Uma comissão foi logo designada pela Dieta para apresentar um relatório das opressões papais que tão esmagadoramente pesavam sobre o povo alemão. Esta lista, contendo cento e uma especificações, foi apresentada ao imperador, com o pedido de que ele tomasse imediatas medidas para a correção de tais abusos. "Que perda de almas cristãs", diziam os suplicantes, "que depredações, que extorsões, por causa dos escândalos de que se acha rodeada a cabeça espiritual da cristandade! É nosso dever evitar a ruína e desonra de nosso povo. Por esta razão, nós, de maneira humílina, mas com muita insistência rogamo-vos ordeneis uma reforma geral, e empreendais a sua realização." - D'Aubigné.

O concílio pediu então o comparecimento do reformador a sua presença. Apesar dos rogos, protestos e ameaças de Aleandro, o imperador finalmente consentiu, e Lutero foi intimado a comparecer perante a Dieta. Com a intimação foi expedido um salvo-conduto, assegurando sua volta a um lugar de segurança. Ambos foram levados a Wittenberg por um arauto que estava incumbido de conduzir o reformador a Worms.

Os amigos de Lutero estavam aterrorizados, angustiados. Sabendo do preconceito e inimizade contra ele, temiam que mesmo seu salvo-conduto não fosse respeitado, e rogavam-lhe não expusesse a vida ao perigo. Ele replicou: "Os sectários do papa não desejam minha ida a Worms, mas minha condenação

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e morte. Não importa. Não orem por mim, mas pela Palavra de Deus. ... Cristo me dará Seu Espírito para vencer esses ministros do erro. Desprezo-os em minha vida; triunfarei sobre eles pela minha morte. Estão atarefados em Worms com intuito de me obrigarem a renunciar; e esta será a minha retratação: anteriormente eu dizia que o papa é o vigário de Cristo; hoje assevero ser ele o adversário de nosso Senhor e o apóstolo do diabo." - D'Aubigné.

Lutero não deveria fazer sozinho sua perigosa viagem. Além do mensageiro imperial, três de seus amigos mais certos se decidiram a acompanhá-lo. Melâncton ardorosamente quis unir-se a eles. Seu coração estava ligado ao de Lutero, e anelava segui-lo, sendo necessário, à prisão ou à morte. Seus rogos, porém, não foram atendidos. Se Lutero perecesse, as esperanças da Reforma deveriam centralizar-se neste jovem colaborador. Disse o reformador quando se despediu de Melâncton: "Se eu não voltar e meus inimigos me matarem, continua a ensinar e permanece firme na verdade. Trabalha em meu lugar. ... Se sobreviveres, minha morte terá pouca conseqüência." - D'Aubigné. Estudantes e cidadãos que se haviam reunido para testemunharem a partida de Lutero ficaram profundamente comovidos. Uma multidão, cujo coração havia sido tocado pelo evangelho, deu-lhe as despedidas, em pranto. Assim, o reformador e seus companheiros partiram de Wittenberg.

Viram em viagem que o espírito do povo se achava oprimido por tristes pressentimentos. Em algumas cidades, honra alguma lhes era tributada. Ao pararem para o pouso, um padre amigo exprimiu seus temores, segurando diante de Lutero o retrato de um reformador italiano que sofrera o martírio. No dia seguinte souberam que os escritos de Lutero haviam sido condenados em Worms. Mensageiros imperiais estavam proclamando o decreto do imperador, e apelando ao povo para trazerem aos magistrados as obras proscritas. O arauto, temendo pela segurança de Lutero no concílio e julgando que sua resolução já pudesse estar abalada, perguntou se ele ainda desejava ir avante. Respondeu: "Posto que interdito em todas as cidades, irei." - D'Aubigné.

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Em Erfurt, Lutero foi recebido com honras. Cercado de multidões que o admiravam, passou pelas ruas que ele muitas vezes atravessara com a sacola de pedinte. Visitou sua capela no convento e pensou nas lutas pelas quais a luz que agora inundava a Alemanha se derramara em sua alma. Insistiu-se com ele a que pregasse. Isto lhe havia sido vedado, mas o arauto concedeu-lhe permissão, e o frade que fora outrora o serviçal do convento, subiu agora ao púlpito.

A uma multidão que ali se reunira, falou ele sobre as palavras de Cristo: "Paz seja convosco." "Filósofos, doutores e escritores", disse ele, "têm-se esforçado por ensinar aos homens o meio para se obter a vida eterna, e não o têm conseguido. Contar-vos-ei agora: ... Deus ressuscitou dos mortos um Homem, o Senhor Jesus Cristo, para que pudesse destruir a morte, extirpar o pecado e fechar as portas do inferno. Esta é a obra da salvação. ... Cristo venceu! estas são as alegres novas; e somos salvos por Sua obra, e não pela nossa própria. ... Disse nosso Senhor Jesus Cristo: 'Paz seja convosco; olhai Minhas mãos'; isto quer dizer: Olha, ó homem! fui Eu, Eu só, que tirei teu pecado e te resgatei; e agora tens paz, diz o Senhor."

Continuou, mostrando que a verdadeira fé se manifestará por uma vida santa. "Visto que Deus nos salvou, ordenemos nossos trabalhos de tal maneira que possam ser aceitáveis perante Ele. És rico? administra teus bens às necessidades dos pobres. Se teu trabalho é útil apenas para ti, o serviço que pretendes prestar a Deus é uma mentira." - D'Aubigné.

O povo ouvia como que extasiado. O pão da vida fora partido àquelas almas famintas. Perante elas Cristo foi levantado acima de papas, legados, imperadores e reis. Lutero não fez referência alguma à sua posição perigosa. Não procurou fazer-se objeto dos pensamentos e simpatias. Na contemplação de Cristo perdera de vista o eu. Escondera-se por trás do Homem do Calvário, procurando apenas apresentar a Jesus como o Redentor do pecador.

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Prosseguindo viagem, o reformador era em toda parte olhado com grande interesse. Uma ávida multidão acotovelava-se em redor dele, e vozes amigas advertiam-no dos propósitos dos romanistas. "Eles vos queimarão", diziam alguns, "e reduzirão vosso corpo a cinzas, como fizeram com João Huss." Lutero respondia: "Ainda que acendessem por todo o caminho de Worms a Wittenberg uma fogueira cujas chamas atingissem o céu, em nome do Senhor eu caminharia pelo meio delas; compareceria perante eles; entraria pelas mandíbulas desse hipopótamo e lhe quebraria os dentes, confessando o Senhor Jesus Cristo." - D'Aubigné.

A notícia de sua aproximação de Worms estabeleceu grande comoção. Os amigos tremiam de receio pela sua segurança; os inimigos temiam pelo êxito de sua causa. Fizeram-se acérrimos esforços para dissuadi-lo de entrar na cidade. Por instigação dos adeptos do papa, insistiu-se com ele para que se retirasse para o castelo de um amigo, onde, declarava-se, todas as dificuldades poderiam ser amigavelmente resolvidas. Os amigos esforçavam-se por excitar-lhe os temores, descrevendo os perigos que o ameaçavam. Todos os seus esforços falharam. Lutero, ainda inabalável, declarou: "Mesmo que houvesse tantos demônios em Worms como telhas nos telhados, eu ali entraria." - D'Aubigné.

À sua chegada em Worms, vasta multidão se congregou às portas para lhe dar as boas-vindas. Concorrência tão grande não houvera para saudar o próprio imperador. A excitação foi intensa, e do meio da multidão, uma voz penetrante e lamentosa entoava um canto fúnebre como aviso a Lutero quanto à sorte que o esperava. "Deus será a minha defesa", disse ele, ao descer da carruagem.

Os chefes papais não tinham acreditado que Lutero realmente se aventurasse a aparecer em Worms, e sua chegada encheu-os de consternação. O imperador imediatamente convocou seus conselheiros para considerarem como deveriam agir. Um dos bispos, católico severo, declarou: "Temo-nos consultado durante muito tempo acerca deste assunto. Livre-se vossa majestade imperial, de uma vez, deste homem. Não fez Sigismundo com que João Huss fosse queimado? Não somos obrigados a dar nem a observar o salvo-conduto de um

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herege." "Não", disse o imperador; "devemos cumprir nossa promessa." - D'Aubigné. Decidiu-se, portanto, que o reformador fosse ouvido.

A cidade toda se achava sôfrega por ver este homem notável, e uma multidão de visitantes logo encheu suas estalagens. Lutero havia-se apenas restabelecido de enfermidade recente; estava cansado da jornada, que levara duas semanas inteiras; deveria preparar-se para enfrentar os momentosos acontecimentos do dia seguinte, e necessitava de sossego e repouso. Tão grande, porém, era o desejo de o ver, que havia ele gozado apenas o descanso de algumas horas quando ao seu redor se reuniram avidamente nobres, intelectuais, sacerdotes e cidadãos. Entre estes se encontravam muitos dos nobres que tão ousadamente haviam pedido ao imperador uma reforma contra os abusos eclesiásticos e que, diz Lutero, "se tinham todos libertado por meu evangelho". - Vida e Tempos de Lutero, de Martyn. Inimigos, bem como amigos foram ver o intrépido monge. Ele, porém, os recebeu com calma inabalável, respondendo a todos com dignidade e sabedoria. Seu porte era firme e corajoso. O rosto, pálido e magro, assinalado com traços de trabalhos e enfermidade, apresentava uma expressão amável e mesmo alegre. A solenidade e ardor profundo de suas palavras conferiam-lhe um poder a que mesmo seus inimigos não podiam resistir completamente. Tanto amigos como adversários estavam cheios de admiração. Alguns estavam convictos de que uma influência divina o acompanhava; outros declaravam, como fizeram os fariseus em relação a Cristo: "Ele tem demônio."

No dia seguinte, Lutero foi chamado para estar presente à Dieta. Designou-se um oficial imperial para conduzi-lo até ao salão de audiência; foi, contudo, com dificuldade que ele atingiu o local. Todas as ruas estavam cheias de espectadores, ávidos de ver o monge que ousara resistir à autoridade do papa.

Quando estava para entrar à presença de seus juízes, um velho general, herói de muitas batalhas, disse-lhe amavelmente: "Pobre monge, pobre monge, vais agora assumir posição mais nobre do que eu ou quaisquer outros capitães já assumimos nas mais sanguinolentas de nossas batalhas! Mas, se tua

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causa é justa, e estás certo disto, vai avante em nome de Deus e nada temas. Deus não te abandonará." - D'Aubigné.

Finalmente Lutero se achou perante o concílio. O imperador ocupava o trono. Estava rodeado das mais ilustres personagens do império. Nunca homem algum comparecera à presença de uma assembléia mais importante do que aquela diante da qual Martinho Lutero deveria responder por sua fé. "Aquela cena era por si mesma uma assinalada vitória sobre o papado. O papa condenara o homem, e agora estava ele em pé, diante de um tribunal que, por esse mesmo ato, se colocava acima do papa. Este o havia posto sob interdito, separando-o de toda a sociedade humana; e no entanto era ele chamado em linguagem respeitosa, e recebido perante a mais augusta assembléia do mundo. O papa condenara-o ao silêncio perpétuo, e agora estava ele prestes a falar perante milhares de ouvintes atentos, reunidos das mais longínquas partes da cristandade. Imensa revolução assim se efetuara por intermédio de Lutero. Roma descia já do trono, e era a voz de um monge que determinava esta humilhação." - D'Aubigné.

Na presença daquela poderosa assembléia de titulares, o reformador de humilde nascimento parecia intimidado e embaraçado. Vários dos príncipes, observando sua emoção, aproximaram-se dele, e um lhe segredou: "Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma." Outro disse: "Quando fordes levados perante os governadores e reis por Minha causa, ser-vos-á ministrado, pelo Espírito de vosso Pai, o que devereis dizer." Assim, as palavras de Cristo foram empregadas pelos grandes homens do mundo para fortalecerem Seu servo na hora de prova.

Lutero foi conduzido a um lugar bem em frente do trono do imperador. Profundo silêncio caiu sobre a assembléia ali congregada. Então um oficial imperial se levantou e, apontando para uma coleção dos escritos de Lutero, pediu que o reformador respondesse a duas perguntas: Se ele os reconhecia como seus, e se se dispunha a retratar-se das opiniões que neles emitira. Lidos os títulos dos livros, Lutero respondeu, quanto à

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primeira pergunta, que reconhecia serem seus os livros. "Quanto à segunda", disse ele, "visto ser uma questão que respeita à fé e à salvação das almas, e que interessa à Palavra de Deus, o maior e mais precioso tesouro quer no Céu quer na Terra, eu agiria imprudentemente se respondesse sem reflexão. Poderia afirmar menos do que as circunstâncias exigem, ou mais do que a verdade requer, e desta maneira, pecar contra estas palavras de Cristo: 'Qualquer que Me negar diante dos homens, Eu o negarei também diante de Meu Pai, que está nos Céus.' Mat. 10:33. Por esta razão, com toda a humildade, rogo a vossa majestade imperial conceder-me tempo para que eu possa responder sem ofensa à Palavra de Deus." - D'Aubigné.

Fazendo este pedido, Lutero agiu prudentemente. Sua conduta convenceu a assembléia de que não agia por paixão ou impulso. Semelhante calma e domínio próprio, inesperados em quem se mostrara audaz e intransigente, aumentaram-lhe o poder, habilitando-o mais tarde a responder com uma prudência, decisão, sabedoria e dignidade que surpreendiam e decepcionavam seus adversários, repreendendo-lhes a insolência e orgulho.

No dia seguinte deveria ele comparecer para dar sua resposta final. Durante algum tempo seu coração se abateu, ao contemplar as forças que estavam combinadas contra a verdade. Vacilou-lhe a fé; temor e tremor lhe sobrevieram, e oprimiu-o o terror. Multiplicavam-se diante dele os perigos; seus inimigos pareciam a ponto de triunfar, e os poderes das trevas, de prevalecer. Nuvens juntavam-se em redor dele, e pareciam separá-lo de Deus. Ansiava pela certeza de que o Senhor dos exércitos estaria com ele. Em angústia de espírito lançou-se com o rosto em terra, derramando estes clamores entrecortados, lancinantes, que ninguém, senão Deus, pode compreender perfeitamente:

"Ó Deus, todo-poderoso e eterno", implorava ele, "quão terrível é este mundo! Eis que ele abre a boca para engolir-me, e tenho tão pouca confiança em Ti. ... Se é unicamente na força

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deste mundo que eu devo pôr minha confiança, tudo está acabado. ... É vinda a minha última hora, minha condenação foi pronunciada. ... Ó Deus, ajuda-me contra toda a sabedoria do mundo. Faze isto, ... Tu somente; ... pois esta não é minha obra, mas Tua. Nada tenho a fazer por minha pessoa, e devo tratar com estes grandes do mundo. ... Mas a causa é Tua, ... e é uma causa justa e eterna. Ó Senhor, auxilia-me! Deus fiel e imutável, em homem algum ponho minha confiança. ... Tudo que é do homem é incerto; tudo que do homem vem, falha. ... Escolheste-me para esta obra. ... Sê a meu lado por amor de Teu bem-amado Jesus Cristo, que é minha defesa, meu escudo e torre forte." - D'Aubigné.

Uma providência onisciente havia permitido a Lutero compreender o perigo, para que não confiasse em sua própria força, arrojando-se presunçosamente ao perigo. Não era, contudo, o temor do sofrimento pessoal, o terror da tortura ou da morte, que parecia iminente, o que o oprimia com seus horrores. Ele chegara à crise, e sentia sua insuficiência para enfrentá-la. Pela sua fraqueza, a causa da verdade poderia sofrer dano. Não para a sua própria segurança, mas para a vitória do evangelho lutava ele com Deus. Como a de Israel, naquela luta noturna, ao lado do solitário riacho, foi a angústia e conflito de sua alma. Como Israel, prevaleceu com Deus. Em seu completo desamparo, sua fé se firmou em Cristo, o poderoso Libertador. Ele se fortaleceu com a certeza de que não compareceria sozinho perante o concílio. A paz voltou à alma, e ele se regozijou de que lhe fosse permitido exaltar a Palavra de Deus perante os governadores da nação.

Com o espírito repousado em Deus, Lutero preparou-se para a luta que diante dele estava. Meditou sobre o plano de sua resposta, examinou passagens de seus próprios escritos e tirou das Sagradas Escrituras provas convenientes para sustentar sua atitude. Então, pondo a mão esquerda sobre o Volume Sagrado, que estava aberto diante dele, levantou a destra para o céu, e fez um voto de "permanecer fiel ao evangelho e confessar

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francamente sua fé, mesmo que tivesse de selar com o sangue seu testemunho". - D'Aubigné.

Ao ser de novo introduzido à presença da Dieta, seu rosto não apresentava traços de receio ou embaraço. Calmo e cheio de paz, ainda que extraordinariamente valoroso e nobre, manteve-se como testemunha de Deus entre os grandes da Terra. O oficial imperial pediu então sua decisão sobre se desejava retratar-se de suas doutrinas. Lutero respondeu em tom submisso e humilde, sem violência nem paixão. Suas maneiras eram tímidas e respeitosas; manifestou, contudo, confiança e alegria que surpreenderam a assembléia.

"Sereníssimo imperador, ilustres príncipes, graciosos fidalgos", disse Lutero; "compareço neste dia perante vós, em conformidade com a ordem a mim dada ontem, e pela mercê de Deus conjuro vossa majestade e vossa augusta alteza a escutar, com graça, a defesa de uma causa que, estou certo, é justa e verdadeira. Se, por ignorância, eu transgredir os usos e etiquetas das cortes, rogo-vos perdoar-me; pois não fui criado nos palácios dos reis, mas na reclusão de um convento." - D'Aubigné.

Então, referindo-se à pergunta, declarou que suas obras publicadas não eram todas do mesmo caráter. Em algumas havia tratado da fé e das boas obras, e mesmo seus inimigos as declaravam não somente inofensivas, mas proveitosas. Abjurá-las seria condenar verdades que todos os partidos professavam. A segunda classe consistia em escritos que expunham as corrupções e abusos do papado. Revogar estas obras fortaleceria a tirania de Roma, abrindo uma porta mais larga a muitas e grandes impiedades. Na terceira classe de seus livros atacara indivíduos que haviam defendido erros existentes. Em relação a eles confessou, francamente, que tinha sido mais violento do que convinha. Não pretendia estar isento de falta; mas mesmo esses livros não poderia revogar, pois que tal procedimento tornaria audaciosos os inimigos da verdade, e então aproveitariam a ocasião para esmagar o povo de Deus com crueldade ainda maior.

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"Não sou, todavia, senão mero homem, e não Deus", continuou ele; "portanto, defender-me-ei como fez Cristo: 'Se falei mal, dá testemunho do mal.' ... Pela misericórdia de Deus, conjuro-vos, sereníssimo imperador, e a vós, ilustríssimos príncipes, e a todos os homens de toda categoria, a provar pelos escritos dos profetas e apóstolos, que errei. Logo que estiver convicto disso, retratarei todo erro e serei o primeiro a lançar mão de meus livros e atirá-los ao fogo.

"O que acabo de dizer, claramente mostra, eu o espero, que pesei e considerei cuidadosamente os perigos a que me exponho mas, longe de me desanimar, regozijo-me por ver que o evangelho é hoje, como nos tempos antigos, causa de perturbação e dissensão. Este é o caráter, este é o destino da Palavra de Deus. 'Não vim trazer paz à Terra, mas espada', disse Jesus Cristo. Deus é maravilhoso e terrível em Seus conselhos; acautelai-vos para que não aconteça que, supondo apagar dissensões, persigais a santa Palavra de Deus e arrosteis sobre vós mesmos um pavoroso dilúvio de perigos insuperáveis, de desastres presentes e desolação eterna. ... Poderia citar muitos exemplos dos oráculos de Deus. Poderia falar dos Faraós, dos reis de Babilônia e dos de Israel, cujos trabalhos não contribuíram nunca mais eficazmente para a sua própria destruição do que quando buscavam, mediante conselhos, prudentíssimos na aparência, fortalecer seu domínio. Deus 'é O que transporta montanhas, sem que o sintam'." - D'Aubigné.

Lutero falara em alemão; foi-he pedido então repetir as mesmas palavras em latim. Embora exausto pelo esforço anterior, aceitou e novamente fez seu discurso, com a mesma clareza e energia que a princípio. A providência de Deus dirigiu isto. O espírito de muitos dos príncipes estava tão obliterado pelo erro e superstição que à primeira vez não viram a força do raciocínio de Lutero; mas a repetição habilitou-os a perceber claramente os pontos apresentados.

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Os que obstinadamente fechavam os olhos à luz e se decidiram a não convencer-se da verdade, ficaram enraivecidos com o poder das palavras de Lutero. Quando cessou de falar, o anunciador da Dieta disse, irado: "Não respondeste à pergunta feita. ... Exige-se que dês resposta clara e precisa. ... Retratar-te-ás ou não?"

O reformador respondeu: "Visto que vossa sereníssima majestade e vossas nobres altezas exigem de mim resposta clara, simples e precisa, dar-vo-la-ei, e é esta: Não posso submeter minha fé quer ao papa quer aos concílios, porque é claro como o dia, que eles têm freqüentemente errado e se contradito um ao outro. Portanto, a menos que eu seja convencido pelo testemunho das Escrituras ou pelo mais claro raciocínio; a menos que eu seja persuadido por meio das passagens que citei; a menos que assim submetam minha consciência pela Palavra de Deus, não posso retratar-me e não me retratarei, pois é perigoso a um cristão falar contra a consciência. Aqui permaneço, não posso fazer outra coisa; Deus queira ajudar-me. Amém." - D'Aubigné.

Assim se manteve este homem justo sobre o firme fundamento da Palavra de Deus. A luz do Céu iluminava-lhe o semblante. Sua grandeza e pureza de caráter, sua paz e alegria de coração, eram manifestas a todos ao testificar ele contra o poder do erro e testemunhar a superioridade da fé que vence o mundo.

A assembléia toda ficou por algum tempo muda de espanto. Em sua primeira resposta Lutero falara em tom baixo, em atitude respeitosa, quase submissa. Os romanistas haviam interpretado isto como sinal de que lhe estivesse começando a faltar o ânimo. Consideraram o pedido de delonga simples prelúdio de sua retratação. O próprio Carlos, notando, meio desdenhoso, a constituição abatida do monge; seu traje singelo e a simplicidade de suas maneiras, declarara: "Este monge nunca fará de mim um herege." A coragem e firmeza que agora ele ostentara, bem como o poder e clareza de seu raciocínio, encheram de surpresa todos os partidos. O imperador, possuído

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de admiração, exclamou: "Este monge fala com coração intrépido e inabalável coragem." Muitos dos príncipes alemães olhavam com orgulho e alegria a este representante de sua nação.

Os partidários de Roma haviam sido vencidos; sua causa parecia sob a mais desfavorável luz. Procuraram manter seu poder, não apelando para as Escrituras, mas com recurso às ameaças - indefectível argumento de Roma. Disse o anunciador da Dieta: "Se não se retratar, o imperador e os governos do império consultar-se-ão quanto à conduta a adotar-se contra o herege incorrigível."

Os amigos de Lutero, que com grande alegria lhe ouviram a nobre defesa, tremeram àquelas palavras; mas o próprio doutor disse calmamente: "Queira Deus ser meu auxiliador, pois não posso retratar-me de coisa alguma." - D'Aubigné.

Ordenou-se-lhe que se retirasse da Dieta, enquanto os príncipes se consultavam juntamente. Pressentia-se que chegara uma grande crise. A persistente recusa de Lutero em submeter-se, poderia afetar a história da igreja durante séculos. Decidiu-se dar-lhe mais uma oportunidade para renunciar. Pela última vez foi ele levado à assembléia. Novamente foi feita a pergunta se ele renunciaria a suas doutrinas. "Não tenho outra resposta a dar", disse ele, "a não ser a que já dei." Era evidente que ele não poderia ser induzido, quer por promessas quer por ameaças, a render-se ao governo de Roma.

Os chefes papais aborreceram-se de que seu poderio, o qual fizera com que reis e nobres tremessem, fosse dessa maneira desprezado por um humilde monge: almejavam fazê-lo sentir sua ira, destruindo-lhe a vida com torturas. Lutero, porém, compreendendo o perigo, falara a todos com dignidade e calma cristãs. Suas palavras tinham sido isentas de orgulho, paixão e falsidade. Havia perdido de vista a si próprio e aos grandes homens que o cercavam, e sentia unicamente que se achava na presença de Alguém infinitamente superior aos papas, prelados, reis e imperadores. Cristo falara por intermédio do testemunho de Lutero, com um poder e grandeza que na

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ocasião causou espanto e admiração tanto a amigos como a adversários. O Espírito de Deus estivera presente naquele concílio, impressionando o coração dos principais do império. Vários dos príncipes reconheceram ousadamente a justiça da causa de Lutero. Muitos estavam convictos da verdade; mas em outros as impressões recebidas não foram duradouras. Houve outra classe que no momento não exprimiu suas convicções, mas que, tendo pesquisado as Escrituras por si mesmos, tornaram-se em ocasião posterior destemidos sustentáculos da Reforma.

O eleitor Frederico aguardara ansiosamente o comparecimento de Lutero perante a Dieta, e com profunda emoção ouviu seu discurso. Com alegria e orgulho testemunhou a coragem, firmeza e domínio próprio do doutor, e decidiu-se a permanecer mais firmemente em sua defesa. Ele contrastava as facções em contenda, e via que a sabedoria dos papas, reis e prelados, fora pelo poder da verdade reduzida a nada. O papado sofrera uma derrota que seria sentida entre todas as nações e em todos os tempos.

Quando o legado percebeu o efeito produzido pelo discurso de Lutero, como nunca dantes temeu pela segurança do poderio romano e resolveu empregar todos os meios a seu alcance, para levar a termo a derrota do reformador. Com toda a eloqüência e perícia diplomática, pelas quais tanto se distinguia, apresentou ao jovem imperador a loucura e perigo de sacrificar, pela causa de um monge desprezível, a amizade e apoio da poderosa Sé de Roma.

Suas palavras não foram destituídas de efeito. No dia que se seguiu à resposta de Lutero, Carlos fez com que fosse apresentada uma mensagem à Dieta, anunciando sua resolução de prosseguir com a política de seus predecessores, mantendo e protegendo a religião católica. Visto que Lutero se recusara a renunciar a seus erros, seriam empregadas as mais rigorosas medidas contra ele e contra as heresias que ensinava. "Um simples monge, transviado por sua própria loucura, levantou-se contra a fé da cristandade. Para deter tal impiedade, sacrificarei meus reinos, meus tesouros, meus amigos, meu corpo,

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meu sangue, minha alma e minha vida. Estou para despedir o agostiniano Lutero, proibindo-lhe causar a menor desordem entre o povo; procederei então contra ele e seus adeptos como hereges contumazes, pela excomunhão, pelo interdito e por todos os meios calculados para destruí-los. Apelo para os membros dos Estados a que se portem como fiéis cristãos." - D'Aubigné. Não obstante, o imperador declarou que o salvo conduto de Lutero deveria ser respeitado, e que, antes de se poder instituir qualquer processo contra ele, deveria ser-lhe permitido chegar a casa em segurança.

Insistiam agora os membros da Dieta em duas opiniões contrárias. Os emissários e representantes do papa, de novo pediam que o salvo-conduto do reformador fosse desrespeitado. "O Reno", diziam eles, "deveria receber suas cinzas, como recebeu as de João Huss, há um século." - D'Aubigné. Príncipes alemães, porém, conquanto fossem eles próprios romanistas e inimigos declarados de Lutero, protestavam contra tal brecha da pública fé, como uma nódoa sobre a honra da nação. Apontavam para as calamidades que se seguiram à morte de Huss e declaravam que não ousavam atrair sobre a Alemanha e sobre a cabeça de seu jovem imperador, a repetição daqueles terríveis males.

O próprio Carlos, respondendo à vil proposta, disse: "Embora fossem a honra e a fé banidas do mundo todo, deveriam encontrar um refúgio no coração dos príncipes." - D'Aubigné. Houve ainda insistência por parte dos mais encarniçados inimigos papais de Lutero, a fim de tratar o reformador como Sigismundo fizera com Huss - abandonando-o à mercê da igreja; mas lembrando-se da cena em que Huss, em assembléia pública, apontara a suas cadeias e lembrara ao monarca a sua fé empenhada, Carlos V declarou: "Eu não gostaria de corar como Sigismundo." - (Ver História do Concílio de Constança, de Lenfant.)

Não obstante, Carlos havia deliberadamente rejeitado as verdades apresentadas por Lutero. "Estou firmemente resolvido a imitar o exemplo de meus maiores", escreveu o

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monarca. Decidira não sair da senda do costume, mesmo para andar nos caminhos da verdade e justiça. Porque seus pais o fizeram, ele apoiaria o papado, com toda a sua crueldade e corrupção. Assim, assumiu sua posição, recusando-se a aceitar qualquer luz em acréscimo à que seus pais haviam recebido, ou cumprir qualquer dever que eles não cumpriram.

Muitos hoje se apegam de modo idêntico aos costumes e tradições de seus pais. Quando o Senhor lhes envia mais luz, recusam-se a aceitá-la porque, não havendo ela sido concedida a seus pais, não foi por estes acolhida. Não estamos colocados onde nossos pais se achavam; conseqüentemente nossos deveres e responsabilidades não são os mesmos. Não seremos aprovados por Deus olhando para o exemplo de nossos pais a fim de determinar nosso dever, em vez de pesquisar por nós mesmos a Palavra da verdade. Nossa responsabilidade é maior do que foi a de nossos antepassados. Somos responsáveis pela luz que receberam, e que nos foi entregue como herança; somos também responsáveis pela luz adicional que hoje, da Palavra de Deus, está a brilhar sobre nós.

Disse Cristo acerca dos judeus incrédulos: "Se Eu não viera, nem lhes houvera falado, não teriam pecado, mas agora não têm desculpa do seu pecado." João 15:22. O mesmo poder divino falara por intermédio de Lutero ao imperador e príncipes da Alemanha. E, ao resplandecer a luz da Palavra de Deus, Seu Espírito contendeu pela última vez com muitos naquela assembléia. Como Pilatos, séculos antes, permitira que o orgulho e a popularidade fechassem seu coração contra o Redentor do mundo; como o timorato Félix ordenou ao mensageiro da verdade: "Por agora vai-te, e em tendo oportunidade te chamarei"; como o orgulhoso Agripa confessou: "Por pouco me queres persuadir a que me faça cristão!" (Atos 24:25; 26:28) e no entanto se desviou da mensagem enviada pelo Céu - assim Carlos V, cedendo às sugestões do orgulho e política mundanos, decidiu-se a rejeitar a luz da verdade.

Circularam amplamente rumores dos planos feitos contra Lutero, causando por toda a cidade grande excitação. O

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reformador conquistara muitos amigos que, conhecendo a traiçoeira crueldade de Roma para com todos os que ousavam expor suas corrupções, resolveram que ele não fosse sacrificado. Centenas de nobres se comprometeram a protegê-lo. Não poucos denunciaram abertamente a mensagem real como evidência de tímida submissão ao poder de Roma. Às portas das casas e em lugares públicos, foram afixados cartazes, alguns condenando e outros apoiando Lutero. Num deles estavam meramente escritas as significativas palavras do sábio: "Ai de ti, ó terra, cujo rei é criança!" Ecl. 10:16. O entusiasmo popular em favor de Lutero, por toda a Alemanha, convenceu tanto o imperador como a Dieta de que qualquer injustiça a ele manifesta faria perigar a paz do império e mesmo a estabilidade do trono.

Frederico da Saxônia manteve uma estudada reserva, escondendo cuidadosamente seus verdadeiros sentimentos, para com o reformador, ao passo que o guardava com incansável vigilância, observando todos os seus movimentos e todos os de seus inimigos. Mas, muitos havia que não faziam tentativa para ocultar sua simpatia por Lutero. Ele era visitado por príncipes, condes, barões e outras pessoas de distinção, tanto leigas como eclesiásticas. "A salinha do doutor", escreveu Spalatin, "não podia conter todos os visitantes que se apresentavam." - Martyn. O povo contemplava-o como se fosse mais que humano. Mesmo os que não tinham fé em suas doutrinas, não podiam deixar de admirar aquela altiva integridade que o levou a afrontar a morte de preferência a violar a consciência.

Fizeram-se ardentes esforços a fim de obter o consentimento de Lutero para uma transigência com Roma. Nobres e príncipes lembraram-lhe que, se persistisse em colocar seu próprio juízo contra o da igreja e dos concílios, seria logo banido do império e não teria então defesa. A este apelo Lutero respondeu:"O evangelho de Cristo não pode ser pregado sem dano. ... Por que, pois, deveria o temor ou apreensão do perigo separar-me do Senhor, e da divina Palavra, que, unicamente, é a verdade?

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Não! entregaria antes meu corpo, meu sangue e minha vida." - D'Aubigné.

De novo insistiu-se com ele para que se submetesse ao juízo do imperador, e então nada precisaria temer. "Consinto", disse ele em resposta, "de todo o meu coração, em que o imperador, os príncipes e mesmo o mais obscuro cristão, examinem e julguem os meus livros; mas, sob uma condição: que tomem a Palavra de Deus como norma. Os homens nada têm a fazer senão obedecer-lhe. Não façais violência à minha consciência, que está ligada e encadeada às Escrituras Sagradas." - D'Aubigné.

A um outro apelo disse ele: "Consinto em renunciar ao salvo-conduto. Coloco minha pessoa e minha vida nas mãos do imperador, mas a Palavra de Deus - nunca!" - D'Aubigné. Declarou estar disposto a submeter-se à decisão de um concílio geral, mas unicamente sob a condição de que se exigisse do concílio decidir de acordo com as Escrituras. "No tocante à Palavra de Deus e à fé", acrescentou ele, "todo cristão é juiz tão bom como pode ser o próprio papa, embora apoiado por um milhão de concílios." - Martyn. Tanto amigos como adversários finalmente se convenceram de que afirmação seriam quaisquer outros esforços de reconciliação.

Houvesse o reformador cedido num único ponto, e Satanás e suas hostes teriam ganho a vitória. Mas sua persistente firmeza foi o meio para a emancipação da igreja e o início de uma era nova e melhor. A influência deste único homem, que ousou pensar e agir por si mesmo em assuntos religiosos, deveria afetar a igreja e o mundo, não somente em seu próprio tempo mas em todas as gerações futuras. Sua firmeza e fidelidade fortaleceriam, até ao final do tempo, a todos os que passassem por experiência semelhante. O poder e majestade de Deus se mantiveram acima do conselho dos homens, acima da potente força de Satanás.

Por autorização do imperador foi Lutero logo ordenado a voltar para casa, e sabia que este aviso seria imediatamente seguido de sua condenação. Nuvens ameaçadoras pairavam sobre seu caminho; mas, partindo de Worms, seu coração se

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encheu de alegria e louvor. "O próprio diabo", disse ele, "guardou a fortaleza do papa, mas Cristo fez nela uma larga brecha, e Satanás foi constrangido a confessar que o Senhor é mais poderoso do que ele." - D'Aubigné.

Depois de sua partida, ainda desejoso de que sua firmeza não fosse mal-interpretada como sendo rebelião, Lutero escreveu ao imperador: "Deus, que é o pesquisador dos corações, é minha testemunha", disse ele, "de que estou pronto para, da maneira mais ardorosa, obedecer a vossa majestade, na honra e na desonra, na vida e na morte, e sem exceções, a não ser a Palavra de Deus, pela qual o homem vive. Em todas as preocupações da presente vida, minha fidelidade será inabalável, pois perder ou ganhar neste mundo é de nenhuma conseqüência para a salvação. Mas quando se acham envolvidos interesses eternos, Deus não quer que o homem se submeta ao homem; pois tal submissão em assuntos espirituais é verdadeiro culto, e este deve ser prestado unicamente ao Criador." - D'Aubigné.

Na viagem de volta de Worms, a recepção de Lutero foi mais lisonjeira mesmo do que na sua ida para ali. Eclesiásticos principescos davam as boas-vindas ao monge excomungado, e governadores civis honravam ao homem que o imperador denunciara. Insistiu-se com ele que pregasse e, não obstante a proibição imperial, de novo subiu ao púlpito. "Nunca me comprometi a acorrentar a Palavra de Deus", disse ele, "nem o farei." - Martyn. Não estivera ainda muito tempo ausente de Worms, quando os chefes coagiram o imperador a promulgar um edito contra ele. Nesse decreto Lutero foi denunciado como o "próprio Satanás sob a forma de homem e sob as vestes de monge". - D'Aubigné. Ordenou-se que, logo ao expirar o prazo de seu salvo-conduto, se adotassem medidas para deter a sua obra. Proibia-se a todas as pessoas abrigá-lo, dar-lhe comida ou bebida, ou por palavras ou atos, em público ou em particular, auxiliá-lo ou apoiá-lo. Deveria ser preso onde quer que o pudesse ser, e entregue às autoridades. Presos deveriam ser também seus adeptos, e confiscadas suas propriedades. Deveriam destruir-se seus escritos e, finalmente, todos os que ousassem agir contrariamente àquele decreto eram incluídos em sua condenação.

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O eleitor da Saxônia e os príncipes mais amigos de Lutero tinham-se retirado de Worms logo depois de sua partida, e o decreto do imperador recebeu a sanção da Dieta. Achavam-se agora jubilosos os romanistas. Consideravam selada a sorte da Reforma.

Deus provera a Seu servo nesta hora de perigo um meio para escapar ao mesmo. Um olhar vigilante acompanhava os movimentos de Lutero e um coração verdadeiro e nobre decidira o seu livramento. Era claro que Roma não se satisfaria com coisa alguma senão sua morte; unicamente ocultando-se poderia ele ser preservado das garras do leão. Deus dera sabedoria a Frederico da Saxônia para idear um plano destinado a preservar o reformador. Com a cooperação de verdadeiros amigos, executou-se o propósito do eleitor, e Lutero foi, de maneira eficiente, oculto de seus amigos e inimigos. Em sua viagem de volta para casa, foi preso, separado de seus assistentes e precipitadamente transportado através da floresta para o castelo de Wartburgo, isolada fortaleza nas montanhas. Tanto o rapto como o esconderijo foram de tal maneira envoltos em mistério, que até o próprio Frederico, durante muito tempo, não soube para onde fora ele conduzido. Esta ignorância não deixou de ter seu desígnio; enquanto o eleitor nada soubesse do paradeiro de Lutero, nada poderia revelar. Convenceu-se de que o reformador estava em segurança e com isso se sentiu satisfeito.

Passaram-se a primavera, o verão e o outono, e chegara o inverno, e Lutero ainda permanecia prisioneiro. Aleandro e seus partidários exultavam quando a luz do evangelho parecia prestes a extinguir-se. Mas, em vez disso, o reformador enchia sua lâmpada no repositório da verdade; e sua luz deveria resplandecer com maior brilho.

Na proteção amiga de Wartburgo, Lutero durante algum tempo se regozijou em seu livramento do ardor e torvelinho da batalha. Mas não poderia por muito tempo encontrar satisfação no silêncio e repouso. Habituado a uma vida de atividade e acirrado conflito, mal suportava o permanecer inativo. Naqueles dias de solidão, surgia diante dele o estado da igreja, e

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exclamava em desespero: "Ai! ninguém há neste último tempo da ira do Senhor para ficar diante dEle como uma muralha e salvar Israel." - D'Aubigné. Novamente volvia os pensamentos para si mesmo e receava ser acusado de covardia por afastar-se da contenda. Acusava-se, então, de indolência e condescendência própria. No entanto, produzia diariamente mais do que parecia possível a um homem fazer. Sua pena nunca estava ociosa. Seus inimigos, conquanto se lisonjeassem de que ele estivesse em silêncio, espantavam-se e confundiam-se pela prova palpável de que ainda exercia atividade. Sem-número de folhetos, procedentes de sua pena, circulavam pela Alemanha toda. Também prestava importantíssimo serviço a seus patrícios, traduzindo o Novo Testamento para a língua alemã. De seu Patmos rochoso, continuou durante quase um ano inteiro a proclamar o evangelho e a repreender os pecados e erros do tempo.

Não foi, porém, meramente para preservar Lutero da ira de seus inimigos, nem mesmo para proporcionar-lhe uma temporada de calma para esses importantes labores, que Deus retirara Seu servo do cenário da vida pública. Visavam-se resultados mais preciosos do que esses. Na solidão e obscuridade de seu retiro montesino, Lutero esteve afastado do apoio terrestre e excluído dos louvores humanos. Foi desta maneira salvo do orgulho e confiança em si próprio, tantas vezes determinados pelo êxito. Por sofrimentos e humilhação foi de novo preparado para andar em segurança na altura vertiginosa a que tão subitamente fora exaltado.

Ao exultarem os homens na libertação que a verdade lhes traz, inclinam-se a engrandecer aqueles que Deus empregou para quebrar as cadeias do erro e superstição. Satanás procura desviar de Deus os pensamentos e afeições dos homens, e fixá-los nos fatores humanos; ele os leva a honrar o mero instrumento, e desconhecer a Mão que dirige os acontecimentos da Providência. Muitas vezes dirigentes religiosos que assim são louvados e reverenciados, perdem de vista sua dependência de Deus e são levados a confiar em si próprios. Em conseqüência,

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procuram governar o espírito e a consciência do povo que se dispõe a esperar deles a guia, em vez de esperá-la da Palavra de Deus. A obra de reforma é muitas vezes retardada por causa deste espírito da parte dos que a amparam. Deste perigo quis Deus guardar a causa da Reforma. Ele desejava que aquela obra recebesse não os característicos do homem, mas os de Deus. Os olhos dos homens tinham-se dirigido a Lutero como o expositor da verdade; ele foi removido para que todos os olhares pudessem dirigir-se ao sempiterno Autor da verdade.

II. Despertam as Nações

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A Luz na Suíça



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Na escolha dos instrumentos para a reforma da igreja, vê-se que Deus segue o mesmo plano adotado para sua fundação. O Mestre divino passou por alto os grandes homens da Terra, os titulares e ricos, que estavam acostumados a receber louvor e homenagem como dirigentes do povo. Eram tão orgulhosos e confiantes em si próprios, na sua alardeada superioridade, que não poderiam ser levados a simpatizar com os semelhantes e tornar-se colaboradores do humilde Homem de Nazaré. Aos indoutos e laboriosos pescadores da Galiléia fora dirigido o chamado: "Vinde após Mim, e Eu vos farei pescadores de homens." Mat. 4:19. Aqueles discípulos eram humildes e dóceis. Quanto menos houvessem sido influenciados pelo falso ensino de seu tempo, com tanto mais êxito poderia Cristo instruí-los e habilitá-los para Seu serviço. Assim foi nos dias da grande Reforma. Os principais reformadores foram homens de vida humilde, homens que, em seu tempo, eram os mais livres do orgulho de classe e da influência do fanatismo e astúcia dos padres. É plano de Deus empregar humildes instrumentos para atingir grandes resultados. Não será então dada a glória aos homens, mas Àquele que por meio deles opera para o querer e o efetuar de Sua própria aprovação.

Poucas semanas depois do nascimento de Lutero na cabana de um mineiro, na Saxônia, nasceu Ulrich Zwínglio, na choupana de um pastor entre os Alpes. O ambiente em que viveu

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Zwínglio na meninice, e seus primeiros ensinos, foram de molde a prepará-lo para sua missão futura. Criado entre cenas de grandiosidade, beleza e solene sublimidade natural, seu espírito foi logo impressionado com o senso da grandeza, poder e majestade de Deus. A história dos feitos heróicos que tiveram por cenário suas montanhas nativas, inflamou-lhe as juvenis aspirações. E, ao lado de sua piedosa avó, ouvia as poucas e preciosas histórias bíblicas que ela rebuscara por entre as lendas e tradições da igreja. Com ávido interesse ouvia acerca dos grandes feitos dos patriarcas e profetas, dos pastores que vigiavam seus rebanhos nas colinas da Palestina, onde anjos lhes falaram da Criancinha de Belém e do Homem do Calvário.

Semelhante a João Lutero, o pai de Zwínglio desejava educar o filho, e o rapaz cedo foi enviado fora de seu vale natal. Desenvolveu-se-lhe rapidamente o espírito, e logo surgiu a questão de saber onde encontrar professores competentes para instruí-lo. Na idade de treze anos foi a Berna, que então possuía a mais conceituada escola na Suíça. Ali, entretanto, se manifestou um perigo que ameaçou frustrar seu promissor futuro. Decididos esforços foram feitos pelos frades a fim de atraí-lo a um convento. Os monges dominicanos e franciscanos porfiavam pela obtenção do favor popular. Procuravam consegui-lo mediante vistosos adornos das igrejas, pela pompa das cerimônias, e pelas atrações das famosas relíquias e imagens miraculosas.

Os dominicanos de Berna viram que se pudessem ganhar aquele talentoso jovem estudante, conseguiriam tanto proveito como honras. Sua idade juvenil, sua natural habilidade como orador e escritor, e seu gênio para a música e poesia, seriam mais eficientes do que toda a pompa e ostentação para atrair o povo aos cultos e aumentar os proventos de sua ordem. Pelo engano e lisonja esforçaram-se por induzir Zwínglio a entrar para seu convento. Lutero, quando estudante em uma escola, havia-se sepultado na cela de um convento, e ter-se-ia perdido para o mundo se a Providência o não houvesse libertado. Não foi permitido a Zwínglio encontrar o

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mesmo perigo. Providencialmente seu pai recebeu notícia do intuito dos frades. Não tinha intenções de permitir que o filho seguisse a vida ociosa e inútil dos monges. Viu que sua utilidade futura estava em perigo, e ordenou-lhe voltar sem demora para casa.

A ordem foi obedecida; mas o jovem não poderia estar contente por muito tempo em seu vale natal, e logo retornou aos estudos, dirigindo-se depois de algum tempo a Basiléia. Foi ali que Zwínglio ouviu pela primeira vez o evangelho da livre graça de Deus. Wittenbach, professor de línguas antigas, ao estudar o grego e o hebraico, fora conduzido às Escrituras Sagradas, e assim raios de luz divina se derramaram na mente dos estudantes sob sua instrução. Declarava ele existir uma verdade mais antiga e de valor infinitamente maior que as teorias ensinadas pelos escolásticos e filósofos. Esta antiga verdade era que a morte de Cristo é o único resgate do pecador. Para Zwínglio estas palavras foram como o primeiro raio de luz que precede a aurora.

Logo foi Zwínglio chamado de Basiléia para o serviço ativo. Seu primeiro campo de trabalho foi uma paróquia alpina, não muito distante de seu vale natal. Ordenado padre, "dedicou-se de toda a sua alma à pesquisa da verdade divina; pois estava bem ciente", declara um companheiro de reforma, "de quanto devia saber aquele a quem o rebanho de Cristo é confiado". - Wylie. Quanto mais pesquisava as Escrituras, mais claro aparecia o contraste entre suas verdades e as heresias de Roma. Ele se submeteu à Bíblia como a Palavra de Deus, única regra suficiente, infalível. Viu que ela deveria ser seu próprio intérprete. Não ousou tentar a explicação das Escrituras a fim de sustentar uma teoria ou doutrina preconcebida, mas mantinha como seu dever aprender o que constituem seus ensinos diretos e óbvios. Procurou aproveitar-se de todo auxílio a fim de obter compreensão ampla e correta de seu sentido, e invocou a ajuda do Espírito Santo, que, declarou ele, o revelaria a todos que O buscassem com sinceridade e oração.

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"As Escrituras", dizia Zwínglio, "vêm de Deus, não do homem, e mesmo aquele Deus que esclarece te dará a compreender que a palavra vem de Deus. A Palavra de Deus... não pode falhar; é clara, ensina por si mesma, desvenda-se a si própria, ilumina a alma com toda a salvação e graça, conforta-a em Deus, humilha-a de maneira que ela se perde a si mesma, e até se despoja e abraça a Deus." - Wylie. A verdade destas palavras Zwínglio mesmo havia provado. Falando de sua experiência naquele tempo, escreveu depois: "Quando... comecei a devotar-me inteiramente às Escrituras Sagradas, a filosofia e a teologia (escolástica) sempre me sugeriam disputas. Finalmente cheguei a esta conclusão: 'Deves deixar toda inverdade, e aprender a significação de Deus unicamente de Sua própria e simples Palavra.' Então comecei a rogar a Deus a Sua luz, e as Escrituras foram-se tornando para mim muito mais fáceis." - Wylie.

A doutrina pregada por Zwínglio, não a recebera ele de Lutero. Era a doutrina de Cristo. "Se Lutero prega a Cristo", disse o reformador suíço, "ele faz o que eu estou fazendo. Aqueles a quem ele levou a Cristo são mais numerosos do que os que levei. Mas isto não importa. Não pregarei nenhum outro nome a não ser o de Cristo, de quem sou soldado, e que unicamente é o meu Chefe. Nunca uma só palavra foi por mim escrita a Lutero, nem por Lutero a mim. E por quê?... Para que se pudesse mostrar quanto é consigo mesmo concorde o Espírito de Deus, visto que nós ambos, sem qualquer combinação comum, ensinamos a doutrina de Cristo com tal uniformidade." - D'Aubigné.

Em 1516 Zwínglio foi convidado para ser pregador no convento de Einsiedeln. Ali deveria ter mais nítida perspectiva das corrupções de Roma e, como reformador, exercer uma influência que seria sentida muito além de seus Alpes nativos. Entre as principais atrações de Einsiedeln havia uma imagem da Virgem que diziam ter o poder de operar milagre. Por sobre o portal do convento estava a inscrição: "Aqui se pode obter remissão plenária dos pecados." - D'Aubigné. Em todo tempo

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acorriam peregrinos ao relicário da Virgem, mas na grande festa anual de sua consagração, vinham multidões de todas as partes da Suíça, e mesmo da França e da Alemanha. Zwínglio, grandemente aflito ante o que via, aproveitou a oportunidade para proclamar àqueles escravos das superstições a liberdade mediante o evangelho.

"Não imagineis", disse ele, "que Deus está neste templo mais do que em qualquer outra parte da criação. Qualquer que seja o país em que habiteis, Deus está em redor de vós, e vos ouve. ... Podem obras sem proveito, longas peregrinações, ofertas, imagens, invocações da Virgem ou dos santos assegurar-vos a graça de Deus? ... Que vale a multidão de palavras em que envolvemos nossas orações? Que eficácia têm um capuz luzidio, cabeça bem rapada, vestes bem compridas e flutuantes, ou chinelas bordadas a ouro?... Deus olha para o coração, e nosso coração está longe dEle." "Cristo", disse ele, "que uma vez foi oferecido sobre a cruz, é o sacrifício e vítima, que por toda a eternidade proveu satisfação para os pecados dos crentes." - D'Aubigné.

Por muitos ouvintes estes ensinos não eram bem aceitos. Era-lhes amarga decepção dizer-se-lhes que sua penosa jornada fora feita sem proveito. O perdão que livremente lhes era oferecido por meio de Cristo, não o podiam compreender. Estavam satisfeitos com o velho caminho para o Céu, que Roma lhes indicara. Recuavam ante a perplexidade de pesquisar qualquer coisa melhor. Era mais fácil confiar sua salvação aos padres e ao papa do que procurar pureza de coração.

Outra classe, entretanto, recebia com alegria as novas da redenção por meio de Cristo. As observâncias que Roma ordenara não haviam conseguido trazer paz à alma, e pela fé aceitaram o sangue do Salvador como sua propiciação. Estes voltaram para casa a fim de revelar a outros a preciosa luz que tinham recebido. A verdade era assim levada de aldeia em aldeia, de cidade em cidade, e o número de peregrinos ao relicário da Virgem diminuiu grandemente. Houve decréscimo nas

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ofertas e, conseqüentemente, no salário de Zwínglio, que delas era tirado. Mas isto apenas lhe causava alegria, vendo ele que o poder do fanatismo e superstição estava sendo quebrado.

As autoridades da igreja não tinham os olhos fechados à obra que Zwínglio estava realizando; mas no momento elas se abstiveram de intervir. Esperando ainda consegui-lo para a sua causa, esforçaram-se por ganhá-lo com lisonjas; e, nesse ínterim, a verdade estava a obter posse do coração do povo.

Os trabalhos de Zwínglio em Einsiedeln haviam-no preparado para um campo mais vasto, e neste logo deveria entrar. Depois de três anos ali, foi chamado para o cargo de pregador na catedral de Zurique. Esta era então a cidade mais importante da confederação suíça, e seria amplamente sentida a influência ali exercida. Os eclesiásticos, a cujo convite fora a Zurique, estavam entretanto desejosos de impedir quaisquer inovações, e de acordo com isto se puseram a instruí-lo a respeito de seus deveres.

"Farás todo o esforço", disseram eles, "para coletar as receitas do capítulo, sem desprezar a menor. Exortarás os fiéis, tanto do púlpito como no confessionário, a pagar seus dízimos e impostos, e a mostrar, por ofertas, sua afeição para com a igreja. Serás diligente em aumentar as rendas que se arrecadam dos doentes, das missas e em geral de toda a ordenança eclesiástica." "Quanto à administração dos sacramentos, à pregação e ao cuidado do rebanho", acrescentaram seus instrutores, "são também deveres do capelão. Para estes, porém, podes empregar um substituto, e particularmente no pregar. Não administrarás o sacramento a ninguém, a não ser a pessoas notáveis, e unicamente quando chamado; proíbe-se fazeres isto sem distinção de pessoas." - D'Aubigné:

Zwínglio ouviu em silêncio esta ordem e, em resposta, depois de exprimir sua gratidão pela honra de um chamado para este importante posto, pôs-se a explicar o método de ação que

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se propusera adotar. "A vida de Cristo", disse ele, "tem por demasiado tempo sido oculta do povo. Pregarei acerca do evangelho todo de Mateus, ... tirando unicamente das fontes das Escrituras, sondando suas profundidades, comparando uma passagem com outra, e buscando compreensão pela prece constante e fervorosa. À glória de Deus, ao louvor de Seu único Filho, à salvação real das almas e à sua edificação na verdadeira fé, é que eu consagrarei meu ministério." - D'Aubigné. Posto que alguns dos eclesiásticos reprovassem este plano e se esforçassem por dissuadi-lo do mesmo, Zwínglio permaneceu firme. Declarou que não estava para introduzir nenhum método novo, mas o antigo método empregado pela igreja nos primitivos e mais puros tempos.

Já se havia despertado interesse nas verdades que ele ensinava, e o povo afluía em grande número para ouvir sua pregação. Muitos que tinham deixado de assistir ao culto havia muito tempo, achavam-se entre os ouvintes. Iniciou seu ministério abrindo os evangelhos e lendo e explicando aos ouvintes a inspirada narrativa da vida, ensinos e morte de Cristo. Ali, como em Einsiedeln, apresentava a Palavra de Deus como a única autoridade infalível, e a morte de Cristo como o único sacrifício completo. "É a Cristo", dizia ele, "que eu desejo conduzir-vos; a Cristo, a verdadeira fonte da salvação." - D'Aubigné. Em redor do pregador acotovelava-se o povo de todas as classes, desde estadistas e eruditos, até os operários e camponeses. Com profundo interesse escutavam suas palavras. Não somente proclamava o oferecimento de uma salvação gratuita, mas destemidamente reprovava os males e corrupções dos tempos. Muitos voltavam da catedral louvando a Deus. "Este homem", diziam, "é um pregador da verdade. Ele será nosso Moisés, para tirar-nos das trevas egípcias." - D'Aubigné.




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