Inquérito sorológico e de morbidade para hantavirus na populaçÃo rural e peri-urbana da cidade de turvo-sc



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INQUÉRITO SOROLÓGICO E DE MORBIDADE PARA HANTAVÍRUS NA POPULAÇÃO RURAL E PERIURBANA DA CIDADE DE TURVO, SC
Gregório Wrublevski Pereira1,2

André Martins Teixeira1,2

Mirela Silva de Souza1,2

Talita Siemann Santos Pereira1,2

Alixandre Dias Braga1,2

Gilberto Sabino dos Santos Junior3

Glauciane Garcia de Figueiredo3

Luiz Tadeu Moraes Figueiredo3

Alessandra Abel Borges2,4
RESUMO
As hantaviroses são zoonoses de roedores silvestres, distribuídas mundialmente, e que causam doenças graves e letais em seres humanos. Nas Américas, os hantavírus são causadores da Síndrome Pulmonar e Cardiovascular por Hantavírus (SPCVH), doença transmitida pela inalação de aerossóis que contêm excretas de roedores infectados com hantavírus. No Brasil, a letalidade da SPCVH é de 39,36%.

Este trabalho teve como objetivo principal pesquisar a presença de anticorpos (AC) específicos para hantavírus em indivíduos da população rural e periurbana do município de Turvo (SC) e correlacioná-los com a história mórbida pregressa dos participantes. Estudou-se um total de 257 indivíduos voluntários, testando-se o soro dos mesmos para a detecção de AC IgG contra proteína N de hantavírus, através de método imunoenzimático (ELISA). Foi encontrada prevalência de 2,33% dos AC anti-hantavirus na amostra populacional estudada. Os dados de morbidade apontaram que em todos os casos soro-reagentes havia histórico de ao menos um episódio sindrômico sugestivo de hantavirose, tendo-se também verificado que há um ambiente extremamente propício para a transmissão aos seres humanos dessa e de outras doenças infecciosas ligadas a roedores.


Palavras-chave: Hantavírus. Soroprevalência. Inquérito de morbidade.


  1. Graduação de Medicina da Universidade do Sul de Santa Catarina, Tubarão, SC. E-mail: medwp@hotmail.com.

  2. Unidade de Pesquisa em Virologia, Universidade do Sul de Santa Catarina, Campus de Tubarão.

  3. Centro de Pesquisa em Virologia, Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo.

  4. Professora Adjunta no Instituto de Ciências Biológicas e da Saúde, Universidade Federal de Alagoas; Laboratório de Pesquisas em Virologia e Imunologia (LAPEVI).



1 INTRODUÇÃO
As hantaviroses são zoonoses transmitidas por roedores silvestres pertencentes a diferentes espécies e que abrigam cepas virais distintas. Os roedores são reservatórios naturais dos hantavírus, e neles a infecção parece ocorrer com ausência de doença. O gênero Hantavírus pertence à família Bunyaviridae. O genoma dos hantavírus é constituído por três segmentos de RNA de fita simples, sendo o segmento small (S) envolvido na codificação da proteína N, constituinte dos nucleocapsídeos virais (NICHOL, 1999).

Os hantavírus causam doenças humanas graves e nas Américas, a hantavirose manifesta-se como Síndrome Pulmonar e Cardiovascular por Hantavírus (SPCVH) (FIGUEIREDO et al, 2000). Os três primeiros casos brasileiros ocorreram no interior de São Paulo, em 1993(IVERSON et al, 1994). Desde então, 1.171 casos de SPCVH já foram notificados no Brasil, com letalidade de 39,36%. Em Santa Catarina (SC), 205 casos já foram registrados, com letalidade de 23,41% (Marília Lavocat, Área Técnica de Hantaviroses COVEV/CGDT/DEVEP/SVS/ Ministério da Saúde, 2009, comunicação pessoal).

A SPCVH possui um período de incubação entre 9 e 33 dias. A clínica caracteriza-se por pneumonite intersticial e edema pulmonar que pode progredir para extensa inundação alveolar com grave insuficiência respiratória. A dispnéia leva à procura médica, e a doença pode evoluir com rapidez para quadros graves, como choque cardiogênico (FIGUEREDO et al, 2000; BORGES e FIGUEIREDO, 2008). Entretanto, têm sido descritos quadros de doença branda, e até mesmo assintomáticos, após infecção com hantavírus (Zavasky et al, 1999; Kitsutani et al, 1999). Esses casos são comprovados devido à presença de AC contra hantavírus na população geral, inclusive em pessoas sem nenhuma história de SPCVH (CAMPOS et al, 2003).

A incidência da hantavirose em SC vem aumentando a cada ano, representando um grave problema de saúde pública. SC encontra-se, hoje, em 2º lugar entre os estados da federação com mais alta prevalência de hantavirose (Marília Lavocat, Área Técnica de Hantaviroses COVEV/CGDT/DEVEP/SVS/ Ministério da Saúde, comunicação pessoal, 2009). Os casos de hantavirose no estado têm-se concentrado no oeste e planalto central de SC, não havendo, até o momento, casos registrados da doença no meio e extremo sul do estado. É desconhecido, contudo, se a ausência de notificação da hantavirose nessas regiões é devida, de fato, a inexistência local da doença ou se as infecções ocorrem, e não estão sendo diagnosticadas. Ademais, até o momento, nenhum levantamento acurado da presença do hantavírus foi realizado nesta população (João Paulo Martins Costa, 20ª Gerência de Saúde, Secretaria Estadual de Saúde, comunicação pessoal, 2007). Em suma, não havia evidências concretas de que a região fosse indene da hantavirose, até a realização do presente estudo.

Este trabalho teve como objetivos realizar inquérito sorológico e de morbidade para hantavírus em indivíduos da população rural e periurbana do município de Turvo, SC, correlacionar os níveis de AC com a história mórbida pregressa dos participantes, identificar fatores predisponentes ao contato com hantavírus e comparar os dados obtidos com os dados oficiais do Ministério da Saúde (MS).
2 METODOLOGIA
Estudou-se 257 indivíduos, os quais compareceram voluntariamente nos postos de coleta (Escola Linha Contessi, Unidades de Saúde Morro Chato e Boa Vistinha), em datas pré-determinadas, no município de Turvo. Foram realizadas entrevistas individuais, visando levantar aspectos de morbidade para hantavírus e histórico de contato com roedores, seguida de venopunção simples. As amostras de sangue foram submetidas à centrifugação para extração do soro, os quais, foram analisados para a detecção de AC IgG contra proteína N de hantavírus. Com este intuito, foi utilizado um método ELISA, o qual utiliza uma proteína N recombinante do hantavírus Araraquara, conforme protocolo desenvolvido por Moreli (2005).
3 RESULTADOS E DISCUSSÃO
Foram estudados 257 indivíduos, residentes do município de Turvo. Desses, 57,97% (149/257) eram homens e 42,02% (108/257) eram mulheres. Em relação às atividades laborativas dos entrevistados, 60,31% (155/257) tinham relação direta com o sistema agropecuário, sendo a profissão de agricultor a mais frequente com 55,64% (143/257). Além disso, foram encontrados 19,06% (49/257) de profissionais que mantinham, frequentemente, contato com roedores, mas não ligados ao setor agropecuário. Dessa forma, detectou-se um total de 76,26% (196/257) entrevistados atuando, no momento do estudo, em profissões de risco para infecção por vírus transmitidos por roedores (MILLS et al., 1995).

Nas análises imunoenzimáticas das amostras séricas, foram encontradas seis amostras soro-reagentes para a presença de AC IgG contra proteína N de hantavírus, configurando uma prevalência de 2,33% desses anticorpos na população estudada. Essa prevalência enquadra-se no perfil esperado para áreas com casos confirmados de hantavirose, como demonstraram os estudos realizados por Campos et al. (2003) e Holmes et al. (2000). Contudo, esse achado contradiz a situação epidemiológica para hantavirose na região estudada, que segundo o MS, é considerada indene para hantavírus.

Um fato importante a ser considerado, também, é o de que nos últimos 20 anos de trabalho, apenas um dos seis indivíduos com AC para hantavirus não exerceu, com frequência, atividades expositivas a roedores. Todos os casos incidiram em pessoas que moram em área rural ou periurbana e que mantiveram contato com roedores.

A análise quantitativa, ou seja, a titulação dos soros positivos, mostrou títulos de 1:800 até 1:3200. Tais títulos de AC chamam a atenção, levando-se em conta que são níveis de AC encontrados em indivíduos cujos contatos com hantavírus podem ter ocorrido há muitos anos. Em outro trabalho similar o título máximo foi de 1:400. (CAMPOS et al., 2003).



Em relação ao histórico de morbidade apresentado pelos indivíduos com sorologia positiva para hantavirus, episódios de doença febril aguda foram relatados por 100% deles. Na análise dos sintomas relacionados ao episódio febril, encontrou-se uma correspondência parecida com a relatada por outros autores, conforme ilustra o tabela 1. No entanto, não se pode afirmar que os episódios citados pelos entrevistados correspondem, com certeza, ao momento em que ocorreu o contato e a produção dos AC IgG contra hantavírus.
Tabela 1: Sintomas apresentados em episódio de doença febril nos indivíduos com sorologia positiva para hantavirus no presente estudo em comparação com os encontrados por outros autores.

Sintomas

Presente estudo

N=6

Limongi et al. (2007)

N=23

Figueiredo e cols. (2000)

N= 8

Moreli (2005)

N=14

Febre

100%

100%

100%

100%

Mialgia

66,6%

78%

33%

21,4%

Cefaléia

66,6%

65%

60%

57%

Náusea

50%

61%

-

57%

Astenia/ prostação

83,3%

-

85%

50%

Dispnéia

33,3%

100%

100%

64,2%

Oligúria

33,3%

22%

-

-

Tosse seca

33,3%

74%

60%

64,2%

Hemorragia

50%

4%

33%

28,5%

Dor torácica

16,6%

52%

-

-

Dor abdominal

16,6%

48%

-

-

Hipotensão

33,3%

65%

85%

64,2%

Vômitos

16,6%

61%

60%

57%

A infecção por hantavírus geralmente ocorre pela aspiração de partículas virais suspensas no ar, durante os procedimentos de limpeza de paióis e pisos contendo as excretas de roedores, e durante a remoção de grãos de cereais ou sementes armazenados em silos e paióis infestados por roedores (FERREIRA, 2003). Neste estudo encontrou-se grande número de participantes que realizavam atividades que os colocavam em contato com roedores e risco de infecção por hantavírus, sendo a mais freqüente a limpeza de sótão, celeiro, telhado, galpão e afins, englobando 86,77% (223/257) dos participantes. Um achado importante foi que 78,98% (203/257) realizavam, ao menos, cinco dessas atividades concomitantemente.

Neste estudo, 73,54% (189/257) dos entrevistados, tiveram contato frequente – diariamente ou semanalmente – com roedores. Desses, 49,02% (126/257) relataram ter mantido contato visual, ter frequentado o local onde se encontravam roedores (percebido através da observação de excretas do animal) e ter matado roedores com alguma periodicidade. Além disso, 7,00% (18/257) referiram ter sido mordidos ou arranhados por roedor, em algum momento, de forma a configurar mais da metade da população estudada em risco potencial para infecção por hantavírus, uma vez que a transmissão se dá pela inalação de aerossóis e mais raramente pela mordedura ou arranhadura desses animais (NICHOL, 1999).
4 CONCLUSÃO
O presente estudo demonstrou presença de AC IgG contra proteína N de hantavírus em 2,33% da população participante. Nossos achados sugerem que no extremo sul de SC ocorre a circulação de hantavírus, a despeito de ser considerada uma região indene para hantavirose pelo MS. Além disso, foi verificado que todos os indivíduos soro-reagentes relataram ao menos um episódio sindrômico sugestivo de hantavirose, o que corrobora os achados de soroprevalência. Ainda, este trabalho demonstrou uma relação entre relato de contato com roedores e a presença de AC séricos contra hantavírus nos seres humanos. Novos estudos devem ser realizados, para confirmar a circulação de hantavirus na região estudada.

SEROLOGIC SURVEY FOR HANTAVIRUS in the RURAL POPULATION FROM TURVO, Santa catarina state
ABSTRACT

Hantaviruses, members of the Bunyaviridae family, are rodent-borne zoonotic agents that are distributed worldwide and that cause Hantavirus Cardiopulmonary Syndrome (HCPS) in the Americas. The case fatality rate of HCPS in Brazil is 39.36%. This study aimed to perform serological survey for hantavirus in individuals from rural region in Turvo county, SC. It was studied 257 participants whose sera were tested for detection of IgG antibodies against hantavirus N protein by EIA. The serological prevalence found was 2.33% for antibodies anti-N protein in population. All positive cases had HCPS-like symptoms history and frequent rodent contact. Our results suggest that hantavirus circulation occurs in studied area.


Keywords: Hantavirus. Seroprevalence. Morbidity.
Referências

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