Influência de padrões socioculturais nos costumes e hábitos de criaçÃo em crianças de a anos de idade, na cidade de salete, santa catarina



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INFLUÊNCIA DE PADRÕES SOCIOCULTURAIS NOS COSTUMES E HÁBITOS DE CRIAÇÃO EM CRIANÇAS DE 5 A 7 ANOS DE IDADE, NA CIDADE DE SALETE, SANTA CATARINA
Camila Roberta Brandt

João Carlos Xikota
INTRODUÇÃO
As mudanças dinâmicas no desenvolvimento durante os primeiros anos são importantes itens que devem ser analisados durante a supervisão de saúde da criança e na orientação aos pais (COLSON; DWORKIN, 1997). Aproximadamente 25% das crianças nos seus primeiros três anos de vida atraem a atenção dos pais através de transtornos comportamentais, como choro inconsolável, queixas crônicas (rabugice), desordens do sono e da alimentação, além de acessos freqüentes de raiva (HIERMANN et al., 2005). Problemas crônicos na criança, tais como asma, epilepsia, fracasso escolar, obesidade, deficiência mental, encoprese, enurese, cardiopatias congênitas, prematuridade, gemelaridade, malformações congênitas, entre outros, estão associados a maior ansiedade familiar, podendo determinar maior superproteção dos pais e problemas adaptativos da criança (WRIGHT et al., 1993; CHAPIESKI et al., 2005; REID; BAHAR, 2006).

Além de hábitos comportamentais, o uso de chupetas é outro hábito infantil bastante difundido em nosso meio, apesar de seus conhecidos efeitos negativos sobre a amamentação e a dentição. Porém, praticamente inexistem na literatura estudos sobre os padrões de uso e seus determinantes. Sabe-se que a prática do uso de chupetas está relacionada também com o desmame precoce em crianças (SOARES et al., 2003). Hábitos e os padrões socioculturais dos pais podem influenciar o modelo de criação dos filhos, exercendo influência na formação da personalidade dos filhos. Separação dos pais, criação por avós, superproteção ou rejeição podem interferir nas condições de saúde da criança como um todo. Distúrbios psíquicos e físicos podem ser evitados ou exacerbados de acordo com a dinâmica familiar. Estudos longitudinais sugerem que programas de intervenção na infância, que promovam a competência social das famílias, além de enriquecer o desenvolvimento neuropsicomotor e dos hábitos saudáveis, podem reduzir a delinqüência futura (ZIGLER; TAUSSIG; BLACK, 1992).

O desenvolvimento cerebral é acompanhado da experiência individual, a partir da interação de estímulos ambientais e genéticos. Diversos estudos demonstram que a experiência estimula a plasticidade do cérebro, aumentando o comprimento dos dendritos e a formação das sinapses. As alterações nos neurônios são promovidas por diversos fatores e processos como a aprendizagem, por exemplo, que podem promover mudança nos circuitos corticais. Assim, mesmo depois do desenvolvimento cerebral completo, a experiência continua a provocar mudanças estruturais no cérebro (GREENOUGH; CHANG, 1989).

Nos artigos atuais e antigos, são descritos alguns questionários semi-estruturados para aferirmos influências dos hábitos de criação e cuidados parentais sobre o comportamento, através de uma anamnese psicossocial. Um desses questionários é o EMBU, recomendado como protocolo de estudos em diferentes situações, além de ser um dos mais largamente utilizados em artigos que falam sobre hábitos infantis (OLDEHINKEL et al., 2006).

O EMBU (Egna Minnen Beträffande Uppfostran – Minhas Memórias Sobre Educação) é um modelo de auto-questionário desenvolvido com a finalidade de avaliar a memória dos adultos sobre o modo como foram criados. Originalmente suíço, foi criado em 1980 por Perris, Jacobsson, Lindström, Von Knorring & Perris e era composto por quinze subescalas e mais duas questões referentes à coerência e ao rigor de criação parenteral (ALUJA; DEL BARRIO; GARCIA, 2006). A partir dele, diversos outros questionários foram desenvolvidos para que se conhecesse mais sobre a influência dos padrões de criação dos filhos. Entre eles está o EMBU-P, o EMBU para os pais, criado em 1997 por Castro, de Pablo, Arrindell & Toro. Essa versão do EMBU pretende obter uma avaliação dos pais sobre seu próprio comportamento de criação em relação aos seus filhos (CASTRO et al., 1997). A percepção dos pais sobre os cuidados com os filhos é fator que influenciam a criação de hábitos e comportamentos dos filhos (OLDEHINKEL et al., 2006). Este inventário de auto-relato mede com que freqüência ocorrem determinadas práticas de cuidados durante a infância e adolescência do indivíduo, em relação ao pai e à mãe separadamente, utilizando para tal, uma escala de pontos.

O EMBU foi utilizado pela primeira vez no Brasil por Ricardo Gorayeb (1988). O autor fez a tradução do questionário para a língua portuguesa, do Brasil e aplicou o protocolo para verificar sua confiabilidade. A pesquisa foi realizada com estudantes entre 17 e 26 anos e os dados encontrados foram comparados a uma pesquisa realizada com a versão suíça original do EMBU. Os resultados mostraram que os pais brasileiros eram mais tolerantes, mais amorosos e mais protetores quando comparados aos pais suíços, além de demonstrar que o questionário foi uma ferramenta suficientemente útil para avaliar a prática dos cuidados paternos em um país culturalmente diferente do original. Ainda neste estudo, Gorayeb aplicou a mesma versão do protocolo, para estudantes depressivos – classificados segundo o “Beck´s Depression Inventory” e estudantes sem depressão. As mães dos sujeitos identificados como depressivos foram percebidas como menos amorosas, menos orientadoras e estimuladoras e mais rigorosas (GORAYEB, 1988).

O questionário EMBU-P, utilizado para esta pesquisa, é composto por quatro escalas: Rejeição, Suporte Emocional, Controle e Favorecimento. São 17 itens para a escala de Suporte Emocional, considerando-se aceitação e demonstração física ou verbal de afeto; 13 itens para a escala de Rejeição, demonstrando hostilidade física ou verbal, indiferença e negligência; 19 questões para o Controle, que avaliam o excessivo envolvimento dos pais nas atividades de seus filhos e na tentativa de direcionar ou definir suas decisões e, por fim, a escala de Favorecimento, com 3 itens, que explicaria a preferência parenteral por uma criança em relação aos demais filhos (CASTRO et al., 1997).

Pesquisas recentes e a própria legislação destacam sobre a importância da identificação e intervenção precoce em crianças com problemas do desenvolvimento, comportamento e alterações emocionais. A detecção destes problemas, freqüentemente, depende do médico, especialmente o pediatra. Entretanto, poucos pediatras utilizam testes de desenvolvimento que auxiliam a identificar as crianças com dificuldades (GLASCOE; DWORKIN, 1993). A relação no atendimento pediátrico primário com a família e crianças pequenas também ajudam na detecção precoce dos problemas comportamentais, do desenvolvimento e problemas psicossociais (DWORKIN, 1993).


MATERIAIS E MÉTODOS
Trata-se de um estudo transversal, realizado com os pais de crianças pré-escolares e escolares de ambos os sexos, com idade entre cinco e sete anos da rede de ensino público da cidade de Salete, Santa Catarina. Foi avaliada a formação dos hábitos nas crianças entre cinco e sete anos matriculados na pré-escola, na primeira e na segunda séries do ensino fundamental. Para cada criança foi entregue um questionário semi-estruturado para obtenção do banco de dados, destinado a um dos cuidadores, de acordo com o grupo familiar da criança. Dessa forma, foram entregues 261 questionários. Cento e cinqüenta e nove cuidadores responderam ao questionário.

O EMBU-P foi o protocolo escolhido para confecção do estudo. Assim, obtivemos o modelo do questionário no artigo de J. Castro et al. (Assessing rearing behaviour from the perspectives of the parents: a new form of the EMBU). Realizamos a tradução do protocolo e distribuímos as questões aleatoriamente. A cada pergunta foram dadas respostas que variaram desde “nunca”, “às vezes” até “sempre”, às quais foram conferidos valores de 0 a 2, respectivamente, numa escala do tipo Likert. Além do questionário EMBU-P, pré-codificado, também obtivemos dados sociais, econômicos e culturais. Este questionário foi entregue aos alunos da pré-escola, primeiro ano e segundo ano do ensino fundamental das escolas da rede pública da cidade de Tubarão e, a partir das crianças, entregue aos pais ou cuidadores. Ao final de cerca de uma semana, os alunos devolveram os questionários nas escolas de origem, onde foram recolhidos pelos pesquisadores.

As variáveis contínuas, nos casos necessários, foram categorizadas com base sempre que possível, em critérios de relevância biológica, social ou comportamental das categorias. Foram utilizados testes estatísticos adequados (Qui-quadrado, teste “t”, ANOVA e Pos-hoc Student-Newman-Keuls) de acordo com o número de grupos, distribuição da normalidade das amostras determinada pelo teste de Kolmogorov-Smirnov e verificada a igualdade das variâncias pelo teste de Levene. No modelo final, com intervalo de segurança de 95%, as variáveis que apresentaram nível de significância menor que 5% foram consideradas associadas à desordem comportamental. As informações coletadas foram armazenadas no software SPSS 12® Chicago, USA, onde foram posteriormente analisadas. O presente projeto está registrado no Comitê de Ética e Pesquisa da Universidade do Sul de Santa Catarina sob o número 08.013.4.01.III.

RESULTADOS

Dos 261 questionários entregues, 159 (60,9%) retornaram devidamente preenchidos e puderam ser utilizados nesse estudo. Assim, do número absoluto de crianças participantes, 86 (54,1%) foram infantes do sexo feminino e 73 (45,9%) foram meninos. Dos cento e cinqüenta e nove cuidadores que aceitaram participar do estudo, 132 deles (84%) foram mães das crianças. Pais somaram 22 participantes (14%), enquanto avós ou tios corresponderam a 2% do total de protocolos respondidos. Os cuidadores, segundo a idade, foram categorizados em três grupos: jovem, com idade igual ou inferior a 24 anos; maduro, aqueles com idade entre 25 e 40 anos e sênior, destinado aos cuidadores com idade superior a 40 anos. Dessa forma, a freqüência encontrada foi maior para os cuidadores maduros, que corresponderam a 84% do total. Este grupo é seguido dos cuidadores seniores, que somaram 12%. Os cuidadores jovens foram apenas 3% e 1% dos cuidadores não responderam essa questão. A distribuição segundo o nível de escolaridade dos cuidadores também foi observada. Assim, a maioria deles havia estudado até o ensino fundamental (53%). Apenas 12% dos pais ou cuidadores obtiveram ensino superior de escolaridade e 35% estudaram até o ensino médio. A maioria das crianças foi um filho “temporão” do casal (25%), 23% das crianças foram filhos únicos, 13% foi o segundo filho e 13% foram filhos caçulas. Filhos do meio corresponderam a 12% do total, significando uma criança que tenha, pelo menos, dois irmãos e outros 14% foram os primogênitos do casal. A maioria das demais crianças participantes do estudo nasceu a termo (91,8%). Observamos que as crianças participantes do estudo apresentaram hábitos de criação com fortes indícios de infantilização. Usaram mamadeira até a idade média de 45,38 meses (±19,81), foram autorizadas a usar chupeta até 38,14 meses (±18,19), apresentaram o controle esfincteriano vesical, em média, apenas aos 35 meses (±17,88) e dormiram no quarto dos pais até a idade média de 43 meses (±22,80).

Uma das perguntas do questionário foi relacionada à descendência das crianças. A maioria (49%) assinalou a opção “alemã”. Entre as demais etnias que apareceram com maior frequência estão a italiana, com 20% dos casos e a polonesa, com 8% das crianças. Cerca de 15% das crianças foram ditas como sendo de outra descendência e a maioria delas descritas como “brasileira”. Consideramos um possível viés de seleção, talvez por desconhecimento da família acerca de seus ascendentes ou por erro de compreensão da pergunta.

A análise estatística inferencial relacionada às quatro dimensões (somatório dos pontos) – Rejeição, Suporte Emocional, Controle e Favorecimento, revelam que os que existe uma tendência entre o gênero e a dimensão de suporte emocional. Assim, meninas tendem (p=0,08) a ter maior suporte emocional por parte de seus cuidadores (escore 47,94 ±0,30) quando comparados aos meninos (escore 47,07 ±0,40). Comparando as quatro dimensões com o parentesco da criança, observamos correlação significante na escala de favorecimento e uma tendência na escala de controle. Assim, pais (escore 4,86 ±0,39) favorecem mais seus filhos, quando comparados às mães, além de terem uma maior tendência (p=0,08) ao controle (escore 38,14 ±0,98). O fato de a criança ter dormido no quarto dos pais após um ano de idade, também foi considerado para correlação com as quatro dimensões de nosso estudo. Foi encontrada tendência estatística (p=0,053) na escala de receberem um menor suporte emocional.

A relação entre prematuridade e as escalas do protocolo foram correlacionadas. Houve tendência estatística entre o nascimento pré-termo e as dimensões de suporte emocional e controle. Cuidadores de crianças prematuras têm uma maior tendência a oferecer suporte emocional às mesmas. Da mesma forma, pais cujos filhos foram prematuros têm maior tendência ao controle. Outra variável estudada foi a presença ou não de doença considerada grave ou intervenção cirúrgica pregressa e a associação desta com as escalas do EMBU-P. Houve significância estatística entre a dimensão de controle e história mórbida pregressa positiva (p=0,02). Portanto, crianças que passaram por alguma intervenção cirúrgica ou são portadoras de alguma doença crônica tendem a ser mais controladas por seus cuidadores (escore 38,35 ±0,90). A associação entre as dimensões e a separação dos pais foi correlacionada. Pais que são separados tendem (p=0,09) a ter um maior comportamento de rejeição com seus filhos (escore 18,19 ±0,55) quando comparados aos pais que vivem juntos (escore 17,13 ± 0,27).

Denominamos cuidadores jovens aqueles com idade inferior a 25 anos; maduro, aqueles com idade entre 25 e 40 anos e seniores, destinado aos cuidadores com idade superior a 40 anos. A escala que apresentou diferença em relação à idade do cuidador foi a do favorecimento. Pais ou cuidadores jovens tendem a favorecer mais seus filhos (p=0,058), com um escore total de 5,75 (±0,78). O escore para cuidadores maduros e seniores foi de 4,05 (±0,13) e 4,52 (±0,35), respectivamente. Com o intuito de correlacionarmos as quatro dimensões do EMBU-P com a ordem de nascimento (genitude) da criança, consideramos se a criança era o primogênito, o segundogênito, o filho mais novo (o caçula), filho único ou o filho do meio. Após as análises inferenciais, encontramos diferença entre a posição de nascimento dos filhos associada a dimensão de controle. Filhos primogênitos, quando comparados a qualquer outro têm tendência a sofrerem menos controle (p=0,08), com um escore total de 34,54 (±1,11). Os demais grupos – segundogênitos, filhos caçulas, filhos únicos e filhos do meio – apresentaram um escore de 36,10 (±1,16); 38,85 (±1,13); 35,35 (±0,85) e 37,42 (±1,19); respectivamente.

Ao analisarmos a variável escolaridade com as dimensões do EMBU-P, encontramos tendência nas dimensões de rejeição e de favorecimento. Assim, cuidadores com menor escolaridade tem maior tendência a apresentarem comportamentos hostis com suas crianças, com média de 17, 84 (±0,34). O mesmo grupo de cuidadores também apresenta uma maior tendência a favorecer um filho em relação aos demais (média de 4,40 ±0,17). Foi demonstrada ainda a correlação das escalas do EMBU-P com a ascendência cultural das crianças. Demonstramos que famílias de outras ascendências, exceto alemã, italiana e polonesa, apresentaram maiores índices de rejeição ou de punição (média de 19,34 ±034) e de controle (média de 38,78 ±1,08).

DISCUSSÃO E CONCLUSÃO
Observamos altas médias de idade para crianças que usaram chupeta ou mamadeira, dormiram no quarto dos pais e tiveram enurese noturna, ultrapassaram os 35 meses de idade. Cerca de 61% das crianças utilizaram mamadeira e, aproximadamente 58% fez uso de chupeta em algum momento. Além disso, a maioria das crianças (81,1%) continuou dormindo no quarto dos pais mesmo após completar um ano de idade. Apesar das mais variadas recomendações dos profissionais de saúde quanto ao uso de chupeta e mamadeira, observamos que esses são hábitos bastante difundidos na população e, portanto, difíceis de serem modificados. Uma pesquisa brasileira com 354 crianças menores de dois anos descreve que a maioria das crianças (79%) usava chupeta, 15% nunca as haviam utilizado e 6% já haviam abandonado o hábito. Entre os usuários, 38% passavam a maior parte do tempo fazendo uso da chupeta. Para cerca de dois terços das crianças, a chupeta foi oferecida no primeiro dia de vida. O uso de chupetas foi mais freqüente entre crianças mais jovens, entre os filhos de mães com menos escolaridade e entre crianças não amamentadas (TOMASI; VICTORA; OLINT, 1994). Outro estudo sobre o uso de chupetas, demonstra que a incidência de desmame, entre o primeiro e sexto mês, nas crianças ainda amamentadas no final do primeiro mês, foi de 22,4% para as crianças não usuárias de chupeta e de 50,8% para as usuárias. Neste mesmo estudo, o autor conclui que a prática do uso de chupeta é muito arraigada na nossa cultura, mesmo em população orientada para evitá-la. Assim, a associação entre uso de chupeta e menor duração do aleitamento materno e aleitamento materno exclusivo foi confirmada nesta população (SOARES et al., 2003).

Quanto às dimensões do protocolo aplicado, nossa investigação encontrou diversas associações entre estas e hábitos de criação ou fatores sociais e culturais das famílias. Incontáveis estudos acerca dos cuidados parentais são desenvolvidos nos mais diversos países, com o intuito de investigar se hábitos adequados na infância podem resultar num adulto mais saudável, com qualidade de vida e de boa índole. Encontramos poucos estudos que utilizaram como protocolo a variação do EMBU, como no presente caso, o EMBU-P. A maioria deles foi realizada com jovens, com o próprio EMBU, acerca de suas memórias de criação. No entanto, resultados idênticos puderam ser observados. Assim, um estudo realizado no Japão, por Someya et al.(1999), com voluntários saudáveis relacionou as escalas do EMBU com o gênero, a ordem de nascimento e o gênero dos pais. Este estudo revelou que meninos têm maior rejeição paterna do que as meninas e ambos os gêneros e a posição na ordem de nascimento tiveram influência significativa na escala de calor emocional por parte de ambos os genitores (feminino mais que masculino e filho único mais que último filho ou filho do meio). A posição de nascimento no que diz respeito à escala de superproteção mostrou diferença significativa para as mães com filhos únicos. Sobre a escala de favorecimento, o escore de ambos os pais mostraram que esse tema ocorre mais com os últimos filhos. As pontuações de rejeição para a mãe foram significantemente maiores que as do pai, para as filhas mulheres. Em ambos os gêneros dos filhos, masculino e feminino, as escalas de calor emocional e superproteção foram maiores para as mães, que para os pais. De maneira semelhante, encontramos no presente estudo que mães oferecem maior calor emocional aos filhos. No entanto, os pais pontuaram mais na escala do favorecimento, quando comparados às mães. Além disso, os pais demonstraram uma maior tendência ao controle.

Castro et al. (1997), que desenvolveram a versão do EMBU-P utilizada neste estudo, aplicou o questionário aos pais de estudantes universitários espanhóis. As escalas do EMBU-P foram correlacionadas entre si e mostraram alguma diferença estatística. Rejeição se relaciona negativamente com suporte emocional e positivamente com controle, que, por sua vez, relaciona-se positivamente com calor emocional. As variáveis utilizadas no estudo foram a idade dos pais e o gênero. Dessa forma, o estudo realizado por Castro mostrou que pais jovens têm um maior escore de rejeição e controle que os equivalentes mais velhos. Nosso estudo mostrou que cuidadores jovens são mais propensos ao favorecimento, quando comparados aos outros grupos. Em relação ao gênero dos pais, o estudo mostrou que mães demonstram mais afeto e oferecem um maior suporte emocional aos seus filhos, quando comparado aos pais.

Diversos outros estudos correlacionam as escalas do EMBU com o desenvolvimento de psicopatologias, distúrbios de comportamento e de qualidade de vida na vida adulta. Um dos mais recentes estudos utilizando o EMBU no Brasil diz respeito aos cuidados parentais e qualidade de vida na idade adulta. Zimmermann et al. (2008), procurando avaliar possível associação entre estilo de cuidados parentais e qualidade de vida, realizou um estudo no Rio Grande do Sul. Assim, a hipótese era a de que cuidados parentais favoráveis poderiam estar associados a uma melhor qualidade de vida na idade adulta. Os resultados mostraram significativa associação entre ausência de cuidados maternos e qualidade de vida insatisfatória percebida pelos sujeitos da pesquisa. Da mesma forma, as conclusões desse estudo mostraram que o calor emocional materno pode ser fator protetor do desenvolvimento, propiciando melhor qualidade de vida na idade adulta (ZIMMERMANN, 2005; ZIMMERMANN; EISEMANN; FLECK, 2008).



Concluímos que houve uma forte influência da descendência, gênero da criança, idade dos pais, estado civil do casal, nível de escolaridade e ordem de nascimento no estilo de cuidados parentais. Observamos que a maioria das crianças fez uso de chupeta, mamadeira, dormiram no quarto dos pais e apresentaram enurese noturna até os 48 meses. Mães apresentam maior tendência de preocupação quanto à instrução e para autorizarem os filhos. Meninos sofreram mais castigos físicos e os pais encontravam-se mais tristes com eles. Os pais estão mais ansiosos com as meninas e em obterem uma infância mais instrutiva para elas. Pais jovens tendem a perdoarem mais, impedirem por medo, cumprir menos os limites estabelecidos, além de favorecerem mais do que os cuidadores mais velhos. Pais com menor grau de escolaridade castigam mais, autorizam mais sem preocupação, no entanto preocuparam-se em manterem os filhos na moda e exigem gratidão pelos sacrifícios do que famílias mais instruídas. Mães demonstraram menor tendência de controle quando comparadas aos pais. Casais separados apresentaram menor tendência de rejeição/punição do que cais com união estável. Os meninos e aquelas que dormiram no quarto dos pais após o 1º ano de vida receberam mais calor emocional. Os filhos primogênitos sofreram uma tendência maior de controle. Famílias de outras descendências, exceto a alemã, italiana ou polonesa, apresentaram menores índices de rejeição/punição e controle.

REFERÊNCIAS
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