Iluminando a floresta: a Amazônia descrita por Antônio Landi e a ética diante da natureza Wesley Oliveira Kettle



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Iluminando a floresta: a Amazônia descrita por Antônio Landi e a ética diante da natureza
Wesley Oliveira Kettle1

wesleycx@yahoo.com.br

UFPA

Da terra formou, pois, o Senhor Deus todos os animais do campo e todas as aves do céu, e os trouxe ao homem, para ver como lhes chamaria; e tudo o que o homem chamou a todo ser vivente, isso foi o seu nome. Assim o homem deu nomes a todos os animais domésticos, às aves do céu e a todos os animais do campo.” Gênesis 2:19 e 20


O homem apresentado por Moisés no Gênesis, responsável pela denominação de todos os animais criados por Deus, exercia o papel de mordomo do recém criado planeta Terra, o que correspondia, de certa forma, organizar o espaço concedido pelo Criador. Apesar de também ser criatura, o homem é narrado pelo texto bíblico com um papel central, deste modo todos os outros seres só teriam sentido de existir quando serviam de auxílio e subsídio à sobrevivência humana. Esta visão antropocêntrica dominava o debate sobre a relação do homem com os animais no início do período moderno.

É verdade que o domínio do homem sobre a natureza se baseia em larga medida nos escritos do Pentateuco, porém a justificativa dos intelectuais poderia contar também com os argumentos da filosofia clássica e do estoicismo.

As expedições européias de exploração e colonização, a partir do século XVI, documentam as percepções do homem em relação à novas criaturas e paisagens através das narrativas de viagem2. Tal gênero literário desenvolvia-se acompanhando o expansionismo voraz do Velho Mundo e se expandia relatando o encontro com culturas diferentes.

O conteúdo destas narrativas escritas pelos viajantes sofrem alterações ao longo dos séculos XVI e XVII, hora apresentando as maravilhas e curiosidades, hora relatando as dificuldades e perigos atravessados3. Estes primeiros relatos expressam uma forma de saber renascentista: variedades de formas vivas, listagem de novos seres, origem etimológica, entre outros objetivos. As citações ou descrições de Pêro M. Gândavo, Jean Léry e Hans Staden são exemplos desta “primeira fase”.

Uma segunda etapa das narrativas de viagem, consideradas “mais científicas” podem ser exemplificadas pelas produções de Frei Veloso e Alexandre Rodrigues Ferreira. É neste meio tempo que nasce Antonio Giuseppe Landi4, em 30 de outubro de 1713 em Bolonha, Itália, na freguesia de S. Leonardo.

A partir da década de 1730, Landi passou a freqüentar o Instituto de Ciências e Artes de Bolonha onde viria a formar-se como Mestre em Arquitetura e Perspectiva. Suas atividades artísticas foram influenciadas por Fernando Galli de Bibiena5, de quem foi discípulo dileto. No ano de 1743 é eleito membro da Accademia Clementina de Bolonha e cinco anos depois passa dirigir a construção da Igreja dos Agostinhos de Cesena.

O Tratado de Tordesilhas já não dava conta das questões de limites que interessavam Portugal e Espanha, como objetivo explicito de tornar jurídico a posse de terras ocupadas é que em 13 de janeiro de 1750 foi celebrado o Tratado de Madri. Ação efetiva resultante desse esforço para delimitar os territórios era a “contratação de astrônomos, geógrafos, engenheiros e desenhadores para a comissão que deveria passar ao Brasil, para aí, em conjunto com os técnicos escolhidos pelo Rei de Espanha, remarcarem a linha fronteiriça entre as terras de Portugal e Espanha”6.

Em 1752, ano seguinte a que Franscisco Xavier de Mendonça Furtado assume como Governador e Capitão-General do Estado do Maranhão e Grão-Pará, é assinado, em Aranjues, o Tratado das Instruções dos Comissários da Parte do Norte, do qual Antonio Landi fazia parte como desenhador. No artigo XX do referido tratado ordenava:

Nas ordenanças acima estabelecidas se incluirão as advertências seguintes: que os comissários, geógrafos, e mais pessoas inteligentes das três tropas, vão tomando por apontamento os rumos, e distâncias das derrotas, as qualidades naturais dos países; os habitantes que neles vivem e os seus costumes; os animais, rios, lagoas, montes, e outras semelhanças, cousas dignas de se saberem, pondo nomes de comum acordo a todas as que o não tiverem para que sejam declaradas nos mapas e relações com toda a distinção, e procurando que as suas observações, e diligências sejam exatas, não só pelo que pertence a demarcação da raia e geografia do país, mas também no que pode servir para o adiantamento das ciências, o progresso que fizeram na História Natural, e observações físicas e astronômicas” 7
Há uma preocupação no encaminhamento do trabalho a ser realizado pelos “Comissários da parte do norte”, primeiramente podemos verificar a importância dos resultados geográficos, evidentemente, por causa das demarcações de fronteiras. Os elementos que constituem a região devem ser cautelosamente anotados com um fim burocrático e intelectual. Burocrático “para que sejam declaradas nos mapas e relações com toda distinção” para servir os interesses da coroa. Intelectual para o adiantamento das ciências, o progresso que fizeram na História Natural, e observações físicas e astronômicas”, desde o final do século XVII chamado de “Revolução Científica”.

As alterações ocorridas na Física, Matemática e Astronomia influenciaram os homens que pretendiam descrever e classificar o mundo, esse desenvolvimento era entendido como um “progresso”, repetido no artigo XX do Tratado das Instruções dos Comissários da Parte do Norte referindo-se a História Natural como disciplina que estuda a parte do mundo que funciona sem a participação humana. O termo “ História Natural” já havia sido utilizado em A verde Floresta de John Maplet em 15768 e chega em 1752 abandonando aspectos simbólicos da natureza e rejeitando fábulas, lendas e mitos, buscando uma análise menos pessoal e mais metodológica.

A “Expedição do Maranhão” contava com o material artístico e instrumental científico necessário. A lista do material levada pelas companhias da Comissão e a bibliografia presente expressam momento da matematização do conhecimento:
Companhia 3ª[...] Numero 33 Caixas de Chaves = Comp. ª G. ªl.

N.o 30=31=32 Comp.a G.al são as Caixas dos Livros, em q’ se contem os seguintes:

7 Tomos do Tratado dos Limeites da America entre as Coroas de Portugal, e Espanha.

[...] 2 Tom de Figure de La Terre par Bouguer.

[...] 4 jogos de viagem, e observações de Condamine; contem cada jogo 2 tom.”9
Tanto o “Figure de La Terre” de Pierre Bouguer (1749) quanto “observações de Condamine” são influenciados diretamente pela viagem iniciada em 1735 por Condamine com o objetivo de verificar questões como a esfericidade da Terra, tal expedição ficou conhecida pelo nome de Charles de La Condamine. Podemos considerar relevante aos escritos de Condamine por ter sido o início de expedições com caráter mais científico, documentando a natureza com maior rigor, porém recriando a narrativa dramática e mítica do século XVI. Possivelmente esta literatura da “nova ciência” influenciou na visão e produção de Antonio Landi e os demais comissionários.

Os conteúdos da lista de material e bibliografia expressam como a busca pela ordem na natureza utilizava o Método como aquilo que desvendaria o desconhecido. Um sentido racional capaz de ordenar as muitas formas da natureza rompendo com o sobrenatural, característica do Iluminismo.

Antoni Landi escreve sua “Descrição de várias Plantas, Frutas, animais, Aves, Peixes, Cobras, raízes, e outras coisas semelhantes que se acham nesta Capitania do Grão Pará, as quais todas Antonio Landi dedica a sua ExclCia o Sr. Luiz Pinto de Souza, Cavaleiro de Malta, e Governador do Mato Grosso, o qual com muita fadiga e diligência investigou muitíssimas coisas pertencentes à história natural e das quais se poderia formar um grosso volume com vantagem para a República Literária” no contexto da “filosofia ilustrada”, quando as narrativas de viagem expressam um caráter menos subjetivo dos resultados dos contatos pessoais.

A descrição da flora e fauna feita por Landi fazia parte do período em que a História Natural era vista como ciência definidora da natureza como elemento autônomo. O grande responsável por essa ruptura paradigmática foi o Sistema de Classificação das Espécies elaborado por Carl Lineu em 1753 que passou a orientar várias expedições científicas com o objetivo de observar e documentar as plantas e os animais.

Até o sistema de classificação proposto por Lineu, baseado na descrição dos caracteres da morfologia do aparelho reprodutor das plantas, conquistar os naturalistas ocorreram muitos debates e controvérsias, da mesma forma a mudança da narrativa de viagens ocorreram de maneira gradativa, assim como a mudança de uma visão antropocêntrica da natureza para uma visão “naturalista” . Uma análise que faz questão de alertar para esta “modificação gradual e cumulativa” além de chamar atenção da contextualização dos fatos encontra-se em A Investigação da Natureza no Brasil Colônia, Maria Elice Brzezinsk Prestes.

Além de chamar atenção para o cuidado com o anacronismo, Maria Elice Brzezinsk Prestes busca, em seu trabalho, traçar uma “História da Biologia”, chamando de “Investigação” o objetivo dos primeiros cronistas que observavam as novas fronteiras desbravadas pelos europeus, a flora e fauna destas regiões.

O historiador inglês Keith Thomas, em sua obra O Homem e o Mundo Natural, analisando sobre os trabalhos destes “naturalistas de campo” diz:
Membros de uma fraternidade científica européia mais ampla, foram eles que, com seus trabalhos em série – na pesquisa de plantas, na enumeração e descrição de criaturas selvagens e na correspondência com os naturalistas continentais -, lançaram os alicerces da botânica, da zoologia e da ornitologia modernas, bem como das outras ciências da vida.”10
Considerarmos os primeiros trabalhos de observação e descrição da natureza como “primeiros fundamentos das ciências biológicas”. Parece mais prudente, pois os objetivos de investigação da natureza tomam completa forma, desassociando o objeto de estudo – flores, animais, rios – totalmente do domínio social apenas no século XIX

Podemos perceber que descrição da flora e fauna Amazônica de Antonio Landi é contemporânea a essa trajetória do aperfeiçoamento científico, ignorando o subjetivo e partindo para uma maior exatidão na documentação da observação, um maior rigor no raciocínio, no caso da descrição de Landi algumas deficiências desse rigor científico podem ser apontadas.

Descrevendo o peixe Mamaiacu, Landi demonstra ter acesso a alguma leitura sobre História Natural citando Salmone, porém o que estava sendo escrito na Europa parecia desconhecer:

É peixe pequeno, e não maior que uma sardinha. Sua/ pele é manchada de branco, negro e pardo na forma de cir-/culozinhos com muitos poro elevados como espinhos,[...] Nem/ todos o comem, porque é preciso tirar-lhe certa pele que leva à náusea./ Suponho que este deve ser peixe inchador/ do qual fala Salmone [?] em sua História”11


As descrições, em linguagem ítalo-lusitana, são por muitas vezes pitorescas. Não seguem o padrão proposto pelo Systema Naturae de Lineu (1707-1778), agrupando a Mucura12, por exemplo, como quadrúpede, fugindo da sistematização das espécies do reino animal de Lineu. Nessa concepção mais científica não deveriam ser permitidos “nomes baseados no cheiro, no gosto, nas propriedades medicinais, no caráter moral ou na importância.”13 É justamente qualificando os animais de acordo com sua observação que Landi vai descrevê-los, chamando-os de “desdentados”, “mal cheirosos” e até “ladrões”. Da mesma forma faz com as plantas:
Esta espécie de maracujá [...] chamamos martírio. Nesta flor/ se vê ademais seu cálice, do qual nasce/ o fruto com uma semente do mesmo à parte que/ é aquela que o vulgo diz ser a impressão da coroa/ de espinhos com os cravos, e é certo que não de todo/ se engana. [...] O gosto é suavíssimo pois é acre e doce, mas tão/ bem temperado, que a todos agrada, e as melhores foram/as que se comem em Mariuá no Rio Negro e/ em outros lugares são mais ácidas. A dita fruta não/ causa dano a ninguém, e de uma só vez comi mais/ de cinqüenta, e não me causaram prejuízo.”14
Outro resquício da narrativa dos séculos XVI e XVIII presente na descrição de Landi é citação de dificuldades atravessadas:
A árvore que fui observar com muito desconforto meu,/ dentro de uma selva, era grande fora do comum. O/ pé era perfeitamente reto, e tão alto que/ não pude distinguir os frutos, e das folhas/ caídas vi que eram ordinárias e que nada tinham/ de particular.”15
Também presente na descrição outra dificuldade passada no dia-a-dia como fica evidente no encontro com uma “Onça, ou seja, Tigre”:
Estes feros animais abundam, e acham-se/ em todas estas selvas, e são tão petulantes, que/ chegam até as portas das quintas para levar os/ cães, de que são famintos, mas com tudo isto fogem/ dos homens, e durante os anos que aqui estou, nunca ouvi/ alguém perigar; pelo contrário, caçam-na, e muitos/ vão vender as peles, que se mandam a Lisboa [...] Vi uma destas não muito longe de mim, mas quando/ a avistei fugiu, e o índio que estava comigo avan-/çou com a espingarda./ Vi uma outra grande morta; e para mim PA-/receu-me o mais belo animal do mundo.”16
Além de relatar a venda da pele de onças para Europa, cita a “petulância” dos animais nos espaços de habitação e a figura do Índio como guia na selva.

Isabel Mendonça17, a partir da análise da descrição da natureza amazônica feita por Antônio Landi, afirma emergir de seus escritos o “perfil psicológico” de um “amante da natureza, maravilhado com o tamanho desmesurado de plantas e animais, com os cheiros, os paladares, as cores, tão diferentes dos europeus”18. Chama atenção para seu espanto com o tamanho das cobras, como a jibóia19 e a surucucu20 e “admiração” com a densidade vegetal da floresta amazônica.

Ao descrever a flora e a fauna, Landi emite sua opinião própria sobre as qualidades das plantas e dos animais e quando elogia o faz em contraste a outros frutos, árvores ou animais que não tem tanta qualidade. Consideramos seus comentários não de um “amante da Natureza” amazônica mas um interessado na utilidade dos elementos da Natureza, principalmente na agricultura e na construção e sua particular preocupação com a aclimatação de espécies. Como a Sorvas:

O fruto é redondo como as nozes verdes [...] e é certo que ao meu ver, e/ de muitos mais, é o mais agradável fruto que tem/ a América nesta parte. Sua doçura é agradabi-/ líssima [...] Esta planta não se vê/ nestas partes, mas sim no Rio negro, onde/ a experimentei bastante, e não sei se é porque aqui/ não dá, ou pelo pouco cuidado desta gente mole,/ que por outra coisa, penso, que ao cultivo.21


Fica mais evidente este senso utilitarista quando refere-se às madeiras e sua comercialização. Devido sua atividade profissional construtiva, estava intimamente interessado no uso em obras, como podemos observar no caso Maçaranduba e do Pau d´arco:


“Muito dura e fina é esta madeira, apta também/ esta a várias obras, mais particularmente de/ balaustradas, cornichos, e outras coisas semelhantes”.22
“Pau-d’arco [...] Desta madeira man-/dei trabalhar uma coluna dórica, com pe-/destal, friso, e arquetrave para o/ pelourinho desta cidade [...] Quanto à beleza/ desta planta, seria preciso um Petrarca/ para descrevê-la [...] para dizer a verdade sem adulação esta plan-/ta que na Europa seria muito apreciada.”23
Ainda considerando Landi como um “amante da Natureza”, a professora Isabel Mendonça se “deparada” com o “homem curioso pela Natureza”24. Apesar de considerar o exotismo das plantas e animais amazônicos, Landi parece estar mesmo interessado na produtividade advinda das condições propícias ao desenvolvimento de certas plantas, particularmente com transplantes de determinadas espécies:
Algodão// Esta planta é aqui abundante, e muito/ mais seria, se da mesma soubesse/ extrair maior vantagem [...] Não sei ademais se esta planta se deve meter / no número das árvores ou dos arbustos, por-/ que plantando-se as sementes em janeiro, em agosto/ dão fruto.”25
Sou da opinião que aqui poder-se-iam comer/ uvas como em quaisquer outros lugares porque dão três vezes/ ao ano, mas pouquíssimos são os que se deleitam em plantá-las, ou então plantavam seis, ou oito pés, e isto/ lhes basta.”26
Não se tratava de “curiosidade”, mas de preocupação em conhecer ou sugerir processos extrativistas. Landi procurava transformar os muitos produtos naturais da floresta amazônica, nos referimos a pesca, cultivo, ou revestimento de móveis.

Alguns animais aparecem na descrição como mais próximos, como por exemplo o candu e a capivara. A lontra é descrita sem deixar passar a sugestão da comercialização de sua pele “aveludada”. A recordação da compra de um papagaio em Borba nos permite analisar alguns sentimentos mais íntimos do estrangeiro em terras amazônicas:


“Um destes tive como presente e [...] outro comprei depois em Borba, ainda por seis escudos, e foi-me neces-/sário invocar o vigário meu amigo para que/ não fosse dado a outra para que tinha oferecido/ mais que eu; mas além de ser belíssimo,/ falava distintamente, tanto a língua por-/tuguesa quanto a tapuia, e como muitíssi/mo o estimava, tive a má sorte de vê-lo/ afogado na Baía de Marapatá”27

Podemos considerar a permanência dos mitos edênicos ao longo dos três séculos de colonização portuguesa, presentes nas narrativas dos descobrimentos e colonização da América. Apesar do período em que Landi produz sua descrição estar se despedindo destas miragens do Éden, o caso da descrição de aves como o papagaio revela, de certa maneira, resquícios da

da visão simbólica da Natureza do Novo Mundo. Tais aves, como a comprada por Landi e por ele apreciada, são associadas às terras edênicas desde a antiguidade, encontradas aqui, logo evidenciam um lugar paradisíaco. O tema é tratado por Sérgio Buarque de Holanda, em “Visão do paraíso”. Para o autor, “não admira tal associação quando se conhece a crença de que todos os bichos falavam no começo do mundo e só perderam a fala em conseqüência do Pecado”.28

Esse imaginário edênico, utilizando um conceito de Lucien Febvre, é uma ferramenta mental utilizada pelos cronistas europeus com o objetivo de interpretar inesperadas experiências na América29. Mesmo que se esvaindo, parece chegar até o século XVIII, essa permanência nos quadros mentais são “prisões de longa duração30, análise compartilhada por Sérgio Buarque de Holanda, sobre a diluição dos elementos maravilhosos durante o período moderno, neste período “irá abater-se pouco a pouco (...) a crença de que o céu, um céu sempre mais distante, cuida de interferir a todo momento nos negócios profanos31.

Nesta descrição de “História Natural”, Landi tem como maior preocupação o bom aproveitamento das terras amazônicas. Por todo relato descritivo da flora e fauna, está deveras aborrecido pela “preguiça dessas pessoas”, referindo-se aos colonos:
Desta planta [...] largam uma cor que seria muito/ apreciada em qualquer parte da Europa/ se não fosse descurado pela pré-/guiça dessas pessoas, e se alguma planta/ se acha, é por acaso, mas ninguém a/ cultiva.”32
As/ supraditas cuias são muito enviadas para fora,/ e muitas mais se enviaram, se a preguiça da-/quela gente não fosse tanta.”33


O ideal Iluminista faz parte do contexto da crítica que Landi faz ao uso da terra, o utilitarismo, comercialização, são todos elementos que compõem o pensamento mais afinado com a Coroa Portuguesa. Influencia a descrição das plantas utilizadas para alimentação, como remédio, com fins industriais, madeiras aves comestíveis, quadrúpedes úteis e peixes comestíveis.

Ainda na tentativa da produtividade, por várias vezes faz referência as suas tentativas de cultivo de espécies vindas da Europa ou das outras muitas colônias portuguesas. O próprio Alexandre Rodrigues Ferreira, fez menção ao cultivo de manga, jaca e tâmara no Pará por Antônio Landi34. Estas experimentações, longe de valorizar o clima ou a terra amazônica como similar a Europa, busca o lucro e o cultivo da terra considerada ociosa.

No propósito de entender os impactos a longo prazo desta “homogeneização da biota” do mundo, Crosby35 considera estas regiões colonizadas pelos europeus como “Neo-europas”, explicadas por ele em grande medida pelos aspectos ecológicos. A perseverança de Landi, nas suas experiências botânicas pode ser explicada por essa certeza européia de que onde não houvesse clima e patologia hostis, seria inevitável a repetição do sucesso do “Imperialismo ecológico’ europeu.

No contexto da colonização, paralelo a filosofia Iluminista, a atração de emigrantes europeus requeria um clima temperado, “onde pudessem manter um estilo de vida mais confortávelmente europeu (...), produzir ou mostrar um nítido potencial para produzir bens para os quais houvesse demanda na Europa”36. Além disso, a necessidade fundamental de comer era decisiva nesse processo. A chamada de atenção desta “produtividade dos solos neo-europeus” por Crosby e o alerta do lucro finito servem para pensarmos não só as mudanças que ocorreram no século XVIII na relação homem e natureza, mas para refletirmos sobre o tempo presente. Este é um campo que a História Ambiental tem sugerido analisarmos.

O objetivo de tomarmos os instrumentos dessa História Ambiental deve-se a possibilidade de reconhecer o “lugar da natureza na vida humana”. Especialmente no século XVIII, em meio a transformação em curso podemos perceber esse “mundo não humano”.

Para Donald Worster37, a análise da influencia da natureza sob a vida das sociedades humanas e as conseqüências desse contato para a natureza requer o conhecimento de conceitos das ciências naturais, principalmente da ecologia. Localizando melhor o funcionamento da História ambiental podemos apresentar os três níveis de análise enumerados por Worster:


Entendimento da natureza proprieamente dita, tal como se organizou e funcionou no passado; [...] o domínio sócio econômico na medida em que este interage com o ambiente. [...] um terceiro nível de análise para o historiador vem aquele tipo de interação mais intangível e exclusivamente humano, puramente mental ou intelectual.”38

No trabalho que estamos realizando, o “domínio sócio econômico” influencia muito na percepção utilitarista, provavelmente nas decisões e práticas agrícolas. Mas é a visão e o diálogo com a natureza por parte do estrangeiro em terras amazônicas no período colonial que investigamos, percebendo valores éticos influenciado pelo Iluminismo, mitos herdados do passado ou reelaborados a partir do contato com o mundo desconhecido. Estas estruturas de significação podem, em alguma medida, retratar a visão de parte da sociedade qual pertencia Antonio Landi, tarefa do historiador.

Em um contexto de evidente preocupação com a crise ambiental, essa identificação da forma de relação com a natureza no período moderno na Amazônia pode trazer esclarecimentos sobre as atitudes tomadas posteriormente em relação ao meio ambiente. Pode colocar em “relevo o papel social do historiador, sua força social, efetiva ou potencial”39, conectando o trabalho histórico com o tempo presente.
Referências bibliográficas

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1 Mestrando em História pela Universidade Federal do Pará e bolsista pela Capes.

2 Consideramos aqui a narrativa de viagem como fonte para investigação do historiador, não que este seja o objetivo de quem a produz,pois estes escritos seguiam tradições literárias comumente apenas de sobrevivência.

3 PRATT, M.L. Ojos imperiales: Literatura de viajes y transculturación. Buenos Aires: Universidad Nacional de Quilmes, 1997.

4 Mencionado nos escritos italianos como Giuseppe Antonio ou somente Antonio; ficará conhecido em Portugal e no Brasil como Antônio José Landi.

5 Fernando Galli de Bibiena foi membro de uma família de artistas italianos dos séculos XVII e XVIII.

6 MENDONÇA, I. M. G., 1999. Portugal e Brasil [1750-1791], p. 41, in PORTUGAL, q.v

7 ADONIAS, I., 1986. Pesquisa histórica. Historical research, PP. 29-30, in Anon., Ed. Fauna e flora brasileira do século XVIII. Fundação Emílio Odebrecht, São Paulo.

8 ROSSI, Paolo. Os filósofos e as máquinas: 1400-1700. (1962) São Paulo: Cia das Letras, 1985.

9 REIS, A.C.F., 1993. Limites e demarcações na Amazônia Brasileira. Volume 2. A fronteira com as colônias espanholas. Secretaria de Estado da Cultura [Série “Lendo o Pará’, 15], Belém, PA.

10 THOMAS, K. O homem e o mundo Natural. São Paulo: Cia das Letras, 1988, p.62.

11 BPMP, Códice 542, fl. 170 – Antônio José Landi, Descrizione de varie Piante (...).

12 Idem, fl. 150.

13 THOMAS, op. cit, p.102.

14 BPMP, Códice 542, fl. 66 – Antônio José Landi, Descrizione de varie Piante (...).

15 Idem, fl. 81.

16 Idem, fl. 156.

17 MENDONÇA, Isabel Mayer Godinho. Antonio José Landi (1713-1791): um artista entre dois continentes. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. 2003. p.311.

18 MENDONÇA, op. cit.

19 BPMP, Códice 542, fl. 163 – Antônio José Landi, Descrizione de varie Piante (...).

20 Idem, fl. 161

21 Idem, fl. 73

22 Idem, fl. 89

23 Idem, fl. 95

24 MENDONÇA, op. cit, p. 312.

25 BPMP, Códice 542, fl. 21 – Antônio José Landi, Descrizione de varie Piante (...).

26 Idem, fl. 116

27 Idem, fl. 141

28 HOLANDA. Sérgio Buarque de. Visão do Paraíso. Os Motivos Edênicos no Descobrimento e Colonização do Brasil. 2. Ed. Ver. E amp. São Paulo: Nacional; Edusp, 1969. p. 208.

29 FEBVRE, Lucien. Febvre: História. Coletânea de textos org. por Carlos Guilerme Mota. Trad. São Paulo: Ática, 1978. P. 55.

30 BRAUDEL, Fernand. “História e Ciência sociais: a Longa duração” In: Escritos sobre a História. Trad. São Paulo: Perspectiva, 1978. P. 50

31 HOLANDA.op. cit. p. 182.

32 BPMP, Códice 542, fl. 19 – Antônio José Landi, Descrizione de varie Piante (...).

33 Idem, fl. 39

34 Alexandre Rodrigues Ferreira, Diário da viagem Philosophica pela capitania de São José do rio Negro com a informação do estado presente dos estabelecimentos portugueses na sobredita capitania, desde a Villa capital de Barcellos até à fortaleza fronteira de São José de Morabitanas, in Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, tomo 49, vol. 72, rio de Janeiro, Laemmert & Cia., 1883, p. 206.

35 CROSBY, Alfred. Imperialismo Ecológico. A expansão biológica da Europa , 900-1900, São Paulo; Companhia das Letras, 1993.

36 CROSBY, op. cit, p. 262.

37 WORSTER, D. Para fazer história ambiental. Estudos históricos, v.4, n. 8, 1991.

38 Idem, p. 202.

39 MARTINEZ, Paulo H. História ambiental no Brasil. São Paulo: Cortez, 2006. P. 25.





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