Iliana lins quidute



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ILIANA LINS QUIDUTE


HIDRÓXIDO DE CÁLCIO

COMO MEDICAÇÃO INTRACANAL


Monografia apresentada à coordenação do curso de Especialização em Endodontia da Escola de Aperfeiçoamento Profissional (EAP) da Sociedade dos Cirurgiões-Dentistas de Pernambuco (SCDP) – Associação Brasileira de Odontologia - Seção Pernambuco ABO/PE; como requisito parcial para obtenção do título de especialista em Endodontia.
Orientador: Prof. Dr. Carlos Menezes Aguiar


RECIFE


2001


Dedico este trabalho a Meus Pais e Dinha, por todo o amor e carinho dispensados a mim, pelo incentivo nos momentos mais difíceis e pelo apoio. Sem vocês jamais poderia ter chegado até aqui, sei que a caminhada ainda é longa, mas com vocês junto a mim todos os obstáculos serão facilmente vencidos. Amo vocês!!



AGRADECIMENTOS

A Deus, que me deu a vida e ilumina os meus caminhos, dando-me a força que preciso para prosseguir, não me abandonando em um instante sequer de toda a minha vida.


Aos meus Pais, pelo seu amor incondicional e dedicação em todos os momentos. Meu pai com sua sabedoria muito me ensinou, sua honradez e caráter incontestáveis foram os alicerces na formação da minha personalidade; além do seu otimismo constante e espírito desbravador, sempre me estimulando a não desistir diante dos obstáculos. Minha mãe plantou em mim a semente do amor e a regou; sua bondade, pureza e generosidade me mostraram o caminho certo a seguir, alertando-me para todos os perigos e dificuldades que encontraria, mas também como poderia vencê-los e manteve acesa em mim a chama da fé em Deus.
À Dinha, que muitas vezes abdicou dos seus sonhos em favor dos meus, a quem tenho como uma segunda mãe e que está presente tanto nos momentos de prosperidade como nas adversidades. O seu carinho, apoio e estímulo são fundamentais para mim.
À Christiane, uma colega de turma que se tornou minha amiga, pela amizade sincera e presença constante em momentos alegres e difíceis. Que a nossa amizade transponha as fronteiras da endodontia.
Ao Professor Doutor Carlos Menezes Aguiar, orientador deste trabalho, pelo empenho e dedicação na busca para atingir os melhores resultados e por sua colaboração científica.
À Professora Gerhilde Callou Sampaio, pela coordenação do curso de Especialização, que com seu carinho, amizade e dedicação, nos ensinou muito mais que ciência, pois nada perde ou repete, porque tudo cria e renova.

Aos demais professores componentes do corpo docente (Carlos Aguiar, Diógenes Alves, Ivan Brondi Filho, Sandra Sayão e Thadeu Pinheiro), pelos ensinamentos transmitidos, pelo estímulo à busca de novos conhecimentos e pela amizade.


Aos colegas de turma (Christiane, Flávia, Flávio, Marcílio, Maurílio, Mônica, Norma, Rivelino, Silvana, Silvânia e Thália), pelo companheirismo, união e amizade desenvolvidos e aprimorados ao longo do curso.
Aos pacientes, responsáveis diretos pelo nosso aprendizado, que nos confiaram suas expectativas, medos e anseios, na busca pela cura.
À Sociedade dos Cirurgiões-Dentistas de Pernambuco, instituição responsável pela realização do curso de Especialização.
Aos funcionários da instituição, pela dedicação e respeito a todos os alunos e professores.
À colega Mariana Pimentel, pelo apoio moral e pela colaboração na correção ortográfica.
A todos aqueles que direta ou indiretamente contribuíram para a realização deste trabalho.

RESUMO

RESUMO

A principal preocupação da endodontia atual é promover a completa limpeza e sanificação do sistema de canais radiculares, objetivando o sucesso na terapêutica endodôntica, pois, a presença de microrganismos é fator primordial para instalação e manutenção das principais patologias pulpares e periapicais. O preparo biomecânico, auxiliado pelas substâncias irrigadoras, é o principal agente redutor dos microorganismos do interior do canal radicular, porém, na maioria das vezes é necessária a utilização de medicação intracanal entre sessões, para potencializar o processo de sanificação. O hidróxido de cálcio é uma das principais substâncias utilizadas como medicação intracanal na endodontia, por ser biocompatível, ter ação antiinflamatória, ação antibacteriana, estimular a formação de tecido ósseo mineralizado e contribuir no processo de reparo tecidual. Tudo isto se deve ao seu elevado pH, promovido pela sua dissociação em íons cálcio e hidroxila. Estas propriedades físico-químicas permitem que o hidróxido de cálcio tenha diversas aplicações na endodontia, sendo empregado em casos de polpas vivas e necrosadas, apicificação, apicegênese, traumatismos dentários e reabsorções radiculares internas e externas. No presente estudo serão apresentadas e discutidas as propriedades físico-químicas do hidróxido de cálcio, seu mecanismo antibacteriano e sua ação biológica, assim como, a influência de veículos e medicações associadas a ele sobre estas propriedades.



ABSTRACT

ABSTRACT

The main concern current in endodontics is to promote the complete cleaning and sterilization of the root canal system, objectifying the success in endodontic therapy, because the presence of bacterial and their products are primordial factors for installation and maintenance of the main pulp and periapical diseases. The root canal preparation, aided by chemo-mechanical instrumentation of the root canal, even so most of the time it is necessary the use of dress between the appointments among sessions for overshooting the sterilization process. The calcium hydroxide is one of the main substances used as dress medication in endodontics, for being biological, low toxity, antimicrobial properties to have anti-inflammatory action, antibacterial action, to induce the mineralization, initiation of tissue repair, everything this is due to its high pH, promoted by its dissociation in ions calcium and hydroxil. These properties physical-chemistries allow that the calcium hydroxide have several applications in endodontics, being used in cases of vital and non-vital pulps, treatment of immature teeth, dental traumas and internal and external root reabsorptions. Along the present work, will be presented and discussed the physical-chemistries properties of the calcium hydroxide, its mechanism bactericidal and its biological action, as well as the influence of vehicles and medications added it.


SUMÁRIO

RESUMO 06

ABSTRACT 08

1 INTRODUÇÃO 10

2 PROPOSIÇÃO 14

3 REVISÃO DA LITERATURA 16

4 DISCUSSÃO 35

5 CONCLUSÃO 46

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 49

INTRODUÇÃO

1 INTRODUÇÃO

Uma das principais preocupações da endodontia é promover a completa sanificação do sistema de canais radiculares, pois, a presença de microorganismos é um dos fatores responsáveis pela instalação e manutenção das patologias pulpares e periapicais e, conseqüentemente, está intimamente relacionada com os insucessos do tratamento endodôntico.

O preparo biomecânico dos canais radiculares e a utilização das soluções irrigadoras proporcionam uma significativa redução no número de microorganismos presentes no interior do sistema de canais radiculares. Porém, em alguns casos, se faz necessário o emprego da medicação intracanal entre sessões, com o objetivo de potencializar o processo de sanificação do sistema de canais radiculares e com isso favorecer o processo de reparo periapical. Uma boa medicação intracanal deve apresentar potencial antimicrobiano, ser biocompatível e estimular a reparação tecidual pós-tratamento dos canais radiculares.

De acordo com Fava; Saunders (1999), desde que foi utilizado, pela primeira vez, no arsenal endodôntico para o tratamento de fístulas dentais por Nygren em 1838, o hidróxido de cálcio vem sendo objeto de pesquisa e utilizado extensivamente, nas mais variadas situações clínicas.

As pesquisas comprovaram, cientificamente, que o hidróxido de cálcio apresenta algumas propriedades, que o tornam uma das principais substâncias do arsenal terapêutico da endodontia. Dentre as propriedades consideradas por Estrela; Bammann (1999b); Estrela et al. (1999a); Marais (1996); Siqueira Júnior; Lopes (1997 e 1999) como as mais importantes, temos: a biocompatibilidade, a ação antibacteriana, através da inibição enzimática e alterações na parede celular; a ação antiinflamatória e a sua atividade biológica responsável pela ativação da enzima tecidual fosfatase alcalina, indutora da formação de tecido ósseo mineralizado e, por conseguinte, contribuir para o processo de reparo.

O hidróxido de cálcio é uma base forte, derivado do sal carbonato de cálcio encontrado na natureza. Para obter o hidróxido de cálcio, o carbonato de cálcio é aquecido à cerca de 900 a 1200oC, por reação química. Este sal se dissocia em óxido de cálcio e gás carbônico ( CaCO3 → CaO + CO2); da hidratação do óxido de cálcio, obtém-se, então, o hidróxido de cálcio ( CaO + H2O → Ca(OH)2). O hidróxido de cálcio é um pó branco, que apresenta baixa solubilidade à água, elevado pH e é insolúvel no álcool. Sua baixa solubilidade é uma boa característica clínica, pois, quando colocado no interior do canal radicular, é necessário que ele seja solúvel aos fluidos teciduais, para que possa atuar (Fava; Saunders, 1999).

As propriedades do hidróxido de cálcio derivam de sua dissociação em íons cálcio (Ca++) e hidroxila (OH-), sendo que a ação destes íons sobre os tecidos e as bactérias explica as propriedades biológicas e antimicrobianas desta substância (Estrela; Bammann, 1999a).

Na clínica endodôntica, o hidróxido de cálcio está indicado como medicação intracanal entre sessões, tanto para casos de polpa viva como polpa necrosada e/ou com presença de reação periapical. Pode ser utilizado, também, em apicificação e apicegênese, no tratamento das reabsorções radiculares internas e externas, perfurações, exsudatos persistentes e casos de traumatismo dentário. Todas estas indicações se devem à sua ação antibacteriana, ação mineralizadora, em virtude do elevado pH, inativação de enzimas bacterianas e ativação de enzimas teciduais.


Em vista do exposto, é evidente que o hidróxido de cálcio ocupa um lugar de destaque na odontologia, em particular na endodontia, pois, ao ser utilizado como medicação intracanal, auxilia no processo de sanificação do sistema de canais radiculares, induz a formação de tecido mineralizado, controla os processos de reabsorção radicular, favorecendo, assim, o processo de reparo tecidual pós-tratamento endodôntico.

PROPOSIÇÃO
2 PROPOSIÇÃO

O objetivo deste trabalho foi analisar, através da revisão da literatura, as principais propriedades físico-químicas e biológicas do hidróxido de cálcio, relacionando-as com o seu emprego na endodontia como medicação intracanal.



REVISÃO DA LITERATURA

3 REVISÃO DA LITERATURA

Biocompatibilidade
Holland et al. (1998) avaliaram comparativamente o comportamento dos tecidos periapicais após biopulpectomia e a ação das medicações intracanal à base de hidróxido de cálcio e a associação corticosteróide-antibiótico, previamente à obturação dos canais radiculares com cimento à base de óxido de zinco e eugenol ou de hidróxido de cálcio. Os elementos dentários foram sobre-instrumentados e preparados biomecanicamente. Em seguida, foram divididos em dois grupos: um recebeu como medicação intracanal a pasta à base de hidróxido de cálcio, e, o outro, a associação corticosteróide-antibiótico. Após sete dias, as medicações foram removidas e os canais obturados com guta-percha e cimento à base de óxido de zinco e eugenol ou à base de hidróxido de cálcio. Após 180 dias, foi realizada a análise morfológica, a qual demonstrou que o hidróxido de cálcio apresentou melhores resultados, como medicação intracanal, que a associação corticosteróide-antibiótico, e que o cimento à base de hidróxido de cálcio promoveu melhor selamento biológico quando comparado ao cimento à base de óxido de zinco e eugenol.

Em 1998, Fava apresentou uma avaliação clínica realizada em 60 incisivos centrais superiores com necrose pulpar e periodontite apical aguda. Após o preparo biomecânico, os elementos dentários foram divididos em dois grupos de acordo com a medicação intracanal utilizada. Um grupo recebeu a pasta à base de hidróxido de cálcio e, o outro, solução à base de corticóide-antibiótico. Após 7 dias, foi feita uma avaliação clínica, os dentes que apresentavam-se assintomáticos foram obturados. Não houve diferença na incidência de dor pós-operatória entre os dois grupos.

Em 1999, Gahyva; Siqueira avaliaram clinicamente a resposta pós-operatória promovida pelo hidróxido de cálcio associado ao tricresol-formalina como medicação intracanal entre sessões do tratamento endodôntico, em casos de necrose pulpar com lesão periapical detectada radiograficamente. Após o preparo biomecânico, os canais foram preenchidos com uma pasta à base de hidróxido de cálcio e glicerina, associada ao tricresol-formalina. Os pacientes retornaram para avaliação da sintomatologia pós-operatória, após sete dias. Os resultados demonstraram que em 85% dos casos houve ausência de dor; e apenas 3,8% dos pacientes apresentaram pós-operatório ruim, ou seja, presença de dor e necessidade do uso de analgésico por mais de 24 horas ou agudização do processo. Porém, os autores afirmaram que esta associação de medicamentos deverá ser utilizada apenas após o completo preparo biomecânico do sistema de canais radiculares.

Nelson Filho et al. (1999) avaliaram a resposta inflamatória tecidual induzida por pastas à base de hidróxido de cálcio, associadas ou não ao paramonoclorofenol com ou sem cânfora. Todas as pastas promoveram uma resposta inflamatória nos períodos da observação (após 6, 12 e 24 horas e 2, 3, 5, 7 e 15 dias), variando apenas a intensidade, duração e extensão da lesão. A pasta Calen® (hidróxido de cálcio + polietilenoglicol 400; S.S.White, Brasil) promoveu uma resposta inflamatória por curtos períodos, enquanto que as demais pastas (Calen® + paramonoclorofenol canforado, Calen® + paramonoclorofenol, Calasept® = hidróxido de cálcio + água destilada; Scania Dental, Suécia) produziram reações estendidas. O Calen® apresentou melhor biocompatibilidade e o composto fenólico causou a maior resposta tecidual (congestão intensa, edema e infiltrado inflamatório, após 6 horas), sendo esta mais severa na ausência de cânfora. Todas as pastas permitiram reparo tecidual até o fim do experimento.



Ação Biológica
O hidróxido de cálcio estimula o processo de mineralização/remineralização e promove o reparo devido ao seu elevado pH que irá ativar a enzima fosfatase alcalina, estimulando a liberação de fosfato inorgânico dos ésteres de fosfato, de acordo com Estrela et al. 1995c. Os íons de fosfato livres reagem com os íons cálcio, provenientes dos tecidos, e formam o composto fosfato de cálcio, que se precipita na matriz orgânica na forma de hidróxido apatita.

Çalişkan; Turkun. (1997) relataram o caso de um paciente adulto jovem com rizogênese incompleta e extensa lesão cística, decorrente de um traumatismo sofrido 12 anos antes, que foi tratado com medicação intracanal (pasta à base de hidróxido de cálcio), inicialmente com trocas diárias durante 4 dias, em virtude da presença do líquido cístico. Após 9 meses, houve regressão da lesão e fechamento do ápice, e em 15 meses, observou-se o reparo periapical. Os autores demonstraram que extensas lesões císticas podem regredir apenas com uso de medicação intracanal, sem a necessidade de realizar tratamento cirúrgico.

Em 1998, Papworth; Leads compararam os resultados de tratamentos endodônticos, após um período de 6 a 9 meses, em dentes com polpa necrosada e com reação periapical radiograficamente detectável. Quarenta e três elementos dentários unirradiculares receberam tratamento endodôntico, dos quais 23 receberam o hidróxido de cálcio como medicação intracanal por um período que variou de 10 a 21 dias e 20 foram obturados na mesma sessão. No grupo que recebeu hidróxido de cálcio houve 100% de sucesso, ou seja, houve regressão ou desaparecimento da reação periapical e ausência de sintomatologia. Dos 20 dentes obturados em sessão única, observou-se sucesso em 60% (12), nos 40% (8) restantes houve permanência ou aumento da reação periapical e dor à percussão.

Em 1998, Panzarini et al. analisaram histológica e histomicrobiologicamente a influência do tricresol-formalina e do paramonoclorofenol associado ao furacin no tratamento de dentes com lesão periapical crônica; obturados com cimento à base de hidróxido de cálcio e à base de óxido de zinco e eugenol. Após 180 dias, fez-se a análise histológica. Os resultados demonstraram que o curativo à base de tricresol-formalina foi mais eficiente que o de paramonoclorofenol-furacin, independente- mente do material obturador. O cimento à base de hidróxido de cálcio proporcionou melhores resultados em comparação com o cimento à base de óxido de zinco e eugenol. O melhor resultado foi obtido no grupo tricresol-formalina e do cimento à base de hidróxido de cálcio, onde houve selamento biológico completo e ligamento isento de inflamação.

Holland et al., em 1999 analisaram o emprego de três formulações diferentes do hidróxido de cálcio (Calen® = hidróxido de cálcio + polietilenoglicol 400, S.S.White Brasil, Calen® + paramonoclorofenol canforado e hidróxido de cálcio + anestésico) como curativo de demora, a curto prazo (3 dias), no tratamento de dentes com lesão periapical. Em seguida, foram obturados com cimento à base de hidróxido de cálcio. Após 6 meses, foi feita a análise histomorfológica, que demonstrou não haver diferença significativa entre os grupos estudados. O reparo completo foi observado em 50% dos casos nos 3 grupos, 46% exibiram sinais de estarem em processo de reparação.

Em 1999, o reparo apical em dentes portadores de periodontite apical tratados em sessão única ou em duas sessões, empregando ou não o hidróxido de cálcio como medicação intracanal, foi avaliado radiograficamente por Trope; Delano; Ørstavik. Os pacientes foram divididos em 3 grupos: o Grupo I recebeu tratamento em sessão única, os Grupos II e III receberam tratamento em duas sessões, tendo o Grupo III recebido medicação intracanal à base de hidróxido de cálcio entre as sessões. Foi utilizado um método de contagem do índice periapical para comparar as diferenças entre o início do tratamento e após 52 semanas. Os resultados demonstraram diferenças estatisticamente significantes. Os elementos dentais tratados em duas sessões, sem o uso de medicação intracanal, apresentaram baixo índice de reparo, enquanto que, os outros dois grupos apresentaram boas respostas em proporções similares.

O hidróxido de cálcio está indicado para o tratamento das reabsorções cervicais externas pós-clareamento em dentes despolpados, em virtude das suas propriedades mineralizadoras e estimulação de reparo tecidual (Santos, 1996). Ao ser aplicado nas áreas de reabsorção cervical externa, o hidróxido de cálcio difunde-se através dos canalículos dentinários, eleva o pH tecidual e assim neutraliza a acidez dos agentes clareadores, revertendo o processo inflamatório e promovendo deposição de tecido mineralizado.

Além de ser empregado para auxiliar no reparo de lesões periapicais, o hidróxido de cálcio também apresenta outra ação biológica, no que diz respeito ao tratamento de apicegênese e apicificação e em casos de reabsorção radicular. A reabsorção inicia-se pela perda da matriz inorgânica da raiz e pré-cemento. O tecido mineralizado exposto é então destruído pela ação de células clásticas (osteoclastos e cementoclastos). O hidróxido de cálcio promove aumento do pH do meio, neutralizando ácidos e inibindo a atividade enzimática relacionada à reabsorção. Promove, também, a morte das células clásticas, paralisando o processo de reabsorção, segundo estudos desenvolvidos por Siqueira Júnior; Lopes em 1997.

Goldstein et al. (1999) apresentaram casos clínicos de rizogênese incompleta, tratados com pasta à base de hidróxido de cálcio, sendo um com polpa necrosada e outro com polpa vital, promovendo a apicificação e apicegênese respectivamente. No caso em que o elemento dental apresentava-se com polpa necrosada, após sofrer traumatismo, o dente foi aberto e biomecanizado. Em seguida, preenchido com pasta à base de hidróxido de cálcio. O paciente foi reavaliado a cada 3 meses durante 2 anos. Após esse período, houve formação da barreira apical, sendo o dente então obturado. Na proservação, realizada após 10 anos, observou-se ausência de sintomatologia e a integridade dos tecidos de suporte. No outro caso, também com história de trauma, os elementos dentais envolvidos apresentavam-se com polpas vitais, um deles normal, e outro, já apresentava sinais de comprometimento pulpar. Neste último, foi realizada uma pulpotomia e colocação de pasta à base de hidróxido de cálcio sobre o remanescente pulpar para promover a apicegênese. Após 2 anos, constatou-se o fechamento apical. Em seguida, o tratamento endodôntico foi concluído.

Çalişkan et al. (2000) apresentaram casos clínicos de reimplante dental, realizados a 3 horas do acidente, nos quais os elementos dentários já estavam secos. Após limpos e hidratados, os dentes foram reimplantados e esplintados. No caso I, o paciente só retornou para o tratamento endodôntico 1 mês depois. Já havia extensa reabsorção radicular externa apical. No caso II, a paciente retornou no dia seguinte ao reimplante. Em ambos os casos, após preparo biomecânico, os canais foram preenchidos com pasta à base de hidróxido de cálcio, trocada duas vezes em duas semanas. Após esse período, foram obturados com cimento à base de hidróxido de cálcio. Os casos foram proservados clínica e radiograficamente no período de 6 a 24 meses e apresentavam-se assintomáticos, com mobilidade normal e sem presença de evolução da reabsorção radicular ou anquilose.



Ação Antibacteriana
Para selecionar uma medicação intracanal, deve-se conhecer bem o seu mecanismo de ação sobre a flora bacteriana predominante. Devido ao seu elevado pH, em virtude da liberação de íons hidroxila, o hidróxido de cálcio é considerado um excelente agente antibacteriano, por alterar as enzimas presentes na parede celular bacteriana, que tem função primordial para a sua sobrevivência, pois é responsável pelo metabolismo, transporte de nutrientes, crescimento e divisão celular. Ao promover estas alterações na parede celular bacteriana, o hidróxido de cálcio causa a morte celular, segundo Estrela et al. (1995c).

No ano de 1995, Kontakiotis; Nakou; Georgopolou analisaram a ação do hidróxido de cálcio sobre a flora anaeróbia do canal radicular, através da absorção do dióxido de carbono do meio. Quarenta espécies de bactérias anaeróbias (20 estritas e 20 facultativas) foram isoladas de canais radiculares infectados. Após análise estatística, os resultados demonstraram que no grupo controle a quantidade de bactérias recobertas foi significativamente menor que no grupo experimental, não sendo observada resistência de qualquer espécie bacteriana frente ao hidróxido de cálcio. Os autores concluíram que o hidróxido de cálcio é capaz de absorver o dióxido de carbono do meio, representando, assim, outro mecanismo antibacteriano desta medicação intracanal. Afirmaram, também, que desta maneira, o hidróxido de cálcio pode eliminar bactérias do interior do canal radicular, mesmo na ausência de contato físico do material com os microorganismos.

Sardi; Froener; Fachin (1995) realizaram estudo clínico em elementos dentais unirradiculares portadores de lesão periapical visível radiograficamente. Após o preparo biomecânico, realizou-se cultura bacteriológica. Em seguida, os canais foram preenchidos com as seguintes medicações intracanal: um grupo utilizou pasta à base de hidróxido de cálcio preparada com água destilada, e, outro, paramonoclorofenol canforado (PMCC) aplicado em cone de papel. Após 7 dias, a medicação foi removida. Realizou-se novo teste bacteriológico e os canais foram obturados. Dos dentes tratados com hidróxido de cálcio, 80% apresentaram cultura negativa e os tratados com PMCC, 100% apresentaram cultura negativa. Ambos os grupos confirmaram seu poder antibacteriano.

A atividade antibacteriana do paramonoclorofenol canforado, hidróxido de cálcio e da clorexidina a 0,2% foi estudada por Barbosa et al. em 1997, através do testes de difusão em agar e, clinicamente, em elementos dentários, após a realização do preparo biomecânico. Os resultados clínicos demonstraram que todos os medicamentos promoveram eliminação ou redução da microbiota endodôntica e não houve, clinicamente, diferença significativa entre eles. Contudo, no teste de difusão em agar, o paramonoclorofenol canforado apresentou melhores resultados.

O hidróxido de cálcio também é responsável pela hidrólise das endotoxinas ou lipopolissacarídeos (LPS) presentes na parede celular de bactérias gram-negativas, que são importantes fatores de virulência e um dos principais fatores etiológicos das pulpopatias e periapicopatias. Ao ser inativada, a molécula de LPS perde seus efeitos tóxicos (Siqueira Júnior; Lopes, 1997).

De acordo com Goodis (1998), o principal agente etiológico das infecções pulpares é a ação bacteriana, sendo esta também a principal causa dos insucessos nos tratamentos endodônticos. Todavia, quando o preparo biomecânico é associado ao uso do hidróxido de cálcio, como medicação intracanal, por períodos que variam de sete a dez dias, há eliminação das bactérias e conseqüente aumento de sucessos após tratamento endodôntico, principalmente quando comparados a tratamentos realizados em sessão única.

O tempo necessário para que o hidróxido de cálcio tenha efeito antibacteriano, através da ação por contato direto, sobre espécies bacterianas (Micrococcus luteus, Staphylococcus aureus, Fusobacterium nucleatum, Pseudomonas aeruginosa, Escherichia coli e Streptococcus sp.), nos períodos imediatamente e após 1, 2, 6, 12, 24, 48 e 72 horas e 7 dias, foi avaliado por Estrela et al. (1998a). Os resultados demonstraram que o hidróxido de cálcio foi efetivo após 12 horas sobre M. luteus e F. nucleatum. Após 24 horas sobre Streptococcus sp., 48 horas sobre E. coli e após 72 horas sobre S. aureus e P. aeruginosa. As misturas de microorganismos foram inativadas pelo hidróxido de cálcio da seguinte maneira: Mistura II (M.luteus + Streptococcus sp. + S. aureus) após 48 horas e as Misturas I (M. luteus + E.Coli + P. aeruginosa), III (E. coli + P. aeruginosa) e IV (S. aureus + P. aeruginosa) após 72 horas.

A ação antibacteriana do hidróxido de cálcio em túbulos dentinários infectados foi avaliada, pelos estudos realizados por Estrela et al. (1999b). Sessenta e três elementos dentários foram preparados biomecanicamente, esterilizados e divididos em 5 grupos com 12 dentes cada. Em seguida, contaminados por 28 dias, colocando-se novas culturas a cada 72 horas. Posteriormente, foram lavados com soro e preenchidos com pasta à base de hidróxido de cálcio. Imediatamente e após 48, 72 horas e 7 dias, a medicação foi removida e os elementos dentais imersos em meios de cultura para avaliar o crescimento e multiplicação dos microorganismos. Os resultados demonstraram que o hidróxido de cálcio não apresentou ação antibacteriana nos túbulos dentinários infectados, mesmo após 7 dias.

Em 1999, a atividade antimicrobiana de duas pastas à base de hidróxido de cálcio, utilizadas como curativo de demora, Calen® (hidróxido de cálcio + polietilenoglicol 400; S.S.White, Brasil) e Calasept® (hidróxido de cálcio + água destilada, Scania Dental, Suécia) e uma pasta à base de óxido de zinco foram avaliadas sobre 7 cepas de bactérias aeróbias e anaeróbias facultativas, gram-negativas e gram-positivas por Leonardo et al. Os resultados indicaram que as pastas avaliadas apresentaram atividade antibacteriana sobre as cepas testadas.

Para que o hidróxido de cálcio tenha ação antimicrobiana, é necessário que esteja em contato direto com a bactéria, pois, nessas condições a concentração de hidroxila é bastante elevada, atingindo níveis que tornam o meio incompatível à sobrevivência da bactéria. Porém, nem sempre é possível conseguir estas condições clinicamente, segundo afirmaram Siqueira Júnior; Lopes (1999).





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