Henri Regnault a morte nao Existe


Capítulo X O Mundo Invisível e a Guerra



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Capítulo X

O Mundo Invisível e a Guerra


O objetivo pretendido por Léon Denis, publicando O Mundo Invisível e a Guerra, foi, em suas próprias palavras:121

“... orientar o pensamento francês para um espiritualismo científico e elevado, para uma crença capaz de colocar nossa nação à altura dos grandes deveres e das nobres tarefas que lhe incumbem.

É preciso que uma ampla corrente idealista, um poderoso sopro moral varra as sombras, as dúvidas e as incertezas que ainda pesam sobre tantas inteligências e consciências, a fim de que um raio das verdades eternas ilumine os cérebros, reaqueça os corações e leve consolação e esperança aos que penam e sofrem.

A educação do povo deve ser inteiramente refundida, de maneira a comunicar a todos a noção das obrigações sociais, o sentimento das responsabilidades individuais e coletivas e, sobretudo, o conhecimento do real objetivo da vida, que é o progresso, a depuração da alma, o acréscimo de suas riquezas íntimas e ocultas.

É preciso, enfim, que uma solidariedade estreita una os vivos aos mortos e que as duas humanidades, da Terra e do Espaço, colaborem na obra comum de renovação e de progresso.”

Esse livro é composto pela maioria dos artigos que apareceram durante a guerra, nas revistas espíritas e psíquicas, sendo que Léon Denis lhes acrescentou alguns capítulos inéditos.

Em suma, essa obra pode ser dividida em duas partes principais. Na primeira, vemos como é a ação do mundo invisível nas operações da guerra. Com provas que o apoiam, Léon Denis mostra que, durante todas as hostilidades, os invisíveis desempenharam um importante papel.

De resto, antes da guerra, numerosas comunicações faziam prever que a França teria de suportar o choque da invasão e que uma guerra terrível iria desencadear-se.

Na segunda parte da obra em referência, vemos a maneira como Léon Denis espera esboçar o novo mundo, com vistas a dar aos homens um pouco mais de felicidade.

Nessa obra, Léon Denis indica qual é o real objetivo do Espiritismo:122

“O Espiritismo tem por finalidade nos familiarizar com esse mundo pouco conhecido, com essas aptidões da alma, que, sendo pura e desligada dos meios grosseiros, pode reproduzir os ecos, as vozes, as harmonias dos mundos superiores e tornar-se uma fonte de inspiração, de socorro e de luz, pela qual o influxo exterior desce em nós, para nos retemperar e vivificar.”

Por várias vezes, o autor nos dá a prova de que aplica nele próprio a tolerância, que é a regra principal do Espiritismo.

Quando se é espírita, deve-se ter muita indulgência para com os outros e para com as instituições humanas. Temos o direito de dar conselhos, mas não de julgar nem, sobretudo, de criticar.

No capítulo IX – “O Espiritismo e as Religiões”, Léon Denis lembra que o Espiritismo jamais foi o inimigo das religiões e que, muito ao contrário, ele lhes leva elementos de força e regeneração.

Com efeito, o Espiritismo é tão antigo quanto o mundo; quando se estuda a parte oculta das religiões, constata-se que todas, sem exceção, têm as mesmas bases do Espiritismo.

Graças à Ciência Espírita, sabemos que os milagres de certas religiões não são coisas sobrenaturais. Para usar a expressão do professor Charles Richet, são simplesmente coisas inabituais, mas normais, tudo conforme as leis da natureza.

Como bem justamente escreveu Léon Denis:123

“Em realidade, em seu princípio, em seu elevado objetivo, todas as crenças são irmãs e convergem para um centro único.

Da mesma forma que a fonte límpida e o regato ligeiro vão, finalmente, juntar-se no vasto mar, o Bramanismo, o Budismo, o Cristianismo, o Judaísmo, o Islamismo e seus derivados, sob suas mais nobres e mais puras formas, poderiam reunir-se em uma vasta síntese e suas preces, unindo-se às harmonias dos mundos, se transformarem em um hino universal de adoração e de amor.”

Encontra-se nessa obra o que certos espiritualistas buscam fazer com todas as suas forças.

Fundamos, em 1923, uma instituição que denominamos Aliança Espiritualista Universal, que tem por finalidade federar todos os que, de alguma forma, aceitam o Espiritismo, isto é, admitem, de início, que há um Criador, qualquer que ele seja; em seguida, que existe no homem uma alma, um princípio pensante. Enfim, que esse princípio pensante sobreviva após a morte, qualquer que seja a maneira dessa sobrevivência.

Se pudéssemos reunir todas as forças espiritualistas para lutar contra o materialismo, teríamos o meio de dar à humanidade reais possibilidades de ser feliz.

Que importância pode ter o nome que, conforme as religiões, se dê ao Criador do Mundo? Poder-se-ia, com Léon Denis, chamá-lo A Causa das Causas.

Não conheço meio mais eficaz que o Espiritismo para lutar contra a desagradável corrente da incredulidade, que resulta das exagerações da maior parte das religiões.

Quando se impede os seres humanos de refletir sobre questões que lhes serão apresentadas um dia para considerar como sendo as principais da vida, eles são levados, fatalmente, a se revoltarem; assim, se criam condições para o ateísmo, a dúvida, o niilismo, que distanciam o homem da oração, indispensável para se ficar em relação com a Causa que nos fez nascer.

A oração, para os espíritas, não é a recitação de uma fórmula vã, aprendida por memorização; é um elo espontâneo para com Deus e os Invisíveis.

Além disso, para orar, não é indispensável que se esteja em um templo. Léon Denis sabia orar em qualquer lugar.

“Agora – escreve ele – que a idade e as enfermidades me privam dos grandes espetáculos da natureza, eu me transformei, por vontade, num templo interior, onde meu pensamento gosta de abrigar-se, nas horas calmas e de solidão, para celebrar o culto dos nobres espíritos cujo gênio revelador aclarou com sua luz os caminhos da humanidade.

Aí, por um esforço de minha imaginação, tenho erguido as estátuas ideais, as imagens sagradas dos messias, dos profetas, dos filósofos mais dignos de respeito e admiração.

No meio do santuário, brilha o símbolo sagrado da Divindade, a quem se dirigem, de início, minhas adorações.

À sua direita, aparece a grande figura do Cristo, meu venerável Mestre, e à sua esquerda os messias da Ásia: Krishna, Buda, Lao-Tsé, Zoroastro, aos quais sucedem as figuras dos filósofos gregos, de Pitágoras a Platão. Diante deles, alegro-me em recitar os versos dourados da sabedoria antiga.

Em seguida ao Cristo, se encontram os mais autorizados representantes da idéia cristã. Perto deles, repito para mim mesmo o Sermão da Montanha, que resume e engrandece todo o Cristianismo: “Felizes os que sofrem, porque serão consolados”. Também os preceitos evangélicos reconhecidos como autênticos. Tive o cuidado de não esquecer o grupo dos druidas e dos bardos. À frente, se encontra em grande estatura, a figura imponente de Taliésin.124 Em sua presença, recito espontaneamente As Tríades, esse maravilhoso monumento das tradições célticas, cuja sabedoria se iguala à ciência profunda do Oriente.

Enfim, prosseguindo, vem Allan Kardec, que eu considero como o continuador das grandes tradições de nossa raça.

Peço perdão ao leitor pelas coisas tão pessoais, mas foi por aí que eu pude tirar ensinamentos úteis e salutares inspirações.

Com efeito, em minhas visitas costumeiras a esses grandes espíritos, nos exercícios que sua lembrança provoca, isto é, a recitação de fragmentos de suas mais célebres obras, tenho sempre experimentado a serenidade d’alma e o reconforto.

Não se vê, em suas diversas concepções, a menor contradição! Sob suas variadas formas, encontramos em cada uma delas a mesma finalidade, a mesma aspiração para o bem, para a suprema bondade, que são tanto atributos como uma radiação divina.

De seu conjunto se destaca uma síntese magnífica, que resume o pensamento de todo um mundo no que ele possui de mais nobre e de mais puro; síntese que exprime, preciso e fecundo o Espiritualismo Moderno, comunhão universal que congregará, um dia, todas as consciências e todos os corações.” 125

“Foi me inspirando nesse sentimento espiritualista que cheguei, muitas vezes, a me associar às orações de meus irmãos das diferentes religiões.

Assim, sem me vincular às fórmulas usadas naqueles meios, pude orar com fervor, tanto nas majestosas catedrais góticas como nos templos protestantes, nas sinagogas e até nas mesquitas.

Entretanto, minha prece adquire ainda mais ardor e mais força à beira-mar, quando é embalada pelo ritmo das vagas, nos altos picos, diante do panorama das planícies e dos montes, sob a copa das florestas e sob o firmamento constelado das noites.

O templo da natureza é o único, verdadeiramente digno do Eterno.” 126

Essa longa citação permite compreender bem a maneira pela qual Léon Denis chegou, em sua velhice, a se fazer um verdadeiro templo; assim, ele não tinha necessidade de formas exteriores, nem de culto. Bastava-lhe simplesmente meditar em tudo quanto conhecia, de se lembrar dos diversos benefícios trazidos à humanidade por todos os que, sob qualquer título, se ocuparam com a moral e a religião.

Quando procuramos divulgar nossa Aliança Espiritualista, objetaram, muitas vezes, que há entre as diversas religiões e entre as diferentes escolas coisas que, verdadeiramente, impedem uns e outros de se entenderem.

Assim, por exemplo, colocam-se entre os espíritas e os teosofistas barreiras intransponíveis; todavia, foi uma teosofista que teve, primeiramente, a idéia da Aliança Espiritualista Universal.

Tivemos, muitas vezes, a ocasião de nos exprimir publicamente: ela, falando segundo as concepções teosóficas, eu defendendo o Espiritismo; e sempre chegamos a um entendimento.

Portanto, não há entre todos os espiritualistas oposição suficiente para que não se possa alcançar, um dia, uma aliança entre todos os que têm um ideal diferente do materialismo e do niilismo.

Em vários capítulos de seu livro O Mundo Invisível e a Guerra, Léon Denis estudou, de um lado, o sonho do gênio céltico e, de outro lado, sua ressurreição, mostrando a admiração que devotava a Allan Kardec.

Também, dois de seus capítulos, um escrito em 1916, outro em 1918, tinham sido feitos para serem lidos na cerimônia que se realiza, todos os anos, em Père-Lachaise, diante do túmulo de Allan Kardec, no aniversário de sua morte.

Mais uma vez temos a prova da unidade perfeita da obra de Léon Denis, onde é impossível encontrar contradições.

No que concerne a Allan Kardec, em 1916 e em 1918, Léon Denis expressou-se como já o havia feito em 1887, proferindo um discurso frente ao dólmen do Mestre:

“A obra de Allan Kardec – dizia ele – é alicerçada no granito. Eleva-se, imponente como as rochas que dominam as praias da Armorique. Essas rochas, às vezes, o mar em rugido as envolve e lança até seus picos suas ondas espumantes.

Parecem como sepultadas sob a toalha úmida, que logo as acaricia, dentro em pouco as sacode e faz tremer suas bases, mas, pérfida ou brutal, em vão a onda se enfurece sobre esses gigantes.

Vem um momento em que os clamores impotentes cessam; o vento tomba, a tempestade amaina, a vaga se retrai. De novo, a orgulhosa figura do grande rochedo se projeta sobre a praia silenciosa, como um símbolo de poder e de majestade.

Assim é a obra de Kardec, que nem a crítica e nem o sofisma podem calar, porque em suas linhas mestras ela se apoia na Razão, na Verdade e na Justiça, únicos princípios imutáveis, eternos, únicas bases das leis superiores do Universo.”

Em O Mundo Invisível e a Guerra, Léon Denis lembra o que pode ser a experimentação espírita.127 Mostra, por exemplo, a maneira pela qual podemos nos certificar da realidade da escrita mediúnica.

Nessa obra se encontra, igualmente, a prova de que a tiptologia é, apesar dos incrédulos, absolutamente real.

Quanto à forma como Léon Denis considera o Espiritismo, podemos classificar os humanos em três categorias: uns, sem mesmo terem o trabalho de estudar nossa doutrina, afirmam solenemente que tudo é truque e charlatanismo. Segundo eles, um ser humano não pode escrever sob influência que não seja a de seu pensamento.

A segunda categoria aceita a realidade de todos os fenômenos, mas recusa energicamente nossa interpretação.

Sabe-se que Flournoy escreveu um livro importante, no qual estudava a mediunidade de Hélène Smith; naturalmente, ele negava com vigor a intervenção dos espíritos, por consequência, se apelarmos para seu testemunho, seremos obrigados a constatar que ele não é suspeito.

Ora, quanto à mediunidade de Eusapia Palladino, o Professor Flournoy escreveu: “A opinião do Instituto Geral Psicológico é esmagadora. Penso que ela constitui um testemunho brilhante e categórico, portanto pode haver alguma coisa de decisivo na Ciência.”

Achamos, em O Mundo Invisível e a Guerra, provas de identidade extremamente interessantes. Vou destacar uma, tomando a narrativa feita por Richard Wilkinson. Trata-se de uma pessoa absolutamente incrédula, adversária declarada do Espiritismo, a ponto de não querer nem mesmo abrir um livro que trate dessa questão.

“Em novembro de 1916 – disse Wilkinson 128 –, meu filho foi mortalmente ferido, à frente de seus comandados, no combate de Beaumont-Hamel, e expirou alguns dias depois, com a idade de 19 anos.

Minha mulher e eu pudemos assistir a seus últimos momentos, num hospital, na França. Ele era nosso único filho e o sentimento que o ligava a nós era o de uma doce camaradagem e de uma afeição filial.

No retorno à Inglaterra, uma amiga de minha mulher, tocada por sua dor, enviou-lhe o livro de Sir Oliver Lodge, Raymond. Eu estava de espírito prevenido contra essas investigações e pedi à minha esposa para não ler o livro.

Vendo que isso a contrariava muito, não insisti, porém declarei, energicamente, que não queria envolver-me com um semelhante absurdo.

Ela ficou de tal modo impressionada com a leitura, que usou de todos os argumentos para destruir meu preconceito e me levar a ler a obra.

Terminei por ceder, mas essa leitura não bastou para me convencer, embora admirasse a beleza da doutrina e reconhecesse minha prevenção de tê-la condenado a priori.

Minha mulher escreveu a Sir Lodge, para lhe pedir conselho. Ele não nos conhecia, mas a semelhança de nossa dor comum o levou a nos apresentar uma amiga que organizou para nós uma sessão com o médium Vout Peters.”

Eis um primeiro ponto importante: do mesmo modo que os propagandistas não devem ter a idéia de convencer seus ouvintes, seja com uma conferência, seja com uma conversa particular, assim fez a pessoa que enviou o livro Raymond e o médium Vout Peters, que não tinham a pretensão de levá-los a ser espíritas, mas queriam simplesmente levá-los a entender que há no Espiritismo outra coisa além da fantasmagoria.

Tive ocasião, numa viagem à Inglaterra, em 1921, de ter uma longa conversa com esse médium e de me convencer, após os dados que recolhi, que ele é um médium sério. Aliás, a União Espírita Francesa teve o prazer de recebê-lo.

“Nessa primeira tentativa (com o médium Vout Peters) – continuou Wilkinson 129 –, disseram-nos que nosso filho, passando para o Além, tinha sido recebido por “Jean, Elisabeth, Guillaume e Edouard”.

Esses quatro nomes eram os de meu pai, de minha mãe, de meu irmão, já mortos, porém o de Edouard me era desconhecido. Impressionado pela exatidão dos três primeiros nomes, escrevi a meu irmão mais velho, a propósito de um pequeno irmão, que eu sabia ter morrido antes de meu nascimento, e ele me respondeu que essa criança, de nome Edouard, havia morrido com 12 semanas.

Na mesma sessão, meu filho, conhecendo minha incredulidade, declarou que desejava vivamente comprovar sua presença e fez alusão a um fato íntimo, conhecido somente por minha mulher e por mim. Trata-se de uma coisa tão secreta, que não a pude relatar aqui.

Outro fato:

Embora meu filho não se chamasse Roger, tinha sido apelidado assim, exceto por sua mãe, que só o chamava de Poger.

O médium soletrou um nome “Po...” e nos disse, sem poder dar as duas letras seguintes, que a última era “r”.

Eu respondi: – É o nome de meu filho; você quer dizer Roger.

O médium replicou: – O garoto diz que eu não devo dizer Roger, mas sim Poger.

Intrigado por esses fenômenos, eu quis ir mais além. Fomos à casa de um outro médium, Sra. Osborne Léonard. Tivemos o cuidado de não lhe dizer quem éramos, nem o objetivo de nossa visita.

A primeira coisa que ela nos disse foi uma descrição exata e detalhada de nosso filho, assim como o nome de Poger, acrescentando que Elisabeth, Jean e Guillaume estavam lá e lhe davam assistência.

Minha mulher tinha se entristecido porque suas cartas não se achavam nas coisas de seu filho, mas não me falara nada a respeito.

A médium declarou que Roger lhe mostrava uma sacola com um fecho, que se encontrava entre seus objetos e havia sido abandonada.

– É lá – disse a Sra. Léonard – que sua mãe achará os escritos que procura.

Em nosso retorno a casa, esse fato se verificou com exatidão.

Na mesma sessão, a médium estendeu sua mão e nos falou de um objeto semelhante a uma moeda, da qual ela ignorava a natureza real.

A mãe sugeriu que podia ser um botão militar de cobre, do qual ela havia feito um medalhão. A médium, porém, insistiu, dizendo que encontraríamos nos pertences de nosso filho um objeto de bronze.

Roger queria que se fizesse nele um furo, para que sua mãe pudesse usá-lo, como lembrança dele.

Com efeito, encontramos em casa, numa caixinha, uma moeda de um penny, entortada por uma bala que o havia atingido.

Algum tempo depois, minha mulher viu, perto dela, em Brighton, nosso filho e nada a convenceu de que fosse uma auto-sugestão ou uma alucinação.

Na sua volta a Londres, ela nada falou a ninguém, porém a médium Annie Brittain lhe declarou, à primeira vista:

– Seu filho lhe deseja dizer que você o viu e que ele está bem; não era um sonho e lhe permitiram que o véu fosse levantado por um momento.

Nessa sessão, a Sra. Brittain nos disse coisas maravilhosas. Nenhum médium havia chamado minha mulher pelo nome que meu filho lhe dava. Ela ficou radiante de alegria, quando ele lhe disse: “Até logo, meu anjo!”, nome pela qual gostava de chamá-la.

Se alguém houvesse pretendido, há um ano apenas, que eu poderia dizer e escrever semelhantes coisas, teria respondido que era impossível.”

Segundo essa teoria, no momento da morte, quando o espírito deixa o corpo, ele é recebido por espíritos amigos ou parentes. Isso nos explica por que o médium Peters disse que o jovem, no momento de sua passagem para o Além, foi recebido por Jean, Elisabeth, Guillaume e Edouard.

Pode-se comparar esse último fato a uma manifestação que relatei, faz alguns anos, na Revista Científica e Moral do Espiritismo, sob o título: Attention Délicate d’un Frère Mort pour sa Soeur Vivante.130

Tratava-se de uma jovem de 16 anos, que morava com seus pais, nos arredores de Paris, numa pequena vila, onde seu irmão, estudante de Medicina, morrera, fazia algum tempo.

Após a morte desse jovem, os pais tinham feito uma espécie de museu com todos os objetos que lhe pertenceram, mas ficaram surpresos por não encontrarem em seus papéis seu comprovante de estudante de Medicina. O rapaz, antes de sua morte, estava noivo, mas surgiu um desentendimento, após sua morte, entre as duas famílias. Os pais do jovem pensaram que o documento perdido talvez se encontrasse com Suzanne sua noiva. Chamaram-na e ela disse que não o possuía.

No dia do aniversário da irmã do morto, os pais buscavam ter uma manifestação do filho e ele lhes veio dizer:

– Quero desejar feliz aniversário a Geneviève e lhes vou dar a verdadeira prova de que estou bem aqui; vocês procuraram em vão o meu documento de estudante e eu lhes vou entregar. Coloquei-o no travesseiro de seu quarto.

A busca foi feita pela mãe e pela filha, pois não tinham empregada, e, portanto, nenhuma trapaça seria possível.

Quando, emocionado e surpreso, o pai se levantou para ir verificar se o documento se encontrava onde lhe falava seu filho, este lhe disse:

– Não vá, ainda. Quero lhe fornecer, realmente, a prova de que estou junto a vocês. Vou dar o número de meu documento e, ao mesmo tempo, indicarei que há um erro de ortografia em meu nome.

Com efeito, o documento estava debaixo do travesseiro, o número era exato e o erro de ortografia também.

Os que não aceitam o Espiritismo e que acham serem nossas experiências explicáveis pela alucinação ou sugestão, estariam bem embaraçados para explicar esse caso a não ser como uma manifestação de um espírito.

Não acredito que os pais conhecessem de memória o número do documento de seu filho, qualquer que fosse o amor por ele.

Para explicar o caso Wilkinson, não se pode falar de leitura do pensamento ou de sugestão.

Quando mostram um objeto à mãe, ela imagina logo que se trata, realmente, de um botão e não pensa no objeto que o médium lhe queria descrever.

Quando iniciante no Espiritismo, mal conhecendo a doutrina, por acaso me vi numa livraria, em presença de uma pessoa que meses antes havia perdido seu marido. Como sabia que eu me interessava pelo Espiritismo, me disse: “Noutro dia, voltando à minha casa, vi meu esposo, sentado no lugar que sempre ocupava, quando estávamos juntos.”

Conhecendo pouco o Espiritismo, acreditei estar diante de uma alucinada, considerando sua narrativa como uma coisa impossível.

Essa lembrança deve conduzir os militantes espíritas a uma grande indulgência para com os que não conhecem ainda nossa doutrina. Quando tentamos, no curso de nossas conversas amistosas, divulgar nossas idéias para outrem, lembremo-nos de que podíamos ainda estar incrédulos. Tenhamos muita paciência, pois isso é um dos meios de fazer um bom proselitismo.

Em O Mundo Invisível e a Guerra, a teoria da reencarnação está exposta de maneira rápida, porém bem nítida e bem clara.

No capítulo XVIII – “O Espiritismo e as Igrejas”, onde Léon Denis dá prova, mais uma vez, de uma grande tolerância, ele responde à obra do Rev. Padre Roure, intitulada O Maravilhoso Espírita.

Isso prova que Léon Denis havia, realmente, lido o livro, apesar da afirmação feita pelo Padre Roure no artigo de Les Études, que longamente analisamos quando tratamos da obra Cristianismo e Espiritismo.

Nesse capítulo, Léon Denis indica que muitos padres são espíritas, sem terem o direito de confessá-lo, e que esperam existir, um dia, entre o Espiritismo e a Igreja Católica a possibilidade de um entendimento.


Capítulo XI

Espíritos e Médiuns


Espíritos e Médiuns, brochura de propaganda, foi editada em 1921.131 É um excelente resumo, composto de maneira notável; os leitores que ainda não conhecem o Espiritismo devem ter o desejo de se iniciarem em nossa Doutrina e de fazerem um estudo geral do Espiritismo. Mas, evidentemente, não é uma obra suficiente para permitir, mesmo para os que a conhecessem bem, se lançarem à experimentação.

Mais uma vez, Léon Denis indica quais são os perigos da mediunidade, perigos sobre os quais não tenho necessidade de insistir, porque já tive várias vezes ocasião de assinalá-los.

Praticar o Espiritismo sem tomar as necessárias precauções, fala-nos Léon Denis, é como se abríssemos a porta toda aos desocupados da rua.

La Vie Vécue d’un Médium Spirite foi uma obra escrita por uma iletrada, a Sra. Agullana, que foi médium desde sua juventude e teve notáveis manifestações que não compreendia.

É curioso encontrar-se nesse livro o conselho para se estar atento quanto aos perigos da experimentação.

“Quando o Sr. B., grande magnetizador e bom espírita – escreve ela 132 –, reconheceu em mim essas faculdades, disse-me:

– Não tente nunca escrever nem desenhar em sua casa, porque os maus espíritos espreitam sempre os espíritas novatos.

É preciso, pois, em cada sessão, fazer uma prece a Deus para que ele permita virem os bons espíritos para lhe ajudar e lhe fazer aprender a discernir as boas ou más comunicações. Sem isso, poderá ser obsidiada.”

Que é preciso para fazer experiências espíritas com possibilidades de obter bons resultados?

É preciso conservar o senso crítico e fazer um rigoroso controle; todas as vezes em que nos encontrarmos em presença de um médium que recuse ser controlado, temos o direito de suspeitar.

Convém agir com os médiuns delicadamente e não exigir deles o controle com ar de suspeita ou de desconfiança, porque o simples fato de manifestar uma desconfiança os coloca num estado desfavorável.

É bom, pois, fazer compreender aos médiuns que no próprio interesse de sua mediunidade e do Espiritismo, para o qual pretendem ajudar os experimentadores a trabalhar, é indispensável que aceitem um controle. É importante que assim procedam, antes de cada sessão.

Para ter todas as oportunidades possíveis de bons resultados, é indispensável, igualmente, que os assistentes estejam em comunhão de pensamentos, conheçam a importância da obra para a qual trabalham e que todos, sem exceção, tenham a vontade, a tenacidade, a perseverança e, sobretudo, a confiança.

É preciso colocar-se sob a proteção dos bons espíritos que podem favorecer as manifestações.

“A prece, sendo a expressão mais alta e pura do pensamento, encontra um caminho fluídico que permite às Entidades do Espaço descerem até nós e se comunicarem; ela constitui, nos grupos, um meio favorável aos fenômenos de ordem elevada, ao mesmo tempo que uma proteção contra os maus espíritos.

Para ser eficaz e produzir o efeito pretendido, a prece deve ser um apelo ardente, espontâneo, por consequência, de curta duração. Ao contrário, as orações banais, recitadas só dos lábios, sem calor comunicativo, só produzem débeis e insuficientes irradiações.” 133

Recentemente, em minhas viagens, visitava uma igreja. Um padre recitava o rosário, repetido em coro pelos assistentes. Eu me perguntava qual a harmonia psíquica que poderia agregar os fiéis que julgavam que, murmurando mecanicamente as orações, nem sempre pensando no que diziam, poderiam obter algum resultado.

Seria preferível para eles dirigir um pensamento a Deus por poucos segundos.

Em Espíritos e Médiuns, Léon Denis cita inúmeros exemplos de identificação, dando as provas necessárias para mostrar que se trata, realmente, de mortos que comprovam a continuidade de suas vidas.

Diz-se, comumente, que os mortos não voltam. É um erro. Diz-se, também, “os espíritas e os que se ocupam com tais questões deveriam manifestar-se após sua morte. Ora, entre os célebres defensores do Espiritismo, nenhum comprovou sua sobrevivência”.

Tal objeção não tem valor, porque essa afirmativa está errada. Para comprová-la pode-se, por exemplo, lembrar o caso de Stead, que, após sua morte, pôde manifestar-se ao Pastor Wynn. Acha-se a prova em Rupert Vit, obra traduzida do inglês pela Sra. Borderieux.

Há, igualmente, o caso de Hodgson, muito ocupado em pesquisas psíquicas e que, morto em dezembro de 1906, manifestou-se, algum tempo depois, a seu amigo Hyslop, professor na Universidade Columbia, “entrando em minuciosos detalhes a respeito das experiências e dos trabalhos da Sociedade de Pesquisas Psíquicas, da qual foi presidente pela seção americana.

Ele explica como se precisa conduzi-los e, por esses detalhes, prova completamente sua identidade. Essas comunicações são transmitidas por intermédio de diferentes médiuns, que não se conhecem e se confirmam, reciprocamente.

Palavras e frases familiares dos comunicantes, usadas durante a vida, são reconhecidas”.

Capítulo XII

O Gênio Céltico e o Mundo Invisível


O Gênio Céltico e o Mundo Invisível não é uma obra para um iniciante ler, mas os que já conhecem os livros de Léon Denis pensam, sem dúvida, como eu, que esse trabalho é a apoteose do pensamento do mestre.

Essa obra apareceu no final de junho de 1927 e foi concluída antes da morte de Léon Denis, cujo último pensamento foi para esse livro.

Em 12 de abril de 1927, antes de morrer, ele expressava assim sua tristeza: “Que pena que meu livro não tenha aparecido.”

Ele perguntou à religiosa que vinha assisti-lo com injeções, duas vezes ao dia:

– De qual região é a senhora?

– Não tenho país – respondeu ela.

Como ele insistisse, ela respondeu:

– Sou do Departamento do Loire.

– Estou feliz por isso – disse-lhe ele –, é um dos antigos santuários celtas, uma região de grandes bosques, de florestas.

E, voltando-se para Gaston Luce, acrescentou:

– Veja, Luce, meu livro vem na hora certa. Ele veio do Alto.134

Nesse livro, Léon Denis mais uma vez reconhece que sua obra é devida, principalmente, à colaboração de seus amigos invisíveis:

“É – escreve ele 135 – por inspiração do Espírito Allan Kardec que realizei este trabalho. Nele encontrar-se-á a série das mensagens que nos ditou pela incorporação, em condições que eliminam qualquer mistificação. Durante as conversações, espíritos liberados da vida terrestre nos deram seus conselhos e seus ensinamentos.”

Esse livro foi bem recebido pela crítica.

Em La France Active, de janeiro de 1928, Nonce Casanova escreveu:

“É um livro emocionante, que se imporá à zombaria sacrílega dos profanos e que, pelo Espírito Allan Kardec, mais frequentemente, nos inicia nos princípios que os druidas já indicavam à incredulidade dos homens: a unidade de Deus, a sobrevivência do ser sob a forma fluídica, a evolução pela escala infinita dos mundos e a pluralidade das existências.

A qual rumo estamos, no caminho da vida? Tenho a impressão de que o véu que ainda nos oculta as ondas espiritualistas, como há alguns anos nos encobria as ondas hertzianas, não tardará em desvendar-se.

“Um vento virá dos quatro cantos do mundo e dissipará as sombras”, disse o Eclesiastes.

E esse livro reconforta nossas impaciências.

Ele é simples, de prestigiosa simplicidade com palavras de apóstolo, e nos põe em contato com a luz secreta pela qual nossas almas serão reavivadas para sempre, e nos faz penetrar mais além, na comunhão universal.”

Em Psychica,136 Pierre Borderieux exprime sua opinião:

“Entre aqueles cujo desaparecimento seria triste para o espírito das novas gerações, colocaria Léon Denis em primeiro lugar.

O autor de Depois da Morte tem o direito de ser particularmente agraciado entre os numerosos espiritualistas de sua época, porque ele representa um ser raro em todos os tempos: o crente total, sem hipocrisia, nem fanatismo, que encontrou seu caminho e sabe, em frases harmoniosas, afirmá-lo, sem condenar quem não partilha de sua maneira de pensar.

Léon Denis, espírita, tinha beneficiado o que resolvi chamar “favor do Estado”. Ele havia assistido a muitas experiências que não convenceriam hoje a um inimigo do psiquismo, mas que, por sua clareza, tinham lançado nesse cérebro sólido e bem formado aquela certeza que Gabriel Delanne gostaria de ofertar, nem que fosse por suposição, nos zombadores do Espiritualismo Moderno.

Léon Denis foi um apóstolo.

É preciso ter 30 anos de contato com os meios onde se trata com o desconhecido para saber, como eu e outros, o bem imenso que fez esse autor do domínio espiritual e moral, apoiando-se em comunicações de mesas e em escrita direta, para defender, sem outra paixão além da fé, idéias já combatidas, não somente pela fria ciência hostil, mas pelos que, passageiros do mesmo barco, diferiam de opinião sobre a marcha a seguir e sobre a terra a descobrir.

Com Edouard Schuré, de quem sofreu influência, Léon Denis defendeu no seu último livro o pensamento céltico. Pensamento obscuro para quem não sente cantar a voz dos ancestrais, incompreensível para o estrangeiro, como pode ser para nós, apesar dos louváveis esforços, o pensamento oriental.

Léon Denis era poeta e religioso. Se ele fez do celtismo uma ressurreição religiosa, no Espiritismo, ele não esqueceu que, apesar da helenização e da influência de Roma, o espírito da independência ficou tão vivo quanto outrora nas produções do espírito e do coração dos descendentes dos celtas.

Como Allan Kardec, Léon Denis, orador e escritor, acreditou discernir, por revelação, que havia vivido entre os celtas que opuseram a floresta profunda aos empreendimentos dos bárbaros ou das legiões de um império já decadente. Ele teve, pelas forças que dominaram nossa história, ensinamentos de onde não se pode duvidar a origem, diante da beleza da expressão.

E ele considerou um dever transcrever essas vozes e esses ensinamentos. Ele o fez com a fé dos confessores que, sob os dentes das feras, podiam gritar como ele, diante da zombaria ou do sofisma: “Eu creio, eu sei, eu estou certo”.

É preciso ler essa última obra de um grande crente e não se deter com afirmações parecendo um pouco ingênuas, é preciso lê-la com o espírito.

Talvez se sorria, mas não se poderá impedir de lhe admirar a fé profunda.

Talvez, um dia, na hora crítica em que se sente desligar os liames da Terra, o céptico irá buscar no fundo de sua biblioteca duas obras muito esquecidas dos jovens: Deus na Natureza, de Flammarion, e Depois da Morte, de Léon Denis.”

Segundo penso, Borderieux exagera, pensando que Depois da Morte está esquecido dos jovens. Não o creio, porque essa obra foi muito reeditada, atingindo 550 mil exemplares e traduzida em 14 línguas.137

Segundo o que pude muitas vezes constatar, os novos adeptos do Espiritismo encontram em Depois da Morte argumentos suficientes para aceitar a realidade de nossa doutrina.

Depois, devo acrescentar, numerosos são os propagadores que farão o necessário para que os homens não esqueçam a obra daquele, cuja passagem em nosso planeta foi fonte de tantos benefícios.

Na Revista Espírita de janeiro de 1927, Léon Denis escreveu:

“A questão céltica está no ar e, também, a hora, parece-me, chegou para se falar do trabalho que preparo, há muito tempo.”

Antes de estudar o último livro do patriarca do Espiritismo, convém lembrarmos o que é o celtismo. Abrindo o Larousse, lemos:

Celtas – Povo da raça indo-germânica, cujas grandes migrações remontam aos tempos pré-históricos; ele cobria, inicialmente, a Europa central, depois foi expulso para a Gália, Espanha e Ilhas Britânicas, sendo absorvido pelos romanos. As invasões celtas chegaram até à Ásia Menor.

Foi na Bretanha, no País de Gales e na Irlanda, que o tipo e a língua céltica melhor se conservaram.

Céltica – Parte da Gália Antiga, compreendida entre o Sena e o Garona.”

Na Histoire du Costume Masculin Français,138 Paul Louis de Giafferi lembra que César dividia a Gália em três partes, sendo a terceira habitada pelos que, em sua língua, se chamavam celtas e no latim Galli (gaulês).

Por consequência, celtas e gauleses são dois termos sinônimos; estudando o celtismo, não se faz outra coisa que buscar o que foi exatamente a Gália.

Estudando a obra de Léon Denis, lendo seus diferentes livros, podia-se prever a publicação de O Gênio Céltico e o Mundo Invisível. O grande apóstolo do Espiritismo teve, pois, em todas as suas ações uma unidade de pensamento notável.

Já em seu primeiro livro Depois da Morte, havia um capítulo inteiro sobre a Gália e dele extraí algumas linhas:139

“A Gália conheceu a grande doutrina e a possuiu sob uma forma original e potente, sabendo tirar dela consequências que escaparam aos outros países. “Há três unidades primitivas – diziam os druidas –: Deus, a Luz e a Liberdade”.

Enquanto a Índia já era organizada em castas imóveis, com limites intransponíveis, as instituições gaulesas tinham por bases a igualdade de todos, a comunhão de bens e o direito eleitoral.

Nenhum dos outros povos da Europa teve, no mesmo grau que nossos avoengos, o sentimento profundo da imortalidade, da justiça e da liberdade.

É com veneração que devemos estudar as tendências filosóficas da Gália, porque ela é nossa grande mãe e encontramos nela, fortemente marcadas, todas as qualidades e também todos os defeitos de nossa raça.

Nada, aliás, é mais digno de atenção e de respeito do que a doutrina dos druidas, que não eram bárbaros, como erradamente se acreditou durante séculos.”

Em Depois da Morte se aprende quais são as crenças dos celtas, tem-se noção do druidismo e já se familiariza com as palavras annoufn, abred, gwynfyd e ceugant, que se encontram lendo O Gênio Céltico e o Mundo Invisível.

“Os druidas – diz-nos Léon Denis – ensinavam a unidade de Deus. Segundo As Tríades, a alma se forma no seio do abismo (annoufn). Ela aí reveste os aspectos rudimentares da vida e só adquire a consciência e a liberdade após ter sido presa, por longo tempo, aos baixos instintos.!

Eis o que diz o canto do bardo Taliésin, célebre em toda a Gália:

“Existindo de toda a Antiguidade, no seio dos vastos oceanos, não sou nascido de um pai e de uma mãe, mas das formas elementares da natureza, dos ramos, das plantas, do fruto das florestas, das flores das montanhas.

Brinquei na noite, dormi na aurora. Fui víbora no lago, águia nos cimos, lobo na floresta. Depois, marcado por Gwyon (espírito divino), pelo sábio dos sábios, adquiri a imortalidade. Já se passou muito tempo desde que eu era pastor. Errei bastante sobre a Terra, antes de me tornar hábil na ciência.

Enfim, brilhei entre os chefes superiores. Revestido dos hábitos sagrados, tive a taça dos sacrifícios. Vivi em cem mundos e me movi em cem círculos.”

A alma, em seu imenso curso, diziam os druidas, percorre três círculos, que correspondem aos três estados sucessivos. Em annoufn, ela sofre o jugo da matéria; é o período animal. Depois, penetra em abred, círculo das migrações que povoam os mundos de expiação e provas; a Terra é um desses mundos.

A alma encarna muitas vezes em sua superfície. À custa de uma luta incessante, ela se livra das influências corporais e deixa o ciclo das encarnações para atingir gwynfyd, círculo dos mundos felizes ou de felicidade.

Lá se abrem os horizontes encantadores da espiritualidade.

Mais alto ainda se acham as profundezas de ceugant, círculo do infinito, que encerra todos os outros e só pertence a Deus.

Longe de se aproximar do panteísmo, como a maior parte das doutrinas orientais, o druidismo se afasta por uma concepção bem diferente da Divindade.”

Em O Problema do Ser e do Destino, Léon Denis nos mostra que os druidas conheciam a finalidade de nossa evolução:140

“Cada um de nós possui esse gênio particular que os druidas chamam l’aven, isto é, a aptidão primordial de todo ser em realizar uma das formas especiais do pensamento divino.

Deus colocou no fundo da alma os germens de faculdades poderosas e variadas; todavia, uma das formas de seu gênio é chamada a desenvolver-se acima de todas as outras, por um trabalho constante, até que ela o tenha levado a seu ponto máximo.

Essas formas são inumeráveis. São os aspectos múltiplos da inteligência, da sabedoria e da beleza eternas: a música, a poesia, a eloquência, o dom da invenção, a previsão do futuro e das coisas ocultas, a ciência ou a força, a bondade, o dom da educação, o poder de curar, etc.”

Estudando o livre-arbítrio, o apóstolo do Espiritismo não esquece de nos indicar que:141

“A noção de liberdade tinha sido formulada pelos druidas, desde os primeiros tempos de nossa história. Ela está expressa nesses termos em As Tríades: Há três unidades primitivas: Deus, a Luz e a Liberdade.”

As Tríades são um resumo da síntese dos druidas: é como o Evangelho para a Religião Católica.

Poder-se-ia observar que o ensino dos druidas se transmitia oralmente, como fez o ensino do Cristo.

“Durante meio século após a morte de Jesus – diz Léon Denis 142 –, a tradição cristã, oral e viva, é como uma água corrente que cada um pode usar.

Ela está divulgada pela pregação, pelo ensino dos apóstolos, homens simples, iletrados, com exceção de Paulo, versado nas letras.

Só do ano 60 ao ano 80 d.C. é que aparecem as primeiras relações escritas.”

Em Joana d’Arc, Médium, encontramos, igualmente, numerosas passagens onde Léon Denis se ocupa do celtismo; quando ele descreve o campo loreno, não esquece de lembrar que:143

“Toda a região é plena de lembranças célticas; nossos antepassados tinham erigido lá um altar de pedra. Essas fontes sagradas, essas sombras austeras foram testemunhas das cerimônias do culto druídico. A alma da Gália vive e palpita nesses lugares. Sem dúvida, ela falava ao coração de Joana, como ainda fala hoje ao coração dos patriotas e dos crentes esclarecidos.”

Para Léon Denis, a coragem manifestada por Joana d‘Arc, sua intrepidez, seu heroísmo, sua resignação diante dos sofrimentos evocam, obrigatoriamente, as reminiscências da maneira de ser dos nossos ancestrais que temiam tão pouco a morte, que combatiam com o rosto descoberto e o corpo seminu; sabendo a que ponto nossos despojos mortais têm pouca importância, deixavam no campo de batalha os corpos dos que haviam cessado de viver.

Em O Mundo Invisível e a Guerra, Léon Denis fala, igualmente, do celtismo; ele mostra o que é o dia de Finados 144 na trincheira, em 1916, para um jovem soldado que, espírita e médium, medita longamente:145

“A noite se estende sobre a planície. Entre as nuvens, estrelas projetam sobre a Terra seus raios trêmulos, como provas de amor, de testemunhos da solidariedade imensa que liga todos os seres e todos os mundos. Com a paz, a confiança e a esperança descem ao seu coração. Certamente, ele saberá fazer seu dever. Ele se bate para defender sua pátria invadida e por ela saberá suportar todas as privações, todas as fadigas; porém, a violência da guerra não abafará nele o sentimento superior da ordem e da harmonia universais.

Como para os celtas, seus ancestrais, os cadáveres estendidos sobre o solo são apenas “envoltórios inúteis” que a terra se apressa em receber em seu seio maternal.

Nas profundezas de cada um de nós, subsiste um princípio imperecível contra o qual todos os furores do ódio, todos os assaltos da força brutal nada podem.

É daí, desse santuário íntimo, que renascerá, após a tempestade, a aspiração humana pela justiça, piedade e bondade.”

Entretanto, em 1916, na trincheira, um jovem soldado meditava; médium, recebia comunicações de seus amigos do Além.

Estudando o livro Cristianismo e Espiritismo, refutei os argumentos da crítica da obra de Léon Denis, feita em Les Études, pelo Rev. Padre Lucien Roure.

Lembramos que o religioso acusava Léon Denis de ter plagiado totalmente Les Grands Initiés. É, evidentemente, um erro, porém há, entre os dois grandes espiritualistas, Léon Denis e Edouard Schuré, uma grande semelhança: ambos são defensores ardorosos do celtismo.

Em Grandes Légendes de France, meu eminente amigo Edouard Schuré narra as lendas da Bretagne e mostra a potencialidade do gênio céltico:146

“A alma céltica é a alma interior e profunda da França. É dela que nascem os impulsos elementares como as altas inspirações do povo francês.

Impressionável, vibrante, impetuosa, ela corre aos extremos e tem necessidade de ser dominada para encontrar seu equilíbrio.

Entregue ao instinto, ela será a cólera, a revolta, a anarquia; conduzida à sua essência superior, se chamará: “intuição, simpatia, humanidade”.

Druidesa apaixonada ou vidente sublime, a alma céltica é em nossa história a gloriosa vencida, que sempre sobrevive de suas derrotas. A grande adormecida que sempre ressuscita de seus sonhos seculares.

Esmagada pelo gênio latino, oprimida pelo poder francês, crivada de ironia pelo espírito gaulês, a antiga profetiza não deixou de surgir, de geração em geração, de sua espessa floresta.

Ela reaparece sempre jovem e coroada com ramos verdes.

As mais profundas letargias anunciam seus mais brilhantes despertamentos, porque a alma é a parte divina, o lar inspirador do homem. E, como os homens, os povos possuem uma alma.

Se ela se obscurecer e se extinguir, o povo degenera e morre; se ela se acende e brilha com toda a sua luz, completará sua missão no mundo.

Ora, para que um homem ou um povo preencha toda a sua missão é preciso que sua alma atinja a plenitude de sua consciência, a inteira posse dela mesma.”

Em La Druidesse, Edouard Schuré estudou o despertar da alma céltica.

Em Le Rêve d’une Vie, ele indica que, desde a idade de 20 anos, teve a ambição de personificar a alma céltica.

Numerosos são os escritores que julgaram necessário estudar a apaixonante questão céltica.

Com a Velléda des Martyrs, Chateaubriand despertou o celtismo na literatura francesa.

Entre as obras que têm exaltado o celtismo, citaremos apenas:

Barzaz-Breiz, por de la Villemarqué.

La Poésie des Races Celtiques, por Ernest Renan.

La Mythologie, la Littérature, l’Époque Celtiques, por d’Arbois de Jubainville.

L’Histoire des Gaulois, por Emile Jullian.

Le Manuel des Antiquités Celtiques, por Dottin.

L’Âme Bretonne, por Charles le Gofic.

Au Pays des Pardons, por Anatole le Braz.

L’Esprit de la Gaule, por Jean Reynaud.

Philosophie Gauloise, por Gatien Arnoult.

“O celtismo – escreveu Jacques Reboul, em Sous le Chêne Celtique, é simplesmente a França na mais alta potencialidade, a França além da História.”

Escrevendo O Gênio Céltico e o Mundo Invisível, Léon Denis tinha por objetivo elucidar o problema das origens da França, de mostrar que existe uma coincidência bem grande entre o Espiritismo e o Druidismo.

Ele queria conduzir todos os franceses a refletir sobre sua origem e a se dar conta de seus deveres para permitirem a nosso país sair dos problemas da guerra de 1914-1918.

Para se compreender bem o objetivo de Léon Denis é preciso ler um de seus artigos, publicado pela Revista Espírita de janeiro de 1927. Vou resumi-lo e comentá-lo.

Ele lembra que, há uma dezena de anos, a França atravessa uma das maiores crises de sua história; por causa da luta que teve de sustentar, derramou seu sangue e seu ouro.

Nosso país está com rivalidades de partidos no interior e de fora, ameaçado não apenas pela inveja dos que estão enciumados por seu prestígio moral, no mundo inteiro, mas ainda pelo ódio dos que, justamente castigados, pareciam querer preparar uma desforra.

A França é igualmente visada pelo egoísmo de certo povos que, após terem combatido ao seu lado, buscam agora seus interesses particulares, sem se ocupar do interesse geral do mundo.

Há, pois, necessidade absoluta de lutar contra esse estado de coisas, o que se pode fazer, especialmente, instituindo um ensino popular melhor que o ensino materialista, que, nas jovens gerações, cria seres sem escrúpulos, egoístas, para os quais o ódio e a inveja são uma moeda corrente. Isso é tão verdadeiro que a criminalidade dos jovens aumenta de forma inquietante. Em 23 de fevereiro de 1928, Le Journal anunciava a prisão, em Paris, de um bando chamado de “bolsos furados”, cujo chefe tinha somente 14 anos.

Isso faz tremer. Se fosse dada uma outra educação às crianças, se as fizessem conhecer as coisas úteis, ensinando-lhes a finalidade de sua vinda à Terra, por que terão de sofrer provações, certamente poder-se-ia ler nos jornais outra coisa e não a relação dos crimes ou dos suicídios dos jovens.

Não obstante as desordens morais de nossa época, Léon Denis nos aconselha a manter a confiança, pois, no meio das presentes dificuldades, a voz grave dos antigos celtas vai se fazer ouvir.

Alguns poderão perguntar se é útil desenterrar da poeira dos séculos velhas crenças que, segundo eles, não mais correspondem aos fins de nossa época incrédula.

Poderemos responder-lhes que isso é indispensável. É necessário saber que o Espiritismo é descendente do druidismo, que sua doutrina é tão rica quanto a do druidismo, que nossos ancestrais gauleses já conheciam o meio de se comunicar com o Invisível. Graças a essas manifestações, eles tinham a certeza de que a morte é somente uma aparência e que a evolução dos seres continua após a morte do corpo físico.

De resto, é por causa de sua crença que, entre os povos, os celtas têm melhor aceitado o ensino do Cristianismo primitivo. Estavam realmente preparados para esse conhecimento por causa de suas próprias aspirações.

Naturalmente, trata-se do verdadeiro Cristianismo ensinado pelos sacerdotes que conheceram Jesus e não do Catolicismo, onde os ensinos do Cristo foram pouco a pouco deformados.

Léon Denis mostra que as instituições dos gauleses eram republicanas, democráticas e que é nelas que se deve buscar a fonte das aspirações igualitárias e liberais do povo francês. Léon Denis termina assim seu artigo:147

“Vivemos em tempos de sanção e de liquidação, em períodos onde os acontecimentos da História se acumulam com dificuldades de todas as formas. É uma espécie de encruzilhada, onde as consequências do passado se erguem e se chocam.

Os povos viveram durante muito tempo sem a preocupação das leis superiores e algum propósito austero de vida.

As privações, os sofrimentos são o resgate do passado. É preciso reparar, conservar. É o purgatório sonhado pela Igreja, mas colocado ao lado do céu, porque ele existe em nosso derredor, nos estreitos campos de nossas reflexões, de nossas observações, e demonstra a existência de uma justiça imanente da qual podemos livremente duvidar, mas que é preciso aceitar irresistivelmente.

A impressão que se destaca para nós dos fatos acumulados é a de um mundo em gestação, no seio do qual se elaboram, lenta e dolorosamente, os elementos de uma consciência, de uma fé e de uma nova civilização.

No meio da confusão das idéias e das forças em luta, mal distinguimos os traços da nova obra que se prepara, mas que se buscarmos indagar, constataremos que o espiritualismo, sob suas diversas formas, ganha terreno pouco a pouco e que o materialismo recua.

As massas sentem, confusamente, a existência das forças e do mundo invisível. Elas têm a intuição vaga de que a vida não se limita ao restrito campo que lhe traçam os horizontes terrestres e, no fundo das almas, desperta uma aspiração para qualquer coisa melhor e elevada.”

É preciso, pois, dirigir as aspirações de todos para uma possibilidade de felicidade geral. É preciso buscar os meios de dar, realmente, a todas as criaturas a mesma oportunidade de bem-estar e de felicidade, qualquer que seja, no curso de sua existência, a sua escala social.

Darei a esse assunto algumas indicações no próximo capítulo da presente obra: “O Espiritismo e a Vida Social”.



O Gênio Céltico e o Mundo Invisível comporta três partes: na primeira, Léon Denis estuda os países celtas. Buscando, inicialmente, a sua origem, mostra-nos que os países celtas são: a Irlanda, o País de Gales, a Escócia, a Bretagne, a Auvergne, a Lorraine e os Vosges.

A segunda parte é um estudo mais aprofundado do druidismo. Vê-se ali que a reencarnação era admitida pelos druidas, que sua religião revelava “um senso profundo do mundo invisível e das coisas divinas”.

Com sua habitual franqueza, Léon Denis não oculta uma grave dificuldade: é a do sacrifício humano praticado pelos celtas. Escreve ele:148

“Entretanto, uma sombra se estende sobre o druidismo. A História nos mostra que sacrifícios humanos aconteciam sob os grandes carvalhos; o sangue escorria sobre as mesas de pedra. Reside aí, talvez, o erro capital, o lado imperfeito desse culto, tão grande sob outros pontos de vista.

Não esqueçamos, porém, que todas as religiões, em suas origens, todos os cultos primitivos se molharam de sangue. (...)

É preciso lembrar também os suplícios e as fogueiras da Inquisição, todas essas imolações que não são apenas atentados à vida, mas também ultrajes à consciência?

Esses sacrifícios não são mais odiosos do que os dos druidas onde só figuravam criminosos ou vítimas voluntárias?

É preciso lembrar que os druidas eram, ao mesmo tempo, magistrados e justiceiros. Os condenados à morte, os sacrifícios eram ofertas em holocausto àquele que era para eles a fonte da justiça.

Era um ato sagrado e, para torná-lo mais solene, para permitir ao condenado entrar nele mesmo e se preparar para o arrependimento, eles deixavam sempre um intervalo de cinco anos entre a sentença e a execução.

Essas cerimônias expiatórias não eram mais dignas que as execuções de nossos dias, onde vemos um povo que se diz civilizado passar as noites em torno de cadafalsos, atraído pelo aparato de um espetáculo hediondo e de impressões malsãs?

Os sacrifícios voluntários entre os gauleses se revestiam também de um caráter religioso. Seus sentimentos profundos sobre a imortalidade os tornavam fáceis a nossos antepassados. O homem se oferecia como uma hóstia viva pela família, pela pátria, pela salvação de todos.

Todavia, todos esses sacrifícios caíram em desuso e se tornaram raros no tempo de Vercingétorix. Contentava-se, no lugar de levar à morte, em tirar algumas gotas de sangue dos fiéis, estendidos sobre as pedras dos dolmens.”

A terceira parte de O Gênio Céltico e o Mundo Invisível comporta um estudo do mundo invisível.

Após ter indicado a seus leitores como é preciso compreender a experimentação espírita, Léon Denis apresenta mensagens que são devidas a Joana d’Arc, Allan Kardec e Michelet.

Alguns, talvez, serão tentados a reprovar Léon Denis por ter assim aceitado a assinatura de grandes nomes; todavia, o célebre espírita estava ao corrente de todas as objeções feitas ao Espiritismo e se, em sua última obra, ele não hesitou em publicar uma centena de páginas de mensagens mediúnicas, dizendo quais personalidades as haviam enviado, isto foi após refletir maduramente e ter adquirido as provas de identidade dos espíritos comunicantes.

De resto, prevendo a objeção, o mestre escreveu:149

“Já publicamos uma série das mensagens ditadas por meio da incorporação mediúnica pelos grandes e generosos espíritos que desejaram colaborar em nossa obra.

A autenticidade desses documentos reside não somente neles mesmos, pelo fato de que ultrapassam de muito o alcance das inteligências humanas, mas também nas provas de identidade que a elas se ligam.

Assim, no curso de nossas conversas com o Espírito Allan Kardec, este entrou em detalhes precisos sobre sua sucessão e as discussões que surgiram sobre esse assunto entre duas famílias espíritas, com particularidades que o médium não podia absolutamente conhecer, sendo então um pequeno jovem descendente de pais ignorantes do Espiritismo.

Esses detalhes estavam apagados de minha própria memória e só os pude reconstituir após buscas e informações.

Quanto ao seu valor científico e moral, veremos que os assuntos tratados nessas mensagens atingem o mais alto grau da compreensão humana atual. Eles a ultrapassam, mesmo, em certos casos, mas nos permitem, entretanto, entrever a gênese da vida universal.

Considerando essa obra, do seu ponto de vista, os autores nos dizem que se poderá aí encontrar uma orientação nova que, do grau de evolução a que chegamos, só é compatível “com o estágio de compreensão e de resistência do cérebro humano”.

Lembramos, todavia, aos que a teriam esquecido, que os espíritos sofrem, por vezes, grandes dificuldades de se exprimirem por um organismo, por um cérebro estranho, noções e idéias pouco familiares a este último.

Ora, é precisamente o caso em que se encontram nosso médium e a questão céltica.”

Diz-se, acrescenta Léon Denis, que Allan Kardec está reencarnado no Havre, desde 1897; “ele teria, então, chegado ao trigésimo ano de sua nova existência terrestre, admitindo-se que um espírito de tal valor tenha ficado tão longo tempo para se revelar através de obras ou de ações adequadas. Aliás, Allan Kardec não se comunicou apenas em Tours, mas igualmente em vários outros Centros Espíritas da França e da Bélgica”.

Mesmo que Allan Kardec estivesse realmente reencarnado, isso não teria importância.

Em fevereiro de 1928, numa conferência de propaganda que eu fazia em Douai, alguém pensou me impressionar muito, dizendo-me:

– Você não pode conseguir nos fazer compreender tudo isso, pois pretende poder estar em comunicação com os mortos. Gostaria de admiti-lo, mas você diz também que os espíritos, após sua morte, deverão reencarnar. Se eu perdi meu pai e se ele retoma um outro corpo, vinte e cinco anos depois, não poderá, pois, nunca mais se manifestar?”

Essa objeção não era tão embaraçosa como poderia parecer. Na primeira parte de minha palestra, havia, com efeito, demonstrado que a alma da criatura existe e pode manifestar essa existência com a ajuda das diversas mediunidades,150 e então respondi:

“Se um espírito deixa o Além para reencarnar na Terra, isso não pode impedi-lo de se manifestar, pois a alma dos homens pode algumas vezes deixar o corpo físico.

No momento em que a alma está desligada do corpo físico e pode assim manifestar sua presença, dois casos podem produzir-se: ou bem a alma se manifesta, lembrando-se de que está encarnada, ou assume sua capacidade completa e lhe é possível retornar a uma de suas existências anteriores.

Portanto, mesmo no caso de uma prova absoluta de que seres estejam atualmente reencarnados, isso não impediria que, no curso dessa reencarnação, seu espírito possa manifestar-se e tomar, momentaneamente, não a aparência do que é, mas do que foi outrora.”

Isso comprova muito bem – mesmo se alguém puder provar que Allan Kardec está reencarnado – que nós teremos o direito de dar às afirmações de Léon Denis todo o crédito que elas merecem e de acreditar que as mensagens dadas na terceira parte de seu livro O Gênio Céltico e o Mundo Invisível são realmente mensagens de Allan Kardec, Jules Michelet, Espírito Azul e Kasuli.

Aliás, pouco importa que não queiram admiti-lo; seremos obrigados a reconhecer que tais comunicações são a emanação de um pensamento nobre, belo e justo.



O Gênio Céltico e o Mundo Invisível contém conselhos bem judiciosos e, se pudessem ser seguidos, chegaríamos a ser santos. De resto, o Espiritismo tende realmente a permitir a seus adeptos um melhoramento do ponto de vista moral.

Procuremos, pois, difundi-lo e assim prepararemos para nós um futuro melhor e trabalharemos na renovação de nossa raça. Seria necessário, principalmente, uma educação espírita para as crianças.

Numa atividade bem diferente do Espiritismo, eu me ocupo, desde 1927, com uma pesquisa nas municipalidades da França para conhecer os progressos da higiene em nosso país.

O prefeito de Libourne me escrevia que, desejando tornar seus municípios mais prósperos, não havia vacilado em pedir grandes sacrifícios para possuir escolas modernas.

As crianças, antes das aulas, são obrigadas a lavar as mãos e escovar os dentes. Cada uma tem, naturalmente, num pequeno compartimento, seus objetos pessoais e, assim, se ensina a essas crianças a necessidade de limpeza de que não se esquecerão durante toda a vida.

Era preciso generalizar o exemplo de Libourne, do ponto de vista de higiene corporal. No que concerne à higiene moral, seria necessário ensinar o Espiritismo, não somente aos adultos, mas também às crianças.

Durante minhas viagens de propaganda, costumo muitas vezes falar a espíritas sobre a instrução de seus filhos e, por vezes, eles me respondem que não se deve falar dessas questões com os jovens. A meu ver isso é um erro.

Não esqueçamos nunca: “Quem é responsável pela educação das crianças é capaz de mudar a face do mundo”, como muito justamente escreveu Leibnitz. Portanto, se quisermos transformar o que está errado em nosso país e em nosso mundo, devemos ensinar o Espiritismo às crianças.

Nas horas de angústia, nos minutos de luta, pensemos na vida de Léon Denis e na sua obra. Acharemos, assim, a coragem para saber viver bem, principalmente viver, conforme nossas teorias, de dar o exemplo, de aplicar o ensino espírita e de nos lembrarmos das palavras de Sêneca:

“Não há homens que façam mais mal ao gênero humano do que os que vivem ao contrário do que ensinam aos outros viverem.”


Capítulo XIII

O Espiritismo e a Vida Social


Entre suas obras, em seus numerosos artigos, que escreveu nas revistas francesas e estrangeiras, no grande número de conferências, nos discursos que pronunciou em diferentes congressos, Léon Denis muitas vezes mostrou a importância que ligava às consequências sociais do Espiritismo.

Apesar de suas eminentes qualidades de tribuno que teriam podido fazer dele um homem político muito aplaudido, Léon Denis não quis se lançar nesse caminho; tinha uma outra tarefa a realizar que a de se envolver na política, com suas lutas muito ardentes e por vezes tão decepcionantes.

Não obstante, no momento em que Léon Denis fazia maravilhosos esforços para levar ao conhecimento das massas a realidade do Espiritismo, a hora ainda não estava propícia para tentar pôr em prática, nos programas eleitorais, o ensino que decorre do Espiritismo.

Léon Denis devia, pois, empregar todas as suas forças para levar às massas o ensino espírita, servindo-se, para tanto, não apenas de sua arte oratória, que fazia dele um orador muito convincente, mas ainda de sua faculdade extraordinária de descrever com encanto e poesia as questões por vezes tão árduas da ciência e da filosofia espíritas.

Se eu estou assim tão afirmativo é pela conversa que tive com Léon Denis, em outubro de 1924. Na época, eu tinha a intenção de me envolver na luta política, tentando me contrapor às doutrinas de ódio e de inveja defendidas por certos utopistas descontentes, uma política baseada realmente na bondade, na solidariedade e na fraternidade.

Como eu dava ciência a nosso mestre de minhas intenções, ele me felicitou, calorosamente, dizendo-me que, segundo pensava, a época era chegada para os espíritas que sentiam a capacidade de se lançarem na arena pela conquista de lugares que lhes permitissem, não melhorarem sua situação material, mas prestar, o mais possível, serviços à humanidade.

Compreendendo que seria inútil apresentar oficialmente um programa espírita, o mestre me aconselhou aproveitar a campanha eleitoral para falar de bondade, de solidariedade e de fraternidade. Encorajou-me a alicerçar minha atividade no ensino que decorre do Espiritismo.

Lembrou-me, a seguir, a série de artigos publicados por ele, desde janeiro de 1924, na Revista Espírita, sob o título de Socialismo e Espiritismo.

Eis como escreveu Léon Denis:151

“Uma nação sem ideal, sem objetivo elevado, cedo estará transformada em pó.

Para o futuro os círculos políticos mais oposicionistas devem inspirar-se num ideal superior, um ideal que se alie ao racionalismo mais profundo.

(...) A sociedade terrena, para prosseguir sua evolução, deve renunciar ao materialismo, que é insuficiente, e se apoiar, daqui em diante, nessa noção mais alta das existências sucessivas da criatura e de uma vida universal regida pelas leis da equidade e da harmonia.

Façamos dessas leis um princípio de educação moral e de justiça social, porque, por seu intermédio, tudo se explica e se aclara.

Com efeito, é pela compreensão dessa regra essencial com a noção dos deveres e das responsabilidades que ela comporta, e das sanções que ela determina, que se revelarão aos nossos olhos a grandeza e a beleza da vida. Acharemos aí o supremo remédio para nossos males e a solução dos graves problemas da hora presente e do porvir.”

Por muitas vezes, em sua obra, Léon Denis mostra quais são as desordens da época moderna e para qual miséria nosso século está consagrado. Para remediar esse desagradável estado de coisas, o mestre não vê outros meios a não ser:152

“... dar ao povo uma nova educação, baseada numa doutrina espiritualista ampla e racional.

É preciso, inicialmente, que os pensadores guardiães da luz possam projetar suas irradiações sobre irmãos mais carentes, para dissipar os maus fluidos que os envolvem.

Depois, sobretudo na escola, inculcar na juventude os princípios regeneradores, porque não se corrige uma sociedade heterogênea, mas é preciso começar pela infância e preparar a obra dos séculos.

É necessário uma concepção simples, nítida e clara da vida e do destino.

Depois, para coroar a educação popular, uma alta moral livre dos preconceitos de seitas e de castas, inteiramente impregnada de piedade para com todos os que sofrem no mundo, homens e animais, sendo estes últimos frequentemente vítimas inocentes das brutalidades dos homens.

A inveja e o ciúme criaram o ódio entre as classes pobres. É preciso eliminar o ódio do coração humano, porque com ele não há paz, harmonia nem felicidade possíveis.

O ódio não pode ser vencido pelo ódio, disse a sabedoria antiga. Só pode ser vencido pela bondade, pela benevolência e pela tolerância.

Convém não se deixe de lembrar aos escritores e aos inovadores seus deveres e suas responsabilidades.

Pela pena e pela palavra, eles podem, muitas vezes, fazer o bem ou o mal. Que eles se lembrem de que seus artigos e seus discursos podem ser para cada leitor ou cada ouvinte um motivo de elevação ou de regressão.

O pior dos papéis neste mundo consiste em trabalhar constantemente para envenenar as almas. É preciso mais tolerância nos costumes e não lançar anátema aos que pensam de forma contrária à nossa.

Agrada-me, de minha parte, reconhecer que entre os contraditores há pessoas de mérito, dignas de consideração e de estima.

A nova educação deverá insistir na noção das vidas sucessivas, porque se essa grande doutrina não vier aclarar os caminhos do homem na Terra, a incerteza persistirá para ele com as vacilações, os erros e todos os males que decorrem da ignorância dos fins.”

Conforme penso, Léon Denis aí exprime, em excelentes termos, o único meio de se obter uma humanidade melhor. Todavia, para alcançar esse resultado, convém fazer os esforços necessários a fim de que espíritas sinceros se tornem legisladores e administradores dos bens públicos.

As consequências sociais do Espiritismo seriam, assim, pouco a pouco aplicadas e a humanidade melhoraria.

Estou tão certo de não me enganar, que passei da teoria à prática. Tentando fazer triunfar nossas idéias, escolhi, em 1925, um dos bairros de Paris, representado há muito tempo por revolucionários, e ali iniciei uma luta árdua.

Foi assim que, no bairro de Bercy (12º Distrito), fui candidato ao Conselho Municipal. Durante os seis meses de minha campanha, aproveitei todas as ocasiões para pregar, aos moradores desse bairro, a solidariedade e a bondade sob todas as suas formas e em todas as suas consequências, em oposição com a doutrina da Revolução.

Naturalmente, meu programa comportava possibilidades de melhoramento social e tentei explicar que o melhor meio de conseguir a felicidade humana é, de uma parte, afastar os egoístas, protegendo, de outro lado, contra os desagradáveis sentimentos de ódio e de inveja os que ainda não os possuem.

Fazendo assim, poder-se-á obter uma colaboração eficaz do capital, do trabalho e da inteligência. Essa colaboração é o único meio prático de se assegurar uma paz social verdadeira.153

Fui, pois, candidato num bairro onde era desconhecido de todos os moradores, em outubro de 1924.

Desejando mostrar como a perseverança e a tenacidade de qualquer um que cultivou sua vontade e adquiriu, o melhor que pôde, o domínio de si mesmo, tive o trabalho de visitar pessoalmente todos os eleitores, o que me permitiu compreender melhor as necessidades dos moradores de Bercy, principalmente do ponto de vista da higiene.

Com a ajuda dos membros do meu comitê, fiz numerosas reuniões particulares, divulgando as idéias diretrizes de meu programa, todas elas estabelecidas em absoluta concordância com os ensinamentos espíritas, sem que eu jamais, fique bem entendido, falasse de Espiritismo.

Não é ainda o momento de fazer, numa campanha eleitoral, uma profissão de fé espírita. Eu havia, porém, tomado a firme resolução de não ocultar minhas idéias, se, no curso de uma interrupção, me censurassem por ter escrito obras espíritas e feito numerosas conferências de propaganda.

Se isso acontecesse, eu teria, simplesmente, em poucas palavras, afirmado minha certeza, declarando que reside aí o dever de uma convicção pessoal.

Meu programa, teria eu acrescentado, comporta a tolerância mais completa pelas idéias dos outros e sou adepto resoluto da liberdade de consciência.

Não estou aqui para expor-lhes tal ou qual doutrina, tal ou qual ciência, tal ou qual religião.

Por consequência, não estamos no momento de discutir tais questões. Quero somente mostrar como, baseando a vida social nos princípios da justiça, da tolerância e da bondade, poderemos resolver melhor todas as questões e proporcionar a todos, equitativamente, o máximo de felicidade.

Ocultava tão pouco minhas idéias que tive ocasião, durante minhas conversas particulares com meus eleitores, de responder às suas perguntas referentes ao Espiritismo. Sabendo de minhas convicções, eles faziam perguntas sobre nossa Doutrina.

Durante a campanha eleitoral oficial, fiz, em Paris, uma conferência espírita.

Apesar de tudo, nunca, em minha campanha, o Espiritismo foi criticado durante as reuniões públicas ou particulares. Consegui, no primeiro turno, uma grande maioria para ser, no segundo turno, derrotado somente por dez votos, isto por ter o candidato comunista aproveitado uma coalisão das forças revolucionárias.

Eu havia prometido continuar me ocupando com o bairro, qualquer que fosse o resultado das eleições.

Cumpri, fielmente, minha promessa e assim provei que minha campanha era conduzida, tendo como único objetivo um ardente desejo de ser útil aos outros, alheio a qualquer preocupação de interesse pessoal.

No Congresso Espírita Internacional de 1925, apresentei um trabalho intitulado: “O Espiritismo na Vida Social”.

“Segundo creio – escrevi –, chegou a hora de tentar fazer penetrar na vida social as consequências do Espiritismo. Nossos militantes não devem hesitar em fazer sérios esforços para ocupar os postos políticos.

Seria evidentemente prematuro acrescentar a seu nome o epíteto de espírita, mas devem ser estabelecidos os programas eleitorais em conformidade com os ensinamentos espíritas.

Mesmo sem nenhuma possibilidade de sucesso, as campanhas eleitorais serão um excelente meio de propaganda e darão oportunidade de levar às massas o ensino da bondade e da tolerância que se destaca de nossa Doutrina, sem que se tenha de lhes pronunciar as palavras que ainda são mal compreendidas...

Caso fossem eleitos para as funções públicas, nossos propagandistas deveriam exercer seus mandatos fazendo os maiores esforços para realizarem seu programa. Continuarão, fora de suas funções, sua ação pessoal para divulgar o Espiritismo. Não vacilarão, se for necessário, em afirmar, com muito tato, suas convicções, mas somente quando houverem adquirido junto a seus colegas a autoridade moral necessária.

Mesmo sem divulgar o Espiritismo, seria fácil falar das consequências de nossa Doutrina em numerosas questões, como, por exemplo, a educação das crianças, a reeducação dos transviados, o melhoramento moral dos prisioneiros, etc... Em continuação, quando o número dos eleitos for suficiente, sem dúvida será possível preparar uma nova geração, organizando o ensino do Espiritismo no mesmo nível do das outras religiões.”

Minhas idéias foram adotadas por unanimidade e minha proposta deu lugar ao seguinte voto de resolução:

“Os espíritas têm o dever moral de penetrar em todos os círculos da sociedade, para efetuar, com tato, uma propaganda pelos fatos e pelos exemplos.

Os espíritas devem, tanto quanto possível, apresentar sua crença em todos os tempos e lugares, notadamente nas ocasiões de cerimônias familiares: casamentos, funerais, etc...”

Assumindo essa atitude, estava, de resto, seguindo exatamente os ensinos de Léon Denis.

Em 28 de fevereiro de 1886, nosso mestre fazia, em Mans, na “Salle de la Crypte”, uma conferência intitulada “A Filosofia da Revolução”. O relato aparece em Le Spiritisme e eu não faria melhor senão lhe publicar uma parte:

“Léon Denis expõe a situação da sociedade francesa, antes de 1889, e as modificações trazidas pela Revolução. Ele fez destacar a grandeza de alma dos homens de 1893 e seu heroísmo em presença da morte.

Onde buscavam eles essa energia que os sustentava no meio desse intenso drama e por que os republicanos de nossos dias são tão pequenos ao lado deles?

Eis o segredo de sua força: os homens de 1893 acreditavam numa lei superior de progresso e de justiça, e queriam aplicá-la na vida social e no governo dos povos.

Os homens da Convenção acreditavam num Ser Superior e na imortalidade da alma. Robespierre o afirmou em seu discurso de 18 floreal,154 ano IV, quando disse:

“Essas duas crenças são sociais e republicanas e a Convenção, proclamando esses dois princípios em nome do povo francês, institui a religião natural, fora de qualquer culto ou sacerdócio.”

O conferencista, após se ter levantado contra o ateísmo e o materialismo, cujas consequências são deploráveis, apresenta provas da existência de uma causa superior como se deduzindo da ordem e da harmonia que reinam no Universo. Depois, chegando à imortalidade da alma, ele a apresenta saindo, cientificamente, dos fenômenos espíritas, obtidos, em todos os pontos do mundo, das experiências de Crookes e de Wallace, e dos fenômenos do magnetismo lúcido.

Termina ele afirmando que todos os fatos agrupados e interligados por uma síntese moral se tornarão a religião científica da humanidade. (...)

Léon Denis nega aos materialistas e aos ateus o direito de se declararem os herdeiros de 1893; o materialismo, disse ele, é um perigo social, que leva o homem ao desespero e ao suicídio no qual ele relaxa a sua dignidade e diminui a energia na adversidade!

Da mesma forma que a idolatria e a superstição que em suas consequências lógicas terminam no arbitrário e no despotismo, o ateísmo, em seus resultados políticos, conduz à dilapidação das forças sociais e à anarquia.

O materialista considera o homem como uma máquina movida por instintos.

Ora, não há, para uma máquina, nem liberdade, nem responsabilidade, nem leis morais de seguimento aos deveres, e a República só pode viver apoiando-se em deveres.

Sem um ideal superior, sem a fé no futuro, sem crenças racionais, não há costumes viris, nem grandeza moral para um povo.

Com o materialismo, os apetites, os instintos dominam sozinhos e a besta selvagem reaparece no homem.

O conferencista apresenta as provas da existência de uma causa superior e aponta a ordem e a harmonia no Universo.”

Em abril de 1889, sob o título “A Política e o Espiritismo”, Léon Denis publicou em Le Spiritisme o seguinte artigo:

“A República é a forma mais lógica, a mais completa da liberdade e pode fazer a verdadeira igualdade entre os homens, não rebaixando os grandes ao nível dos pequenos, porém, dando aos pequenos os meios de se elevarem, gradualmente, ao nível dos grandes pela instrução gratuita, liberdade de trabalho e de associação e uniformidade nos direitos.

Todavia, para realizar, para manter tal forma de governo em sua pureza e grandiosidade, é preciso haver almas dignas e virtuosas.

Uma nação republicana é um vasto organismo, um grande corpo, onde cada eleitor é um membro. O Estado vale o que valer o cidadão. Se o cidadão é correto, justo, esclarecido, o Estado será grande; se ele é egoísta, ignorante e vicioso, o Estado será fraco e miserável.

Republicano significa quem se governa e se rege, em todas as esferas de sua atividade. Tal título impõe, portanto, a quem o adote, responsabilidades mais pesadas e mais extensas. Exige mais méritos e um certo valor intelectual e moral.

Sob um tal regime, a sorte do país está nas mãos do povo e é ele que, por sua escolha e seus sufrágios, prepara seus próprios destinos. Ora, o perigo se torna grande, se o direito e a liberdade forem usados sem discernimento. É o que acontece na França.

Os republicanos se dividiram em grupos inimigos. As rivalidades, os ódios e as inúmeras competições criaram a instabilidade. Os ministérios sucumbem, uns após os outros.

A crise se torna permanente e os sintomas de descontentamento já se manifestam. Uma corrente de opiniões conduz uma parte da nação para um governo pessoal.

Após tantas revoluções, tanto sangue derramado, tantos esforços e tantos sofrimentos para obter a liberdade, passamos a maldizê-la e desgostar dela.

Constata-se que a liberdade da imprensa produziu um amontoado de injúrias e de mentiras e que a difamação se tornou um mal crônico. A liberdade de reunião se tornou inaplicável, graças à invigilância dos conciliábulos políticos ou socialistas, que lançam a perturbação em todas as reuniões que não lhes agradam.

É que a liberdade só pode produzir efeito útil se cada um souber se preparar pela educação.

Ela, para ser um bem, deve ter por corretivo o respeito pela liberdade dos outros e um sentimento profundo pela dignidade humana. Todavia, que pode ela representar para homens corrompidos, numa sociedade onde a matéria domina o espírito, onde a vida animal é mais forte do que a vida intelectual e moral?

Limita-se a acusar o parlamentarismo, a criticar a Câmara, sem se lembrar de que a Câmara é apenas a fiel representação das virtudes e dos vícios nacionais, o reflexo, a viva imagem do estado de espírito francês. Mudaram as instituições, mas o fundo do caráter não se modificou.

A República não pode viver, prosperar, nem se engrandecer, se nenhum de seus filhos se tornar melhor, mais sábio e mais virtuoso.

É o que haviam compreendido os homens da primeira revolução. Eles tinham um ideal elevado.

Sua fé profunda num Ser Supremo, em suas leis justas, na vida imortal, era a fonte de onde tiravam as suas grandes resoluções.

Robespierre se explicou várias vezes na tribuna da Convenção, e Danton, Vergniaud e muitos outros partilhavam de seus sentimentos sobre esse ponto.

Os republicanos de 1848 eram igualmente espiritualistas no sentido mais amplo e elevado do termo. Uns e outros tinham costumes austeros e seu espírito de devotamento e de sacrifício não recuava face à morte.

Sabiam e diziam que não bastava anular o despotismo para fazer nascer a liberdade e implantar os costumes republicanos, porque, se as paixões materiais, a corrupção e o egoísmo permanecessem nas almas, nada teria sido feito e o despotismo renasceria de novo. Os que aspiram a uma ordem social baseada na justiça, diziam eles, devem, inicialmente, se tornar justos e virtuosos, criar costumes dignos, razões esclarecidas e consciências honestas, e caminhar sem receio para um ideal nobre e generoso.

Ora, esses preceitos foram esquecidos e a meta que a maior parte dos franceses desejava alcançar era a riqueza ou o prazer.

A instrução é mais difundida, é verdade, mas o que dizer de uma instrução puramente científica, desprovida de qualquer noção geral sobre a finalidade da vida, o destino dos seres e as leis superiores do mundo?

O materialismo se expandiu por todas as classes. O homem, vendo a vida apenas em si mesma, relega ao estreito círculo que ela envolve todos os seus atos e pensamentos. Disso resulta um excesso de ambição e de vaidade, uma sede ardente de bem-estar, horror ao trabalho e a tudo quanto é sério, profundo e sincero.

Daí, uma confusão geral, porque aquilo que está em nossas idéias se expande por toda parte e conduz à desordem a obra da civilização e do progresso. Entretanto, parece que, ao lado do mal, o Poder Superior que rege os mundos colocou um remédio.

À medida que o vazio e a incerteza se estabelecem no pensamento, eis que um novo ideal, uma concepção racional do mundo e da vida começa a apontar, debilmente, lutando contra as trevas que pareciam querer tudo envolver, mas que, apesar dos obstáculos, cresce e transforma-se, pouco a pouco, em um foco de luz capaz de aclarar e aquecer a humanidade. (...)

É o Espiritismo, ainda desconhecido, desprezado, que vem curar nossas chagas morais e nos fornecer, com uma base de certeza pela fé, um princípio de melhoria social.

Apoiado na sólida rocha dos fatos, a interpretação que ele nos oferece da lei moral e do objetivo da existência, se vulgarizada, se divulgada no mundo, poderia evitar os flagelos que a sensualidade e a incredulidade vão, brevemente, desencadear sobre a humanidade. (...)

O Espiritismo, digam o que disserem, é o indispensável complemento filosófico e moral da Revolução, porque os princípios de progresso e de igualdade, nos quais se inspirou, ele os apresenta inscritos nas leis eternas e realizados pelo destino de todos os seres, através das incessantes vidas dos renascimentos.

Eis as verdades que o Congresso de Paris deveria destacar, proclamar diante das nações, porque só elas podem preservar da anarquia e do descalabro das paixões materiais e egoístas.”

Fiz essa citação com o fim de mostrar quanto estou seguindo Léon Denis, envolvendo-me na vida social, tentando aplicar as teorias que defendemos para remediar a desordem atual.

Em O Mundo Invisível e a Guerra, à página 154 (edição francesa),155 Léon Denis indica quais os males que o Estado tem causado às gerações jovens, com um ensino confuso, de onde foram retirados o ideal e a beleza moral.

Em nossa época, os meios universitários não são poupados pela propaganda revolucionária e é triste constatar-se a que ponto as idéias bolchevistas têm influência junto aos professores e divulgadores.

Isso deve conduzir todos os espíritas a deflagrar uma campanha sem quartel, para se conseguir uma educação nacional que contenha elementos capazes de uma renovação.

Como Léon Denis escreveu em O Mundo Invisível e a Guerra:156

“Se a bela flama do idealismo iluminasse as almas, veríamos que, aos poucos, as gerações envelhecidas e desencantadas, prestes a desaparecer, seriam substituídas por uma nova França, ardente e generosa, possuidora de uma fé patriótica que lhe garantiria efetuar grandes empreendimentos.”

Desde 1902, Léon Denis havia julgado necessário atrair a atenção do Presidente do Conselho sobre a importância, para a França, de uma mudança nos métodos de ensino.

Também, escrevia ele a Combes, senador e presidente do Conselho de Ministros, uma carta aberta, cujos termos encontramos em La Revue Scientifique et Morale du Spiritisme, ano de 1902-1903. Acho útil reproduzi-la:

“Em uma das recentes sessões da Câmara, o senhor afirmou, com coragem, diante da representação nacional, sua fé espiritualista. O senhor reconheceu a impotência da escola leiga para transmitir todo o ensino moral necessário e acrescentou que a idéia religiosa era uma das forças mais poderosas da humanidade.

Suas palavras tiveram, no país, imensa repercussão. Elas são como um eco da consciência pública, alarmada pelos numerosos sintomas de decadência e de decrepitude moral que aparecem por todas as partes e que só pode ser atribuída à ineficácia do ensino oficial.

O senhor afirmou, além disso, que o método de observação aplicado ao estudo do mundo moral e da consciência assegura a sobrevivência da personalidade humana e lhe abre os horizontes da eterna verdade e da eterna justiça:

“A idéia religiosa, termo natural e lógico da pesquisa científica, se liga muito estreitamente às mais íntimas aspirações da alma, para que o professor da Universidade possa ignorar e lhes recusar, em seu ensino, o lugar que lhe cabe.”

Aí estão nobres sentimentos expressos numa bela linguagem, mas que são partilhados por bem poucos dos que têm por missão esclarecer a alma do país.

É um fato notório, para um homem familiarizado com os meios universitários, que a maior parte dos professores e auxiliares, imbuídos, uns das teorias negativistas, materialistas ou positivistas, e outros profundamente indiferentes, desdenham ou negligenciam o ensino espiritualista e, quando o ministram, o fazem sem convicção, sem calor comunicativo e, portanto, sem resultado. A mesma incapacidade tem o padre, que, por suas afirmações dogmáticas, não consegue comunicar às almas uma crença que não responde mais às leis da crítica sadia, nem às exigências da razão.

Em realidade, quer se volte para a Universidade, quer para a Igreja, a alma moderna só vê obscuridade e incerteza no que tange ao problema de sua natureza e de seu destino.

A educação que se dá às gerações é complicada, mas não esclarece os caminhos da vida e não as prepara para os combates da existência. O ensino clássico pode nos ensinar a escrever e falar bem, mas não orienta como agir, amar e devotar-se. Muito menos ainda ensina a crer, a ter uma concepção da vida e do destino, que desenvolva as energias profundas do eu e oriente nossos anseios e nossos esforços para um fim elevado.

Francisque Sarcey, esse modelo ideal da Universidade, confessava, sem rodeios:

“Estou no mundo, ignoro como vim e por que me puseram aqui. Também ignoro como daqui sairei e o que me acontecerá quando daqui houver saído.”

Aí está o resultado de tantos séculos de estudos e de labor. A filosofia da escola é ainda apenas uma doutrina sem luz e sem vida. A alma de nossos filhos, desorientada entre sistemas diversos e teorias contraditórias – o positivismo de Auguste Comte, o naturalismo de Hegel, o materialismo de Stuart Mill, o ecletismo de Cousin, etc. –, flutua, na incerteza, sem ideal e sem objetivo claro.

Daí o desencorajamento precoce e o pessimismo dissolvente, doenças das sociedades decadentes, ameaças terríveis para o futuro, às quais se junta a descrença amarga e destruidora de tantos jovens que só crêem na sua riqueza, só honram o sucessor e se julgam vencidos, antes de descerem à arena.

Observamos que nosso país não fornece mais muitas almas varonis, para disputa com as outras nações nos caminhos e labores do mundo.

Lamentamos não mais surgirem homens de iniciativa, capazes de aumentar o poder de brilho e o prestígio da França. De onde vem isso? Muito simplesmente, do que nosso ensino não consegue mais produzir.

Para formar almas novas e fortes, precisamos de métodos e princípios novos. Precisamos preparar os espíritos para as necessidades da vida presente e das vidas ulteriores. Precisamos ensinar o ser humano a se conhecer, a desenvolver, em vista de seus fins, as forças latentes que neles dormitam.

O que o ensino clássico, em todos os seus graus, não pode dar, o ensino religioso é capaz de fornecê-lo? Seria ilusão acreditar nisso.

As próprias Igrejas estão atingidas por uma profunda crise. Na Igreja Católica, não é somente de fora que surgem os ataques; é no próprio seio do santuário que se avolumam os esforços dissolventes.

A velha fé está abalada e os dogmas vacilam em suas bases. Um vento de independência sopra no meio do clero. Numerosos padres, não podendo mais ensinar o que sua razão reprova, abandonam o sacerdócio e desertam da Igreja.

As religiões vêem enfraquecer, a cada dia, seu império sobre as almas.157 O número se reduz, cada vez mais, dos que acreditam sinceramente no pecado original, na redenção, bem como nas penas eternas ou na salvação pela graça.

Se, como o senhor disse, Senhor Presidente, a ciência conduz à idéia religiosa, ela não conduz à religião sob suas formas atuais. A religião, para se tornar viva, deve sair de sua imobilidade secular, aprender a evoluir, a se elevar rumo a uma compreensão mais alta do Ser Infinito, Eterno, e de sua obra.

Se o ensino clássico, se as velhas crenças não bastam mais para as necessidades de nosso tempo, onde buscaremos essa concepção espiritualista da vida e do destino, baseada na razão e na justiça, que nenhuma sociedade saberia recusar, já que ela é o sustento e a consolação suprema, nas horas de provas, a fonte das másculas virtudes e das altas inspirações?

Hoje não poderíamos nos contentar com puras especulações metafísicas. Para as exigências modernas é preciso oferecer uma doutrina apoiada em provas sensíveis, em fatos de observação e de experimentação. Mas, onde estará a doutrina espiritualista que poderá reunir tais condições?

Aqui, Senhor Presidente, meu dever é de lhe dizer bem alto o que muitos pensam bem baixo e atrair sua atenção para o desenvolvimento que tomaram, em nossos dias, as ciências psíquicas. Elas constituem, em seu conjunto, o que se denomina Espiritualismo Moderno, e suas deduções filosóficas repousam em inúmeros fenômenos, renovados incessantemente.

Essas ciências, tão injustamente discriminadas outrora e melhor conhecidas e mais justamente apreciadas hoje, já oferecem à Psicologia recursos suficientes para uma base experimental ao princípio da imortalidade.

Graças a elas, a sobrevivência da alma e suas manifestações além da morte deixaram de ser uma simples hipótese para se tornar uma certeza.

O senhor o sabe, Senhor Presidente, já não é mais somente do rol dos pesquisadores obscuros que se elevam agora as afirmações, os testemunhos; é do seio das corporações dos sábios.

São doutos membros das faculdades, homens que ocupam altos postos no mundo científico, que atestam, em todos os países, a realidade das comunicações com o Além.

Enumeramos, entre os mais conhecidos, William Crookes, Russel Wallace, Oliver Lodge, Alexandre Aksakof, Albert de Rochas, o Dr. Paul Gibier, o Prof. Charles Richet, etc.

Um fato considerável se destaca dos obtidos há 50 anos: a coexistência de duas humanidades, uma visível e da qual fazemos parte e outra invisível aos nossos sentidos, que se renovam ambas por permanentes trocas, por meio do nascimento e da morte.

Essas humanidades se penetram, se influenciam e evoluem para fins comuns. Entre elas, uma comunhão cada vez mais estreita se estabelece e daí nos resultam, de todos os pontos do mundo, ensinamentos que se harmonizam e constituem um controle universal.

Pouco a pouco, a vida futura se desvenda com o conjunto imponente das leis que a regem, leis de progresso e de eterna justiça, como o senhor tão eloquentemente o afirmou.

Sabemos que o ser se encontra, além da morte, em sua plena consciência e inteira responsabilidade, com todas as conquistas intelectuais e morais, acumuladas na sucessão das vidas que percorreu.

Sabemos que toda alma deve sofrer, em cada retorno à carne, as consequências de seu passado, o que faz do destino, feliz ou infeliz, uma simples lei de causa e efeito e que nós mesmos construímos, através do tempo, nossa personalidade em processo de ascensão.

Artífice de seu próprio futuro, o homem prossegue sua evolução por meio de numerosas existências, na superfície dos mundos, elevando-se, gradualmente, para um infinito de grandeza, de poder e de beleza.

É nosso dever chamar sua atenção sobre a utilidade que haveria em se aproveitar tais elementos para a educação nacional, a fim de conseguir para nossos filhos um conhecimento mais preciso das leis da vida; de lhes inspirar mais confiança no destino, de melhor armá-los para as lutas morais e a conquista do futuro.

Enquanto as universidades ensinam cada dia sistemas filosóficos mais ou menos hipotéticos, engendrados pelo pensamento do homem, poderíamos considerar como desprezíveis os ensinos dados pelas altas inteligências do Espaço?

E, mesmo quando espíritos tímidos achassem que deveriam ficar alheios a essas revelações, não é menos evidente que a lei das vidas sucessivas, através das quais cada um de nós prossegue, nas mais variadas situações, os estudos, os trabalhos e os sofrimentos, em sua própria educação, essa lei fica sendo a única explicação das diversidades das infinitas aptidões, dos caracteres e das condições que diversificam os homens.

É, ao mesmo tempo, o retorno às nossas verdadeiras tradições étnicas, às crenças filosóficas da Gália, o retorno ao gênio céltico, que é o puro e claro gênio da França.

Compete-lhe, Senhor Presidente, em sua alta sabedoria, regenerar o ensino universitário por essa noção das existências sucessivas da alma, através das quais o progresso prossegue e a justiça se realiza.

Provocando, no começo do século XX, essa renovação necessária, o senhor facilitará a obra de paz e de harmonia social empreendida sob a égide da República.

O senhor bem o sabe, não há progresso social sem progresso individual, e o mais poderoso fator do progresso é a educação. Ela contém, de forma latente, o futuro.

Todavia, nenhuma educação será eficaz, se não se inspirar no estudo completo da vida, a vida sob suas duas formas alternantes: terrestre e celeste; a vida em sua plenitude, em sua evolução ascendente para os cumes da natureza e do pensamento.

Queira aceitar, Senhor Presidente, a expressão de meus sentimentos respeitosos.



Léon Denis.”

Em 1928 o Espiritismo está mais divulgado do que em 1903. Portanto, talvez seja possível obter-se do governo uma transformação dos métodos oficiais de ensino. Entretanto, os espíritas têm o dever de realizar, a esse propósito, campanhas enérgicas. Fazendo-as, seguirão estritamente o exemplo que lhes deu Léon Denis.

Deve-se acreditar, com Lucien Graux, que ministros e homens políticos célebres crêem na realidade do Espiritismo, enquanto se declaram prontos a continuar e a afirmar publicamente o contrário? 158 Contudo, a carta endereçada por Léon Denis ao Presidente não surtiu efeito; e isso prova a necessidade de preparar o futuro.

“Se quisermos – escreve ele 159 – entrever pelo pensamento o futuro reservado ao Espiritismo, representemos um instante as gerações futuras livres das superstições clericais e dos preconceitos universitários, elevadas pelo espiritualismo científico e filosófico até à comunhão com o invisível, conversando com os habitantes do Além, dirigindo suas vidas, conforme os conselhos de seus preceptores de Além-túmulo, obedecendo, como os profetas de Israel, aos impulsos superiores.

Uma tal sociedade não seria o povo de eleitos que o Cristo veio evangelizar? A união de um tal povo à humanidade invisível seria comparável à escada de Jacó, pela qual os espíritos descem até aos homens e os homens sobem até Deus, numa ascensão de glória, virtude e luz.”

Para nos darmos conta do valor real do Espiritismo, considerado do ponto de vista de sua influência sobre o povo, é útil lembrar que, já em 31 de março de 1886, Michel, operário, dizia, diante do túmulo de Allan Kardec, em nome do Grupo Operário Espírita do bairro de Saint-Antoine:

“Eu, operário, é em razão da felicidade que tenho sentido, desde que esse caro mestre me esclareceu, com o conhecimento de mim mesmo, que não vacilo em vir fazer um apelo, publicamente, a meus irmãos, operários como eu, para que bebam na fonte da felicidade, onde tantas vezes matei minha sede.

Venham, amigos, venham respirar esse doce perfume que denominamos de verdade, felicidade da alma; venham, vocês que, como eu, estão curvados pelo peso das provações, que serão aliviadas pelo conhecimento da Doutrina Espírita, que ensinamos a todos os homens de boa vontade.

Vocês verão que o Espiritismo é o anjo consolador de todas as dores, de todas as penas e de todos os sofrimentos e que, bem praticado, curaria as chagas sociais. Nele vocês encontrarão, enfim, a aplicação dessa grande divisa: Liberdade, Igualdade, Fraternidade.

Liberdade, pelo livre-arbítrio que temos de adiantar ou de atrasar nosso avanço para Deus.

Igualdade, pela divisão de todos os sofrimentos materiais entre todos os habitantes do planeta.

Fraternidade, Amor, Proteção, alívio para todos os seus semelhantes.

Caros amigos, quando praticarmos, realmente, esses grandes princípios, chegará a idade de ouro, a verdadeira República de Deus, um por todos e todos por um.

Sempre a vocês, irmãos de labor, não cessarei de lhes pedir. Eu lhes direi, pois, ainda uma vez, que, se quiserem sua emancipação, venham até nós; se quiserem respirar a liberdade a plenos pulmões, ponham em prática nossas máximas e verão por vocês mesmos que o Espiritismo é chamado para proceder a uma grande revolução moral, por toda a Terra e, notadamente, em nossa sociedade francesa, nação que está sempre à frente, quando se trata de progresso e de bem-estar dos povos.”

Em O Problema do Ser e do Destino, Léon Denis fala frequentemente sobre a importância do Espiritismo na vida social.

Citarei apenas uma passagem que mostra bem que o patriarca do Espiritismo não negligenciava em dar atenção aos problemas políticos:160

“Sendo uma sociedade – escreve ele – o resultado das forças individuais, boas ou más, para melhorar a forma dessa sociedade é preciso agir, de início, sobre a inteligência e sobre a consciência dos indivíduos.

Todavia, para a democracia socialista, o homem interior, o homem da consciência individual não existe, a coletividade o absorve por inteiro.

Os princípios que ela adota não são mais do que uma negação de qualquer filosofia elevada ou causa superior. Só se sonha em conseguir direitos, entretanto o gozo dos direitos não é possível sem a prática dos deveres.

O direito sem o dever, que o limita e o corrige, só engendrará novos atritos e novos sofrimentos.

Eis por que o impulso formidável do socialismo só faria deslocar os apetites, as cobiças, as causas de mal-estar, e substituir as opressões do passado por um despotismo novo, mais intolerante ainda.

Assim, podemos medir a extensão dos desastres causados pelas doutrinas negativistas. O determinismo, o materialismo, negando a liberdade humana e a responsabilidade, destroem as próprias bases da ética universal. Segundo essas doutrinas, o mundo moral é apenas um anexo da fisiologia, isto é, a manifestação da força cega e irresponsável.

Os espíritos de elite professam o niilismo metafísico, e a massa humana, o povo, sem crenças, sem princípios fixos, está entregue a homens que exploram suas paixões e especulam sobre suas cobiças.”

É preciso, pois, fazer grandes esforços para divulgar o Espiritismo no povo e criar um movimento em favor de nossa Doutrina.

Graças a seus métodos simples da experimentação, graças às provas extraordinárias de identificação, dadas tão frequentemente pelos espíritos, a propaganda de nossas idéias é hoje fácil. Pouco a pouco, o Espiritismo se expandirá bastante.

Ora, o povo faz a opinião pública, e como a opinião pública se impõe geralmente ao governo, podemos ter confiança no futuro.

Graças ao Espiritismo, haverá menos egoístas, os operários e os patrões compreenderão a necessidade de colaborarem, de se prestarem favores uns aos outros.

O encorajamento ao trabalho, a participação nos benefícios de todos os que ajudaram em sua criação se tornará então, facilmente, uma realidade. Aí está o único meio prático da pacificação social.

Para os que estivessem tentados em pensar que a colaboração das classes é uma utopia, desejo reproduzir um artigo aparecido em Bâtiments et Travaux Publics, de 15 de abril de 1928, sob o título: “L’Esprit Nouveau des Syndicats Ouvriers”:

“O sucesso da Conferência, recentemente realizada em Londres, entre os chefes das mais poderosas organizações patronais britânicas e os representantes dos Sindicatos dos Operários para garantir, o quanto possível, a paz industrial, parece demonstrar, contrariamente às previsões de alguns patrões, que os dirigentes dos Sindicatos dos Operários se afastam, pouco a pouco, das soluções violentas, não levando em conta somente as contingências econômicas para chegar a concepções muito mais racionais e que, em todo caso, merecem ser discutidas. A Revue Suisse aí vê o começo de um novo espírito nos meios proletários.

“Desejar-se-ia que nessas classes – escreve ela – os operários evitassem perturbar a produção e, o quanto possível, não recolhessem da luta um prejuízo tão grande ou maior ainda que o sofrido pela indústria e pela comunidade.

Também se começaria, nessas esferas operárias inglesas, a ver melhor as coisas econômicas e a compreender a falsidade e a ação nefasta da política de luta das classes e se chegaria a um consenso com os patrões.

Acredita-se que, com um exame em comum de todas as questões relativas à produção, por meio de um entendimento sobre todas as diferenças que separam os interessados, cada um obteria mais vantagem que nos sistema de confronto dos interesses, origem de tantas lutas, greves, violências e ruínas.”

Coisa curiosa, o mesmo movimento parece se manifestar igualmente na Holanda, onde as Federações industriais, patronais e sindicais aceitaram trabalhar em colaboração.

É uma idéia que contradiz as velhas fórmulas marxistas sobre os “explorados” e os “exploradores” e que afasta, evidentemente, a “luta das classes”. Ela acabará por triunfar na Europa, num tempo mais ou menos longo, como triunfou nos Estados Unidos.

O socialismo da luta das classes – diz a Revue Suisse – só teve na América poucos adeptos e até o sindicalismo goza ali de um papel secundário, o que não impede que os salários lá sejam mais elevados que entre nós, guardadas as devidas proporções.

Isto não comprova que é falso dizer, como o fazem muitas vezes os líderes intelectuais de nossos operários, que todas as conquistas sociais das últimas décadas são devidas à ação de organização sindical e socialista?

Todavia, mesmo a Federação Americana dos Sindicatos Operários que, até aqui, jamais reconheceu os princípios internacionais e antimilitaristas dos camaradas europeus e que sempre se recusou filiar-se à Internacional Sindical, a Federação Americana dos Sindicatos Operários, dizemos, parece querer ir mais longe com conquistas maiores que as organizações sindicais inglesas e holandesas.

Numa de suas últimas declarações, a direção da Federação afirma, entre outras, que o “sindicalismo está prestes a facilitar a cooperação dos operários com os patrões, em vista da prosperidade da obra comum.

Essa maneira de ver não pode impedir de levar os patrões a considerar, de seu lado, que o entendimento de todos os profissionais é ainda a melhor das políticas.

Eles assinarão, quanto mais voluntariamente possível, todas as medidas de proteção aos trabalhadores, e não se ofenderão mais com adversários intransigentes, sustentando propostas inaceitáveis.

A Federação Americana, aliás, repudia fortemente o espírito combativo dos antigos sindicatos e proclama que se deve tudo sacrificar pelo espírito de paz e de cooperação.

“A questão é saber – acrescenta nossa amiga – se os sindicatos suíços e seus chefes compreenderão o sentido e o valor dessas mudanças de direção das organizações operárias, nos mais avançados e mais industrializados países do mundo.”

Pode-se pedir o mesmo aos sindicalistas franceses.”

Tenhamos, pois, confiança no futuro e não cessemos nossa propaganda. Quando a maioria dos homens conhecer e praticar o Espiritismo, a fraternidade e a solidariedade unirão, realmente, os homens.

Capítulo XIV

Sigamos o exemplo de Léon Denis


Estudando a obra de Léon Denis, mostrei muitas vezes que o patriarca do Espiritismo foi um magnífico exemplo de unidade de ação e de pensamento. Ele foi, igualmente, um modelo de desprendimento, de bondade e ardor ao trabalho.

Segundo Marcel Bucard, é preciso citar, entre as qualidades dominantes de Joana d’Arc, o fato de que ela era inspirada por Deus e “não estava em busca de glórias”.

“Ela era – escreve ele – pura de sentimentos, pura de intenções. Essa pureza infinita se manifestava em todos os atos de sua vida. A virgem é a santa da honestidade.

O homem que tem fé em Deus, ou o amor sagrado pela terra natal, ou a paixão por um ideal de dever e de justiça, ou a confiança em si mesmo (todas as formas da fé) pode estar certo “de chegar” ao belo sentido da palavra.

Um chefe deve ter fé, mas não qualquer fé... É o que explica por que os líderes como Joana d’Arc são muito raros.

Joana, afinal, não era para atração de ganhos. Ela só conhecia o dinheiro pelo bem que pudesse fazer e desprezava as moedas procuradas para as trocas sujas.

Ela amava o principal, “inteligência, coração e abnegação”, do qual sabia tirar para si e para os outros os benefícios mais proveitosos para a comunidade.

Tendo a fé, sabendo se sacrificar, a virgem é a melhor amiga do povo.”

Tais palavras não se poderiam aplicar igualmente a Léon Denis, que foi inspirado pelos Invisíveis e que, no início de sua carreira de escritor, afirmava seu desejo de escrever para o bem do povo? 161

A apreciação de Marcel Bucard não parece ter sido escrita em intenção ao patriarca do Espiritismo, que sempre empregou seu dinheiro para cumprir seu apostolado?

Tinha uma pequena mediunidade de escritor, mais intuitiva do que mecânica, disse Claire Baumard, que durante muitos viveu perto do mestre e foi unicamente sua secretária.

Em La Vie d’Outre Tombe, revista espírita belga, ela deu, em junho de 1927, algumas notas sobre Léon Denis íntimo:

“Léon Denis – escrevia ela – era um gigante do pensamento; seu cérebro estava em constante ignição e cem vezes preparava suas obras para realizar a tarefa. Em sua vida, não conheceu o tédio, nem a ociosidade. Aliás, seus amigos invisíveis não lhe deixavam tempo e seu guia lhe repetia sempre:

– Deves trabalhar ainda por muito tempo!

– Mas – respondia o mestre –, estou muito velho para dar conta de tanto trabalho.

Essa cena, a que assistimos numa reunião, pareceu-nos plena de grandiosidade; ela invocava os velhos profetas judeus, suplicando a Deus que os chamasse para ele, pois sua tarefa era bem dura e eles estavam muito cansados, mas Jeová não atende.

– Caminha, ainda, caminha sempre – respondia ele. – Vai enfrentar os reis de Israel, falsos e cruéis. Vai ameaçar com minha cólera o povo que te apedrejará.

E o autor, com o prestigioso talento de prosador, pelo que mereceu ser chamado de O Grande Lírico do Espiritismo, trabalhou até o final da vida.”

O trabalho! Eis o melhor meio para se lutar contra a neurastenia.

Lendo essas linhas, eu me lembro do tempo em que levava a vida mundana dos ociosos e inúteis. Lembro-me de como as horas pareciam longas. Recordo os momentos de tédio e tristeza.

Depois que, graças ao Espiritismo, eu conheci o meio de ser feliz e que aceitei, como tarefa, um trabalho incansável, estou constantemente aflito por não dispor de mais tempo.

Estudem Léon Denis; por ele, saberão exatamente o que é a morte e isso lhes permitirá viver de forma bem diferente.

Numa peça de Romain Rolland, intitulada “Du Jeu de l’Amour et de la Mort”, representada no Odéon, um proscrito, Valée, é retido em Paris, durante o Terror, porque ele ama profundamente Sophie Courvoisier, a mulher do grande sábio que tem a confiança da Comissão.

Entretanto, por várias imprudências, feitas por Jérôme Courvoisier, este está a ponto de ser guilhotinado.

Deram-lhe um salvo-conduto para sua mulher e para ele.

Ora, esse homem idoso cometeu a falta bem humana de se casar com uma jovem mulher que ele adora e à qual não pode dar todas as satisfações às quais sua juventude tem direito.

No momento em que lhe trazem o salvo-conduto, ele sabe que seu amigo Valée ainda não é o amante de sua esposa, mas a ama e ela lhe corresponde.

Com uma grande nobreza de alma, ele se sacrifica, ele que está tão perto do túmulo e quer dar a sua esposa e a Vallé o salvo-conduto que lhes permitirá fugir de Paris para o estrangeiro.

Diante dessa generosidade, Sophie Courvoisier compreende a que ponto deve ceder à paixão humana e se dá conta do devotamento maravilhoso daquele que foi seu companheiro e rasga o salvo-conduto que lhe era destinado, dizendo a Vallée:

– Você deve aproveitar o que lhe está ofertado.

Ao mesmo tempo, ela lhe diz que se não fugisse, morreria.162

Vallée, sacudido por um tremor: Morrer!... Não! Não!... Não quero!... Morrer!... Abominação!...

Jérôme, calmo: – Preso, dentro de uma hora, julgado amanhã de manhã e guilhotinado, de tarde...

Vallée, fora de si: – Amanhã, de tarde, a esta hora, um monte de carne jogado na carroça e lançado numa pilha... Eu!... Jamais!... Não quero!... Salve-me!...

Jérôme: – Prepare-se para fugir.

Vallée: – Tenho vergonha...

Sophie vai a ele e lhe joga um casaco nos ombros: – Nós o salvaremos, amigo!

Vallée: – Tenho vergonha...

Sophie o veste, maternalmente: – Não, não tenha vergonha! Quero que você viva. Ficarei feliz que você ainda viva.

Vallée: – Eu a odeio e eu a desejo. Não posso, não posso me conformar em perdê-la... Ó deuses! Que se passa? A humilhação me esmaga... Sophie, para encontrá-la enfrentei mil mortes e só tremi com o receio de jamais revê-la. E agora, e agora!... Não posso mais suportar o pensamento da morte... Não, não me olhe com seus olhos de piedade! Que desgosto eu lhe inspiro!

Se Vallée tivesse conhecido o Espiritismo, teria medo da morte? Não, teria sido como os gauleses, que iam ao combate corajosamente e não se davam nem mesmo ao trabalho de retirar do campo de batalha os despojos de seus soldados mortos.

Muitos de meus leitores já conheciam, antes de lerem meu livro, as obras de Léon Denis; desejaria que fizessem um estudo profundo de seus livros. Alguns, talvez, jamais tiveram a ocasião de ler nosso mestre. Espero tê-los animado a possuir em sua biblioteca toda ou uma parte da obra do patriarca do Espiritismo.

Desde que comecei minha atividade de propaganda espírita, recebi muitas cartas, nas quais criaturas desoladas me confiavam suas angústias e me diziam:

– O senhor acha que a felicidade existe. Como poderei conseguir um pouco dessa felicidade?

A todos eu respondia: – Comece lendo Depois da Morte.

Recebi cartas comoventes, cartas de pessoas que, graças a essa obra, puderam evitar o suicídio, essa coisa tão tenebrosa em suas consequências espirituais.

É um simples gesto, um momento de coragem ou de loucura, mas esse pequeno gesto produz no Além consequências terríveis.163

Somos levados, por vezes, a pensar na quantidade de milhões que são, cada mês, gastos pelas nações para manter seus armamentos. Será isso necessário no estado atual da civilização? Já se pensou nas inúmeras misérias que esses milhões poderiam socorrer?

Por profissão, sou obrigado a estar nos diferentes bairros de Paris, a qualquer hora do dia ou da noite.

Quantas vezes tenho visto, com o coração sangrando, sob um portal, um pobre velho ou uma pobre velha que, mesmo no inverno, dormem lá, enroscados sobre si mesmos.

Por que, em nossa civilização, há pessoas que podem, sem remorsos, tomar, nos restaurantes de luxo, refeições de 300 francos por pessoa, enquanto que pobres humanos, apesar de seus esforços na busca de trabalho, estão reduzidos à mais negra miséria?

Por que os que têm bastante fortuna arriscam no jogo, numa noite, vários milhões?

Por que mulheres exibem colares custosos, sem mesmo pensar em suas irmãs em humanidade que a sorte ingrata reduziu à mendicância?

É que, como dizia Léon Denis, em Lyon, em 1906, se, em nossa época, os progressos materiais são imensos, nem por isso o homem se tornou melhor.

Ele não tem nenhum ideal nobre, nenhuma noção clara de seu destino.

Ao sopro da descrença e do materialismo, o fogo das paixões, dos apetites e dos desejos aumentou em proporções inquietadoras.

Quando os espíritas forem a maioria, certamente não mais haverá tais desigualdades sociais.

Compreendendo seus deveres de solidariedade, os ricos não abusarão mais, escandalosamente, de sua fortuna e dela se utilizarão, razoavelmente, para atenderem às suas necessidades e ajudarão aos deserdados da sorte, fazendo os esforços necessários para evitar a miséria humana.

Para apressar essa época feliz, trabalhem, amigos leitores, em divulgar nossa Doutrina. Fazendo isso, agirão também em prol de uma sociedade melhor, pois estarão se preparando para uma nova era, em que reinarão na Terra a paz, a fraternidade e a felicidade geral.



Paris, setembro de 1927 – março de 1928.

Vocabulário onomástico

– A –

Agullana, Sra. – médium francesa, natural de Notre-Dame Guglose, escreveu La Vie Vécue d’un Médium Spirite.

Allier, Raoul – pastor protestante, autor de Soeurs de Jeanne d’Arc.

Alma Z. – personagem de um caso de dupla personalidade, narrado por Léon Denis em O Problema do Ser e do Destino.

A. M., Sra. – curada através de milagre de Joana d’Arc.

Amiel – presume-se que o autor tenha se referido a Henri Frédéric Amiel, escritor suíço (1821-1881), autor de Fragments du Journal Intime.

Arnoult, Gatien – escritor, autor de Philosophie Gauloise, onde exalta o celtismo.

Arras, bispo de – participou do processo de beatificação de Joana d’Arc na análise de seus milagres.
– B –

Barchou, Sra. Blanche – autora de Identité des Personnalités, publicado em 1925.

Bardos – poetas heróicos, entre os celtas e gauleses.

Barrabás – personagem histórico citado durante o julgamento de Jesus.

Barrett, Sir William – espírita, amigo pessoal de Léon Denis.

Batista, João – Precursor de Jesus Cristo.

Baudrillart, Monsenhor – substituiu o Padre Sanson na cátedra de Notre-Dame de Paris.

Baumard, Claire – Secretária de Léon Denis e autora da obra biográfica Léon Denis na Intimidade.

Beauchamp, Miss – personagem de um caso de dupla personalidade narrado por Léon Denis em O Problema do Ser e do Destino.

Bérenger, Henry – diretor do jornal L’Action, escritor, autor de uma obra desrespeitosa em relação à memória de Joana d’Arc.

Besnard, Lucien – autor da peça A l’Ombre du Harem.

Bodier, Paul – escritor francês, presidente da Sociedade Francesa de Estudos Psíquicos. Escreveu, com Henri Regnault, a obra biográfica Gabriel Delanne – sua vida, seu apostolado e sua obra.

Borderieux, Pierre – articulista em Psychica.

Borderieux, Sra. – traduziu para o francês a obra inglesa Rupert Vit.

Bossuet, Jacques Bénigne – bispo francês (1627-1704), famoso orador sacro, cognominado “A Águia de Meaux”.

Bramanismo – organização religiosa, política e social dos brâmanes.

Brasseaud, Srta. – médium do Círculo de Allan Kardec.

Brémond – membro do grupo espírita que se reunia semanalmente em casa do Sr. David.

Beauchesne, Gabriel – editor de O Maravilhoso Espírita, do padre Lucien Roure.

Brissonneau, Sra. – diretora do Annales du Spiritisme.

Brittain, Annie – médium; recebeu comunicação de Poger Wilkinson.

Brown, Sr. – personagem de um caso narrado por Léon Denis em Cristianismo e Espiritismo.

Buda – Sidharta Gautama, fundador do budismo; presume-se que tenha nascido nos meados do século VI a.C. e morrido em 473 a.C.

Budismo – sistema ético, religioso e filosófico, fundado por Buda.
– C –

Carmel – membro do grupo espírita que se reunia semanalmente em casa do Sr. David.

Carrière, Eva – médium de efeitos físicos, muito citada em sua época, também conhecida como Eva C.

Casanova, Nonce – articulista em La France Active.

Catarina, Santa – Espírito que se comunicava com Joana d’Arc.

Celtas – povo da raça indo-germânica que chegou às Ilhas Britânicas e à Gália Central presumivelmente na Idade do Bronze, sendo vencido pelos romanos no século III a.C.

Céltica – nome dado pelos romanos à parte da Gália Antiga compreendida entre os rios Sena e Garona, na França.

Celtismo – Sistema de estudos próprios da língua e da história dos celtas.

César, Júlio – general e imperador romano (101-44 a.C.), conquistou a Gália (59-55 a.C.), escreveu Comentários, sobre a guerra com a Gália.

Chateaubriand, Visconde François-René de – escritor francês (1768-1848); escreveu Velléda des Martyrs, onde chama a atenção da literatura francesa para o celtismo.

Choussy – escritor, autor de uma obra em que dava provas do martírio de Joana d’Arc.

Clodovitch, Claude – articulista de Le Spiritisme, sob o pseudônimo de Almirante d’A.

Coligher, Kathleen – médium.

Combes, Émile – senador francês (1835-1921), presidente do Conselho de Ministros da França.

Comte, Auguste – matemático e filósofo francês (1798-1857), fundador do positivismo.

Cousin, Victor – filósofo e político francês (1792-1867), fundador da escola espiritualista eclética; escreveu Du Vrai, du Beau et du Bien.

Cristianismo – conjunto das religiões baseadas nos ensinamentos e na vida de Jesus Cristo.

Crookes, William – físico e químico inglês (1822-1919).

Curel, François de – autor dramático francês (1854-1928), escreveu a peça “Orage Mystique”.
– D –

d’Alveydre, Saint-Yves – escritor, autor de Jeanne d’Arc Victorieuse.

d’Arc, Joana – heroína francesa do século XV (1412-1431). Declarada herética, pela Igreja Católica, foi queimada viva em praça pública. Beatificada em 1909 e canonizada em 1920.

d’Ars, Cura – Ilustre personagem da Igreja Católica, conhecido pelos seus valores morais. Médium. Em sua volta produziam-se diversos fenômenos de efeitos físicos. Kardec inseriu uma mensagem dele em O Evangelho Segundo o Espiritismo.

d’Hailly, G. – articulista em Revue des Livres Nouveaux.

Dallier, H. – organista que se apresentou em espetáculo musical na igreja de La Madeleine, em dezembro de 1927.

Damenach – membro do grupo espírita que se reunia semanalmente em casa do Sr. David.

Danton, Georges Jacques – político francês (1759-1794), foi Ministro da Justiça e criador do Tribunal Revolucionário. Morreu decapitado.

David – em sua casa, semanalmente, realizavam-se reuniões espíritas.

De la Tour Samuel, Marquês – personagem do conto Apparition.

Defossé – político que fez conferências em homenagem a Joana d’Arc.

Delachambre – testemunha do ato de assinatura da abjuração de Joana d’Arc.

Delanne, Alexandre – médium de Kardec, pai de Gabriel Delanne.

Delanne, Gabriel – engenheiro e escritor espírita francês (1857-1926).

Denis, Léon – escritor francês (1846-1927), denominado o “Apóstolo do Espiritismo”.

Déroulède – político que discursou em homenagem a Joana d’Arc.

Devaux, Eugène – articulista em Les Annales Coloniales.

Domremy – vila francesa, em Vosges, onde nasceu Joana d’Arc.

Dottin – escritor, autor de Le Manuel des Antiquités Celtiques, onde exalta o celtismo.

Druidas – antigos sacerdotes, entre os gauleses e bretões.

Druidismo – sistema religioso e filosófico dos druidas.

Dunand, Abade – fez uma comunicação ao Congresso das Sociedades Sábias, sobre a abjuração de Joana d’Arc.

Durand – encarregado da venda de lugares para o espetáculo musical de La Madeleine; curiosamente, este também era o nome do Guia Espiritual do Grupo da Rua du Cygne, que Léon Denis frequentou durante muitos anos.
– E –

Eclesiasts – um dos livros do Antigo Testamento.

Edouard – tio de Poger Wilkinson.

Elisabeth – avó de Poger Wilkinson.

Espírito Azul – Espírito que acompanhava Léon Denis (Joana d’Arc).

Evreux, bispo de – participou do processo de beatificação de Joana d’Arc na análise de seus milagres.
– F –

Félida – personagem de um caso de dupla personalidade, narrado por Léon Denis em O Problema do Ser e do Destino.

Fénelon, François de Salignac de la Mothe – arcebispo e escritor francês (1651-1715).

Ferret – autor teatral, escreveu um drama sobre Joana d’Arc.

Figuière, Eug. – editor de Marie-Madeleine, de Edouard Romilly.

Filomena, Santa – Espírito que se comunicava com o Cura d’Ars.

Flammarion, Camille – astrônomo e escritor francês (1842-1925), autor de Deus na Natureza.

Flandre – encarregado da venda de lugares para o espetáculo musical em La Madeleine.

Flournoy, Prof. Théodore – escritor, professor da Universidade de Genebra, autor de Des Indes à la Planète Mars.

Forestier – Secretário-geral da União Espírita Francesa.

Forget, Sra. – secretária de Léon Denis, atuava como médium junto a ele.

Fourcade, Irmão – Espírito que ditou uma mensagem para o padre Grimaud.

France, Anatole Thibault – escritor francês (1844-1924), autor de uma obra sobre Joana d’Arc.
– G –

Gallas, Sra. – médium; recebeu uma mensagem do Irmão Fourcade para o abade Grimaud.

Gauthier, Julie – religiosa da diocese de Evreux, em Faverolles, curou-se por milagres de Joana d’Arc.

Geley, Gustave – médico francês.

Geneviève – médium de uma comunicação narrada por Henri Regnault; era irmã do espírito comunicante.

Giafferi, Paul Louis de – autor de Histoire du Costume Masculin Français.

Giovanna – personagem título de uma novela de Léon Denis publicada em Le Spiritisme, em 1885, em forma de folhetim.

Givry, Grillot de – autor do livro La Survivance et le Mariage de Jeanne d’Arc.

Goutard, Victor – elogiou a Conferência de Léon Denis sobre Joana d’Arc.

Gray, Zacharies – Espírito que se comunicava com Stainton Moses.

Grimaud, abade – fundador de uma instituição para surdos-mudos, gagos e crianças anormais, em Avignon.

Guillaume – tio de Poger Wilkinson.

Gwyon – Espírito divino, na antiga Gália.
– H –

Hardy, Georges – autor do livro L’Art Nègre.

Harmoises, Jeanne des – suposto nome de Joana d’Arc, após seu suposto casamento (segundo Givry).

Harmoises, Robert des – suposto esposo de Joana d’Arc (segundo Givry).

Hegel, Georg Wilhelm Friedrich – filósofo alemão (1770-1831), criador do hegelianismo.

Hepp, Alex – articulista em Le Journal.

Hodgson, Richard – pesquisador membro da Sociedade para Pesquisas Psíquicas de Londres.

Hyslop, James Hervey – pesquisador, professor de Lógica e de Ética na Universidade de Columbia, em Nova Iorque.
– I –

Isabelle (Sra. Monfort) – personagem da peça A l’Ombre du Harem.

Islamismo – religião maometana, fundada por Maomé.
– J –

Jean – avô de Poger Wilkinson.

Jorge, José – professor, tradutor e escritor.

Jubainville, H. d’Arbois – escritor, autor de La Mithologie, la Littérature, L’Époque Celtiques, onde exalta o celtismo.

Jubaru, Rev. padre – intermediou uma discussão pública entre Henri Regnault e o padre Roure.

Judaísmo – ambiente social, cultural, político e religioso do povo hebreu.

Jullian, Emile – escritor, autor de L’Histoire des Gaulois, onde exalta o celtismo.
– K –

Kardec, Allan – Hippolyte Léon Denizard Rivail, professor, pedagogo e escritor francês (1804-1869); codificador da Doutrina Espírita.

Kasuli – Espírito que se manifestou a Léon Denis; mensagem constante em O Gênio Céltico e o Mundo Invisível.

Kluski, Franck – médium.

Krishna – principal deus hindu; seria a última encarnação de “Vishnu”, o conservador do mundo.
– L –

La Fouchardiere – ironista em L’Oeuvre.

La Villemarqué – escritor, autor de Barzaz-Breiz, onde exalta o celtismo.

Lang, Andrew – historiador e escritor escocês, escreveu o livro La Pucelle de France.

Lao-Tsé – filósofo chinês, viveu cerca de 600 a.C.

Larousse – Dicionário Enciclopédico da Língua Francesa.

le Braz, Anatole – escritor, autor de Au Pays des Pardons, onde exalta o celtismo.

le Goffic, Charles – escritor, autor de L’Âme Bretonne, onde exalta o celtismo.

Leibniz, Gottfried Wilhelm – sábio e filósofo alemão (1646-1716).

Léonard, Sra. Osborne – médium, recebeu comunicação de Poger Wilkinson.

Leymarie, Paul – editor francês, diretor da Livraria Espírita e da Revista Espírita.

Lodge, Sir Oliver – reitor da Universidade de Birminghan, membro da Academia Real, escritor, autor de La Survivance Humaine e de Raymond.

Loucheur – Ministro do Trabalho da França.

Luce, casal – amigos íntimos de Léon Denis.

Luce, Gaston – escritor, biógrafo de Léon Denis.

Lucrécio – poeta latino nascido em Roma (98-55 a.C.).
– M –

Macé, Jean – escritor francês (1815-1894), fundador da Ligue Française de l’Enseignement, da qual Léon Denis foi secretário.

Madanela, Maria – salva, por Jesus, da lapidação.

Mandy, capitão – escreveu, em maio de 1884, sobre Léon Denis, em Le Spiritisme.

Marcel, Etienne – “célebre chefe da municipalidade de Paris”, segundo uma correspondente de Henri Regnault.

Margarida, Santa – Espírito que se comunicava com Joana d’Arc.

Martin, Henri – historiador francês (1810-1883), autor de História da França.

Marty – colega de Henri Regnault, na Comissão da União Espírita Francesa.

Massieu – escrivão que fez Joana d’Arc pronunciar a abjuração.

Maupassant, Henri René Albert Guy de – escritor francês (1850-1893), autor do conto Apparition.

Meyers – assim grafado no original francês; presume-se que o autor tenha se referido a Myers (vide Myers).

Michelet, Jules – historiador e escritor francês (1798-1874), autor de História da França e História da Revolução Francesa.

Migiet – testemunha do ato de assinatura da abjuração de Joana d’Arc.

Miguel, São – Espírito que se comunicava com Joana d’Arc.

Mill, John Stuart – filósofo inglês (1806-1873).

Moisés – o mais importante personagem do Antigo Testamento, guerreiro, historiador, poeta, moralista e legislador do povo hebreu.

Monfort, Sr. – personagem da peça A l’Ombre du Harem.

Monnet – testemunha do ato de assinatura da abjuração de Joana d’Arc.

Moses, William Stainton – médium inglês (1839-1892), pastor anglicano, autor de Ensinos Espiritualistas.

Myers, Fredrich William Henry – literato inglês (1843-1901), um dos fundadores da Sociedade para Pesquisas Psíquicas, autor de A Personalidade Humana.
– N –

Nacer, Emir – personagem da peça A l’Ombre du Harem.

Nielsen, Ejner – médium.

Orléans, bispo de – Monsenhor Dupanloup, participou do processo de beatificação de Joana d’Arc, na análise de seus milagres.

Orléans, Virgem de – vide d’Arc, Joana.
– P –

Palladino, Eusapia – uma das maiores médiuns de efeitos físicos de todos os tempos.

Papus – Dr. Henri Encausse, escritor francês, Relator Geral do Congresso Espiritualista Internacional de 1889.

Pascal, Blaise – físico, geômetra, filósofo e escritor francês (1623-1662).

Peters, Vout – médium, recebeu uma comunicação do filho de Richard Wilkinson.

Pitágoras – filósofo e matemático grego (século VI a.C.).

Platão – filósofo grego (428-347 a.C.), discípulo de Sócrates e mestre de Aristóteles.

Poger – filho de Richard Wilkinson.

Pouchalon, abade – escreveu o drama Le Dernier Soir de Domremy.
– R –

Raymond – nome do filho de Sir Oliver Lodge, protagonista do livro que leva o mesmo nome, de autoria deste último.

Reboul, Jacques – escritor, autor de Sous le Chêne Celtique, onde exalta o celtismo.

Rector – Espírito que se comunicava com Stainton Moses.

Regnault, Henri – jornalista e escritor francês (1873-) conferencista espírita, amigo de Léon Denis.

Renan, Ernest – escritor, autor de La Poésie des Races Celtiques, onde exalta o celtismo.

Renolds, Mary – personagem de um caso de dupla personalidade narrado por Léon Denis em O Problema do Ser e do Destino.

Reynaud, Jean – escritor, autor de L’Esprit de la Gaule, onde exalta o celtismo.

Richet, Charles – cientista francês (1850-1935), pesquisador da mediunidade, considerado o pai da Metapsíquica.

Ripert, André – Secretário-geral da Federação Espírita Internacional.

Robespierre, Maximilien de – político francês (1758-1794), partidário do regime terrorista, causou a morte de Danton, a quem acusava de moderado.

Roger – apelido de Poger Wilkinson.

Romilly, Edouard – escritor, autor de Marie-Madeleine.

Roure, Rev. padre Lucien – tentou desacreditar a obra de Léon Denis; fez severas críticas a Cristianismo e Espiritismo em Les Études.

Roussel, Sr. e Sra. – membros do grupo espírita que se reunia semanalmente em casa do Sr. David.
– S –

Sagnier, Irmã Jeanne Marie – religiosa da diocese de Arras, em Fruges, curada através de milagre de Joana d’Arc.

Saint-Augustin, Irmã Thérèse de – Irmã da Ordem de São Benedito, em Orléans, moribunda, curou-se por milagre de Joana d’Arc.

Sanson, padre – não admitia a teoria do pecado original; perdeu a cátedra de Notre-Dame de Paris. Homônimo de um membro da sociedade Espírita de Paris (vide O Céu e o Inferno, de Allan Kardec, 2ª parte, capítulo II).

Sarcey, Francisque – François Sarcey de Suttières, conferencista, romancista e crítico teatral francês (1827-1899).

Sausse, Henri – escritor francês (1852-1928); Secretário-geral da Federação Espírita Lionesa; escreveu, em 1924, uma biografia de Léon Denis; autor de uma biografia de Allan Kardec e do livro Le Spiritisme Kardéciste.

Schiller, Johann Cristoph Friedrich von – poeta e dramaturgo alemão (1759-1805), autor de La Pucelle d’Orléans.

Schuré, Edouard – escritor francês (1841-1929), autor de Les Grands Initiés, La Druidesse, Le Rêve d’une Vie e Grandes Legendes de France.

Sêneca, Lucius Annaeus – filósofo romano (2-66 d.C.).

Sra. M. – em sua casa realizavam-se experiências espíritas.

Smith, Hélène – médium que, em transe, reproduzia cenas de sua existência ocorrida na Índia, no século XII.

Speer, Dr. – médico inglês; em sua casa Stainton Moses esteve hospedado e, a pedido da Sra. Speer, começou a estudar o Espiritismo.

Stead, William Thomas – jornalista, escritor e publicista inglês (1849-1912), morto no naufrágio do navio “Titanic”.

Suzanne – personagem de comunicação narrada por Henri Regnault; havia sido noiva do Espírito comunicante.

Symptor, Raphaël – escritor; escreveu uma obra tentando provar que Joana d’Arc nunca existira.
– T –

Taliésin – célebre bardo do país de Gales, ao qual se atribuem numerosos poemas; teria vivido no século VI.

Taquel – testemunha do ato de assinatura da abjuração de Joana d’Arc.

Tênaro – cabo e caverna da Lacônia, Peloponeso, onde se supunha estar a entrada do inferno.

Thalamas – escritor; fez uma série de conferências, por toda a França, para denegrir a memória de Joana d’Arc.

Touchet, Monsenhor – Bispo de Orléans, autor do livro La Sainte de la Patrie.

Toursier, Sr. e Sra. – membros do grupo espírita que se reunia semanalmente, em casa do Sr. David.

Tríades, As – resumo da Síntese dos Druidas, que é uma das mais altas expressões do pensamento filosófico.
– V –

Vauquelin, Pierre Guitet – articulista em Le Matin.

Vautel, Clément – crítico de Léon Denis e do Espiritismo.

Vercingétorix – general e estadista gaulês (72-46 a.C.), nascido no país dos arvernos.

Vergniaud, Pierre Victurnien – político francês (1753-1793).

Vivé, Louis – personagem de um caso de dupla personalidade narrado por Léon Denis em O Problema do Ser e do Destino.
– W –

Wallace, Alfred Russel – naturalista inglês (1823-1913), êmulo de Charles Darwin, pesquisador da mediunidade. Autor de Os Milagres e o Espiritualismo Moderno.

Wilkinson, Richard – personagem de um fato narrado por Léon Denis em O Mundo Invisível e a Guerra.

Winn, pastor – recebeu uma comunicação de seu amigo desencarnado, Stead.
– Z –

Zoroastro, Zaratustra – reformador da antiga religião iraniana, personagem a quem se atribui a criação da casta dos magos. Teria vivido no século VIII ou VII a.C.

Zürcher – psiquiatra, fez um estudo psicológico e psicopatológico do caso Joana d’Arc.

Referências bibliográficas
do vocabulário onomástico


Augé, Claude et Paul. Noveau Petit Larousse Illustré, 40ª edição, Paris. Librairie Larousse, 1949.

Ferreira, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa, 2ª edição, 7ª impressão, Rio de Janeiro. Editora Nova Fronteira.

Godoy, Paulo Alves. Grandes Vultos do Espiritismo, 2ª edição, São Paulo. Federação Espírita do Estado de São Paulo, 1990.

Godoy, Paulo Alves e Lucena, Antônio de Souza. Personagens do Espiritismo, 1ª edição, São Paulo. Federação Espírita do Estado de São Paulo, 1982.

Laffont-Bompiani. Dicitionnaire des Auteurs, 1ª edição, 5ª impressão, 4 volumes, França. Edições Robert Laffont, 1989.

Lello, José e Edgard. Lello Universal – Dicionário Enciclopédico Luso-brasileiro, 4 volumes, Porto, Portugal. Editora Lello e Irmão (sem ano de publicação).

René, Nollet. Lectures Choisies de Chateaubriand, 10ª edição, Paris. Librairie Garnier Frères (sem ano de publicação).

Apêndice

Giovanna

Novela espírita escrita por

Léon Denis

Tradução:

Paulo A. Ferreira
Revisão:

Lucia F. Ferreira

Edição eletrônica original:



Centre Spirite Lyonnais Allan Kardec

http://spirite.free.fr

I


 Todos aqueles que percorreram a Lombardia conhecem o Lago de Côme, retalho do céu da Itália caído entre as montanhas, esse maravilhoso éden onde a natureza se senta em trono, ornada por uma festa eterna. As linhas sinuosas dos montes que o rodeiam, o espelho límpido e azul de suas águas, formam um surpreendente contraste.

Cidades e brancas aldeias se sucedem sobre suas bordas como pérolas de um colar. Acima delas, sobre o flanco das colinas, se dispõem jardins em terraços que se revestem, em disputa pela primazia, de laranjeiras, limoeiros, romãzeiras e figueiras. Mais para o alto, a folhagem pálida das amendoeiras, o cinzento de prata das oliveiras, os pâmpanos das videiras, atapetam os declives. Como graciosas cidades, pintadas de cores suaves, as copas de grandes árvores sombreando brancas estátuas, abrem-se aqui e ali nesse verdejante manto.

Ao longe, os Alpes se elevam majestosos, coroados de um diadema de geleiras. Sobre tudo isso, resplandece a luz do meio-dia, luz radiosa que reveste de tons deslumbrantes as cristas das rochas e as velas dos barcos de pesca, que deslizam numerosos sobre o pacífico lago.

Para apreciar a poesia serena desses lugares, pegue uma barca e faça-se ao largo quando chega a hora do crepúsculo. Nesse momento, uma brisa ligeira enruga as águas e faz estremecer as tamarineiras na margem. O odor penetrante das murtas se casa aos doces cheiros das laranjeiras e dos limoeiros. De todos os pontos do lago se elevam cantos. É a hora em que os trabalhadores dos campos e os jovens trabalhadores das fábricas retornam às aldeias, cantando as barcarolas. Suas melodias chegam a nós enfraquecidas pela distância, e, na calma do entardecer, parecem descer do céu.

Logo, a esses sons se junta o som dos instrumentos de música vindo da costa e das vilas iluminadas. O lago inteiro vibra como uma harpa. E assim, acrescentando-se à magia desta cena, o astro das noites mostra seu disco por cima das montanhas; sob seus raios peneirados, os cumes alpestres se colorem; ele lança sobre as águas transparentes suas longas caudas de prata fluida; então, esse ar inebriado, esses céus tão doces, esses perfumes, essas harmonias, esses jogos de luz e sombras, tudo isso preenche nossa alma de uma emoção deliciosa, inexprimível.

Uma graça encantadora envolve toda a região sul do lago; entretanto, mais ao alto, na direção norte, aproximando-se dos Alpes, o aspecto se faz severo, imponente. As rochas têm formas mais ásperas; os montes são mais abruptos. Os jardins e as plantações de oliveiras dão lugar às castanheiras, aos sombrios pinheiros. Grandes picos, calvos, solitários, observam do fundo do horizonte e parecem sonhar.

Próximo de Gravedona abre-se um vale estreito, percorrido por uma torrente que salta de rocha em rocha e faz brotar suas águas vivas em cascatas alegres. Algumas modestas habitações estão espalhadas pelo verde. Ao pé de uma queda retumbante, pela qual a torrente se precipita nos últimos contrafortes, um moinho desabando de velhice faz ouvir seu barulho monótono. De lá, uma vereda segue as desigualdades do solo escalando as escarpas, mergulha nas ravinas pedregosas e, através dos cistes, das aveleiras, das salvas e dos buxos, termina em um último casebre que dois grandes freixos protegem com sua sombra. Ao redor de seus troncos robustos, as guirlandas de uma videira se enrolam. Elas enlaçam os galhos com seus festões e quando ficam autônomas, deixam pender seus belos cachos de uvas italianas, de meio metro de comprimento, de bagos oblongos, saborosos, crocantes que estalavam entre os dentes. O casebre está quase inteiramente escondido sob uma espessa camada de hera.

Sobre seu telhado, transformado em canteiro, gramíneas germinam, flores desabrocham. As andorinhas construíram seus ninhos entre as traves. Ao menor ruído, vêem-se aparecer suas pequenas cabeças inquietas.

Um vasto cercado, invadido pelas heras e plantas selvagens, se estende atrás da cabana, e um estábulo vazio, deteriorado, aberto a todos os ventos, se apoia na sebe densa.

Há alguns anos, o aspecto desse canto de terra era todo diferente. O jardim, conservado com cuidado, era produtivo, agradável à vista; o estábulo abrigava duas belas cabras e um asno vigoroso. Piétro Menoni habitava essa cabana com sua mulher Marta e suas três crianças. Toda essa família vivia do produto do cercado.

Cada semana, Piétro carregava seu asno, Ruffo, de cestas de frutas, cestos de legumes e jarras de óleo que ele ia vender no mercado de Gravedona. No inverno, havia o leite das cabras, as castanhas em quantidade e, durante os longos serões, trançavam-se os cestos e preparavam-se as guarnições de vime que preservavam os “frascos” de vinho.

A abundância reinava nessa casa. Mas vieram os maus dias: Piétro, atingido por uma doença grave, definhou muito, e morreu. Foi preciso vender as cabras e Ruffo, por sua vez, partiu. O jardim, abandonado, não produzia mais, e a miséria caiu sobre a humilde família. Sujeita a um incessante labor, minada por dolorosas preocupações, Marta sentiu suas forças se esvaírem rapidamente.

Penetre nesse interior e veja, sobre um catre, essa mulher envelhecida antes do tempo, a pele tingida de amarelo, as faces cavadas, os olhos brilhantes de febre ; eis o que as vigílias, o sofrimento e as lágrimas fizeram da robusta camponesa. Suas três crianças estão junto dela. A mais velha, Léna, mocinha de quinze anos, de membros franzinos, fisionomia já murcha pelas privações e pela inquietude, está sentada sobre um banquinho perto da cama e remenda alguns farrapos usados.

Seus pequenos irmãos, meio deitados sobre a terra batida, estão tentando trançar uma corbeille. As paredes são nuas, alvejadas com cal. Em um canto, as folhas de samambaia amontoadas servem de leito aos garotos. Uma Nossa Senhora de madeira, recoberta por um trapo de pano outrora azul, algumas grosseiras imagens de santos, formam, com os móveis rústicos, os únicos ornamentos do aposento. Um penoso silêncio, apenas perturbado pela respiração oprimida da doente, reina na cabana. Os raios dourados, penetrando pela grande porta aberta, brincam no seio desta miséria.

Mas um ruído ligeiro se faz escutar do lado de fora. Dir-se-ia o roçar de um pano sobre a areia da vereda. As crianças se voltam e soltam exclamações alegres. Uma jovem está de pé no portal de entrada. É mesmo uma moça? Não seria, antes de tudo, uma criatura sobre-humana, uma aparição celeste? O sol, iluminando suas tranças louras, coroa sua fronte com uma espécie de auréola. Seu vestido branco, seu talhe esbelto, seus traços charmosos, a tornam semelhante às virginais pinturas de Rafaël Sanzio. Ela se adianta e, vendo-a, a visão emagrecida de Marta se ilumina de um pálido sorriso; as crianças a rodeiam. Ela se inclina em direção à enferma, sua mão branca e doce pressiona seus dedos ardentes, e lhe fazem ouvir palavras consoladoras e amigas. Uma senhora, curvada sob o peso de um enorme cesto, entra por sua vez ; coloca, estafada e calma, brevemente, sobre o baú de madeira, provisões de toda espécie, uma garrafa de vinho generoso, vestimentas, uma coberta. Esses objetos se acumulam sobre a mobília, acanhada demais para os receber.

Pelo ar afetuoso da moça, o desvelo com o qual foi acolhida, a festividade, advinha-se que essas visitas são freqüentes. A loura e graciosa jovem é a providência neste humilde aposento, como em todos aqueles do vale onde há aflições a consolar, prantos a enxugar, sofrimentos a curar. É por isso que a chamam a fada dos pobres.

Giovanna (Joana) Speranzi nasceu na vila dos Lentisques, da qual se percebe, do vale, os terraços embranquecidos.

Seus dezoito anos decorreram nesses lugares amados de sol e de flores. Diz-se que a alma está ligada, por secretas influências, às regiões em que ela habita, para que participe de sua graça ou de sua rudeza. Sob esse céu límpido, no melhor desta natureza serena, Giovanna cresceu e todas as harmonias físicas e morais se uniram para fazer dela uma maravilha de beleza, de perfeição. Ela é alta; sua pele é branca, sua cabeleira loura, espessa e sedosa, sua boca miúda guarnecida de dentes pequenos, brilhantes, seus olhos, de um azul profundo e doce. A sublimidade do rosto lhe dá um quê de nobreza, de ideal de pureza. Uma claridade parece envolvê-la. Malgrado a expressão de melancolia que lhe é habitual, Giovanna, na flor de suas dezoito primaveras, é uma das mais encantadoras moças do Milanais. Órfã aos treze anos, conservou da perda dos seus pais uma lembrança sempre viva. Tornou-se pensativa, recolhida, sua fronte contemplativa se pende freqüentemente em direção à terra onde dormem os mortos amados. Ardentes aspirações a levam às coisas do alto, a Deus, ao infinito. Não desdenha o mundo, entretanto, um tesouro de sensibilidade, de inefável caridade está contido em seu coração; toda pena, toda dor, aí despertam um eco. Por isso, consagra sua vida àqueles que choram. Ela não conhece nenhuma alegria mais doce, nenhuma tarefa mais cativante do que socorrer, consolar os infelizes.

Assim decorre sua juventude, entre uma tia enferma e uma velha ama de leite que vela por ela e a acompanha em suas visitas aos indigentes.

Um incidente, contudo, está por vir, que pode romper a uniformidade desta vida, lançando uma agitação na alma cândida de Giovanna. Um dia, em que segue a vereda bem conhecida que conduz à morada dos Menoni, nuvens negras se acumulam sobre o vale, grandes gotas de água caem com barulho entre as moitas de aveleiras, e os trovões, murmurando a cada golpe, enchem os desfiladeiros dos montes com seus estrepitosos estrondos. Apenas entra na cabana e a tempestade se desencadeia por trás dela com violência, curvando até a terra os cimos das árvores, cobrindo o horizonte com uma espessa cortina de chuva. A torrente, crescendo a olhos vistos, mistura a barulheira de suas águas aos clamores do temporal. Um jovem rapaz, vestido com roupa de caça, tendo na mão um fuzil, chega, correndo, ao casebre, e pede para aí se abrigar. Enquanto a tempestade castiga do lado de fora, ele pode examinar o lugar onde se encontra, com vagar. Vendo esse despojamento, o aspecto de Marta estendida sobre uma cama, sofrendo, ele parece se interessar por seu infortúnio e coloca algumas questões, discretas, às quais Joana responde baixando os olhos. A presença, a função desse anjo consolador entre esses infelizes, o toca. Ele pede para se associar a esta boa obra e conversa, mostrando-se determinado; a tempestade tinha passado havia já algum tempo e o sol tinha voltado a sorrir, mas ele não pensava ainda em deixar aquela morada para onde o acaso o havia conduzido. Finalmente se retira, mas para voltar freqüentemente. Não se passava mais que um dia sem que se o visse aparecer na hora habitual em que Giovanna visitava a pobre família. Permanecia até a sua partida, cobrindo-a de olhares, admirando sua graça virginal, sua requintada bondade pela enferma. Acabou mesmo por prolongar suas visitas por um bom tempo depois que ela já tinha se afastado, conversando com Lena sobre ela, incomodando-a com mil perguntas.

Ainda que, antes desse dia de tempestade, jamais tivesse franqueado o limiar dos Menoni, Maurice Ferrand não era certamente desconhecido deles. Quinze anos antes, um Francês, exilado em seguida a eventos políticos, tinha vindo fixar-se no país. Ele havia comprado em Domaso, aldeia que beira o lago, perto de Gravedona, uma pequena habitação, situada sobre uma colina, de onde a vista abraça o imenso panorama das águas e dos montes, a Brianza, a Valteline, os grandes picos dos Alpes. O exilado trouxe com ele seu filho, jovem menino de oito a dez anos, cuja mãe tinha morrido na França. Maurice, percorrendo a região, seguindo os pequenos pastores sobre as rochas à procura de ninhos de pombas, ou os pesqueiros de trutas que exploram o leito das torrentes, bem depressa aprendeu a língua poética e sonora dos Manzoni e dos Alfiéri. Mas era preciso renunciar a essas alegres diversões, e um dia seu pai o acompanhou a Côme, onde pegaram a estrada de ferro para Milão. Chegados a esta grande cidade, o primeiro cuidado do exilado foi colocar o menino em uma das melhores instituições, depois do que, voltou a fechar-se no pavilhão onde vivia, só com seus livros e uma velha servente do país.

Maurice fez progressos rápidos. Sua viva inteligência e sua prodigiosa memória o serviram tão bem, que após alguns anos, nada mais tendo a aprender no estabelecimento onde havia sido colocado, devia prosseguir seus estudos na Universidade de Pávia. Ao mesmo tempo em que sua instrução se desenvolvia, seu caráter se desenhava, caráter singular, mistura de sentimentos generosos e duros. Maurice amava instintivamente a solidão; tinha poucos amigos. Os comportamentos brilhantes, expansivos dos Lombardos e dos Toscanos, no meio dos quais se encontrava, lhe desagradavam. Vivia à parte, o mais possível, consagrando seu lazer à leitura de poetas favoritos. Uma curiosidade profunda o levava, assim, para os estudos filosóficos. Em boa hora, é levado a procurar o porquê das coisas, querendo aprofundar esses misteriosos problemas que dominam toda a vida e que, semelhantes ao fluxo do mar, quando repelidos de nosso pensamento pela impotência, aí retornam mais imperiosos a cada vez.

O sentimento religioso tinha, de início, se manifestado nele por um vivo amor ao catolicismo. As pompas resplandecentes do culto italiano, a voz possante dos órgãos, os cantos, os perfumes, a magnificência dos edifícios, o “Dome” de Milão, maravilha da escultura, onde as estátuas de mármore se perfilam em legiões inumeráveis contra o azul do céu, todos esses esplendores do romanismo preenchiam a alma de Maurice de uma emoção profunda. Mas, quando os sentidos ficaram habituados a essas pompas estrondosas, sua razão quis descer ao fundo dos dogmas, analisá-los, desfolhá-los ; quando, rasgado o véu brilhante e material que esconde, aos olhos do vulgo, a pobreza dos ensinamentos católicos, ele não vê senão uma moral embaciada pela casuística, os princípios do Cristo falseados, um Deus parcial e cruel, entronizado sobre um monte de superstições ; procura então uma crença esclarecida, capaz de satisfazer seu coração, sua razão, sua necessidade de fé e de justiça. Mergulha no estudo das diversas filosofias, desde a dos Gregos e dos Orientais até o moderno e dessecante positivismo. Desse colossal exame, se destaca para ele uma fé espiritualista, baseada no estudo da natureza e da consciência, encontrando na comunicação íntima da alma com Deus uma força moral que acreditava suficiente para manter um homem no caminho reto. Suspeitava que a existência presente não seria a única para nós, que a alma deveria se elevar pelas vidas sucessivas e sempre renascentes, de mundos em mundos, rumo à perfeição.

II


Era, sobretudo por ocasião das viagens, muito curtas para seu gosto, que Maurice fazia à morada paterna e durante as excursões que se seguiam, que seu pensamento, estimulado pela poesia da natureza, se elevava para Deus em um impulso rápido e seguro. Ele gostava então de perambular nos desfiladeiros selvagens dos montes, de percorrer os lugares apartados onde ressoavam o murmúrio perpétuo das torrentes e das cascatas, as florestas de pinheiros, de faias, de larices que cobrem com suas sombrias cúpulas os declives dos Alpes.

Os sopros de vento, esfregando a galharia, lançando na profundeza dos bosques suas notas queixosas e harmoniosas, semelhantes à ação de um órgão invisível, o murmúrio das águas esguichantes, o canto dos passarinhos, até o barulho longínquo do machado batendo os troncos sonoros, todas essas vozes da solidão embalam seu espírito, lhe falando uma linguagem de paz. Sobre os cumes banhados de luz, sob as abóbadas verdejantes, sua prece subia para Deus de uma forma mais pura e ardente que nos templos invadidos pela multidão. No seio dos bosques cheirosos, retiros sombrios e escondidos o convidavam ao repouso. E os milhares de ruídos dessa natureza alpestre formavam para ele uma melodia deliciosa na qual se inebriava a ponto de olvidar as horas e de deixar passar o momento de retorno.

Ele precisou, todavia, se desarraigar dessas festas dos olhos e do coração e retomar o curso dos estudos interrompidos. Maurice passou em seus exames com sucesso. Hesitando em seguida entre as diversas carreiras que se lhe abriam, a convite de seu pai, fez Direito, recebeu o título de advogado e começou a exercer a profissão no fórum de Milão. Sua eloqüência ousada, exercitada, sua viva imaginação, o estudo aprofundado das causas a ele confiadas, o fizeram logo se distinguir no mundo dos tribunais; um brilhante porvir sorria à sua ambição se tivesse querido curvar sua consciência às sutilezas da trapaça e da política, fazendo-se um satélite dos poderosos. Mas esta alma elevada e altiva não podia se rebaixar a uma tal função. As intrigas, as torpezas dos tribunais e dos salões a enchiam de amargura. O espetáculo de um mundo ocioso, corrompido, ostentando com estrépito sua riqueza e seus títulos, a cupidez, o egoísmo, tomando de assalto a sociedade e a dominando; a probidade cambaleante; a especulação desenfreada humilhando o trabalho regenerador; todas essas úlceras de nossa época de decadência moral se mostravam em sua hediondez aos olhos do jovem e lhe levaram a desprezar a vida, a se desligar mais e mais das coisas terrestres. Na taça dos prazeres, tendo querido temperar seus lábios, ele não havia encontrado senão fel; o amor tarifado, a orgia brutal, o jogo estupefaciente, foram para ele outros tantos monstros que o fizeram recuar de horror.

Com tais gostos, uma disposição natural à meditação, o amor pela solidão, viu desatar-se pouco a pouco todas as suas relações. Aqueles que primeiramente o haviam acolhido, repelidos por essa rigidez, por essa misantropia que se exalava em termos amargos, pela ausência da benevolência tão necessária ao sábio, se afastaram de Maurice e o deixaram a seus sonhos. A vida se desfez em torno dele. Um desgosto profundo apoderou-se do jovem advogado. Ele recusava as causas maléficas ou duvidosas que lhe eram ofertadas e viu assim se reduzir o número de seus clientes. Suas brilhantes faculdades permaneceram sem emprego.

Um morno abatimento o invadia, quando de Domaso lhe chegou a notícia de que seu pai, gravemente doente, pedia sua presença perto dele. Maurice partiu imediatamente.

O exilado, devorado pela nostalgia, por esse amor da terra natal, sentia uma necessidade da pátria que nada podia substituir, lutava em vão contra um mal sem remédio. Logo morreu entre os braços de seu filho. Essa morte estendeu uma sombra ainda mais espessa sobre a fronte de Maurice; sua tristeza, sua melancolia naturais aumentaram. Renunciou ao fórum e se instalou na pequena casa solitária que lhe havia legado o defunto. Seu tempo foi repartido entre as leituras e as excursões. Freqüentemente, desde a manhã, pegava seu fuzil e, sob o pretexto de caçar, percorria a região em todos os sentidos, indo à aventura, descuidado dos caminhos. A caça podia impunemente passar perto dele. Mergulhado em intermináveis desvarios, não pensava muito em perseguí-la. Sentava-se por vezes sobre qualquer ponto rochoso dominando o lago, para observar o movimento dos barcos deslizando sob os esforços dos remadores, as águias descrevendo círculos imensos no céu, as lentas gradações da luz durante as horas do entardecer e, assim, apenas quando a noite começava a estender seu véu sobre a terra é que ele pensava em voltar à sua morada.

Foi durante um desses cursos que, surpreendido pela tempestade, ele se refugiou entre os Menoni e aí encontrou Giovanna. Desde esse dia, sua vida mudou.

A visão desta moça o reaqueceu subitamente. Um alegre raio de sol penetra a obscuridade de sua alma; uma voz desconhecida canta em seu coração. Primeiro não se dá conta do sentimento novo que nasce nele. Uma força magnética o levava para a mocinha e ele a obedecia instintivamente. Quando ela estava lá, diante dele, de tudo esquecia, observando-a, escutando-a. O timbre de sua voz, ritmado, despertava no seu ser ecos de uma doçura infinita. Via nela mais que uma moça da terra, mais que uma criatura humana, como que uma aparição passageira, reflexo misterioso de um outro mundo, um tesouro de beleza, de pureza, de caridade, ao qual Deus emprestava uma forma sensível a fim de que, vendo-a, os homens pudessem compreender as perfeições celestes e a isso aspirar. A presença de Giovanna o arrancava à sua misantropia. Fazia surgir nele uma onda de pensamentos benfazejos, generosos, um ardente desejo de ser bom e de consolar. Seu exemplo o convidava ao bem; sentia a vida, a inutilidade de sua vida e compreendia enfim que tinha melhor a fazer aqui em baixo do que fugir dos homens e se fechar numa indiferença egoísta. Interessava-se pelas dores dos outros; pensava mais freqüentemente nos pequenos, nos deserdados deste mundo, em todos os que estão oprimidos pela adversidade; procurava avidamente os meios de lhes ser útil.

Durante suas conversas, ainda que se falando pouco, trocavam milhares de pensamentos. A alma tem meios de se exprimir, de se comunicar com o exterior, que a ciência humana não pode definir, nem analisar. Uma atmosfera fluídica, em correlação íntima com seu estado moral, envolve todos os seres e, seguindo sua natureza, simpática ou contrária, se atraem, se repelem, se expandem ou se fecham, e é assim que se explicam as impressões, que a simples vista de pessoas desconhecidas nos fazem experimentar.

Os dias se escoam. Graças ao socorro de Joana, graças aos cuidados do médico de Gravedona, ao qual Maurice pagava as visitas, Marta tinha recuperado sua saúde. No dia em que pôde sair, uma agradável surpresa a esperava lá fora. O jardim, invadido há pouco tempo pelas ervas e silvas emaranhadas, estava renovado, limpo e gracioso. O outono tinha suspendido nas árvores guirlandas de ouro e de esmeralda. Pereiras, figueiras, abricoteiros, dobravam sob o peso de seus frutos. Longos cachos de uvas vermelhas pendiam entre os ramos das amoreiras; opulentos legumes cobriam os canteiros. Um hábil jardineiro, enviado por Maurice, havia podado as árvores, cuidado da vinha, operado essa transformação. Tinha feito desse recanto desolado um maravilhoso pomar. O inverno podia vir. A vida da pobre família estava assegurada.


III


Sobre uma das colinas que bordejam o lago, a alguma distância de Gravedona, se estende uma cortina de teixos e de ciprestes. Sua sombra verdejante aparece de longe, misturada de manchas de brilhante brancura. Lages funerárias, cruzes de madeira ou de pedra erguem-se entre os verdes ramos. É o Campo-Santo (o cemitério), o lugar onde vêem se solucionar a cadeia infinita das dores humanas. Uma flor brilhante desabrocha entre as tumbas e esparge no ar agradáveis fragrâncias. A luz jorra e os pássaros cantam sobre as pedras sepulcrais. Com efeito, que importa à natureza que tantas esperanças e alegrias aí estejam sepultadas aos olhos dos humanos? Por isso, não deixaria de seguir os ciclos de suas maravilhosas transformações.

Não longe da entrada do cemitério, uma grande laje de mármore está cercada de roseiras, de jasmins, de cravos rubros, entre os quais zumbem os insetos. Uma acácia a cobre com sua sombra. Lá dormem, embalados pelos ecos longínquos, pelos murmúrios enfraquecidos da vida, os pais de Giovanna, e é sua piedosa mão que mantém essas flores. Várias vezes por semana, ela desce para orar na Igreja de Gravedona, e de lá, seguida de sua ama de leite, ganha o campo fúnebre onde moram os despojos dos seus; lá também repousa o corpo do pai de Maurice, e este, em seu taciturno tédio, gosta de percorrer essas aleias silenciosas, retemperando seu espírito na grande calma da cidade dos mortos. Um dia, os dois jovens aí se encontraram, Giovanna, ajoelhada, a cabeça pendida sobre a tumba de sua mãe, parecia conversar em voz baixa com ela; via-se seus lábios moverem. Que dizia à morta? Que misteriosa troca de pensamentos se operava entre essas duas almas? Maurice não sabia, mas receando perturbar seu recolhimento, se mantinha à parte, imóvel, atento. Em se levantando, Giovanna o percebe, e sua face se enrubesce. Mas ele, todo feliz deste reencontro, se aproxima e a cumprimenta.

– Senhorinha – disse –, vejo que um mesmo motivo nos conduz a esse lugar. É doce, não é, nos revermos próximo daqueles que perdemos, experimentando que sua lembrança está sempre gravada em nossos corações?

– Sim – respondeu ela –, e no cumprimento desse dever se é possuído de forças novas, se é fortalecido no bem. Cada vez que venho aqui, saio mais calma, mais submissa à vontade de Deus.

– Sente você também isso que experimento próximo dos mortos? Desde que me aproximo da tumba de meu pai, parece que uma comunicação íntima se estabelece entre eu e ele. No fundo de meu ser uma conversação se estabelece. Creio escutar sua voz, lhe falo e ele me responde. Mas isso não seria mais que uma ilusão vã, um efeito de nossa emoção?

Ela eleva para ele seus olhos que brilham de um fogo profundo e doce.

– Não, isso não é uma ilusão – disse –, também escuto essas vozes interiores. Tenho aprendido desde muito tempo a compreendê-las. E não é somente aqui que se fazem escutar, em qualquer lugar que esteja, se chamo pelo pensamento meus queridos invisíveis, eles vêem, me aconselham, me encorajam, guiam meus passos na vida; a tumba não é uma prisão; todos, ao mais, podem considerá-la como uma espécie de altar de recordações. Não creio que as almas aí estejam encantadas.

– As almas dos mortos voltam então para a Terra?

– Pode-se disso duvidar? – disse a moça. – Como, aqueles que nos amaram aqui em baixo se desinteressariam de nós no espaço? Liberadas dos laços da matéria, não estão elas mais livres, e a lembrança do passado não as reconduziria para nós? Sim, certamente, retornam, se associam às nossas alegrias, às nossas dores. Se Deus o permitisse, nós os veríamos freqüentemente ao nosso lado, regozijando-se com nossas boas ações, entristecendo-se com nossas faltas.

– Todavia você é uma católica fervorosa. Ora, o catolicismo não ensina que na morte a alma é julgada e, segundo o decreto divino, eternamente fixada ao lugar do castigo ou à morada dos bem aventurados ?

– Adoro Deus, obedeço de meu melhor à sua lei, mas esta lei é uma lei de amor e não uma lei de rigor. Deus é muito bom e muito justo para punir eternamente. Conhecendo as fraquezas do homem, como poderia se mostrar tão severo para com ele?

– Qual será então, segundo você, a sanção do bem e como se consumiria a justiça divina?

– A alma, deixando a Terra, vê descerrar-se o véu material que lhe fazia esquecer sua origem, seus destinos. Compreende então a ordem do mundo; vê o Bem reinar acima de tudo. Segundo sua vida tenha sido boa ou má, estéril ou fecunda, conforme ou contrária à lei do progresso, goza uma paz deliciosa ou sofre um cruel remorso, até que retome a tarefa inacabada.

– E como é isso?

– Retornando para esta terra de provas e de dores, trabalhando por seu adiantamento, ajudando suas irmãs na sua marcha comum para Deus.

– Você pensa então que a alma deve cumprir várias existências aqui em baixo?

– Sim, eu o sinto, uma existência não pode ser suficiente para nos permitir atingir a perfeição; e como, sem isso, explicar que as crianças de Deus sejam tão dessemelhantes de caráter, de valor moral, de inteligência?

– Permita espantar-me que na idade em que tantas jovens são divertidas e risonhas, você seja tão séria, tão reflexiva, tão esclarecida das coisas do alto.

– É sem dúvida porque tenho vivido mais do que aquelas de quem você fala.

– Creio, como você, que a existência atual não é a primeira que cumprimos, mas, por que a lembrança do passado está apagada em nossa memória?

– Porque os barulhos e as ocupações da vida material nos desviam da observação interior de nós mesmos. Muitas reminiscências de minhas vidas, vez por outra, me vêem ao espírito. Creio que muitas pessoas poderiam reconstituir suas existências passadas analisando seus gostos, seus sentimentos.

– A amizade ou a repugnância instintiva que sentimos, à primeira vista, por certas pessoas, não teria sua fonte nesse obscuro passado?

– Sim, sem dúvida, mas devemos resistir a esses sentimentos de repugnância. Todos os seres são nossos irmãos e nós lhes devemos a nossa afeição.

– Assim, este impulso irresistível, que me leva para você desde o primeiro dia que a vi, esta força que não faz senão crescer depois de nosso encontro na casa de Marta, e que me faz procurá-la por toda parte, seria uma prova de que nós já teríamos nos reencontrado e conhecido sobre a terra.

A moça sorriu e corou.

– Querida donzela – continua Maurice em um tom grave e emocionado –, devo lhe dizer, nossos pensamentos se unem em uma concordância singular. Reencontro em você todas as minhas idéias; mas essas idéias, confusas em meu espírito, crescem e se aclaram passando por sua boca. A solidão e a reflexão têm feito de você um anjo de bondade, de doçura; a mim, me tinha azedado, tornado indiferente aos sofrimentos humanos. Mas no dia em que a vi, na hora compreendi onde estava o bem, o dever. Minha vida recebeu uma impulsão nova. É a você que devo esta revelação. Vendo-a, escutando-a, um véu se descerrou, um mundo infinito de sonhos, de imagens, de aspirações, se mostrou aos meus olhos. Assim, sua presença se tornou uma necessidade para mim, uma alegria profunda. Permita-me esperar que possamos nos rever frequentemente.

Um ruído de passos e de vozes o impede de continuar, vindo, à propósito, esconder a perturbação de Giovanna. Um comboio mortuário se aproxima; uma salmódia lúgubre se prepara no ar. A jovem moça chama sua ama de leite, mas, antes de se afastar, faz um sinal amigo a Maurice e lança essas palavras: até logo!

O jovem a seguiu, com o olhar, até que sua veste branca tivesse desaparecido no ângulo da aleia.



A admiração que havia despertado no espírito de Maurice, no seu primeiro encontro com Giovanna, ia crescendo à medida que aprendia a conhecê-la melhor. Mas, pouco a pouco, esta impressão estava mudando em um sentimento todo novo. Após cada uma de suas conversas na casa de Marta, ele se sentia, como havia dito, melhor, mais inclinado para o bem, mais doce para com seus semelhantes. O poder misterioso que irradiava em torno da jovem o envolvia, fazia fundir o que tinha de duro, de glacial em sua alma. Uma força atrativa invencível o atraia para ela. Uma espécie de embriaguez subia em seu cérebro assim que escutava o som de sua voz. Maurice amava. Amava com o ardor juvenil, com o entusiasmo de um coração que fala pela primeira vez. Cada dia descobria em Giovanna uma perfeição nova. Todos aqueles que a conheciam, todos esses humildes habitantes do vale que ela havia socorrido não celebravam suas virtudes? E como, malgrado sua doçura e sua modéstia, se mostrava superior a todas as moças de sua idade! Maurice havia vivido próximo às moças da grande cidade lombarda, ele conhecia as alegres meninas de Côme e das margens do lago. Em nenhuma parte havia encontrado uma igual. Havia vivido a vaidade, o desejo de brilhar, de reinar entre a maior parte delas. Sem dúvida, havia aí sedutoras pessoas, jovens capazes de tornar um esposo feliz, entre as que havia encontrado; nenhuma possuía esta simplicidade unida a esse ar nobre e doce, esse não sei o quê de sobre-humano, esta chama quase divina que se refletia nos olhos de Giovanna, ganhando os corações, afastando daqueles que dela aproximavam todo pensamento baixo ou impuro. Não era isso uma coisa maravilhosa, o escutá-la, aos dezoito anos, falar com tanta convicção das grandes leis ignoradas pelo homem, perceber os sombrios mistérios da vida e da morte, reconfortar os indecisos, mostrar a todos o dever? Eis o que se dizia Maurice, após a conversa do cemitério, com a imagem de Giovanna preenchendo seu espírito. Repassava na sua memória todos os incidentes que o haviam aproximado dela. Revia-a tal qual lhe tinha aparecido, num dia de festa, na Igreja de Gravedona, absorta na sua prece, enquanto que ao redor tudo era barulho, movimento de caixas removidas, esfregação de panos sobre as lajes. E de tudo isso, recordações, pensamentos, secretas esperanças, se liberava um sonho delicioso, um sonho de amor e de felicidade, que acariciava silenciosamente no fundo de sua alma.

IV


Maurice, em suas caminhadas vagabundas, havia reencontrado várias vezes Luísa, a velha ama de leite. Tendo sabido conquistar sua amizade, adquiriu a certeza de que seria bem acolhido na vila Esperança, e ali se apresentou um dia. Aquele que encontrasse o advogado misantropo teria podido perceber, com surpresa, a emoção que ele sentia. O que planejava iria destruir ou realizar suas esperanças? Ele foi fortemente bem recebido pela tia de Giovanna que, enfraquecida pela idade e pela doença, sentia chegado o momento de dar um suporte natural, um esposo, à sua sobrinha. Ela autorizou Maurice a renovar suas visitas, o que ele fez frequentemente. Começaram então, para os jovens, as prolongadas conversas, as conversas familiares, sobre o terraço dominando o lago, durante as quais suas almas se expandiam em mútuas confidências. Maurice contava sua vida, sua triste vida de criança privada da mãe, depois as decepções, os receios de sua juventude. Abria, como se o rasgasse, seu coração a Giovanna. Ela o consolava, lhe confiava seus sonhos, sonhos ainda cândidos, ainda puros como os de um anjo. E esses dois seres, se aproximando mais e mais, aprendiam a se amar, mil laços secretos se formavam, os enlaçavam, os uniam em estreitas e poderosas malhas.

O dia em que, segundo os costumes da alta Itália, o noivado devia ser celebrado, foi logo fixado, e tudo foi preparado para esta festa íntima, na qual dois ou três velhos amigos deviam tomar parte. À véspera desse dia, Maurice sobe ainda cedo à vila. Após a refeição da noite, os dois se dirigem para o terraço, de onde seus olhares podiam se estender sobre um mágico horizonte. Sentam-se em silêncio sob um bosque de laranjeiras. Luísa se mantinha um pouco afastada.

A noite avança lentamente; estende sobre o lago seu véu azulado, derramando um colorido uniforme sobre os campos de oliveiras, as vinhas, os bosques de castanheiras, as vilas e as aldeias. Enquanto que a sombra se espessava nos vales, os cumes das colinas, avermelhados pela púrpura do poente, semelhava-se bastante ao fogo de um incêndio. A noite subia pouco a pouco; suas sombras arrastadas se estendiam sobre as cristas; as luzes inumeráveis resplendiam nas janelas das vilas e das cabanas. As trevas envolviam inteiramente o lago e seu quadro de montanhas, mas, para o Norte, as luzes do dia morrendo coloriam ainda de cores fantásticas o colosso dos Alpes. Como uma armada de gigantes dispostos em batalha, a Bernina, a Sella, o Monte-d'Oro, a Disgrazia e vinte outros picos apontavam para o céu seus cimos orgulhosos, coroados de neve, sobre os quais o sol, antes de desaparecer no ocidente, lançava seus raios fracionados.

Em vão a noite procurava apagá-los, eles lutavam com ela. Mas seu véu passa enfim sobre essas frontes soberbas. As últimas luminosidades se extinguiram. A noite triunfava; só, iria reinar até a aurora.

Nesse momento, um concerto argentino se eleva nos ares. Em todas as aldeias, os sinos tilintavam. Era o Ângelus, a prece do entardecer, o sinal que evoca entre todos, os pescadores do lago, os lenhadores da floresta e os pastores da montanha, o pensamento de Deus. Giovanna e Maurice, sonhadores, recolhidos, observavam esse majestoso espetáculo; escutavam o som melancólico dos sinos, seguiam com o olhar as belas estrelas de ouro emergindo das profundezas do céu para subir lentamente, em legiões cerradas, para o zênite. A poesia dessa noite preenchia suas almas; suas bocas estavam mudas, mas seus corações se confundiam num enlevo profundo. Maurice rompeu o silêncio primeiro.

– Giovanna – disse ele –, você pensa, às vezes, nessas esferas luminosas que se movem no espaço? Já se perguntou se são, como nossa terra, mundos de sofrimento, habitados por seres materiais e atrasados, ou se almas mais perfeitas aí vivem no amor, na felicidade?

– Bem, às vezes – respondeu ela – tenho visitado esses mundos. Protetores, amigos invisíveis, me levam quase todas as noites para essas regiões celestes. Com dificuldade, tenho visto que um grupo de espíritos, de longas vestes flutuantes, de fronte brilhante, me cercam, me chamam. Vejo minha própria alma que, semelhante à deles, se libera de meu corpo e os segue. Rápido como o pensamento, atravessamos os espaços imensos, povoados de uma multidão de espíritos; por toda parte oceanos de vida desdobram suas perspectivas sem limites. Por toda parte retinem os cantos harmoniosos, de uma suavidade desconhecida na Terra. Percorremos esses arquipélagos estelares, essas esferas longínquas, bem diferentes de nosso globo. Em lugar de uma matéria compacta e pesada, muitos dentre eles são formados de fluidos leves, de brilhantes cores. Enquanto que os hóspedes da terra se arrastam penosamente na superfície do planeta, os habitantes desses mundos, de corpos sutis, aéreos, se elevam facilmente, planam no espaço ambiente. Eles agem sobre esses fluidos leves e coloridos que compõem o centro de suas esferas; lhes dão mil formas, mil aspectos diversos.

Assim são os palácios admiráveis, colônias deslumbrantes, com inumeráveis pórticos, templos com abóbadas gigantescas, ornados de estátuas, de pilastras de gás, e cujas muralhas transparentes permitem entrever seu interior. De todas as partes se erguem construções prodigiosas, abrigos da ciência e das artes, bibliotecas, museus, escolas, exposições, sempre invadidas pelas multidões. O ensinamento aí é dado sob a forma de quadros luminosos e cambiantes. A linguagem é uma espécie de música.

Quais são as necessidades corporais dos habitantes desses mundos?

São quase nulas. Não conhecem nem o frio, nem a fome, quase nada da fadiga. Sua existência é bem simplificada. Empregam-na na instrução, no estudo do universo, de suas leis físicas e morais. Prestam a Deus um culto magnífico, e desenvolvem em sua honra os esplendores de uma arte desconhecida aqui. Mas a prática das virtudes é, sobretudo, seu objetivo. A miséria, as doenças, as paixões, a guerra, são quase ignoradas nesses mundos. São moradas de paz, de felicidade, dos quais não saberíamos fazer nenhuma idéia em nosso globo de lutas e de lágrimas.

É então para lá que se transportam os homens virtuosos que deixam a terra?

Há muitos degraus a transpor antes de obter a entrada desses mundos. Esses são os últimos degraus da vida material, e os seres que os povoam, diáfanos e leves para nós, são ainda grosseiros e pesados comparados aos puros Espíritos. Quanto à nossa terra, ela não é senão um mundo inferior. É após haver vivido aí um número de existências suficientes para perfazer sua educação e seu adiantamento moral, que o Espírito a deixa para abordar esferas mais e mais elevadas, e revestir um corpo menos material, menos sujeito aos males e às necessidades de toda sorte. Após um número incalculável de vidas, sempre mais longas e ao mesmo tempo mais doces, crescendo em ciência e em sabedoria, esclarecendo-se, progredindo sem cessar, a alma abandona, enfim, as moradas corporais e vai perseguir no infinito o curso de sua eterna ascensão. Suas faculdades se ampliam, uma fonte inesgotável de caridade, de amor flui nela; compreende as leis superiores, conhece o universo, entrevê Deus. Mas pobre de mim! Como estão longe de nós suas beatitudes, suas alegrias inefáveis! É preciso nos elevar para essas alturas sublimes; Deus nos tem dado os meios. Ele tem querido que sejamos os artesãos de nossa felicidade. A lei do progresso não está escrita em nossa consciência? Não recuemos então diante das lutas, dos sacrifícios, de tudo que purifica, eleva, enobrece. Oh! Se os homens quisessem saber! Se eles se dignassem a procurar o verdadeiro propósito da vida! Que horizontes se abririam ante eles! Como os bens materiais, esses bens efêmeros, lhes pareceriam miseráveis, como os rejeitariam para se ligar ao bem moral, à virtude, que a morte não pode tomar e que, sozinhos, nos abrem o acesso às regiões bem aventuradas!

Assim se escoavam as horas. Maurice se inebriava das palavras da jovem moça, porque elas lhe ensinavam coisas que haviam sido sempre ignoradas em seus livros. Era para ele como uma linguagem seráfica, revelando os mistérios do além-túmulo e, com efeito, Giovanna, médium inspirada, era, sem o saber, o eco de uma voz sobre-humana que retinia nas profundezas de seu ser.

Quase todo dia, passeavam assim, conversando através os bosquezinhos perfumados, reaquecidos pelos raios do sol da Itália, acariciados pelo vento, sob o azul profundo do céu. Algumas vezes, subiam em um barco com Luísa e se deixavam deslizar docemente ao sabor das correntes do lago. Pouco a pouco os barulhos enfraquecidos da margem vinham morrer em torno deles. Bem alto, no ar límpido, grandes aves de rapina voavam em giros; peixes prateados saltavam na água transparente. Tudo então os convidava ao devaneio, aos doces desabafos do coração. Mas, reconduzidos por uma força oculta para os assuntos sérios, Giovanna falava de preferência da vida futura, das leis divinas, dos progressos infinitos da alma, de sua depuração pelas provas e sofrimentos.

– A dor – dizia –, tão temida, tão mal conhecida aqui em baixo, é, na realidade, o ensinamento por excelência, a grande escola onde se aprende as verdades eternas. Ela somente habitua o ser a se desapegar dos bens pueris, das coisas terrestres, a medir o vazio. Sem as provas, o orgulho e o egoísmo, esses flagelos da alma, não teriam nenhum freio. É sua função amolecer os Espíritos rebeldes, os constranger à paciência, à obediência, à submissão. O sofrimento é o grande cadinho da purificação. Como os grãos na joeira, sempre daí se sai melhor. É preciso ter sofrido para compadecer-se com os sofrimentos dos outros. A aflição nos torna mais sensíveis, nos inspira mais piedade pelos infelizes. Se os homens fossem esclarecidos, bendiriam a dor como o mais possante agente de progresso, de crescimento, de elevação. Por ela, a razão se fortifica, o julgamento se afirma, as enfermidades do coração desaparecem. Mais alto que os bens terrestres, mais alto que o prazer, mais alto que a glória, ela mostra à alma aflita a grande figura do dever se erguendo, imponente, augusto, iluminado pelas claridades do fogo que não se extingue.

Essas revelações, essa voz encantadora, esses acentos eloqüentes, inspirados, preenchiam Maurice de espanto e de admiração.

– Giovanna – dizia –, fale ainda, fale sempre, querida, o vivo eco de minhas esperanças, de minha fé, de minha paixão pelo justo e o verdadeiro. Fale! Sou tão feliz de escutá-la, de contemplá-la. E, todavia, me surpreende por vezes o receio de que nossa felicidade se esvaneça de repente. Nossa felicidade não tem nada de humano. Parece-me que o vento áspero da vida vai soprar sobre nosso sonho de amor; uma voz secreta me diz que um perigo nos ameaça.

Em vão a jovem moça procurou seguir seus receios. A aproximação de eventos dolorosos nos preenche de uma apreensão vaga. A alma pressente o porvir? Este é um problema em suspenso, acima de nossa inteligência, e que nós não podemos resolver.

Assim como Giovanna havia dito, quem pode prever o dia de amanhã aqui em baixo?

Alegrias, riquezas, honras, amores insensatos, afeições austeras, tudo passa, tudo escapa entre as mãos do homem como uma areia sutil. As horas amargas e desoladas da vida podem tocar de perto as horas de felicidade e de paz; mas é raro, quando as primeiras se aproximam, que não sejamos atingidos por um sombrio prognóstico. Assim estava Maurice. Essa conversa sobre a dor, pensava, não seria como um presságio, uma advertência do alto? Uma pressão penosa lhe apertava o coração quando se separava de Giovanna.

A noite se escoava longa e sem sono. Mas as primeiras claridades da alvorada afastaram suas impressões e quando retornou para perto de sua bem-amada, vendo-a plena de graça, de jovialidade, de vida, embelezada pelo noivado, seus últimos receios se esvaneceram como um nevoeiro matinal sob os raios do sol de Agosto.

V


Giovanna e Maurice haviam trocado os anéis benzidos pelo padre; a época de sua união estava fixada. Os dias passaram para eles rápidos, entregues à sua felicidade. Eles ignoravam que um espantoso flagelo avançava, que sua devastação havia despovoado as planícies lombardas e que o ar puro das montanhas seria impotente para o deter. Que lhes importava, com efeito, as novidades de fora, os barulhos do mundo. O mundo para eles se resumia em um só ser, o ser amado! Seu pensamento não visitava mais do que as regiões supraterrestres.

Não sonhavam senão com seu amor, com a vida que se abria diante deles tão bela, tão rica de promessas. Mas a Vontade Suprema iria reverter todas essas esperanças. Após haver entrevisto uma felicidade ideal, Maurice devia retomar a sombria e desesperante realidade.

Um violento tifo se abatia sobre as margens do lago e Gravedona e o vale de Domaso foram sucessivamente atingidos. Alguns dias tinham penosamente escoado e já muitas das moradas estavam vazias. A fumaça azulada não se elevava mais acima dos telhados. O silêncio, esse silêncio cruel da morte ou da perda, substituía o barulho do trabalho e das canções; grandes cruzes brancas apareciam sobre as portas das cabanas desertas. A foice da morte ceifava muitas existências entre essas famílias de pescadores e artesãos, mal vestidos, mal nutridos e de higiene duvidosa, que ofereciam uma presa fácil ao flagelo. Durante quase todo o dia o sino da igreja tocava o dobre fúnebre e numerosos cortejos se encaminhavam para o campo-santo.

A epidemia não poupou os Menoni. Marta foi atingida primeiro, depois sua menina tombou doente por sua vez. Todas as famílias, todas as moradas atingidas pelo flagelo foram abandonadas. Os médicos eram pouco numerosos. Nenhum cuidado em atender os parentes, os amigos; o isolamento, o sofrimento e a morte, eis o que podiam esperar aqueles que fossem contagiados. As lamúrias que ressoavam de todas as partes, a desolação geral, arrancaram Giovanna de sua quietude, de sua felicidade. A voz imperiosa do dever se elevava nela e dominava a voz do amor. Desdenhando do perigo, surda às súplicas de Maurice, partilhava doravante seu tempo entre os infelizes abandonados. Seu noivo, não podendo desviá-la do risco, imita seu exemplo. Giovanna passa um mês inteiro na cabeceira dos moribundos; vários expiram sob seus olhos. Marta e sua menina morreram malgrado os seus cuidados. Até os derradeiros momentos ela os assistiu, suportando com uma calma aparente o espetáculo de suas convulsões, respirando o sopro envenenado que exalava de seus lábios. Tanta fadiga e emoções acabaram com a jovem moça. Uma tarde em que, extenuada, retornava da vila com Maurice, teria caído no solo, desmaiada, se seu noivo não a tivesse recolhido em seus braços.

Ela retornou para casa e se acamou, e os assustadores sintomas se manifestaram em seguida. Um círculo de fogo apertava suas têmporas; zumbidos insólitos faziam barulhos em seus ouvidos; os calafrios a tomaram, uma cor arroxeada se estendeu em torno de seus olhos. O mal fazia rápidos progressos; a vida de Giovanna fundia como uma cera mole sob o sopro do flagelo. A partir do dia seguinte, a sombra da morte flutuava sobre sua face. Maurice, pálido, desesperado, permanecia o tempo todo perto dela, apertando suas mãos geladas. Aproximando seus lábios de sua boca descolorada, pedia a Deus lhe permitisse aspirar a morte em um beijo.

Giovanna respondia docemente ao seu abraço. Seus olhos, já brilhantes das luzes do lado de lá, se fixavam sobre ele com uma expressão de calma, de doçura serena. Mesmo nesse momento solene, malgrado o sofrimento que despedaçava seus membros, um sorriso resignado aclarava sua face. À tarde, a agonia começou. Giovanna agitava-se convulsivamente, debatia-se sob uma opressão dolorosa, implorando a Deus aos gritos. A essas crises terríveis sucedia um abatimento profundo, uma imobilidade semelhante à morte. Somente os lábios da jovem menina mexiam. Parecia conversar com seres invisíveis. Por vezes também, se a escutava murmurar o nome de Maurice. Um ligeiro cerramento da mão, um último estremecimento, e Giovanna expira. A alma desse anjo retornava para Ele que a havia criado.

Maurice, esmagado pela dor, estava como um homem ébrio. Suas lágrimas, não podendo sair, recaiam sobre seu coração e o afogava em ondas de um cruel desespero. A noite veio, colocaram-se velas acesas próximo ao leito; um crucifixo repousava sobre o peito da morta cujos cabelos louros esparsos formavam uma coroa de ouro em torno de sua cabeça pálida. Soluços meio comprimidos se elevaram dos cantos da sala. A tia, a velha ama de leite de Giovanna, algumas pobres pessoas a quem a morta havia socorrido, oravam e choravam. Maurice se aproxima da janela toda aberta. Ironia da natureza! O disco brilhante da lua aclarava planícies e montes; aromas balsâmicos flutuavam no ar; a torrente, correndo sobre as pedras, fazia ouvir seu alegre murmúrio ao qual respondia o rouxinol pousado sobre os altos galhos. No seio da noite tépida e perfumada, tudo eram luzes e cantos, tudo celebrava a felicidade de viver, e lá, sobre seu virginal leito, a doce criança dormia já o eterno sono. Assim pensava Maurice; mil idéias sombrias, tumultuadas, cresciam no seu cérebro como um vento de tempestade.

Qual é então o Deus cruel que brinca assim com nosso coração! Haver-lhe mostrado a felicidade, haver-lhe feito tocá-la para logo a furtar. Esses sonhos dourados, esses sonhos formados a dois, estariam para sempre desvanecidos! Esse cadáver que pernoitava ali era tudo o que restava de Giovanna?

Não a veria mais, não ouviria mais sua voz, não veria mais nos seus olhos aqueles clarões de ternura que o inebriavam, que o reaqueciam deliciosamente. Mais algumas horas e não teria mais nada dela, nada senão a lembrança, uma lembrança dilacerada, penetrante como uma espada na alma ulcerada. Não mais as caminhadas a dois no vale, não mais os passeios sobre o lago, na brilhante luminosidade do dia, não mais as conversas sobre o terraço na suave claridade das noites. Ele era triste, deprimido, até que a conheceu; como um raio, seu olhar havia clareado sua vida, e eis que, subitamente, tudo se extinguia. Estava acabado agora; sua vida tinha se encerrado; não mais os sonhos alegres, não mais a esperança, agora o vazio, a solidão terrível, as trevas se formariam ao redor dele. Como seu coração batia a golpes precipitados no seu peito, como sua cabeça queimava! Um peso esmagador lhe fazia curvar a fronte, mergulhando-a em seus joelhos. E chamava a morte, desejava-a ardentemente. “Vem – dizia –, leve-me com ela, envolva-nos no mesmo sudário, deite-nos na mesma cova; que a mesma pedra nos cubra!” Mas não, ela estava morta e ele lhe falava, vivo. Que abismo se abria sob seus passos! E a revolta esmagava esta alma contra o implacável destino.

Evocando as lembranças de sua vida, depois seus tristes anos de infância, Maurice via passar como um turbilhão as ilusões dissipadas, as alegrias tão curtas, tão vazias, evanescentes, as felicidades efêmeras de sua juventude. Todas as sombras, todas as preocupações do passado, subiam como uma onda amarga do fundo de sua memória, submergindo nele as últimas esperanças. Em seu lugar, uma profunda sensação de isolamento, de abandono, permanecia. Todos aqueles que tinha amado haviam partido. Sua mãe, morta quando ele era apenas uma criança, depois seu pai, e agora, aí estava Giovanna. Tudo o que havia alegrado sua existência, tudo o que havia feito bater seu coração iria se resumir em três, sepulcros. “Oh! – murmurava –, Ser invisível que se ri de nossas lágrimas, nos faz então viver apenas para nos torturar? Entretanto não pedi para nascer. Por que me tirou do nada, lá onde se dorme, onde se repousa, onde não se sofre!” A alvorada veio aclarar com suas pálidas luzes a triste cena da morte, Giovanna depositada no caixão, a chegada do padre, a partida para o cemitério. Semelhante a um autômato, Maurice seguiu o féretro, coberto de ramalhetes de rosas brancas, levadas pelas jovens meninas de Gravedona. Afundado em sua dor, ele não via nada do cerimonial fúnebre na igreja, não escutava certamente as salmodias lúgubres. O barulho surdo da terra caindo sobre as tábuas do caixão o chamou enfim a si.

Os assistentes se foram, a cova fechada, se encontra só, diante da sepultura de sua noiva. Então seu coração se dilacera; ele se lança sobre o solo, estendendo seus braços por cima da morta; um soluço se ergue em seu peito e um regato de lágrimas escorre de seus olhos.

VI


O inverno chega, espessas nuvens demoram no céu; o vento passa mugindo sobre as colinas despojadas, fazendo turbilhonar os monturos de folhas mortas. Maurice, sozinho, vestido de luto, está sentado perto de uma lareira que crepita no seu pequeno aposento dominando o lago. Um livro está aberto diante dele; mas não o está lendo; sombrios pensamentos o assediam. Sonha com aquela que repousa sob a terra gelada, ouvindo os gemidos do vento que chora como uma legião de almas em sofrimento. Por vezes, se levanta e vai observar, por detrás do vidro, o tapete cinzento das águas, o horizonte cujas cores de chumbo se harmonizam com o estado de seu espírito; depois, apanhando um bauzinho de madeira esculpida, abre-o e retira flores dessecadas, um laço de fitas, jóias de mulher. Aperta sobre seus lábios essas relíquias de amor; o passado evocado se revela em sua memória. E as horas se sucedem às horas. Maurice permanece lá, meio inclinado sobre esse fogo que queima na atmosfera úmida. Ele sonha com a felicidade perdida, as esperanças desvanecidas. A falta de coragem reavivou o desgosto da vida, esse desgosto de amar outra vez o invadiu novamente; idéias de suicídio germinam no fundo de seu pensamento.

A noite se faz e o fogo vai se extinguir, mas Maurice se compraz nessa obscuridade mais e mais espessa. Um roçamento se fez ouvir atrás dele. Volta-se e não vê nada. É sem dúvida o barulho do vento ou os passos da empregada, no quarto vizinho. Perto da chaminé está um piano, mudo há muito tempo. De repente sons se elevam desse móvel hermeticamente fechado. Confundido pela surpresa, Maurice presta atenção. Essa ária bem conhecida é a canção de Mignon, a canção preferida de Giovanna, e que ela gostava de tocar à noite, após a refeição. O coração de Maurice fica apertado; as lágrimas molham seus olhos. Levanta-se, dá a volta no piano: ninguém! O banquinho está vazio. Volta para o seu lugar. Será isso uma ilusão sonora? Uma sombra branca ocupa a poltrona que acabara de deixar. Tremendo, se aproxima. Seus olhos, seu olhar límpido, seus cabelos louros como espigas maduras, essa boca sorridente, esse porte esbelto, alongado, é a imagem de Giovanna. Oh magia, a tumba devolve então os seus hóspedes! Uma voz vem acariciar seus ouvidos:

– “Amigo, não receie nada, sou bem eu, não procure me segurar, não sou senão um Espírito. Não se aproxime mais, escuta-me.”

Maurice se ajoelha e chora:

– Meu anjo, minha noiva, é então você?

– “Sim, sou sua noiva, noiva de você bem antes desta vida. Escuta, um laço eterno nos une. Nós nos conhecemos desde séculos, temos vivido lado a lado por muitas vezes, percorrido juntos muitas existências. A primeira vez que o encontrei sobre a terra, estava bem fraca, bem tímida, e a vida então era dura. Você me tomou pela mão, me tem servido de apoio; desde esse momento, não nos separamos jamais. Sempre nos seguimos nas nossas vidas materiais, andando no mesmo caminho, nos amando, sustentando um ao outro. Ocupado com os combates, os empreendimentos guerreiros, você não podia realizar os progressos necessários para que seu espírito livre, purificado, pudesse deixar este mundo grosseiro. Deus queria prová-lo; nos separou. Eu poderia subir para outras esferas, mais felizes, enquanto que você deveria prosseguir, sozinho, sua provação aqui em baixo. Mas preferi esperá-lo no espaço. Você cumpriu duas existências desde então, e durante seu curso, testemunha invisível de seus pensamentos, não tenho cessado de velar sobre você. Cada vez que a morte arrancava sua alma da matéria, você me encontrava e o desejo de se elevar o fazia tomar com mais ardor o fardo da encarnação. Desta vez, tendo tanto orado, tendo tanto suplicado ao Senhor, ele me permitiu voltar sobre a terra, aí tomando um corpo, uma voz, para ensinar a você o bem e a verdade. Nossos amigos do espaço nos aproximaram, reunidos, mas por um tempo limitado. Eu não podia mais permanecer por muito tempo sobre a terra, minha missão já estava completa. Não devia ser sua aqui em baixo.

“É chegada uma hora em que os Espíritos podem, segundo a permissão divina, se comunicar com os humanos. Por isso venho, para guiá-lo, encorajá-lo, consolá-lo. Se quiser que esta existência terrestre seja a última para você; se quiser que, à sua partida, sejamos reunidos para não mais nos separarmos, consagre sua vida à seus irmãos, ensine-lhes a verdade. Diga-lhes que o objetivo da existência não é de adquirir bens efêmeros, mas de aclarar sua inteligência, de purificar seu coração, de se elevar para Deus. Revele as grandes leis do Universo, a ascensão dos Espíritos para a perfeição. Ensine-lhes a via múltipla e solidária, os mundos inumeráveis, as humanidades irmãs. Mostre-lhes a harmonia moral que rege o infinito. Deixe atrás de você as sombras da matéria, as paixões maldosas; dê a todos o exemplo do sacrifício, do trabalho, da virtude. Tenha confiança na divina justiça. Olhe adiante, para a luz longínqua que aclara o objetivo, o objetivo supremo que deve nos reunir no amor, na felicidade.

“Sem tardar, entregue-se à obra; nós o sustentaremos, o inspiraremos. Estarei próximo a você na luta, envolvê-lo-ei em um fluido benfazejo. Assim, nesta noite, me tornei visível aos seus olhos, revelei o que ainda ignorava. E um dia, quando tudo o que tem em você, de terrestre e de baixo, tiver se desvanecido, unidos, confundidos, nos elevaremos juntos para o Eterno, juntando nossas vozes ao hino universal que sobe de esfera em esfera até Ele.”

Reencontrei Maurice Ferrand, há alguns anos, numa grande vila, por detrás dos Alpes. Havia começado sua obra. Pela escrita, pela palavra, trabalhava disseminando esta doutrina conhecida sob o nome de Espiritismo. Os sarcasmos e as zombarias choviam sobre ele de todas as partes. Céticos, devotos, indiferentes, todos se uniam para o importunar. Mas, calmo, resignado, não parava de seguir em sua missão. “Que me importa – me dizia –, o desdém desses homens. Um dia virá em que, com auxílio da provação, compreenderão que esta vida não é tudo e pensarão em Deus, em seu porvir sem fim. Então talvez se recordem daquilo que lhes disse. A semente lançada neles poderá germinar. E, aliás – acrescentou, observando o espaço, e uma lágrima brilhou em seus olhos –, o que faço, é obedecer àqueles que me amam, é para me aproximar deles!”

0 –




Notas:

1Na edição impressa, traduzida em português pela Editora CELD, não foram incluídos os referidos trechos da novela Giovanna. Por esse motivo, decidimos adicioná-la a esta versão eletrônica (na íntegra, já que não sabemos quais os trechos fazem parte da obra de Regnault), em forma de apêndice, satisfazendo, assim cremos, o desejo do autor e o possível interesse do leitor. (Nota do digitalizador.)

2Papus – pseudônimo, no ocultismo, do Dr. Henri Encausse. (Nota da Editora; suas notas sequentes conterão apenas as iniciais “N.E.”)

3Socialismo e Espiritismo. (*)

(*) Foi publicada em português, pela editora O Clarim, uma obra intitulada Socialismo e Espiritismo, composta de artigos publicados por Léon Denis na Revista Espírita, a partir de janeiro de 1924, com o mesmo título. (Nota do digitalizador.)



4Afirmação feita em 1928. (Nota do Tradutor; suas notas sequentes conterão apenas as iniciais “N.T.”)

5Ler Identité des Personnalités, por Blanche Barchou, Evreux, imprimerie Ch. Hérissey, 1925.

6Trata-se de Gaston Luce, que publicou, em 1928, Léon Denis, o Apóstolo do Espiritismo – sua Vida, sua Obra, editora CELD. (N.E.)

7Ver relatório do Congresso Internacional de Espiritismo, 1925.

8Le Spiritisme, revista bimestral, 1ª quinzena de maio de 1884.

9Le Spiritisme, 2ª quinzena de maio de 1885.

10Relatório do Congresso, de 1889.

11Le Spiritisme Kardéciste, dezembro de 1920.

12Regnault compara sua vida moderna de 1927 com as dificuldades encontradas por Denis, à sua época de representante comercial e divulgador da Doutrina. (N.E.)

13Tendo eu a sorte de encontrar esse folhetim, creio estar agradando aos numerosos admiradores de Léon Denis, juntando, em apêndice, importantes trechos dessa novela que, certamente, foi escrita antes de O Porquê da Vida. (*)

(*) Vide esclarecimento na nota nº 1. (Nota do digitalizador.)



14 Henri Sausse – Le Spiritisme Kardéciste, dezembro de 1920.

15Narrando uma viagem à Algéria, Alexandre Delanne escrevia: “Remeto aos meus amigos, que gostariam de ler uma jóia literária, como descrição pitoresca e poética dessas regiões, uma pequena brochura de Léon Denis, nosso colaborador e amigo, intitulada, eu creio, Tunis, Alger, Corse, Sardaigne.”

16Sem derramamento de sangue, naturalmente.

17No original francês lê-se: conférences contradictoires. Devemos lembrar que Regnault falava também para não-espíritas. (N.E.)

18Publicarei, brevemente, um estudo sobre as experimentações espíritas de Léon Denis. (*)

(*) Essa obra foi publicada em 1928 sob o título Léon Denis e a Experiência Espírita. A sua tradução em língua portuguesa foi publicada a partir de 1992, pela editora CELD, com esse mesmo título. (N.E.)



19Annales du Spiritisme, Rua Guesdon 32, Rochefort-sur-Mer, maio de 1927.

20Léon Denis, em seu testamento havia feito legado a diversas obras de interesse local e social. Em 21 de outubro de 1927, o Instituto de França decidiu entregar à Caisse des Laboratoires o legado feito pelo apóstolo do Espiritismo.

21Annales du Spiritisme, maio de 1927.

22Aconteceu o mesmo, por ocasião da morte de Allan Kardec. Ver Revista Espírita, 1869. (*)

Ver também, em português, A Desencarnação de Léon Denis, edição CELD. (N.E.)



23Ver, principalmente, a Revista Espírita, agosto de 1927.

24Le Matin, 6 de junho de 1927.

25Le Spiritisme, 2ª quinzena, novembro de 1884.

26Ver capítulo I.

271928. (N.T.)

28Ver análise que Allan Kardec faz sobre espíritas exaltados em O Livro dos Médiuns, 1ª parte, cap. III, item 28. (N.E.)

29Em nosso livro sobre a vida de Gabriel Delanne, Paul Bodier e eu teremos a oportunidade de mostrar até aonde vai a credulidade de certos espíritas. (*)

(*) Essa obra foi publicada em português pela Editora CELD, a partir de 1988, sob o título Gabriel Delanne – sua Vida, seu Apostolado e sua Obra. (N.E.)



30Na época eram comuns as palestras nas reuniões sociais. Sauterie era como se chamavam as reuniões sociais. (N.E.)

31Léon Denis – Depois da Morte, “Introdução”.

32Léon Denis – Depois da Morte, 2ª parte, “As provas e a morte”.

33Guy de Maupassant – Clair de Lune, Editora Flammarion.

34Esse fenômeno está bem estudado em O Livro dos Médiuns, capítulo IX, de Allan Kardec. (N.E.)

35Todas as vezes em que me ocupo de tratamento psíquico, que se trata de sofrimentos físicos, de obsessões, de possessões, eu recuso qualquer retribuição; trato com total desinteresse.

36Léon Denis – Depois da Morte, 3ª parte, “Perigos do Espiritismo”.

37Léon Denis – Depois da Morte, 2ª parte, “As provas e a morte”.

38Léon Denis – Depois da Morte, “Introdução”.

39Em O Problema do Ser e do Destino, Léon Denis escreve: “Denominamos espírito a alma revestida de seu corpo sutil.” Emprego o termo espírito no mesmo sentido.

40Ver Annales du Spiritisme, Rua Guesdon nº 32, Rochefort-sur-Mer, setembro de 1927.

41A escrita direta é um fenômeno bem comprovável. Eis uma das maneiras como pode produzir-se: – Duas ardósias, com molduras de madeira, são colocadas uma sobre a outra, pondo-se um lápis entre elas antes de lacrá-las. Sem qualquer contato humano, o médium impõe as mãos sobre as ardósias e, quando são abertas, nelas são encontradas frases escritas por um espírito ou pelo fantasma de um vivo.

42Léon Denis – No Invisível, 2ª parte, capítulo XIX.

43Léon Denis – No Invisível, 1ª parte, capítulo III.

44É indispensável estudar, sobre esse ponto, O Livro dos Médiuns, de Allan Kardec.

45Falo aqui dos Grupos de Estudos. Quando um grupo é formado e já obteve resultados, nada impede a organização de reuniões especiais de propaganda, no decorrer das quais essas condições de simpatia mútua não são tão rigorosas.

46Léon Denis – No Invisível, 1ª parte, capítulo V.

47Léon Denis – No Invisível, 1ª parte, capítulo V.

48Léon Denis – O Grande Enigma. (*)

(*) Esse trecho pertence exclusivamente à edição francesa. (N.E.)



49Léon Denis – No Invisível, 1ª parte, capítulo XI.

50Léon Denis – O Além e a Sobrevivência do Ser. (*)

(*) Essa brochura, pelo seu pequeno volume, não é dividida em capítulos. (Nota do digitalizador.)



51Léon Denis – O Além e a Sobrevivência do Ser.

52Léon Denis – O Além e a Sobrevivência do Ser.

53Henri Regnault – Tu Revivras.

54Eu havia sido candidato a fim de defender as idéias de solidariedade que decorrem do Espiritismo e havia escolhido um bairro onde as concepções extremistas de ódio e de inveja reinavam desde muito tempo. Graças a uma campanha enérgica, obtive, no primeiro turno, uma grande maioria, mas, no segundo turno, por causa da coalisão dos extremistas, fui derrotado somente por 10 votos.

55Ver Revista Espírita, agosto de 1927.

56Les Études, nº 13, 5 de julho de 1927.

57Eis um livro cuja leitura não exigiu grande esforço de Léon Denis.

58Léon Denis – O Mundo Invisível e a Guerra, capítulo XVIII – “O Espiritismo e as Igrejas”.

59Les Études, nº 13, 5 de julho de 1927. Léon Denis – No Invisível, 2ª parte, capítulo XII – “Exteriorização do ser humano - Telepatia - Desdobramento - Os fantasmas dos vivos”.

60“Tudo está submetido, no Espiritismo, ao controle da razão e da experiência e, entre nós, a fé só se baseia em pesquisas precisas e rigorosas. Não há, portanto, motivo para dogmas que poderiam ser desmentidos, num futuro mais ou menos longínquo, pela realidade.” (Extraído de um artigo de Gabriel Delanne – “Espiritismo e Religião”, de janeiro de 1887, em Le Spiritisme).
Em O Problema do Ser e do Destino, 1ª parte, capítulo II – “O critério da Doutrina dos Espíritos”, Léon Denis afirma: “... no Espiritismo, nunca é demais dizê-lo, não há dogmas e cada um dos seus princípios pode e deve ser discutido, julgado, submetido ao exame da razão.”

61Procès-verbaux – relatos oficias, redigidos por uma autoridade competente, que constata um fato ou o que foi dito ou feito em uma reunião, uma assembléia, etc. (N.E., conforme o Le Robert, Dictionnaire de la Langue Française.)

62Durante essa reunião, o Rev. Padre Jubaru reconheceu publicamente que o Espiritismo é útil, no sentido em que conduz os negativistas a crerem em Deus e na existência da alma.

63Ver, especialmente, Revista Científica e Moral do Espiritismo, março, agosto e setembro de 1922.

64Ver Le Matin, 7 de junho de 1923.

65Revista Espírita, janeiro de 1860, artigo: “O Espiritismo em 1860”.

66Revista Espírita, agosto de 1927.

67Esta obra foi publicada em língua portuguesa sob o título O Espiritismo e o Clero Católico, pela editora CELD. (N.E.)

68O Espiritismo e as Contradições do Clero Católico (O Espiritismo e o Clero Católico na edição em português), 1ª parte, capítulo III. (N.E.)

69À Sombra do Harém. (N.T.)

70Léon Denis – Cristianismo e Espiritismo, Nota complementar nº 12: “Os fenômenos espíritas contemporâneos; provas da identidade dos Espíritos”.

71Cafre – natural da Cafraria, antigo nome da parte da África que era habitada por não-muçulmanos. (N.E.)

72Léon Denis – Cristianismo e Espiritismo, Introdução.

73Aos 18 anos, tendo visto O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, na vitrine de uma livraria de Tours, Léon Denis o comprou, leu-o e ficou convencido da beleza e da grandeza da revelação espírita.

74Na edição em português, da Federação Espírita Brasileira, ano 1987, as notas complementares perfazem um total de quatorze. (N.E.)

75Ver La Réalité Spirite, de Henri Regnault.

76Edouard Romilly – Marie-Madeleine (Eug. Figuière, editor).

77Léon Denis – Cristianismo e Espiritismo, capítulo III – “Sentido oculto dos Evangelhos”.

78Léon Denis – Cristianismo e Espiritismo, capítulo VII – “Os Dogmas (continuação) – os Sacramentos, o Culto.

79Aux Écoutes, 22 de outubro de 1927.

80Léon Denis, Cristianismo e Espiritismo, capítulo XI – Renovação.

81Léon Denis – O Problema do Ser e do Destino – 1ª parte, capítulo II – “O critério da Doutrina dos Espíritos”.

82Ver Nota 1, parágrafo 2. (*)

(*) Ver nota de rodapé nº 60. (N.E.)



83Léon Denis – O Problema do Ser e do Destino, 1ª parte, capítulo IV - “A personalidade integral”.

84Essa passagem é extraída do livro de F. Myers La Personalité Humaine. (*)

Esta obra, muito citada e elogiada por Léon Denis em O Problema do Ser e do Destino, foi publicada em português, sob o título A Personalidade Humana, pela editora EDIGRAF. (Nota do digitalizador.)



85Léon Denis – O Problema do Ser e do Destino, 3ª parte, capítulo XI – “A consciência - o sentido íntimo”.

86Léon Denis – No Invisível, 3ª parte, capítulo XXII – “Prática e perigos da mediunidade”. (N.T.)

87Léon Denis – O Problema do Ser e do Destino, 1ª parte, capítulo VII – “Manifestações depois da morte”.

88Ver, por exemplo, Henri Regnault: La Médiumnité à Incarnation.

89Léon Denis – O Problema do Ser e do Destino, 1ª parte, capítulo V – “A alma e os diferentes estados do sono”.

90Léon Denis – O Problema do Ser e do Destino, 3ª parte, capítulo XXI – “A consciência – o sentido íntimo”.

91Parca – figuradamente, a morte. Entre os romanos, cada uma das três deusas infernais (Cloto, Láquesis e Átropos) que, consoante a mitologia, fiavam, dobravam e cortavam o fio da vida dos homens. (N.E.)

92Léon Denis – O Problema do Ser e do Destino, 1ª parte, capítulo X – “A morte”.

93Idem, ibidem.

94Léon Denis – O Problema do Ser e do Destino, 1ª parte, capítulo V – “A alma e os diferentes estados do sono”.

95Léon Denis – O Problema do Ser e do Destino, 3ª parte, capítulo XXIV – “A disciplina do pensamento e a reforma do caráter”.

96Léon Denis – O Grande Enigma, capítulo XIV – “Elevação”.

97Idem, ibidem.

98Henri Regnault – Tu Revivras.

99Léon Denis – O Grande Enigma, “Ao leitor” (prefácio).

100Idem, ibidem.

101Léon Denis – O Grande Enigma, “Ao leitor” (prefácio).

102Creio dever assinalar uma obra admirável, a do “Pão para Todos”, na Rua Eugène Carrière nº 4, Paris, século XVIII.

Não passe nunca pela Rua Drouot, à porta da prefeitura do IX Distrito, sem dar seu óbolo ao “Pão para Todos”.



103Traduzida por José Jorge e publicada pelo Instituto Maria, de Juiz de fora, com o título de Síntese Doutrinária e Prática do Espiritismo. (N.E.)

104Le Spiritisme, 2ª quinzena de agosto de 1885, artigo intitulado: “Le Positivisme Spiritualiste”.

105Todos os meus tratamentos psíquicos são absolutamente gratuitos.

106A Sobrevivência e o Casamento de Joana d’Arc. (N.T.)

107Joana d’Arc Vitoriosa. (N.T.)

108A Última Noite de Domremy. (N.T.)

109Tipografia Vve. Lamante, em Couy (Biblioteca Nacional, 8º, Lb. 57 – 15.426).

110Obra publicada em português pela Editora CELD, sob o título Gabriel Delanne – sua Vida, seu Apostolado e sua Obra. (N.E.)

111Joana d’Arc, Médium, 1ª parte, capítulo XI – “Ruão, o processo”.

112Léon Denis – Joana d’Arc, Médium, 1ª parte, capítulo XII – “Ruão: o suplício”.

113Lang – La Pucelle de France.

114Léon Denis – Joana d’Arc, Médium, 1ª parte, capítulo IV – “A mediunidade de Joana d’Arc; o que eram suas vozes; fenômenos análogos, antigos e recentes”.

115Sra. Agullana – La Vie Vécue d’un Médium Spirite.

116A Vida de um Médium Espírita. (N.T.)

117Léon Denis – Joana d’Arc, Médium, 2ª parte, capítulo XV – “Joana d’Arc e a idéia de religião”.

118Eco Fiel de uma Metade de Século. (N.T.)

119O autor se refere à época da publicação do livro. (N.E.)

120“Tempestade Mística”. (N.T.)

121Léon Denis – O Mundo Invisível e a Guerra, “Introdução”.

122Léon Denis – O Mundo Invisível e a Guerra, capítulo XXIII – “A experimentação espírita: Escrita mediúnica”.

123Léon Denis – O Mundo Invisível e a Guerra, capítulo IX – “O Espiritismo e as Religiões”.

124Taliésin: bardo do país de Gales do século VI. É considerado como autor de numerosos poemas. (N.T.)

125Léon Denis – O Mundo Invisível e a Guerra, capítulo IX – “O Espiritismo e as Religiões”.

126Idem, ibidem.

127Ver também o livro de Henri Regnault Léon Denis e a Experiência Espírita, publicada em língua portuguesa pela editora CELD. (N.E.)

128Léon Denis – O Mundo Invisível e a Guerra, capítulo XXV – “A experimentação espírita: Provas de identidade”.

129Idem, ibidem.

130“Delicada atenção de um irmão morto para com sua irmã viva”. (N.T.)

131Obra publicada em língua portuguesa, a partir de 1987, pela editora CELD, sob esse mesmo título.

132Sra. Agullana – La Vie Vécue d’un Médium Sprite.

133Léon Denis – Espíritos e Médiuns, capítulo IV – “Prática da mediunidade”.

134Ver Revista Espírita, maio de 1927.

135Léon Denis – O Gênio Céltico e o Mundo Invisível, “Introdução”.

136Psychica, 7º ano, 15 de dezembro de 1927.

137Atente-se ao volume da publicação e à ampla tradução desta obra à época. (N.E.)

138História do Costume Masculino Francês. (N.T.)

139Léon Denis – Depois da Morte, 1ª parte, capítulo V – “A Gália”.

140Léon Denis, O Problema do Ser e do Destino, 2ª parte, capítulo XIX – “A lei dos destinos”.

141Léon Denis – O Problema do Ser e do Destino, 3ª parte, capítulo XXII – “O livre-arbítrio”.

142Léon Denis – Cristianismo e Espiritismo, capítulo 1 – “Origem dos Evangelhos”.

143Léon Denis – Joana d’Arc, Médium, 1ª parte, capítulo I – “Domremy”.

144É curioso lembrar que é por causa dos gauleses que existe, cada ano, um dia de comemoração aos mortos. Em Depois da Morte, Léon Denis escreve: “A comemoração dos mortos é de origem gaulesa. Em 1º de novembro, se comemorava a festa dos espíritos, não nos cemitérios – os gauleses não homenageavam os cadáveres –, mas em cada casa, onde os bardos e os crentes evocavam as almas dos mortos. Nossos avoengos povoavam os bosques e as planícies com espíritos errantes. Os Duz e os Korrigans eram almas em busca de uma nova encarnação.”

145Léon Denis – O Mundo Invisível e a Guerra, capítulo VII – “O dia de Finados na trincheira”.

146Edouard Schuré – Le Rêve d’une Vie.

147Revista Espírita, janeiro de 1927.

148Léon Denis – O Gênio Céltico e o Mundo Invisível, 2ª parte, capítulo IX – “Religião dos celtas, o culto, os sacrifícios, a idéia da morte”.

149Léon Denis – O Gênio Céltico e o Mundo Invisível, 3ª parte, capítulo XIII – “Mensagens dos invisíveis”.

150Ver, a propósito, Gabriel Delanne – As Aparições Materializadas dos Vivos e A Alma é Imortal. Aí se constatará que seres humanos vivos, situados em um lugar com seu corpo físico, puderam manifestar a realidade de seu corpo psíquico, seja pela escrita, seja pela incorporação, pela materialização ou pela aparição. Até mesmo foram fotografados fantasmas dos vivos.

Ver, também, a Revista Espírita, de junho de 1928, no artigo de Gabriel Gobron sobre manifestações de vivos.



151Revista Espírita, 1924.

152Revista Espírita, 1924.

153No momento em que corrijo as provas deste capítulo, soube que Loucheur, nomeado Ministro do Trabalho, vai tentar realizar uma colaboração entre o trabalho e o capital.

154Floreal – oitavo mês do calendário adotado na França entre 1793 e 1806. (N.E., de acordo com o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa.)

155Léon Denis – O Mundo Invisível e a Guerra, capítulo XV – “O futuro do Espiritismo”.

156Idem, capítulo XXII – “Hosanna!”.

157Em todas as Igrejas, temos os apelos dos bispos para recrutamento de padres, cada vez mais difícil.

158Ver Tu Revivras, de Henri Regnault.

159Léon Denis – O Mundo Invisível e a Guerra, capítulo XIII – “Ressurreição”.

160Léon Denis – O Problema do Ser e do Destino, “Introdução”.

161L’Ami de Peuple, 13 de maio de 1928.

162Romain Rolland, Du Jeu de l’Amour et de la Mort, cena XI.

163Para conhecer as consequências do suicídio, ver, por exemplo, Allan Kardec – O Céu e o Inferno, capítulo V – “Suicidas”.



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