Henri Regnault a morte nao Existe


Capítulo VII O Problema do Ser e do Destino



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Capítulo VII

O Problema do Ser e do Destino


Como todas as obras de Léon Denis, O Problema do Ser e do Destino foi escrito com a colaboração do mundo invisível. O mestre não se cansa de confessá-lo a seus leitores. Afirma ele:81

“Esta obra não é exclusivamente minha; é, antes, o reflexo de um pensamento mais alto que eu busco interpretar. Ela concorda, em todos os pontos essenciais, com as diretrizes expressas pelos instrutores de Allan Kardec; todavia, nela são abordados pontos por eles deixados obscuros. Tenho tratado, igualmente, nesta obra das idéias e da ciência humana, e de suas descobertas.

Em certos casos, dei minhas impressões pessoais e meus comentários, porque no Espiritismo não precisaríamos dizer “não há dogmas” 82 e cada um de seus princípios pode e deve ser discutido, julgado e submetido ao controle da razão.

Considerei como um dever beneficiar meus irmãos terrenos com esses ensinamentos. Uma obra só vale por si mesma. Embora o que se possa pensar e dizer da revelação dos espíritos, eu não posso admitir que enquanto são ensinados em todas as Universidades grandes sistemas metapsíquicos elaborados pelo pensamento humano, ainda se desconheça e rejeite os princípios divulgados pelas nobres Inteligências do Espaço.

Embora estimemos os mestres da razão e da sabedoria humana, não há motivo para desdenhar dos mestres da razão sobre-humana, os representantes de uma sabedoria mais alta e mais grave.

O espírito do homem comprimido pela carne, privado da plenitude de seus recursos e de suas percepções, não pode alcançar, por si só, o conhecimento do Universo invisível e de suas leis.

O círculo no qual se agitam nossa vida e nosso pensamento é limitado e nosso ponto de vista é restrito.

A insuficiência dos dados adquiridos nos torna qualquer generalização impotente ou improvável.

Faltam-nos guias para a penetração no domínio do desconhecido e no infinito das leis. É pela colaboração dos pensadores eminentes dos dois mundos, das duas humanidades, que as mais altas verdades serão atingidas, pelo menos entrevistas, e os mais nobres princípios estabelecidos.

Bem melhores e mais seguramente que nossos mestres terrenos, os do Espaço sabem nos colocar em presença do problema da vida, do mistério da alma, e nos ajudar a tomar consciência de nossa grandeza e de nosso futuro.”

No que concerne à data da publicação dessa obra, não consegui obter a indicação precisa. Meu volume está marcado com 14º milheiro; na página 18 é a questão do livro No Invisível. Por consequência, O Problema do Ser e do Destino apareceu depois de 1901. Na página 231 de Joana d’Arc, Médium, Léon Denis remete o leitor para O Problema do Ser e do Destino. Esse livro é, pois, anterior a Joana d’Arc, Médium, aparecido em 1910. Podemos, pois, considerar essa obra como publicada entre 1901 e 1910, sem poder precisar mais nada.

Como todos os outros volumes de Léon Denis, O Problema do Ser e do Destino foi muito bem acolhido pela crítica. Le Journal publicou o seguinte artigo:

“Léon Denis, já conhecido do grande público europeu por suas obras, acaba de publicar um novo livro. O Problema do Ser e do Destino nos oferece uma verdadeira revelação dos aspectos ignorados do ser humano, de suas origens, de seus fins, assim como das potencialidades nele ocultas.

A possibilidade de reconstituir, experimentalmente, pelo método hipnótico, a imensa cadeia de lembranças, de aquisições, de peripécias das vidas anteriores e sucessivas, no curso das quais se constitui nosso eu, e prosseguir sua lenta evolução, tudo isso é demonstrado em 500 páginas, num estilo eloquente, atraente e luminoso.

Todas as deduções do autor se apoiam nesses fatos expostos com precisão e clareza e com os testemunhos de eminentes sábios, de experimentadores autorizados, de pensadores pertencentes à elite intelectual de todas as nações.

Esse livro nos ensina: nosso ser é, na realidade, um pequeno mundo ainda pouco conhecido, onde dormitam energias ocultas, forças latentes, lembranças abafadas, no estado de vigília, sob o peso da carne. Todas essas riquezas, porém, podemos resgatá-las, colocá-las em ação e, por elas, edificar um futuro melhor.

Por aí se explica a infinita variedade das aptidões, dos caracteres e também as paixões, talentos, gênios, o amor, o ódio e a dor. Os sombrios enigmas da vida se resolvem; o mistério do destino se aclara com uma intensa luz.”

Essa obra compreende três partes: Léon Denis estuda, inicialmente, o problema do Ser; em seguida, busca o problema do Destino e, finalmente, ele faz o estudo das potencialidades da alma.

Na primeira parte (O Problema do Ser), o autor analisa o que somos e qual a natureza de nossa personalidade.

Na segunda parte (O Problema do destino), Léon Denis estuda qual é nosso destino. Ele indaga se a morte causa o aniquilamento do ser e pergunta se uma única existência permite ao homem cumprir sua evolução ou se, ao contrário, as vidas sucessivas não são uma obrigação.

Na terceira parte (Potencialidades da Alma), ele estuda as possibilidades da alma.

Sabemos que o Espiritismo explica que o homem é composto do corpo físico, do perispírito e da alma. Temos a prova da existência da alma dos vivos, inicialmente pelas manifestações do fantasma dos vivos e em seguida pelas duplas personalidades.

Por vezes, ele parece um ser diferente daquele como é conhecido, em seu estado normal; esse novo indivíduo é muito diferente como caráter.

Léon Denis se preocupa em mostrar exemplos de dupla personalidade e cita, notadamente, os casos clássicos de Félida, Mary Renolds, Louis Vivé, Miss Beauchamp e Alma Z.83

“Alma Z. – escreve ele 84 – era uma jovem sadia e inteligente, de caráter sólido e atraente, de espírito de iniciativa em tudo quanto empreendia: estudo, esportes ou relações sociais.

Com a continuidade do trabalho intelectual e de uma indisposição negligenciada, sua saúde ficou bastante abalada e, após dois anos de grandes sofrimentos, uma segunda personalidade apareceu, bruscamente.

Numa linguagem semi-infantil, semi-indiana, essa personalidade se anunciava como sendo a nº 2, vinda para suavizar os sofrimentos da nº 1.

Ora, o estado da nº 1 era, naquele momento, um dos mais deploráveis: dores, debilidade, síncopes frequentes, insônias, estomatite mercurial de origem medicamentosa, que tornava a alimentação impossível.

A nº 2 era alegre e terna, com uma conversação fina e espiritual, guardando todo o seu conhecimento, alimentando-se bem e fartamente, para melhor proveito da primeira personalidade. A conversação, por mais refinada e interessante que fosse, não deixava supor conhecimentos adquiridos pela primeira personalidade. Mostrava uma inteligência supranormal, relativamente aos acontecimentos que se passavam nas proximidades. Foi naquele momento que o autor começou a observar o caso e eu não o perdi de vista, durante seis anos consecutivos.

Quatro anos após a aparição da segunda personalidade, apareceu uma terceira, que se anunciou com o nome de gamim. Ela era completamente distinta das duas outras, tomando o lugar da nº 2, que ela manteve durante quatro anos.

Todas essas personalidades, embora absolutamente distintas e características, eram agradáveis, cada uma em seu gênero, e a nº 2, em particular, foi e ainda é a alegria de seus amigos, todas as vezes em que aparecia e que era possível dela se aproximar. Era sempre nos momentos de fadiga excessiva, de excitação mental e de prostração, que ela vinha, ficando, por vezes, durante alguns dias. O “eu” original afirma sempre sua superioridade; os outros só estão lá por interesse e para sua vantagem.

A nº 1 não tem qualquer conhecimento pessoal quanto às duas outras. Ela, entretanto, as conhece bem, principalmente a nº 2, pelas narrativas das outras e pelas cartas que recebe delas. A nº 1 admira as mensagens finas, espirituais e, frequentemente, instrutivas, que lhe trazem essas cartas ou as narrações dos amigos.”

Esses casos de dupla personalidade são bem a prova de que há no homem outra coisa além do que aparece para o mundo.

Em O Problema do Ser e do Destino, como em todas as suas obras, Léon Denis não deixa de indicar os perigos do Espiritismo. Afirma ele:85

“Certas precauções são necessárias. O mundo invisível é povoado por entidades de todas as ordens e quem aí penetra deve possuir uma perfeição suficiente, estar inspirado por sentimentos muito elevados para se colocar ao abrigo de todas as sugestões do mal. Ao menos, tudo deve ser conduzido, em suas pesquisas, por um guia seguro e esclarecido.

É pelo progresso moral que se obtém a autoridade e a energia necessárias para comandar os espíritos levianos e atrasados que pululam em nosso derredor.

A plena posse de si mesmo, o conhecimento profundo e tranquilo das leis eternas nos protegem contra os perigos, as armadilhas e as ilusões do Além. Elas nos mostram os meios de controlar as forças em ação sobre o plano oculto.”

Léon Denis dá, igualmente, preciosos conselhos quanto ao desenvolvimento da mediunidade. Essa questão já foi estudada em No Invisível, no capítulo consagrado ao tema;86 não voltarei mais a ele. Entretanto, devo sublinhar que o mestre, na obra em estudo,87 assinala a importância da incorporação, que é um dos fenômenos “que mais concorrem para demonstrar a espiritualidade do ser e o princípio da sobrevivência”.

Tenho me dado bem com essa apreciação, porque estou muito preocupado com a incorporação (ou encarnação), no curso de minhas pesquisas pessoais.88

Para desenvolver os sentidos psíquicos, convém, segundo Léon Denis, isolar-se, afastar as imagens materiais e procurar ler, com calma e recolhimento.

“Quanto mais a alma se afasta do corpo e penetra nas regiões etéreas – diz Denis 89 –, mais frágil é o liame que os une, mais vaga a lembrança ao despertar.

A alma plana, bem longe, na imensidade, e o cérebro não mais registra suas sensações. Daí resulta que não podemos analisar nossos mais belos sonhos.

Em algumas vezes, a última das impressões sentidas, no curso dessas peregrinações noturnas, subsiste ao despertarmos. E se, nesse momento, tivermos a precaução de fixarmos a memória, podemos deixar gravada a lembrança.

Numa noite, tive a sensação de vibrações percebidas no Espaço, as últimas de uma doce e penetrante melodia e a lembrança das últimas palavras de um canto, que terminava assim: Há céus inumeráveis!.”

Léon Denis deu, muitas vezes, aos que sofrem o meio de entrar em comunicação com o Além.

“Muitas vezes – escreve ele 90 –, almas humanas em sofrimento se dirigiam a mim, para solicitar notícias do além, conselhos e indicações que eu não podia atender. Recomendei-lhes então a seguinte experiência, que, por vezes dava resultado:

“Inclinai-vos sobre vós mesmos, no isolamento e no silêncio. Elevai vossos pensamentos para Deus, evocai vosso espírito protetor, esse guia tutelar que a Providência põe em nossos passos na viagem da vida.

Interrogai-o sobre as questões que vos preocupam, com a condição de que elas sejam dignas dele, livres de qualquer interesse inferior. Depois, aguardai e ouvi, atentamente, em vós mesmos. No fim de alguns instantes, nas profundezas de vossa consciência, ouvireis, como um eco débil de uma voz distante, ou então percebereis as vibrações de um pensamento misterioso, que dissipará vossas dúvidas, vossas angústias, e vos consolará.”

Eis aí, com efeito, uma das formas da mediunidade, e não das menos belas. Todos podem obtê-la e participar dessa comunhão dos vivos e dos mortos, que é chamada para se ouvir, um dia, pela humanidade inteira.”

No capítulo consagrado a Depois da Morte, estudei o que é a morte, segundo Léon Denis.

O mestre, em O Problema do Ser e do Destino, recorda, várias vezes, essa questão, por exemplo, na 1ª parte, capítulos VII, X, XI, e 2ª parte, capítulos XVI, XVII. Há mesmo um capítulo especial sobre o tema: o capítulo X – “A morte”.

Ele insiste no fato de que a morte não transforma o indivíduo, porém ele deixa o ser, intelectual e moralmente, no exato estado em que estava por ocasião da morte.

Quando se sabe o que é a vida e o que é a morte, é impossível temer a Parca.91

Não seria inútil inserir nos textos destinados à juventude o que se poderia chamar de Hino à Morte:92

Ó Morte, ó majestade serena, tu de quem se faz um espantalho, não és para o pensador senão um instante de repouso, a transição entre dois atos do destino, enquanto um termina e o outro se prepara. Quando minha pobre alma, errante de tantos séculos pelos mundos, após tantas lutas, vicissitudes e decepções, após tantas ilusões extintas e esperanças adiadas, for repousar de novo em teu seio, é com alegria que ela saudará o despontar da vida fluídica.

É com entusiasmo que se elevará, do meio da poeira terrestre, aos espaços insondáveis, na direção dos que ela amou aqui e que a aguardam.

Para a maior parte dos homens, a morte continua o grande mistério, o sombrio problema que não se ousa enfrentar.

Para nós ela é a hora abençoada em que o corpo fatigado retorna à grande natureza para permitir a psique, sua prisioneira, uma livre passagem rumo à pátria eterna.

Essa pátria é a imensidão radiosa, semeada de sóis e de esferas. Perto deles como nossa pobre Terra pareceria mesquinha. O Infinito a envolve por todos os lados.

O Infinito na extensão e no tempo é o que nos aguarda, quer para a alma, quer para o Universo.”

Sabendo exatamente o que é a morte, Léon Denis se posiciona contra o cerimonial lúgubre que tanto contribui para difundir entre os homens o terror do fim.

Tendo sabido conhecer a morte, o espírita não saberia temê-la, porque:93

“Ela é para ele a entrada numa forma de vida mais rica de impressões e de sensações.

Não ficamos privados das riquezas espirituais, porém enriquecidos de novos recursos, tanto mais extensos e mais variados como jamais a alma estaria preparada para usufruí-los.

A morte não nos priva sequer das coisas deste mundo. Continuaremos a ver os que amamos e deixamos na Terra.

Do seio dos espaços, seguiremos o progresso de nosso planeta, veremos as transformações operadas em sua superfície, assistiremos às novas descobertas, ao desenvolvimento social, político e religioso das nações. E, até à hora de novo retorno à carne, participaremos, fluidicamente, ajudando, com nossa influência, na medida de nossas forças e de nosso progresso, aos que trabalham em proveito de todos.”

Léon Denis faz um estudo bem interessante sobre o sono, no capítulo V, intitulado “A alma e os diferentes estados do sono”. Para ele, o sono 94

“É simplesmente a saída, o desprendimento da alma fora do corpo. Diz-se: o sono é irmão da morte. Essas palavras exprimem uma profunda verdade.

Sequestrada na carne no estado de vigília, a alma recobra no sono sua liberdade relativa e temporária, ao mesmo tempo que seus poderes ocultos.

A morte será sua liberação completa e definitiva.”

A terceira parte de O Problema do Ser e do Destino é muito importante: ela é consagrada ao estudo dos poderes da alma.

Léon Denis demonstra que possuímos nosso livre-arbítrio, o que permite aos homens transformar seu caráter e disciplinar seus pensamentos.

Após ter indicado a necessidade e o papel benéfico da dor, Léon Denis insiste sobre o poder do amor. Em seguida, mostra a força de vontade, sem indicar, entretanto, a seus leitores quais são os meios práticos de desenvolver tal faculdade.

Em O Problema do Ser e do Destino, Léon Denis consagrou vários capítulos ao estudo da reencarnação, o que constitui o assunto da segunda parte da obra.

Estudei especialmente essa importante questão em meu livro Tu Revivras. No capítulo XXIV de O Problema do Ser e do Destino, Léon Denis escreveu:95

“É bom viver em contato pelo pensamento com os escritores de gênio, com os autores verdadeiramente grandes de todos os tempos, lendo e meditando suas obras, impregnando todo o nosso ser com a substância de suas almas.

As irradiações de seus pensamentos despertam em nós efeitos semelhantes e provocarão, com o tempo, modificações em nosso caráter, de acordo com a própria natureza das impressões experimentadas.”

Parece-me normal aplicar esse pensamento às obras de Léon Denis.

Vivamos, portanto, muitas vezes, em comunhão com ele; leiamos suas obras e teremos tudo a ganhar, tanto do ponto de vista da perfeição da forma, quanto dos nobres pensamentos e do generoso ideal sempre expressos nos livros do mestre.

Capítulo VIII

O Grande Enigma


O Grande Enigma, volume aparecido em 1911, é o quinto livro publicado por Léon Denis.

Na realidade, esse livro compreende duas obras bem distintas: o próprio O Grande Enigma e um apêndice importante, intitulado Síntese Espiritualista.


1º) O Grande Enigma


Para ler O Grande Enigma é preciso já ter conhecimentos gerais em filosofia e em ciências psíquicas, porque Léon Denis estudou nesse livro Deus, grande Mestre do Universo, e sua obra.

O Criador, em suma, é o herói desse livro, escrito por um poeta que sabe admiravelmente observar a natureza.

A leitura dos títulos dos diferentes capítulos basta, por si só, para julgar qual é a elevação da obra; reproduzo, pois, o índice das matérias:

Primeira Parte: Deus e o Universo


I – O grande Enigma

II – Unidade substancial do Universo

III – Solidariedade, comunhão universal

IV – As harmonias do Espaço

V – Necessidade da idéia de Deus

VI – As leis universais

VII – A idéia de Deus e a experimentação psíquica

VIII – Ação de Deus no Mundo e na História

IX – Objeções e contradições

Segunda Parte: O Livro da Natureza


X – O céu estrelado

XI – A floresta

XII – O mar

XIII – A montanha

XIV – Elevação

Sem dúvida, o ensino espírita ainda será ministrado às crianças. Aguardando essa auspiciosa época, desejaríamos que certas páginas de Léon Denis fossem reproduzidas nos textos seletos da literatura. Tenho lido muito, porém não conheço livros mais bem escritos. Ao demais, é uma opinião aceita, pois certos críticos reconhecem que o autor de Depois da Morte é, por vezes, comparável a Bossuet.

Ler O Grande Enigma é um prazer apaixonante; seguindo Léon Denis, fazemos uma viagem maravilhosa pelo ideal; ele mostra o caminho da felicidade real, ensina a percorrer o livro mágico da natureza, a compreender o marulho do mar e a calma das montanhas.

É preciso ter lido o capítulo XIV, intitulado “Elevação”, para saber exatamente o objetivo de nossa passagem pela Terra, para compreender a que ponto os cataclismos e as desgraças são necessários.

Desejava poder reproduzir, na íntegra, esse longo capítulo, onde o pensador exprimiu com tanto idealismo suas concepções. Sinto-me limitado por ser obrigado a me restringir em citar apenas algumas linhas:

“Nas horas de hesitação, volto-me para a natureza; é a grande inspiradora, o templo augusto onde, sob seus misteriosos véus, o Deus oculto fala ao coração do sábio, ao espírito do pensador.

Observa o firmamento profundo: os astros que o povoam são as etapas de tua longa peregrinação, as estações da grande estrada, onde teu destino te conduz.” 96

“Aquele que se recolhe no silêncio e na solidão, diante do espetáculo do mar ou das montanhas, sente nascer, subir, crescer nele as imagens, pensamentos e harmonias que o entusiasmam, o encantam e o consolam das misérias terrenas e lhe abrem as perspectivas da vida superior.

Compreende, então, que o pensamento divino nos envolve e nos penetra quando, longe dos turbilhões sociais, nós sabemos abrir-lhe nossas almas e nossos corações.” 97

Graças a Léon Denis, compreendemos perfeitamente como deve ser a verdadeira prece.

Não há páginas de O Grande Enigma onde o autor não repita: Orai, sabei orar. Isso não quer dizer orações decoradas e repetidas com monotonia. A prece é elevação, num transporte espontâneo do ser humano ao seu Criador.

Numerosos são aqueles que ainda não estão suficientemente preparados para poder, pelo pensamento, comunicar-se com o Criador e com seus protetores invisíveis. É porque, nas diferentes religiões, os ministros do culto criaram fórmulas mais ou menos simplistas, destinadas à multidão dos fiéis.

Aí está, sem dúvida, a razão pela qual Léon Denis, inspirado pelos espíritos, tem, por vezes, em suas obras, publicado alguns textos aos quais deu o nome de orações.

Certos adversários do Espiritismo poderiam aí encontrar uma contradição; já me disseram:

“Segundo vocês, a fórmula da prece não é indispensável; para entrar em comunhão com Deus, basta trabalhar conscientemente. Um transporte espontâneo e rápido rumo ao Criador é uma excelente coisa. Por que certos autores espíritas, inclusive Léon Denis, julgam necessário dar, em seus livros, o texto de orações?”

A resposta é muito simples; eis como nossos propagandistas deverão refutar tal objeção:

“Na massa humana, as criaturas estão em um grau diferente de sua evolução geral; alguns, pouco adiantados, têm necessidade de ajuda para exteriorizar seus pensamentos, e outros são incapazes de um esforço intelectual. É principalmente para esses que se tornou necessário indicar fórmulas que se chamam “preces”, na falta de outro nome. Todavia, não há nenhuma semelhança com as orações criadas pelos religiosos e é impossível fazer qualquer confusão.”

De minha parte, jamais dei grande importância a objeções dessa ordem, que poderiam ser qualificadas como objeções de princípios.

Uns têm necessidade de uma exteriorização; outros, ao contrário, podem passar sem ela. O essencial é dar conhecimento às multidões da realidade que se destaca dos fatos; é preciso difundir as múltiplas provas que demonstram a comunicação entre o mundo dos mortos e o dos vivos.

Para certos auditórios é bem difícil, até impossível, pronunciar o nome de Deus e falar de preces; se o fazemos, criamos logo uma confusão no espírito do público.

As religiões, é bom reconhecer, têm exercido, por vezes, um papel nefasto (e a multidão bem o sabe). É preciso, pois, evitar tudo quanto possa fazer crer que o Espiritismo é uma religião.

Tenho, em Tu Revivras,98 demonstrado que não queremos “adormecer” os infelizes com uma grande esperança no Além, para permitir aos ricos aproveitarem, egoisticamente, de uma fortuna, muitas vezes adquirida em detrimento dos desgraçados.

Não me devo estender, pois, sobre esse ponto. Desejo, entretanto, fazer bem compreensível, com a ajuda de nossa concepção sobre a prece, como é preciso agir para propagar nossas idéias nos meios anti-religiosos.

Profundamente deísta, persuadido da existência de Deus, estou, entretanto, certo de que, para conseguir divulgar o Espiritismo nas massas, é bom se resguardar de ser místico.

Devemos falar de labor aos que trabalham para viver, mostrar que todos os seres humanos estão unidos pela necessidade absoluta do trabalho e explicar porque os ociosos não têm o direito de se confinar no egoísmo, porém devem, ao contrário, imitar os banqueiros de Deus para criar em volta deles obras sociais bem estabelecidas, eis uma linguagem útil, representando a própria emanação do Espiritismo. Falando assim, chega-se, pouco a pouco, à possibilidades de maior felicidade. Ao mesmo tempo, predispomos os ouvintes a saber orar.

Essa forma de compreender a prece emana bem do ensino que se encontra em O Grande Enigma, obra de pensamento, de meditação e de reflexão.

Muito frequentemente, Le Matin criticou o Espiritismo; entretanto, encontramos nele, em 15 de julho de 1911, um elogio a O Grande Enigma:

“Desde Lucrécio, escritores se propuseram a libertar nossas almas da tirania dos preconceitos e da agonia atávica do Tênaro! Léon Denis tem sua receita e ela é eficaz e antiga. É a bondade, é o amor.

Poder-se-ia sorrir dessa Metafísica apaixonada, se a própria vida de Léon Denis não oferecesse a mais brilhante ilustração dessa calorosa e estóica doutrina.

Entre os Pascal inquietos que tentam a insolúvel solução do Grande Enigma, Léon Denis tem todo o fervor grandioso de um Bossuet e a persuasão docemente obstinada de um Fénelon.

Quando, após anos que é preciso crer longos ainda, o autor de Depois da Morte tiver transposto o ponto que receia, o Grande Pensador o acolherá com afeição especial.”

Dezesseis anos deviam ainda se escoar, antes da partida de Léon Denis para o além; esse tempo foi bem empregado.

Publicou outras obras e, apesar de sua enfermidade, trabalhou até ao extremo limite de suas forças humanas. No momento de sua morte, acabara de escrever um livro sobre o celtismo e preparava um outro sobre Espiritismo e o Socialismo.

Publicando O Grande Enigma, Léon Denis pretendia consolar.

“Nos momentos pesados da vida, ó leitor – escreve ele 99 –, nas horas de tristeza e de sofrimento, abre este livro; e ele te dará coragem e paciência.”

Em seu prefácio, o próprio autor conta a história de seu livro, inspirado pelos invisíveis. Não pude resistir ao prazer de citar essa narrativa. Assim, aqueles meus leitores que ainda não conhecem O Grande Enigma poderão verificar a qualidade literária da obra: 100

“Onde e como sonhei em escrevê-lo? Em uma tarde de inverno, num passeio pela costa azul da Provence.

O Sol se deitava sobre o mar sereno. Seus raios de ouro, deslizando sobre as vagas adormecidas, iluminavam com cores vivas o pico das rochas e dos promontórios, enquanto a Lua subia no céu sem nuvens.

Um grande silêncio se fazia, envolvendo tudo. Somente um sino distante, lentamente, tilintava o ângelus.

Pensativo, eu escutava os ruídos abafados, os rumores mal perceptíveis das cidades de inverno em festa e as vozes que cantavam em minha alma.

Eu meditava na indiferença dos homens que se entregam aos prazeres, para melhor esquecerem os objetivos da vida, seus imperiosos deveres e suas pesadas responsabilidades.

O mar, cantando, o espaço que, pouco a pouco, se constelava de estrelas; os aromas penetrantes dos mirtos e dos pinheiros, as harmonias longínquas na calma da noite, tudo contribuía para expandir em mim e em meu derredor um encanto delicado, íntimo e profundo.

E a voz me disse: Publica um livro que nós te inspiraremos, um pequeno livro que resuma tudo quanto a alma humana deve conhecer para se orientar na vida; publica um livro que demonstre a todos que a vida não é uma coisa vã, que se possa usar com leviandade, porém uma luta pela conquista do céu, uma obra elevada e grave de edificação, de aperfeiçoamento, uma obra que leis augustas e equitativas regem e acima das quais paira a eterna Justiça, temperada pelo Amor.”

Todos os seres têm por principal dever esquecer a si mesmos, trabalhar pelo bem de todos. Os que têm essa oportunidade devem esforçar-se em fazer conhecer ao povo a possibilidade da solidariedade; por povo entendo, evidentemente, o conjunto de todas as criaturas de uma nação e não apenas a totalidade dos que devem trabalhar para viver.

Em 1910, Léon Denis já escrevia:101

“Talvez, jamais, no curso de sua História, a França sentiu mais profundamente a oportunidade de uma nova orientação moral.

As religiões, dissemos, perderam muito de seu prestígio e os frutos envenenados do materialismo se mostram por todos os cantos.

Ao lado do egoísmo e da sensualidade de uns, se instalam a brutalidade e a cobiça de outros. Os atos de violência, os homicídios e os suicídios se multiplicam.

As greves se revestem de um caráter cada vez mais trágico. É a luta de classes, a derrocada dos apetites e dos furores.

A voz popular sobe e se agiganta; o ódio dos pequenos, contra aqueles que possuem e gozam, tende a passar do domínio das teorias para o dos fatos.

As práticas bárbaras, destruidoras da civilização, penetram nos hábitos dos operários. Usinas são saqueadas, máquinas são quebradas, “sabota-se” a instalação industrial. Esse estado de coisas, agravando-se, nos conduziria à guerra civil e à selvageria.

Tais são os resultados de uma falsa educação nacional.

Desde muitos séculos, nem a escola, nem a Igreja têm ensinado ao povo o que ele mais precisa conhecer: o porquê da existência, a lei do destino, com o verdadeiro sentido dos deveres e das responsabilidades que a ele se unem.

Daí, por todas as partes, de alto a baixo, o falir das inteligências e das consciências, a confusão de todas as coisas, a desmoralização e a anarquia. Estamos ameaçados de falência social.

Será preciso descer até ao fundo das misérias públicas para ver o erro cometido e compreender que é preciso procurar, acima de tudo, o raio de luz que ilumina a grande marcha humana em sua rota sinuosa, através dos barrancos e das rochas escarpadas?”

Em 1910, não se pensava ainda, em geral, na eventualidade de uma guerra.

Alguns médiuns conheciam o terrível destino pelas revelações dos invisíveis. A grande tormenta passou e foi seguida por um período de libertinagem mundial e de materialismo.

Após a terrível epopeia, as catástrofes se multiplicam: tremores de terra, inundações, muitas crises sociais e econômicas, igual é a sorte de todas as nações. Tudo isso foi destinado a abrir os olhos dos homens?

Inúmeras comunicações espíritas, recebidas em todos os pontos do globo, por médiuns que não se conhecem, parecem indicar essa conclusão. Não obstante, as criaturas não querem se entender. Nunca a antítese foi maior entre os ricos, os laboriosos e os desgraçados.

É digno do século XX que alguns possam gastar 500 francos por pessoa, com uma única refeição, enquanto que, em Paris, há pobres criaturas obrigadas a se deitarem no chão, nos degraus das estações do Metrô?

Como explicar aos maus ricos seu dever social?

Não conheço outra forma de explicação a não ser pela teoria das vidas sucessivas, pelas quais eles têm, no curso da atual existência, uma fortuna que lhes permite, por sua escolha, viver egoisticamente, mergulhar no luxo e no conforto, ou então, valendo-se dessa riqueza, diminuir as múltiplas misérias humanas.102


2º) Síntese Espiritualista


Escrita sob a forma de diálogo, a Síntese Espiritualista 103 se destina em especial aos principiantes. Ela é dirigida aos jovens e aos adultos ainda não iniciados.

O autor a denomina um “catecismo” e a concebeu sob a forma de perguntas e respostas bem simples.

Geralmente, para se ensinar às crianças, passa-se do complexo ao simples. Habitualmente, o catecismo começa por “Que é Deus?”. Ora, a criança tem necessidade de aprender primeiro a natureza das coisas que tem o hábito de ver em seu derredor e, pouco a pouco, podemos conduzi-la às concepções filosóficas e metafísicas.

Léon Denis segue, pois, a ordem natural e a marcha instintiva, partindo do homem para chegar até Deus.

Se falamos de Deus, isso não quer dizer que sejamos místicos e que desejamos fundar uma nova religião.

Como já escreveu Gabriel Delanne, em 1885:104

“Se suprimirmos do ensino espírita a noção do Ser Supremo, torna-se impossível explicar o que seja o Universo.

Não se trata aqui de misticismo ou ideologia, é o simples bom senso que fala.

Deus, causa primária, infinita, eterna, resulta fatalmente da imortalidade da alma, e os materialistas o compreendem tão bem, que não podem separar, em suas negações, Deus e a alma.

Não é possível acreditar em uma sem ser obrigado a concluir pela existência da outra.

Ora, estamos certos de que a alma não morre; portanto, Deus existe.”

Capítulo IX

Joana d’Arc, Médium


Os leitores de Léon Denis sabem que a morte não existe, pelo menos no sentido que a maioria dos seres humanos atribui a essa palavra.

Os que lêem Le Journal ficaram, como eu, estupefatos sabendo que, em 5 de janeiro de 1928, um acadêmico havia declarado a um jornalista: “Estudamos hoje palavras bem tristes: morte e morrer”.

Se esse acadêmico tivesse estudado nossa doutrina, ele saberia que a morte é uma simples mudança de estado; sem ter necessidade de serem eleitos membros da Academia Francesa, todas as criaturas humanas, sem exceção, são imortais, no sentido real da palavra.

A leitura dos jornais é, de resto, cheia de ensinamentos.



L’Oeuvre, de 6 de janeiro de 1928, publica um artigo de La Fouchardière, que ironiza mais uma vez o Espiritismo. Ele o faz sem fornecer meios de verificar suas alegações.

Dois sábios holandeses, afirma ele, teriam inventado um aparelho novo, chamado por eles “dinamistógrafo”.

Essa notícia teria sido extraída pelo ironista de uma revista cujo nome ele se descuidou de citar. Ele omite, igualmente, o nome dos sábios holandeses. Tal descoberta é real? Eu a ignoro e a cito sem garantir qualquer autenticidade e para mostrar, mais uma vez, a maneira de agir de nossos adversários.

Eis em que consistiria a invenção: os invisíveis têm o poder de desmaterializar os objetos e, assim, eles podem transportá-los, fazendo-os passar através de todos os obstáculos e lhes dando de novo sua forma, se julgarem necessário. É o fenômeno bem conhecido dos “transportes”.

Ora, os sábios holandeses deveriam estar cientes de que o estanho tem a curiosa propriedade de não poder ser atravessado, nem pelos espíritos, nem pelos objetos desmaterializados.

Partindo desse princípio, eles teriam construído um aparelho de estanho, inteiramente fechado, que estaria pronto para atrair os espíritos e, fechando a porta, ficariam prisioneiros, o que permitiria interrogá-los, sem que eles pudessem fugir.

Conhece-se bastante o espírito de La Fouchardière para não se admirar de que ele tenha pretendido distrair seus leitores, numa época em que não se está muito distante dos presentes do dia de ano bom, comparando os espíritos presos nessa prisão de estanho aos chocolates que são embrulhados em papel especial, para que sejam mais atraentes.

Ele se aproveita da facilidade de seu jogo de palavras para afirmar, mais uma vez, sem poder prová-lo, que o Espiritismo jamais existiu.

Apesar das ironias de La Fouchardière, há talvez algum fundamento na afirmação de que o estanho impediria os espíritos ou o fluido que os compõe de o atravessarem. Eu me recordo de minhas inúmeras experiências; elas me deram a certeza de que o meu fluido pessoal não pode atravessar a seda. Percebi isso da seguinte maneira:

Era em 15 de agosto de 1919 e me achava em Riva-Bella, na província de Caen. Mantinha em tratamento psíquico 105 uma criança bastante doente.

Eu acabava de tomar meu banho e me achava perto de meu gabinete, quando a mãe da menina me mandou buscar, porque a pequena estava numa forte crise. Eu me dirigi à sua cabine de banho e a atendi com passes, pedindo mentalmente a meus amigos invisíveis que se servissem de mim como intermediário para curar a criança.

Com grande espanto, apesar de meus esforços, ela continuou a sofrer; habitualmente eu só precisava de alguns segundos para acalmar suas dores.

De repente, lembrei-me de que era um dia santo e tive a idéia de perguntar à menina se não estava com roupa de seda no corpo. “Estou com uma camisa de seda”, respondeu-me.

Saí então da cabine e pedi à mãe que lhe tirasse a camisa e a deixasse em roupa de banho. Quando ela estava com essa vestimenta, consegui logo livrá-la das dores que sentia.

Depois, em muitas outras vezes, tive ocasião de constatar a mesma coisa: a seda impede a passagem de meu fluido.

Para estudar Joana d’Arc, Médium, julguei necessário documentar-me sobre a célebre lorena, não apenas na obra magistral de Léon Denis, mas ainda na Biblioteca Nacional, para me informar exatamente sobre a grande heroína francesa. As obras escritas sobre ela são numerosas. Apesar de duvidar, contei 676 fichas sobre Joana d’Arc.

Entre esses volumes, isso dito a título histórico, o de Léon Denis (edição de 1910) está classificado, na Biblioteca Nacional, sob o nº 175, na ordem alfabética, e catalogada sob nº 1322, 8º, Ln 27 - 54.287.

Entre as obras sobre Joana d’Arc, muitas foram escritas por eclesiásticos; algumas são de pastores protestantes. Indicarei, por exemplo, Soeurs de Jeanne d’Arc (conferência pronunciada a 25 de maio de 1925, no Templo do Santo Espírito, por Raoul Allier).

A memória de Joana d’Arc não foi sempre respeitada e até mesmo foi atacada. De memória, citarei as obras de Thalamas, Henry Bérenger e Anatole France.

Até mesmo a existência de Joana foi negada. E o Sr. Raphael Symptor publicou em 1909 uma obra para tentar provar que Joana jamais existiu.

Outros sustentam que ela não foi queimada e que se casou. Ver, a propósito, a obra de Grillot de Givry, intitulada La Survivance et le Mariage de Jeanne d’Arc.106

O autor se baseia numa resposta dada por Joana d’Arc, no decorrer de seu processo: “Sim, em verdade – afirmava ela –, minhas vozes me disseram que darei à luz, mas não sei o dia, nem a hora”.

Tomando o texto dessa resposta, Grillot de Givry estabelece um dilema. Se Joana morreu na fogueira, não foi mãe, por consequência, não confiamos nas vozes de Joana d’Arc. Se, ao contrário, foi mãe e as vozes não mentiram, isso prova que uma outra mulher a substituiu na fogueira.

Grillot de Givry afirma que se descobriu o destino da heroína. Em 20 de maio de 1436, cinco anos após o suplício de Rouen, a verdadeira Joana d’Arc apareceu em Lorraine e teria ido ver seus irmãos e teria sido reconhecida por eles. Depois, se casou com o cavalheiro Robert des Harmoises e não hesitara em retornar a Orléans, com o nome de Jeanne de Harmoises; em 1439, foi festejada pela prefeitura da cidade.

Para apoiar suas palavras, Grillot de Givry cita as despesas fabulosas feitas naquela ocasião, sem que ninguém as criticasse, e acrescenta que não seriam feitas, se não se tratasse de Joana d’Arc, que se desejava homenagear, pois, graças a ela, a cidade de Orléans foi salva.

De minha parte, considero isso uma fantasia, mas era útil registrar as afirmações de Grillot de Givry.

Os psiquiatras se ocuparam do caso de Joana d’Arc, conforme testemunho de um estudo psicológico e psicopatológico de Zücher, que figura na Biblioteca Nacional.

Convém igualmente assinalar Jeanne d’Arc Victorieuse 107 de Saint-Yves d’Alveydre, que retrata a vocação celeste da profetisa e a missão terrena da heroína.

Essa obra é, em parte, conhecida pelos leitores de Léon Denis, pois, por várias vezes, nosso mestre cita os versos do ocultista, nos capítulos de seu livro Joana d’Arc, Médium.

O teatro não podia ficar indiferente à personalidade de Joana d’Arc; muitas são as peças que tratam da heroína. Lembrarei, simplesmente, “La Pucelle d’Orléans”, de Schiller, um drama em três atos de Ferret e um ato do Abade Pouchalon, intitulado “Le Dernier Soir de Domremy”.108

Segundo o prefácio de Léon Denis, somente no século XX é que se começou a atacar a memória de Joana d’Arc e é curioso constatar que Thalamas fez sua campanha de conferências, através de toda a França, sob a égide da Liga do Ensino.

Ora, lembramos que é pela Liga do Ensino que Léon Denis se tornou conferencista. Isso foi, provavelmente, um grande golpe para o nosso mestre, quando, a 29 de abril de 1905, Thalamas veio a Tours, denegrir a memória de Joana d’Arc, pela qual os espíritas têm, com conhecimento de causa, uma grande veneração.

A personalidade de Joana d’Arc devia igualmente terminar com as discussões políticas; em todos os partidos discute-se Joana d’Arc.

Lembro, de memória, o discurso feito por Déroulède, em 8 de maio de 1909, em homenagem a Joana d’Arc; as conferências que Defossé, em 31 de maio de 1894, fazia para a Aliança Republicana de Dunkerque.

Durante a guerra, foi formada uma milícia da bem-aventurada Joana d’Arc, para apressar a vitória da França.

Para conhecer as obrigações impostas aos escudeiros e às escudeiras engajadas, durante a guerra, é preciso ler uma brochura de 16 páginas, publicada em 1914.109

Em 1894, Choussy, autor de vários livros sobre esse assunto, publicou uma nova obra, a fim de dar “as provas do martírio, em Rouen, de Joana d’Arc, em resposta aos historiadores dos séculos XVII, XVIII e XIX, que sustentam não ter sido ela queimada em Rouen”.

Tudo isso mostra como é difícil reconstituir a história de Joana d’Arc, principalmente se dermos crédito aos boatos que correm a seu respeito: uns pretendem que Joana d’Arc não existiu, outros que ela não foi queimada e que continuou sua existência sob o nome de Jeanne des Harmoises.

No momento em que eu preparava meu livro sobre Léon Denis, comprovei, pessoalmente, como é difícil reconstituir a história. Em dezembro de 1927, resolvi escrever, em colaboração com meu amigo Paul Bodier, a biografia de Gabriel Delanne, morto em 1926.110 Tivemos dificuldades para documentar sua juventude e, entre os elementos obtidos, alguns são contraditórios.

O livro de Léon Denis Joana d’Arc, Médium foi publicado, creio eu, em 1910; digo “creio” porque em nenhum documento que tive à minha disposição, achei uma data precisa.

Essa obra comporta duas partes: inicialmente, um estudo sobre a vida e a mediunidade de Joana. A seguir, uma descrição das diversas missões que Joana tinha a cumprir, tanto durante sua vida terrestre, como no curso dos anos e séculos que se seguiram.

Essa obra de Léon Denis foi bem acolhida pela crítica. Le Mercure de France publicava, em 1º de fevereiro de 1910, o seguinte artigo:

“Muito se tem escrito sobre a grande lorena, porém, até aqui nenhum autor a havia estudado sob o ponto de vista psíquico.

Léon Denis, escritor portentoso e apaixonado, acaba de preencher a lacuna, publicando Joana d’Arc, Médium.

Em poucas linhas, ele indica as razões que também o levaram a escrever a história da “Pucelle”: a maior parte dos fenômenos do passado, apresentados em nome da fé, negados em nome da razão, já podem receber uma explicação lógica e científica. Os fatos sobre a Virgem de Orléans são dessa ordem.

Seu estudo, tornado mais fácil pelo conhecimento de fenômenos idênticos observados, classificados e registrados em nossos dias, pode somente explicar a natureza e a intervenção das forças que agiam em torno dela e orientaram sua vida para um nobre objetivo.

Léon Denis não se parece com os historiadores de nosso tempo, que se contentam em acumular textos e documentos, com notas, mas que pouco falam da sua vida.

Pelas grandes cenas da história, ele quer ver desfilar as almas das nações e dos heróis: “Se os souberdes amar – disse ele –, eles virão até vós e vos inspirarão. É o segredo do gênio da História. É o que fazem os grandes escritores, como Michelet, Henri Martin e outros. Eles compreenderam o gênio das raças e dos tempos e o sopro do além corre em suas páginas”.”

Não tenho necessidade de confirmar a existência de Joana d’Arc. Sabe-se que ela nasceu em 1412, em Domremy. Filha de pobres lavradores, jamais aprendeu a ler ou escrever. Ela ouvia vozes e escutava os conselhos e as ordens que eram dadas por essas vozes; deixou a casa de seus pais, aos 17 anos, para correr em socorro do Delfim, ela que, entretanto, não aprendera a cavalgar nem a guerrear.

Léon Denis recorda a existência de Joana d’Arc em todas as cidades por onde ela passou e conduz seu leitor a Reims, onde ela triunfou, a 17 de julho de 1429, e depois a Compiègne, onde ela foi aprisionada para ser mantida em cárcere durante 5 ou 6 meses.

É em Crotoy que, pela primeira vez, ela pôde, de seu calabouço, ver o mar. Léon Denis destaca o quanto a vista do Canal da Mancha impressionou Joana.

Em 21 de novembro de 1430, a heroína foi vendida aos ingleses por 10.000 libras e mais uma renda vitalícia ao soldado que a prendera. Pormenor curioso: a fim de pagar essa renda, os ingleses criaram um imposto sobre os normandos e se pensa, assim, que Joana d’Arc foi comprada pelos ingleses graças ao dinheiro francês.

Léon Denis mostra, em seguida, qual foi a atitude notável de Joana, em Rouen, onde, durante 6 meses sofreu um verdadeiro martírio.

Em 24 de maio de 1431, procuraram obter uma abjuração de Joana. Essa questão fez correr muita tinta e foi suficientemente importante para ter motivado, em 1º de abril de 1902, uma comunicação ao Congresso das Sociedades Sábias, que foi feita pelo Abade Dunand.

A respeito dessa abjuração de Joana d’Arc, Léon Denis escreveu:111

“Uma cena – poder-se-ia dizer uma comédia – é preparada no cemitério de Saint-Ouen. Lá, à vista do povo e dos ingleses, diante de juízes reunidos, à frente dos quais se colocam um cardeal e quatro bispos, Joana é intimada a declarar que se submete à Igreja. Pressionam-na, pedem-lhe que se poupe, que não se condene ao suplício do fogo.

O carrasco lá está, com efeito, em sua sinistra carreta, junto ao estrado para o qual a fizeram subir. O mesmo carrasco que irá conduzi-la ao Vieux-Marché – se ela não se submeter à Igreja – onde uma fogueira a espera!

E então, sob a melancólica claridade de um dia sombrio, que vem do céu como um lamento, sob a impressão da tristeza que se desprende dos túmulos, dessas sepulturas que a cercam, ela se sente tomada de um grande abatimento.

Seu pensamento se desliga desse campo dos mortos; ela revê sua velha terra da Lorraine, seus bosques densos, onde cantam os pássaros, esses lugares amados de sua mocidade.

Imagina ouvir essas canções das jovens e dos pastores, esses cantos doces e melancólicos trazidos pela asa do vento.

Revê sua cabana, sua mãe e seu velho pai de cabelos brancos, que ela reencontrou em Reims e que sentirão tanta pena por sua morte! Nela desperta a saudade da vida.

Morrer aos 20 anos não é cruel?

E, pela primeira vez, o anjo fraqueja. O Cristo, também, teve sua hora de fraqueza. No Monte das Oliveiras, não quis ele afastar o cálice de fel? Não disse: “que esse cálice se afaste de mim!”?

Joana, esgotada, assina o documento que lhe apresentam. Lembremo-nos de que ela não sabia ler, nem escrever. E, aliás, o documento que a fazem assinar não é o que registrarão. Houve uma infame substituição. Não houve escrúpulo, nem mesmo diante desse odioso ato.

Atualmente, está provado que a fórmula de abjuração figurante no processo, assinada com uma cruz, é falsa. Essa fórmula não é, nem em conteúdo, nem em extensão, aquela que Joana assinou.

Nenhuma das testemunhas do processo de revisão atestou a identidade desse documento e cinco testemunhas a negaram. A peça que possuímos é bastante longa.

Três testemunhas: Delachambre, Taquel e Monnet, disseram: “Nós estávamos perto, vimos o documento e só continha seis ou sete linhas.”

“Sua leitura durou tanto quanto um Pai-Nosso”, acrescentou Migiet.

Outra testemunha declarou: “Sei, positivamente, que o documento lido para Joana, e que ela assinou, não era o mencionado no processo.” Ora, essa testemunha é o escrivão Massieu, que fez Joana pronunciar a abjuração.

Joana, perturbada, não entendeu, nem compreendeu essa fórmula. Ela assinou, sem pronunciar o juramento, sem ter plena consciência de seu ato. Ela mesma afirmou a seus juízes, alguns dias depois, dizendo: “O que estava no documento da abjuração eu não entendi. Não renunciei a nada que não fosse contra Deus.”

Assim, o que as ameaças, as violências e todo o aparelho das torturas não haviam podido obter dela, obtiveram por preces e solicitações hipócritas.

Aquela alma tão terna se deixou levar pelos falsos semblantes de simpatia e falsos testemunhos de bondade.

Todavia, na mesma noite, as vozes se fizeram ouvir, imperiosas, na prisão e, a 28 de maio, Joana o declara a seus juízes: “A voz me disse que seria traição abjurar. A verdade é que Deus me enviou e o que fiz foi bem feito. E ela repôs as roupas de homem que lhe haviam feito abandonar.”

Após retratar sua abjuração, Joana foi queimada em 30 de maio de 1431. Creio impossível ler esse capítulo de Léon Denis sem sentir uma emoção profunda e sem termos lágrimas nos olhos.

Como não se emocionar ao extremo, descobrindo a maravilhosa grandeza da alma de Joana.

Essa moça vinha, durante dois anos, vivendo a mais sublime epopeia; ela sabia quais serviços maravilhosos havia prestado a seu país e à humanidade.

Tendo um profundo horror pelo fogo, temia morrer por ele e pediu a graça de um outro suplício.

Apesar da crueldade dos que durante seis meses a torturaram, é em seus carcereiros e em seus carrascos que ela pensa, no momento de subir para a fogueira.

Lembrando-se, sem dúvida, do grito de perdão proferido por seu Mestre Jesus, quando foi supliciado, ela quis seguir seu exemplo.

Perdoando a seus inimigos, desejando que eles não paguem muito caro por suas crueldades, exalou seu derradeiro suspiro dizendo: “Minhas vozes não me enganaram.”

Como pede Léon Denis:112

“Saudemos essa nobre figura virginal, essa jovem de coração imenso que, após ter salvado a França, foi morta por ela, antes de ter 20 anos.

Sua vida resplandece como um raio celestial, na noite espantosa da Idade Média.

Ela veio trazer aos homens, com sua fé poderosa e sua confiança em Deus, a coragem, a energia necessária para superar obstáculos; veio trazer à França traída, agonizante, a salvação e o reerguimento.

Como prêmio de sua abnegação heróica, ela só recebeu amargura, humilhação e perfídia; e, para coroamento de sua curta mas maravilhosa carreira, uma paixão e uma morte tão dolorosa como a do Cristo.”

Vinte e cinco anos após seu suplício, os católicos julgaram necessário fazer um processo de reabilitação e, em 1455, Joana estava reabilitada. Aí pára a obra de Léon Denis.

Depois de 1910, época da publicação de seu livro, Joana d’Arc foi santificada.

Achei necessário buscar nas obras católicas as razões pelas quais os padres julgaram útil, após tê-la queimado, beatificar Joana d’Arc e depois santificá-la.

Manuseei dois grossos livros escritos por Monsenhor Touchet, bispo de Orléans, sob o título: La Sainte de la Patrie.

Essas duas obras, que têm o mesmo formato de Joana d’Arc, de Anatole France, são bem interessantes de ler e aí encontrei os milagres feitos por Joana d’Arc e que deram permissão ao Papa de beatificar e santificar nossa heroína.

Conhecemos as condições exigidas pela Igreja Católica para dar a uma criatura que viveu em nosso planeta o título de “bem-aventurada”. Entre essas condições, uma é indispensável: é o milagre. Três milagres conseguiram beatificar Joana d’Arc.

Nas páginas 505 e seguintes do tomo II do livro do Monsenhor Touchet, descobri que sete curas consideradas prodigiosas tinham sido submetidas a esse bispo. Uma outra cura foi proposta ao bispo de Arras e uma outra ainda ao bispo de Evreux.

Sobre essas nove curas, três somente foram retidas, uma das quais fornecida pelo bispo de Orléans e a dos dois outros bispos.

Três dioceses poderiam, assim, ser do mesmo modo favorecidas, enquanto que, ao contrário, se tivessem retido todos os casos apresentados pelo bispo de Orléans, somente ele poderia vangloriar-se de ter sido o artífice da beatificação de Joana d’Arc.

Eis quais são esses três milagres:

“O primeiro milagre, por ordem de apresentação – escreve Monsenhor Touchet – aconteceu na casa de Orléans, das Irmãs da Ordem de S. Benedito, em 1900.

A Irmã Thérèse de Saint-Augustin, que sofria, há três anos, de uma úlcera gástrica, via seu mal progredir de tal forma que, sem esperança de cura, preparava-se para receber os últimos sacramentos dos moribundos. Todavia, no último dia de uma novena, feita para implorar o socorro da venerável Joana, ela se levanta do leito, assiste ao Santo Sacrifício da missa, alimenta-se sem dificuldade, ficando rápida e completamente curada.”

Eu imaginava, ingenuamente, que eram precisos milagres acontecidos em vida de quem se pretende beatificar. Entretanto, uma simples novena, seguida de um resultado, talvez devido a uma auto-sugestão, bastou para que se beatificasse.

“O segundo milagre aconteceu em 1893, em Faverolles, na diocese de Evreux: trata-se de Julie Gauther, religiosa. Por mais de dez anos, ela sofria de uma úlcera no seio esquerdo e os doutores a declararam incurável.

Certo dia, ela foi à igreja e implorou socorro a Joana d’Arc e se achou curada.”

É bem lamentável que essa religiosa tenha esperado dez anos para pedir que Joana a socorresse. Esse milagre foi considerado suficiente para beatificar Joana d’Arc.

“O terceiro milagre se passou em Fruges, na diocese de Arras: uma religiosa, Irmã Jeanne Marie Sagnier, sofria, há três meses, de uma úlcera e de dores nas duas pernas. Fez cinco dias de orações a Joana d’Arc e, desde o sexto dia, ficou completamente curada.”

Os dois milagres, graças aos quais Joana d’Arc foi canonizada, são igualmente casos de curas:

Primeiro milagre: Em 25 de dezembro de 1908, a Sra. A. M. sofre do calcanhar esquerdo, que se torna em um grande mal. Entre 15 e 20 de janeiro de 1910, ela ficou curada com uma novena a Joana d’Arc.

Segundo milagre: Uma jovem operária lionesa, fabricando franjas para ornamentos de igreja, fazia tempo que sofria de uma endocardite e de uma apendicite crônica; devia ser operada em 31 de outubro de 1906. Ela foi a Lourdes e ficou curada por intervenção de Joana d’Arc, à qual dirigia preces fervorosas.

Para nós espíritas, pouco importa que, após tê-la queimado, os católicos coloquem Joana d’Arc em seus altares.

Léon Denis cita diversas comunicações da própria Joana, recolhidas por ele, com garantia de autenticidade. Segundo ele, Joana d’Arc não se preocupa com muita pompa e homenagens feitas em seu louvor.

Como Joana teve o poder, embora simples camponesa, de se pôr a guerrear, de conhecer táticas militares e assim salvar seu país? Teve esse poder porque era médium.

Em Aperçus Nouveaux, páginas 61 e 66, Quicherat, diretor da École des Chartres, reconhecia de uma forma absoluta a existência das faculdades psíquicas de Joana d’Arc.

Para Anatole France, as vozes de Joana são uma ilusão de seu coração (ver tomo I, página XLV). Reconheçamos que isso não quer dizer nada.

O historiador inglês Lang, em La Pucelle de France, consagra uma nota à questão das faculdades psíquicas de Joana d’Arc. Ele examina a hipótese do Dr. Georges Dumas e procede ao estudo da obra de Myers, que admite a intervenção de espíritos exteriores e compara o caso de Joana d’Arc ao de Hélène Smith, estudado pelo Professor Flournoy, em seu livro Des Indes à la Planète Mars.

Eis o sentimento de Lang a esse respeito:113

“Eu sou levado a crer que, de uma forma que não é fácil definir, Joana foi “inspirada” e estou convencido de que ela foi uma pessoa de um gênio elevado e do mais nobre caráter. Sem esse gênio e esse caráter, suas visões de coisas ocultas (supondo-as como tais), não teriam tido qualquer utilidade na grande tarefa de salvar a França.

Uma outra pessoa poderia ter ouvido as vozes darem advertências, mas ninguém teria podido mostrar uma tão indomável energia e esse dom de encorajar os outros, unido a uma doçura de alma e a uma admirável e vitoriosa tenacidade.”

Léon Denis demonstra nitidamente a mediunidade de Joana d’Arc.

Ela teve fenômenos de visão: viu os espíritos que lhe falavam. Ouviu as vozes desses espíritos e teve, igualmente, clarividência. Em Chinon, por exemplo, ela anunciou a um soldado sua morte à tarde, dizendo-lhe que lhe seria melhor orar que praguejar. Pressentiu que devia ser ferida em 7 de maio de 1429 e, com efeito, nesse dia foi ferida.

O psiquismo de Joana d’Arc lhe permite ter sobre os outros uma considerável ascendência. Como explicar, a não ser assim, a forma como soube fazer-se obedecer por soldados que, no momento da “Guerra dos Cem Anos”, não tinham grande disciplina e que guerreavam mais para pilhagem?

Como explicar também a ascendência que teve sobre oficiais que haviam feito estudos especiais, com conhecimentos militares e aos quais, entretanto, ela comandava com autoridade, ela que não tinha nenhuma instrução?

De resto, é graças à ajuda do Além e graças ao seu valor moral que poderá sofrer as maiores fadigas.

Aconteceu-lhe por vezes comer somente um pedaço de pão, durante todo o dia. Ela ficará seis dias inteiros sob as armas e fará longas caminhadas a cavalo.

Como seria capaz de sofrer todas aquelas fadigas se do Além não se lhe dessem as forças necessárias?

É difícil falar da mediunidade de Joana d’Arc sem pensar em certas objeções formuladas principalmente pelos psiquiatras.

Uns dizem que é obsessão; outros crêem em alucinação; alguns pretendem que se trata de histeria; outros, que é apenas a voz interior de Joana d’Arc.

Não pode haver obsessão, disse Léon Denis, no caso de Joana d’Arc, porque quem diz obsessão indica uma presença constante, inevitável, desagradável, de um ser verdadeiro ou falso que vem, constantemente, privar alguém de seu livre-arbítrio. No caso de Joana d’Arc, nada de análogo; suas vozes aparecem tanto de uma forma espontânea, quanto a seu chamado.

Não há histeria, porque Joana se encontrava em perfeito estado de saúde física e possuía qualidades de espírito tais, que essa objeção não tem motivo.

Não há voz interior, porque essa voz interior não seria capaz de despertar Joana. Da mesma forma que ela não poderia indicar nitidamente, por um som, o lugar de onde vem. O ser que possui essa voz não poderia mostrar-se; ora, Joana teve igualmente visões. O fenômeno é, pois, bem claramente objetivo.

Por que – e aí está uma objeção importante – Joana d’Arc ouviu as vozes de São Miguel e de Santa Margarida?

Dizem: ou bem você admite, realmente, o histórico dos fenômenos indicados por Joana d’Arc, você o aceita e fica obrigado a admitir que ela se encontra bem, na presença de são Miguel, ou então, na qualidade de espírita, você não admite os santos e se encontra em presença de um outro fenômeno.

Léon Denis responde assim a essa objeção:114

“Agora, uma questão se apresenta, da mais alta importância: quais eram as personagens invisíveis, que inspiravam Joana e a dirigiam? Por que santos, anjos e arcanjos? Que devemos pensar dessa intervenção constante de São Miguel, Santa Catarina e Santa Margarida?

Para resolver esse problema, seria preciso analisar, de início, a psicologia dos videntes e dos sensitivos e compreender a necessidade em que se encontram de dar às manifestações do Além as formas, os nomes e as aparências que a educação recebida, as influências sofridas e as crenças do meio e da época onde vivem sugeriram.

Joana d’Arc não escapava dessa lei. Servia-se, para traduzir suas percepções psíquicas, dos termos, expressões e imagens que lhe eram familiares.

É o que fazem os médiuns de todos os tempos. Conforme os meios, dão aos habitantes do mundo oculto os nomes de deuses, gênios, anjos, demônios, espíritos, etc.

As inteligências invisíveis que influem ostensivamente na obra humana se sentem na obrigação de entrar na mentalidade daqueles a quem se manifestam, de adotar as formas e os nomes de seres ilustres, deles conhecidos, a fim de impressioná-los, inspirar-lhes confiança, de melhor prepará-los para a tarefa que lhe está reservada.

Em geral, no além, não se liga a mesma importância, como entre nós, aos nomes e às personalidades. Lá se empreendem obras grandiosas e, para realizá-las, se utilizam os meios de que necessita o estado de espírito – pode-se dizer o estado de inferioridade e de ignorância – das sociedades e dos tempos onde as Potências desejam intervir.”

Há na história contemporânea fenômenos que são análogos aos de Joana d’Arc.

O Cura d’Ars dizia que falava frequentemente com Santa Filomena. Lembremo-nos de que a etimologia desse nome significa: “Que ama a humanidade”. Por consequência, a entidade que se manifestava ao Cura d’Ars tinha se utilizado da aparência bem nítida de Santa Filomena, que realizava os fenômenos por amor aos habitantes de nosso planeta.

Durante alguns anos, um espírito se manifestou em minhas experiências, dizendo que seu nome pouco importava, que havia vivido um certo número de vezes, mas que lhe seria impossível dizer-nos os nomes que houvera tido. Pedia para chamá-lo de “Espírito de Luz”. Esse nome se explicava bem, porque, por intermédio de dois médiuns que não se conheciam, recebi desse espírito comunicações de uma natureza excepcionalmente elevada. Eram de uma clareza extraordinária e de uma grande luminosidade. Obtive também do “Espírito de Luz” comunicações através de um médium iletrado.

Como explicar de outra forma, a não ser pela intervenção de um ser do Além, as diversas manifestações que ele me quis dar, especialmente para me aconselhar na árdua tarefa que empreendi, tomando por missão divulgar sobre a Terra o ensino espírita?

Entre os médiuns conhecidos, alguns também tiveram premonições e ouviram vozes. Por exemplo, pode-se citar a Sra. Agullana, que, como Joana, era uma jovem do campo, sem qualquer instrução; entretanto, no curso de sua existência, bem longa, ela se entregou a grandes serviços pela humanidade.

Em La Vie Vécue d’un Médium Spirite, lê-se algo que se assemelha aos fenômenos de Joana d’Arc.115 Ela escreveu:

“Muitas vezes, ouvia vozes em mim que me falavam e, uma tarde, ouvi uma dizendo-me que meu pai não apareceria mais em casa e morreria à noite.

Era um sábado, dia de feira em Dax, em junho de 1865; meu pai fora até lá carregando consigo 800 francos para diversas compras. Ele tinha o costume de ir àquela localidade, todos os sábados, e voltar às sete horas da noite. Naquele dia, eram apenas sete horas, minha mãe, sem dúvida, por um pressentimento, já se inquietava e olhava para a estrada. Foi quando eu lhe disse:

– A senhora espera meu pai em vão, ele não voltará mais, porque está morto.

Furiosa, minha mãe me empurrou:

– Afaste-se de mim, filha da desgraça, tudo que você anuncia acontece, vá embora.” 116

Léon Denis mostra a seus leitores qual papel Joana d’Arc desempenhou e como realizou a unidade da França. Indica, igualmente, como o Espiritismo se concilia com sua religião e com ela, que não é católica ortodoxa.

Eu já estudei, segundo Léon Denis, a diferença que há entre o Catolicismo e o Cristianismo. Ora, pode-se constatar que Joana d’Arc sempre foi uma cristã, mas que, em realidade, jamais quis aceitar a lei dos representantes da Igreja.117

Não podendo, infelizmente, deter-me numa questão assim tão importante, vou, bem rapidamente, indicar qual ensinamento tiramos da vida de nossa heroína.

De início, ela parece bem indicar que nossa principal tarefa neste mundo é trabalhar. Ensina-nos a sermos justos e bons.

Joana d’Arc é uma figura nacional e mundial de que todos procuram se apropriar, quando, ao contrário, graças a ela e por ela se deveria fazer a união de todos os partidos.

Como bem justamente escreveu Léon Denis, em março de 1915, em L’Echo Fidèle d’un Demi-Siècle,118 Joana não é propriedade de qualquer partido:

“Ela pertence a todos, porque todos acharão em sua vida uma razão para venerá-la.

Os realistas glorificarão o heroísmo fiel que se sacrifica por seu rei; os crentes, a enviada providencial que surgiu na hora dos desastres.

As crianças do povo amarão a filha dos campos, que se arma para a salvação da pátria.

Os soldados se lembrarão de que ela sofreu como eles e que foi duas vezes ferida.”

Houve dificuldades no parlamento, antes da instituição da festa nacional de Joana d’Arc, enquanto certos partidos procuravam glorificar a Virgem de Orléans, outros, cuja palavra de ordem é sectarismo e materialismo, querem, a todo preço, evitar que Joana d’Arc se torne uma heroína nacional.

Enfim, a vitória foi ganha e o Parlamento francês decidiu que cada ano Joana d’Arc seria publicamente festejada por todos os franceses.

Os primeiros anos foram um pouco tempestuosos; certos partidos procuraram se aproveitar dessa festa para criar nas ruas uma certa agitação.

Depois, pouco a pouco, tudo se acalmou e logo se pode esperar que, compreendendo o papel maravilhoso exercido, no século XV, por Joana d’Arc, todos os franceses estarão em comunhão de pensamento com ela, cada um segundo sua crença, no dia em que se descansará em sua homenagem.

Todos os espíritas devem esforçar-se em divulgar o livro Joana d’Arc, Médium. O ensino oficial parece estar inspirado nas ideias de Thalamas e de Henry Bérenger, quanto a Joana d’Arc, nos manuais das escolas primárias.

Pode-se calcular a importância que isso terá para as gerações de amanhã?

O materialismo tem causado muitos estragos na França e no mundo inteiro, mormente na França, na metade do século XIX, e somente no seu final é que se começou a dar conta dos prejuízos do materialismo.

Pela instrução psíquica se poderá consertar esse estado de coisas. Graças a ela, levando as verdades às crianças, se conseguirá lutar contra o mal moral de nossa época.

Creio que é impossível não se experimentar um imenso temor ao se constatar o aumento da criminalidade e dos suicídios, principalmente, observando-se a pouca idade de certos criminosos e de numerosos suicidas.

Como não angustiar o nosso coração, quando lemos que, por uma advertência que lhe é feita, as crianças se matam?

Como não tremermos, descobrindo que as aparentes alegrias da riqueza e da glória não impedem que criaturas humanas se suicidem?

Lembram-se da estupefação que reinou no mundo, quando houve o suicídio de Max Linder?

Recentemente,119 Claude France, uma daquelas que haviam adquirido, por seu talento e beleza, o sucesso, a glória do cinema, não vacilou, todavia, em abandonar voluntariamente nossa Terra.

Tenhamos, de vez em quando, para os nossos amigos invisíveis, um pensamento pelos suicidas, a fim de abreviar-lhes, se possível, o suplício da expiação.

Atualmente, há ódio e desencanto no coração humano. O ideal está extinto na multidão, por causa do ensino materialista. Diz-se ao povo: come, bebe e goza o mais possível. Não tenhas ideal, que é inútil e perigoso; ganha dinheiro por todos os meios, sem te ocupares com outra coisa. Isto só basta.

Seguindo-se esse ensinamento, vai-se cair nos prazeres e na sensualidade. Tentem, mesmo nesses tempos de vida cara, encontrar um lugar num music-hall, num cinema ou em um teatro, sem, previamente, haver feito uma reserva. Os music-halls se enchem. Os teatros de arte e aqueles onde se representam peças sérias são abandonados.

No “Théâtre des Arts”, representava-se “Orange Mystique”,120 de François de Curel e tive ocasião de conversar com o célebre autor, que me disse:

“Realmente, meu pobre amigo, o cemitério não me trouxe felicidade. Quando as pessoas pensam em vir ao teatro, têm medo do apelo da morte. Preferem ignorar, gostam mais de outras diversões.”

O ilustre acadêmico tinha razão e, todavia, se os homens soubessem exatamente o que é a morte, não a temeriam.

Os espíritas são uns privilegiados, porque conhecem.

Saber que a morte não é um espantalho não é a melhor base possível para a felicidade terrestre?




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