Henri Regnault a morte nao Existe


Capítulo IV No Invisível



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Capítulo IV

No Invisível


No Invisível – Espiritismo e Mediunidade apareceu em 1901 e foi reeditado em 1911. Esta segunda obra publicada por Léon Denis é um livro prático sobre o Espiritismo experimental. A capa traz, em subtítulo, indicações sobre as matérias estudadas. Com efeito, lemos:
No Invisível

Espiritismo e Mediunidade

Tratado de espiritualismo experimental.

Os fatos e as leis.

– – –


Fenômenos espontâneos, tiptologia e psicografia.

Os fantasmas dos vivos e os espíritos dos mortos.

Incorporações e materializações dos mortos.

A mediunidade através dos tempos.

Formação e direção dos grupos.

Métodos de experimentação.

Identidade dos espíritos.

Essa enumeração dá uma idéia da importância da obra, muito bem acolhida pela crítica.



Le Mercure de France disse:

“Léon Denis é um homem de grande talento e de grande elevação de pensamento. Como orador, sabe atrair, reter e conquistar seus ouvintes, por sua palavra arrebatadora, pela sedução de suas belas imagens e de seus líricos vôos.

Como escritor, demonstra as mesmas qualidades, porém livres dos riscos que a improvisação deixa: o relaxamento, as imprecisões nas idéias e na sua expressão. São qualidades disciplinadas pela regra de uma lógica mais severa.

Seu último livro, No Invisível, é um tratado de espiritualismo experimental, porém, se é instrutivo como um tratado, é sobretudo atraente como um romance. E que romance mais repleto de misteriosa ansiedade e de triunfal alegria como a história da alma humana!

Seria desmerecer o escritor mencionar apenas uma fria nomenclatura dos materiais de seu trabalho. Não é o arcabouço da obra que se deveria apresentar, é a própria obra, com sua substância, sua estrutura, sua medula, mas também com suas qualidades de encanto vigoroso e de um delicado colorido. São as combinações de idéias e de palavras. São as breves observações empregadas em fórmulas lapidares.”

Le Mémorial de la Librairie Française escreveu:

“Em menos de 500 páginas, de um formato cômodo, com texto claro, o leitor encontrará, numa forma e num estilo elegante e solidamente documentada, a solução de todos os problemas vinculados ao Espiritismo.

Temos 26 capítulos, cujo interesse é crescente, numa exposição atrativa das leis que regem o mundo oculto e a vida do Além. Após sua leitura, ficamos admirados de que, em tão curto espaço, possa conter tantas coisas.”

L’Autorité publicou o seguinte artigo:

“Os problemas do além atraem e apaixonam cada vez mais, em nossa época.

Para atender a essa curiosidade, Léon Denis acaba de publicar um livro sintético, numa forma clara, precisa e atraente, contendo o conjunto dos trabalhos realizados durante meio século do domínio do espiritualismo experimental, abrangendo os fatos mais recentes.

Aos testemunhos dos sábios, em favor das manifestações de além-túmulo, Léon Denis acrescenta a exposição de fenômenos numerosos e inéditos, que ele observou no curso de 30 anos de experimentação.

O lugar ocupado pelo autor entre os escritores de nosso tempo, sua competência, sua autoridade nessas matérias, que lhe valeram a honra de presidir o Congresso Espiritualista, realizado em Paris em 1900, dão a essa obra uma importância e um interesse excepcionais.

Ele possui, em alto grau, as qualidades de estilo e erudição que fizeram o sucesso das suas obras precedentes.”

Possuindo os livros de Léon Denis, temos constantemente em casa um amigo real, capaz de consolar, se estamos em sofrimento.

Lendo suas obras, temos uma impressão estranha; frequentemente senti isso em meus estudos favoritos: não é mais a mesma coisa. Tem-se a impressão de que tudo em nossa volta se apaga, se atenua e se usufrui dessa alegria maravilhosa e profunda de estar constantemente em comunhão de pensamentos com o autor, cujo principal desejo, ao escrever seus livros, foi prever que um dia qualquer seus leitores poderiam ter necessidade dos meios maravilhosos de consolação que ele tão bem soube apresentar.



No Invisível contém a demonstração da existência da alma, o estudo do magnetismo, a apresentação de diferentes fenômenos espíritas e de múltiplas provas da realidade do Espiritismo. Dentre muitas, citarei uma:42

“Em 13 de janeiro de 1899, doze pessoas estavam reunidas em casa do Sr. David, na Place des Corps-Saints nº 9, em Avignon, para uma reunião espírita semanal.

Após um instante de recolhimento, viu-se a médium, Sra. Gallas, em estado de transe, voltar-se para o lado do Abade Grimaud e lhe falar, na linguagem dos sinais empregados por certos surdos-mudos. Sua rapidez mímica era tal que o espírito foi solicitado a se comunicar mais devagar, ao que ele imediatamente atendeu.

Por uma precaução que consideramos importante, o Abade Grimaud só enunciava as letras à medida que a transmissão era feita pela médium.

Como cada letra isolada nada significava, era impossível interpretar o pensamento do espírito, mesmo que se quisesse. Somente no final da comunicação é que foi conhecida a mensagem, tendo sido feita a leitura por um dos dois membros do grupo, encarregados de transcrever os caracteres.

Além disso, a médium empregou um duplo método: aquele que enuncia todas as letras de uma palavra para lhe indicar a ortografia, única forma sensível para os olhos, e aquele que enuncia a articulação sem lhe dar a forma gráfica, método este inventado por Fourcade e que está em uso na instituição dos surdos-mudos de Avignon. Esses detalhes foram fornecidos pelo Abade Grimaud, diretor e fundador do estabelecimento.

A comunicação relativa à obra de alta filantropia, à qual se dedicou o Abade Grimaud, estava assinada: Irmão Fourcade, morto em Caen.

Nenhum dos assistentes, com exceção do venerando eclesiástico, conhecera o autor dessa comunicação e nem seu método, se bem que o autor passara algum tempo em Avignon, havia 30 anos.

Assinaram a ata os membros do grupo que assistiram à reunião: Toursier, diretor do Banco da França, aposentado; Roussel, chefe de música no 58º; Damenach, lugar-tenente no 58º; David, negociante; Brémond, Carmel, senhoras Toursier, Roussel, David e Brémond.

Juntamente à declaração verbal, acrescentou-se o seguinte atestado:

“Eu, abaixo-assinado, Grimaud, padre, diretor-fundador da Instituição dos Deficientes da Palavra, surdos-mudos, gagos e crianças anormais de Avignon, certifico a absoluta exatidão de tudo o que é acima referido.

Em verdade, afirmo que estava longe de associar-me a uma semelhante manifestação, cuja importância compreendo, do ponto de vista da realidade do Espiritismo, do qual sou adepto fervoroso.

Não sinto nenhuma dificuldade em afirmá-lo, publicamente.

Avignon, 17 de abril de 1899.



Grimaud, padre.”

Segundo essa declaração, os que estão suficientemente habituados com as experiências poderiam imaginar: “Não existe aí um fato espírita, mas uma leitura do pensamento feita pela médium.” De minha parte, lendo isso, recordo-me de minhas experiências pessoais.

Muitas vezes consegui, por exemplo, colocar um dos médiuns num canto da sala e mandá-lo apanhar um cigarro numa caixa e, até, coisa mais difícil, escolher numa cigarreira, que tinha várias marcas de cigarro, a que eu designara.

Isso era possível porque o médium e eu falávamos a mesma língua. Todavia, no caso do Abade Grimaud não acontecia o mesmo. Este não podia agir pelo pensamento sobre o médium, que ele não conhecia.



No Invisível contém, igualmente, a exposição das múltiplas objeções feitas ao Espiritismo e das respostas que devem ser dadas.

Entre as questões importantes tratadas nesse livro, há a do perispírito. Segundo os espíritos, o homem se compõe de três elementos: o corpo, o espírito (ou alma), que anima o corpo físico, e o perispírito (ou corpo psíquico).

Que a alma esteja ligada ao corpo pelo perispírito eis o que é para se admirar; isso é bastante difícil de compreender por aqueles que jamais estudaram nossa ciência.

Em 3 de novembro de 1927, tive ocasião de ir ao Havre fazer uma conferência com debates sobre a existência da alma dos vivos e sobre a realidade das manifestações dos mortos.

Recebi alguns dias depois uma interessante carta, da qual alguns textos se referiam ao corpo psíquico.

“Assisti – escreveram-me – à sua conferência no Havre.

Eu conhecia do Espiritismo só o que se pode saber quando não o estudamos com método.

Minha convicção está solidamente certa de que os fenômenos estudados pelas ciências psíquicas são reais e não podem mais ser negados, atualmente, a não ser por ignorância ou prevenção. Entretanto, gostaria de ter a mesma certeza a respeito de sua explicação.

Se a psicometria, a fotografia do pensamento, a vista à distância, as materializações são argumentos poderosos em favor do espiritualismo, conclui-se, necessariamente, que após a morte o ser conserva sua personalidade?

Não creio na extinção do pensamento, apenas no aniquilamento da matéria. Não compreendo, porém, como o pensamento de Paulo possa permanecer uma vez desaparecido o seu corpo. Não é o corpo que limita o pensamento e o individualiza?

Se, como dizem os protestantes nos sepultamentos, “o pó retorna ao pó e o espírito ao espírito”, não é para que este se confunda e se perca no espírito universal?

Os espíritas falam bastante da sobrevivência do corpo astral, mas este, segundo suas teorias, não acaba também, por se consumir e desaparecer?”

Respondendo, aconselhei-o a ler as páginas 50 e seguintes de No Invisível, onde Léon Denis expressa seu pensamento sobre o perispírito:43

“Em todo homem vive um espírito.

Por espírito se entende a alma revestida de seu invólucro fluídico, que tem a forma do corpo físico e participa da imortalidade da alma, da qual é inseparável.

Da essência da alma sabemos só uma coisa: é que, sendo indivisível, é imperecível. A alma se revela por seus pensamentos e também por seus atos, mas para que ela possa agir e concretizar o que pensa, necessita de um intermediário semimaterial sem o qual sua ação nos pareceria incompreensível. Esse intermediário é o perispírito, nome dado a seu invólucro fluídico, invisível, imponderável. É preciso buscar em sua ação o segredo dos fenômenos espíritas.

O corpo fluídico que cada homem possui em si é o transmissor de nossas impressões, de nossas sensações, de nossas lembranças.

Anterior à vida atual, sobrevivente à morte, é o instrumento admirável de que a alma se constrói, se realiza através dos tempos; é o resultado de seu longo passado.

Nele se conservam os instintos, se acumulam as forças, se agrupam as aquisições de nossas múltiplas existências, os frutos de nossa lenta e penosa evolução.

A substância do perispírito é extremamente sutil; é matéria em seu estado mais quintessenciado; é mais rarefeita que o éter; suas vibrações, seus movimentos, ultrapassam em rapidez e em penetração as substâncias mais ativas. Daí a facilidade dos espíritos em atravessar os corpos opacos, os obstáculos materiais, e em vencer as grandes distâncias com a rapidez do pensamento.”

Em No Invisível, Léon Denis consagra algumas páginas à mediunidade e à formação dos grupos espíritas.44

Estudemos, pois, com ele, como se tornar experimentador, as condições para formação dos grupos e o que é ser médium.


O experimentador


As principais qualidades necessárias para ser experimentador são múltiplas. Se precisássemos reunir todas elas, não haveria, sem dúvida, um único ser humano capaz de fazer experimentações espíritas.

Graças à sua atividade e sua incansável propaganda, Léon Denis merecia os encorajamentos do além; entretanto, ele deveria experimentar, por muito tempo, e ter provas pessoais nesse campo.

Após ter lido O Livro dos Espíritos, em 1864, fundou, na Rua du Cygne, em Tours, um Grupo Espírita e procurou fazer experiências; teve sucessos em algumas, mas teve de perseverar, durante pelo menos 10 anos, para obter provas concretas, absolutas.

Essa tenacidade lhe dá o direito de guiar seus leitores, de aconselhá-los e lhes afirmar que um experimentador deve ter paciência, perseverança, método e discernimento; deve, igualmente, manter seu espírito crítico; enfim, é preciso bem grande elevação de pensamento e de coração.

Léon Denis consagra a esses dois pontos um valor todo particular.

Antes de experimentar, é preciso saber que o além não possui somente forças superiores; há, também, do outro lado, como na humanidade, seres ainda não evoluídos, que permanecem em estado primitivo.

Eles também têm necessidade de se manifestar aos vivos, para poderem evoluir, aproveitando os benefícios do Espiritismo.

É preciso, pois, segundo penso, quando se trata de Espiritismo, estar também preparado para entrar em comunicação com os espíritos inferiores desencarnados. Todavia, é indispensável conhecer os graves perigos aos quais se expõe com tal procedimento.

Por conseguinte, só devem cuidar desse gênero de experiências os que, por seus estudos, adquiriram do magnetismo e do Espiritismo um conhecimento profundo que permita, no caso, se desembaraçar das forças inferiores.

Convém, outrossim, nesse procedimento, estar animado ao extremo de sentimentos de solidariedade e de bondade.


A formação dos grupos


Que é preciso para se constituir Grupos de Estudos Espíritas?

Antes de tudo, o dirigente das reuniões deve ser, de fato, competente; quanto aos assistentes, devem observar uma disciplina rigorosa, é preciso método, paciência, perseverança, regularidade e um bom caráter.

Uma grande simpatia deve envolver as pessoas do grupo 45 que têm o dever de não se deixarem levar pelo interesse.

Os assistentes manterão constantemente seu senso crítico e o exercerão sempre, a fim de poderem julgar o valor das manifestações. É indispensável ter uma grande elevação de pensamento. Certamente que todas essas qualidades são difíceis de ser obtidas, mas, quando possuídas, garantem bons resultados.


O médium


Léon Denis indica as condições necessárias para se tornar um bom médium.

Todos os seres humanos têm mediunidade, em estado latente.

“Há, em todo ser humano – afirma Denis 46 –, rudimentos de mediunidade, faculdades em gérmen, que podem desenvolver-se pelo exercício.

Para a maior parte é necessário um longo e perseverante trabalho. Em alguns, essas faculdades aparecem desde a infância e atingem, sem esforços, com o tempo, um alto grau de perfeição.

Nesse caso, elas são o resultado de aquisições anteriores, o fruto de trabalhos conseguidos na Terra ou no Espaço, fruto que trazemos quando renascemos.”

É um erro crer que somente as mulheres podem ser médiuns. Homens e mulheres têm, em potencial, mediunidade, como observou Allan Kardec.

Antes de procurar desenvolver essa mediunidade, é preciso aceitar os conselhos de um espírita sério; convém fazer, antes, os necessários estudos.

Jamais se deve considerar a imposição das mãos sobre um guéridon (mesa) como um divertimento, uma distração.

Aconteceu-me, muitas vezes, achar-me num meio onde ainda não se ocupavam de psiquismo nem de Espiritismo e, por vezes, me diziam:

“Ah, você é espírita! Eu também fiz um pouco dessas coisas; divertia-me com uns amigos fazendo as mesas girarem.”

Cada vez que ouvi tais declarações, tremi, em pensar nos perigos corridos por meu interlocutor.

Se o Espiritismo contém em si mesmo maravilhosos recursos de felicidade, encerra, igualmente, graves perigos; é uma arma de dois gumes que convém saber manejar, quando se quiser tratar de pesquisas experimentais e quando se deseja desenvolver a mediunidade.

Antes de tudo, é preciso estudar as obras espíritas.

Os médiuns podem escapar dos graves perigos que os ameaçam? Léon Denis apresenta-nos o meio:47

“A mediunidade é uma flor delicada que tem necessidade, para se expandir, de atentas precauções e de cuidados permanentes. É preciso haver método, paciência, altas aspirações e nobres sentimentos. Sobretudo, é preciso a proteção e a solicitude do bom espírito que nos envolve com seu amor e seus fluidos vivificantes.

Quase sempre, porém, queremos produzir frutos apressadamente, e então ela se estiola, murcha sob o sopro dos espíritos atrasados.

Na antiguidade, os jovens que revelassem aptidões especiais eram retirados do mundo e colocados fora de qualquer influência degradante, em lugares sagrados ao culto, cercados de tudo quanto pudesse elevar seus pensamentos e seus corações, desenvolvendo neles o senso do belo.

Eram assim as virgens-vestais, as druidesas, as sibilas, etc. Era o mesmo nas escolas dos profetas e videntes da Judéia, colocados longe do barulho das cidades.

No silêncio do deserto, na paz dos cumes, os iniciados sabiam atrair as influências superiores e interrogar o Invisível. Graças a essa educação, chegava-se a resultados que nos surpreendem.

Tais procedimentos são inaplicáveis, atualmente. As exigências sociais não permitem hoje em dia, ao médium, consagrar-se, como conviria, ao cultivo de suas faculdades.

Sua atenção é desviada pelas mil necessidades da vida familiar e suas aspirações entravadas pelo contato com uma sociedade mais ou menos frívola e corrompida.

Muitas vezes, ele é chamado para exercer suas aptidões em meios impregnados de fluidos impuros, de vibrações desarmônicas, que reagem sobre seu organismo tão impressionável, causando-lhe perturbação e desordem.

É preciso que o médium, compenetrado da utilidade e da grandeza de seu papel, se aplique a acrescentar seus conhecimentos e busque espiritualizar-se o mais possível; que ele crie horas de recolhimento e que tente, então, pela visão interior, elevar-se até às coisas divinas, até à beleza eterna e perfeita.

Quanto mais a inteligência, o saber e a moralidade se desenvolverem nele, mais se tornará apto a servir de intermediário às grandes almas do Espaço.”

Léon Denis trata, igualmente, essa questão em outras obras. Citarei, por exemplo, o que escreveu em O Grande Enigma:48

“Os médiuns podem prevenir-se dos perigos da mediunidade, preparando-se para suas funções como para um ministério sagrado, pela invocação, recolhimento e oração.

O iniciado nos mistérios antigos tinha um ritual; só se entregava à invocação depois de estar preparado pela abstinência e meditação no recolhimento. A lei não mudou: quem quiser comunicar-se com o Além se expõe a reais inconvenientes.”

Como todas as obras de Léon Denis, No Invisível contém inúmeras passagens onde o leitor pode aprender o meio de suportar os percalços da mediunidade.

Citarei, por exemplo, o que ele escreveu à página 150:49

“Essa fraternidade que os messias proclamaram em todas as grandes épocas da história encontra no ensino dos espíritos uma base nova e uma sanção.

Não é mais a fria e banal afirmação inscrita no frontispício de nossos monumentos; é a fraternidade viva das almas que, juntas, emergem das obscuridades do abismo e gravam o calvário das existências dolorosas; é a iniciação comum pelo sofrimento; é a reunião final na luz.

Com o Espiritismo, coração e razão, tudo participa. O círculo de afeições se amplia. Nós nos sentimos mais bem sustentados nas provações, porque os que nos amavam durante a vida nos amam ainda no além-túmulo e nos ajudam a carregar o fardo das misérias terrenas.

Estamos separados apenas aparentemente. Em realidade, os humanos e os invisíveis caminham muitas vezes lado a lado, nas alegrias e nas lágrimas, nos sucessos e nos fracassos.

O amor de nossos bem-amados nos envolve, nos conforta, nos aquece. Os terrores da morte cessaram de pesar sobre nós.”


Capítulo V

O Além e a Sobrevivência do Ser


O Além e a Sobrevivência do Ser é uma excelente brochura de propaganda, publicada em 1901, após a obra No Invisível. Nela, Léon Denis faz uma busca minuciosa das provas experimentais. Nessa obra encontram-se as razões pelas quais Denis se consagrou ao Espiritismo. Afirma ele:50

“Consideramos um dever difundir por toda parte o conhecimento desses fatos, porque eles lançam uma nova luz, uma luz poderosa sobre nossa verdadeira natureza e sobre nosso futuro.

É preciso, enfim, que o homem aprenda a se conhecer melhor, a tomar consciência das energias que nele dormitam.

Adaptando-se à lei suprema, deve trabalhar com coragem e perseverança para crescer, engrandecer-se em dignidade, conhecimento, sabedoria e moralidade, porquanto aí reside todo o seu destino.”

Nesse livro há coisas bem interessantes; ele é muito condensado, muito resumido, mas basta, segundo creio, para conduzir os leitores que ignorem as questões espíritas, dando-lhes noções de que, verdadeiramente, o Espiritismo é uma realidade científica.

Nele se encontram, notadamente, algumas provas de aparições de vivos e de mortos, materializações, casas mal-assombradas. Toda a história das correspondências cruzadas, da escrita mediúnica e da escrita direta figura nessa brochura, que também apresenta uma resposta bem resumida para as diversas objeções opostas ao Espiritismo.

Léon Denis nos indicará, em suas diferentes obras, como o Espiritismo é consolador; lendo-as, percebe-se que não há uma sequer onde não se encontre como sério motivo este pensamento: o Espiritismo é o reconforto dos seres humanos.

A esse propósito, escreve ele, ao concluir a obra:51

“A vós, que percorreis estas páginas, direi, em conclusão: nos momentos difíceis de vossa vida, na hora das provações, quando perdeis um ser amado, ou se vossas esperanças afagadas por muito tempo terminam desmoronadas; quando vossa saúde declina; quando vossa vida acaba lentamente e que vedes aproximar-se a hora final, aquela em que é preciso deixar a Terra; se, nesses momentos, a incerteza ou a angústia vos constrange o coração, então lembrai-vos da voz que hoje vos diz: Sim, existe um Além! Sim, há outras vidas! Nada se perde de nossos sofrimentos, de nossas lutas, de nossas lágrimas.

Nenhuma prova é inútil; nenhum labor é desperdiçado e nenhuma dor sem compensação.

Tende confiança em vós mesmos, confiança nas forças interiores ocultas em vós, confiança no futuro sem fim que vos está reservado.

Tende a certeza de que há no universo um Poder soberano e paternal, que tudo dispôs com ordem, justiça, sabedoria e amor.

Isso vos inspirará mais segurança na vida, mais coragem nas provações, maior fé em vossos destinos. E marchareis com passo firme na rota infinita que se abre diante de vós.”

Leitores incrédulos, e também os que embora não conhecendo ainda o Espiritismo adquiriram meu livro por curiosidade, leiam essa brochura, nela encontrarão as provas reais da sobrevivência. Dentre outras, citarei uma:52

“Em seu livro A Sobrevivência Humana, sir Oliver Lodge refere-se, nesses termos, a um fato que não pode ser explicado por nenhuma das teorias usadas pelos adversários do Espiritismo:

“O seguinte texto foi obtido por Stainton Moses, quando estava numa sessão, na biblioteca do Dr. Speer, e conversava, por meio de sua mão que escrevia automaticamente, com diversos supostos interlocutores:



Stainton Moses – Você pode ler?

Resposta – Não, amigo, não posso, mas Zacharie Gray e Rector podem.

S.M. – Há algum desses espíritos aqui?

R. – Vou logo chamar um deles. Vou mandar... Rector está aqui.

S.M. – Perguntei se você pode ler. É verdade? Pode ler um livro?

R. (A escrita muda) – Sim, amigo, mas com dificuldade.

S.M. – Quer me escrever a última linha do “primeiro livro de Eneida”?

R. – Espere... Omnibus errantem terris et fluctibus oestas.

(Era isso mesmo.)



S.M. – Está bem, mas é possível que eu já soubesse a frase. Você pode ir à biblioteca e ler o último parágrafo da página 94? Eu não sei qual é o livro e até ignoro o título.

Após um curto lapso de tempo, obteve-se o seguinte, pela escrita automática:

“Provarei, por uma curta narrativa histórica, que o Papado é uma novidade que, gradualmente, se elevou e cresceu, após os tempos primitivos do Cristianismo puro, não apenas após a idade apostólica, porém até após a lamentável união da Igreja e do Estado por Constantino.”

O volume em questão era uma obra bizarra com o título Roger’s Antipopriestian, an Attempt to Liberate and Purify Christianity from Popery, Politikirkality and Priestrule. O extrato apresentado era exato, exceto a palavra narrative, substituída por account.



S.M. – Como se explica que eu tenha escolhido uma frase tão bem apropriada?

R. – Não sei, meu amigo, é o efeito de uma coincidência. A palavra foi trocada por engano. Percebi só depois, mas não quis corrigir.

S.M. – Como você lê? Você escreve mais lentamente, por ímpeto, por sacudidelas.

R. – “Escrevia aquilo de que me lembrava e, em seguida, ia ler mais longe. É preciso fazer um esforço especial para ler. Isso só tem valor para comprovação.

“Seu amigo tinha razão, ontem à noite; nós podemos ler, mas somente quando as condições são muito boas.

“Nós vamos ler ainda uma vez, escreveremos e em seguida daremos a impressão do livro: Pope é o último grande escritor dessa escola poética, da poesia inteligente, ou melhor, da inteligência mesclada à imaginação.

“Isso está realmente escrito. Vá apanhar o 11º volume na mesma prateleira.

(Apanhei um livro intitulado: Poésie, Roman et Rhétorique.)

“Ele vai abrir para você na página pedida. Apanhe e leia, e reconheça nosso poder e a permissão que Deus, grande e bom, nos dá para lhe mostrar nosso poder sobre a matéria. Glória a ele. Amém.”

O livro, aberto na página 145, mostrou que a citação estava perfeitamente certa. Eu nunca havia visto o volume anteriormente; é certo que não tinha qualquer idéia acerca do que ele continha.

Stainton Moses.

Esses volumes se encontravam na biblioteca do Dr. Speer.”

No apêndice de O Além e a Sobrevivência do Ser figura um estudo sobre a reencarnação; Léon Denis indica a seus leitores o que acreditava ter sido no curso de suas existências anteriores.

De minha parte, tenho estudado muito a reencarnação.53 Não obstante meus numerosos ensaios de introspecção, não me recordo de nada e jamais logrei encontrar médium que me possa falar sobre minhas existências passadas. Não levo em consideração as revelações fantasiosas do seguinte gênero:

Em 1925, eu era candidato ao conselho Municipal de Paris. Entre o primeiro turno e o escrutínio da segunda votação, recebi uma carta de uma desconhecida, declarando desejar fazer revelações urgentes sobre minhas existências anteriores; muito ocupado na ocasião, como acontece sempre no momento de um escrutínio de segunda votação, não compareci a esse convite.

Talvez evitasse assim os raios do Invisível, como já havia acontecido, me recusando a acreditar num médium que me levava, da parte de Deus, o remédio capaz de curar meus ferimentos de guerra!

Após as eleições, atendi ao apelo de minha correspondente.

– Estou encarregada – disse-me ela – de lembrar-lhe que já foi Etienne Marcel, o célebre chefe da municipalidade de Paris.

Se eu tivesse sido candidato a deputado no lugar de concorrer ao Conselho Municipal, essa médium me teria declarado que outrora eu animara o corpo do primeiro deputado de Paris. Não levei a sério essa comunicação e me limitei a classificar isso como um caso divertido: os grotescos do Espiritismo.

Quando eu preparava meu ensaio sobre as vidas sucessivas,54 eu havia perguntado a Léon Denis se ele podia me dar algumas informações inéditas sobre suas existências anteriores; segundo sua resposta, ele escreveu em suas obras tudo o que era possível; o resto era muito íntimo para ser levado à publicidade.

Ele tem, a esse propósito, dado algumas explicações em O Além e a Sobrevivência do Ser:

“Pelo que me concerne pessoalmente – escreveu ele –, pude recolher algumas provas de minhas vidas anteriores.

Elas consistem em revelações que me foram feitas em lugares diferentes, por meio de médiuns que não se conheciam e que nunca tiveram qualquer relacionamento entre si.

Essas revelações são concordantes e idênticas. Além disso, pude verificar sua exatidão pela introspecção, isto é, por um estudo analítico e atento de meu caráter e de minha natureza psíquica.

Esse exame me fez encontrar, muito acentuados em mim, os dois principais tipos de homem que vivi, no decorrer dos tempos e que dominam todo o meu passado: o monge estudioso e o guerreiro.

Poderia acrescentar inúmeras impressões e sensações que me permitem reconhecer, nesta vida, seres já encontrados anteriormente.”


Capítulo VI

Cristianismo e Espiritismo


A maioria dos que noticiaram o falecimento de Léon Denis consideraram a sua morte como uma real desgraça e uma grande perda para a humanidade.

Entretanto, houve nessa concordância de elogios uma nota discordante; ela veio, evidentemente dos católicos, que, injustamente, nos tratam como adversários e inimigos.

Eu não conhecia pessoalmente o Rev. Padre Lucien Roure, porém ele me deu a honra de aceitar discutir publicamente comigo, na Sala de Geografia, em 1924, por intermédio do Rev. Padre Jubaru.

O Rev. Padre Lucien Roure julgou necessário consagrar, em Les Études, um estudo de dez páginas à obra de Léon Denis.

O nº 13 dessa revista católica contém uma crônica intitulada “Um Espírita Doutrinário”; é uma crítica profundamente injusta à obra de nosso mestre. Esse artigo foi, aliás, contestado por Gaston Luce.55 Todavia, é necessário, num estudo do conjunto da ação de Léon Denis, mostrar a maneira como o Rev. Padre Lucien Roure tentou lançar o descrédito sobre toda a obra do patriarca do Espiritismo.

O Rev. Padre Roure reconhece que o proselitismo intenso de Léon Denis era desprendido e é, creio, o único elogio que ele conferirá a esse homem de bem. Após essa constatação, ele declara que há duas categorias de espíritas: os doutrinários e os experimentadores.

Num próximo capítulo, estudaremos os resultados das numerosas experiências pessoais de Léon Denis. A se acreditar no Rev. Padre Roure, Léon Denis não era experimentador; ele acrescenta mesmo esta frase: “Denis faz pouco caso dos experimentadores.”

Como os católicos, tanto em seus dogmas como em seus escritos, se contradizem em algumas páginas,56 o padre jesuíta escreve que Léon Denis “participou de inúmeras experiências durante mais de 30 anos, em França e no estrangeiro”.

O Rev. Padre Roure fala, igualmente, da maneira como Léon Denis julgava os médiuns. Ora, nós sabemos, pelas obras estudadas nos capítulos anteriores, que Léon Denis não se constrange em pôr seus leitores prevenidos contra certos charlatães, que se intitulam médiuns; a esse respeito ele é claro e bem preciso.

Eis, entretanto, o que o padre jesuíta nos diz a propósito: “Léon Denis se mostra pouco aborrecido por essas exibições estranhas, encontradas nos círculos espíritas mais distintos; e não ousa condená-las.”

Como Léon Denis não ousa condenar os charlatães? É preciso nunca ter lido seus livros para aceitar uma tamanha afirmação.

Léon Denis não apenas põe o público em guarda contra os falsos médiuns, mas ainda consagra numerosas páginas descrevendo os perigos da mediunidade.

O Rev. Padre Lucien Roure acha que há nas obras de Léon Denis coisas profundamente errôneas. Ele indica assim as crenças de nosso mestre:

“Crença numa alma espiritual, cuja espiritualidade parece muito com uma matéria volatilizada.

Crença numa alma que preexistiu ao corpo que ela anima presentemente, sem que se possa saber se ela sempre existiu; uma alma que lhe sobreviverá para reencarnar, sem que se possa saber o que será sua reunião final com o Grande Todo.”

Isso corresponderia a dizer que nós retornamos todos ao nada, ao Grande Todo; pelo contrário, segundo o Espiritismo exposto por Léon Denis, e ao qual me filio, as almas são encaminhadas a corpos diferentes, sucessivamente, antes de alcançar a suprema felicidade, como resultado de seus esforços pessoais. Tal fim será atingido por todos, sem exceção, em maior ou menor tempo.

Não basta ao Rev. Padre Lucien Roure atacar Léon Denis; ele ataca, igualmente, o grande espiritualista Edouard Schuré. Segundo ele, a obra de Léon Denis é uma compilação de Les Grands Initiés.

Ora, Edouard Schuré se identifica muito mais com a Teosofia do que com o Espiritismo; jamais encontrei em suas obras declarações que me permitissem classificá-lo como espírita. Minhas múltiplas conversações com ele o revelaram, antes de tudo, espiritualista e nunca discípulo de Allan Kardec.

O Rev. Padre Roure, numa revista lida principalmente pelos católicos, faz prova de uma grande audácia, porque, sem dúvida, ele está habituado a ser acreditado sob palavra por seus leitores.

Eu o desafio a se apresentar diante de um público de espíritas e dizer que Léon Denis compôs os elementos de sua obra compilando Les Grands Initiés.

O Rev. Padre Roure se utiliza, habilmente, de erros materiais que escorregaram na edição das obras de Léon Denis; ora, um autor não poderia ser responsável por esses enganos materiais.

Na página 76 de seu artigo, o religioso escreve:

“Em apoio a todas essas afirmações há tantas referências vagas, tantos textos deturpados ou interpretados conforme a exegese mais fantasiosa.

Seriam necessárias páginas para levantar as afirmativas gratuitas ou erros dos comentários.”

E para demonstrar que Léon Denis se utiliza de referências vagas, ele publica a seguinte nota:

“Em No Invisível, 1922 (pág. 383), Nota), remete ao “Maravilhoso Espírita”, do Cônego Roure, Librairie Catholique, Rua de l’Abbaye, 14. Podemos afirmar que o Padre Roure não tem a honra de ser Cônego, que ele nada publicou na estimada livraria da Rua de l’Abbaye. É um livro cuja leitura não exigiu grande esforço a Léon Denis.”

Antes de tentar se aproveitar de um erro material, para deixar supor que Léon Denis citava, como referências, livros inexistentes, o Padre Roure não deveria ter acrescentado que O Maravilhoso Espírita realmente apareceu, não na livraria da Rua de l’Abbaye, mas na Beauchesne, Rua de Rennes, 17.

Eu possuo esse livro em minha biblioteca e escrevi a respeito as seguintes linhas:

“Esse livro é um panfleto contra o Espiritismo; está repleto de erros apresentados habilmente e que podem influenciar leitores que se contentam em crer no que está impresso, sem procurar conferir a fonte. Outrossim, numerosas pessoas desejosas de se iniciarem no Espiritismo jamais tiveram a ocasião de ouvir falar dele.

Quantos, dentre eles, foram habilmente enganados pela vitrine das livrarias, num volume bem apresentável, com letras vermelhas muito visíveis, com este título enganoso: O Maravilhoso Espírita.

Eis aqui, não obstante, a reprodução da capa:

Lucien Roure


Redator de Estudos
– – –
O Maravilhoso Espírita
4ª edição
– – –
Paris
Gabriel Beauchesne
1919

“Poucas pessoas sabem que Les Études é o título de uma revista católica; que o livreiro-editor Beauchesne tem uma tal clientela de padres, que é quase impossível ir até lá sem se encontrar ao menos um ocupado em comprar livros. E como Lucien soube muito bem dissimular sua qualificação (ele é jesuíta), como o profano não compraria esse livro?”

Os leitores de Léon Denis se darão conta do pretendido erro do Rev. Padre Roure; ele acusa Léon Denis de citar O Maravilhoso Espírita, sem haver lido a obra.57

Por que ele fala somente de No Invisível? Por que, por exemplo, não indicar que em O Mundo Invisível e a Guerra,58 Léon Denis consagra duas páginas ao livro do Rev. Padre, insistindo em chamá-lo de cônego? O que não significa que ele não conheça a obra e seu autor.

Tenho insistido muito nesse pequeno detalhe, porque ele mostra bem a maneira pela qual os católicos desnaturam os fatos para tentar concluir favoravelmente à sua tese.

Essa constatação da tática habitual de nossos adversários católicos é necessária ao início de um estudo rápido de Cristianismo e Espiritismo. Se os espíritas têm por dever primordial ser tolerantes, isso não lhes tira o direito de se defender energicamente contra todos os ataques.

Continuemos, pois, a comentar o artigo “Um Espírita Doutrinário”.

Sabe-se, estudando o Espiritismo, que se faz também psiquismo; por outros termos, não somos levados apenas a estudar o que existe após a morte, porque, no curso de nossas experiências, acontece também entrarmos em relações com os fantasmas dos vivos e adquirirmos assim a prova experimental da existência da alma.

Em No Invisível, Léon Denis assinala várias manifestações da alma dos vivos. Cita especialmente uma, que está relatada no artigo do Padre Lucien Roure. Eu o reproduzo, igualmente:59

“Durante três anos, o espírito de um vivo pôde se manifestar, pela incorporação, no grupo que dirigíamos, em Tours, sem que alguém se lembrasse de o diferençar dos espíritos dos mortos, que intervinham habitualmente em nossas reuniões.

Ele nos fornecia, entretanto, sobre sua identidade, os detalhes mais precisos. Dizia chamar-se B., tinha sido sacristão da aldeia de D., no Sarthe. Sua palavra arrastada, seu gesto pesado e fatigado, sua atitude enfraquecida contrastavam com a maneira de ser do médium e dos outros espíritos familiares. Nós o reconhecíamos desde as primeiras palavras pronunciadas.

Ele nos narrava, com minudências, os menores incidentes de sua vida, as advertências de seu Cura por causa de sua preguiça e de sua embriaguez, do mau estado da igreja e do material confiado a seus cuidados e até de suas buscas infrutíferas no Espaço, para encontrar a confirmação do que lhe havia sido ensinado.

Tudo nele, seus propósitos, suas lembranças, suas tristezas, nos confirmava na firme opinião que tínhamos tratado de um homem falecido.

Qual não foi nossa surpresa, quando um membro do nosso grupo, tendo ido àquela região e tendo sido encarregado de proceder a uma investigação, descobriu que B. ainda estava vivo, nesse mundo. Tudo o que nos havia dito antes era verdadeiro.

Nosso colega pôde vê-lo e conversar com ele. Já estando velho e dominado cada vez mais pela preguiça e pela bebida, havia desistido de suas funções.

Todas as noites se deitava cedo e adormecia num pesado sono, podendo assim se manifestar, se transportar até nós nos dias das reuniões e incorporar, num de nossos médiuns a quem o ligavam os elos de afinidade, cuja causa nos ficou desconhecida.”

Pouco conhecedor das manifestações psíquicas e espíritas, o Rev. Padre Roure acha que isso é uma história estranha.

“Pareceria – escrevia ele – que o espírito de um vivo, que goza do privilégio raro de poder exteriorizar-se e de se transportar à distância, deve ser de uma ordem superior.”

Tais comentários demonstram que o autor de O Maravilhoso Espírita conhece mal a questão; ele ignora que os experimentadores têm, muitas vezes, a possibilidade de permitir aos manifestantes reconhecerem seus erros, de tomarem a resolução de se corrigir de seus defeitos. Quando se estuda a história dos diferentes ataques dirigidos contra o Espiritismo, se é obrigado a constatar qual é o poder da nossa ciência.

Léon Denis escreveu em O Além e a Sobrevivência do Ser:

“Tudo quanto se tentou contra ele (o Espiritismo), se esboroou. As pesquisas científicas e os procedimentos tendenciosos lhe foram favoráveis.”

Eis aí uma constatação exata, verificada pelos fatos. O padre Roure, a respeito, escreve:

“Mas, o que se fez dos fracassos catastróficos que, depois de 1921, nas pesquisas científicas, arrasam os ases da mediunidade, Kathleen Coligher, Ejner Nielsen, Franck Kluski e, por último, Eva Carrière, na Sorbonne, em 1922? Consultem as últimas edições dos livros de Léon Denis, No Invisível, de 1922, e Depois da Morte, de 1923. Não há a menor alusão a esses incidentes que tiveram, entretanto, alguma repercussão no mundo espírita e fora dele.

É a tática seguida, desde o começo; qualquer constatação que vá contra o dogma espírita não é considerada.

É admitido, em nossos dias, pelos espíritas que o ectoplasma existe; é uma substância de manifestação do perispírito, o qual acompanha o espírito no outro mundo. Três ou quatro personagens são investidos do privilégio de terem feito a comprovação. Demonstrareis experimental e cientificamente que se trata de charlatães vulgares e eles continuarão a ser citados triunfalmente.”

De início, não existe dogma espírita.60 Ademais, ao reeditar suas obras, em 1922 e 1923, Léon Denis não ia ocupar-se com as experiências da Sorbonne. Menos que qualquer outro, o Rev. Padre Roure deve ignorar que os espíritas não são absolutamente atingidos pelos procès-verbaux 61 da Sorbonne, porque, em 27 de janeiro de 1924,62 durante minha conferência pública e contraditória com seu delegado Rev. padre Jubaru, insisti nos erros que estão nas páginas 133 a 162 de seu livro Le Spiritisme d’Aujourd’hui et d’Hier, relativamente à Srta. Coligher, Kluski e Eva Carrière.

Os espíritas não temem falar dos desafios feitos pelo jornal Le Matin ou das referências da Sorbonne; basta abrir as revistas espíritas.63

Por várias vezes tratei dessas questões, contraditoriamente, no decorrer de conferências públicas.

Por que o Padre Roure não menciona o livro de Juliette Bisson, Le Médiumnisme à la Sorbonne, publicado por Félix Alcan? Creio necessário reparar essa omissão, citando algumas linhas da introdução:

“Estou decidida – escreve a autora – a me explicar quanto ao assunto da Sorbonne, bem como sobre os erros acumulados em certos jornais contra Eva Carrière, para que a verdade seja conhecida.

Os professores que assinaram o relatório têm, individualmente, um valor incontestável, mas não estão cientes das modernas pesquisas. Ademais, não obstante sua boa vontade, não podem evitar de prejudicar os fatos com a prevenção de espírito.

É perigoso concluir, após 15 reuniões realizadas, em más condições e após ter recusado proceder a novas sessões apesar dos meus pedidos reiterados.”

Por que o Padre Roure não fala da célebre referência das 34 personalidades que, em 1923, afirmaram, clara e categoricamente, a existência de certos fenômenos psíquicos, entre outros os de movimentação de objetos sem contato? 64

Vamos, meu padre, quando se quer fazer um processo, é preciso, para se realizar um julgamento, apresentar todas as peças do processo.

O público, diante do qual o Espiritismo se defende, tem o direito de estudar todos os documentos contrários.

Como escrevia Gabriel Delanne, em junho de 1923, após a publicação do artigo do Le Matin:

“Eis 34 personalidades bem qualificadas que têm controlado fatos que três sábios da Sorbonne não foram capazes de descobrir. Isso prova, com evidência, a necessidade de só fazer experiências espíritas sob a direção de pessoas que tenham prática nessas delicadas pesquisas.

Mais um pouco de paciência e a verdade que está em marcha esclarecerá os olhos do mundo inteiro.”

Isso confirma o que Allan Kardec escrevia em 1860:65

“As idéias espíritas estão em progresso. Depois de algum tempo, com efeito, elas ganharam muito terreno; dir-se-ia que estão no ar e certamente não será pela propaganda da imprensa, pequena ou grande, que serão bem aceitas.

Se elas avançam, apesar e contra tudo, não obstante a má vontade que encontram em certas regiões, é que elas possuem bastante vitalidade para se bastarem.

Quem se dá ao trabalho de aprofundar a questão do Espiritismo aí encontra uma alegria bem grande, a solução de tantos problemas, para os quais se pediam em vão explicações às teorias vulgares.

O futuro desfila diante dele de forma tão clara, tão precisa e tão lógica, que ele diz que, efetivamente, é impossível que as coisas não se passem assim e que é espantoso que não o tenham compreendido bem mais cedo; que é aí que um sentimento íntimo lhe dizia dever estar.

A ciência espírita, desenvolvida, só faz uma coisa: formular, tirar da confusão idéias já existentes em seu foro interior. Desde agora, o futuro tem para ele um objetivo claro, preciso, nitidamente definido. Ele não marcha ao léu, porque enxerga seu caminho.”

Para responder a tudo isso, eu não poderia fazer melhor que reproduzir a conclusão de um artigo de Gaston Luce:66

“O Sr. Lucien Roure assegura que Léon Denis nada acrescentou à doutrina de seus predecessores. Isso jamais, ao que se saiba, foi pretendido.

Que desejais se acrescente ao Espiritismo? Ele é a fonte de todas as religiões e tão antiga quanto elas.

Rejuvenescê-lo, adaptá-lo à mentalidade moderna, sobretudo colocá-lo ao alcance dos humildes, eis o que o apóstolo espírita pretendeu até seus derradeiros dias de sua longa vida.

Allan Kardec tinha motivado a inteligência dos pesquisadores. Léon Denis soube tocar o coração das multidões. Esse foi seu mérito, que é imenso. Nada mais o mestre pretendia!

Quando Lucien Roure escreve que a religião espírita proposta por Léon Denis é a doutrina da burguesia voltariana de 1850, renovada pela Liga do Ensino, ele se engana ou se perde pela paixão.

A burguesia voltariana? Analisai como Clément Vautel trata o Espiritismo e seu melhor servidor. A Liga do Ensino? Será que nunca se lembraram de que Léon Denis foi um de seus mais fervorosos pioneiros?

Assim, Lucien Roure ataca violentamente o herético, sem levar em conta que os impulsos levam ao equívoco.

Outrossim, seríamos mal recebidos em protestar quando ele conclui, de maneira categórica, que não é Léon Denis quem vai dar credibilidade ao Espiritismo, devemos sorrir, meus irmãos, deixando-o em sua doce ilusão... e releiamos o mestre.”

Em realidade, Léon Denis foi um adversário encarniçado do Catolicismo? Para poder responder a essa pergunta é preciso evitar fazer confusão entre o Cristianismo e o Catolicismo.

Estudando a obra Cristianismo e Espiritismo, constataremos a diferença que o mestre fazia entre o Catolicismo de hoje e o que existiu durante o primeiro século da Era Cristã.

Além de Cristianismo e Espiritismo, Léon Denis escreveu uma brochura – O Espiritismo e as Contradições do clero Católico.67

Há, igualmente, dois pequenos livros – difíceis de serem encontrados atualmente –, Le Spiritisme et ses Détracteurs Catholiques e Le Spiritisme et ses Détracteurs.

Uma é a resposta de um “velho espírita de Lyon”, a outra é uma réplica de um “velho espírita” ao arcebispo de Nancy. Disseram-me que o “velho espírita” era Léon Denis. Infelizmente, não pude conseguir a data dessas brochuras.

Léon Denis é imparcial ao estudar questões do Cristianismo, do Catolicismo e do Espiritismo; eis o que, por exemplo, ele disse, na conclusão da segunda parte da brochura O Espiritismo e as Contradições do Clero Católico:

“Ao término deste trabalho, lanço um olhar panorâmico sobre a obra da Igreja Católica Romana e resumo meu pensamento nesses termos: malgrado suas manchas e suas sombras, é grande e bela a história da Igreja, com seu longo séquito de santos, de doutores e de mártires.

Ela foi, nos tempos bárbaros, o asilo do pensamento e das artes e, durante séculos, a educadora do mundo. Ainda hoje, suas instituições de beneficência cobrem a Terra.

Por consequência, não é como um homem que quer lançar anátema contra o Catolicismo que Léon Denis se inclina sobre esse importante problema. Nessa mesma brochura, ele nos mostra como considera as religiões:68

“Não se precisaria deduzir dessas críticas que somos um inimigo das religiões. Ao contrário, pretendemos ser seu amigo sincero e clarividente. Reconhecemos, espontaneamente, que a religião é necessária à ordem social. Ela pode e deve introduzir na vida individual e coletiva elementos de disciplina, manter o salutar papel de freio, barrando as almas sobre o declive do vício e do crime.”

Infelizmente, há nas religiões, conforme os climas e a mentalidade dos povos, tantas coisas diferentes, que jamais, parece, poderão chegar a uma aproximação.

Foi isto, talvez, que inspirou Lucien Besnard na peça, representada em Porte Saint-Martin, sob o título: A l’Ombre du Harem.69

Nessa peça, Lucien Besnard estuda, precisamente, a diferença de concepção da mulher e do amor entre os europeus e os orientais.

Após ter sido educado na França, um homem foi nomeado Emir num lugar do Oriente, que não é mencionado para a peça ficar com um caráter de neutralidade absoluta.

Esse Emir fez cursos na Sorbonne e estudou em Saint-Cyr. De volta a seu país, foi derrotado pela França, que, em compensação, lhe deu um palácio, um séquito e um importante harém. Por ódio contra nosso país, nunca mais saiu de seu palácio.

No momento em que a ação começa, era residente francês um antigo oficial, Monfort, que se consagra aos negócios que pudesse realizar no país. Ele se aproveitou de um aparente passeio num país das vizinhanças, onde devia fazer prospecções, para ir, em realidade, ao próprio palácio do Emir e tornar-se amante da irmã dele.

O Emir soube, mas a Sra. Monfort ignora tudo. O Emir, deixando seu palácio, de onde jamais saíra, vem visitar os Monfort e, com uma crueldade feroz, comunica ao homem que sabe de tudo e que se vingará em seu filho, um menino de oito anos, tão adorado da Sra. Monfort, que seu marido, invejoso desse amor maternal, não vacila em fazer constantes censuras à sua mulher.

Na noite seguinte, o garoto é sequestrado e uma carta do Emir indica que ele só retornará se Sra. Monfort vier passar uma noite em seu palácio. A mãe não hesita e vai ao palácio.

O Emir é seduzido pela beleza do sentimento maternal dessa mulher e, sob condição formal de que o que houver entre eles fique em segredo, ele a respeita, porém exige que o Sr. Monfort acredite na culpabilidade de sua esposa, afirmando que se ela não o confirmar o menino será morto.

A infeliz aceitou o acordo, o Sr. Monfort é levado ao palácio e sofre a humilhação de constatar que sua esposa pertenceu a um outro. Isso o faz sofrer atrozmente, embora ele ame, à moda ocidental, isto é, arrogando-se o direito de enganar à sua maneira.

A Sra. Monfort retorna à França com seu filho e uma ação de divórcio é intentada pelo marido, mas como a legislação francesa, se a mãe é culpada, não lhe dá a guarda do filho, o Emir vem depor no processo e indicar que, na verdade, não houve relações entre essa europeia e ele.

Houve, talvez, da parte da Sra. Monfort e da parte do Emir um sentimento de afeição mais profundo do que ela imaginava.

Segundo o autor, o Emir se tornou muito apaixonado por essa mulher, que se impôs por sua beleza moral e, no momento em que lhe permite partir de seu palácio, para ser levada ao navio que a conduzirá à França, esses dois seres se dizem adeus nesses termos:

Isabelle: – Nacer, nós... nós não nos veremos mais.

Nacer: – Jamais... nem em nossos paraísos... eternamente fechados, como nossos países, como nossos corações, na fraternidade das raças inimigas.”

Em realidade, segundo a etimologia da palavra, as religiões deveriam ser capazes de reunir, juntas, todos os homens; sua diversidade dá, ao contrário, ao Emir e a Isabelle essa concepção que jamais, mesmo na vida do Além, não lhes será possível que se reencontrem. Isso é uma coisa espantosa.

Estudando a história das religiões, em Depois da Morte, nós nos damos conta de que justamente o papel do Espiritismo seria conseguir agrupar entre si todas as religiões.

A religião dos negros é estudada num livro de Georges Hardy, intitulado L’Art Nègre.

“Quanto mais conhecemos as numerosas religiões africanas – escreve o autor –, mais se está autorizado a afirmar que todas procedem de um dogma comum, dogma que deve ser bem forte e bem profundo para ter resistido a tantas tribulações e se ter mantido tão firme, apesar da ausência geral de livros santos.”

Segundo os artigos consagrados a esse livro, notadamente segundo os de Pierre Guitet-Vauquelin, em Le Matin, e Eugène Devaux, em Les Annales Coloniales, o espiritualismo tem um lugar importante na religião dos negros. Ela está, em suma, concentrada no culto das almas, dos pecados e das forças naturais.

Os negros têm medo da morte, mas acreditam na sobrevivência. Eis uma prova formal de que há em todas as criaturas o instinto de não acreditarem na destruição total pela morte.

Já que fui levado a falar de negros, lembremos um caso citado por Léon Denis, como prova formal da realidade espírita:70

“Um dia, o Sr. Brown encontra um negro, no qual reconheceu um cafre;71 ele lhe fala na língua de seu país e o convida a fazer-lhe uma visita.

No momento em que esse negro se apresenta em sua casa, a família do Sr. Brown realizava experiências espíritas. O visitante se informa se haveria amigos seus presentes à reunião.

Logo, a jovem da casa, que não conhecia uma palavra em cafre, escreve vários nomes naquela língua, que, lidos para o negro, provocam nele um vivo espanto.

Depois, veio uma mensagem em língua cafre, cuja leitura ele logo compreende, exceto de um termo desconhecido do Sr. Brown. O visitante o pronuncia de várias maneiras mas não lhe entendia o sentido.

De repente, a médium escreve: “Faça estalar a língua.” Então o Sr. Brown se lembra do estalar característico da língua, que acompanha o som da letra T no alfabeto cafre, e pronunciando corretamente a palavra, logo se fez entender.

Os cafres ignoram a arte de escrever e o Sr. Brown se admirava de receber uma mensagem escrita. Foi-lhe explicado que aquela comunicação tinha sido ditada, a pedido dos amigos do cafre, por um dos amigos dele, que falava correntemente essa língua.

O negro parecia aterrorizado em pensar que os mortos estavam ali, invisíveis.”

Tal terror era bem compreensível, porque, como nos diz Georges Hardy, os negros têm muito medo da morte. E assim, mais uma vez, um personagem imparcial vem confirmar o que é relatado na descrição de um fato espírita.

Quando apareceu Cristianismo e Espiritismo?

O prefácio da segunda edição começa assim:

“Na abertura de nossa edição de fevereiro de 1910, escrevíamos: Desde a publicação deste livro, dez anos se escoaram.”

Um exame superficial permitira, então, dar 1900 como data de publicação do livro, porém, na página 364 da edição de 1920 (12º milheiro), uma nota indica 1898 como ano da primeira edição. Admitiremos, então, essa data como certa.

Em Cristianismo e Espiritismo, Léon Denis nos apresenta sua religião de origem:

“Educado na religião cristã – escreve ele 72 –, sabemos o que ela encerra de poesia e de grandeza. Se abandonamos o domínio da fé católica 73 pela filosofia espírita, nem por isso esquecemos as lembranças da nossa infância.”



Cristianismo e Espiritismo foi bem recebido pela crítica.

“Léon Denis – lê-se em Revue de la France Moderne – é conhecido duplamente: como escritor e como conferencista.

Suas numerosas conferências, em Paris, no palácio da Duquesa de Pomar, na Sala dos Agricultores e no Trianon; na Universidade de Gênova, na Faculdade de Letras de Toulouse, em Bruxelas, La Haye, Lyon, Bordeaux, Marseille, etc., tiveram uma grande repercussão. Sua reputação como orador é grande.

Como escritor, podemos dizer que sua principal obra, Depois da Morte, teve um considerável sucesso e foi traduzida em quase todas as línguas da Europa.

Sob o título Cristianismo e Espiritismo, aparece agora um outro volume, no qual o autor estuda, de um novo ponto de vista, as origens do Cristianismo, seu desenvolvimento e suas transformações através os tempos.

Ele explica os “milagres”, isto é, os fenômenos ocultos, ligando-os a uma ordem de fatos constatados pela ciência contemporânea. Tais fatos, ditos espíritas, o autor os examina, em detalhe, na segunda parte de seu livro e relata suas experiências pessoais, prosseguidas durante 30 anos.

Todos os problemas filosóficos e sociais de nossa época são postos em revista nesse livro, escrito num estilo claro e brilhante, por um pensador animado de um vivo desejo de conciliação, ávido de uma síntese que satisfaça a todas as consciências fortes, a todos os corações plenos de ideal, a todas as almas realmente religiosas.

Essa síntese o autor a encontra nesse ensinamento superior e universal, até hoje exclusivo de alguns sábios e que, proclamado em nossos dias por todos os pontos da Terra, pelas vozes de além-túmulo, vai tornar-se a herança intelectual e moral da humanidade inteira.

É, pois, ao mesmo tempo, uma leitura atraente e séria. A obra de Léon Denis é semelhante ao semeador cujo gesto expande a fertilidade. Cada frase cai como um grão na alma e ali faz germinar a reflexão e os pensamentos profundos. Quem a lê torna-se melhor, mais firme no dever, mais acessível na piedade, mais fraterno com seus semelhantes. Outrossim, nós a recomendamos à atenção de todos os que pensam e buscam.”

Em Cristianismo e Espiritismo há duas partes bem distintas, se bem que o autor não tenha julgado necessário separá-las:

A primeira parte comporta os oito primeiros capítulos:

I – Origem dos Evangelhos

II – Autenticidade dos Evangelhos

III – Sentido Oculto dos Evangelhos

IV – A Doutrina Secreta

V – Relações com os Espíritos dos Mortos

VI – Alteração do Cristianismo. Os Dogmas

VII – Os Dogmas (continuação). Os Sacramentos, o Culto

VIII – Decadência do Cristianismo

A segunda parte compreende os três últimos capítulos. É, mais uma vez, a história do Espiritismo e as provas acumuladas da realidade de nossa Doutrina. Esses três capítulos são intitulados:

IX – A Nova Revelação: O Espiritismo e a Ciência

X – A Nova Revelação: A Doutrina dos Espíritos

XI – Renovação

A obra termina com 12 notas complementares, às quais atribuo uma importância particular.74 Elas são, certamente, destinadas aos que conhecem bem o Espiritismo e nelas se encontra uma riqueza extraordinária de importantes documentos.

Lendo-as, percebe-se a soma de conhecimentos que Léon Denis tinha conseguido adquirir. Ele dá a seus leitores ensinamentos excepcionalmente úteis, notadamente sobre a autoridade da Bíblia e sobre o sentido oculto dos Evangelhos.

Há, nessas notas, matéria para múltiplas reflexões, oferecendo respostas às objeções que os católicos indecisos podem fazer, quando discutem Espiritismo conosco.

Digo “indecisos” porque é indispensável, quando se discute com católicos, saber antecipadamente a quem nos dirigimos. Quando se está diante de alguém que afirme ter fé, temos o dever de não continuar a discussão.75

Se os espíritas têm o dever de tentar transmitir aos outros seus motivos de felicidade, devem, igualmente, jamais insistir em abalar a fé de quem quer que seja. Entretanto, se seus interlocutores reconhecem que não possuem uma fé bastante sólida, os espíritas têm, então, o direito de discutir com eles.

Quando se está diante de um católico, para se saber qual a conduta a seguir, basta fazer-lhe as seguintes perguntas: Acredita no inferno? Acha que Deus, infinitamente bom, justo e presciente, foi bastante mau para criar seres que seriam destinados às penas eternas?

Se a resposta for negativa, podemos estar certos de que não estamos diante de um católico ortodoxo e podemos continuar a discussão.

Quando propus, publicamente, essa questão ao Rev. Padre Jubaru, ele reconheceu que o inferno existia, porém acrescentou: “Nenhum texto nos obriga a crer que exista alguém lá.” Eis uma teoria bem diferente da que outrora era ensinada pelos padres.

Lembro-me do terror que um habilidoso orador me inspirava, quando eu era criança. Durante 15 dias, tive pesadelos.

Inspirar o pavor para obrigar os fiéis a se portarem bem é uma concepção bem diferente da que resulta do ensinamento espírita. De minha parte, prefiro temer minha consciência a um inferno no qual é irracional se acreditar.

Quando se trata de mostrar a origem do catolicismo, Léon Denis age com grande delicadeza. Sabe-se como era tolerante o mestre; em Cristianismo e Espiritismo, ele é ainda mais liberal do que em outras obras.

Basta ler, com atenção, as passagens em que nos mostra que o Cristianismo primitivo estava em concordância com o ensino oral de Jesus Cristo. Somente 70 anos após a morte do Cristo é que começamos a ter os escritos que se transformaram nos Evangelhos.

Todavia, os quatro Evangelhos atualmente reconhecidos pela Igreja não são os únicos que existiram. Léon Denis estuda a evolução que se produziu; mostra como os homens puderam, aos poucos, transformar o papel sagrado assumido por eles, quando se transformaram em padres.

Lembra que eles chegaram a negligenciar os interesses espirituais da Igreja para se preocuparem mais com seus interesses materiais. Tal é a origem dos dogmas inventados no decorrer dos séculos por homens reunidos em concílios.

Para se compreender quanto Jesus Cristo teve de dificuldades para tornar aceitável sua teoria do amor ao próximo e da bondade do Criador, é preciso recordar a crueldade do Deus adorado pelos judeus.

Sobre esse ponto é útil ler Marie-Madeleine, de Edouard Romilly. Narrando-nos, em pormenores, a história da grande pecadora, esse autor produziu uma obra útil. Eis como ele descreve a lapidação de Maria Madalena:76

“Uma voz de mulher canta, nesse momento, numa casa e Madalena se põe a chorar.

Não era a vida, aquela vida que ela tanto amava e que lhe dava adeus?

Oh! o desespero de morrer assim, tão jovem! Oh! viver ainda, um dia, uma hora, uma hora somente!...

De repente, uma pedra vem atingir o muro, bem acima de sua cabeça, fazendo cair poeira sobre ela. Era uma pedra mal lançada... rápida.

Quem a lançou queria, inicialmente, assustá-la, sabendo quanto o medo faz sofrer. Madalena treme o corpo todo. Sente que o momento supremo está chegando. Fecha os olhos e, por um derradeiro instinto de faceirice, põe suas duas mãos sobre o rosto tão belo, procurando protegê-lo. Queria, na morte, não ficar muito desfigurada.

Parecia-lhe que toda a sua vida desfilava a seus olhos. Quantos pensamentos rápidos e dolorosos se sucederam assim! Um deles, sobretudo, lhe sobreveio, bruscamente, como uma grande luz na noite sombria: ela se lembrou da lei judaica, da lei de seus irmãos, que ela havia esquecido por muito tempo e descobriu que a havia transgredido.

Sim, segundo a lei, ela morria justamente.

Então, não mais se revolta, curva a cabeça e não mais suplica por que o Deus de sua infância era um Deus implacável.

Não pensa em mais nada, sem esperança, quer do Céu, quer da Terra...

Fazia pouco que perdera o sentimento. Os risos, os insultos, os gritos não lhe pareciam mais do que um burburinho confuso...

Passiva, aguardou a segunda pedrada, que lhe abriria a fronte e lhe quebraria a cabeça...

Ora, pareceu-lhe que naquele momento uma voz muito suave, mas que, todavia, dominava os rugidos da multidão, se alteara e um grande silêncio se fizera ao seu redor. Sem dúvida, era uma espécie de sonho, como acontece na hora da morte.

Talvez já esteja morta!...

Trêmula, abriu um pouco os olhos. A multidão, sinistra, todavia ali estava, postada diante dela e os braços suspensos seguravam pedras.

Ela pôde ver, distintamente, Barrabás, na primeira fila.

Entretanto, ele não a olhava. Todos os olhares estavam voltados sobre um homem, de roupa branca, de um aspecto singularmente majestoso, que vinha, lentamente.

Quando esse homem se postou ao seu lado, Madalena compreendeu, instintivamente, que era o Cristo...

Então, um fariseu se adiantou e, apontando o dedo, disse a Jesus: “Mestre, a cidade toda sabe que esta mulher é uma prostituta. Ora, Moisés, em sua Lei, nos ordenou lapidar tais criaturas. Vós, porém, que dizeis?”

Ela ouviu, mais morta do que viva; um suor frio lhe corria pelo corpo. Não iria ele, como João Batista, lançar-lhe o anátema? (E como iria ele poder se opor à Lei de Moisés, que regulava, soberanamente, a moral judaica há 5.000 anos?)

Ele nada respondeu. Baixara-se e escrevia sobre a areia com seu dedo. O povo o aguardava, curiosamente.

O fariseu o interrogou novamente. (Era para testá-lo que o interrogava assim, a fim de poder acusá-lo.) Jesus, porém, se levantou: “Aquele, dentre vós, que estiver sem pecado – disse ele –, que lhe atire a primeira pedra!...”

Resposta de uma infinita caridade, mas também de uma sabedoria maravilhosa, porque se o Cristo houvesse respondido: “Não sejais cruéis, não a lapideis!”, sua intervenção de nada teria servido. Teriam gritado todos, com razão, que ele próprio, propondo-se ao castigo da pecadora, transgredia a Lei de Moisés.

Mas, respondendo assim, ele não se opunha à Lei de Moisés; queria somente que os que assumissem o terrível papel de condenadores fossem perfeitamente puros aos olhos de Deus.

E qual homem, não apenas diante de Deus, mas diante de seus próprios concidadãos, ousaria, sem ser taxado imediatamente de loucura e de blasfêmia, dizer-se puro de todos os pecados?”

Em Cristianismo e Espiritismo,77 temos três linhas que poderiam servir de tema quotidiano para meditação. Léon Denis afirma:

“... mas o fim da vida terrestre não é a felicidade, é a elevação pelo trabalho, pelo estudo e pelo sofrimento...”

Certos médicos, certos magnetizadores indicam um meio excelente, quer para suas doenças, quer para os que desejam adquirir o domínio de si mesmos; eles lhe ordenam ter constantemente sob seus olhos máximas simples como, por exemplo: “Eu quero aprender a querer”.

Aconselhamos ter em seu quarto um cartaz colocado de tal sorte que os olhos possam lê-lo, à noite, antes do apagar da luz, e de manhã, ao despertar. Por certo será excelente, quando se entrega a tais práticas, escolher a máxima de Léon Denis, que repetimos aqui:

“A finalidade da vida terrena não é só a felicidade; é a elevação pelo trabalho, pelo estudo e pelo sofrimento.”

Assim, cada noite, procedendo a um exame de consciência, perceberemos que, apesar das provações, podemos ser felizes. Cada manhã, perguntando como se poderá melhorar nosso dia, decidiremos esforçar-nos por prestar serviço aos outros.

Quando se estuda a história do Espiritismo, observa-se com espanto que, por vezes, desejando tentar abater nossa doutrina, a Igreja Católica não hesitou em fazer coro com os materialistas. Em seu livro, Léon Denis constata que, por vezes, por causa dos dogmas inventados pelos homens, a Igreja chega a conclusões idênticas às dos materialistas.

É assim, por exemplo, quanto ao pecado original.

“É pela concepção que se transmite às crianças o pecado. Esse dogma se chama traducianismo e as Igrejas cristãs não parecem se aperceber que, por semelhante afirmação monstruosa, elas se tornam aliadas do materialismo, que proclama a mesma teoria sob o nome de hereditariedade.” 78

Tal teoria do pecado original não é, aliás, admitida por todos os católicos. A se crer em Aux Écoutes,79 o Padre Sanson, orador prestigioso, teria negado a queda original e estaria revoltado contra o dogma do resgate do homem pelo Cristo.

Estará aí o motivo de sua desgraça e de sua substituição na cátedra de Notre-Dame de Paris por Monsenhor Baudrillart?

Jesus quis que uma grande solidariedade reinasse entre os homens, ricos ou pobres. Às vezes, há solidariedade nos povoados populares, mas isso não existe frequentemente entre as pessoas afortunadas.

Quando numa casa operária há um doente, ele é visitado por quase todos os locatários da casa e cada um se interessa em lhe prestar favor. Ao contrário, nas residências suntuosas, os moradores ignoram os doentes de seus condomínios.

Por vezes, mesmo quando a morte ronda, pode haver, no mesmo local, reuniões musicais.

Não se trata de impedir que os homens tenham seu conforto, somente que sua riqueza e suas facilidades não os levem a esquecer os sofrimentos dos outros.

Jesus veio expulsar os mercadores do Templo. Se ele hoje retornasse à Terra, não teria o mesmo gesto?

Eis a reprodução exata do que se podia ler em 5 de dezembro de 1927, no Le Journal:



Grenelle, 20.30. Mon Homme (Colin-Monnet)

Darcet (Levallois), 20.30. Lakmé (Math-Lutz)

Folies-Belleville 20.30. Le Comique Carjol

Os Grandes Concertos

Audição musical em La Madeleine

Quinta-feira próxima, às 8 horas, inauguração solene do grande órgão, já restaurado. Recital pelo mestre H. Dallier, professor no Conservatório, com o concurso de artistas. Saudação feita por célebre professora. Lugares na igreja, com Durand e Flandre.


Harold Bauer – Essa noite, na sala Pleyel.

Entradas: Sala Pleyel, Durand, Dandelot.



Espetáculos e Concertos

Sexta-feira, 9 de dezembro

quando Léon voltará a se apresentar no



Cassino de Paris

Não é exagerado servir-se de uma igreja como sala de espetáculos?

Não é escandaloso fazer publicidade para um concerto dado em uma igreja, como fazem os diretores de musicais, para atrair o público a seus espetáculos licenciosos?

Hoje, aliás, vemos entre os católicos coisas inacreditáveis.

Todos sabem que eu estou longe de admirar Léon Daudet e suas doutrinas políticas.

Quando se vê o arcebispo de Bordeaux proibir aos membros do clero de darem absolvição aos membros da “Action Française”, tem-se a comprovação real de que os dirigentes do catolicismo esquecem, totalmente, a magnanimidade do Cristo.

A base do Cristianismo é uma sentença de amor: “Amai-vos uns aos outros”. Esperamos que um dia a Igreja Católica, abandonando seu sectarismo, se lembre de que Jesus Cristo queria a solidariedade entre todos os homens.

À luz do Espiritismo e de seus ensinamentos, que serão um dia admitidos pela maioria dos homens, chegar-se-á a estabelecer entre todos uma real fraternidade. É a conclusão de Léon Denis, que, em sua obra Cristianismo e Espiritismo, escreve com justa razão:80

“Para que o trigo germine, são necessárias as caídas de neve e a triste incubação do inverno.

Rajadas poderosas virão dissipar as trevas da ignorância e os miasmas da corrupção.

As tempestades passarão; o céu azul reaparecerá. A obra divina se expandirá numa eclosão nova. A fé renascerá nas almas e o pensamento do Cristo raiará de novo, mais brilhante, sobre o mundo regenerado.”





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