Henri Regnault a morte nao Existe



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Prefácio


Henri Regnault teve a feliz idéia de apresentar um minucioso estudo da obra de Léon Denis, o grande discípulo e o perfeito continuador do mestre Allan Kardec.

Em A Morte não Existe, encontraremos provas irrefutáveis da possibilidade que os desencarnados têm de se comunicar com os vivos.

O simpático e devotado vice-presidente da Sociedade Francesa de Estudos dos Fenômenos Psíquicos estava realmente qualificado para pôr, vigorosamente, em destaque a elevada qualidade filosófica dos livros de Léon Denis, e lhe devemos ter tão bem compreendido a importância capital que essas obras possuem para todos os pensadores que desejam ver o Espiritismo adotado, não apenas pelos crentes sinceros, mas também pelo mundo científico ainda um pouco hesitante e prisioneiro das estreitas e ultrapassadas fórmulas.

Henri Regnault já escreveu uma série de obras notáveis: Le Bonheur Existe (A Felicidade Existe), Seul le Spiritisme Peut Rénover le Monde (Só o Espiritismo pode Renovar o Mundo), La Réalité Spirite (A Realidade Espírita), La Médiumnité à Incarnations (A Mediunidade nas Encarnações), Les Vivants et les Morts (Os Vivos e os Mortos), Tu Revivras (Tu Viverás). Todos esses livros, que foram tão bem acolhidos pela crítica, continuam a tradição espírita.

Eis por que o autor tão bem soube, em sua análise da obra de Léon Denis, mostrar a elevada verdade que ela, sublimemente, apresenta. Capítulo por capítulo, ele pôs, minuciosamente, em destaque o pensamento de Léon Denis.

Do escrínio tão bem ornado das mais valiosas jóias, ele extraiu os mais belos diamantes para melhor apresentar seus brilhantes efeitos.

Do conjunto de flores esplendentes, colheu as mais belas para torná-las admiradas, com um brilho maravilhoso.

Colocou, bem apropriadamente, no mesmo pedestal o mestre e o discípulo. Mostrou-os unidos nos mesmos nobres pensamentos e deu às suas obras uma solidez ao pé das quais se quebrantarão, definitivamente, a ignorância, a idiotia e a maldade humanas, que os dois apóstolos, Allan Kardec e Léon Denis, se esforçaram por vencer, em prol da felicidade e do bem-estar da humanidade.

Assim fazendo, Henri Regnault compreendeu que o maior benefício para os espíritas era, presentemente, conhecer bem os bons seareiros da mais bela das doutrinas e, nos ofertando uma nova obra, ele pôs seu zelo, utilmente, a serviço da melhor das causas.

Regnault teve a sorte de encontrar uma obra de Léon Denis, pouco conhecida e completamente esgotada atualmente: Giovanna. Encontraremos extensos trechos de Giovanna em A Morte não Existe.1

A difusão dos livros de Léon Denis é um dever a que seus admiradores devem-se impor. Eles poderão cumprir essa tarefa com facilidade e método quando tiverem conhecimento das mais belas passagens de sua obra e, assim, estarão à altura de torná-la conhecida, utilmente, a todos os pesquisadores sedentos da verdade.

Paul Bodier
Presidente da Sociedade Francesa de Estudos Psíquicos.

Explicação


Denominando esta obra A Morte não Existe, não tive nenhuma intenção de demonstrar a inexistência da morte do corpo físico.

Após a desencarnação, este se decompõe e retorna à matéria, porém esse corpo é apenas o invólucro transitório dado à alma, no curso de suas diversas existências terrenas.

Muito além da destruição desse corpo físico, a alma e o perispírito (que serve de liame entre ela e esse corpo) continuam sua evolução. Eles não são destruídos.

Nesse caso, tenho o direito, estudando a obra de Léon Denis, de afirmar, como esse grande pensador, que a morte não existe.


Introdução


Antes de começar o estudo da obra de Léon Denis e a sua influência, recolhi-me e solicitei, ardentemente, o auxílio e a assistência, não apenas de meus guias e de meu amigo desaparecido a nossos olhos físicos, mas também a proteção de Allan Kardec, Camille Flammarion, Dr. Geley, Comandante Darget, Gabriel Delanne e demais pioneiros do Espiritismo, que precederam Léon Denis no Além. Todos realizaram, em nosso mundo, uma tarefa ingrata, muitas vezes bem difícil.

Eles poderiam, melhor que os outros invisíveis, me ajudar a concluir o trabalho empreendido e me inspirar, a fim de que minha nova obra pudesse ser útil.

Desejo lembrar a obra de Léon Denis aos que, já espíritas, encontraram, em sua companhia intelectual, alegrias ideais e um precioso reconforto, porém gostaria, principalmente, que meu livro fosse lido pelos que ainda não estão iniciados no Espiritismo.

Possam meus inspiradores me ajudar a bem narrar as provas irrefutáveis da realidade espírita; possam meus incrédulos leitores estar devidamente interessados em ler, atentamente, nossos autores e achar, graças a eles, os meios dessa real e completa felicidade que eu, pessoalmente, conquistei, pelo estudo de nossa doutrina.

Desde que, por sua feliz intermediação, compreendi as reais razões de nossa passagem pela Terra, estou perfeita e completamente feliz.

Conhecendo os motivos de minha vinda ao nosso planeta, guardo a segurança e a calma, mesmo nos frequentes períodos em que passei as diversas provações que, aliás, neste mundo, atingem a todos.

Se me sinto feliz, tenho o dever de tornar conhecido de todos os motivos de minha felicidade; nunca tive tanta razão de aplicar este sábio preceito de Sêneca: “Toda felicidade que não é repartida perde sua doçura.”

Desde que comecei uma ativa propaganda para fazer conhecer às massas o que é exatamente o Espiritismo, tive a grande satisfação de levar a algumas pessoas as possibilidades de serem felizes, o que lhes parecia que jamais obteriam.

No momento de apresentar meu trabalho à apreciação do público, desejo, de todo o coração, que ele sirva, por vezes, de farol àqueles que, levados pela tempestade nas lutas terrestres, estando inclinados ao desânimo e mesmo ao fracasso, vejam brilhar ao longe o mágico clarão que o Espiritismo projeta em nosso planeta.

16 de janeiro de 1928.
Henri Regnault

Capítulo I

A vida de Léon Denis


Em 1889, no Congresso Espírita realizado em Paris, de 9 a 16 de setembro, o Relator Geral, Papus,2 assim se expressava:

“Penso não me enganar, afirmando que a maioria dos membros desse Congresso foi despertada para se ocupar com as questões espíritas, psíquicas e ocultistas, por influência mediata e imediata do fundador do Espiritismo filosófico – Allan Kardec.”

Quando Allan Kardec deixou nosso planeta para o luminoso retorno ao Além, ele sabia ter fiéis discípulos. Ele, portanto, partiu tranquilo. Entre os melhores de seus continuadores figurava Léon Denis.

Em 12 de abril de 1927, às 21 horas, Praça das Artes nº 19, numa casa de Tours, com uma vista maravilhosa para as margens do Loire, um homem morria.

Por toda a sua existência e de todas as formas, esse homem tinha sido útil à Sociedade. Sua obra foi fecunda em consolações. Seu nome: Léon Denis.

Ele acabava de escrever uma obra: O Gênio Céltico e o Mundo Invisível e já pensava no livro que ainda queria escrever.3

Trabalhou quase até o último segundo de vida; entretanto, estava bastante idoso, pois, nascido em Foug, em Meurthe-et-Moselle, a alguns quilômetros de Toul, a 1º de janeiro de 1846, tinha, no momento de sua morte, 81 anos.

Conheci muitos espíritas bem idosos. Citarei, por exemplo, meu excelente amigo Jules Gaillard, antigo deputado, que, há pouco tempo, tinha a mesma idade de Léon Denis.

Lembrarei, ainda, uma mulher admirável, a Sra. Blanche Barchou; de uma forma desprendida, inteiramente à sua custa, e durante muitos anos, ela fez, em França, interessantes conferências de propaganda espírita. Ela tem atualmente 83 anos.4 Recebo, frequentemente, cartas suas, e se as mostrasse sem dizer de quem era, acreditar-se-ia logo serem de uma jovem de 18 anos.5

Para retratar, rapidamente, a vida de Léon Denis, servir-me-ei de uma biografia, aparecida em 1924, escrita por meu excelente amigo Henri Sausse, que foi durante muitos anos, Secretário-geral da Federação Espírita Lionesa.

Luce, que era um grande amigo de Léon Denis, teve o carinho de recolher os fatos íntimos do mestre; atualmente, prepara uma biografia completa de Léon Denis 6 e me forneceu algumas informações. Agradeço-lhe, fraternalmente.

O Presidente de Honra da União Espírita Francesa teve uma prova viva do que o trabalho e a vontade podem proporcionar a uma criatura humana.

A situação bem modesta de seu pai, honesto trabalhador, não lhe permitiu fazer grandes estudos; na idade de 12 anos, logo que terminou o curso primário obrigatório, começou uma aprendizagem de ocupação manual. Todavia, Léon Denis tinha uma saúde muito frágil. Esse trabalho foi muito sacrificial. Aos 18 anos, muda de profissão e se torna representante comercial, viajando até o fim de sua velhice.

Quando estava no trabalho, no lugar de recrear-se, à tarde, com os pequenos aprendizes e fazer as clássicas travessuras (tocar as campainhas, por exemplo), o menino se instruía o mais possível. Lia obras sérias e adquiriu, pelos próprios esforços, uma certa cultura.

Aos 16 anos, inscreveu-se como membro da Loja dos Demófilos (Loge des Démophiles) de Tours, onde, bem depressa, por causa de suas qualidades de assimilação, de seu dom de eloquência natural, tornou-se um dos melhores oradores e um dos mais ardorosos propagandistas.

Tinha 24 anos e se encontrava em Tours, quando a guerra de 1870 explodiu. Seu estado de saúde frágil lhe teria permitido não ser soldado. Ele se apresentou. Entretanto, professava idéias muito democráticas que seriam consideradas hoje como bem normais, bem naturais, porém, naquela época, eram muito avançadas, sem serem, todavia, como o são hoje, as teorias comunistas e soviéticas que têm como base o ódio e a inveja.

Tornou-se logo tenente das Tropas de Indre-et-Loire; era titular desse posto, por ocasião da assinatura da paz.

Retornando a Tours, recomeçou sua vida de viajante comercial; indo de cidade em cidade, para colocar suas mercadorias, aproveitava suas viagens para fazer, além de seu trabalho, a propaganda de suas idéias.

Em 1877, uma tendência nova surgiu na Franc-Maçonnerie, cuja origem é espiritualista e ocultista.

Léon Denis tentou lutar contra esse movimento, sem resultado, e, apesar de sua posição relevante e moral na loja, preferiu deixar seus companheiros. Tinha, então, 31 anos, quando se demitiu.

Três anos mais tarde, Jean Macé fundou a “Liga do Ensino”. As idéias generosas que estão na base dessa Sociedade agradaram a Léon Denis, que logo se tornou adepto, porém, destacando-se suas qualidades de orador, bem depressa ultrapassou o quadro da Franc-Maçonnerie e se tornou a alma do Círculo Tourangeau.

Ele fez conferências onde seus afazeres o chamavam, fundando por toda parte círculos e bibliotecas populares. Preenchia, assim, uma bem útil necessidade social.

Orador habilidoso, sabendo interessar, Léon Denis conseguiu muitas adesões.

Seria bem difícil avaliar o grande número de conferências que ele fez na França, para divulgar os objetivos da Liga do Ensino.

Ele havia começado essa tarefa em 1880; em 1884, julgou necessário fazer, igualmente, palestras para divulgar as idéias espíritas. Tinha, então, 38 anos, porém, aos 18 anos, em 1864, havia adquirido O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec.7

Aliás, aquele que se devia tornar um mestre em nossa Doutrina havia feito confissão pública de espírita; encontrei, na coleção Le Spiritisme, um artigo sobre a grande tradição dos gauleses, que aparece no começo de julho de 1883.

“Como nós – escrevia ele –, os druidas afirmavam a infinidade da vida, as existências progressivas da alma, a pluralidade dos mundos habitados.

É nessas doutrinas viris, no sentimento da imortalidade que daí decorre, que nossos ancestrais apoiavam o seu espírito de liberdade, de igualdade social, o seu heroísmo diante da morte.”

Nesse artigo, escrito aos 37 anos, Léon Denis já defendia as idéias que desenvolveu em seu último livro, O Gênio Céltico e o Mundo Invisível.

Encontra-se aí um admirável exemplo de unidade de vistas e tenho o dever de assinalá-la em meu trabalho sobre a obra do apóstolo do Espiritismo.

Ninguém melhor do que ele soube pôr em prática esse sábio conselho de Amiel: “Seja o que você deseja que os outros sejam. Que seu ser, e não suas palavras, seja uma pregação.”

Naturalmente, Léon Denis se vinculou à obra de Allan Kardec, que ele desenvolveu e continuou, sem nenhum sectarismo. Segundo ele, não se deve considerar uma teoria oficial do Espiritismo. Ele escreveu com justa razão:

“A doutrina de Allan Kardec resulta do combinado dos conhecimentos de duas humanidades que se interpenetram, porém ambas imperfeitas e em busca da verdade e do desconhecido, embora superior a todos os sistemas e a todas as filosofias do passado, permanece aberta às retificações, aos esclarecimentos do futuro.”

Léon Denis fez conferências pelo interior, em Paris e no estrangeiro. Nas coleções das diversas revistas que defendem nossa doutrina, constantemente encontramos seu nome; sua reputação de conferencista ultrapassa de muito o quadro dos órgãos especiais de múltiplos jornais que anunciaram suas palestras e destacaram suas preciosas qualidades de orador.

Em 30 de março de 1884, Léon Denis proferiu uma conferência em Nantes, no anfiteatro da Escola Profissional, intitulada “A Guerra dos 100 Anos, Joana d’Arc”, falando na qualidade de Secretário do Círculo Tourangeau e da Liga do Ensino. Em 1º de abril de 1884, o Le Populaire publicava a seguinte apreciação:

“O conferencista de domingo não é um homem comum. Além de ser uma capacidade, ele é, principalmente, um pensador e um filósofo.

Léon Denis é uma dessas almas nobres que sentem o coração da humanidade e que gostariam que todos os homens se amassem uns aos outros, fizessem um esforço sobre si mesmos para se libertarem das estreitezas do velho mundo e organizarem uma sociedade de fraternidade e de amor.”

O Capitão Mandy, relatando no Le Spiritisme, escrevia:8

“Por que essas mesmas vozes (as ouvidas por Joana) não se fariam ouvir também hoje, pelo eminente orador que comprova a necessidade imensa de se devotar a seus irmãos, de ajudar a humanidade, em sua marcha para o progresso?

São elas, sem dúvida, que dão às palavras de nosso amigo esse atrativo, essa delicadeza de expressão, esse tanto agradável que evita atritar as convicções dos que não pensam como ele.

Essa passagem da conferência, tendo semelhança com as vozes de Joana, era difícil de desenvolver em Nantes, onde, até hoje, nada de tão preciso fora dito sobre nossas crenças espíritas.

Era preciso fazer justiça ao conferencista, que, impondo ao público sua maneira de ver, teve coragem moral de apresentar o que para ele é uma verdade, verdade que não admitem os que aceitam as crenças de um culto, nem os que limitam seus destinos à vida humana (...).

Convido todos os espíritas a reunirem seus esforços para conseguirem os benefícios citados por essa conferência.

Entretanto, ofenderia a modéstia de nosso irmão Denis, se não prevenisse aos meus confrades que agiriam mal, se buscassem, num espírito de cordialidade, preparar-lhe uma homenagem qualquer.

Ele deseja que o tratem, quando chega, com a simplicidade de um verdadeiro apóstolo, pois seu devotamento à causa espírita é todo moral, desprendido, sem compensações de espécie alguma.

Nosso amigo não vê nessas homenagens senão meios de atrair críticas tolamente ferinas de alguns falsos irmãos e também de arruinar a sua saúde.

É que Denis não pertence a nenhuma pessoa: ele é de todos os seus irmãos em humanidade.”

Em 12 de março de 1885, Léon Denis fez, em Mans, uma conferência sobre Joana d’Arc e suas vozes. Victor Goutard expressou sua admiração pelo divulgador espírita nos seguintes termos:9

“O orador prendeu, durante uma hora e meia, o auditório às suas palavras; era belo ver aquela multidão atenta, recolhendo, piedosamente, as frases do orador, palavras calorosas e enérgicas que fazem vibrar as mais sensíveis fibras de nossos corações.

Quando ele fala da pátria, sente-se um coração de ouro bater nesse peito varonil e sabe-se que são suas próprias crenças que ele manifesta, porque, apesar da facilidade de expressão de um conferencista, quando só pronuncia frases feitas e apenas exprime idéias encomendadas, ele não encontra todos esses motivos que tanto emocionam um público, mantendo-o em suspenso e realizando o milagre de fazê-lo abdicar de suas crenças pessoais para adotar, momentaneamente pelo menos, as do orador.”

Os dons oratórios do mestre foram exaltados no Congresso de 1889, por Papus, que em seu relatório geral dizia a seus colegas:10

“Léon Denis foi com justiça festejado por vós. Sentistes, ouvindo sua voz convincente, que, se nossa causa tivesse apóstolos do mesmo porte, seu progresso certamente estaria garantido.”

Para mostrar quanto Léon Denis era apreciado, aproveito algumas citações da obra de Henri Sausse.11

Em 21 de março de 1895, lia-se no L'Evénement (Paris):

“Orador literário, pleno de ardorosa convicção, Léon Denis soube depressa conquistar o auditório mundano que se comprimia no salão de festas do Hotel de Pomar, e era um verdadeiro prazer ver aquele enxame de belas senhoras da aristocracia parisiense, divertindo-se inicialmente com alguns pensamentos frívolos, modificar, pouco a pouco, a expressão de seus olhares para se tornarem graves e mostrarem um atento interesse.”

Le Progrès (Nantes) escreveu:

“Léon Denis, que ouvimos na Renaissance, é, certamente, um conferencista fora de série. Tem estilo imaginoso, idéias nobres, elevadas, emoções contagiantes, ele tem voz e gestos.”



La Petite Gironde (Bordeaux), afirmou:

“Léon Denis é um orador de talento, de palavra nervosa e colorida, muito nítida e, por vezes, eloquente, ao mesmo tempo artista e poeta, que sabe, sem esforços, dramatizar suas narrativas e lhes dar um extraordinário relevo.”



La Dépêche (Tour) deu assim sua opinião:

“Léon Denis possui as qualidades mestras que consagram um orador: profunda erudição, forma elegante, harmonia nos períodos, gestos sóbrios e, acima de tudo, a voz, que torna sua eloquência particularmente comunicativa e lhe possibilita logo as simpatias do auditório.”



L’Est Républicain (Nancy) faz estes comentários:

“Com sua eloquência ardorosa, imaginosa, frases harmoniosas e períodos vibrantes, Léon Denis tratou do problema do destino...

Sua conferência, bem digna de entusiasmar e consolidar as almas apaixonadas por um ideal, terminou em meio a aplausos e felicitações.”

Léon Denis não se envaidecia de seus numerosos sucessos, realizando, muitas vezes, conferências com debates e tendo o hábito de responder a seus auditórios, jamais ficando calado, mesmo diante das mais complexas questões.

“Quando se é espírita, dizia-me ele, e quando se defende o Espiritismo, frequentemente temos a impressão de que não falamos por nós mesmos, que somos um instrumento nas mãos dos Invisíveis e que são eles que nos fazem usar, no milésimo de segundo, a palavra exata que é preciso empregar para tocar um ou para convencer outro.”

A ação de Léon Denis não era muito fácil, era bem fatigante, considerando-se que a ela se juntava o exercício de sua profissão.

Desde fevereiro de 1927, conciliei o trabalho da livraria com minhas ocupações jornalísticas; durante os meses de agosto e setembro, passei, exclusivamente no interior, minha vida como representante comercial. Entretanto, nunca tivera uma noção exata dessa existência especial e, não obstante, eu era favorecido, porque viajava de automóvel.12

Nada é mais cansativo do que essa vida; é preciso, durante o dia, correr, de um lado para outro, achar diversos argumentos capazes de convencer o possível cliente. À noite, ainda se precisa ocupar em preparar a jornada do dia seguinte e fazer sua correspondência comercial; isso toma bastante tempo.

Naturalmente, aproveitava minha passagem pelas localidades para fazer a divulgação espírita; empregava, entre outros, um excelente meio, antes dos demais: colocar prospectos de propaganda no maior número possível de caixas de correspondência.

Não sei se Léon Denis usava esse sistema. Em todo caso, ele costumava fazer conferências em todos os lugares. Toma-se facilmente conhecimento do seu extenuante labor.

Além de seu trabalho material, devia fazer estudos pessoais, participar de reuniões experimentais, preparar suas conferências e escrever seus livros. São tarefas múltiplas e uma só já bastaria para ocupar a atividade de uma pessoa.

Apesar de sua delicada saúde, Léon Denis pôde fazer face às suas diversas obrigações. Vejo aí uma prova, juntada a tantas outras, de que aqueles que se dedicam sincera e completamente aos seus semelhantes recebem uma proteção das forças especiais.

Quando, de forma desprendida, nos consagramos por inteiro a uma causa que julgamos justa, recebemos forças psíquicas, podemos trabalhar quotidianamente sem cansaço ou quase, contentando-nos com algumas horas de sono.

Tal foi a existência de Léon Denis, que era impulsionado por dois estimulantes aos quais é impossível resistir: o Dever e a Verdade.

Desejando que suas palestras fossem tão eficazes quanto possível, Léon Denis compôs uma pequena brochura, que explicava nítida e simplesmente o que é o Espiritismo. Em setembro de 1885, ele publicava O Porquê da Vida, fino opúsculo que continha um inteligente resumo de suas idéias, que, de 1883 até sua morte, nosso mestre jamais cessou de defender ardorosamente.

Os livros


No Congresso Espírita de 1889, quando acabava de ser nomeado Presidente da Comissão de Propaganda, Léon Denis falava a Henri Sausse de uma proposta para a edição popular de uma obra de Allan Kardec ou de outra que condensaria o Espiritismo.

Henri Sausse disse a Léon Denis: “Ora, você me parece o escolhido para fazer isso.” Denis não respondeu, mas a idéia prosseguiu seu caminho e, em 25 de dezembro de 1890, a poucos dias de seu natalício, o autor fazia aparecer Depois da Morte, obra que teve um grande sucesso de livraria. Os demais livros foram publicados numa lenta cadência.

Exercendo sua profissão de viajante comercial, continuando sua obra de propaganda, prosseguindo em suas conferências espíritas, Léon Denis escrevia obras que apareceram, umas em brochuras e outras em livros. Eis a lista, segundo a ordem cronológica dada por Paul Leymarie:

Livros


Depois da Morte

No Invisível – Espiritismo e Mediunidade

Cristianismo e Espiritismo

O Problema do Ser e do Destino

O Grande Enigma – Deus e o Universo

Joana d’Arc, Médium

O Mundo Invisível e a Guerra

O Gênio Céltico e o Mundo Invisível


Brochuras


O Porquê da Vida

O Além e a Sobrevivência do Ser

O Espiritismo e o Clero Católico

Síntese Espiritualista

Espíritos e Médiuns

A essas obras convém juntar a novela espírita Giovanna, publicada em folhetim em Le Spiritisme, de janeiro a março de 1885.13

Sobre essa novela discorre Henri Sausse:14

“Léon Denis estampa, com a poesia e delicadeza de estilo que lhe são particulares, alguns episódios de um idílio, tão encantador quanto juvenil, que um cruel destino destroçou em seu desabrochar.

A morte de Giovanna, tragada pelo tifo, deixa seu noivo totalmente desamparado e destroça todos os seus projetos futuros. É então que ele se dobra sobre si mesmo e acalma sua dor buscando consolar a dos outros.”

Quando nos sentimos muito infelizes, convém tratar de nos esquecermos, pensar em todos os que sofrem mais, seja do ponto de vista moral, seja do ponto de vista físico, seja do ponto de vista material.

É preciso perguntarmos o que é possível fazer para tentar ajudar mesmo que a um só desses inúmeros seres que, sobre a nossa Terra, sofrem sem parar.

Isso permite tirar de si mesmo o segredo da felicidade que é a base humana da filosofia espírita: “esquecer seus próprios sofrimentos, tentando diminuir os dos outros”.

A obra literária de Léon Denis é sobretudo espírita, entretanto ele escreveu outras obras.

Não pude ainda encontrar uma sequer. Estão todas esgotadas. Qual é sua importância?

São livros? São brochuras? Não sei de nada.

Elas são intituladas, segundo Henri Sausse: A Tunísia, O Progresso, A Ilha de Sardenha, etc.15

Léon Denis tinha a intenção de preparar uma publicação, segundo seus recentes artigos na Revista Espírita; ele a teria provavelmente intitulado O Espiritismo e o Socialismo.

Além de todos esses volumes, se pudéssemos reunir todos os artigos que, nas revistas francesas, estrangeiras e nos jornais, foram escritos por Léon Denis, sobre assuntos espíritas ou assuntos sociais, chegaríamos, sem dúvida, a compor sete ou oito grossos volumes. Tudo isso demonstra qual era o poder de trabalho de Léon Denis.

Apesar das dificuldades de sua vida, de sua competência comercial, de suas obras literárias, de sua ação importante nas sociedades em que se ama, ao mesmo tempo, seu país e a humanidade, Léon Denis ficará sobretudo, para a História, como o defensor e o apóstolo do Espiritismo. A autoridade adquirida por esse homem lhe conferia uma potência moral considerável.

Desde o mês de maio de 1885, ele era vice-presidente da União Espírita Francesa, fundada em 24 de dezembro de 1882.

Ele foi membro honorário de múltiplas sociedades; assinalemos, notadamente, as Uniões Espíritas da Catalunha, do Brasil, a Federação Algeriana e Tunisiana dos Espiritualistas Modernos, por ele fundada, a Federação Espírita do Sudeste da França, etc.

Nos congressos, teve um lugar preponderante:

em 1889, em Paris, de 9 a 16 de setembro, foi ele presidente da Comissão de Propaganda;

também em Paris, em 1900; em Liège, 1910; em Genève, 1913;

em Paris, em 1925, foi presidente efetivo dos trabalhos.

Essas altas e delicadas funções não o impediam de apresentar até mesmo propostas importantes.

Fora de seu papel presidencial e sem fugir a seu dever, ele proferia discursos nos quais indicava sua confiança no futuro da humanidade através dos atos de elevação de cada dia, onde, enfim, a maioria dos homens comungará, se não for no Espiritismo, pelo menos no espiritualismo.

Denomino espiritualismo, por oposição ao materialismo, o conjunto de todas as religiões, as filosofias e diferentes escolas que acreditam firmemente na realidade de um ser superior, na existência de um princípio pensante dentro do corpo físico e na sobrevivência desse princípio pensante após a morte.

Estou entre os que fazem esforços constantes para chegar a reunir em federação todos os espiritualistas do mundo inteiro numa luta sem quartel 16 contra o materialismo, que é, verdadeiramente, no sentido real da palavra, a praga da humanidade.

Conheço espiritualistas que são seres humanos piores que certos materialistas, que sem se dar conta disso, deixam-se guiar por suas consciências, afirmando que nada existe além da matéria.

O desprendimento de Léon Denis era proverbial, no meio espírita.

No curso de minhas conferências espíritas,17 alguns pensavam me embaraçar, dizendo-me: “Vocês lutam contra a mediunidade assalariada, mas você mesmo, o que faz quando vende seus livros? Por que não os doa?”

Pude replicar, facilmente, que aí existe um trabalho real e que os editores são obrigados a pagar o papel e os impressores, porém tenho geralmente respondido, como poderia fazê-lo Léon Denis: “Nossos livros? Venham, pois, ver nossas contas e constatarão quanto pagamos ao editor para dá-los aos que não podem pagá-los.”

Da mesma forma que Léon Denis, acho que os espíritas não têm o direito de viver do Espiritismo.

A resignação de Léon Denis é igualmente proverbial. Em uma certa época de sua vida, tornou-se quase cego. Ele ainda podia se dirigir um pouco, mas lhe era impossível ler e escrever.

Nessa adversidade, nessa terrível provação, ele manteve toda sua calma, tornando-se o apóstolo do Espiritismo, continuando a trabalhar. Encontrou sempre os recursos que lhe permitiram continuar sua tarefa, embora não tivesse fortuna.

Teve, em seu derredor, os devotamentos necessários, secretárias que escreviam seus ditados, essas páginas admiráveis que já têm consolado tantas criaturas, permitindo a tantas mulheres e homens não sucumbirem à tentação do suicídio, quando diante deles tudo parecia definitivamente perdido.

A simplicidade de Léon Denis é inimaginável.

Minhas relações com ele datam do momento em que eu começava minha propaganda espírita. De início, foi uma troca de cartas. Depois, publiquei meu primeiro livrinho: Só o Espiritismo pode renovar o mundo!

No curso de minhas viagens, pude, por vezes, ir a Tours fazer-lhe visita. As horas passadas perto dele são para mim lembranças inesquecíveis.

Era um homem extraordinário; não queria que parecesse que tínhamos admiração por ele. Considerava o que tinha feito como coisa normal, bem natural. Conhecia muito bem não apenas tudo o que se referia ao Espiritismo, mas também todas as questões sociais.

Em 1920, antes de fundar a Phalange e de tentar pôr em prática, na vida pública, as idéias que decorrem do Espiritismo, eu pedi a Léon Denis sua opinião a propósito.

Em 1924, comuniquei-lhe o projeto de entrar na política; no curso de nossa conversa, senti que o grande apóstolo me compreendia e me aprovava. Isso foi para mim um grande reconforto moral.

Seus artigos na Revista Espírita, sobre o Socialismo, mostram que não é preciso, na época em que vivemos, acantonar-se no domínio da propaganda moral; é necessário também tentar a aplicação de nossos ensinos na vida social. É preciso tentar conciliar nossas idéias com a política, com a vida pública.

Assim, os que são chamados a dirigir as criaturas humanas possuirão a moralidade que decorre, obrigatoriamente, de nossa doutrina, isto para aqueles que a tenham compreendido; porque estarão protegidos de todas as tentações do poder e conseguirão salvar nosso país e a humanidade toda do caos em que esta atualmente se encontra mergulhada em consequência da onda de materialismo que desabou sobre os homens.

Léon Denis teve oportunidade de fazer múltiplas experiências espíritas que relata em seus livros e que teremos ocasião de estudar.18

Denis tinha uma excelente médium, a Sra. Forget, que era também sua secretária. Infelizmente, ela morreu antes de ter completado a tarefa que o mestre esperava obter por seu intermédio.

Aos 62 anos, Léon Denis aprendeu piano e o alfabeto braile.

Ele não temia a morte e falava dela com a naturalidade que caracterizava todos os espíritas, quando tratam dessas questões. Tratava-a com resignação e perfeita serenidade. Aliás, ele bem comprovou isso.

Pude conversar com alguém que assistia o mestre em seus últimos momentos; era coisa admirável vê-lo naquela situação e isso demonstrava qual era o real poder do Espiritismo.

Não basta fazer a propaganda, é preciso provar, por si mesmo, que se está com a verdade; é preciso saber aceitar dignamente as provações que os militantes do Espiritismo também têm de suportar como as demais criaturas.

Denis, em toda a sua vida e à hora da morte, demonstrou um admirável exemplo.

Procedeu da mesma forma que um outro apóstolo do Espiritismo: Gabriel Delanne.

Não havia ninguém que não tivesse o coração partido, quando ia à Villa Montmorency, vendo o presidente da União Espírita Francesa se arrastar, dolorosamente, de um lugar para outro. Ele não podia fazer qualquer movimento, sem dar gemidos de dor; entretanto estava sempre calmo, sempre amável, sempre sorridente.

Quem não se lembra também de ter visto Léon Denis aceitar suas provações de todas as espécies, com a resignação ativa, que eu preconizo em minhas obras?

A Srta. Claire Baumard, secretária de Léon Denis, escrevia à Sra. Brissonneau, diretora dos Annales du Spiritisme:19

“O mestre morreu em 12 de abril, às nove da noite, com 81 anos, sem agonia, com magnífica serenidade, vitimado por uma congestão pulmonar. Todos os cuidados com os quais o cercamos foram vãos. Ele demonstrou uma doçura, uma paciência, uma bondade de que todos nos maravilhamos; ele pensava nos que o rodeavam, esquecendo-se dele mesmo.” 20

O Sr. Forestier, Secretário-geral da União Espírita Francesa, escrevia também à Sra. Brissonneau:21

“A morte tão suave do mestre foi edificante. Minha emoção foi profunda, quando me ajoelhei perto do leito mortuário. Entretanto, logo depois eu me senti penetrado de uma força espiritual suave, que fez desaparecer minha tristeza. Vi, então, todo o encanto da paz que desprendia o venerável rosto. Uma bela serenidade se notava em suas feições tão conhecidas e tão amadas.

A partida radiosa da alma, a alegria que havia experimentado, imediatamente, às portas do Invisível, havia colocado uma beleza espiritual no rosto do augusto ancião.

Quinta-feira, dia 14, às 17 horas, assisti, com dois amigos íntimos do mestre, à colocação do corpo no caixão. Todos vimos, pela última vez, a forma terrestre do amado mestre que vai retornar à terra, na tarde de 16 de abril, às 15 horas.

Não choremos o mestre; ele não o deseja. Nossa tristeza não deve existir em nós, espíritas, porque o futuro tem necessidade de nossos esforços. Trabalhemos ainda com coragem, com alegria, como lembrança do grande desaparecido!”

Eu mesmo tive igual sensação que meu colega Forestier, quando fui aos despojos de meu amigo Gabriel Delanne.

Já fazia algum tempo que eu acompanhava as etapas da doença que, afinal, parecia querer dominar o corpo do presidente da União Espírita Francesa. Ele me falava de sua morte próxima com uma grande serenidade de alma.

Apesar da existência tão bem vivida de Léon Denis, apesar dos inapreciáveis serviços por ele prestados à humanidade, a grande imprensa não falou muito da morte de Léon Denis.22

Se ele tivesse morrido de forma escandalosa ou imoral, seu retrato teria figurado em todos os jornais e teriam apresentado o mau exemplo aos milhões de leitores dos jornais informativos. Todavia, tratava-se de um homem de bem e um grande silêncio foi mantido.

Entretanto, Léon Denis teve uma vida de bondade, de generosidade, que era conhecida.

Le Matin, no qual ele havia colaborado durante longo tempo, e os outros jornais não falaram de sua morte. Os grandes serviços prestados por Léon Denis à humanidade foram, naturalmente, louvados pelas revistas espíritas e espiritualistas do mundo inteiro.23

Entretanto, cinquenta e cinco dias após sua morte, o Le Matin 24 publicou, na primeira página, um excelente artigo, ilustrado com o retrato do autor, graças ao qual o povo pôde conhecer a desencarnação de uma alma de elite; esse elogio merece ser integralmente citado:



O fim de um sábio
Léon Denis
Apóstolo do Espiritismo

“Poucas notícias foram feitas em torno da morte de Léon Denis. Não se noticiou o bastante.

Podia-se jurar que a humanidade vacila em honrar os derradeiros sábios, que procuraram conciliar a Ciência e a fé, porque o gênero humano é, na superfície, céptico, mas no fundo, sempre crente, pois são muito poderosos o enigma, o atrativo e a angústia do mistério; como se a paz e o progresso pudessem reflorir sem o maravilhoso apoio do ideal.

É preciso reparar essa injustiça.

A vida inteira de Léon Denis foi devotada à sobrevivência. Mais do que ninguém, ele negou o aniquilamento total do ser pensante.

Sem dúvida, poeta e grande artista meditativo, sempre se esforçou para provar que não perdemos para sempre os seres que nos são caros e que suas invisíveis presenças se manifestam, ao mesmo tempo, ao nosso espírito, ao nosso coração e por nossos sentidos, contanto que não os esqueçamos.

Nele, a inspiração não excluía o espírito científico. Ele se encontrava com Sir William Barrett, que proclamava ser o Espiritismo o caminho seguro que conduz a todos os avanços do conhecimento humano.

Com uma doce obstinação – ainda que o psiquismo paranormal questionasse as escolas afastadas do Espiritismo, que acredita na sobrevivência da entidade humana, e do metapsiquismo, que não admite senão a interação das forças ainda mal definidas dos vivos – ele desenvolveu suas convicções nas obras que se impõem como incontestáveis e em que o filósofo o disputa com o sábio: O Além e a Sobrevivência, O Problema do Ser e do Destino, O Grande Enigma, Depois da Morte, O Porquê da Vida.

Até a idade de 81 anos, Léon Denis foi um comovente exemplo de fidelidade a seus princípios de inesgotável bondade; Denis se extingue, certo de progredir no Além, de colaborar na evolução da humanidade com uma assiduidade ao mesmo tempo enérgica e ainda mais serena do que aquela encontrada no curso de sua longa existência de santo leigo.

E só podemos nos inclinar diante da memória desse sábio tão digno que dizia dos espíritas “tão ridicularizados e tão escarnecidos”: eles tiveram esse imenso mérito de despertar a atenção da humanidade pensante, não apenas sobre um conjunto de fatos que revelam a existência de todo um mundo invisível, vivo, agitando-se em nossa volta, mas também sobre as consequências filosóficas e morais decorrentes desses fatos.

Desses espíritas ele foi o chefe, depois de Allan Kardec, ao lado de Gabriel Delanne, de Camille Flammarion, de William Crookes e tantos outros sábios valorosos.

Tudo isso representa um meio para o conhecimento das leis eternas que regem a vida, a evolução, e asseguram o funcionamento da justiça no Universo.”

O autor desse artigo agiu bem, fazendo destacar a unidade da vida de Léon Denis.

Tal continuidade de propósitos existe, de resto, entre os divulgadores espíritas, desde o momento em que adquiriram nossas idéias.

Tomemos o exemplo de Gabriel Delanne: durante toda a sua existência, ele não modificou seus pensamentos, exceto em pequenos pontos. Também Camille Flammarion escreveu várias obras, nas quais encontramos sempre o enunciado de pensamentos idênticos.

Tal constatação tem sua importância; nisso vejo uma prova formal da sinceridade de um homem que, do começo de sua ação até ao final de sua carreira terrestre, não varia e defende sempre as mesmas idéias.

Segundo penso, os que assim agem possuem, tanto quanto possível neste mundo, uma das parcelas mais importantes da grande verdade, dessa grande verdade que não é somente a terrestre, que não é unicamente a humana, mas a verdade universal, isto é, a que rege todos os mundos.

Tenho a impressão bem nítida de que essa verdade é múltipla; uns e outros, mesmo os materialistas e também aqueles que semeiam o ódio e a inveja, possuem no corpo de suas doutrinas um clarão de verdade. A reunião de todas essas luzes forma a verdade que só poderemos conhecer integralmente quando tivermos atingido o objetivo final de nossa evolução.

O artigo consagrado pelo Le Matin à obra de Léon Denis marca um verdadeiro progresso, porque esse jornal não tem sido sempre favorável à defesa do Espiritismo. Essa consagração incentivou a realização do 3º Congresso Internacional de Pesquisas Psíquicas, realizado em Paris, de 26 de setembro a 20 de outubro de 1927.

Como luminosamente demonstrou André Ripert, Secretário-geral da Federação Espírita internacional, esse congresso foi marcante. Na Sorbonne, sábios reconheceram que os fenômenos chamados por eles de metapsíquicos, porém, desde muito, estudados pelos espíritas, têm uma existência real.

Tenhamos paciência e continuemos com perseverança nossa propaganda.

O Espiritismo faz seu caminho. Numerosos ainda são os que partilham de nossas convicções, mas não querem confessar que são espíritas; numerosos, igualmente, são os que admitem a coisa, sem aceitar a etiqueta espírita; não nos inquietemos com esses contingentes humanos e perseveremos em nossas atividades.

Não esqueçamos de que a semente espiritual que foi lançada aos quatro ventos, fazendo proselitismo, pode produzir seus frutos, às vezes, à nossa revelia.

Alexandre Delanne fazia, em novembro de 1884, essa judiciosa observação; seu pensamento vale para todos os tempos.25


Capítulo II

O Porquê da Vida


Como eu dizia, narrando, rapidamente, a vida de Léon Denis,26 essa brochura ele compôs com a intenção de apoiar sua obra de conferências e permitir a seus ouvintes conservar um resumo da Doutrina Espírita.

O Porquê da Vida teve um grande sucesso de livraria. O autor tinha mandado imprimir cinco mil exemplares em setembro de 1885; conforme carta que escreveu a Henri Sausse, quatro mil exemplares já estavam vendidos, em novembro do mesmo ano, e ele foi obrigado a tirar uma nova edição.

Hoje,27 essa brochura deve atingir 160 edições, o que comprova quanto é grande o número dos que ele pôde ajudar a conhecer o Espiritismo e suas consolações.

Em Le Spiritisme, primeira quinzena de setembro de 1885, julgou-se assim O Porquê da Vida:

“Recebemos uma brochura de nosso amigo Léon Denis, de Tours, sob um curto título: O Porquê da Vida.

Desnecessário elogiar o estilo dessa obra; basta-nos dizer que ela é devida à pena de nosso colaborador e facilmente se descobrirá de quem se trata...

Ele desenvolve, com um talento superior, no restrito espaço de que dispõe, os esplêndidos horizontes que a nova filosofia nos abre. De início, coordena o dever e a liberdade; depois, apresenta os misteriosos problemas da existência. Daí, estabelece as duas formas da natureza: espírito e matéria.

Após ter analisado a harmonia do Universo, chega às vidas sucessivas, que têm por base a justiça e o progresso.

Afinal, faz entrever, numa apreciação sobre o incognoscível, qual é o objetivo supremo e comprova essas proposições com as experiências que o Espiritismo fornece sobre a imortalidade da alma.”

Eu possuo uma das edições de capa rosa; é a mais preciosa jóia de minha biblioteca; jamais consigo olhar essa fina brochura sem sentir uma sincera emoção e sem deixar de lembrar daquele de quem ela conserva, ainda, o pseudônimo de Claude Clodovitch: O Almirante d’A., graças a quem me tornei espírita.

O Porquê da Vida foi o primeiro livro sobre nossa Doutrina que consegui ler.

Durante muito tempo, frequentei um salão onde se tratava de Espiritismo, o da Sra. M., hoje desencarnada; mulher de um oficial superior e que, realmente, muito fez pela causa espírita, embora tenha sido, de certa forma, do número desses exaltados 28 que procuram principalmente os fenômenos, sem saber distinguir quando as manifestações são mistificadas.29

Conheci a Sra. M. durante uma palestra, seguida de sauterie,30 no Parthénon. Um de meus amigos veio a mim e me disse:

– Você é jornalista; quer ter ocasião para uma pesquisa engraçada?

– Com prazer.

– Vê aquela senhora lá embaixo? Ela sabe conversar com os mortos!

– Com os mortos?! Não, você está pensando que sou imbecil?

– Não digo para você acreditar, meu caro! Vou apresentar você a ela, que gosta de convidar todo mundo. Faça um ar de que está um pouco interessado e, certamente, lá existirá, para você, assunto para crônicas curiosas.

Naquela época, tendo abandonado o Catolicismo, tornara-me ateu e materialista ao extremo. Proferia palestras, nas quais defendia essas desagradáveis idéias; e isto constitui um dos maiores arrependimentos de minha existência. Fiquei feliz por uma tal oportunidade e me fiz apresentar à Sra. M.

– Você sabe, disse-me logo, eu converso com os espíritos.

– Bem, minha senhora.

– Quer ver isso?

– Com prazer, senhora.

Durante alguns anos frequentei sua casa, cada tarde de quinta-feira. Vi muitos fenômenos ditos espíritas, mas os que os aceitam como tal são geralmente dignos de entrar para uma casa de alienados. Vi pessoas que imaginavam falar com seus mortos e vi mulheres que se diziam médiuns.

– Três homens me fazem a corte... Quem é que me pagará o mais belo casaco?

Vi homens que perguntavam qual era o valor da bolsa onde poderiam especular ou qual cavalo iria ganhar o Grande Prêmio!

Eu havia preparado, então, um romance que teria ridicularizado os que, de boa-fé, eu chamava de espíritas; estava convencido de que uma pessoa não podia se ocupar dessas coisas, a não ser que estivesse um pouco desequilibrada; outrossim, eu jamais abrira um livro que tratasse de Espiritismo.

Em suma, eu fazia o que fazem nossos adversários e é por isso que lhes respondo com cortesia a seus ataques. Eu criticava uma coisa que pensava conhecer, mas que eu mal conhecia, pois frequentara um mau ambiente.

A guerra sobreveio. Reformado em tempo de paz por tuberculose contraída em serviço militar, tentara me inscrever como piloto, porque possuía diploma de aviador civil. Não o conseguindo, pude tornar-me útil organizando, na região de Persan Baumont, um serviço de consertos de automóveis e havia, naturalmente, perdido de vista a Sra. M. e seus frequentadores.

Minha mulher, tendo-a encontrado e tendo sido convidada a retornar às quintas-feiras às suas reuniões, aceitou o convite e quis me levar, mas recusei, energicamente. Meus documentos estavam em ordem para o meu serviço e meu livro podia ser escrito. Não havia, portanto, necessidade de retornar a esse meio.

Tinha sido mobilizado como enfermeiro militar em Paris. Minha mulher era católica praticante, possuía boas noções de teologia e meu ateísmo a desolava. Frequentemente, mantínhamos longas discussões a propósito, mas sempre se achava desarmada quando eu lhe perguntava como Deus pode ter criado o inferno.

Distraindo-se muito em casa da Sra. M., lá ela ia, regularmente, e me contava as experiências a que assistira, sem lhes prestar muita atenção e sem admitir outras causas como a sugestão, a alucinação ou a fraude.

Certa feita, ela me falou que reencontrara em casa da Sra. M. o Almirante d’A, o qual eu conhecia bem, tendo-o como colega, participando de uma obra de beneficência.

Eu tinha por esse homem uma grande simpatia e havia constatado suas qualidades de calma, de moderação e de julgamento sereno.

Como poderia ele acreditar na realidade do Espiritismo? Tive com minha mulher uma longa e interessante conversa a respeito.

– Você deveria ir comigo, quinta-feira próxima, à casa da Sra. M. – disse-me ela. – O almirante lá estará e ficará muito contente em vê-lo e em poder adormecer um médium em sua presença. O sono do médium pareceu-me real. Existe algo de espantoso. Que diferença com o charlatanismo que vimos naquele salão! Além disso, a Sra. M. ficará contente em rever você.

Eu havia dito, francamente, à Sra. M. e a seus frequentadores o que pensava de suas práticas; apesar de minha franqueza, ela me pedia para retornar à sua casa. Eu não estava aborrecido por retornar e rever o almirante, perdido de vista desde o começo das hostilidades.

Não pude lembrar tudo isso sem uma real emoção; o instante em que tomei a decisão de reencontrar os frequentadores do salão da Sra. M. foi aquele em que comecei o caminho da felicidade.

Sem o saber, buscava uma existência feliz; até então, tinha estado muitas vezes desesperado, nada compreendendo dos motivos da vinda do homem à Terra.

Minha conversa com o almirante foi decisiva; pela primeira vez, tinha a ocasião de conhecer o que é, realmente, o Espiritismo, explicado por um homem competente; de aprender que sábios, inicialmente incrédulos, como, por exemplo, William Crookes, tinham sido obrigados a declarar, oficialmente, a realidade do “fenômeno”, após haverem investigado seriamente. E, entretanto, minha incredulidade me obrigava a guardar uma atitude zombeteira.

– Meu caro amigo – disse-me o almirante – não negue assim. Não baseie seu julgamento no que você viu e ouviu aqui. Leia.

– Não quero ler toda essa literatura de loucura.

– Seu dever de homem é instruir-se. Quando você lê um romance policial, sabe estar lendo uma obra de imaginação. Pegue uma obra espírita e faça o mesmo; você não é obrigado a aceitar o autor em suas conclusões. Por exemplo, Depois da Morte, de Léon Denis, é atraente como um romance e a forma literária lhe agradará, estou certo. Se você quiser, faça de conta que é uma obra de pura invenção.

– Não estou disposto a desperdiçar meu tempo.

– Ao contrário, você não o desperdiçará.

Tirando de seu bolso uma pequena brochura rosa, o almirante me disse:

– Leia estas poucas páginas, é pouca coisa. Estude este pequeno fascículo: O Porquê da Vida. Faça-me esta promessa, eu lhe peço.

Isso se passava em 1915, pelo mês de fevereiro. Prometi e li. Pude assim compreender que existe algo de sério no Espiritismo.

Até então, não havia podido ter uma impressão assim.

Havia assistido a experiências de enganadores, aproveitadores da ingenuidade de uma mulher da sociedade para se servirem de seu salão; eu vira pretensos professores de hipnologia, quiromancia e ocultismo... Vira falsos médiuns que lançam urros: “Ai... um espírito me mordeu... um espírito me beliscou”. Era sempre numa parte do corpo onde não se podia verificar.

Faziam experiências em minha frente. O professor gritava:

– Atenção, vou adormecê-la... atenção... ela dorme... perguntem-lhe o que quiser... façam-lhe uma pergunta... ela vai responder...

A solução era sempre a mesma:

– Ela não lhes pode dizer tudo; vê muitas coisas, venham a meu consultório.

Naturalmente, a consulta em domicílio custava bastante caro. Como, diante de tais espetáculos, teria podido conhecer o Espiritismo e abandonar minha atitude contestadora?

Todavia, lendo O Porquê da Vida, tive que reformular meu julgamento e pude, em seguida, ter longas conversas com o Almirante d’A., ao qual consagrei um grande reconhecimento pelos preciosos conselhos que me deu e por apresentar-me, experimentalmente, o magnetismo.

Quando, finalmente, parti para a aviação militar, ele continuou a me guiar, escrevendo-me com frequência e me incentivando a ler obras de Allan Kardec.

Eu devia, sobretudo, conhecer a obra de Léon Denis, após meus ferimentos de guerra; permaneci durante muito tempo acamado e, em diferentes hospitais onde era tratado, tinha tempo de me aprofundar no estudo do Espiritismo.

Paul Leymarie me havia remetido, amavelmente, uns livros e a Sra. M. me enviou Depois da Morte, tendo podido, assim, pouco a pouco, aprender a me resignar, a suportar meus sofrimentos.

Devotei a Léon Denis uma profunda gratidão e tenho igualmente por Gabriel Delanne um grande reconhecimento.

Tendo estudado muito Matemática, e mesmo me preparado para a Escola Politécnica, pude encontrar nas obras desse técnico argumentos valiosos, porque ele emprega processos de demonstração precisos, abandonando na maior parte do tempo o envolvimento literário ou filosófico.

É por isso que Léon Denis e Gabriel Delanne se completam tão bem.

Se, sem se tomar partido e sem idéia preconcebida, lermos uma obra de Léon Denis e uma obra de Gabriel Delanne, chegaremos à realidade do Espiritismo.

Em O Porquê da Vida, já se percebe o objetivo pretendido por Léon Denis. Sente-se que, para ele, a propagação do Espiritismo foi a continuidade lógica da ação social que ele tinha pretendido na Loja dos Demófilos de Tours e na Liga do Ensino.

Desejava ele outra coisa a não ser proporcionar a felicidade para todos os seres humanos? Certamente não, e encontramos a prova disso no capítulo IX - Resumo e Conclusão da referida obra:

“O espetáculo das desigualdades sociais, os sofrimentos de uns em oposição às aparentes alegrias, às satisfações sensuais, à indiferença de outros, esse espetáculo lança no coração dos deserdados um ardente fogo de ódio, e a busca dos bens materiais se acentua. Que as massas profundas se organizem, se levantem, e o velho mundo pode ser abalado por terríveis convulsões.

A Ciência é impotente para conjurar o mal, para modelar os caracteres, para curar os ferimentos dos combatentes da vida.

Em verdade, só há, em nossa época, ciências especiais para certos aspectos da natureza, acumulando fatos, trazendo ao espírito humano uma soma de conhecimentos sobre o assunto que lhes é próprio.

É assim que as ciências físicas são prodigiosamente enriquecidas, há meio século, porém esses conhecimentos esparsos são falhos de conexão, de unidade, de harmonia.

A Ciência em especial, aquela que, da série dos fatos chegará à causa que os produz; aquela que deve religar, unir essas ciências diferentes numa grande e magnífica síntese, fazendo jorrar uma concepção geral da vida, fixar nossos destinos, deduzir uma lei moral, uma base para o melhoramento social, essa ciência universal, indispensável, ainda não existe.

Se as religiões agonizam, se a velha fé se amortece, se a Ciência é impotente para fornecer ao homem o ideal necessário a regular sua marcha, a melhorar as sociedades, será tudo uma desesperança?

Não, porque uma doutrina de paz, de fraternidade, de progresso se levanta nesse mundo perturbado e vem apaziguar os ódios selvagens, acalmar as paixões, ensinar a todos a solidariedade, o perdão, a bondade.

Ela oferece à Ciência essa síntese desejada, sem a qual seria para sempre estéril. Ela triunfa sobre a morte e, para além desta vida de provações e males, abre para o espírito as radiosas perspectivas de um progresso sem limites na imortalidade.

Ela diz a todos: Venham a mim, eu os aliviarei, eu os consolarei; eu lhes tornarei a vida mais suave, a coragem e a paciência mais fáceis, as provações mais suportáveis. Iluminarei com um poderoso clarão seus caminhos obscuros e tortuosos. Aos que sofrem, dou esperança; aos que buscam, dou a luz e aos que duvidam e se desesperam, dou a certeza e a fé.

Ela diz a todos: Sejam fraternos, auxiliem-se, sustentem-se em sua caminhada coletiva.

Seu objetivo está além desta vida material e transitória. É nesse futuro espiritual que estarão unidos como membros de uma só família, ao abrigo dos sofrimentos e dos males sem conta.

Procurem, pois, tornar-se merecedores, com seus esforços e trabalho.

A humanidade se elevará, grande e forte, no dia em que essa doutrina, fonte infinita de consolações, seja compreendida e aceita.

Nesse dia, a inveja e o ódio se extinguirão do coração das crianças; o poderoso, sabendo que ele foi fraco, e que a isso pode reverter, que sua riqueza é apenas um depósito do Alto, tornar-se-á fraterno, mais amável para com seus irmãos necessitados.

A Ciência, completa, fecundada pela nova filosofia, expulsará as superstições e as trevas. Não haverá mais ateus nem incrédulos.

Uma fé simples, ampla, fraterna, se estenderá sobre as nações, fará cessar seus ressentimentos, suas rivalidades profundas.

A Terra, livre dos flagelos que a devastam, prosseguirá seu progresso moral e se elevará a um grau mais alto na escala dos mundos.


Capítulo III

Depois da Morte


Depois da Morte é a primeira obra abrangente de Léon Denis. Como todas as outras, já foi traduzida em várias línguas.

No Congresso de 1889, Léon Denis foi nomeado Presidente da Comissão de Propaganda. Ele tomou como secretário, Henri Sausse; este lhe aconselhou fazer uma síntese do ensino espírita e um resumo da obra de Allan Kardec.

Léon Denis pensou no conselho e escreveu Depois da Morte, verdadeira obra-prima, tanto do ponto de vista literário puro como no que concerne à exposição de nossa Doutrina.

Publicada em 25 de dezembro de 1890, Depois da Morte foi bem acolhido pela crítica.

G. d’Hailly escreveu, na Revue des Livres Nouveaux:

“Entre as obras que li nesta semana, não encontrei uma com maior soma de condições morais que esta de Léon Denis: Depois da Morte.

Ainda não conhecia obra mais bem pensada, nem livro escrito em um estilo mais correto, mais elevado.

Talvez eu seja um pouco céptico em relação ao Espiritismo, embora haja razões que me inclinem a uma aceitação. Entretanto, não conheço doutrina mais consoladora, mais reconfortante, mais digna de respeito.

O belo livro de Léon Denis nos pretende dar a solução científica e racional dos problemas da vida e da morte, da natureza e do destino do ser humano e nos demonstra a existência e a razão das vidas sucessivas.

Li e reli seu livro, que encheu minha alma de alegria, e se as coisas são assim, só posso louvar a Providência Divina.”

Pode-se ler em Le Temps:

“Esse volume é realmente notável, possui todas as qualidades que lhe podem garantir o sucesso. Embora eminentemente clássico, profundo e sério, suas páginas brilham com uma luz viva e são impregnadas de uma ardorosa eloquência.

Como seu título indica, trata do formidável problema do destino humano, dando uma solução para essa questão bastante controvertida durante todos os tempos: o porquê da vida.

Problema árduo, em verdade, porém tratado com um tal encanto de estilo e de evolução que, em todo o livro, não se encontra uma página sequer com uma leitura fatigante ou desprovida de interesse.”

Dando, em Le Journal, sua apreciação sobre esse livro, Alex Hepp se exprimia assim, em 26 de janeiro de 1899:

“Há um homem que escreveu o mais belo, o mais nobre e o mais precioso livro que jamais li. Seu nome é Léon Denis e seu livro intitula-se Depois da Morte.

Leiam-no e uma grande piedade, porém, libertadora e fecunda, virá bruscamente de nossas manifestações de tristezas, de nosso medo da morte e de nosso grande pesar por aqueles que supomos perdidos.”

Em Depois da Morte, o leitor encontra, notadamente, a história das religiões, o estudo dos grandes problemas o do mundo invisível, a maneira pela qual, segundo as comunicações, podemos ter uma idéia da vida no Além, o reto caminho, etc.

Desejando fazer um resumo do Espiritismo, o autor estudou como os homens conheceram nossa doutrina e quais podem ser suas consequências: 31

“Dessas buscas, desses estudos, dessas descobertas se destacam uma concepção do mundo e da vida, um conhecimento das leis superiores, uma afirmação da justiça e da ordem universais, bem-feitas para despertar no coração do homem, com uma fé mais segura e mais esclarecida do futuro, um sentimento profundo de seus deveres, um interesse real por seus semelhantes, capazes de transformar a face das sociedades.”

Esse livro, escrito sem nenhuma pretensão pessoal de sucesso, é destinado aos que estão cansados de viver na cegueira, aos filhos e às filhas do povo.

O único objetivo de Léon Denis é prestar serviço aos humildes e aos infelizes. Ele se revolta que ainda se possa, atualmente, morrer de frio e de miséria; e prova que as bases de nossa doutrina são unicamente o testemunho dos sentidos e a experiência da razão.

Para comprovar a antiguidade do Espiritismo, que apresenta uma nova aparição de fenômenos existentes desde o começo da Terra, ele faz um resumo bem nítido, rápido, porém completo, da história das religiões.

As religiões são muitas, em nosso globo, nas suas formas e aparências, mas, quando se vai ao fundo das coisas, percebe-se que seu esoterismo, isto é, a parte reservada só aos iniciados, comporta uma doutrina única, superior e imutável, sempre a mesma em todas as latitudes.

Léon Denis consagra à morte muitas páginas, esparsas em sua obra.

Que é, realmente, a morte? Na introdução, o autor já propõe a questão:

“Esse problema interessa a todos, pois todos estamos sujeitos à lei.

Importa-nos saber se, nessa hora, tudo acabou, se a morte é apenas um calmo repouso no aniquilamento ou, ao contrário, a entrada em uma outra esfera de sensações...

A morte é o ponto de interrogação, incessantemente posto diante de nós, a primeira das questões à qual se ligam inúmeras questões, cujo exame faz a preocupação, o desespero das idades, a razão de ser de uma multidão de sistemas filosóficos.”

Muitos não querem ouvir falar da morte.

Pode-se viver sem preocupações, quando se tem a chance aparente de ser rico, mas isso não basta para impedir que a morte venha, no momento certo.

Dizendo: “Todas essas questões são macabras, não quero me ocupar dessas coisas”, podemos nos distanciar de uma segunda chegada da morte? Se a morte é uma coisa terrível, não é melhor, entretanto, conhecê-la?

Quando o estado de saúde de uma criança é bastante mau, para necessitar, na aparência, de uma intervenção cirúrgica, a responsabilidade dos pais é tanto mais séria quanto o pequeno venha a sofrer com esta decisão, sem poder opinar; antes de aceitarem a operação, o pai e a mãe se encontram diante desta questão angustiante: “Qual resultado vamos obter? Convém ou não operar?”

Com efeito, a morte pode ser comparada a uma operação, porém uma operação que será obrigatória, num momento desconhecido.

É, portanto, indispensável conhecer, antes, o que é o destino de todos os humanos; convém, pois, estar sempre preparado para enfrentá-la, quando aparecer.

Diz-nos Léon Denis:32

“A morte não é outra coisa que uma transformação necessária, uma renovação. Em realidade, nada morre. A morte é aparente. Somente a forma exterior muda; o princípio da vida, a alma, continua em sua unidade permanente, indestrutível. Ela se encontra no além-túmulo, ela e seu corpo fluídico, na plenitude de suas faculdades, com todas as aquisições; luzes, aspirações, virtudes, poderes de que se enriqueceu durante suas existências terrenas.

Eis os bens imperecíveis de que fala o Evangelho, quando diz: “Nem os vermes, nem a ferrugem os consumirão e nem os ladrões os roubarão.” São as únicas riquezas que podemos levar conosco, para utilizar na vida futura.

(...)

A morte é a grande reveladora. Nas horas de provações, quando escurece em nosso derredor, por vezes perguntamos: “Por que existo? Por que não permaneci na noite profunda, onde nada se sente, não se sofre, onde se dorme o sono eterno?”



E, nessas horas de dúvida, de agonia, de desânimo, uma voz subia até nós e dizia: Sofra para crescer e para resgatar! Saiba que o destino é grandioso.

Esta fria Terra não será o seu sepulcro. Os mundos que brilham no fundo dos céus são suas futuras moradas, a herança que Deus lhe reserva.

Você é, para sempre, cidadão do Universo, pertencendo aos séculos futuros como aos séculos passados e, no presente, prepara sua evolução. Suporte, pois, com calma os sofrimentos que você mesmo escolheu.

Semeie, na dor e nas lágrimas, o grão que brotará em suas próximas vidas; semeie também para os outros, como os outros semearam para você!

Espírito imortal, avance com passo firme para as alturas de onde o futuro lhe aparecerá sem véus.

A subida é rude e o suor inundará muitas vezes seu rosto, porém do alto verá despontar a grande luz, verá brilhar no horizonte o sol da verdade e da justiça!”

Os leitores da obra de Léon Denis conhecem, pois, exatamente, a morte; não mais temem as manifestações espontâneas dos fantasmas. Eles não se assemelharão ao herói de um conto de Guy de Maupassant, intitulado Apparition.33

Eis a análise:

Cinquenta e seis anos após uma aventura contada por ele a alguns amigos, o Marquês de la Tour Samuel tremia ainda com a idéia do que se produziu uma só vez no curso de sua vida. Ele guardou desse acontecimento uma lembrança do medo e, todavia, como oficial de carreira, teve muitas vezes de demonstrar sua bravura.

Na guarnição de Rouen, ele havia encontrado um amigo de juventude e ficou surpreso com sua aparência envelhecida: demonstrava em seu rosto traços indeléveis de grande sofrimento causado pela morte de sua esposa. Tendo encontrado nela a felicidade perfeita, tivera a tristeza de perdê-la subitamente, e não podia consolar-se. Jamais tivera a coragem de retornar a uma propriedade onde vivera com a esposa, nas cercanias de Rouen.

Encantado em reencontrar um velho colega em quem depositava plena confiança, o desesperado lhe disse:

– Não posso mais voltar àquele lugar, isso me faz sofrer. Você quer ir lá? Não é longe. Você irá ao meu quarto, abrirá a secretária – aqui tem a chave – e apanhará os papéis de que tenho necessidade. Para você é um passeio a cavalo, de apenas alguns quilômetros. Pode me prestar esse favor?

O marquês aceitou e se dirigiu à propriedade de seu amigo; quando lá chegou, o caseiro ficou espantado com a decisão do marquês de entrar na peça designada. O oficial não atribuiu importância à admiração do vigia da propriedade, mas a verdade é que, quando penetrou no quarto, que exalava o odor característico dos lugares abandonados pelos vivos, sentiu uma emoção incompreensível.

Estando sentado diante da secretária para dali apanhar os papéis pedidos por seu amigo, teve a sensação de que andavam atrás dele; voltou-se e viu uma mulher, um fantasma. Apesar de sua bravura, tremeu. Tinha a impressão de que essa morta ia lhe falar, tocá-lo, lhe pedir alguma coisa. Teve forças para apanhar rapidamente os documentos, depois se livrou desse lugar mal-assombrado.34

Para retornar a Rouen, galopou como um louco.

Diante do amigo, tomou consciência de si mesmo e tirou sua túnica de oficial, mas teve a surpresa de nela ver enrolados, em volta de um botão, alguns longos fios de cabelos.

Se o herói de Guy de Maupassant tivesse conhecido o Espiritismo, teria fugido? Não, pelo contrário, ele tentaria saber os motivos dessa manifestação e, sem dúvida alguma, teria podido prestar um bom serviço, porque o Espiritismo é maravilhoso. Não somente permite dar consolo aos vivos, mas ainda estende aos mortos benefícios numerosos.

No entanto, o Marquês de la Tour Samuel não conheceu nossa Doutrina. Assim, aos 82 anos, 56 anos após sua trágica aventura, apesar das provas dos cabelos enrolados num botão de seu uniforme, ele ainda considerava o fato como uma crise de loucura, um “segredo vergonhoso, uma lamentável fraqueza” que somente sua idade lhe permitia revelar a seus amigos.

Lendo Depois da Morte, aprendemos coisas bem importantes; citarei, por exemplo, o que é magnetismo, como podemos nos servir de seu fluido, quais os sábios e quais os grandes homens que aceitaram o Espiritismo; quais objeções são feitas e as respostas que permitem mostrar aos contraditores quanto eles estão errados.

Coisa interessante: todas as vezes que se trata de refutar objeções, Léon Denis emprega argumentos; jamais utiliza insultos.

Os franceses gostam de ler jornais que têm por objetivo fazer polêmica entre uns e outros. Quando se trata de choques de idéias, está certo; infelizmente, há com frequência choques de pessoas.

De minha parte, abandono sistematicamente todo artigo e toda obra nos quais alguém, para demonstrar a realidade de sua tese, insulta os que pensam diferente.

Quando se procura transmitir suas convicções aos outros, é bom ter à sua disposição argumentos, fatos e experiências, e não injúrias.

Em Depois da Morte a teoria da reencarnação só é esquematizada. Ela será estudada profundamente em outras obras, particularmente em O Problema do Ser e do Destino.

Lendo Depois da Morte, aprendemos igualmente como se pode adquirir vontade e dela se utilizar para sermos felizes neste mundo.

Léon Denis não receia atrair a atenção de seus leitores sobre os perigos do Espiritismo, que, de resto, podem parecer um pouco bizarros, mas existem. A esse respeito, lembro-me de uma pequena história:

Certa vez, na sala de Geografia, numa reunião da Phalange, veio a mim um homem, aparentando uns 40 anos. Em lágrimas, ele me diz:

– Ah, se o senhor soubesse que desgraça; meu filho morreu! Desde sua morte, temos em mãos uma pequena brochura que trata de como fazer girar as mesas. Desde a morte de meu filho, minha mulher deseja estar certa de que ele não está verdadeiramente morto. Ela quis colocar as mãos sobre a mesa e conseguiu movimento, porém, depois pareceu louca. Não se pode deixá-la sozinha, porque quer se jogar pela janela, pois acha que escuta vozes que lhe ordenam se matar.

Eu vi, logo, de que se tratava: ou era auto-sugestão, ou um envolvimento, por obsessão de um mau espírito.

Pedi a esse homem para levar sua esposa à minha casa, sem preveni-la de que eu estava sabendo de seu estado. Isso me permitiu estudá-la à vontade. Pude diagnosticar bem claramente uma obsessão.

Esse homem tinha grande confiança em mim e me pediu para tentar curar sua esposa.35

Em três semanas consegui restituir àquela mulher toda a sua razão, e desembaraçá-la daquela obsessão.

Para obter esse resultado não usei gestos ou palavras rudes, porque é pela persuasão que se consegue esclarecer os espíritos obsessores sobre aquilo em que estão errados. É preciso também explicar aos obsidiados a necessidade de perdoar seus perseguidores invisíveis e pedir a proteção de seus guias. Este é um ponto bem delicado.

Os perigos da prática do Espiritismo são reais.

Leitores, se vocês tiverem a intenção de praticar em nossa doutrina, não se atrevam a fazer experiências sem terem antes estudado o Espiritismo.

Quando são discutidas essas questões, eu faço frequentemente uma comparação que me parece de natureza a bem impressionar a imaginação de meu interlocutor.

Primeiramente, levo-o a imaginar que ele teria obtido, em tempos passados, algumas vagas noções de Física e Química, esquecidas depois que as exigências da vida o afastaram dos estudos.

Em seguida eu o conduzo a ver comigo, pela imaginação, uma usina de explosivos. Essa usina é bem interessante e também curiosa: mistura-se um pouco de pólvora, um pouco de outro produto, coloca-se isso num pequeno tubo e, quando há um choque, obtém-se a explosão destruidora.

Meu interlocutor está cativado; ele decide experimentar fazer o mesmo. Antes de entrar em casa, vai a um droguista.

Sua memória lhe permite lembrar-se que é preciso colocar um pouco de tal produto, um pouco mais daquele outro, porém ele não se lembra mais de todas as medidas e é precisamente isto o essencial. Que arrisca ele realizando a experiência?

Ou não produzirá o explosivo e terá perdido seu tempo, ou então conseguirá um explosivo perigoso que não saberá controlar, com o qual poderá provocar uma catástrofe, matar seus vizinhos, semear a ruína e o pânico em seu derredor.

Sem dúvida, seria difícil encontrar uma criatura bastante imprudente para querer fazer um explosivo sem ter antes estudado a fundo essa matéria, porque aí há um perigo bem aparente. Infelizmente não acontece o mesmo com o Espiritismo.

Quantas pessoas tenho encontrado que me dizem:

– Ah, você se ocupa com essas coisas! Eu também me divirto fazendo as mesas girarem.

Tais divertimentos são perigosos; por ser invisível e desconhecido da maioria, o perigo da experimentação psíquica realizada sem preocupações não é menos real.

Aos olhos de Léon Denis, essa questão dos perigos do Espiritismo é muito séria. Ele julgou necessário, em sua primeira obra, indicá-los muito claramente, consagrando um capítulo especial a esse problema.36 Ele havia compreendido a necessidade absoluta de atrair a atenção de seus leitores sobre os perigos de uma experimentação irresponsável.

Assinalo, igualmente, um possível inconveniente: as pesquisas nesse domínio são atraentes, mas é preciso não se entregar sem reservas à experimentação. Não se deve abandonar a vida normal, material, para se consagrar unicamente a questões que não devem ser um meio de ganho.

Portanto, não convém experimentar antes de se estar suficientemente preparado para fazê-lo sem imprudência.

Quando se experimenta, deve-se guardar todo o senso crítico. Nunca se deve aceitar um fenômeno como uma emanação do além, sem ter tentado encontrar uma explicação humana.

Para se entregar seriamente a pesquisas espíritas e psíquicas, é indispensável experimentar com perseverança, tenacidade e regularidade.

Se se quer constituir um grupo, é preciso que ele se reúna em dia e hora certos, no mesmo local, sempre com o mesmo número de pessoas, não se permitindo estranhos em suas reuniões.

Tenho dado frequentemente o conselho de Allan Kardec para a criação do que ele chama de grupo familiar.

Meu excelente amigo Marty, colega da Comissão da União Espírita Francesa, também pensa assim e temos ambos obtido notáveis resultados.

Dedico uma particular importância ao capítulo da provação.37 Constantemente ouço confidências de desesperados, aliás, são numerosas as pessoas acossadas pelos males físicos, materiais ou morais.

Sempre aconselhei meus interlocutores e meus correspondentes a lerem ou relerem as páginas consagradas por Léon Denis a explicar por que sofremos neste mundo.

Muitas são, em meus arquivos, as cartas daqueles para os quais essa medicina moral foi eficaz.

Em 23 de outubro de 1927, eu realizava, na Sala de Geografia, na União Espiritual, uma conferência sobre a obra de Léon Denis e aconselhava meus ouvintes a adquirirem logo Depois da Morte, dizendo-lhes finalmente:

“Meus amigos, desejo que todos sejam bem felizes, para não terem nunca necessidade da consolação pregada pelo Espiritismo.

Alguns de vocês estão de luto. Eu gostaria de ter podido, no momento da cruel separação física, oferecer-lhes uma valiosa consolação em nossa doutrina.

Se, atualmente, estão felizes, talvez não o estejam numa outra ocasião.

Pensem com Léon Denis, logo não deixem de ler Depois da Morte e aproveitar essa preciosidade.

Uma dona de casa previdente tem sempre em sua dispensa algumas conservas que lhe permitam improvisar uma refeição, se alguns amigos aparecerem de surpresa. Uma mulher prevenida tem sempre em sua farmácia doméstica os medicamentos que possibilitem os primeiros socorros, em caso de acidente ou de doença.

Imitem essas pessoas prudentes e tenham sempre ao alcance da mão esse livro que contém todas as possibilidades de torná-los felizes.”

Dois dias depois, eu recebia uma nova comprovação do poder dessa obra:

“As livrarias, ontem à noite, estavam fechadas, escreveram-me, e só na manhã seguinte pude seguir seu conselho. Li e reli a página 174 e as seguintes.

É bem verdade! Quando uma profunda tristeza e um sofrimento bem vivo nos tenham dominado, essas linhas sublimes nos devolvem o gosto de viver.”

Dificuldades de toda sorte não me têm poupado. Por vezes, a luta parece tornar-se impossível, com tudo sombrio em meu derredor, e fico tentado em me deixar abater. Então releio o capítulo que Léon Denis consagrou às provações e tudo volta ao normal.

Em 1923, eu acabara de sofrer um choque moral espantoso que me permitiu constatar, por mim mesmo, a eficácia dos remédios que aconselho aos outros. As exigências do jornalismo me haviam obrigado a ir ao Havre e, aproveitando uma hora de folga, fui me isolar numa praia, tendo comigo Depois da Morte e também Les Grands Initiés, de meu eminente amigo Edouard Schuré, que eu não tinha ainda a alegria de conhecer pessoalmente.

Eu estava realmente deprimido e lamentava não ter o direito de me destruir, como pensava quando era materialista.

Abatido ao extremo, não podia afastar meu pensamento do assunto de minha profunda depressão, envolvia-me na desgraça, tudo era sombrio em minha volta. Pressentia todas as catástrofes e a vida me parecia para sempre terminada. Todavia o hábito de cultivar minha vontade me ajudou a ter a necessária energia para retomar contato com Léon Denis e Edouard Schuré.

Quando pude livrar-me de minhas preocupações, seguindo o pensamento do autor espírita, estava salvo.

Recobrei confiança, senti o auxílio de meus amigos invisíveis e me lembrei de que o único meio de ser realmente feliz é esquecer-se de si mesmo para trabalhar pela felicidade dos outros.

Léon Denis se alegra em repetir que todas as suas obras foram inspiradas pelos espíritos:38

“Uma única ambição nos anima: desejamos que, quando nosso corpo já gasto retornar à terra, nosso espírito imortal possa afirmar: minha passagem no mundo não foi estéril, se pude contribuir em pacificar uma única dor, em esclarecer uma única inteligência em busca da Verdade e em reconfortar uma alma cambaleante e triste.”

Quando traçava essas linhas, o defensor do Espiritismo teve a intuição da sua brilhante carreira de escritor?

Pouco importa se ele era bastante modesto para não se ocupar com essas contingências terrestres. Antes de tudo, ele queria o bem de seus leitores.

Seu desejo foi amplamente atendido e ele teve a imensa alegria, durante sua vida, de ter inúmeros testemunhos da feliz eficácia de suas obras.

Bem hábil seria o estatístico que conseguisse obter o número dos que, graças a Depois da Morte, puderam ser consolados.

O patriarca do Espiritismo retornou à espiritualidade e, durante sua longa trajetória, conheceu todas as provações, sem jamais se deixar abater.

Seus despojos, bem gastos por 81 anos de vida terrena, se decompuseram, lentamente, no solo de Tours, porém seu espírito 39 plana nas altas esferas.

Denis deve continuar sua missão, pois, durante sua recente encarnação, se esmerou em provar que a morte é uma simples evolução e que continuamos nosso trabalho, qualquer que seja o lado em que nos encontremos.

Pouco tempo depois de sua morte, Léon Denis teria se manifestado em Rochefort-sur-Mer, no círculo Allan Kardec. Em Annales du Spiritisme,40 o casal Luce, de Tours, amigos íntimos do mestre, e Claire Baumard, secretária, declararam, formalmente, ter reconhecido suas maneiras familiares, sua linguagem brilhante, impossível de imitar, mesmo que se decorassem certas passagens de suas obras.

Houve uma manifestação verdadeira? Nada sei, porém o casal Luce confirmou a sua autenticidade.

Conheço pessoalmente a Srta. Brasseaud, médium do Círculo Allan Kardec; em 1912, ela produziu a escrita direta em ardósia, sob minucioso controle.41

Se a comunicação de Léon Denis é autêntica, tanto melhor, porque é uma prova formal de que o grande apóstolo não estava enganado em suas afirmativas; se não se trata de uma manifestação de Léon Denis, fato bem possível, tanto pior, porém isso não impede que nos arquivos mundiais do Espiritismo se encontrem muitos exemplos bem controlados de manifestações de mortos, na hora prevista por eles em vida e nas condições que haviam indicado.

Para ser conciliatório em relação àqueles que não participam de nossas idéias, eu aceitaria, a rigor, admitir que os espíritas estão errados.

Quando vemos o exemplo de Léon Denis, de Gabriel Delanne e de tantos outros, quando constatamos o bem que eles fizeram à humanidade, às numerosas criaturas que consolaram, temos o direito de pensar: se eles se enganaram, tanto pior; mais vale esse erro que o de outros teóricos, cujo ensino produz a dúvida e gera o sofrimento.

Nossa doutrina ajuda aqueles que têm a oportunidade de conhecê-la e de aplicar os seus ensinamentos, a viver bem. Isso não é o mais importante?





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