Helen Keller



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Pequena Biografia

da Vida Grande e Cheia

de


Helen Keller

1880 - 1955



Retitado do Livro ”Vidas de Gramdes Mulheres

Edições Livros do Brasil

Colecção Vidas Célebres


Helen Keller

1880 - 1955

- 1880: nasceu em Tuscumbia Alabama­;

- 1882: aos dezanove meses, devido a um ataque de escarlatina ficou privada da vista e da

audição;

-1887: teve Anne Mansfield Sullivan como sua professora

-1890: aprendeu a falar, pela primeira vez

-1896: matriculou-se na Cambridge School

-1900: entrou no Radcliffe College; diplomou-se corn distinção; iniciou a sua longa carreira

de escritora e conferen­cista

-1936: corn a morte de Anne Sullivan, perdeu a sua «caríssima amiga e mestra».

-1955: morreu.
* Obras:

- 1902: A Hist6ria da Minha Vida

-1903: Optimismo

-1910: O Mundo Em Que Eu Vivo

-1927: A Minha Religião

-1938: Diário de Helen Keller, etc.

I
PETER FINLEY DUNNE e Mark Twain conversavam sobre a cegueira de Helen Keller.
- Meu Deus, que coisa insípida deve ser a vida dela! -exclamou o autor de Mr. Dooley.

- Aí é que você se engana - redarguiu Mark Twain. - Posso garantir-lhe que a cegueira é uma coisa bem emocionante. Se duvida, levante-se, numa noite escura, do lado errado da cama, enquanto a casa está em chaanas, e procure encontrar a porta.


Helen Keller, em virtude da: deficiencia dos seus sentidos, gozou a emoção de procurar a porta de saída das trevas, não somente para si mas para o resto da Humanidade. Mesmo cega, ela foi guia tanto de cegos como de alguns que tinhaan vista.
II
Ao nascer, era normal, como as outras crianças. Porém, aos dezanove meses, foi atacada por uma doença a que os médicos chamaram «congestão cerebral aguda», e que a privou da vista, do ouvido e, consequentemente, da fala. Os pais sen­tiram, como é natural, um terrivel desgosto. Mais uma dessas criaturas humanas condenadas a uma triste existsência. Como poderia ela perceber o sentido das coisas, se estava privada de dois dos seus sentidos? Os que eram apenas cegos, ou surdos­-mudos, era-lhes possível aprender a comunicar com o resto do Mundo. Mas para aquela criança que era cega, surda e muda, que esperança podia haver?
Um pobre entezinho incapaz de compreender ou de se fazer compreendido. Instintivainente, sentiu que era diferente de todas as outras pessoas, e isso fê-la irascível. Gritava, dava pontapés e arranhões em quern quer que se aproximasse dela. Incapaz de brincar como as demais crianças; divertia-se ras­gando as roupas e cortando os cabelos corn uma tesoura. Um flagelo impressionante. Não havia forma de a corrigir.
Uma ocasião, fechou a mãe na despensa; e divertiu-se quando sentiu a vibração das pancadas na porta fechada à chave.
Além disso; constituia um perigo. Tinha uma boneca e uma irmã mais pequena. Gostava da boneca porque lhe per­mitiam que brincasse corn ela. Mas não gostava da irmã.
De uma vez que a encontrou no berço da boneca, foi acometida de um acesso de raiva e tombou o berço. Só por sorte a mãe evitou que a filhinha caísse no chão e ficasse magoada;

Um perigo, não só para os outros como para ela própria.


Uma vez molhou sem querer o avental, e, para o secar, pôs-se diante da lareira. Como o avental não secasse depressa, ela chegou-se para mais perto do lume. Num instante; as roupas incendiaram-se-lhe. A velha goveamanta a muito custo conseguiu salvar-lhe a vida.

- Coitadinha! - comentaram os parentes. - Talvez fosse uma misericórdia, ela ter morrido.


Mas raiou um dia milagroso, em que uma professora veio ajudá-la a particlpar do mundo dos viventes.

I I I
Graças a Alexander Graham Bell, inventor do telefone, é que os pais de Helen se decidiram a contratar a «professora milagrosa» para a sua filha. Mr. Bell, que tianha sentimentos de afeição pelos «espécimes imperfeitos do barro humano», sugerira que Mr. Keller se dirigisse ao Perkins Institute para cegos, expondo o problema de Helen. Como resultado da carta de Mr. Keller, o director do Instituto recomendou Miss Anne Mansfield Sullivan como a professora conveniente para Helen, que tinha então seis anos.


Anne Sullivan, formada pelo Instituto Perkins, em um desses raros génios que surgem e florescem nos ambientes mi­seráveis. Seu pai era um beberrão sem préstimo algum, o irmão morrera de tuberculose, e ela própria estivera ameaçada de cegueira total até à idade de dezoito anos. Uma operação bem sucedida curara- parcialmente. Aos vinte, quando se tornou professora de Helen, tinha readquirido suficientemente a vista, de modo que podia ler para a cri'ança e introduzi-la num mundo novo.
Mas, como começar? Como transformar pensamentos em palavras, se a menina não possuía a concepção da linguagem humana? Anne Sullivan encontrou um meio. Na manhã seguinte à sua chegada, deu a Helen uma boneca, objecto com que ela estava muitíssimo familiarizada. Então, usando o alfabeto para cegos, vagarosarnente soletrou com os dedos na mão de Helen a palavra b-o-n-e-c-a. A garota, fascinada, come­çou a imitar desajeitadamente os movimentos, b-o-n-e-c-a. Em seguida correu para a mãe e fez-lhe os mesmos sinais na mão.
«Nessa ocasião», escreve Miss Keller na Hist6ria da Minha Vida, «eu não sabia, que estava a soletrar uma palavra, nem mesmo que existiam palavras; estava simplesmente a imitar corn os dedos».
Pouco a pouco, entretanto, Miss Sullivan conseguiu que ela pereebesse terem aqueles movimentos uma significação. Indi­cavam uma coisa. Alguma coisa corn que ela brincava. Alguma eoisa pela qual ela tinha certa vez empurrado a irmãzinha para fora do berço. E havia outros movirnentos que significavam outras coisas. C-a-o queria dizer uma coisa com um focinho felpudo e que saltitava em redor da geate. C-o-p-o era uma coisa em que se deiitava água para beber. C-h-a-p-e-u, uma coisa que se punha na cabeça quando a mãe levava a gente a passear. Que jogo mnaravilhoso! Que mundo maravilhoso! Como estava cheio de coisas e mais coisas! E tudo tinha um nome!
Helen aprendeu a seguir um novo grupo de palavras: mãe, pai, irmã. Havia anos que ela vivia com eles, e só agora sabia como se chamavam. E professora! O nome dessa agradável nova companheira! Venha, varmos continuar. É tão divertido! Ensine-me mais nomes, mais, mais. A sede de conhecimento da menina era insaciável, e Miss Sullivan satisfazia-a corn uma solicitude e uma prodigadidade de recursos surpreendentes. Na Primavera, quando as margaridas e os rainúculos abriram e os pássaros e esquilos acordaram para nova vida, a professora fez a sua aluma cega «aprofundar» os segredos da Natureza.
«Enquanto o meu conhecimento das coisas crescia, eu sentia cada vez mais a delicia do Mundo em que vivia.»
Depois, Miss Sullivan abniu para ela um novo mundo de delícias, o mundo dos livros. Ensinou a pequena a ler, utilizando tiras de cartolina nas quais algumas palavras estavam como gravadas em relevo. Novas coisas, novos nomes, novas ideias. Histórias. Poemas. Lindos pensamentos, lindas rimas.
Ela não podia ouvir essas rimas, mas podia sentir com os dedos a mesma espécie de letras nos fins das linhas. Como os con­tornos dos lindos enfeites no seu vestido domingueiro. Afinal de contas, se não podes ouvir nem ver as lindas coisas do Mundo, de um modo ou de outro consegues atingi-las. Corno que sentes o caminho para elas.
Ora Anne Sullivan dissera-lhe que mesmo aqueles capazes de ver e ouvir devem sentir a relação que há entre eles e as coisas. A esperança, por exemplo, ou a alegria ou o amor.
- Considere o amor, Helen. Ninguém pode vê-lo, ou ouvi-lo, ou prová-lo, ou cheirá-lo, ou tocar-the. Mas nem por isso ele deixa de existir, na sua força, na sua beleza, na sua realidade. Como conhece-la? Senti-lo a justamente a maneira de conhecê-lo.

- Sim, Anne, eu posso sentir isso. Eu amo-a.


E assim, a alma de Helen abriu-se gradualmen.te, até que um dia - milagre dos milagres! - ela aprendeu a falar. O pro­cesso foi longo e laborioso e às vezes aparentemente será esperança. O método, em resumo, era o seguinte: a professora pronunciava certos sons enquanto Helen lhe passava os dedos pelaa língua, pelos lábios e pela garganta. Depois, repetindo esses gestos em si própria, Helen procurava emitir sons emitando as posições em que os órgãos vocais de Miss Sullivan ficavam ao falar. Após malogros que pareciam infindáveis, a menina, que tinha a esse tempo dez anos, oonseguiu afinal articular as letras do alfabeto. Chegou então o grande momento da sua vida, quando tartamudeou a sua primeira afirmação concatenada: «Está quente».
A barreira que se interpunha entre ela e o resto do mundo ruíra finalmente. Ela quase que era corno as outras pessoas! A sua aprendizagern preliminar libertara-a da prisão do seu isolamento e desamparo. E agora estava em condições de entrar com as outras meninas na competição escolar de uma instrução mais adiaantada.

IV
Em 1896, em Massachusetts, aeompanhada pela sua pro­fessora, Helen matriculou-se na Cambridge School, para rapa­rigas, onde se prepatou para entrar no Radcliffe College. Miss Sullivan assistia às aulas comn ela, tomava as necessá­rias notas e depois transmitia-as a Helen no colégio de lingua­gem para cegos. Os exames eram em casa, sob a supervisão da directora, que aprendera o «alfabeto manual» e soletrava as perguntas na mão de Helen. Esta respondia às perguntas numa maquina de escrever, por meio do sistema para cegos.


«Ela nunca acertará com isso», diziam as professoras no começo.
Mas acertou, e num tempo relativamente curto. Urn ano depois do seu ingresso na Cambridge School, prestou exame preliminar de admissão para o Radcliffe, e passou com «distin­ção» em inglês e alernão. Dois anos depois passou nos exames finais e entrou no Radcliffe College, sempre acompanhada da sua «amada» Anne Sullivan.
E agora já não tomava conhecimento das suns deficiÊn­cias. Juntamente com o resto dos estudantes, estava pronta para mergulhar no mundo desconhecido do saber.
«No mundo maravilhoso do Espírito, senti-me tão livre como se estivesse no outro mundo.»
Estudou Shakespeare com o professor Kittredge, e compo­sição inglesa cam o professor Copeland, «homens capazes de dar nova visão aos cegos». Foi Charles Townsend Copeland, a quem os Alunos afectuosamente chamavam «Copey», quem lhe descobriu o talento de escritora.
«A senhora tem coisas muito suas a dizer, Miss Keller, e tem um modo particular de dizê-las.»
Sugeriu-lhe que desenvolvesse algumas das suas compo­sições escolares, completando a história da sua vida: Ela seguiu a sugestão e deu ao Mundo um dos documentos humanos mais raros: a luta de uma alma, coarctada por enormes limi­tações, para penetrar num universo ilimitado. E o universo, como ela verificou no seu tempo de estudante e através da vida inteira, era um lugar mágico «de grandes amores e caridades celestes». A cegueira, afirma ela, não é nada, nada é a surdez. Todos nós somos cegos e surdos às coisas eternas. Mas a Natureza é bondosa paa nós, na sua pnópria dureza. Favoreceu-nos, a nós, possuidores de cinco débeis sentidos, com um infinito sexto sentido, «um sentido que vê, ouve, sente, tudo num só acto».
A Histdria da Minha Vida foi publicada no Ladies Home Journal, e mais tarde em livro.
Nesse meio tempo, Helen Keller fora diplomada pelo Radcliffe. Com o dinheiro que recebeu pela venda do seu manuscrito, estabeleceu-se com Anne Sulli­van numa granja, em Wremtham, Massachusetts, dedicando-se à meditação e a escrever. Um ambiente silencioso, calmo, porém emocionante. Passeios pelos bosques. Anne Sullivan esti­cara um fio de arame de árvore em árvore, de modo que Helen pudesse caminhar sozinha sem se perder. Excursões pelo lago, num bote a remos, com os amigos.
«É divertido passear de barco guiado pelo aroma dos lírios que crescem nas margens. Vogando de canoa ao luar, não posso, é verdade, ver a Lua par trás dos pinheiros, mas posso imaginar que sinto o reflexo da sua luz, quando arrasto a minha mão pela água.»

Imaginando o Mundo como ale é verdadetrarnente:

Já terá aiguém conhecido o verdadeiro Mundo?»
Traduzindo as sensações da vista em sensações do tacto: «Muitas vezes senti as pétalas lançadas sobre mim pela brisa, assim pude imaginar o pôr do Sol como rosas cujas pétalas tivessem sido sacudidas e se espalhascem pelo céu.»
Mas de todas as experiências, a que lhe dava maior prazer era ler livros. Anne arranjou-lhe todos os clássicos impressos no sistema Braille, e os sensíveis dedos de Helen estavam cons­tantemente ocupados em «olhar» o íntimo dos mestres. Não havia de que se ter pena de Helen Keller, quando vivia na sua quinta de Wrentham, com Anne Sullivan a assisti-la e o Mundo inteiro a acompanhá-la.
Uma terceira pessoa, foi juntar-se a esse pequeno mundo cheio de beleza e emoção: John Macy, um dos professores ingleses de Helen no Radcliffe. Casou, com Anne Sullivan e foi morar com elas, em Wrentham.
«Nao me é possivel enumerar os actos de bondade com que ele me auxiliou e me aplanou o caminho... Uma vez, achando-me cansada com o trabalho manual das minhas cópias, passou acordado uma noite inteira a dactilografar quarenta páginas do meu manuscrito, de maneira que puderam chegar ao prelo a tempo.»
Uma nova variante no velho triângulo de duas mulheres e um homem. Não um triângulo de paixão, ciúme e vingança, mas de fé, caridade e amor.

V
Durante um curto período de êxtase primaveril, Helen Keller experimentou o que é o amor de uma mulher por um homem, Anne Sullivan e John Macy foram gozar umas peque­nas férias, e um jovern veio servir-lhe de secretário. O amor zomba de todas as barreiras. O rapaz propõs-lhe casamento; e Helen., aceitou.


«Por um breve espaço de tempo, dancei dentro e fora dos portões do Céu, envolvida por uma teia de esplêndidas ima­ginações.»
Mas deprssa acordou para a realddade. O amor físico, o casamento, as alegrias e as responsabilidades da maternidade, essas coisas não eram para ela. Devia contentar-se com aquele seu mundo particular, cercada dos seus sonhos e dos seus livros.
E os amigos. A poucos terá sido dado possuir tantas e tão constantes amizades como eram as de Helen Keller. Entre aqueles que the dedicavam verdadeira afeições - para mencio­nar só alguns - estavam os filantropos H. H. Rogers, Andrew Carnegie e Otto Kahn, que a ajudaram a vencer muitas difi­culdades, quando o dinheiro dela escasseava; Mark Twain, que a brincar lhe dizia que ela enxergava melhor do que muita gente («o Mundo, Helen, está cheio de olhos que não vêem, olhos parados, espantados, insensíveis»); Frank Doubleday, seu editor, «cuja bondade para comigo tem sido a bondade não apenas de um amigo, mas de um pai»; Eugène Debs, «esse esquecido S. Francisco do século xx»; e Alexander Graham Bell, acerca do qual, por ocasião da sua morte, ela escreveu:
«Ainda que a vida já não parecesse a mesma desde que soubemos que o dr. Bell tinha morrido, a obscuridade das lágrimas resplandece com a parte dele que continua a viver em mim.»
A morte dos amigos entristecia-a profundamente. Mas continuava no seu trabatho de ensinar a cegos e sãos. Viajou pelo país, a prounciar conferências - aprendera a falar com suficiente clareza - e em toda a parte foi aclamada como um como um milagroso capricho da Natureza. Divertia-se com o que os jornais publicavam a seu respeito.
«Pela primeira vez fiquei sabendo que nasci cega, surda e muda que me eduquei por mim mesmo, que consegui dis­tinguir as cores, ouvir telefonemas... que nunca fui triste, nem desamimada, nem pessimista, que me esforcei com celeste energia para ser feliz... Nós fornecemos aos jornais os factos pelos quais nos perguntam, mas nunca sabemos o que é feito desses factos.»
0 que o público distraído foi incapaz de perceber a respeito de Helen Keller foi apenas isto: que ela é um ser humano com talvez algo mais do que o seu quinhão do aflição mortal e certamente com algo mais do que o seu quinhão de génio imortal. O destino tnmha-a feito ver menos, mas enxergar mais do que o normal.
A sua «visão» facultava-lhe a percepção do futuno da Humanidade. Ela acreditava que a salvação dos homens viria de um aplicação inteligente do socialismo: alimentos para os famintos, habitações para os desabrigados, educação para os ignorantes, paz entre as nações, e justiça para todas.
«Existe hoje no Mundo excesso de irreflexão e carência de alegria.» Se os ambiciosos ricos fossem capazes de pensar melhor, os necessitados estariam em condições de viver melhor.
Ao meditar sabre o Progresso humano, dizia ela, não tinha demasiadas esperanças nem excessivos desalentos.
«Como o poeta Henry van Dyke», escreveu ela, «não sou uma optimista: há mal em excesso. no Mundo e em mim. Tão pouco sou uma pessimista; há bem de sobra no Mundo e em Deus. Sou, assim, uma melhorista, acreditando que Ele quer fazer o Mundo melhor, e procuro dar a minha parte de ajuda, desejando que ela fosse melhor.»
Tal como um relógiode-sol, que só marca as horas quando faz bom tempo - «só recordo as horas claras da vida» - ela vivia no seu lindo mundo, a proourar, na parte que lhe dizia respeito, ajudá-lo a tornar se mais lindo. E quando as sombras se lhe atravessavam no caminho, ela enxugava as 1ágrimas e esperava pacientemente pelo próximo dia de 1uz.
Uma das mais escuras sombras da sua vida baixou sabre ela quando Anne Sullivan morreu (1936). Foi como se um pedaço da sua própria alma tivease morrido.

«Suponho», declara o dr. Richard C. Cabot, «que tão extraordinária união de duas alnas nunca existirá sabre a Terra.»


Por algum tempo, Helen Keller ficou como que perdida. Mas afinal repeliu a sua desolação e, com o auxílio da sua nova secretária, Miss Polly Thornpson, continuou a trabalhar. Continuou a interpretar com a sua sensível inteligência o Mundo que «via» com os seus dedos sensíveis. E como ela conseguia «ver» tão perfeitamente com esses dedos!
Um dia, visitou o estúdio da escultora Malvina Hoffman. Entre as estátuas que examinou, achava se a de um homem. Ela tacteou as dobras do manto, o cordão que lhe rodeava a ciutura, as sandálias dos pés. «Um monge», exclamou ela. Prosseguiu no seu exame e, sempre pelo tacto, notou que um lobo tinha a cabeça encostada ao homem, que um coelho lhe descansava nos braços e que um passarinho estava aninhado no seu capuz. Deslizou os dedos pelo rosto do homem. Estava erguido para o Céu. «Ele ama a Deus e é amigo dos animais», disse ela. E em seguida: - Já sei! É S. Francisco! Como S. Francisco de Assis, Helen Keller estava conven­cida de que o fim da estrada para o qual se dirigia tão pacientemente às apalpadelas era apenas o começo de uma estrada mais linda.
«Não posso compreender a pobre fé que tem medo de encarar a morte.»
Porque além dela está a cidade do Sol, onde sabia que iria encontrar de novo os amigos que se lhe tinham antecipado. Como verdadeira, sweden-borguíana (1), ela estava convencida de que após a morte, pela primeira vez, ela seria verdadeira­mente capaz de ver. E assim, «com firme determinação, eu lanço os olhos para além de onde a vista alcança, até que a minha alma se eleve na luz espiritual e exclame: «A vida e a morte são uma única coisa!».

(1) Swedenborguianos: os que aceitam a doutrina de SWEDEN­BORG, teósofo e visionário sueco (1688-1772) que conquistou numerosos adeptos na Inglaterra e nos Estados Uninidos.








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