Gil Brandão: Contribuições para a moda brasileira



Baixar 45.72 Kb.
Encontro26.05.2018
Tamanho45.72 Kb.

Gil Brandão: Contribuições para a moda brasileira
Maria Helena Ribeiro de Carvalho (UEM)

Paula Piva Linke (UNICESUMAR)


Resumo: A moda é um tema ainda pouco explorado pela história, exceto no que diz respeito à biografia de grandes estilistas, mundialmente famosos. No entanto, há que se salientar a importância de outros nomes, que se destacaram não necessariamente no estilismo, mas que contribuíram de forma a desenvolver a moda no país. Pode-se citar como exemplo o modelista Gil Brandão. Médico e arquiteto ele inovou ao publicar encartes de moldes em revistas e jornais. Assim sendo, o objetivo deste texto é apresentar a vida e a obra deste modelista, salientando suas contribuições na década de 1960 e a importância de seu trabalho. Para a realização desta pesquisa utiliza-se o método bibliográfico e a análise do discurso para a leitura do material produzido pelo modelista, destacando-se alguns autores como: Ecléia Bosi, Jacques Le Goff, Daniela Calanca, Gilda Chataignier, Diana Crane, dentre outros. A importância de Gil para a moda está relacionada ao fato de que ele foi o primeiro modelista a usar os conhecimentos da anatomia humana e das artes visuais, proporcionados pelos saberes da arquitetura para criar roupas e divulgar as modelagens das peças nos jornais e revistas. Ele trabalhou para a revista Fon Fon, para o Jornal do Brasil, no ano de 1959, e foi o primeiro modelista da revista Manequim, em 1965, onde lançou os moldes prontos para roupas, divulgando o uso de moldes com estilo. Pode-se afirmar que Gil foi um dos precursores da moda prêt-à-porter que começou a se destacar no período. Através de suas publicações em jornais e revistas, Gil Brandão passou a divulgar tendências de moda e elaborar uma moda com características referentes à cultura brasileira. Seu trabalho se destacou não somente pela divulgação de tendências, mas pela precisão e exatidão dos traços e estudos de modelagem. O trabalho do modelista, ou seja, suas publicações de informações de tendências de moda no Jornal do Brasil, revista Fon Fon e Manequim eram as primeiras páginas da história da moda nacional e traziam o caráter de fenômeno social da moda. Seu trabalho está diretamente relacionado à cultura, visto que a moda é uma forma de expressão cultural e o modelista e sua obra são parte das expressões da cultura daquele período, contemplando a própria memória da moda Brasileira, sua constituição e trajetória através de um de seus contribuintes que adaptou e criou elementos de moda específicos para o clima e a cultura do Brasil.

Palavras-chave: Estilo; Modelista; Moda.
Abstract: Fashion is a topic not yet explored by the story, except with respect to the biography of fashion designers, world famous. However, we must stress the importance of other names that stood out not necessarily in styling, but it contributed to develop the fashion in the country. Can cite as an example the modeler Gil Brandão. Medical and architect he innovated the post mold inserts in magazines and newspapers. Therefore, the aim of this paper is to present the life and work of this modeler, stressing their contributions in the 1960s and the importance of their work. For this research we use the bibliographical method and discourse analysis for the reading of the material produced by the modeler, highlighting some authors as: Ecléia Bosi, Jacques Le Goff, Daniela Calanca, Gilda Chataignier, Diana Crane, among others. The importance of Gil for fashion is related to the fact that he was the first modeler to use the knowledge of human anatomy and visual arts, knowledge provided by the architecture to create and disseminate the modeling clothing pieces in newspapers and magazines. He worked for the magazine Fon Fon, for the Jornal do Brazil, in 1959, and was the first modeler magazine Dummy, in 1965, where he launched the molds ready for clothes, spreading the use of molds with style. It can be argued that Gil was one of the forerunners of prêt-à-porter who first came to prominence in the period. Through its publications in newspapers and magazines, Gil Brandão started disclosing fashion trends and develop a fashion features pertaining to Brazilian culture. His work stood out not only for the dissemination of trends, but the precision and accuracy of the features and modeling studies. The work of the modeler, ie, their information publications of fashion trends in Brazil Journal, magazine Fon Fon and Dummy were the first pages of the history of fashion and brought the national character of the social phenomenon of fashion. His work is directly related to culture, since fashion is a form of cultural expression and pattern maker and his work are part of the cultural expressions of that period, contemplating the very memory of Brazilian fashion, its constitution and trajectory through one of its contributors who adapted and created fashion elements specific to the climate and culture of Brazil.

Keywords: Style; Modeler; Fashion.

1. Introdução

O fenômeno social conhecido como moda deixa em sua trajetória artefatos que podem ser reconhecidos como objetos de pesquisa de uma sociedade e de uma determinada época. Tais artefatos reflete o modo de pensar e os valores de cada cultura , influi no cotidiano destas e, consequentemente, fica na memória de quem viveu tal período.

Assim sendo, os livros deixados pelo modelista Gil Brandão podem ser considerados objetos de pesquisa que, informando como era o vestuário da época, deixaram um legado de aulas de modelagem do vestuário e outros ensinamentos de como cortar e costurar roupas.

Importante destacar que Gil Brandão, também fez publicações em jornais e revistas onde passou a divulgar tendências e elaborar uma moda adaptando aos modelos europeus as características referentes à cultura brasileira. Vale lembrar que seu trabalho se destacou não somente pela divulgação de tendências, mas pelos moldes exatos que construiu usando o conhecimento que tinha da anatomia humana e da arquitetura.

Diante do exposto, este trabalho tem como objetivo fazer uma breve análise do papel do modelista Gil Brandão na história da moda brasileira, destacando a importância de seus trabalhos na década de 1960, para tanto, procura-se no primeiro tópico explicar a importância da moda para o fenômeno conhecido como nova história para então depois destacar a importância do trabalho de Gil Brandão.
2. A nova história e a moda
Acompanhando os fluxos das mudanças históricas e historiográficas, uma gama imensa de documentos vem subsidiando as pesquisas em moda – os jornais, as revistas, as imagens em diversos suportes [pictóricos, fotográficos, imagens] e as roupas ao vivo e em cores encontradas nos museus de memória, entre outros artefatos de expressão e comunicação, como a literatura e o cinema. Desenham-se, assim, “novas” maneiras de olhar para os arquivos e para os documentos que eles guardam.

O balanço historiográfico de Calanca (2008) pode ser o fio condutor para dimensionar as mudanças nos conceitos de história e de documentos observados no século XX, e de como repercutiram nos estudos históricos de moda. Para a autora, no seio dessas mudanças, alavancadas pela Escola dos Annales, emerge uma nova e mais ampla concepção de documento e das implicações sociais dos acontecimentos, isto é, das consequências que eles têm sobre os indivíduos em termos de vida coletiva, de sentimentos, de comportamentos privados e de mentalidades coletivas, ensejando a abertura, para uma história problemática, que se delineia como “nova história”. Essas mudanças teriam concorrido para o surgimento de uma frente comum nos diversos planos da pesquisa histórica e um “programa de trabalho” para os estudos de moda, em particular, mediante a abertura de novas frentes de estudos (objetos e fontes).

Dentro desta concepção destaca-se também o papel da memória, pois a partir do momento em que estudos biográficos são realizados, recupera-se parte das memórias daquele tempo e da importância do trabalho de certos indivíduos.

Compreender a importância da obra e da vida do modelista Gil Brandão auxilia no processo de compreensão de formação de uma moda brasileira, assim como revela o contexto em que ele trabalhava e o seu papel enquanto profissional de moda. Ele publicou moldes com tendências internacionais, porque o inverso não faria sentido, mas numa adequação para o nosso clima, modo de ser e obedecendo à realidade do nosso mercado (BRANDÃO, s.d).

Quando trabalha-se com pesquisa biográfica á que se destacar a importância da memória, neste caso cabe ressaltar os estudos de Ecléa Bosi (1994), que destaca a importância da memória e sua relação com o tempo, bem como a forma como o indivíduo rememora seu passado e quais os fatos que marcam a vida deste indivíduo.

Cabe ressaltar que a memória não está presente somente no sujeito, mas também nos objetos que fazem parte do cotidiano dos indivíduos.

Através dos objetos fabricamos nossa auto-imagem, cultivamos e identificamos relacionamentos. Os objetos guardam ainda o que no passado é vital para nós [...] não apenas nos fazem retroceder no tempo como também tornam-se os tijolos que ligam o passado ao futuro (GONÇALVES, 2009, p.68).

Desta forma, pode-se compreender que “um ser humano tem uma raiz por sua participação real, ativa e natural na existência de uma coletividade que conserva vivos certos tesouros do passado e certos pressentimentos do futuro” (BOSI, 1994, p. 443). Os objetos guardam consigo memórias e relatos de um tempo passado, assim sendo, cabe compreender a memória como:

[...] propriedade de conservar certas informações, remete-se em primeiro lugar a um conjunto de funções psíquicas, graças às quais o homem pode atualizar impressões ou informações passadas, ou que ele representa como passadas. (LE GOFF, 2003, p. 419).

A memória como propriedade de conservar certas informações mostra-se presente em todas as ações do sujeito, assim como na construção do mesmo, como e o que ele guarda na memória. Pode-se dizer então que:

A memória está presente em tudo e em todos. Nós somos tudo aquilo que lembramos, nós somos a memória que temos. A memória não é só pensamento, imaginação e construção social: ela é também uma determinada experiência de vida capaz de transformar outras experiências, a partir de resíduos deixados anteriormente. A memória, portanto, excede o escopo da mente humana, do corpo, dos aparelhos sensitivo e motor e do tempo físico, pois ela também é resultado de si mesma; ela é objetivada em representações, rituais, textos e comemorações (SANTOS, 2003, p. 25-26).
Se a memória está presente em tudo e em todos e está relacionada às experiências do sujeito, deve-se estabelecer uma ligação com os elementos culturais que fazem parte da memória do indivíduo, a cultura produzida e vivenciada pelo sujeito se manifesta de várias maneiras, objetos, saberes e práticas culturais que se inserem na dinâmica do cotidiano. Em algum momento, alguns destes conhecimentos, objetos ou praticas culturais passam a apresentar ressonância cultural, ou seja, adquirem importância e são vistos como elementos que fazem parte de uma cultura.

Neste caso, cabe destacar a importância do traje e da própria moda, produzida e consumida dentro de determinados contextos sociais.


Uma roupa é um emaranhado de pedaços confeccionados juntos para cobrir, enfeitar e valorizar as partes do corpo humano: mangas, corpetes, colarinhos, saias ou calças. Uma roupa é a representação sintética e simultânea de muitos acontecimentos pessoais e coletivos, econômicos, sociais e políticos (SORCINELLI, 2008, p.29).
Mas mais do que um emaranhado de pedaços confeccionados juntos, a roupa faz parte de uma dimensão simbólica que fala sobre a cultura.

As roupas, como artefatos, criam comportamentos por sua capacidade de impor identidades sociais e permitir que as pessoas afirmem identidades sociais latentes. [...] Por outro lado, as roupas, podem ser vistas como um vasto reservatório de significados, passíveis de ser manipulados ou reconstruídos de forma a acentuar o senso pessoal de influência (CRANE, 2006, p. 22).


Enquanto resultado de diferentes acontecimentos pessoais e coletivos, a roupa carrega consigo uma estrutura que lhe garante sustentabilidade e forma, esta estrutura é desenvolvida através do modelista. A função do modelista é interpretar o modelo apresentado e construir os moldes criando todas as partes que compõem a peça de vestuário. E para criar um molde de qualidade é indispensável conhecer o corpo que irá vesti-lo o que vem de encontro com a afirmação de Grave (2004), precisa-se ler as linhas do corpo e as linhas do vestuário adequando-as à sua finalidade para alcançar um bom resultado ergonômico.

O molde forma-se numa peça de papel, pela qual se corta o tecido e reproduz uma roupa. E nas palavras da autora Gilda Chataigneir (1996 pág.30) “O molde é a alma, a definição de uma peça, a identidade total da roupa”. Assim, a partir de diagramas que são traçados no papel por meio de ferramentas, réguas e esquadros, as medidas, linhas e curvas se unem para formar o molde. Através do molde corta-se o tecido que após costurado forma a roupa que revestirá o corpo humano. A roupa enquanto objeto funcional faz referência a um sujeito e período histórico, relata a história as diversas condições e posições sociais a que o indivíduo estava exposto. “A roupa tende, pois, a estar poderosamente associada com a memória ou, para dizer de forma mais forte, a roupa é um tipo de memória. Quando a pessoa está ausente ou morre, a roupa absorve sua presença ausente (STALLYBRASS, 2008, p.12)”.

Em suma ao compreender a memória como algo que está presente em tudo e em todos, pode-se entender o saber fazer a construção das roupas como memórias que falam de um tempo que já não existe mais, que caracterizam uma realidade específica.


3. O MODELISTA GIL BRANDÃO


“A moda é um fenômeno cultural complexo que se enraíza na mente das pessoas e na cultura em que se insere (Chataignier,2010, pág.29)”. E de acordo com a mesma autora (pág.11) “moda é o fenômeno social da mudança cíclica dos costumes e dos hábitos, das escolhas e dos gostos, coletivamente validado e tornado quase obrigatório”. E sabe-se que por muito tempo, a moda brasileira não tinha identidade própria. Dependi-se exclusivamente das tendências e do estilo europeu para saber o que e como vestir. Portanto, não havia criadores ou estilos genuinamente brasileiros (BRANDÃO, s.d). Essas declarações vem de encontro com a afirmação da autora Gilda Chantagier (1996, pág13) “Copiavam-se ao pé da letra a moda da estação europeia e, em pleno verão tropical, as moçoilas do Rio usavam mântos com capuz”.

O Brasil, por muitos anos copiou e seguiu as tendências européias sem fazer alteração de estilo, contudo, com o passar do tempo, devido às características culturais, sociais, climáticas, entre outras, iniciou-se a tentativa de criar uma moda brasileira, condizente com as características do país.
O debate em torno da idéia de uma “moda brasileira” é travado, como mínimo, desde os anos 20 do século passado quando as indústrias têxteis brasileiras nivelaram-se tecnicamente em relação às européias e às americanas, no sentido de capacitarem-se para a produção de tecidos concorrentes, o que supõe a produção de bens equivalentes com preço competitivo (NEIRA, 2008, p. 01).
Este processo de aprimoramento da indústria e o surgimento do prêt-à-porter possibilitaram inovações no mercado da moda brasileira, novos fios, cores, estampas e recortes foram criados e passaram a fazer parte da indumentária, iniciou-se assim, um processo de interpretação das tendências européias a partir do final dos anos de 1950.
Devido às características climáticas e culturais que nos diferem do sistema de criaçãoprodução- consumo de moda europeu, personalidades atuantes no setor, como os editores das revistas de moda e os dirigentes das indústrias têxteis, passaram a questionar implicitamente se deveríamos continuar a seguir, em termos de indumentária, as referências estéticas estrangeiras que chegavam até nós pelo cinema e pelas revistas e, além disso, também pelo amplo e legitimado discurso de bom gosto e elegância constituído na Europa e, alguns anos mais tarde, nos Estados Unidos da América (NEIRA, 2008, p. 01)
A partir dos anos de 1960 as características da moda brasileira se revelam com mais intensidade devido ao trabalho de estilistas que se destacam, uma das figuras que obteve notoriedade neste período foi o modelista Gil Brandão, que inovou ao publicar na revista manequim, encartes com moldes, possibilitando as mulheres fazer suas próprias roupas. No Brasil, os estudos sobre a moda dos anos 1960 remetem a questões importantes. Uma delas diz respeito à moda nacional e as inovações publicadas pelas revistas Manequim e Fon Fon, além de publicações do Jornal do Brasil. Tais publicações de encartes de moldes revelavam as tendências do período e as características de roupas condizentes com o clima e a cultura do país.

Gilberto Machado Brandão. Nasceu em Pernambuco no ano de 1924 e faleceu em 1985, Gil Brandão, como ficou conhecido, formou-se em medicina e arquitetura. E de acordo com Brandão (1981, p. 7), “o médico entraria com seus profundos conhecimentos de anatomia e o arquiteto com seus altos padrões de bom gosto, técnica e poder criador”. A importância de Gil para a moda está relacionada ao fato de que ele foi o primeiro modelista a usar os conhecimentos da anatomia humana e das artes visuais, proporcionados pelos saberes da arquitetura para criar roupas e divulgar as modelagens das peças nos jornais e revistas. O modelista trabalhou para a revista Fon Fon, para o Jornal do Brasil, no ano de 1959, e foi o primeiro modelista da revista Manequim, em 1965, onde lançou os moldes prontos para roupas, divulgando o uso de moldes com estilo (SABINO, 2007 e BRANDÃO, [s.d]). Pode-se afirmar que Gil foi um dos precursores da moda prêt-à-porter que começou a se destacar no período.

Na revista Fon Fon ele publicou desenhos estilizados, orientando as leitoras de como se vestir com elegância, apresentando junto aos desenhos, dicas de decotes, recortes, estampas e tecidos.

Através de suas publicações em jornais e revistas, Gil Brandão passou a divulgar tendências de moda e elaborar uma moda com características referentes à cultura brasileira, seu trabalho se destacou não somente pela divulgação de tendências, mas pela precisão e exatidão dos traços e estudos de modelagem

Dentre as suas criações tem-se: a blusa listrada com gola e punhos grandes (em 1954); a saia de praia (1957); o vestido saia-balão (ou balonê como conhecemos atualmente) e peças de moda praia (1959) (SANTOS, 2011).

Quando Brandão lançou, através da Revista de Domingo, um projeto gráfico-editorial que visava orientar as mulheres a construir suas próprias peças, a moda brasileira até então representação das roupas francesas, deu inicio a inovação. Eram lições de corte e costura o mais detalhado possível facilitando a produção das peças de vestuário. Essas aulas de Brandão conquistaram as mulheres leitoras e isto fez com que surgissem mais novidades no jornal. No Jornal do Brasil, Brandão lançou editorais como “Aprenda a Costurar”, “Escolha seu Modelo”, “O Modelo da Semana e “Nossas Crianças”. Em cada um, eram encontradas orientações de elaboração de moldes, corte e costura. Brandão ensinava como tirar medidas, traçar os moldes e construir as roupas. O trabalho ficou evidente nos anos seguintes, quando o modelista publicou mais uma coluna, “Interpretação de um modelo”, onde dicas ilustradas de modelos eram sugeridas às leitoras. Também houve a abertura de um canal interativo com as leitoras na seção “Correspondência de Gil Brandão” onde as mesmas escreviam pedindo opiniões de qual roupa vestir em determinada ocasião ou ainda tirar dúvidas que surgiam no traçado dos moldes e no corte e costura das roupas sugeridas nos editoriais (SANTOS, 2011).

Gil Brandão buscou estimular às donas de casa dos anos 60 a experiência do faça você mesma as suas roupas, dando-lhes aulas de corte-costura através dos editoriais, e com isso provavelmente colaborou com a inclusão de muitas mulheres no mercado de trabalho.

Analisar o trabalho de Gil Brandão e o papel do Jornal do Brasil na História da Moda Brasileira demanda entender a própria formação da identidade brasileira. Atualmente, aqui no Brasil, seguem-se as tendências internacionais, porque o contrário não faria sentido, mas numa adaptação e com uma criatividade para o nosso clima, jeito de ser e obedecendo à realidade do nosso mercado (BRANDÃO, [s.d]).

No livro “Aprenda a costura com Gil Brandão" (BRANDÃO, 1981) pode-se encontrar uma série de diagramas que exemplificam e ilustram o processo de construção do molde, medidas, curvas e linhas que se unem para dar formato ao molde que revestirá o corpo humano. Tal obra esclarece o processo de modelagem e construção dos moldes, bem como os modelos que estão em voga, auxiliando na compreensão da moda e da cultura do vestir do momento. Linhas, recortes, shapes e contrastes que se revelam no vestuário da época.

Curso de corte &Costura Gil Brandão é uma publicação de três livros e fascículos é uma obra completa onde se encontra aulas sobre: como tirar medidas; instrumentos necessários para o traçado dos moldes; etapas de confecção de uma roupa; estudo sobre máquina de costura; o que você deve saber sobre tecidos; como provar uma roupa; vários pontos de costura á mão etc.

O trabalho e a obra de Gil Brandão são um marco na história da moda brasileira, pode-se considerar que as tendências lançadas por ele eram na verdade, provenientes de um processo de adaptação cultural entre a moda parisiense e a cultura brasileira, neste caso, entende-se adaptação cultural como “pode ser analisada como um movimento duplo de des-contextualização e re-contextualização, retirando um item de seu local original e modificando-o de forma que se encaixe em seu novo ambiente” (BURKE, 2003, p. 91).

Neste sentido de adaptação cultural, cabe entender que cada cultura possui suas características que definem um período e grupo específicos, cabe aqui entender cultura “em um sentido razoavelmente amplo de forma a incluir atitudes, mentalidades e valores e suas expressões, concretizações ou simbolizações em artefatos, práticas e representações” (BURKE, 2003, p. 16).

Assim o processo de adaptação da moda parisiense para o clima brasileiro, faz com que surjam novas formas de se pensar a moda e também os usos dos trajes.

Cabe destacar também a importância de suas publicações que servem de base para muitos modelistas na atualidade, desta forma, pode-se compreender o método de modelagem desenvolvido por ele como um saber fazer que faz parte de uma cultura brasileira e que ainda se mantém presente.

O legado de Gil Brandão, seu método de modelagem, aulas de corte e costura, e encartes publicados referem-se ao desenvolvimento de uma nova era para a moda brasileira, onde o saber fazer, cortar e costurar sua própria roupa com estilo, passou a fazer parte do dia-a-dia das leitoras de suas publicações.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O trabalho de Gil Brandão e sua técnica de modelagem proporcionaram o desenvolvimento de uma moda com características brasileiras e a divulgação de tendências para o publico feminino.

O modelista publicou vários encartes e lições que ensinavam as mulheres dos anos 1960 a costurar em casa, possibilitando vestir roupas da moda e com estilo.

O material desenvolvido por ele em encartes foi publicado pelo Jornal do Brasil, revista Fon Fon e Manequim. Há também a produção de livros que se destaca pelo primor na qualidade dos traçados e das informações referentes ao processo de modelagem e moda de forma geral.

O trabalho de Gil Brandão, ou seja, suas publicações de informações de tendências de moda no Jornal do Brasil, revista Fon Fon e Manequim eram as primeiras páginas da história da moda nacional e que traziam o caráter de fenômeno social da moda. Seu trabalho está diretamente relacionado à cultura, visto que a moda é uma forma de expressão cultural e o modelista e sua obra são parte das expressões da cultura daquele período.


REFERÊNCIAS

BRANDÃO, Gil. A moda através dos tempos. São Paulo: Ed. Três, s.d.

BRANDÃO, Gil. Aprenda a costurar. Rio de Janeiro: Tecnoprint, 1981.

BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças de velhos. 3º Ed. São Paulo: Companhia das letras, 1994.

BURKE, Peter. Hibridismo cultural. São Leopoldo: Ed. UNISINOS, 2003.

CALANCA, Daniela. História social da Moda. São Paulo: SENAC, 2008.


CHATAIGNIER, Gilda. Todos os caminhos da Moda: guia prático de estilismo e tecnologia. Rio de Janeiro: Rocco, 1996.

CHATAIGNIER, Gilda. História da moda no Brasil. São Paulo: Estação das Letras e Cores, 2010.

CRANE, Diana, A moda e seu papel social: classe, gênero e identidade das roupas. São Paulo: Senac, 2006.

GONÇALVES, José Reginaldo Santos. A magia dos objetos: museus, memória e história. In PRIORI, Ângelo. História , Memória e Patrimônio. Maringá: Eduem, 2009.

GRAVE, Maria de Fátima. A modelagem sob a ótica da ergonomia. São Paulo: Zennex 2004. 103 p.

LE GOFF, Jacques. História e Memória. Campinas: Ed. da Unicamp, 1994.

NEIRA, L. G. . A invenção da moda brasileira. Caligrama (ECA/USP. Online), v. 4, p. 04, 2008.

SABINO, Marco. Dicionário da moda. Rio de Janeiro: Elsevier, 2007.

SANTOS, Myrian Sepúlveras dos. Memória coletiva e teoria social. São Paulo: AnnaBlume, 2003.

SORCINELLI, Paolo. Estudar a moda: corpos, vestuário, estratégias. São Paulo: Senac. 2008.



SANTOS, Heloisa Helena de Oliveira. A moda e o Jornal do Brasil: o papel da mídia na popularização do vestuário. Rio de janeiro, 2011, PUC-Ri

STALLYBRASS, Peter. O casaco de Marx: roupas, memória, dor / Peter Stalybrass ; tradução de Tomaz Tadeu. – 3. ed. – Belo Horizonte : Autêntica Editora, 2008.
: anais -> 2013 -> trabalhos
trabalhos -> O título do trabalho deverá ser centralizado, em fonte arial 12 e negrito
trabalhos -> Karibu: Mwalimu Rodney. Uma introdução a vida e obra de Walter Rodney1
trabalhos -> O título do trabalho deverá ser centralizado, em fonte arial 12 e negrito
trabalhos -> O título do trabalho deverá ser centralizado, em fonte arial 12 e negrito
trabalhos -> O título do trabalho deverá ser centralizado, em fonte arial 12 e negrito
trabalhos -> O título do trabalho deverá ser centralizado, em fonte arial 12 e negrito
trabalhos -> O acervo histórico da faculdade de artes do paraná: conservatório estadual de canto orfeônico do paraná (1956-1966)
trabalhos -> Educação Histórica: um caminho para o ensino crítico de história
trabalhos -> O título do trabalho deverá ser centralizado, em fonte arial 12 e negrito




©aneste.org 2017
enviar mensagem

    Página principal