Ágape é o amor incondicional, o amor generoso, o amor sem limites



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Ágape é o amor incondicional, o amor generoso, o amor sem limites. Partindo desse conceito, o Padre Marcelo Rossi apresenta esta obra bela e tocante. Uma pausa, um instante de paz em meio às turbulências diárias. Propondo interpretações ao Evangelho de São João, Ágape aborda questões como amor, tolerância, humildade e perdão. E, como feixe de cada um de seus capítulos, o livro é iluminado por inspiradoras orações que retomam cada um desses temas. Uma dádiva que se amplia no recolhimento da prece.
Como tão bem aponta Gabriel Chalita no prefácio que abre a obra: "O mal não pode vencer o bem. Se as atrocidades nos incomodam, se a banalização da violência nos assusta, é preciso ir além. Além do que os nossos olhos podem ver, além do que os nossos sentidos podem captar. É preciso ir além e chegar ao recôndito do nosso coração onde só a linguagem da alma, dos sentimentos, da simplicidade da fé é capaz de alcançar".
PADRE MARCELO ROSSI

ÁGAPE
Copyright © 2010 by Editora Globo S.A. para a presente edição

Copyright © 2010 Padre Marcelo Rossi


Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta edição pode ser utilizada ou reproduzida - em qualquer meio ou forma, seja mecânico ou eletrônico, por fotocópia, gravação etc. - nem apropriada ou estocada em sistemas de bancos de dados sem a expressa autorização da editora.
Todas as citações do Evangelho de São João foram retiradas da Bíblia Sagrada Ave-Maria da Editora Ave-Maria, que gentilmente as cedeu para esta obra.
Trecho sobre Irmã Dulce (p. 104-105) extraído de Passarelli, Gaetano.

Irmã Dulce - o anjo bom da Bahia. São Paulo: Paulinas, 2010.


Preparação de texto: Bruno Martins

Revisão: Ana Maria Barbosa e Beatriz de Freitas Moreira

Projeto gráfico e diagramação: Crayon Editorial

Direção de arte e capa: Paula Astiz

Foto de capa: Eduardo Barillari
1ª edição, 2010

1ª reimpressão

Aos meus pais Vilma e Antônio

Ao meu saudoso avô Alfredo

Às minhas irmãs Martinha e Mônica

Aos meus sobrinhos Lucas e Matheus

Aos meus tios Ede e Wilson

Ao meu padrinho Sérgio

Porque família é tudo.

Agradecimentos
Ao meu bispo, meu eterno mestre,

DOM FERNANDO ANTÔNIO FIGUEIREDO


Aos meus inspiradores,

TIA LAURA

MONSENHOR JONAS ABIB

Ao meu irmão querido,

GABRIEL CHALITA

Sumário






Prefácio, por Gabriel Chalita

4




Introdução

9

1

O Verbo divino

15

2

As bodas de Caná

20

3

A samaritana

25

4

Multiplicação dos pães

30

5

A Mulher adúltera

34

6

O Bom Pastor

38

7

Ressurreição de Lázaro

42

8

Jesus lava os pés de seus discípulos

48

9

Amor fraterno

54

10

Crucificação

60

11

Aparição aos discípulos

69

12

Profissão de amor de Pedro

75


Prefácio

Ágape é amor incondicional, o amor generoso, o amor sem limites; puro, livre!

Estamos acostumados a viver em um mundo em que as pessoas agem na expectativa de reciprocidade. A ação traz uma reação. Infelizmente, não se encontra sabor em relações desinteressadas. A suposta amizade vive de expectativas.

O que o outro pode me proporcionar?

Que ganho haverei de ter ao ir a tal evento?

Quem é fulano?

O que ele faz?

É filho de quem?

Tempos em que os adornos valem mais do que o essencial. Tristes tempos. As amizades interesseiras têm prazo de validade. As relações são inconsistentes. É comum, em um círculo de amigos, cada qual falar de si mesmo como um hobby. Uma geração narcisista. O pronome mais utilizado é o de primeira pessoa: "eu”. Tristes tempos, repito.

Tempos de escassez de atitudes de misericórdia - descartar uma pessoa é mais fácil do que se desfazer de um objeto de estimação. Falta estima pelo ser humano. Vivemos em uma sociedade em que o consumo coisifica a pessoa. Quanto mais se tem, mais se deseja e, quando não se tem, o desejo também faz questão de ficar.

Falta um sonho de vida e sobram angústias pelas ausências desse sonho.

Conheci mais de perto Padre Marcelo Rossi e Dom Fernando Figueiredo quando eu era secretário de Estado da Educação e pedi que celebrassem missas nas unidades da antiga FEBEM de São Paulo. Esses homens de Deus imediatamente aceitaram e, com ternura, levaram Ágape àqueles meninos e meninas. Não se preocuparam com o passado errante, ao contrário, falaram de sonho, de acolhimento, de um Homem que marcou e marca a humanidade por sua capacidade de amar aqueles que não seriam escolhidos, nos padrões utilitaristas, para ser amados. Naquelas celebrações, passei a admirar ainda mais a missão de um bispo e de um padre no meio de ovelhas tão feridas.

Fiquei honrado pelo convite de prefaciar este livro. Primeiro, por ter um carinho de irmão por Padre Marcelo e, depois, pela atualidade, leveza e profundidade de seus escritos.

É preciso apresentar o Amor Ágape. Faz bem para a alma de qualquer pessoa. Não podemos permitir que os erros vençam os acertos, que a superficialidade ocupe mais espaço que a densidade do mundo intrapessoal e inter-relacional. É preciso resgatar os valores que nos conduzem à felicidade. E de maneira simples e profunda, como é a Palavra de Deus.

O livro faz uma bela reflexão sobre alguns trechos do Evangelho de São João. O apóstolo João escreve com profundidade sobre a vida de Jesus. Seu estilo é mais contemplativo, mais intuitivo. Usa as metáforas com conhecimento semântico e estilístico. Mergulha nos fatos não apenas para narrá-los, mas para que participemos deles.

O primeiro trecho escolhido é a abertura solene do Evangelho de São João. Traz o evangelista o embate entre a luz e as trevas. A Luz, o Verbo, é Deus, Criador do Universo, Ágape. Livre. Amor gratuito. Ágape, amor restaurador, salvador, santificador. Luz e trevas - o Verbo ilumina os homens que são convidados, como João Batista, a iluminar.

As bodas de Caná, milagre que não se encontra nos relatos de outros evangelistas, traz uma linda reflexão sobre a importância de Maria e sua missão de cuidar daquilo que nos falta.

Maria é a mulher atenta às angústias de seus filhos. Seu olhar não é superficial, sua presença não é a de uma convidada despreocupada com os festejos. Maria se faz presente para que nada falte à festa. E, dando continuidade ao que nos revela o seu encontro com o anjo Gabriel e com sua prima, Isabel, Maria dizia com o silêncio. Falava apenas quando inspirada pelo espírito de amor. Como no Magnificat, no capítulo primeiro do Evangelho de São Lucas:

46 E Maria disse: Minha alma glorifica ao Senhor, 47 meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador, 48 porque olhou para sua pobre serva. Por isto, desde agora, me proclamarão bem-aventurada todas as gerações, 49 porque realizou em mim maravilhas aquele que é poderoso e cujo nome é Santo. 50 Sua misericórdia se estende, de geração em geração, sobre os que o temem. 51 Manifestou poder do seu braço: desconcertou os corações dos soberbos. 52 Derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes. 53 Saciou de bens os indigentes e despediu de mãos vazias os ricos. 54 Acolheu a Israel, seu servo, lembrado da sua misericórdia, 55 conforme prometera a nossos pais, em favor de Abraão e sua posteridade, para sempre.
Que bela expressão: "desconcertou os corações dos soberbos"!

O Magnificat é o canto inspirado na gratidão a Deus pela sua ação Ágape. É Deus amando, cuidando dos seus filhos.

"Sua misericórdia se estende, de geração em geração”. Misericórdia é Ágape. Coração com coração.

Misericórdia teve Jesus com a samaritana, a estrangeira a quem se revela; com os irmãos seus que não tinham o que comer, na multiplicação dos pães; com a mulher adúltera. Era Jesus e os soberbos, os preconceituosos, os que estavam ávidos por um julgamento hipócrita. A expressão desconcertante foi: "Quem de vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra”.

É Jesus o Bom Pastor. São João resgata o conceito bíblico presente no Livro Primeiro de Samuel em que Davi se apresenta para enfrentar o filisteu Golias.

Davi era um menino, jovem, loiro e de delicado aspecto (cf. 1Sm 17,42). O rei Saul não acreditava ser possível um menino, que era apenas um pastor, ser capaz de enfrentar um gigante, um homem de guerra desde sempre, como Golias. E Davi insiste, explicando que quando apascentava as ovelhas do seu pai e surgia um urso ou um leão ele era capaz de vencer e matar, se necessário fosse, para defender as suas ovelhas (cf. 1Sm 17,34-37).

O Bom Pastor cuida de suas ovelhas. Jesus nos convida a sermos cuidados e a cuidar simultaneamente. Somos ovelha e pastor. Somos pastor e ovelha. Cuidamos do outro e nos permitimos a ação generosa do cuidar.

As passagens continuam e Padre Marcelo escolhe a Ressurreição de Lázaro para nos falar da fé e das perdas; o lava-pés para nos falar da humildade. Jesus, Senhor, faz-se servidor. O líder é o que serve. Serve a uma causa, a causa do amor. Serve a um povo, o povo escolhido. Todos nós.

E vem o maior de todos os mandamentos: "Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros, como eu vos amo”.

Aqui se resume toda a Lei e todos os profetas. Ágape. Jesus veio ao mundo para ensinar a amar e para religar o amor dos filhos com o Pai. A Crucificação e a Ressurreição atestam a vida vencendo a morte. Diante de Pedro, Jesus volta ao tema do amor e pede ao discípulo que revelou que o amava: "Apascenta as minhas ovelhas”.

Há aspectos que nos servem de referenciais no livro. O autor nos traz testemunhos de vida que iluminaram e iluminam o mundo com o Amor Ágape: Madre Teresa de Calcutá, Irmã Dulce e Zilda Arns. Santos que amaram incondicionalmente como São Francisco, Santa Teresa de Ávila, São João da Cruz, São João Maria Vianey, Santa Terezinha do Menino Jesus, São Benedito e tantos outros. Amores concretos. Oração e ação. Que bela a oração de Santo Tomás de Aquino nos ensinando a viver a ética cotidiana.

O autor nos remete à Encíclica do Papa Bento XVI, que nos apresenta a Caridade na Verdade e nos convida a cuidar da "pessoa humana toda" e de "todas as pessoas”.

Todos os capítulos terminam com uma oração. A oração que é a força que nos comove e nos move para a ação.

Voltemos ao início deste singelo prefácio. Este livro é uma resposta amorosa a uma parte significativa da sociedade que desconhece a essência da natureza humana: a bondade.

A bondade é filha do amor. Ágape gera a bondade. A bondade é o amor em ação.

O convite que Padre Marcelo nos faz com este livro é exatamente este: que sejamos bons! Que a leitura de trechos da vida de Jesus nos ajude a compreender melhor esse Homem extraordinário que foi capaz de superar a lei e apresentar a razão da própria lei: a pessoa humana. Jesus surpreendeu e surpreende. Seu olhar apaixonante nos impulsiona a desacreditar de teses que nos apresentam um mundo mesquinho, materialista, egoico.

O mal não pode vencer o bem. Se as atrocidades nos incomodam, se a banalização da violência nos assusta, é preciso ir além. Além do que os nossos olhos podem ver, além do que os nossos sentidos podem captar. É preciso ir além e chegar ao recôndito do nosso coração onde só a linguagem da alma, dos sentimentos, da simplicidade e da fé é capaz de alcançar.
Ágape.

Boa leitura.

Boa ação!
GABRIEL CHALITA

É escritor e doutor em Filosofia do Direito

e em Comunicação e Semiótica

Introdução
Ágape é uma palavra de origem grega que significa o amor divino. O amor de Deus pelos seus filhos. E ainda o amor que as pessoas sentem umas pelas outras inspiradas por esse amor divino.

Deus é amor. A criação do mundo e do homem é um ato contínuo de amor. Ë por isso que o profeta Isaías traz esta revelação tão essencial:


4 Porque és precioso a meus olhos, porque eu te aprecio e te amo, permuto reinos por ti, entrego nações em troca de ti. 5 Fica tranquilo, pois estou contigo, (...). (Is 43,4-5b).
A palavra de Deus nos traz essa revelação. Deus nos ama. Deus nos aprecia. Valemos mais do que reinos e nações. Aqui não se trata de pessoas que vivem em reinos e nações, mas de poder. O poder do amor de Deus por seus filhos é maior do que qualquer outra forma de poder. Uma mulher, um homem, valem mais do que o exercício de poder sobre todo um reino. Ou, em outras palavras, o poder só se justifica se tiver como preocupação central a pessoa humana. O poder não pode ter um objetivo em si mesmo. O seu objetivo tem de ser o cuidado, o respeito, a caridade para com quem mais precisa. Madre Teresa de Calcutá, a mulher plena de Amor e cheia de poder, nos ensinou em oração e ação. É seu este poema da paz:
O dia mais belo? Hoje

A coisa mais fácil? Equivocar-se

O obstáculo maior? O medo

O erro maior? Abandonar-se

A raiz de todos os males? O egoísmo

A distração mais bela? O trabalho

A pior derrota? O desalento

Os melhores professores? As crianças

A primeira necessidade? Comunicar-se

O que mais faz feliz? Ser útil aos demais

O mistério maior? A morte

O pior defeito? O mau humor

A coisa mais perigosa? A mentira

O sentimento pior? O rancor

O presente mais belo? O perdão

O mais imprescindível? O lar

A estrada mais rápida? O caminho correto

A sensação mais grata? A paz interior

O resguardo mais eficaz? O sorriso

O melhor remédio? O otimismo

A maior satisfação? O dever cumprido

A força mais potente do mundo? A fé

As pessoas mais necessárias? Os pais

A coisa mais bela de todas? O amor


O amor é a coisa mais bela de todas, porque o amor é ação. O amor é cuidado. E Deus nos ama. E o Seu amor nos dá a paz cotidiana, como diz o poema.
Voltando ao Livro de Isaías, no final do trecho vem uma palavra de consolo para todos aqueles que se angus­tiam na jornada da vida: "Fica tranquilo pois estou contigo”.

Tranquilidade é um dom de Deus. Não significa que os problemas deixarão de existir. Entretanto, é a calma necessária, o tempo como um novo nome para o amor que nos apresenta a esperança. Diante do cortejo da dor, surge a esperança. A esperança nos tranquiliza por sabermos que Deus está conosco. E está conosco porque nos ama.

O Ágape é, assim, a Revelação de Deus. É o Deus que cria porque ama. É o Deus que salva porque ama. É o Deus que santifica porque ama.

Neste livro, vou tratar o Amor Ágape inspirado em alguns trechos do Evangelho de São João. Evidentemente, toda a palavra de Deus é inspirada e inspiradora desse amor. A escolha de algumas passagens do Evangelho de São João não obedece a um critério de importância, mas apenas a um olhar para a beleza da encarnação do Filho de Deus.

Este livro não tem a preocupação de explicar com riqueza teológica o Evangelho de São João como fez Santo Agostinho em Comentário ao Evangelho de João, obra de riqueza inigualável que permanece depois de tantos séculos. Este livro tem uma intenção oracional. É um diálogo que, na condição de padre, faço com os meus filhos. O meu sacerdócio é um serviço ao Senhor. Nas celebrações eucarísticas, nos programas de rádio, nas visitas aos doen­tes, nos sacramentos que com amor realizo, tenho a humilde intenção de fazer com que as pessoas percebam o Ágape, o amor de Deus que dá significado à nossa vida.

Poderia ter escolhido o Evangelho de São Mateus ou de São Marcos ou de São Lucas. Poderia ter escolhido qualquer outro livro da Bíblia do Antigo ou do Novo Testamento. Poderia ainda, já que a escolha foi São João, ter refletido sobre suas lindas cartas. A inspiração divina capaz de nos trazer esta preciosidade que está no Capítulo 4 da Primeira Carta de São João:


7 Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus, e todo o que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. 8 Aquele que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor. 9 Nisto se manifestou o amor de Deus para conosco: em nos ter enviado ao mundo o seu Filho único, para que vivamos por ele. 10 Nisto consiste o amor: não em termos nós amado a Deus, mas em ter-nos ele amado, e enviado o seu Filho para expiar os nossos pecados. 11 Caríssimos, se Deus assim nos amou, também nós nos devemos amar uns aos outros. 12 Ninguém jamais viu a Deus. Se nos amarmos mutuamente, Deus permanece em nós e o seu amor em nós é perfeito. 13 Nisto é que conhecemos que estamos nele e ele em nós, por ele nos ter dado o seu Espírito. 14 E nós vimos e testemunhamos que o Pai enviou seu Filho como Salvador do mundo. 15 Todo aquele que proclama que Jesus é o Filho de Deus, Deus permanece nele e ele em Deus. 16 Nós conhecemos e cremos no amor que Deus tem para conosco. Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele. 17 Nisto é perfeito em nós o amor: que tenhamos confiança no dia do julgamento, pois, como ele é, assim também nós o somos neste mundo. 18 No amor não há temor. Antes, o perfeito amor lança fora o temor, porque o temor envolve castigo, e quem teme não é perfeito no amor. 19 Mas amamos, porque Deus nos amou primeiro. 20 Se alguém disser: Amo a Deus, mas odeia seu irmão, é mentiroso. Porque aquele que não ama seu irmão, a quem vê, é incapaz de amar a Deus, a quem não vê. 21 Temos de Deus este mandamento: o que amar a Deus, ame também a seu irmão. (1Jo 4,7-21).
O amor a Deus e o amor aos irmãos. É tão reveladora essa palavra! Como podemos amar a Deus, a quem não vemos, se não somos capazes de amar ao nosso irmão, a quem vemos, com quem convivemos? Não faltam razões para perceber os erros e as imperfeições dos outros. Mas diante desses erros e imperfeições é que o Amor Ágape se manifesta como prova de amor livre, sem exigências nem cobranças. Amor compreensivo. É isso que nos ensina Madre Teresa. Cada dia é um dia de servir e de cuidar do irmão. É essa a inspiração cristã de fazer com que a caridade seja a concretização do amor. Em sua mais recente Encíclica, o Santo Padre, o Papa Bento XVI, discorre sobre "o desenvolvimento humano integral na Caridade e na Verdade”. Caritas in veritate. O papa fala em cuidar da pessoa toda e de todas as pessoas. Já na introdução, ele explica o sentido da caridade para a Igreja e para o mundo. A ação pessoal e a ação interpessoal.
Todos os homens sentem o impulso interior para amar de maneira autêntica: amor e verdade nunca desaparecem de todo neles, porque é a vocação colocada por Deus no coração e na mente de cada homem. Jesus Cristo purifica e liberta das nossas carências humanas a busca do amor e da verdade e desvenda-nos, em plenitude, a iniciativa de amor e o projeto de vida verdadeira que Deus preparou para nós. Em Cristo, a Caridade na Verdade torna-se o Rosto da sua Pessoa, uma vocação a nós dirigida para amarmos os nossos irmãos na verdade do seu projeto. De fato, Ele mesmo é a verdade. (cf. Jo 14,6)

A caridade é a via mestra da doutrina social da Igreja. As diversas responsabilidades e compromissos por ela delineados derivam da caridade, que é - como ensinou Jesus - a síntese de toda a lei (cf. Mt 22,36-40). A caridade dá verdadeira substância à relação pessoal com Deus e com o próximo; é o princípio não só das microrrelações estabelecidas entre amigos, na família, no pequeno grupo, mas também nas macrorrelações, como relacionamentos sociais, econômicos, políticos. Para a Igreja - instruída pelo Evangelho -, a cari­dade é tudo porque, como ensina São João (cf. 1Jo 4,8-16) e como recordei na minha primeira Carta Encíclica, "Deus é caridade" (Deus caritas est): da caridade de Deus tudo provém, por ela tudo toma forma, para ela tudo tende. A caridade é o dom maior que Deus concedeu aos homens; é sua pro­messa e nossa esperança.


O Amor Ágape revela-se na caridade. Os numerosos doentes atendidos por Madre Teresa não tinham condição alguma de retribuir as suas ações. A maior parte das crianças cuidadas pela Dra. Zilda Arns e seu apostolado na Pastoral do Menor nunca soube quem foi essa mulher notável. Mas ela não fez sua ação querendo retribuição. São Francisco, o noivo da dona pobreza, o santo da simplicidade, deixou um legado de caridade. Ensinou que é dando que se recebe, pediu ao Senhor que pudesse levar o amor onde o ódio estivesse reinando. Qual é a recompensa de quem faz a caridade? É muito maior do que podemos imaginar. Vamos tentar refletir sobre isso nesses escritos.

O Evangelho de São João teve um processo de formação diferente dos chamados evangelhos sinópticos de São Mateus, São Marcos e São Lucas. João era chamado de o discípulo amado. Como os outros evangelhos, o de João seguiu a tradição primeira da oralidade. Sua compilação final se deu por volta do ano 100 por algum discípulo seu. A personalidade, entretanto, é toda de São João. Sua forma de ver os milagres, de falar de amor, de acompanhar os grandes feitos do mestre.

A estrutura literária é belíssima. Cada momento da vida de Jesus é descrito com uma delicadeza textual impressionante. Os sinais, os símbolos preenchem os escritos. Jesus é o Bom Pastor. Jesus é a luz do mundo. Jesus é a revelação do amor.

Que este livro nos ajude a compreender o amor de Deus e nos incentive a amar. Voltando à Epístola de São João:


20 Se alguém disser: Amo a Deus, mas odeia seu irmão, é mentiroso. Porque aquele que não ama seu irmão, a quem é incapaz de amar a Deus, a quem não vê. 21 Temos de Deus este mandamento: o que amar a Deus, ame também a seu irmão.
Que este livro nos faça conhecer mais um pouco de alguns momentos da vida de Jesus e nos incentive a ler cada vez mais a Palavra de Deus. A Bíblia é uma carta de amor que o Senhor nos enviou. E quando amamos e somos amados, é sempre bom ler, reler a carta que nos foi enviada.
A Bíblia é Ágape. É o amor escrito para que seja vivido.
Com a minha bênção,

PADRE MARCELO R0SSI



[ 1 ]

O Verbo divino
Evangelho de São João
C A P Í T U L O 1
1 No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus. 2 Ele estava no princípio junto de Deus. 3 Tudo foi feito por ele, e sem ele nada foi feito. 4 Nele havia a vida, e a vida era a luz dos homens. 5 A luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam. 6 Houve um homem, enviado por Deus, que se chamava João. 7 Este veio como testemunha, para dar testemunho da luz, afim de que todos cressem por meio dele. 8 Não era ele a luz, mas veio para dar testemunho da luz. 9 [O Verbo] era a verdadeira luz que, vindo ao mundo, ilumina todo homem. 10 Estava no mundo e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o reconheceu. 11 Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam. 12 Mas a todos aqueles que o receberam, aos que crêem no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus, 13 os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas sim de Deus. 14 E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos sua glória, a glória que o Filho único recebe do seu Pai, cheio de graça e de verdade. 15 João dá testemunho dele, e exclama: Eis aquele de quem eu disse: O que vem depois de mim é maior do que eu, porque existia antes de mim. 16 Todos nós recebemos da sua plenitude graça sobre graça. 17 Pois a lei foi dada por Moisés, a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo. 18 Ninguém jamais viu Deus. O Filho único, que está no seio do Pai, foi quem o revelou.

Esse trecho que abre o Evangelho de São João fala de forma bastante poética da criação e do mistério da salvação dos homens.

A palavra nos diz que tudo o que há no mundo foi criado por Deus. Não diz como se deu a criação. Não diz se evoluímos de alguns animais ou se houve uma explosão ou se, nas diversas eras, o andar foi se aprimorando. A essência do texto é a de que tudo o que há no mundo foi criado por Deus. Fala também da salvação. O Filho de Deus, o Verbo se fez carne e habitou entre nós. E isso acon­teceu para que pudéssemos compreender o amor e o amar. O substantivo e o verbo. O conceito e a ação!

Fala-nos de João Batista, o anunciador. Nasceu de um milagre. Filho do sacerdote Zacarias e da prima de Maria de Nazaré, Isabel. Foi o anjo Gabriel quem anunciou o feito. O casal tinha uma idade avançada e Isabel era considerada estéril. Não tinham filhos. João era a voz que ecoava no deserto. Vivia como um asceta. Sem bens. Sem preocupações materiais. Batizava no Jordão. Foi ele quem batizou o próprio Cristo.

Conta-nos o texto sobre Moisés. A Bíblia diz que Moises foi o profeta, o libertador com quem Deus falava face a face. Moisés significa "tirado das águas". Sua sobrevivência foi um milagre. Foi salvo da morte a que tinham sido condenadas todas as crianças de origem hebreia do sexo masculino pelo faraó, que tinha medo do crescimento desse povo intruso no Egito. Moisés ficou em uma cesta e foi encontrado pela filha do faraó.

Moisés foi escolhido para libertar o povo e caminhar com ele pelo deserto. Após várias negativas do faraó e das pragas que acometem o seu povo, o faraó deixa o povo ir. Depois se arrepende, mas o povo já estava diante do mar Vermelho. Moisés consegue cruzar o mar Ver­melho e conduzir o povo de Deus. Recebe as Tábuas da Lei, adverte o povo da idolatria e caminha incansável até a Terra Prometida. Moisés morre antes de entrar na nova terra. O escolhido para continuar sua missão foi Josué.

O texto do Evangelho de São João fala ainda da luz que veio ao mundo para iluminar.

E aqui vai a nossa reflexão, queridos irmãos.

O tema da luz está presente em toda a palavra de Deus. A criação do mundo e do homem é uma vitória da luz sobre as trevas. São Paulo revela que o cristão é Filho da Luz.

E o que significa ser Filho da Luz?

O sentido de trevas ou escuridão é dado àquilo que não se vê ou aquilo que não se pode ver porque envergonha. A violência, a corrupção, a mentira, o pecado nos remetem para as trevas. Um marido que espanca sua mulher ou que trai sua relação esconde a ação vergonhosa. O pai que mente para o filho ou o filho que mente para o pai não quer ser descoberto. O falso médico, o advogado mentiroso, o político desonesto, o motorista embriagado, todos de alguma maneira vivem na escuridão. A luz revela. Se há alguma sujeira na casa e as luzes estão apagadas, as pessoas não conseguem perceber a ausência do cuidado, da limpeza. Quando a luz se acende, o que era sujo começa a incomodar.

Cristo é o Filho da Luz. E os cristãos são convidados a ser os novos cristos. Portanto, todos nós somos chamados a ser Filhos da Luz.

Quem vive no escuro tem medo da luz. Quem passa alguns dias dentro de um quarto escuro com as janelas fechadas, quando entra a primeira fresta de luz, tem a sensação de cegueira de tanto que a luz incomoda. É preciso se acostumar com a luz para que os olhos enxerguem, de fato, a paisagem que antes estava escondida.

A escuridão nos remete aos erros. Não os erros que cometemos. Errar faz parte. A escuridão faz parte dos erros em cuja permanência insistimos. Há tantos erros que são facilmente percebidos, mas a nossa teimosia e comodismo nos impedem a busca de uma nova vida. E incorremos nos mesmos erros. Evidentemente, há doenças que maculam uma vida. Sei o quanto irmãos nossos, doentes do alcoolismo, tentam se livrar e não conseguem. Não julguemos. Há muitos que acusam esses irmãos de vadios, irresponsáveis, fracos. O alcoolismo é uma doença. O usuário das drogas ilícitas também vive um inferno. O inferno do vício, o inferno da escravidão. Por isso prevenir é tão importante. Quando o problema surge, é preciso paciência, perseverança e muito amor. Não se retira um filho das drogas com espancamentos nem com expulsões. Quando o vício já faz parte da vida de um jovem, é preciso mais cuidado ainda, mais amor ainda para que uma nova vida possa surgir. Uma vida iluminada.

A luz é a novidade. A paisagem só pode ser contemplada verdadeiramente sob a luz. Sem sujeiras.

Gosto daquela história das duas famílias que moravam uma em frente à outra. Todos os dias, o marido de uma das casas, ao voltar do trabalho, encontrava a esposa reparando nas roupas sujas penduradas na área da casa vizinha. Ficava indignada. Não entendia por que não as lavava adequadamente primeiro, para só depois colocá-las no varal. E dizia isso com impaciência e com a certeza de que a vizinha era descuidada e suja. Depois de algum tempo, cansado das reclamações da mulher, o marido deu uma sugestão simples e óbvia. Disse a ela que limpasse o vidro da janela da sala deles, que estava imundo, e, então, veria que não eram as roupas da vizinha que estavam sujas.

História simples com um ensinamento de grande significado. O descuido com a limpeza não era da vizinha. É fácil jogar a culpa no outro. O problema é sempre do outro. Ser Filho da Luz é iluminar a vida para que os meus problemas sejam resolvidos. Para isso é preciso assumir que eles existem. Na história, a mulher não imaginava que era a sua vidraça que estava suja. Essa é uma questão importante. A dificuldade em ver o meu problema faz com que eu não consiga solucioná-lo. O primeiro passo para levan­tar é ter a percepção da queda.

Jesus veio ao mundo, veio para os seus e os seus não O reconheceram. Faltou luz. Ágape é luz. É luz que dissipa as trevas, que dissipa a escuridão. É luz que ilumina e aquece.





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